Canção do Infinito
8 Coletânea de pequenos poemas
Despedida
Lágrimas derramadas
As palavras ficam presas na garganta
Olhares que se prendem
Memorizando para saudades futuras
E em seguida tudo acaba
Penso em nós dois
E as lágrimas caem como chuva
Um sentimento que pela primeira vez foi provado
Um beijo cujo sabor ainda perdura em meus lábios
Uma flor cujas pétalas já murcharam
Foi real para mim
Não para você
Tudo bem, eu já te perdoei
Mas em meu coração o sentimento ainda perdura
E eu jamais vou esquecer.
Azul
Azul
Azul como o gelo
Azul como o céu
Em um dia de sol
Azul como a água
Embalada pela brisa
Azul como o horizonte
De uma terra esquecida
Azul é calma
Azul é poder e esperança
E é por isso que azul
Sempre será minha cor preferida
Lua
A lua se reflete na água
Carvão líquido ondulando suavemente
Sob uma teia de prata
Janelas
Janelas
À noite iluminadas
Durante o dia emolduradas
Janelas
Pequenos portais
Para outros mundos
Meu
Seu
De qualquer um
Não importa
Se olhar muito tempo para a janela
A janela te olha também
Guerra fria
Olhares ferem mais do que pedras
Um sorriso é mais afiado do que uma faca
Nessa eterna guerra fria
A melhor arma
São as palavras
Voar
Voar, voar
Sem medo de cair
Acima das nuvens
E nunca mais voltar
Aqui, longe do chão
Enfim estou livre
O sol a tudo aquece e ilumina
Afastando minha escuridão
Aqui em cima, solta no ar
Leve se torna meu corpo
O medo é uma lembrança longínqua
E enfim posso respirar
Por Acaso
Será ternura
Isso que em seus olhos vejo?
Do nosso jeito completamente amalucado
Sempre sem palavras
Encontramos o amor
Completamente por acaso
O Órfão da Colina
Havia um menino órfão
Vivendo no topo da colina
Logo além da cidade
Na imensidão verde e fria
O garoto no topo da colina
Olha para a cidade e sorri
Vendo tudo de cima
Ele é o rei de tudo ali
Os anos passaram e o garoto cresceu
Sentado no topo da colina, observa a cidade
Não há mais maravilha, apenas revolta
Pelas lições que tão cedo aprendeu
Ele ergue o olhar para o céu
Se perguntando por quê
De um nascimento marcado por este mundo injusto
Enquanto fecha os olhos pela última vez
Ondas
Não pense
Simplesmente deixe passar
Deixe que cada nota te carregue
A música determina a trajetória
Ergue, revolve, vai e volta
Em revoluções como as ondas do mar
No Alto
Aqui do alto as luzes brilham como pequenos diamantes
Incrustados no céu de veludo negro
Voar acima dessas nuvens de renda prateada
É o que almejo
Admirar completamente o trabalho
Dessa hábil costureira
Chamada natureza
Voto
Voto rompido
Pelas consequências de um crime
Elo partido
Cruel brincadeira do destino
Tentando e tentando entender
O sentimento entre eu e você
Tapeçaria
De fora para dentro
Para cima, sempre subindo
Olhando, perdido
Por que fazes isso comigo?
A verdade nem sempre é o que se vê
O real muda a cada instante
Na maneira de cada um perceber
O mundo vai girando nesse louco carrossel
Misturando perspectivas
Tecendo vidas
Entrelaçando verdade e mentira
Na mesma tapeçaria
Luz
Na eternidade se esconde a verdade
Brilhando como estrela
No negro manto
Desse mundo em decadência
Procurando através das eras
Por vales e montanhas eu vago
Para sempre buscando
Uma eterna incógnita
Encontro destinado
Destino adiado
Mistério jamais solucionado
Envolto em sombras e acabado.
Para nunca ver a luz do dia
Além de qualquer busca
Para aqueles que escolhem a escuridão
A luz se torna dolorosa.
Primavera
Frio torturante
Mordida cortante
Sob o domo de vidro azul celeste
Vento do inverno varre, uivante
E nas cinzas dessa história
Queimando e renascendo como fênix
Primavera vem sem demora.
Vazio
Nas asas do sol poente
O ar se tinge de dourado
Só mais um passo
Só mais um segundo
O precipício aguarda
Um passo em falso e é hora de voar
O vazio lá embaixo me chama
Consumindo tudo o que é bom
Pois, no final
Só o vazio pode ficar.
Crepúsculo
Crepúsculo
O céu em fogo
Crepúsculo
Mais um dia que termina
Trazendo a noite de novo.
Vejo as aves voando para seus ninhos
O vento fresco as carrega
E nele elas deslizam, felizes
Até se reunir com sua família
Enquanto eu assisto, sempre sozinha
Crepúsculo
Nuvens em chamas
Sol e lua, sempre juntos
Para sempre separados
A lenda clama
Nessa hora, pouco a pouco
As estrelas vão surgindo
Cintilando como diamantes
São pequenos retalhos de beleza
Na alma pútrida deste mundo.
A Rosa Rebelde
Nascida sob o signo da rosa
Resplandecente, alvorada, formosa
Entre céu e inferno disputada
Pelo seu coração, uma guerra será travada
Mas a Rosa Rebelde rejeita todas as correntes
A Rosa Rebelde não pode ser domada
E, provando que mesmo a mais bela flor pode ferir
Na batalha ela sairá vitoriosa
Ode ao Quero-Quero
Ave pequena
De penas cinzentas
Olhos vermelhos
E pernas finas
Para eles tamanho não tem importância
Defendem o que é seu
Sem pestanejar
Em qualquer circunstância
Seus gritos são alertas
Soando em meio aos campos
Quando Quero-Quero grita
Algo está chegando
Podem parecer simples aves
Mas não subestime esses bichinhos de pernas finas
Pois eles são Quero-Queros
Os sentinelas dos pampas.
Ipê amarelo
As flores de ipê amarelo
Reluzindo à luz do sol no fim da tarde
Ouro em pó solidificado
Contra o céu azul
É o quadro mais belo
Chega Setembro
As nuvens cinzentas vão embora
Primavera está chegando
Mas não começa oficialmente
Até vermos o ipê amarelo desabrochando
Os japoneses tem suas cerejeiras
Tão rosas e delicadas
Porém eu não os invejo
Pois aqui no sul o símbolo da primavera
É o brilho sem igual do ipê amarelo
Fones de ouvido
Afogue o mundo com música
Não pense, não veja, não sinta
Apenas continue em frente
Nada existe além da música alta
Ela é o remédio
É o escudo
É a única cura
Que mantém longe a droga do mundo
Fones de ouvido, sobrevivência
Dor de cabeça? Paciência
Prefiro suportar a dor
A enfrentar esse mundo em decadência
Insisto
Ela é impiedosa
Leva embora pedacinho por pedacinho
De mim
Antes que o pedaço mais importante seja levado
É melhor eu dar o fora daqui
Não sou fria, mas quebrada
Coragem de fachada
Meus pés se arrastam pelo chão
Vou andando, tentando o destino pelo caminho
Mas ele se recusa a atender meu pedido
Continuo andando
Insistindo, quase implorando
"Destino, acabe logo comigo"
Peregrino Sombrio
Caminhando pelo céu
Solitário e invisível
Caminhando sempre em frente
Lá se vai o Peregrino Sombrio
Como o tempo
O caminhante segue em trilhas de nuvens
Passo a passo e passo
Nesse seu caminho infinito
Eternamente
Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer qualquer coisa
Por que não pode um pequeno pássaro sem asas
Ser mais do que aparenta?
Sem asas, preso à Terra
Apenas um pássaro com as asas quebradas
Em seus sonhos transformado
Renascido com possantes asas
Voando cada vez mais alto
Dançando a doce melodia da Noite
As estrelas são suas parceiras
Reinam elas e o pássaro absolutos sobre o negrume
Em um fulgor de puro júbilo
Bata as asas e cante sua canção
Asas, negrume, canto, vôo e solidão são tudo o que há
Eternamente
Estrada
A noite de um lado e o dia de outro
Girando e girando num círculo eterno
Promessa de recomeço
Um passo, espero, recuo e avanço
Por essa estrada infinita sigo andando
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