Carmen
24 Archie
“Regina, como assim não foi você?” O silêncio da morena fez com que Victoria entrasse em estado de alerta. “Me aguarde no desembarque. Dez minutos.”
Regina sentia-se tonta. Sua visão parecia um borrão desfocado, e suas pernas relutavam em funcionar. O jogo fora tirado de suas mãos, e isso queria dizer que o Corvo iria matá-la assim que possível. Ninguém perdia a missão para outra pessoa. As pessoas desistiam, o que por si só já era demasiado perigoso. E ela duvidava muito que ele fosse ajuda-la depois de seu envolvimento com McLocksller.
Pegou o elevador. Sentia o mundo girando ao seu redor. Seu subconsciente gritava a ela que não existia outra maneira de roubar aquele cofre a não ser… Não. Ela se recusava a mentalizar aquela opção. Caminhou até a plataforma de embarque sentindo um enjoo tomar conta de si. Não demorou muito para ouvir o ronco chamativo do carro de Victoria, e ela entrou no mesmo assim que a baronesa o parou. Victoria beijou seus lábios com carinho.
“Você não parece bem, baby girl.”
“Precisamos chegar no apartamento. Rápido.”
Victoria assentiu, sem fazer outras perguntas.
***
Havia dezenas de pessoas na rua. Regina pulou do carro, os olhos atentos à multidão. Ergueu o rosto para o edifício, e notou o único apartamento em chamas. O de Robin.
Estava atravessando a multidão quando Hernandes a abordou. “Senhorita Zambrano! Eu não consegui falar com o meu patrãozinho Robin. Ele não atende o celular. O apartamento dele estava pegando fogo e o sistema anti-incêndio foi adulterado e....”
Regina não ficou para ouvir o resto. Com Victoria atrás de si e contra todas as manifestações preocupadas dos moradores, ela entrou no prédio evacuado. A fumaça ainda não havia chegado aos patamares inferiores. Victoria retirou a camisa de algodão que usava e partiu-a em dois pedaços, Regina entendeu seu raciocínio e caminhou até o lavabo, molhando-as.
Com as tiras de algodão sobre o nariz e a boca, como uma máscara improvisada, elas subiram as escadas. Lágrimas começavam a se acumular nos olhos de Regina, e não era pela ardência da fumaça. A cada passo, sua desconfiança parecia mais justificada. Mais real. Mais certeira.
Chegou ao andar do apartamento dele. Fumaça preenchia todo o espaço, dificultando a visão. Regina forçou-se a seguir em frente, escorando nas paredes. Observou o apartamento em que passara as últimas semanas sendo devorado por labaredas cada vez maiores que subiam pelas paredes. Fitou a mesinha no canto da cozinha. Caminhou até ela, chutando uma cadeira para fora do seu caminho. Não havia nada, como ela desconfiava. Os mapas, as plantas, tudo se fora. Socou o notebook com raiva. Decepcionada.
“Temos que sair daqui.” Gritou Victoria.
Regina olhou em volta. Tossiu, sentindo a fumaça entrando com sua garganta e encontrando caminho para dentro do seu corpo. Fitou o quarto e caminhou até lá, tomando cuidado para não encostar em nada. Uma porção de papéis queimava dentro de uma lixeira. Papéis que provavelmente eram importantes. Derrubou a lixeira e pegou boa parte dos papéis, apagando o fogo com suas mãos. Lágrimas escaparam dos seus olhos devido à ardência, suas palmas vermelhas e feridas. Enfiou os papéis por baixo de sua roupa, sentindo pequenas queimaduras contra sua pele.
De onde estava, observou Victoria se ajoelhando. A fumaça era densa demais para elas. Iam morrer se continuassem ali. Abraçada aos papéis, ela caminhou até Victoria e passou o braço da mesma sobre o pescoço. Cambaleantes, refizeram o caminho até a cozinha. Regina parou perto da pia, retirando o telefone do gancho.
“Você vai pedir uma pizza ou o quê? Regina!”
Regina permaneceu mais alguns segundos na linha. Soltou o telefone no ar, e voltou a segurar a amiga, guiando a mesma para o corredor. Do lado de fora, Regina mordeu os lábios e chorou. Não pela dor de seus ferimentos, mas pela certeza das suas desconfianças.
Ele a traíra.
***
Em pé na beira do lago, os três riam. Archie jogou a primeira pedra, que bateu sorrateiramente sobre a água e foi longe, quase chegando ao outro lado. Robin arremessou a sua, que mesmo com técnica, não foi longe. Emma arremessou e a pedra afundou.
Robin gargalhou. “Você é péssima nisso.”
“E você é um idiota.” Resmungou ela.
Archie riu, e caminhou até Emma. Agachou-se ao seu lado, de modo que seus olhos se alinhassem. “Você só precisa ter calma, Emma. Você não é incapaz de nada. Você é uma das garotas mais inteligentes e corajosas que já vi.” Ela sorriu, seu rosto transmitindo a felicidade que sentia ao ouvir aquilo. Robin observou em silêncio, um sorriso orgulhoso nos lábios. Archie continuou. “Só precisa achar seu ponto de equilíbrio. Não se trata de força. A pedra precisa buscar apoio na água e não contra a água. Use menos força, e tente arremessar de lado, como se ela disse raspar a água.”
“Mas pai…”
“Ele está certo, Ems. Você consegue fazer isso.” Encorajou Robin.
Ela pegou uma pedra da palma de Archie. Respirou fundo, inclinou-se e arremessou. Ela quicou uma vez e afundou. “Muito bem. Você pegou o jeito, agora é só a prática.”
Três pedras depois, ela sentiu-se mais relaxada. Pegou outra. Respirou fundo, encarando os olhos do pai. Arremessou o pedregulho que pegou velocidade e a inclinação correta e quase atingiu o outro lado do lago.
“Você conseguiu!” Comemorou Archie, correndo até ela e rodopiando a no ar. Emma riu, orgulhosa de seu novo feito. Quando o pai a colocou no chão, Robin se aproximou e bagunçou seus cabelos. “Parabéns, tampinha.”
Eles caminharam até o banco de madeira, sentando-se ali e observando-a jogar as pedras contra o lago animadamente. Fazia sol embora o tempo estivesse um pouco gelado, e o parque de Hampstead Heath ficava sempre vazio nessa época. Archie soprou o ar. “Você se lembra quando eu lhes contei sobre o meu trabalho, filho? Sobre a herança de vocês?”
“Sim, pai.”
“Eu preciso que me prometa algo.”
Robin fitou o pai, mas este fitava sua irmã. “O que quiser.”
“Se algo acontecer comigo, você precisa terminar o que comecei. É muito importante para mim.”
Robin sentiu seu coração disparar. Porque ele estava falando aquilo?
“Mas pai…”
“Você já é um homenzinho, Robin. Não se parece mais com o garoto de sete anos confuso e perdido que eu conheci naquele orfanato. Você cresceu tanto…” Archie acariciou seu rosto, e Robin podia jurar ter visto uma lágrima. “Você precisa cuidar da sua irmã. Ela vai precisar muito de você.”
“Pai, você está falando como se soubesse que algo vai acontecer.” Ele não queria parecer aterrorizado. Mas era como se sentia. Ele tinha apenas quinze anos, recebendo responsabilidades tão sérias. Não se sentia nem um pouco preparado para elas. Tudo que sentia naquele momento era medo.
“Eu estou preparando você, filho. Eu não vou estar aqui para sempre. Acredite, eu gostaria. Eu gostaria de ver o homem que você irá se tornar. Eu gostaria de ver sua irmã se formando, eu gostaria de levá-la ao altar. Mas eu sinto que eu não terei essa chance.”
Robin engoliu o choro que se acumulava em sua garganta. Não ia chorar. Seu pai lhe pedia para ser forte e era isso o que ele ia ser. “Como quiser, pai. Eu cuidarei de tudo. É uma promessa.”
***
De volta para dentro de seu carro, Victoria finalmente permitiu-se respirar. Inspirou e expirou profundamente, deixando o ar limpo e fresco substituir a fumaça. Quando recobrou totalmente os sentidos, fitou as mãos de Regina.
“For God’s sake, Regina! Suas mãos!”
Mas Regina desvencilhou-se dela. “Eu sei onde eles estão.” Victoria a fitou com os olhos arregalados. “O último número que discaram foi para o aeroporto particular de Kensington.”
Victoria não se moveu, chocada com a frieza de Regina. Sabia que ela estava sofrendo, porém naquele momento sua amiga parecia indecifrável e impenetrável. A morena olhou para ela com um semblante irritado. “Você quer que eu dirija, Smurfit?” Sua voz parecia diabolicamente glacial.
Victoria pisou fundo. Regina folheava os papéis, procurando algo que fizesse sentido. Algo que explicasse Robin McLocksller. Uma foto com as bordas queimadas levemente caiu, e Regina abriu-a. Seus olhos paralisaram nele. Robin. Parecia uma das Ilhas Maldivas, e ele vestia apenas uma bermuda. E ela. A mulher apresentada como Eleonora Salazar. O Corvo. Sentada nas costas dele, os braços abraçando seu pescoço, as pernas ao redor da cintura dele. Um casal de férias na praia.
O choro veio quente, bem quente. Lágrimas e mais lágrimas que pareciam ter gosto de sangue para ela. Ele a usara todo esse tempo. Todo o papel de bom moço apaixonado, de agente da Interpol dividido. Tudo para derrubar Carmen Sandiego — com sucesso. Tudo para encerrar o maior roubo da história europeia ao lado de sua amada e depois fugir para uma Ilha perdida no Pacífico. .
Como ela pode ser tão ingênua? De achar que ele a amaria? Sua mãe estava certa. Love is weakness, Regina. Anos de fortificação, de defesa, de autoproteção, uma carreira de fama e prestígio, e foi pelo coração que ela fora derrubada. Mordeu o lábio inferior até sentir o gosto de sangue. Voltou a fitar aquela foto através dos olhos borrados pelas lágrimas. Ele parecia genuinamente feliz, como ela vira poucas vezes. O sorriso era um dos mais espontâneos que o vira dar.
Talvez ela o fizesse feliz, mais do que Regina seria capaz de fazer. Sacudiu a cabeça, tentando afastar esses pensamentos. Seu coração estava desmoronando, sangrando por cada um de seus pedaços. Victoria puxou a foto de sua mão.
“Holy fuck. Regina…”. Chamou ela, numa voz condescendente. Sabia o que aquilo significava. Ele partira o coração de Carmen Sandiego. De uma mulher que não se permitia apaixonar-se.
“Guarde o discurso bonito.” Respondeu ela com a voz fria. Abriu o porta luvas e encontrou uma semiautomática. Empunhou-a, e então a encostou na têmpora esquerda, como que rezando.
“O que vai fazer?”
Ela riu, a tristeza escorrendo por cada centímetro de seu sorriso. “Vou fazer o que o Corvo faria. Colocar um ponto final nessa história.”
***
Robin retirou as malas do porta malas e as entregou a Leslie. Correu os olhos pelo aeroporto, o coração quebrantado. Odiava-se mais do que já odiara qualquer outro homem na face da terra. Odiara-se pelo que fizera com ela. Ela jamais o perdoaria, com certeza. Mas ele era um homem íntegro, afinal de contas.
Seu pai estava sangrando quando a equipe de seguranças o trouxe para o furgão. O outro homem estava caído entre as ferragens, uma alma perdida. Robin tremia. Emma chorava, os cabelos dourados manchados pelo sangue de seu pai. Eles não tinham preparo emocional para lidar com aquela cena. Robin acabara de completar dezesseis anos, Emma estava na metade dos seus quinze anos. Archie Hopper estava deitado no chão do furgão com uma barra de ferro cruzada em seu peito, e respirava com dificuldade. Seu sangue se espalhava sobre a superfície, e Robin sentiu no exato momento em que o sangue umedeceu seus joelhos.
“Pai, por favor! Não me deixe, por favor!”
“Você disse que ia ser forte, Robin.” Respondeu ele, com certa dificuldade. O menino se calou, fitando o homem à sua frente. Emma chorava entre soluços, a cabeça encostada nos ombros do pai. “Por favor, eu não posso te perder. Não morre, por favor.”
Emma saiu do carro, colocando os fones de ouvido. Tudo parecia completamente simples para ela. Ele perguntava-se quando é que ela endurecera daquela maneira, mas ele sabia exatamente o momento em que isso acontecera. Fora dentro daquele furgão gelado, naquela tarde acinzentada de novembro. Engoliu em seco, pensando em como Emma não pensara duas vezes em deixar Baryshnikov para trás — mesmo tendo sido a russa quem a tirou do esquadrão da Interpol.
“O que aconteceu com Henry?” Sussurrou Archie, o sangue já subindo por seus canais respiratórios.
“Ele está morto, pai. Não adiantaria tirá-lo das ferragens. Saímos antes da polícia chegar.”
O loiro chorou. Lágrimas que lhe faziam sentir um pouco mais vivo, e completamente tomado pelo remorso. Lágrimas de dor, que a princípio não faziam sentido a seus filhos tão jovens. “Henry não tinha culpa de nada.” Engasgou com seu sangue, e limpou a garganta, tentando continuar. “Ele era apenas um bom amigo, e agora está…” Ele apertou seu peito com força. “Ele está morto.”
Pegou nas mãos de Robin e puxou o garoto, aproximando-o de si. “Você precisa me prometer uma coisa, Robin. Pela minha vida. Eu imploro.”
O garoto chorava compulsivamente, acariciando os cabelos do pai. “Você vai cuidar daquela garota. A filha do Henry.” Archie respirou fundo, tentando ganhar um pouco de ar. “Ela era tudo para o meu melhor amigo, e é tudo o que posso fazer, já que ele está morto por minha culpa.”
“Eu prometo, pai. Nada irá acontecer a ela enquanto eu viver. Tudo bem?”
Archie forçou seu corpo e beijou-o sobre os olhos. “Eu amo você, Robin. Você será um grande homem.”
Emma observou Robin encostado no carro, fitando o horizonte. Sentiu um pesar queimando contra seu peito. Não deveria tê-lo pressionado. Não devia tê-lo feito desistir, principalmente da única mulher que o irmão amara por toda a vida. Mas eles tinham uma promessa a cumprir. O roubo do Tesouro Nacional era o último item da lista de Archie e eles estavam isentos de responsabilidade assim que tudo fosse finalmente resolvido. Seu pai fora veemente sobre a obrigatoriedade de cumprir os requisitos. Depois disso, Robin poderia sair — como ele almejava fazer há meses.
Eles eram adultos marcados por cicatrizes da infância. Adultos que assistiram a morte de seu pai e que tiveram que escolher uma vida de trabalho e abdicação de uma vida normal para cumprir um propósito maior. Não podiam culpar-se pela dificuldade que possuíam em confiar e se relacionar. Era uma das consequências de seu crescimento.
Archie beijou-a na testa, acariciando seu rosto. “Você é tão forte, Emma. Não se preocupe. Eu posso não estar mais ao seu redor, mas lembre-se, eu estarei sempre aqui.” Disse ele, tocando seu peito na altura do coração. “Quando precisar de mim, lembre-se que estou aqui. Basta fechar os olhos e conversar comigo.”
“Pai, eu te amo.”
“E eu amo você, meu pequeno cisne.” Ele segurou a sua mão. “Cuide do seu irmão.”
Lágrimas inundaram seus olhos no exato momento em que ela sentiu a mão dele soltando da sua e o corpo cedendo, como uma pluma de ar escapando para o espaço. Ele estava morto. Seu pai estava morto. Emma deitou-se contra o corpo gelado do pai, abraçando-o. Sentia o frio do sangue molhando sua roupa. Fechou os olhos e o abraçou, chorando em silêncio. Nunca mais amaria ninguém. Nunca mais deixaria ninguém se aproximar. Nunca mais seria pega de surpresa. Remoendo esses pensamentos, ela dormiu contra o corpo sem vida de seu pai. Acordou mais tarde nos braços de Robin, que a levou no colo até seu quarto.
Robin estava caminhando para o avião quando fitou a mira de uma arma em seu ombro. Ele parou, e procurou a fonte. Na cobertura de um dos prédios vizinhos ao aeroporto, a uma distância segura, ele podia vê-la. Armada com nada menos do que um fuzil M40, cuja mira do laser estava agora voltada para seu peito. Exatamente no centro dele. Retirou o celular do bolso e discou o número dela.
Ele observou atentamente quando ela fitou o aparelho, sabendo que era ele. Victoria estava logo atrás dela, observando o que acontecia. Ela levou o aparelho ao ouvido, aceitando a chamada.
“Atire.” Pediu ele.
“Você não me acha capaz?” Riu, mergulhada em amargura. Ouvir a voz dele só fez com que ela se sentisse ainda pior.
“Eu acho você bastante capaz, Regina. E tendo em mente o que fiz com você, eu não lhe culparia por me matar agora.”
Uma lágrima escorreu solitária sobre seu rosto e ela não se deu ao trabalho de limpar. “Eu deveria mesmo, McLocksller. Mas eu queria entender. Entender o porquê fez tudo isso. Era tudo um trabalho para você? E eu me sentindo culpada por ser Carmen Sandiego... “ Sua risada parecia triste e de fato, ela era. “Que ironia do destino.”
“Não posso me defender nesse momento. Nada que eu diga agora vai ser suficiente para você.”
“Nem agora, nem nunca.”
“Regina…”
Os olhos dela se encheram de lágrimas novamente. Ela caminhou até a arma, e colocou o olho sobre a luneta. Puxou a mira da arma para um pouco mais do quadro direito, mirando onde exatamente deveria estar o coração pulsante. “Eu não menti sobre o que eu sentia sobre você, Regina.”
“Você nunca disse nada, ia mentir sobre o quê? Eu fui uma idiota. Eu me iludi sobre você. Eu me enganei sobre você, McLocksller. Eu achei que você prestava, que você era diferente. Eu me forcei a acreditar que você valia alguma merda. Mas você foi pior que todos os outros.”
“Regina…”
“Cale a boca!” Gritou ela para o aparelho. Ele podia sentir a respiração falha, a voz tremula pelo choro. Ela estava sofrendo e a culpa era sua. “Você não me dá ordens. Vamos ver quem é mais forte e influente quando você estiver com uma bala cravejada no coração.” Ela colocou os olhos sobre a luneta e mirou o laser. “Pode correr se quiser.”
“Eu não vou correr. Se for me matar, vai ter que ser assim. No meu peito, frente a frente. Eu prefiro morrer com dignidade.”
Ela colocou o dedo sobre o gatilho. “Diga suas últimas palavras, Robin.” Seu coração acelerou, um arrepio gelado percorreu sua espinha. Sua garganta secou. Seu dedo fez uma leve pressão sobre o gatilho, e ela sentiu a bile subindo pelo seu esôfago. Fechou os olhos e encostou a cabeça no cano da arma. Não podia fazer aquilo. Suas mãos tremiam e o ar parecia querer sair de seus pulmões a todo custo. Ele havia partido seu coração. Ele a havia usado. Ele era um homem comprometido e provavelmente jamais seria seu.
E mesmo assim, ela não queria matá-lo. Ela não suportaria vê-lo morrer. Regina respirou fundo e soltou o gatilho. Quando voltou a encará-lo, ele ainda estava parado; os braços abertos e os olhos fechados, aguardando o momento em que ela colocaria fim em tudo. “Regina?” Perguntou ele, ainda sem abrir os olhos.
“O que mais você quer de mim, Robin?”
“Eu quero que me perdoe.” Ele parecia sincero, mas era mais do que ela podia ceder.
“Eu posso perdoar você pelo roubo, Robin. Foi uma traição, mas não foi a pior coisa que me fez. Não vai ser isso que vou carregar comigo.”
“Robin, precisamos ir logo!” Gritou Emma, sem sair do avião.
Regina fechou os olhos, engolindo a tempestade em seu peito. “Vá logo, Robin. Ela está esperando por você.”
“O que foi que eu lhe fiz que você pode perdoar o roubo, mas não pode me perdoar?”
“Você me fez amar você, Robin McLocksller. Você fez com que eu me apaixonasse por cada faceta sua, cada parte do seu ser, cada mania ridícula e cada característica boba — e agora eu descobri que nada disso foi meu e nem nunca será. Isto foi imperdoável." Um longo e crepitante silêncio se fez presente na linha. Depois de algum tempo, ela voltou a falar. "Eu espero que você seja feliz, Robin. Mas não irei perdoá-lo por partir meu coração."
O som das turbinas ligadas anunciava o imediatismo da decolagem. Robin ergueu o olhar e procurou-a, mas ela havia desaparecido. Carmen Sandiego havia desaparecido para sempre.
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