Carmen

25 Bolívia


Carmen Sandiego fora intimada para depor. Para a surpresa da polícia, nacional e internacional; para o deleite dos tabloides e jornalistas — ela não se recusou. Entrou pela porta da frente, acatou as orientações. Disse exatamente tudo o que sabia.

Tudo que sabia sobre a identidade do Corvo. Suas ligações, as conexões. Os hotéis. A caixa postal onde eram feitas as entregas. O único envelope que guardara. Desfez-se de tudo.

A polícia não podia culpa-la. Seu álibi era perfeito, as câmeras do aeroporto registravam sua chegada, os tickets de seu voo. Era uma mulher livre de culpa. Pagou a fiança estipulada. Assim que fora libertada de suas obrigações legais, ela partiu. Despediu-se de Victoria e partiu em uma viagem só de ida. Iria para casa.

***

Sentada em uma espreguiçadeira branca, Emma Swan bebia a terceira margarita de morango. Os cabelos estavam soltos, os fios dourados caindo sobre os ombros nus e o topo da cabeça coberto por um grande chapéu de palha. Vestia um biquíni ousado, sem alças. O sol da Bolívia era formidável.

Robin caminhou até ela fitando uma das piscinas. Desenhadas em padrões circulares entre azul escuro e um azul mais cintilante, a água no mesmo nível do deque e sprinters que vez por outra garantiam um espetáculo visual no qual ele não estava nem um pouco interessado. Ele parecia extremamente abatido. Os olhos fundos, as olheiras escuras e a barba não feita denunciavam bastante e adicionado ao cabelo desleixado, o resultado era assustador. Fazia calor e ele vestia uma camiseta preta e jeans.

“Você nem parece que está de férias.” Brincou ela.

“Eu não estou de férias.” Resmungou ele, sentando-se ao seu lado. Emma observou em silêncio a postura dele. Robin parecia triste. Ele havia se arrastado para dentro do avião e desde então não demonstrara nada a não ser sua insatisfação. Por causa da garota. Mordeu o lábio, os olhos fitando a água serena da piscina. O que seu irmão sentia por aquela mulher…. Será que algum dia alguém se sentiria assim por ela?

Talvez fosse o peso de tanta tequila em sua corrente sanguínea. Talvez fosse a leveza do descanso depois de ter encerrado uma promessa feita há vinte anos. Seu coração vibrou pesadamente. O que ela havia feito? Por que ela fora tão insensível com ele — e pior ainda — por que ele permitira? Você é a única família que ele tem, Emma. Ele não lhe diria não.

Sentiu-se, de repente, extremamente culpada. Lembrou-se das palavras do pai, minutos antes de morrer. Cuide do seu irmão. E ela fizera exatamente o contrário. Pressionara Robin até perder a única mulher que amou em toda a sua vida. “Você está preocupado com ela?” Questionou, e os olhos azuis encontraram os seus. Ele sorriu sem emoção.

“Não tenho mais motivos para me preocupar, não é? De qualquer forma, ela jamais me perdoará. Vou me certificar que esteja segura, mas não vou mais incomodar. Eu já a machuquei o suficiente.” Ele levantou-se e colocou as mãos nos bolsos frontais do jeans que usava.

“Beba alguma coisa. Você está enfiado há dias dentro do seu quarto.”

“E você está bebendo desde que chegamos. Até que ponto eu devo considerar isso como uma comemoração e não como uma fuga, Emma?”

“É isso que eu ganho tentando ser legal.” Zombou ela. Mas ele apenas a encarou, e entreabriu os lábios como quem iria responder, mas se calou. Levantou-se devagar e a fitou, alguns segundos de indecisão antes de dar sua palavra.

“Estarei no meu quarto se precisar de mim.”

Emma observou enquanto ele se afastava. Não estava certo. Nada daquilo estava. Seu irmão não fizera nada a não ser tentar de todos os modos mantê-la a salvo. Emma era culpada. Culpada de seu ciúme da única família que restara. Culpada de ter sabotado Carmen Sandiego em umas missões e quase matá-la, mesmo sabendo que Robin se afastaria dela depois disto. Uma atitude mesquinha, que se repetiu por anos e anos.

Ela havia se tornado uma pessoa tão fria e insensível que nada parecia com a garota que Archie Hopper chamava de pequeno cisne, quando no fundo — queria apenas ser alguém merecedora do respeito de seu pai. Fechou os olhos e encostou a cabeça na espreguiçadeira. Male veio à sua mente, com seus olhos claros e o sorriso doce. Neal, com sua ingenuidade e carinho descomedidos. Uma imagem de Robin, ainda garoto, comprando para ela o vestido mais bonito que ela já vira e levando-a para o baile da escola, apenas para se certificar que ela não ficasse sozinha. Ela sabia que precisava consertar as coisas, não por eles, mas por si. Precisava se lembrar de quem ela fora um dia. De que havia uma alma esquecida em algum lugar dentro dela

****

Bateu na porta. Ele não respondeu, e ela respirou lenta e profundamente antes de entrar no quarto. Adentrou ao luxo, os pés descalços sobre o carpete felpudo. A suíte presidencial do Los Tajibos nada deixava a desejar. Móveis coloquiais de madeira esculpida criavam um contraste visualmente agradável quando colocado sobre o porcelanato claro de alguns cômodos, e os tecidos macios e viscosos das roupas de cama apenas mantinham o ar da nobreza. Uma suíte enorme, possivelmente do mesmo tamanho que a dela. Notou sutis diferenças nos papéis de parede, algo em questão do desenho padronizado, mas não deu muita importância. As luminárias revestidas de um material dourado criavam luz no cômodo. Passou pela sala de estar e ao atravessar a porta branca de vidros vazados, percebeu a belíssima cama king-size. Robin estava na sacada, e de onde estava só podia ver sua lombar curvada. Ela reparou no caimento da cortina e repensou se o quarto dela também era assim? Talvez ela realmente estivesse um pouco mais do que deveria. Aproximou-se dele e estando perto o suficiente notou o copo de uísque em sua mão. Pela marca da bebida na borda concluiu que ele havia bebido metade do mesmo.

“Se veio aqui para me fazer sentir pior do que já estou… prefiro que saia.”

“Eu só quero entender.” Falou ela, o tom de voz calmo e ameno que somente seu irmão conseguia extrair dela. Robin continuava olhando para o jardim, embora parecesse desinteressado na beleza esplêndida da natureza – que definitivamente era bem cuidado. Não havia uma folha sequer fora do lugar. “Por que ela é tão importante? Por que abrir mão de tudo por ela?”

“Eu a amo, Emma. E o amor, apenas por ser o que é já vale a pena. Porque quando amamos alguém assim o mundo todo perde o interesse a não ser que você tenha essa pessoa para partilha-lo com você. Porque o amor nos acovarda e viramos reféns do medo de perder essa pessoa e quando perdemos, nos tornamos reféns dos arrependimentos e da mágoa. Do remorso de ter feito diferente.”

Emma tirou o copo da mão dele e bebeu um gole que desceu queimando por sua garganta e fez seus olhos lacrimejarem. O teor alcoólico das bebidas nesse país deveria ser reavaliado. “Eu não entendo. Se é algo que causa tanta dor…”

“Mas é a dor que nos torna humanos, Emma. A sensação inebriante de amar outro ser humano com todas as suas imperfeições e características sem nada em troca, sem sequer saber se seremos correspondidos, isso... supera qualquer sofrimento que existe. O amor nos faz ver os defeitos e as qualidades do outro e ainda assim, nós defendemos cada pequeno detalhe que constitui essa pessoa – nós vemos o resultado como um todo, e o amamos. O amor nos faz viver o que o outro vive. Cada sorriso, cada lágrima, cada brilho nos olhos — é tudo a respeito de cuidar de alguém, de fazer essa pessoa completa sem que ela necessite ser sua. De sua felicidade, mesmo que não estejamos incluídos. Mesmo que envolva ter a maturidade de admitir que não somos bons o suficiente para fazer alguém feliz.”

“Você é bom o suficiente para ela.”

“Eu não sou. Eu tentei ser, mas ficou claro que ela ficará melhor sem mim.”

“Robin!” O rosto de Emma começou a queimar. Possivelmente aquele uísque era mais forte do que ela imaginava. “Se tem alguém que estragou tudo aqui, foi eu e não você. Tudo o que faz é pensando nela e eu confesso que isso sempre me irritou. Mas eu… Eu realmente amo a Male. E o que eu fiz? Eu a traí, eu a roubei, eu a usei para fugir. Porque eu tive medo de aceitar o que eu sinto por ela. Tive medo de que ama-la demais fosse me enfraquecer. Eu fui covarde. Você tem razão — a dor nos torna humanos. E nessa tentativa de evitar todo tipo de dor que eu me tornei uma pessoa tão fria. Um ser humano robotizado pela lógica e pela razão.”

Ele sorriu. “Eu sempre soube que você a amava.”

“Por que não disse nada?”

“Eu não sou seu pai, Emma. Sou seu irmão. Não tenho direito de me meter na sua vida ou em como quer vive-la.”

“Mas eu me meti na sua. Eu quase a machuquei.”

“Eu sei.” O semblante dele fechou-se por algum tempo. “E naquele momento você me desapontou muito. Mas eu entendi o seu medo. Eu jamais vou trocar você por ela. Você sempre será minha irmã mais nova. Mas ela nunca deixará de ser…” Ele brincou com o copo, tentando achar a palavra que nunca apareceu. “O que quer que ela seja.”

“Você não vai contar a verdade a ela?”

“Não faz nenhuma diferença, Ems. Não ficaremos juntos – ela me odeia. Se eu aparecer na frente dela, é possível que ela me dê um tiro ou algo assim. Não posso sequer culpa-la por isso.”

Emma riu. “Vocês foram feitos um para o outro. Só um idiota não vê isso.”

“Você não via isso.”

“Eu sou uma idiota.”

“Finalmente concordamos em algo.” Zombou ele, e Emma deu um soco na altura das suas costelas, porém sem muita força.

“Existe uma lenda antiga, oriental, que fala sobre um fio vermelho que conecta as almas destinadas a se encontrar. Diz essa lenda que o fio estende e enrola, mas nunca se rompe. Que quanto menor a distância entre essas duas almas, mais felizes elas se sentem e que quanto mais longe, mais tristes e perdidas. Eu não sou exatamente crédula nesse tipo de coisa, mas… Vocês estão conectados, Robin. E sabe disso. A vida de vocês vem se cruzando a tanto tempo, que é impossível ser apenas uma coincidência.”

“É isso que você fica lendo enquanto finge estar trabalhando?”

“Me respeite, McLocksller.”

Emma limpou a garganta e tirou um papel do bolso. Robin fitou-a, confuso. “O que é isso?”

“Eu acho que chegamos a um ponto em que não temos mais escolha a não ser enfrentarmos nossos demônios e fantasmas, Robbie. A missão dada por nosso pai acabou. Você queria sair, e agora está livre. Mas você tem outra missão, apenas sua e eu não posso te ajudar. Você tem que fazer isso sozinho.”

Ela entrou o papel e ele o abriu, se deparando com números escritos em um padrão específico.

“Isso é....”

“As coordenadas da ilha. Você precisa contar toda a verdade a ela. Você merece algo, mesmo que seja um desfecho e ela merece saber.”

“E você? O que vai fazer? Quantos dias mais acha que seus fígados irão aguentar?

“Eu tenho negócios a resolver em Moscou.” Robin sorriu e a puxou para um abraço. Ele apertou-a contra si, sorrindo. “Eu não acredito que está fazendo isso por mim, tampinha.” Beijou o topo dos cabelos loiros.

“Considere como um pedido de desculpas. Eu não fazia ideia do quão longe eu também fui pelo Corvo. Eu não fazia ideia de que ela era tão importante para você. Quer dizer, eu acho que sempre soube... Mas eu não queria aceitar. Eu tinha medo que ela o afastaria de mim.”

“O importante não é se caímos ou não, se erramos ou não, mas se erguemos nossa cabeça e seguimos em frente. Acho que é hora de deixarmos ele descansar em paz e vivermos nossa própria vida. Acho que ele também ia querer isso para nós.”

Emma o abraçou forte, deitando a cabeça em seu peito e relembrando o perfume que a fazia sentir-se em casa.

***


Gold entrou na sala de Robin, e caminhou até o armário de bebidas. Tinha bebido todos os seus uísques. Riu. Ao menos para um bom paladar ele servia. Um imprestável funcionário que ele havia diminuído na frente da imprensa faminta de Westminster e que agora estava viajando pelo mundo cheio do dinheiro e com a loira a tiracolo. Mas algo não fazia sentido algum. Ao rever as câmeras, não lhe parecia que a relação deles era romântica. Nada indicava um laço mais estreito, algo entre luxúria e desejo. Era um mistério que ele demoraria algum tempo para resolver.

Caminhou até a mesa. Havia diversos processos atrasados, denunciando a quanto tempo McLocksller não estava se importando com questões burocráticas. Uma garrafa de vinho nova estava sobre a mesa, envolta em um laço verde majestoso. Um cartão dourado estava posto por baixo da mesma. Robin deveria ser um homem muito talentoso entre quatro paredes – não lhe faltavam admiradoras. Seus olhos brilharam de ódio ao lembrar-se de que Belle – em algum momento – fizera parte da contagem. Jogou o envelope dourado na lixeira ao lado da mesa. Caminhou sem pressa até o quadro, cujas fotos permaneciam conectadas com fios vermelhos. Os mapas, também marcados com xis vermelhos. Riu da confusão visual que isso formava. Ele não tinha técnica nenhuma, era surpreendente que conseguisse gerar tantas equipes. O velho balançou a cabeça negativamente. Um homem cuja inteligência era inestimável, assim como foi também a fragilidade de seu coração. Apaixonar-se por Carmen Sandiego não era um crime. Olhando a mulher de cima a baixo, o corpo escultural, a voz firme e rouca, todas as características elegantes e sofisticadas – o resultado final chegava a ser um jogo injusto e desigual. Mas eles eram homens treinados. Eles possuíam um código de conduta.

Sabia desde o começo que a obsessão do rapaz não era saudável, mas a alimentou, dia e noite. Precisava da obstinação. Precisava da cegueira induzida, pois sem perceber Robin o levaria à Archie Hopper. Archie Hopper tinha alguma ligação com Carmen, e Gold precisava descobrir qual era. Precisava descobrir onde Archie estava. O Corvo estava vivo, não estava? Uma pessoa viva não tem a habilidade de simplesmente desaparecer do planeta, e neste caso, Gold o encontraria e terminaria o que começou.

Gold preencheu um copo com o licor dourado da garrafa. Robin não iria se importar. Ele poderia comprar uma dúzia de garrafas como essa apenas para o café da manhã. Fitou as vidraças grandes e brilhantes do escritório. Talvez eu deva ficar com este escritório. Parece muito mais a minha cara. Um sorriso diabólico nasceu em seus lábios. Ele levou o copo aos lábios e bebeu um longo gole. O gosto parecia amargo, e ele virou o copo contra os lábios mais uma vez. Seus olhos arregalaram-se repentinamente, e uma dor aguda fez com que o copo caísse de sua mão, molhando o seu dorso com o líquido. A dor de milhares de agulhadas perfurava seu tórax e ele sentiu sua traqueia fechando-se involuntariamente. Tentou gritar, mas estava sem forças. Seu corpo todo se contraiu, e ele caiu no chão, espasmos violentos sacudindo seu corpo. A queda fez com que a lixeira tombasse e tudo se espalhasse, até que seus olhos capturaram o envelope dourado.

Sentindo um liquido quente subindo pela sua garganta, Gold alcançou o cartão. Sua cabeça doía como nunca jamais ele havia sentido qualquer outra dor. Como se um peso gigante estivesse sendo lançado contra ela. Ele abriu o envelope com bastante dificuldade. Seus olhos estavam embaçados e ele precisou forçar-se para ler o que estava escrito. Quando finalmente distinguiu as letras e leu a sentença, ele entendeu o que estava acontecendo. Seu corpo alavancou em convulsões violentas e segundos depois, a respiração cessou, junto com o montante de sangue que esvaiu por seus lábios.

Em seus dedos, o pequeno cartão ensanguentado com uma caligrafia feminina e muito bem desenhada.

A dívida foi quitada, Eugene Gold.

In memoriam of Archie Hopper.