Captura em Le Cap

15 Shay - Verdade Absoluta


Notas iniciais
E finalmente! Em primeiro lugar, me desculpem pela demora. Não pude escrever nas últimas semanas porque a faculdade andou me segurando bastante nesse fim de semestre, e depois ainda tive que passar um tempo com a minha família. Mas cá estou de férias, livre, leve e solto! O capítulo de hoje, assim como o anterior, está um pouquinho grande e, assim como o anterior, era pra ser ainda maior. Mas que seja, espero que gostem de ler este capítulo tanto quanto eu gosto de escrever esta fanfic :) .

Sexta-feira

O refém falou. Temos nossas respostas enfim. Encontrem-me na base militar da cidade o mais cedo possível. Que o Pai da Compreensão nos guie. – X.”. A carta que um garoto de dez anos entregou a Shay no meio da tarde vinha com o selo do Rito Templário carimbado em seu interior, uma prova de sua autenticidade. O remetente, X, era obviamente o Mestre Olatunde Xavier. Shay e Gist haviam passado tempo o suficiente em Cap-Français para saber onde era o local. Armaram-se cada um com espada e pistolas e dirigiram-se à base do Exército Francês em Le Cap. Ao chegar lá, foram cumprimentados por um soldado, que estava presente na fazenda de Duvalier dois dias antes e que reconheceu os Templários. Ele os levou a Olatunde Xavier, que se encontrava em frente a uma mesa, acompanhado pelo tenente que liderara a retaliação ao ataque dos Assassinos.

—Xavier! – saudou Christopher assim que viu o colega Templário – Quais são as novas, rapaz?

—São ótimas, Mestre Gist! – havia um sorriso no rosto de Olatunde – Ótimas!

Shay comentou:

—Onde está o Mestre Duvalier?

—Ele teve uma recaída de sua doença. Estava se sentindo mal e precisará passar um tempo deitado em sua cama. – ainda sorrindo, adicionou: — Mas isso não é contratempo para nós! Ele já deixou suas ordens, e hoje cortaremos a Irmandade dos Assassinos pela raiz!

—Então presumo que já saibamos onde Mackandal está.

—De fato, Sr. Cormac! O Assassino que interrogamos confessou tudo. Ele disse que Assassinos de toda Saint-Domingue estão no esconderijo da Irmandade, aqui em Cap-Français. Eles participarão de uma cerimônia vodu especial para promover seus recrutas a Assassinos oficiais. Sacrificarão animais para os espíritos e tudo o mais que é comum a uma cerimônia vodu. E ela acontecerá hoje à noite! O momento perfeito para ataca-los. Podemos matar Mackandal e ainda mandar uma mensagem aos outros Assassinos.

—Uma ideia maravilhosa! Qual é o local?

Xavier virou-se para a mesa, por sobre a qual se estendia um mapa da baía de Cap-Français. Ele apontou para um ponto ao sul, alguns quilômetros a leste do curso do rio Mapou.

—De acordo com o Assassino, o esconderijo da Irmandade fica nessa área.

—Se seguirmos pelo sul a oeste do rio, será fácil nos mobilizarmos para o local. – adicionou o oficial ao lado de Xavier – Mesmo assim, nós deveríamos enviar um batedor para confirmar isso. Não seria nada agradável percorrer todo esse caminho com meus soldados para descobrir que estamos no local errado, ou pior, nos ver emboscados.

—Espere um minuto. – interveio Shay – Vamos invadir o esconderijo com um exército? Pensei que queríamos apenas matar Mackandal.

—O desgraçado estará no meio do antro dos Assassinos. Temos que passar pelos aprendizes se quisermos chegar ao Mentor. Nós três nunca seríamos capazes de fazer o trabalho, e é por isso que o tenente emprestará suas tropas. Os capatazes de Duvalier também virão para ajudar.

—E não esqueçamos da nossa tripulação! –exclamou Gist – Nossa Morrigan é a chalupa mais temida de New York a Newfoundland. Nossos homens são corsários habilidosos e estarão dispostos a ajudar na batalha.

—A ajuda é muito bem-vinda... – comentou o tenente – ...mas, por mais que sejamos muitos, os seguidores de Mackandal também são. Estaremos em igualdade numérica e teremos a vantagem do efeito-surpresa, mas os Assassinos têm a vantagem de estar no lar deles. Temos que desestabilizá-los por dentro se quisermos aumentar nossas chances.

Gist ponderou.

—Assim como eles fizeram na fazenda. Infiltraram dois dos seus entre os escravos para envenenar Duvalier antes que o ataque começasse. Desestabilização!

—Será difícil infiltrar alguém lá. – disse Xavier, pensativo – Cormac, por exemplo: ele mal teria tempo de respirar antes que Mackandal o prendesse para mata-lo em frent...

Os olhos do Mestre Templário brilharam.

É isso! Shay, normalmente uma cerimônia vodu conta com o sacrifício de porcos ou galinhas para estabelecer contato com os Lwa. Mackandal ficaria imensamente animado com a ideia de um sacrifício humano! – Shay arregalou os olhos, mas continuou escutando – Se você fingir estar capturado, poderá entrar na cerimônia. Claro que você estará na fila de sacrifícios, mas, na hora certa, se libertará para que o ataque comece.

—É uma ideia arriscada. – disse o tenente. – Não podemos garantir que Mackandal leve Shay para o seu altar cerimonial. Nem que ele morra antes mesmo de encontrar o Mentor.

—Eu vou. – anunciou Christopher, sem pestanejar.

—Mestre Gist?

—Sim, também sou tecnicamente inimigo dos Assassinos. Eu posso arcar com os riscos; se por um acaso eu morrer inutilmente, a Ordem não sentiria falta de um contramestre velho como eu.

—Não, Gist. Eu tenho que ir. – disse Shay, com pesar.

O contramestre o fitou.

—Shay, meu amigo, você não precisa...

Preciso sim. – ele interrompeu – Você fica, Gist. De nós três, você é o Templário com mais experiência militar. Ou vai me dizer que as histórias do Forte Necessity eram mentira? Ajude no movimento das tropas. Você é quem tem que comandá-los, e sou eu quem tenho que atacar de perto. Fui eu quem começou a rixa com os Assassinos de Le Cap, quando matei Adéwalé. Mackandal odeia nossa Ordem, mas tem um ódio especial por mim.

Houve um silêncio entre os homens. Shay prosseguiu:

—Eu comecei isso. E sou eu quem vai terminar. Eu me fingirei de refém da Irmandade.

Os Templários o observaram.

—Admiramos a sua bravura, Sr. Cormac. – disse Olatunde – Deve ser por isso que o Grão-Mestre Kenway tem tanta confiança em você.

—Mas ainda falta um detalhe crucial. – avisou o tenente – Cormac não pode simplesmente andar até o esconderijo e se entregar. Os Assassinos certamente desconfiariam.

—Isso é claro. – comentou Christopher – Precisamos que eles pensem que Shay foi capturado por eles próprios. Capturado por um deles.

—Chegarei ao esconderijo levado por um Assassino?

—Exato! Xavier, o homem que fizemos de refém ontem... Você acha que...

—Não, ele certamente não iria colaborar. Mas temos o seu manto. Basta que alguém o vista, coloque o capuz e se passe por um dos seguidores de Mackandal.

—Devemos lembrar que capuzes não escondem cor de pele. O último Assassino branco desta ilha deve ter sido morto muito tempo atrás pelas práticas preconceituosas de Mackandal. Nosso infiltrado precisa ser negro, necessariamente.

Shay, Gist e o tenente, ao mesmo tempo, fitaram Olatunde Xavier com um olhar sugestivo. Assim que ele percebeu o que queriam dizer, sorriu e anunciou:

—Cavalheiros, parece que temos um plano!

Algumas horas depois, Shay Cormac andava trôpego pela densa selva que rodeava os limites de Cap-Français. Estava completamente desarmado, andava curvado e com as mãos atadas atrás de suas costas. A corda que o prendia, no entanto, não fora amarrada com firmeza; ele poderia livrar-se dela a qualquer momento, mas isso, é claro, arruinaria o disfarce. Atrás de Shay, andava um homem negro, vestido com um manto bege encapuzado. Quem visse de longe juraria que aquele homem era um Assassino. Entretanto, por baixo do capuz era o Templário Olatunde Xavier quem se escondia. Conforme andava, ele apontava uma pederneira para seu “refém”. Ele trazia consigo um pequeno mapa do norte de Saint-Domingue, para consultar as direções dadas pelo refém.

Quand nous arrivons, Xavier?

—Shay, pare de falar francês! – sussurrou Olatunde, em inglês – Os Assassinos podem estar por perto, e quanto menos eles ouvirem, melhor.

—Como assim? – perguntou Cormac, em inglês enfim.

—Eles estão acostumados a falar francês ou crioulo. Se falarmos a língua do Rei George, é mais improvável que ouçam nossa conversa.

—Entendo. Mas, afinal, estamos chegando? – ele perguntou, impaciente.

—Sim. Creio que há menos de meio quilômetro até lá.

Não foi necessário andar meio quilômetro. Poucos minutos depois, foram abordados por dois homens negros altos, com vestes de Assassinos. Aparentemente, não tiveram problema em acreditar que Olatunde era membro da Irmandade.

Kanpe! – exclamou um deles. Ele prosseguiu logo após, em francês – Assassino, quem é este homem? O que este... branco está fazendo aqui?

—Este homem... – começou Xavier, hesitante – ...é um refém. Um traidor da Ordem dos Assassinos e agora um Cavaleiro Templário. Trouxe ele até aqui a pedidos do Mentor.

O outro homem fitou Shay, que respondeu com um olhar austero. O Assassino comentou:

—Sim... Já ouvi falar de você, Templário. Pensei que estava morto... Mas não importa. Traição à Irmandade. Crime punido com morte.

—Ora, então o que você está esperando para mata-lo? – disse o primeiro, desconfiado, enquanto ejetava uma lâmina oculta.

Não! – exclamou Xavier. Ele temia haver soado tenso demais, mas prosseguiu: – O... Mentor já tem planos para ele. Ele diz que quer sacrificar o Templário durante a cerimônia, como um presente aos Lwa.

Os Assassinos ainda aparentavam céticos. O primeiro deles advertiu a Olatunde:

—Seu manto me é familiar, mas não reconheço seu rosto, Assassino. Qual é o seu nome e porque nunca lhe vi por aqui?

Ele engoliu em seco, mas logo inventou uma mentira.

—Meu nome é Lekan. E faz tempos desde minha última visita a Cap-Français. Eu vim de Port-de-Paix com nossos recrutas para a cerimônia de iniciação.

—Mesmo? Tenho amigos na base em Port-de-Paix! Qual Mestre foi o seu treinador lá?

Xavier hesitou, sem saber como responder àquilo. Sem fazer a menor ideia de quem era o líder dos Assassinos na cidade de Port-de-Paix, ele preparava-se para dar uma desculpa qualquer. Para a sua sorte, o outro Assassino, ainda intrigado com a presença de Shay, mudou o assunto da discussão.

—Um sacrifício humano... Que coisa mais esdrúxula...

—Bem, esta é uma ocasião especial. Mackandal quer celebrar com um sacrifício especial.

—Ainda assim... – o Assassino rebateu – ...isso não parece muito correto.

O outro Assassino interferiu.

—Bem, Alphonse, ele é um branco e um Templário. Estaríamos fazendo um favor a Saint-Domingue se o matássemos.

Alphonse pensou por um momento.

—Ainda assim, não ficamos sabendo de tal ordem do Mentor. Considere-se dispensado, Lekan. Eu e Folami levaremos o refém a ele imediatamente.

—Sim, mas não queremos que ele cause uma comoção entre os outros, não? – Folami comentou, enquanto tirava de sua bolsa um saco. Com ele, cobriu a cabeça de Shay. Isso certamente não agradava o Templário, que ficou com a visão borrada. Ele, no entanto, não ofereceu resistência e manteve o disfarce de refém incapacitado; limitou-se, portanto, a apenas exclamar alguns xingamentos em inglês.

Shay não pôde ver o que estava em seu caminho e nem viu aonde Olatunde fora, mas esperava que seu colega estivesse preparando a próxima fase do plano. Conforme era arrastado pelo meio do vilarejo dos Assassinos, Shay ouviu várias e várias vozes. Eram muitas pessoas, ele podia perceber; mas isso já era esperado: Assassinos de todos os cantos da ilha estavam reunidos na aldeia. O Templário apenas esperava que a superioridade numérica não atrapalhasse o plano que ele, Olatunde e Gist haviam arquitetado.

De qualquer modo, os Assassinos continuaram conduzindo Shay ao Mentor. Ele notou que havia sido levado até um casarão. Em um aposento iluminado, foi posto de joelhos. Ouviu burburinhos de Assassinos, e poucos minutos depois alguém tirou-lhe o saco da cabeça. Shay levantou a cabeça e olhou em volta. A sala era espaçosa, e uma mesa comprida se estendia por seu centro. Alphonse e Folami, os dois Assassinos que o haviam trazido, encontravam-se atrás de Shay, cada um o segurando por um braço. Carregavam em suas cinturas facões prontos para serem usados, e Alphonse, à sua esquerda, apontava uma pistola para o refém. No entanto, o que realmente importava era as três figuras à frente de Shay: o primeiro era um homem negro forte, que encarava o Templário austero e tinha uma espada na bainha; a seu lado, um segundo homem, bem mais jovem, parecia analisar o inimigo; junto deles, a inconfundível silhueta de um braço só. O Mentor em pessoa, François Mackandal. Continuava ameaçador como sempre, mas agora não podia esconder uma certa surpresa.

—Ora, ora. Então você voltou do mundo dos mortos para nos assombrar, não é, traidor? – vociferou Mackandal.

—Te assombrar é exatamente o que pretendo! – zombou Shay.

O Mentor o encarou com fúria.

Men ki jan? Eu te matei! Vi-o cair com meus próprios olhos!

—Você saiu correndo quando me finalizou. Não sabia que a pressa é inimiga da perfeição?

François aproximou-se e estapeou o Templário.

—Então que bom que não estou com pressa nenhuma agora. Mestre Dubois!

O homem austero que estava ao seu lado deu um passo à frente e sacou suas armas.

—Espada ou pistola, Mentor?

Enquanto Mackandal pensava na resposta, Folami interferiu:

—Mas eu pensei que iríamos sacrificá-lo pela noite!

Os Mestres observaram o Assassino. O tal de Dubois exclamou:

—Ki jan sa, Folami?

—O Assassino que trouxe Cormac até aqui... um tal de Lekan, de Port-de-Paix... disse que o Templário será sacrificado durante a cerimônia hoje à noite. – ele olhou para Mackandal – E disse que eram ordens suas, Mentor.

Houve um silêncio no recinto. O homem jovem foi quem enfim falou algo:

—Sacrificar um homem? Isso é permitido?

—Se “tudo é permitido”... – comentou Dubois – Mentor?

Mackandal, com um brilho nos olhos, abriu um sorriso.

—Claro. Um sacrifício. Excelente ideia! Será ótimo para variar um pouco das galinhas e bodes de sempre!

Por dentro, Shay sorriu. Mackandal havia sido convencido. Agora o plano prosseguiria para a segunda fase.

—Mentor, com todo o respeito, isso é loucura! – retrucou o jovem – Os sacrifícios de animais têm um motivo, pois eles alimentam os Lwa... Mas matar uma pessoa é... Para quê...?

—Para vingar seu pai! – Mackandal interrompeu, ríspido – Você sabe, Babatunde, o espírito dele clama por redenção! Adéwalé foi um homem excepcional, de força e convicção incomparáveis. – olhou para Cormac com desprezo – Ele viveu como um homem puro, e não mereceu a morte covarde que os Templários lhe proporcionaram. Ainda mais quando o golpe veio da lâmina de um traidor!

—Ora, seu... – Shay grunhiu, mas logo depois se calou por alguns segundos. Com pesar, prosseguiu, fitando Babatunde: – Eu estava seguindo ordens. Por anos, meu melhor amigo me contou histórias sobre o seu pai. Eu não pude deixar de admirar o homem.

—Hipócrita! – exclamou Dubois.

—O que esperava de um Templário? – adicionou Mackandal – Essa laia não consegue ver além de si mesmos. Estão muito preocupados em contemplar o próprio umbigo para entender as necessidades da raça humana.

—Não é com ódio que essas necessidades serão satisfeitas! – respondeu Shay, determinado.

—Foi com ódio que esta ilha foi tomada. Então, quando todos os outros métodos falham... – François olhou para Folami e Alphonse – Deixemos de ladainha. Vocês dois, levem o Templário para o porão e deixem-no lá até a noite! Mestre Dubois, acompanhe-os e garanta que nenhum problema ocorra. Tenho preparativos a fazer enquanto isso.

—Sim, Mentor.

—Mackandal pôs-se a sair da sala. Dubois andava até Shay enquanto dava ordens aos dois Assassinos. Babatunde, no entanto, o conteve.

—Mestre Dubois, quero falar com o Templário por um momento, se possível.

—Mas é claro, Mestre Josèphe. Apenas não o deixe tentar nada contra você.

Babatunde andou até Shay, curvou-se à sua frente e falou em uma voz não muito alta e em um tom surpreendentemente calmo:

—Meu pai era orgulhoso da causa pela qual lutava. Já chegou a me dizer que, se ele tivesse que morrer, preferiria morrer lutando pelos Assassinos. E creio que é isso o que ele fez.

—Sim. – respondeu Shay – Ele lutou até o último momento.

—Imagino. Mas, se me permite perguntar, por que você o matou? Entendo que você tinha ordens para fazê-lo, mas... Se o admirava tanto, como aceitou fazer isso?

Shay suspirou.

—Depois que eu entrei em contato com a verdade... Quando eu vi a realidade do mundo com meus próprios olhos... Eu tive que mudar. E, por mais que eu gostasse de seu pai, eu estava o tempo todo buscando a paz das nossas colônias. E a paz que a minha Ordem busca não poderia ser alcançada enquanto ele estivesse vivo. Acredite em mim, matar o seu pai... foi uma das decisões mais difíceis que já tive que tomar na vida.

Babatunde o encarou por alguns segundos, até o Templário lhe perguntar:

—Você parece calmo demais. Imaginei que estaria furioso.

—Bem, estou sim, na verdade. Mas não faria sentido descontar em você. Sei que nada que eu faça irá trazer meu pai de volta, e sei que você é apenas um condutor do mal maior contra o qual lutamos. Mas, claro, você entende que teremos de te matar em breve.

Shay esboçou um sorriso. Ele pensou que isso não aconteceria se o seu plano desse certo. E rezava a Deus para que tudo ocorresse como planejado.

—Já chega, Mestre Josèphe. Vamos, levem o refém para baixo! – ordenou Dubois.

Em um canto da sala, ele levantou um tapete, revelando o tampo de um alçapão.

Shay passou as horas seguintes num porão escuro e abafado. Continuava amarrado pelos punhos, mas poderia se livrar da corda a qualquer momento. O único problema seriam as amarras que os Assassinos haviam recém feito em seus calcanhares. Na solidão e escuridão, Shay apenas se sentou e tentou em vão tirar uma soneca.

Já era noite quando enfim alguém veio para despertá-lo. Dois Assassinos, com capuzes levantados, o levaram para fora do porão. Novamente com um saco cobrindo-lhe a cabeça, Shay teve de ouvir as piadinhas de escárnio dos Assassinos. Assim que saiu do porão, ouviu o som de música. Instrumentos de percussão compassados com um uníssono de agudas vozes femininas cantando em crioulo. A cerimônia estava prestes a começar. Conforme caminhavam ao destino, a música ficava mais alta. Shay obviamente nada enxergava, mas podia ouvir as várias vozes dos Assassinos que estavam presentes. Foi lançado de joelhos ao chão, e sentiu uma temperatura cerca de vinte metros à sua frente, provavelmente vinda de uma grande fogueira. Bem mais perto de Shay, a voz grave de François Mackandal saudou:

—Meus amigos! Maroons! Libertos! Vodouisants! Assassinos! Sejam bem-vindos todos! Todos vocês, homens e mulheres de diferentes idades, nascidos em diferentes continentes e vindos de diferentes cidades, mas todos, apesar dos obstáculos, com uma mesma coisa em comum: todos aqui são pessoas livres e seres pensantes, não importando o quanto os franceses preguem o contrário! – dúzias de vozes gritaram em aprovação. – Obrigado, meus amigos! Mas, antes de darmos início à cerimônia de iniciação deste ano, peço um minuto de silêncio para lembrarmos de um grande homem. Falo sério, parem a música. – ao falar isso, os percussionistas e as cantoras imediatamente interromperam a canção – Alguns meses atrás, um grande amigo nosso passou desta vida para o descanso eterno. Adéwalé. – Mackandal fez uma pausa – Tenho certeza de que muitos de vocês devem suas vidas a ele. Este bravo Assassino serviu à causa dos maroons por mais de vinte anos, e libertou centenas, senão milhares de pobres escravos por todas as Índias Ocidentais. Muitos de vocês não estariam aqui se não fosse por ele. Ainda estariam no cativeiro, colhendo cana, tabaco ou algodão para enriquecer seus ricos e ociosos proprietários. Estariam ainda chorando a eterna mágoa de uma raça cuja liberdade lhe foi covardemente tomada. Adéwalé, como nós, também já foi um escravo. Quando enfim fez sua própria liberdade, tornou-se um pirata em busca de riqueza. Mas ele não podia gozar de sua liberdade; não enquanto tantos outros de seus irmãos e irmãs negros ainda eram cativos. Foi por isso que ele abandonou a pirataria para tornar-se um Assassino. Ele entendia que, livres, somos fortes; mas, juntos, somos imbatíveis. Eu e ele levamos o Credo para toda a Saint-Domingue, e me orgulho de haver trabalhado com esse grande homem! Eu nunca teria levantado esta Irmandade sozinho. Mas hoje ficamos em luto por Adéwalé. Sua alma, em repouso na natureza, certamente está nos assistindo neste momento. Alguns meses atrás, pouco após completar seus 66 anos de idade, nosso amado Mestre Assassino foi vítima de um homicídio covarde. Enquanto apoiava os nossos irmãos da América do Norte, Adéwalé foi morto por um homem deveras desprezível: Shay Cormac, um traidor da Irmandade em serviço aos detestáveis Templários. Sei que estão tristes, mas aqui anuncio uma notícia feliz: o Templário portador da lâmina está aqui entre nós. Ele é nosso refém e será espectador da cerimônia hoje!

Dito isso, Mackandal tirou o saco da cabeça de Shay, revelando seu rosto branco a todos os presentes. Ao ver a comunidade de Assassinos com seus próprios olhos, Shay sentiu um frio em sua barriga. Eram muitos. A multidão estava organizada em um semicírculo em volta da fogueira. Nem todos vestiam mantos de Assassinos, então Shay supôs que nem todos haviam sido treinados pelo Credo. Isso não era tão reconfortante assim, pois não sabia se o pelotão comandado pelos Templários poderia passar por todos eles. Sem falar nas reações que os seguidores de Mackandal tiveram ao ver o rosto de Shay. Alguns lhe lançaram olhares tortos, os mais próximos lhe lançaram cuspes, mas a grande maioria gritou em felicidade por ter um Templário como refém. Mackandal, que vestia o espalhafatoso traje de um houngan acompanhado de uma boina, teve que berrar em um volume altíssimo para calar a comoção.

—Silêncio, silêncio! É óbvio que vocês, assim como eu, estão ansiosos para ver este traidor sete palmos abaixo do chão e vingar Adéwalé. Mas tudo tem sua hora! Devemos prosseguir com a cerimônia primeiro. Músicos, cantem Marasa! Era a favorita de Adéwalé. – um homem atrás de Shay e Mackandal iniciou os versos, proclamados em crioulo. A percussão e as cantoras logo o acompanharam. Mackandal retomou o discurso: – A iniciação começará agora. Todos os iniciados e seus tutores, apresentem-se!

Dito isso, vários homens sem camisa, a maioria composta por jovens, andaram para a frente e se sentaram, em grupos, em volta da fogueira. Cada grupo era acompanhado por um Assassino veterano, de capuz levantado. Entre estes estavam os dois Mestres que haviam acompanhado o Mentor mais cedo, Dubois e Babatunde. Mackandal tornava a falar, iniciando o discurso com uma evocação ao espírito Papa Legba. Os iniciados fechavam os olhos e cantarolavam junto com a música, como se esperassem entrar em uma espécie de transe. Shay não conhecia muito bem a religião vodu, mas sabia que, durante as cerimônias, era comum que alguma pessoa fosse possuída por um espírito, e era exatamente isso o que os Assassinos queriam provocar.

Enquanto Mackandal prosseguia o discurso, dois homens trouxeram um bode ao meio do pátio, e começaram a degolá-lo. Uma tigela foi posta no chão para recolher seu sangue. O animal berrava e se debatia, mas o Mentor explicava a seus seguidores que era a carne do bode que proporcionava a energia necessária para que os Lwa se manifestassem no mundo mortal.

A cerimônia prosseguiu por alguns minutos com mais evocações e cantorias. Mackandal usava ervas curiosas para realizar rituais em cada um dos iniciados. Durante tudo isso, Shay, um mero espectador, era alvo de xingamentos e cuspes esporádicos. Logo atrás dele puseram-se dois Assassinos para impedir que as pessoas tentassem agredi-lo. O Templário olhava em volta para ver os vodouisants, quando enfim viu um rosto que reconheceu: Olatunde Xavier, ainda vestido com o manto e o capuz, estava a alguns metros de distância, olhando para o colega. Ele fitou o refém e mexeu os lábios, sem emitir som algum, mas com clareza para que Shay o entendesse por leitura labial em inglês.

“Sr. Cormac, fique calmo. O nosso pelotão já está a caminho. Tudo está indo de acordo com o plano.”

“Ótimo.”— Shay respondeu com discrição; afinal, Xavier não era o único que o observava – “Você trouxe minhas armas?”

Xavier retirou de dentro do manto uma pequena caixa de madeira. Discretamente, ele a pôs no chão e chutou-a um ou dois metros para mais perto de Shay.

“Duas lâminas e duas pistolas carregadas.”— continuou Olatunde – “Pegue-as assim que eu começar a distração.”

“E vai demorar muito para isso?”

“Não. Já encontrei a reserva de pólvora deles. Alguns preparativos a mais e a confusão começará.”

O Templário assentiu com a cabeça. Olatunde se retirou, e Shay em seguida virou a cabeça ao lado oposto para disfarçar. Mexeu um pouco os pulsos, para certificar-se de que ainda poderia se soltar quando quisesse. E ele estava certo. Após ter chegado ao esconderijo com os pulsos presos, os Assassinos nem pensaram em reforçar as amarras. Eles, no entanto, haviam amarrado muito bem os pés de Shay. Isso seria um problema quando a distração começasse. Ele torcia para que mais tarde houvesse tempo suficiente para recuperar as lâminas e cortar a corda.

Poucos minutos depois, a magia do houngan Mackandal pareceu enfim fazer efeito. Um dos iniciados começou a tremer e balbuciar, em transe. O Mentor e outros homens se apressaram para atendê-lo, e iniciaram um ritual. Passou-se pouco tempo, e Mackandal começou a discursar:

—Celebremos, meus amigos! Nosso irmão, o recruta Ejikeme, está recebendo um espírito em seu corpo! Isso mostra que os Lwa, como já era de se esperar, aprovam nossa cerimônia e nossa causa. Portanto, ele será o primeiro da noite!

Uma mulher trouxe um manto de Assassino e com ele vestiu o recruta semiconsciente. Mackandal se aproximou do jovem e pintou o seu rosto com tintas brancas.

—Nada é verdade. Tudo é permitido. Ejikeme de Port-au-Prince! Eu, François Mackandal, Mentor dos Assassinos de Saint-Domingue, sob a luz dos Lwa e sob os olhos de meus seguidores, te proclamo oficialmente um membro da Irmandade dos Assassinos! – os espectadores comemoraram em alegria – A partir de agora você é um de nós. Um guardião da liberdade humana! A partir de hoje, você jura dedicar a sua vida em prol dos ideais que fazem nossa Irmandade ser tão sólida: a liberdade, a justiça e o livre-arbítrio. Seja bem-vindo... Assassino!

O recruta, ainda possuído, não parecia estar ciente de sua promoção, mas provavelmente estava feliz. O Mentor prosseguiu a cerimônia para oficializar o ingresso à Irmandade dos outros jovens. O coral da música estava ainda mais feliz do que antes. Pouco depois, Mackandal interrompeu o processo para retomar a fala:

—Certa vez um colega me perguntou se eu não estaria errado em permitir que os membros de minha Irmandade praticassem o vodu. Ele dizia que qualquer religião fecha os olhos das pessoas para as verdades do mundo, e que as crenças são um obstáculo aos nossos objetivos. Muito pelo contrário, eu lhe expliquei; o vodu não é um obstáculo, por três motivos. O primeiro é que todos têm o direito à crença, e este é um direito pelo qual nós, Assassinos, lutamos há séculos. Tudo é permitido, lembrem-se. Se o sujeito quer seguir o vodu, o cristianismo ou qualquer outra, quem somos nós para negar? Mas também devemos lembrar que nada é verdade. A religião pode fechar nossos olhos, mas apenas se deixarmos que ela feche. Aí está o segundo motivo: meus Assassinos sabem que nada nesse mundo é uma verdade absoluta, e estou certo de que eles nunca colocariam o vodu acima de nosso dever de liberdade. O terceiro motivo, e o mais importante: entender o vodu é entender o Credo. Sabemos que Bondye criou o mundo. Ele criou a tudo e a todos. Mas foi para nós que Ele deixou o mundo, não para Si. Ele não interfere em nossas vidas nem nos proporciona a salvação ou a danação. Devemos entender que não podemos contar com a autoridade d’Ele, e que nós mesmos devemos forjar nosso próprio caminho. O ser humano é responsável por suas próprias escolhas, e é ele próprio quem deve se guiar, pois não temos nenhum orientador divino. Mas temos os Lwa. Eles estão aqui para nos ajudar a entender essa realidade. E, nesse sentido, os Assassinos são os representantes dos Lwa no mundo mortal. Pois nós somos aqueles que mostram às pessoas que os caminhos não são pré-definidos, e somos nós que ajudamos cada um a construí-los. Somos aqueles que trabalham na escuridão para servir a luz. Nós somos Assassinos!

Enquanto a multidão aplaudia, Shay assistia àquilo tudo, embasbacado com a arrogância de Mackandal ao dizer que sua Irmandade era uma facção escolhida por espíritos celestes. Ele falava a todos sobre como no mundo não havia uma verdade absoluta, mas pregava a causa dos Assassinos como se fosse uma. Shay pensou em como aquele Mentor em nada diferia dos hipócritas Assassinos de Achilles, nas colônias do Norte.

O sinal que o Templário tão pacientemente aguardava para se ver livre daqueles Assassinos veio na forma de um aroma estranho. Era o cheiro de alguma coisa queimada, mas não vinha da fogueira no centro do pátio. Vinha de trás de Shay. Antes que ele pudesse olhar para trás, um grito desesperado confirmou seus pensamentos:

—Corram! Incêndio!

Notas finais
P.S.: Misturar a crença vodu com o Credo dos Assassinos foi uma experiência muito interessante pra mim; espero ter feito um bom trabalho nisso e espero não ter caído em nenhum estereótipo. Se algum dos meus leitores for seguidor de vodu, candomblé ou o que seja, perdoem-me se a minha descrição estiver muito estereotipada ou irreal. Abraços e até a próxima!