Cante!

11 Ep10 - A verdade dói?


Notas iniciais
Alguns casais do Augusto dos Anjos resolvem suas situações: alguns podem se unir, outros se separarem, e há ainda aqueles que podem permanecer na mesma. Então, será que a verdade dói?
Baixe as músicas do episódio:
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EPISÓDIO 10

A VERDADE DÓI?

I


- Oi gata!

- Oi JP. – disse Maria entediada.

- Preciso te fazer uma pergunta...

- Pois faça! – era incrível como aquele garoto conseguia lhe fazer perder a paciência.

- Porque você tá me enrolando? – perguntou sério.

“Ele finalmente entendeu!”, pensou ela. Já não era sem tempo...

- Te enrolando? Porque você acha que faria isso? – fez-se de desentendida.

- Vi seu facebook e você não tá namorando.

- Você não viu por que não coloquei lá.

- Seu namorado não era ciumento?

- Era. – disse sem muita certeza no que estava dizendo. – Quer dizer, é.

- Se seu namorado fosse ciumento mesmo, ou melhor, se ele existisse mesmo, pediria pra você colocar lá. Ou você tem vergonha dele?

Ela coçou a nuca.

- É... Você me pegou... – forçou um sorriso.

-Agora você me deve uma explicação. – estava claramente decepcionado.

- Não te vê explicação nenhuma. Acorda garoto! Não quero nada contigo.

- Porque não quer? Você tem noção que sou o segundo cara mais desejado do colégio? Qualquer outra garota daqui estaria agora aos meus pés se eu tivesse feito o que fiz por você. – cruzou os braços; que garota ingrata.

- Primeiro, não sou uma qualquer; segundo, você não fez nada por mim. Ou você acha que me chamar pra sair é fazer algo por mim. Acorda João Paulo! Quero para mim algo muito melhor do que você é e provavelmente do que você irá se tornar... Quero um homem cavalheiro, que entenda meus problemas, mas que acima de meu namorado, seja meu amigo. É assim que uma relação é feita. Entendeu? – cruzou os braços; estava chateada — Não quero ficar com alguém que só quer se divertir comigo...

- E quem disse que só quero me divertir contigo? – estava confuso com tudo aquilo que ela lhe dissera. Garotas são mesmo complicadas...

- Todos conhecem sua fama, João Paulo... E ela não é nada boa...

- Será que você não pode esquecer o meu passado? – quase gritou. Ficaram em silêncio; ela estava pensativa – O que preciso fazer pra você confiar em mim? – chegou mais perto dela e tocou-lhe o ombro. Maria pôde sentir a delicadeza em seus atos e a preocupação misturada com paixão em sua voz.

Ele era muito insistente. Será que queria algo realmente sério? Não! JP não. Não fazia o estilo dele... Aquilo, provavelmente, era só para deixá-la balançada, mas não daria certo. Maria não seria boba dessa vez...

- O que você precisa fazer? Deixa-me ver. Sinceramente, — um raio de esperança surgiu nos olhos dele – me surpreenda. – uma expressão confusa voltou a tomar a face do rapaz.

- Como?

- Surpreenda-me. Sei lá, faça uma coisa que eu não espere. Aí, quem sabe, vou pensar no seu caso. – piscadela e saiu.

Ele continuou lá, parado. Precisava convencê-la que o que sentia era sério. Mas como? O que ela queria dizer com “surpreenda-me”?


***

Osmar estava concentrado. Sentara numa mesa vazia na sala dos professores durante um horário vago. Amava quando isso acontecia; ficava sem fazer nada durante quase duas horas. Mas aquele dia era diferente; estava preocupado, precisava pensar em algo para fazer nas Seletivas do Festival de Corais.

Nada vinha a sua mente. Obviamente aquilo aconteceria; sem suas tradicionais férias de seis meses não havia psique que aguentasse... Outra vez o diretor o envolvia em uma enrascada.

Assustou-se quando alguém puxou a cadeira do seu lado e se acomodou.

- Oi Osmar. – disse Vivian.

- O que foi dessa vez Vivian? – disse inquieto – Não está vendo que estou ocupado?

Ela passou rapidamente o olho pelo livro que estava sobre a mesa. Parecia que o professor escrevera de próprio punho. Ao perceber que ela observava o livro, Osmar fechou-o.

- Só queria saber se você está bem.

- Estou ótimo. – guardou o volume na bolsa – Você não deveria estar em sala de aula agora?

- Sim. – disse massageando lentamente as têmporas – Mas estou um pouco indisposta hoje. Pedi ao diretor dispensa do resto do dia. – sorriu — Vim aqui só pegar minha bolsa, mas como vi você aí – seu olho brilhou e ela não pôde conter o sorriso ao falar dele — , não resisti e vim conversar. – ele permaneceu sério.

- Melhoras pra você, então... – ele ameaçou levantar-se, ela segurou seu braço.

- Porque você me trata assim? – disse séria.

- Por que é isso que você merece Vivian.

- Você sabe muito bem que não mereço isso. – seus olhos umidificaram – Nunca te fiz nada de tão mal para que você me tratasse dessa forma.

- Você sabe muito bem do que estou falando. – desvencilhou-se do agarro dela.

- Acho que você não tem boa memória Osmar – levantou-se – Estive do seu lado num dos momentos mais difíceis da sua vida.

- Não esqueci nada Vivian, e sou imensamente grato pelo seu apoio. Mas você tem que entender que acabou o que houve entre nós.

- Eu sei. Eu sei! – sua voz ficara embargada — Mas não posso querer ser sua amiga? – as lágrimas ameaçavam cair, mas ela respirava profundamente a fim de poder contê-las. – Você não tinha nenhum motivo para acreditar no que te disseram... – algumas gotas conseguiram libertar-se do cárcere e rolaram tristemente por seu rosto. Ela tratou, rapidamente, de secá-las.

- Vivian, te conheço muito bem e sei que você não quer ser só amiga. – ela o soltou.

O sinal tocou.

- Tenho aula agora. – continuou Osmar – Até mais ver.

Saiu. Ela ficou estática. Uma lágrima brincou pela sua bochecha. Ela cerrou a mão. Queria matar Osmar, queria matar todos ali, queria destruir o mundo. Qualquer coisa que fizesse a dor que sentia parar. Mas ele não merecia aquilo. Porque continuava insistindo? Ele fazia tanto mal a ela, mas não conseguia deixar de sentir... Ah coração... Porque você brinca assim? Queria que ele lembrasse seus momentos felizes que foram tão especiais para ela... Com certeza devem ter significado algo para ele...

Mas Osmar parecia ter um coração de pedra. Sabia que não era culpa dele; a vida não lhe tratara muito bem...

Lembrou-se de quando convivia com Osmar. Algumas pessoas aguentariam aquilo tudo o que ele passou e continuariam lutando, mas ele era profundamente sensível, não conseguira suportar aquela avalanche. Então, acabou descontando nela a culpa.

Tudo isso por causa deles... Queria matá-los!

Lembrava claramente de como ele a expulsara de casa. Lembrava cada palavra, cada ofensa, como se estivesse vivendo aquele momento novamente.

Passos interromperam as lembranças. Aquele não era o momento para recordar-se daquilo. Se rememorasse aquilo naquele momento, acabaria com uma forte dor de cabeça mais forte ainda no fim do dia.

Foi buscar a bolsa em seu armário.


II


Débora mexeu o suco rapidamente e tomou o que ainda restava no copo em um só gole. Praticamente pulou da mesa quando viu Pedro entrando. Seria agora ou nunca! Infelizmente a vez passada não dera certo, ficamos naquela conversa de telefone com bônus no dia do vencimento: “Oi? Tudo bem? Novidades? Tchau”, mas algo me diz que hoje vai rolar. Sorriu. Estava extremamente otimista.

Não se sabe como, mas tirou o espelho de dentro da bolsa em menos de três segundos. Retocou a maquiagem como uma ninja. Penteou o cabelo enquanto ajeitava a blusa.

Esbarrou com ele como por acaso.

- Oi Pedro. – sorriu – Não tinha te visto chegar...

- Oi Débora. – aquela garota era estranha. Sempre achara que ela fosse burra, mas ela parecia bastante esperta agora.

- E como você está?

- Estou ótimo – sorriu. Que estranho! Ela estava sendo tão gentil... Totalmente diferente do que Tiffany lhe dissera. – E você?

- Ótima também – alargou o sorriso. Precisava arranjar uma maneira rápida de fazer com que ele a chamasse para sair. – Notícias da Tiffany? – perguntou automaticamente. Que pergunta idiota!

- Não. Estamos brigados – seu olhar transpareceu um pouco de tristeza, mas logo se tornou alegre novamente – Porque a pergunta? Achei que vocês também estivessem brigadas?

“E agora? O que diria? Que diabos!”, pensou Débora. Porque fizera aquela pergunta? Ela simplesmente saltara de sua boca. Pensa rápido!

- Ela não fala mais comigo, mas ainda me preocupo muito com ela. – disse cínica – Você sabe como ela é, dá muito valor a sua popularidade. E agora acabou perdendo seus amigos por causa disso, por causa de toda sua ambição. – simulou um ar triste, tentando parecer que sentia falta da ex-melhor amiga.

Pedro arregalou os olhos. Ela não era tão ruim quanto ele pensava. Mas gostava de Tiffany, deveria convidar Débora para sair? Talvez ela lhe ajudasse a esquecer a primeira. Uma sensação, porém, lhe dizia que aquela garota não era confiável. Talvez fosse só influência de Tiffany...

- Mas você também não está concorrendo à rainha? – perguntou o rapaz.

- Sim. – percebeu a desconfiança dele – Mas tudo isso para tentar fazer com que Tiffany perca essa mania em por a popularidade em primeiro lugar. Talvez perdendo o posto de rainha, ela acabe aprendendo a lição. – sorriu e pelo visto, estava conseguindo enganar aquele idiota perfeitamente.

“Ela está tão preocupada com Tiffany...”, pensou Pedro. Aquilo era louvável, ainda mais para uma garota que fora apunhalada pelas costas por sua melhor amiga. Talvez tudo que Tiffany lhe contara fosse mentira, tudo para lhe afastar daquela garota doce que acabara de conhecer... Tiffany não era merecedora de confiança, não depois de lhe ter traído. E Débora parecia agora uma ótima pessoa, que realmente acreditava na amizade. Além do mais, ela parecia muito interessante – analisou as pernas descobertas dela.

- Quem sabe ela aprenda mesmo... – os olhos do rapaz reluziam – Sabe Débora, você tem algum compromisso amanhã à noite?

Ela conseguira! Era um gênio mesmo. Acompanhada de Pedro, nada mais pararia sua ascensão meteórica. Seu plano saíra perfeito, tinha certeza que ele não resistiria à garota meiga preocupada com a ex-melhor amiga e toda aquela baboseira sentimental que acabara de dizer. Sabia que não resistiria ela, ainda mais agora que o fizera descobrir a traição da inimiga. Nada poderia lhe impedir agora de alcançar a coroa.

- Não. Por quê? – fez-se de inocente.

- Você aceitaria lanchar comigo amanhã à noite na praça?

- Claro. – disse o mais sensualmente que pôde. Aproximou-se lentamente do rapaz e acariciou seu peitoral. Ele arrepiou-se.

- Então tá marcado. – sorriu o rapaz – Te pego na tua casa amanhã às sete da noite, pode ser?

O sorriso dela desapareceu dando lugar a uma expressão apavorada.

- Não. – disse quase gritando – Nos encontramos na praça mesmo. – os olhos arregalados o assustaram.

- Tá certo então. – estranhou aquela situação — Na praça, às sete. Tudo bem?

- Perfeito. – tentou sorrir, mas não conseguiu.

- Bem, — disse ele timidamente – Agora vou falar com meus amigos...

- Tá bom... – o sorriso novamente não saíra natural; estava torto.

Débora precisava lavar o rosto e retocar a maquiagem. Só de pensar em ver Pedro chegando a sua casa sentiu calafrios.


III


O sinal do início do intervalo irrompeu pelo silêncio. Paloma levantou apressada; estava faminta. Virou-se para Maria:

- Vou merendar. Você vem?

- Não, Pá. Vou ficar na sala hoje... – disse pensativa.

Paloma estranhou o jeito da amiga. Maria gostava da comida da cantina e raramente deixava de comer lá. As exceções aconteciam quando ela passava por algum problema. Algo estava acontecendo com ela, só podia ser isso!

Paloma foi correndo até a cantina e voltou o mais rápido que pôde. A sala estava quase vazia, com exceção de alguns garotos no fundo da sala que certamente conversavam sobre mulheres e uma garota na primeira fileira que dormira em cima do livro durante os primeiros dez minutos da aula de história – Osmar passara o resto da aula encarando-a, mas a menina não despertara. – e pelo visto também não ouvira o sinal do intervalo tocar.

Maria estava sentada sozinha. A cabeça baixa, apoiada sobre a mochila. Paloma caminhou lentamente para não assustar a amiga.

- Maria – sussurrou – Precisamos conversar...

A garota ergueu a cabeça da mochila e pôs-se sentada em postura perfeita.

- Diga! – disse Maria já sabendo qual seria o assunto.

- Porque você tá assim? Tem alguma coisa te preocupando?

Maria pensou antes de abrir o jogo. Talvez Paloma não devesse saber de tudo, mas ela era sua melhor amiga. Não é isto que melhores amigas fazem? Contar tudo uma para a outra? Mas aquilo era tão pessoal... Quem sabe não estaria apenas fazendo tempestade em copo d’água? Mas inegavelmente, ficara balançada com a forma com que João Paulo a tratou, de certa maneira ele a fez sentir especial. Parecia que tentaria de tudo para tê-la em seus braços.

Mas e se fosse só mais um xaveco? JP era conhecido por sua fama de pegador; nenhuma garota jamais resistira ao seu charme. Maria poderia ser a primeira. Mas e se ele realmente sentisse algo especial? Se fosse assim, ela estaria desperdiçando uma das maiores oportunidades de sua vida. Ou não?

- Sabe o que é, — disse Maria quebrando o silêncio que pairou por alguns segundos – conversei de novo com o João Paulo...

- Sério? – os olhos de Paloma reluziram esperança.

- Foi. – concordou não muito animada – E dessa vez ele foi tão determinado comigo que me balançou. Parecia que tudo o que ele me disse era verdade... Entende?

- Entendo. – Paloma ficara feliz pela amiga; apertou carinhosamente o antebraço dela. – Mas por que isso te deixou tão triste?

- Pra falar a verdade, nem eu sei o que estou sentindo. Parece uma mistura louca de euforia com insegurança... – disse envergonhada talvez dos próprios sentimentos.

- Esse momento realmente é complicado. – ponderou – Mas o que o seu coração diz?

- Ele tá louco pra me ver com o João Paulo – Paloma abriu um sorriso iluminado – Mas e se for só cantada dele? E se tudo isso não passou de pura diversão? Provavelmente fui a garota mais difícil que ele já tentou “pegar”.

- Você vive me dando conselho né Maria? Agora sou eu que vou te dar um: Pare de pensar! Quando a gente pensa demais numa coisa, acaba estragando tudo. Para de pensar se é verdade ou só uma brincadeira pra ele e vive a tua vida. Deixa a vida correr ao seu rumo, que eu garanto que você não vai se arrepender. O que você disse a ele?

- Pedi para ele me surpreender. – encolheu as mãos e as depositou sobre as pernas.

- E ele? – perguntou curiosa; homens não costumavam entender o significado da expressão “surpreenda-me”.

- Ficou confuso.

Gargalharam. Os garotos da última fileira pararam para ver o que acontecia e a garota adormecida finalmente despertou.

Maria e Paloma olharam-se por alguns segundos e abraçaram-se em seguida.

- Obrigado Pa. – disse Maria com os olhos úmidos.

- Pode contar comigo sempre que precisar, você sabe.

- Vamos mudar de assunto. E como vai com o Leandro? – perguntou Maria enquanto secava os olhos com um lencinho de papel.

- Ainda não falei com ele depois daquele dia da lagoa. – Paloma escondeu as mãos entre as pernas; evitava olhar para a amiga agora.

- Como assim? Você tem que ter coragem Paloma!

- Eu sei! Eu sei! – já estava cansada de ouvir os mesmos conselhos de Maria, não conseguia lembrar de todas as vezes que a amiga mencionara a palavra “coragem” do meio de suas conversas – Mas você não entende o quão difícil pra mim isso é... – sua voz falhou; pigarreou – Ainda to tentando entender porque ele virou o rosto. – disse envergonhada.

- Isso realmente foi estranho. – recordou-se do momento. – Porque ele fez aquilo? – perguntou para si mesma, ainda refletindo.

- Deve ser porque não gosta de mim. – Paloma encolheu-se ainda mais.

- Ei. – Maria puxou a amiga para fora do casulo – Nada de drama, ok? – os olhos de Paloma estavam vermelhos e lágrimas ameaçavam escorrer a qualquer instante – Você precisa confiar em si mesma mais do que nunca e partir para a luta! Sabe o que você deveria fazer?

- O que? – perguntou mais para dar continuidade a conversa.

- Deveria aproveitar o ensaio de amanhã e falar com ele.

- Não vai dar certo, Maria. Desiste!

- Não! De jeito nenhum. Você gosta mesmo dele, dá pra ver nos seus olhos. Você não vai desistir, eu não vou desistir. Nós vamos conseguir!

- E como você pretende que eu converse com ele amanhã? No meio do ensaio.

Maria pensou rapidamente.

- Não. Chame-o pra conversar a sós num canto depois do ensaio.

- E você acha que vai dar certo?

- Se não der amanhã, pelo menos será um começo, por que o dia da lagoa não valeu de nada.

Paloma estava indecisa. Não queria fazer aquilo, mas o que sentia pelo garoto era muito forte, talvez até mais forte que ela. Forte o suficiente para fazê-la pensar nele constantemente e como estava não poderia ficar pior. Ele deveria mesmo tentar. Mas chamá-lo para conversar a sós... Paloma era tímida demais para aquilo.

- Você não pode me acompanhar nessa conversa a sós?

- Não. – disse Maria num tom quase ignorante – Senão não seria uma conversa a sós. E além disso, não há a menos possibilidade de eu servir de vela pra vocês. – as duas riram.

- Tá. Eu vou tentar. Prometo. – Paloma disse com um ar mais seguro.

Maria sorriu e segurou as mãos da amiga com força.

- Sei que você vai conseguir.

Fernando entrou na sala naquele momento.

- Olha aí, as duas amigas tesourando o povo. – implicou.

- Ah Fernando... Isso é assunto sério, sabia? – respondeu Maria.

- Qual o assunto sério? A Tiffany repetiu roupa? É... Depois daquela bomba no jornal achei que isso fosse acontecer mesmo.

Paloma riu, Maria segurou-se.

- Bem, — disse Maria – continuando nossa conversa: Como vai você Romeu? E o seu lance com a Talita?

- De mal a pior... – encolheu os ombros – Parece que ela não me dar valor, se é eu vocês me entendem...

- Sei bem como é... – concordou Paloma olhando para Maria; esta retribuiu com um olhar compreensivo – Mas vocês brigaram?

- Não... – Fernando estava muito confuso – Ela ainda não me disse o que sente por mim. Tá me enrolando desde antes da Semana de Artes. – suspirou, os ombros cabisbaixos – Sinceramente, to pensando em desistir dela.

- Você acha que seria a melhor solução? – perguntou Maria.

- É melhor do que ficar nesse negócio de rola ou enrola... – desabafou o rapaz.


***

João Paulo andava de um lado pro outro do quarto. Precisava encontrar uma maneira de impressionar Maria. O que aquela garota fizera para deixá-lo tão caído por ela? Nunca se sentira assim por nenhuma antes. Todas não passaram de brinquedos nas mãos dele, mas ela era especial, não sabia o motivo, só sabia que era.

Dizem que você encontra muitas pessoas erradas na vida para poder, um dia, reconhecer a certa. Agora ele acreditava nisso. Maria era a garota certa para ele. A beleza, o jeito meigo, a forma de andar, o cabelo, os olhos... Nossa! Tudo nela era perfeito.

Mas ela era difícil. Porra! Porque a garota que ele mais estava afim era a mais difícil de todas? Daria tudo para trocar qualquer piriguete que já pegara por ela. Trocaria até por todas. Mas, para sua infelicidade, ela pedira algo semelhante a uma prova de amor. E para piorar ainda mais sua situação, praticamente não a conhecia. A única coisa que sabia a respeito da moça é que ela era integrante do coral. Como surpreender uma garota que quase não se conhece? Sentou desanimado na cama. Aquilo demandaria muito trabalho...

Sim! Era isso! – uma ideia quase divina surgiu em sua mente — Lembrou que seu melhor amigo, Pedro, também era do coral – agradeceu aos céus por esse fato. Ele poderia ajudá-lo. Não, ele não poderia, ele deveria ajudá-lo.

Vasculhou por entre o entulho que jazia em seu quarto. Nem sombra do celular. Precisava achar o aparelho o quanto antes. Quanto mais cedo desse a ela a prova do seu amor, mais cedo a teria em seus braços.


IV


O ensaio do coral começara atrasado, como de praxe.

- Então crianças, vocês devem impor a voz de maneira segura e clara. – falava Osmar apressadamente – A coluna de ar deve passar pela parte da trás da garganta e culminar fazendo como se fosse um arco pelo céu da boca. A coluna de ar nunca deve ser imposta pela frente da garganta, muito menos a voz deve ser apoiada nesse local. Caso contrário, vocês terão uma irritação que pode levar a outros problemas bem mais sérios.

Quase ninguém prestava atenção no que ele dizia. Alguns estavam distantes, outros quase dormindo. Apenas Pedro estava atento, aliás, não estava atento, estava ansioso...

Um clarão invadiu o auditório. Osmar precisou virar o rosto para proteger os olhos da luminosidade da porta aberta. Alguém entrara. Consegui ver apenas a silhueta da pessoa.

- O que você quer rapaz? – disse o professor após recuperar-se da intensidade da luz.

- É... – disse o garoto timidamente, trazia um violão ao ombro – Queria fazer o teste pro coral...

Maria virou-se instantaneamente; reconheceu a voz, era João Paulo. O que ele estava fazendo ali?

- Desculpe garoto, mas estamos ensaiando agora. Não tenho tempo para audições. – disse indiferente.

- Ouvi dizer que para participar do Festival de corais o coral precisa ter no mínimo dez integrantes. E se não faltou ninguém hoje – contou mentalmente -, vocês só são nove.

Esboçou um sorriso para Pedro.

O rapaz tinha razão. Como Osmar não pensara naquilo? Se alguém não entrasse no coral imediatamente não poderia competir no Festival. Uhm... Até que aquilo não era uma má ideia... Não! O diretor poderia cortar seu bônus e aquilo sim seria o fim para ele.

- Você está bem informado, hein rapaz? – disse ironicamente.

- Tenho boas fontes... – sorriu JP.

- Pois suba ao palco!

Osmar sentou-se na terceira fileira de cadeiras.

- Qual seu nome? – perguntou o professor.

- João Paulo Campos.

- Qual motivo o levou a vir fazer a audição?

- Dizem que a música revela nossos verdadeiros sentimentos. – olhou para Maria.

A garota não acreditava que ele fazia aquilo por ela... Paloma cutucou-lhe e sorriu como se dissesse: “Aproveita! Isso é para você”.

- Poético... – murmurou Osmar – Qual música cantará?

- “Maria, Maria” de Milton Nascimento. – sorriu timidamente.

- Ótima escolha. – espero que ele honre o trabalho do grande Milton – Pois então, Cante!

JP tocou o primeiro acorde no violão, indicando o tom a banda, que o acompanhou em seguida.


[Maria, Maria (Milton Nascimento) – JP]


Maria, Maria,
É um dom,
Uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta

Maria, Maria,
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que rí
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Ele cantava aquela música da maneira mais romântica que conseguia; queria que parecesse uma serenata.


Mas é preciso ter força,
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria,
Mistura a dor e a alegria.


Todos cantaram junto com ele a última estrofe.


Mas é preciso ter manha,
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre.

Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida...


Aplaudiram.

Maria estava muito emocionada; não acreditava que aquilo tudo era para ela... JP fora tão... Romântico. Nossa! As bochechas dela estavam coradas. Ele sorriu para ela. Queria permanecer séria; não poderia parecer fácil para ele, mas não conseguia esconder o sorriso em seus lábios.

- Muito bem rapaz, — disse Osmar; o garoto tinha encontrado a maneira correta de interpretar aquela música – Parabéns! Você acaba ingressar no coral do colégio Augusto dos Anjos.

Aplaudiram novamente, principalmente Maria, Paloma e Pedro.

João Paulo sorriu para Maria, essa escondeu o rosto entre as mãos. Ele desceu do palco e sentou ao lado de Pedro. Apertaram-se as mãos.

- Dando continuidade... – disse o professor subindo ao palco.


***

O ensaio acabara. Todos já iam embora. Leandro ficou mais um pouco para tirar algumas dúvidas com Osmar. Paloma esperou-o; seguiria o conselho de Maria.

Ele estava demorando tanto... Olhou para o relógio, parecia que o tempo não queria passar. Os ponteiros andavam com preguiça naquele dia e ela ficava cada vez mais ansiosa.

Leandro saiu do auditório. Quando a avistou, corou-se. Paloma aproximou-se dele. O rapaz queria correr, mas seria melhor encarar a realidade: aquela garota estava apaixonada por ele. O que faria agora?

- Leandro, — disse ela – preciso conversar contigo.

- O que foi? – as maçãs vermelhas, evitava olhar diretamente para ela.

- Queria conversar contigo particularmente, — disse também envergonhada – e acho que em frente ao auditório não é o local apropriado.

- Onde você sugere?

- Pode ser perto do campo? Acho que essa hora não tem muita gente por lá.

- Tá bom então...

Foram até o local e instalaram-se sob a sombra de uma imponente mangueira. Ela não sabia o que dizer, ele não queria estar ali. Paloma precisava contar-lhe tudo o que sentia e necessitava entender o motivo de ele ter se afastado naquele dia.

- Sabe, eh... – disse ela – Queria te dizer que... Queria te dizer – precisava encontrar a coragem dentro dela; Maria não estaria lá para sempre para apoiá-la nos momentos difíceis – Gosto muito de ti – Não era isso que queria lhe dizer; o que sentia por aquele garoto era algo muito maior do que “gostar” – e... Bem, — Leandro já sabia o que ela diria em seguida – Eu te amo.

Num impulso de coragem ela avançou sobre ele. Segurou seus braços de modo mais forte do que imaginara, ele não conseguiu se mover. Encostou seus lábios no dele e fez com que sua língua penetrasse em sua boca. Sua língua girou por dentro dele, como num balé. Ela sentiu todo o corpo arrepiar-se instantaneamente. A sensação fora indescritível; sentira algo completamente novo. Agora sabia o que era amar...

Ela o soltou. Suas bocas se separaram. Ele suspirou, arrependeu-se do que fizera.

- Você tá bem? – perguntou Paloma.

- Desculpa, — disse levantando-se – mas não posso continuar com isso...

Ela ainda não conseguia entender. Porque ele fugia tanto?

- O que foi? – perguntou desesperada – Fiz alguma coisa?

- Não Paloma, você não fez nada. O problema é comigo.

A garota ergueu-se. Segurou as mãos dele, o impedindo de continuar a andar.

- Então me deixa te ajudar!

- Desculpa, mas você não entenderia. – disse desvencilhando-se dela.

Ele saiu, quase correndo.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas. O que havia de errado? Seria com ela o problema? Fizera algo que ele não gostara? O que fizera de tão errado para que a desprezasse assim? Essas perguntas e muitas outras a assombraram como mortos-vivos.

Voltou à sombra da árvore. Sentou-se e apoiou a cabeça sobre os joelhos, quase em posição fetal. Deixou as lágrimas correrem livremente, talvez elas a ajudassem a perceber tudo o que estava acontecendo.

Nunca achara que a verdade pudesse doer tanto assim. Parecia que ela feria como um espinho cravado em seu peito que apertava cada vez mais seu coração. As lágrimas caíram abundantes...


[É isso aí (Ana Carolina e Seu Jorge) – Paloma]


É isso aí
Como a gente achou que ia ser
A vida tão simples é boa
Quase sempre
É isso aí
Os passos vão pelas ruas
Ninguém reparou na lua
A vida sempre continua.

Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não sei parar

De te olhar

Suas lágrimas escorriam como rios dos seus olhos. Suas bochechas estavam inundadas.


É isso aí
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade

É isso aí
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores

Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não vou parar de te olhar


V


Débora entrou na cantina agarrada no braço de Pedro. Seu plano fora um sucesso. Conseguira o garoto mais popular do colégio e agora sua vitória estava certa. Conseguira finalmente vencer sua grande rival.

Do outro lado do local, Tiffany observava o novo casal. Débora não sabia o que a esperava. Bem, nem ela sabia o que esperava Débora...


***

- Oi gata! – disse JP.

- Oi. – Maria respondeu tentando parecer não se importar com a presença do garoto.

- Então, o que achou da minha surpresa? – perguntou animado.

- Não esperava isso de você, sinceramente. – seus olhos brilharam rapidamente ao lembrar o momento.

- Então, o que você me diz? Provei para você que mereço te levar para jantar?

- É... Diria que sim. Aceito seu convite. – esboçou um leve sorriso.

Ele sorriu, mas conteve-se; ela retornou à expressão séria.

- Pode ser sábado? – disse cortez, não podendo conter o sorriso.

- Sábado seria perfeito. – sorriu discretamente.

- Então, te apanho sábado às sete.

- Perfeito.


***

Fernando ainda estava indeciso sobre seu futuro com Talita. Ela merecia todo o trabalho e preocupação que ele estava tendo?

Olhou novamente para o celular. A mensagem que recebera, não podia negar, o deixara esperançoso. O recado dela pedia para que ele a encontrasse no auditório às 13hrs. Conferiu o relógio novamente. Estava dez minutos adiantado.

Mas esta dúvida estava lhe matando aos poucos: Talita era digna de seus sentimentos? O último mês provara o contrário; embora tivessem ficado mais de uma vez, ela não mostrara nenhum interesse nele. Talvez fosse mesmo o momento de desistir, já que ela não lhe dera valor. Praticamente se jogara aos seus pés e ela o continuara enrolando.

Mas o que ela queria com ele? Terminar tudo de vez? Dizer-lhe que era um idiota por confiar nela?

Chegou ao auditório. Abriu a porta. Entrou pisando forte; estava irritado. Talita estava no palco, utilizando o mesmo vestido de quando cantara “Se eu não te amasse tanto assim”. Aquilo fez com que Fernando lembra-se de coisas que jamais queria esquecer. A garota esfregava as mãos, esperava ansiosa.

- Oi. – disse ela.

- Oi. – disse sério.

- Queria te encontrar para te dar finalmente a resposta... – sorriu inocentemente.

- Você não precisa me dizer nada Talita! – o ar grosseiro a assustou. Onde estava aquele garoto meigo e sensível que conhecera? Ele praticamente se jogou numa cadeira da quarta fileira. Bufou.

- Você tá bem? – perguntou preocupada.

- Tô ótimo. – ironicamente.

- Bem, — ele estava estranho e particularmente grosseiro; o que acontecera? Aquilo lhe deixara triste. – fiquei inspirada com a declaração do João Paulo – ele estava sério, ela estava ficando envergonhada – e resolvi te fazer isso: – sentou-se no banco que estava ao centro do palco – dizem que uma música expressa milhares sentimentos ao mesmo tempo e acredito que não conseguiria te dizer tudo o que sinto por você somente com palavras, então decidi cantar uma música para você que expresse o que sinto. – acenou com a cabeça para o pianista. – Espero que goste.

Viu-se um brilho nos olhos dele, mas logo voltou à expressão sisuda.


[Amor, I love you (Marisa Monte) – Talita]


Deixa eu dizer que te amo
Deixa eu pensar em você.
Isso me acalma
Me acolhe a alma
Isso me ajuda a viver

Hoje contei pras paredes
Coisas do meu coração
Passeei no tempo
Caminhei nas horas
Mais do que passo a paixão
É um espelho sem razão
Quer amor fique aqui?

Talita sorria. Ele continuava com a expressão carrancuda marcada no rosto, mas ela podia perceber que a cada verso seu rosto ia tornando-se delicado.


Meu peito agora dispara
Vivo em constante alegria
É o amor que está aqui

Amor I love you
Amor I love you
Amor I love you
Amor I love you(bis)

Amor I love you
Amor I love you
Amor I love you.

Ele ficou calado. Os joelhos dela tremiam insistentemente. Porque ele não dizia nada?



Notas finais
Eae, o que acharam?
Não percam o próximo ep! XD
Té semana que vem! o/
Baixe as músicas do episódio:
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