Captura em Le Cap

16 Agaté - O Primeiro da Lista


Conforme Agaté corria, gritos de raiva eram ouvidos vindos da mansão. Ou os capatazes haviam encontrado os corpos daqueles que o Assassino matara ou eles estavam vendo-o fugir; quem sabe as duas opções estivessem corretas. Agaté, entretanto, não poderia ficar e lutar. Ele tinha prioridades, e continuou correndo. Os Templários atacariam o vilarejo dos Assassinos a qualquer minuto, e Agaté pretendia estar lá e ajudar seus colegas.

Após uma longa e cansativa meia hora, ele alcançou a selva. Engoliu em seco quando viu o que o esperava por lá. Uns quinze metros à frente do Assassino, figuras vestidas de uniformes azul e cinza montavam guarda. Eram soldados franceses, e havia algumas dezenas deles. Eles deviam estar envolvidos com os Templários. De qualquer forma, Agaté concluiu que era melhor não ser visto por eles. O Assassino agachou-se e flanqueou o pelotão, distanciando-se deles enquanto andava para o vilarejo. Encontrar os outros Assassinos não seria difícil, pois a cerimônia de iniciação já havia começado, e Agaté podia ouvir de longe a cantoria e a percussão das músicas. Além disso, a voz de François Mackandal bradava um discurso para seus seguidores.

Os sons da cerimônia fizeram Agaté suspirar, lembrando que aquela teria sido a ocasião em que ele seria promovido a Mestre Assassino. Uma pena que isso não aconteceria por enquanto.

Em seu caminho, ele topou com outros soldados, escondendo-se nas sombras para passar por eles despercebido. Eles haviam realmente cercado o esconderijo assassino. Agaté precisava correr e alertar os Mestres Assassinos antes que o ataque começasse de fato.

Quando enfim chegou ao vilarejo, dirigiu-se rapidamente à cerimônia. Ela estava sendo realizada no pátio de uma clareira, no centro do vilarejo. Os Assassinos e os moradores faziam um círculo em volta de uma grande fogueira. Mais próximo à fogueira estavam os recrutas da Irmandade, sem camisa e tentando entrar em um estado de transe. Eles estavam divididos em vários grupos, separados de acordo com a cidade de onde vinham: o Mestre Claude Dubois acompanhava um grupo, dos recrutas de Cap-Français, enquanto Babatunde Josèphe representava os aprendizes de Port-au-Prince.

No canto oposto a Agaté estavam os músicos, que cantavam as canções típicas que davam som à cerimônia. À frente deles, o Mentor estava vestido com coloridos traje e boina de houngan, evocando os Lwa em seu discurso. Não muito longe dele estava uma visão que impressionou Agaté: dois Assassinos, com espadas prontas, pareciam vigiar um refém ajoelhado entre eles. O refém, no entanto, era ninguém mais ninguém menos do que o próprio Shay Cormac. Aquilo não podia ser bom. Cormac nunca teria sido capturado tão facilmente. Seria coincidência que, nas iminências de um ataque templário ao esconderijo assassino, o Templário mais talentoso das colônias do Norte estivesse bem no coração do tal esconderijo?

Agaté correria para Mackandal, mas ele estava no lado oposto da fogueira, e os outros maroons formavam uma multidão pela qual era difícil passar. O Assassino resolveu que, se não podia falar com o Mentor, falaria com todos:

Ei, todos vocês!— ele gritou – Se escondam! Os Templários estão vindo para nos atacar!

Seus gritos, no entanto, se perdiam em meio aos burburinhos da multidão, e eram solenemente ignorados. Ele continuava tentando avisar seus colegas, sem efeito. Até que uma voz conhecida pôs a mão em seu ombro.

—Agaté! – quem dizia isso era Kobina – Até que enfim! Eu soube que você vai ser promovido, que bom que chegou a tempo!

—Não, Kobina, não há tempo! Nós temos que...

—Mas por onde você esteve, Agaté? Estivemos procurando você desde ontem!

—Os Templários. Eles me fizeram de refém!

—Vrèman?

—Sim, e eu descobri que eles irão atacar o vilarejo a qualquer momento. Você precisa avisar a todos, Kobina!

O encapuzado parecia chocado.

Pa Bondye! Mas... você chegou agora, Agaté?

—Sim. Por quê?

—Um tempo atrás, eu vi um homem vestido com um manto que parecia idêntico ao seu. Mas se agora você está sem camisa...

—O meu manto? Mas eles tomaram o meu...

E então foi Agaté quem se chocou. Ele segurou o amigo em desespero.

—Kobina, diga-me: para onde foi esse homem?

—Na... Na última vez que eu o vi, ele estava indo em direção à... reserva de pólvora, eu creio.

—Então é pra lá que devo ir! – Agaté saiu correndo, não sem antes gritar para o amigo: – Avise o Mentor que iremos ser atacados!

A tal reserva não era muito longe da clareira onde a cerimônia ocorria. Era até mesmo perto demais. Chegando lá, notou que alguém havia deixado um rastro saindo da reserva. Era um rastro de pólvora, misturada a um pouco de palha e folhas secas. Nenhuma pessoa parecia notar aquilo no chão, mas Agaté seguiu a pólvora para encontrar quem a havia posto lá. Andou alguns metros para encontrar o homem de que Kobina falara: era um homem negro, e estava vestindo o manto de Agaté, com o capuz levantado.

O homem estava agachado, colocando palha em cima de um segundo rastro de pólvora. Desta vez, o rastro levava para dentro de uma pequena casa. Agaté podia ver barris estrategicamente posicionados dentro do edifício. O maldito estava preparando um incêndio.

Agaté, com adaga em punho, esgueirou-se por trás do impostor para tentar abatê-lo antes que ele pudesse acender o fogo. O inimigo, no entanto, virou-se para trás, consciente da presença de alguém. Quando os dois se olharam nos olhos, Agaté pôde reconhecer o homem: era o Templário que havia visto no dia anterior, Olatunde Xavier. Este, por sua vez, também reconheceu Agaté, com um leve espanto.

—Templário maldito! Pare o que está fazendo!

—Ora, parece que Duvalier não conseguiu manter você preso, não é? – Xavier respondeu – Mas não importa. Ele o manteve por tempo suficiente. Já é tarde demais pra você nos impedir.

Com essas palavras, Xavier retirou de sua bolsa uma pequena bombinha de estalinhos. Ele jogou-a em cima da pólvora, que logo em seguida acendeu uma faísca e iniciou um pequeno fogo. A chama então pôs-se a se mover lentamente em direção ao barril.

—Ora, seu...! – exclamou Agaté – Essas bombinhas são minhas, desgraçado! E esse manto também!

Ao ouvir isso, o Templário sacou sua espada.

—E esta arma também é sua, não é mesmo? Se quiser, posso devolvê-la... em seu pescoço!

Logo em seguida, Xavier avançou para Agaté. O Assassino sacou a adaga, mas andou em direção à pólvora, pois apagar o fogo era a prioridade. Xavier, percebendo isso, posicionou-se entre Agaté e a pólvora, empunhando a espada para bloquear seu caminho. O Assassino não teve problema em bloquear os golpes do inimigo, mas ele estava claramente em desvantagem. Num embate entre uma adaga e uma espada, Agaté era obrigado a manter uma postura defensiva. Ele apenas torcia para que algum outro Assassino visse a luta e o ajudasse, mas isso não aconteceu. O que aconteceu foi que Agaté era obrigado pelo Templário a recuar cada vez mais, e, quando tentou golpear o adversário, conseguiu apenas sofrer um corte no abdome e outro no bíceps.

—Você não desiste mesmo. – provocava Xavier – Nossas tropas já estão cercando o local, Assassino. O único modo de escapar com liberdade é pela morte. Você está pronto para aceitá-la?

—Eu aceitaria a morte a qualquer momento. Mas não agora, pelas mãos de um Templário desgraçado como você. Você nada mais é do que um negro sem orgulho, tramando contra sua própria raça.

Minha raça? – Xavier replicou, enquanto golpeava com a espada, levando Agaté para longe da chama que se propagava. – Por favor, você é um tolo se acha que as causas de uma pessoa são definidas pela cor de sua pele. Mackandal deve ter te convencido disso, mas não é verdade. As causas de uma pessoa são definidas por ideais. E você não vê o quanto os ideais de seu Mentor são corrompidos.

—Ele luta por pessoas que foram privadas de tudo o que tinham para servir a outras! Se ser dono de si mesmo é corrupção, então quero ser corrompido também!

O fogo no rastro de pólvora estava a poucos metros de distância do barril. Xavier e Agaté continuavam sua luta constante, sem que nenhum dos dois vencesse a batalha.

—É mais profundo do que isso. Uma sociedade calcada em revoltas está fadada ao caos. A sociedade perfeita é aquela cujos membros entendem seu papel, e unem forças para manter a ordem.

—Então você acha que os negros têm a servidão como destino? E por que você não está agora colhendo cana em alguma plantação?

—O escravismo puro não é minha bandeira. Eu falei da sociedade perfeita. Mas nós ainda não vivemos nessa sociedade; há muitos erros que a nossa Ordem eventualmente precisará corrigir para chegar lá, e a escravidão decerto é um deles. Mackandal, entretanto... é apenas o primeiro da lista. – Olatunde afastou-se do Assassino. A luta cessou. O Templário olhou para a direita, em direção à pólvora acesa, que chegava ao barril. Ele tornou a falar: – E este erro será corrigido agora mesmo!

Quando o fogo atingiu o barril, a explosão não foi tão grande, mas foi suficiente para criar uma coluna de fogo que tomou conta do pequeno prédio de dois pisos, e que, por causa da vegetação densa, se espalhava rapidamente em direção ao pátio e para estruturas próximas. Não demorou mais de cinco segundos para que alguém gritasse:

—Corram! Incêndio!

Logo pessoas começaram a correr para a direção oposta. Olatunde, por alguns segundos, observou o fogo se espalhar com um sorriso. Agaté, furioso, aproveitou dessa distração momentânea do inimigo para aproximar-se. Com um golpe rápido, cravou sua adaga na lateral do tronco de Xavier, que respondeu com um grito. O Templário levou a espada em sua direção, mas Agaté segurou seu punho para impedí-lo. Mesmo assim, Xavier tentava levar a espada em direção ao pescoço do inimigo, enquanto Agaté fazia o mesmo com a adaga. Por alguns instantes, a luta permaneceu daquela maneira, com as lâminas se aproximando dos pescoços de ambos.

Agaté resolveu o impasse chutando Olatunde no abdome. O Templário tropeçou para trás, e o Assassino pôde tomar-lhe a espada.

Finalman. – ele riu – A espada volta para o verdadeiro dono!

Xavier, levantando-se e tentando se recuperar do chute, zombou:

—Pode ficar com ela! Eu trouxe o meu próprio brinquedo!

Dito isso, ele tirou uma pederneira da cintura e apontou-a em direção ao Assassino. Agaté rapidamente se agachou, e então ouviu-se o som do disparo. Quando se levantou, ileso, não entendeu o sorriso que havia no rosto do Templário. Mas, olhando para trás, ele então percebeu: o alvo da pistola não era Agaté, e sim a reserva de pólvora, que agora queimava em um grande fogaréu. Quando o Assassino olhou para a frente novamente, Xavier havia sumido. Sua silhueta se perdera em meio às dúzias de pessoas que fugiam do fogo.

Agaté correu à procura do Templário, abrindo caminho rapidamente por entre a multidão, sem sucesso. Não havia nenhum sinal de Xavier. Após caminhar por alguns metros, no entanto, Agaté encontrou uma peça de roupa conhecida no chão: era a parte superior de seu próprio manto, já pisoteado por pessoas em pânico. Xavier devia ter se livrado dele para que Agaté não o pudesse seguir. Maldito!

Sem tempo para pensar, Agaté vestiu o manto que era seu por direito e olhou em volta. O fogo se espalhava rapidamente, e engoliu uma árvore que estava alguns metros à sua frente. O tronco da planta, enfraquecido, caiu, desmoronando em cima de um grupo de pessoas. Eram moradores da vila, jovens em sua maioria, e não conseguiriam se levantar de debaixo da árvore. O Assassino não hesitou e correu para ajudá-los.

Ao que as pessoas gritavam por ajuda, Agaté chegava à árvore. Ficou surpreso ao ver que outro Assassino socorria os moradores.

Rete kalm!— dizia Baptiste, tentando acalmá-los enquanto fazia força para levantar a árvore – Eu estou aqui!

—Baptiste! Aqui!

Os dois Assassinos se entreolharam por um segundo. Agaté ficou feliz por encontrar o amigo, mas Baptiste não parecia tão feliz. Pelo contrário, parecia furioso.

—Você!

Ki sa? Você...

—Cale a boca e faça algo útil, Agaté! Me ajude a levantar isto!

Agaté se agachou ao lado de Baptiste e ajudou a salvar os jovens. Um por um, eles foram libertados das chamas e corriam para apagar as queimaduras. Quando o último deles, um menino de não mais de dez anos, saiu de debaixo da árvore para correr aos braços da mãe, os dois Assassinos se afastaram do incêndio e olharam um ao outro.

—Baptiste, você não vai acreditar no...

A frase de Agaté foi interrompida quando um soco vindo do punho de Baptiste chocou-se contra o lado esquerdo de seu rosto. Algumas gotas de sangue caíram.

—Baptiste! Por que fez isso?

—Acha que eu sou idiota? – a expressão de Baptiste era furiosa – Justo você, meu melhor amigo!

Agaté permaneceu embasbacado.

—Do que diabos você está falando?

O Assassino o fitou com raiva.

—Da sua traição, Agaté. – Baptiste empunhou sua espada – E traição é um crime punido com morte! – exclamou, ao mesmo tempo em que avançou a espada contra o ex-amigo.

Agaté teve que pensar rapidamente, mas sacou a própria espada para se defender. Ele tentava dialogar, mas Baptiste não o dava ouvidos. Ele apenas continuou a atacar. Quando Baptiste desceu a espada verticalmente sobre o tórax de Agaté, ele quase não conseguiu bloquear o ataque. E por alguns segundos os dois Assassinos fitaram-se, seus rostos a poucos centímetros de distância um do outro; o rosto de Baptiste, colérico; o de Agaté, transtornado.

—Baptiste, pare com isso! – suplicou Agaté – Ouça o que tenho a dizer!

—Não quero ouvir nada que não seja um último suspiro saindo da sua boca!

Ambos continuaram se encarando, até que uma voz alta os abordou:

—Alto lá, vocês dois! Rendam-se e sairão vivos! Aqueles que resistirem serão baleados!

Eram os soldados franceses. Quatro ou cinco dos homens do pelotão cercavam Agaté e Baptiste, cada um com um mosquete apontado contra os Assassinos. Agaté olhou em volta, ao longe, e viu que vários outros soldados subjugavam outros Assassinos e moradores do vilarejo. O ataque que Agaté tentara evitar estava em seu ápice.

Os dois Assassinos, apesar das ameaças, mal se moveram. Agaté, vendo que eles dificilmente sairiam vitoriosos do confronto, sussurrou para o amigo em crioulo:

—Baptiste, eu te imploro! Fique calmo e renda-se! Eles podem nos matar com um só tiro!

O Assassino continuou a encarar Agaté. Após ouvir mais uma ameaça dos soldados, Baptiste afastou-se de Agaté e velozmente atirou uma faca de arremesso, que veio a se alojar na garganta de um dos soldados. Ele levantou a espada e avançou contra um inimigo. Agaté não sabia se o alvo da espada era ele próprio ou um dos soldados. Mas isso pouco importa, pois o ataque nunca ocorreu: um dos mosqueteiros disparou a arma, lançando uma bala que atravessou o ombro esquerdo de Baptiste em uma pequena explosão de sangue.

O Assassino, levando a mão ao ombro ferido, caiu de joelhos com um berro de dor. Os soldados se aproximaram de Agaté, com os mosquetes em riste. Tudo que lhe restava era a rendição? O Assassino lembrou-se daquilo que o capataz Gérald lhe dissera uma hora antes, na fazenda de Duvalier. Ele havia dito que os Assassinos perderiam a batalha de vez.

E ele estava certo.

Agaté largou as armas, ajoelhou-se e colocou as mãos atrás da cabeça.