Cante!

12 Ep11 - Medo de amar


Notas iniciais
Paloma sofre com o desprezo de Leandro, Maria tenta ajudá-la. Enquanto isso, Osmar faz audições no coral para escolher o (a) solista da Seletiva do Festival Nacional de Corais.
Baixe as músicas do episódio:
http://www.4shared.com/rar/seVwRbDa/Cante_-_1x11.html?

EPISÓDIO 11

MEDO DE AMAR

I


Ele continuou calado. Porque Fernando não dizia nada? Não gostara da surpresa que Talita lhe fizera? Passara bastante tempo idealizando tudo e escolhendo a música perfeita, e agora ele estava... Simplesmente calado. Ela percebia confusão no seu olhar, como se não esperasse aquilo, mas por qual motivo persistia em não dizer nada?

Aquela música confundira toda a sua cabeça; achava que ela não sentia nada por ele, mas tudo aquilo demonstrava exatamente o contrário... Sua mente estava um nó. Quando Talita cantou aquela música lembrou-se do momento em que se apaixonara por ela: quando a ouviu cantar “Se eu não te amasse tanto assim”. Passou a mão no cabelo, gostava muito dela... Olhou para a garota, ela parecia nervosa. Será que sentia o mesmo que ele sentia por ela?


***

Osmar jogou os livros que carregava em cima de uma das mesas da sala de professores. Retirou um livro preto de dentro da bolsa e pôs-se a escrever. Não demorou muito para que parasse; algo estava lhe preocupando e impedindo que seu espírito criativo fluísse livremente naquele dia: as seletivas do Festival de corais. Não queria participar, mas quando entrava em uma competição, Osmar tornava-se o pior dos predadores. Precisava criar algo perfeito para aquela apresentação. Bem, não será nada difícil – pensou ele – só precisava botar sua cabeça para funcionar. Mas mesmo assim, precisava encontrar seu novo solista; a apresentação deveria ser montada ao redor dele. Não é assim que os corais vencedores fazem?

Mas como encontrar seu solista? Talita sem dúvida seria a opção mais segura; sua técnica era impressionante para uma garota de apenas 15 anos. Annah seria outra boa opção, mas ele tinha dúvidas se ela cantaria tão bem outros ritmos sem serem os típicos nordestinos. Leandro ou Fernando seriam boas opções se quisesse escolher um rapaz, mas faltava algo nos dois que estava claramente presente nas duas garotas.

Mordeu a caneta. Olhou para as páginas em branco do livro negro. Arqueou as sobrancelhas e girou a coluna para ver se o computador da sala dos professores estava sendo usado. Para seu ânimo, ele estava vago – o que era uma raridade, pois sempre havia um professor procurando por concursos públicos ou vendo algum desses famosos sites de notícias. Levantou-se e dirigiu-se ao aparelho.

Sentou. Digitou. Imprimiu. Ergueu-se novamente, mas dessa vez apenas buscou a bolsa que deixara solitariamente na mesa que ocupava e saiu em direção ao seu tradicional local de avisos: em frente ao bebedouro.

Pregou a folha A4 na parede. Tomara a decisão correta, tinha certeza. Pelo menos para ele seria a decisão certa; estava ansioso para ver outro embate como aquele que ocorrera na semana anterior com Talita e Annah.

Na folha deixada na parede podia-se ler:


“Prezados alunos do coral,

Venho por meio de este aviso informar-lhes que excepcionalmente terça (21) e quinta-feira (23) dessa semana, estarei realizando audições para o solo que será apresentado nas seletivas do Festival Nacional de corais. Os interessados devem se apresentar no auditório pontualmente às 14hrs.


Professor Osmar Camelo, coordenador do coral.”


***

- Eu... – finalmente Fernando conseguira dizer algo. Talita já estava preocupada. Será que devido a tanta demora ele não gostava mais dela? – Eu não sei o que te dizer...

O coração da garota contraiu. Pôs a mão no peito, num gesto como quem quer arrancar o coração. Sua garganta dobrou. Abriu a boca, mas nenhum som saiu. Tentou novamente, dessa vez com mais força...

- Aconteceu alguma coisa? – sua voz saiu embargada, os olhos umedeceram. Ela engoliu em seco, não queria chorar ali.

Fernando olhou nos olhos dela. Parecia que ele penetrava nela como nenhum outro conseguia. Apenas olhando em seus olhos, ele pôde entender tudo o que ocorrera.

- Não... – disse involuntariamente – Quer dizer... Aconteceu, mas deixa pra lá! – sorriu, e seu sorriso foi o mais belo que ela já vira em toda a sua curta vida.

O rapaz levantou-se de seu acento e caminhou em direção a ela. O coração de Talita acelerou de tal forma que ela conseguia sentir sua cabeça vibrar no mesmo ritmo das batidas cardíacas. Ele aproximou-se ainda mais. Era uma sensação estranha, ao mesmo tempo em que ela queria correr, algo lhe impedia e fazia com que permanecesse ali. Fernando subiu a escada que levava ao palco. Chegou ainda mais perto dela. Segurou as delicadas mãos de Talita. A garota percebeu que as mãos dele estavam suadas, o que era um alívio; as dela também estavam.

- Bem, — disse ele com os olhos marejados e as maçãs do rosto coradas – acho que agora só consigo dizer que não esperava isso de você.

Uma lágrima escorreu pela face dele, o mesmo aconteceu com ela. Fernando precipitou-se para frente, fazendo com que, por reflexo, Talita desse um passo atrás. Segurou a larga cintura dela – não para prendê-la, mas para deixá-la mais confortável e segura. Lentamente aproximou seu rosto. E a cada centímetro de proximidade, admirava cada detalhe daquele rosto. Os olhos castanhos esbugalhados, levemente vermelhos que agora pareciam querer saltar para fora de suas órbitas; as fartas bochechas vermelhas como sangue; o ritmo de sua respiração que ficava cada vez mais frenético, assim como o dele.

A distância tornou-se ínfima, foi quando cerraram os olhos e deixaram seus lábios se tocarem levemente. Ela o abraçou o mais apaixonadamente que pôde. A mão dele segurou sua nuca e fez com que seus lábios se tocassem ainda mais. Ela abriu a boca suavemente e pôde sentir a língua dele entrando delicada. Fernando não era afoito, não queria viver o prazer intensamente, queria viver uma emoção verdadeira, e com ela sentia que era algo verdadeiro.

Beijaram-se por quase três minutos.

Afastaram os lábios, ainda de olhos fechados. A seguir, seus corpos também se afastaram delicadamente. Seguravam-se as mãos. Ele abriu os olhos primeiros. Admirou os encantos dela. Ela, após um suspiro, abriu também. Sorriram. Fernando segurou as mãos dela ainda mais forte agora. Abraçaram-se e gargalharam. Aquele foi um dos momentos mais felizes de suas vidas.

- Espera! – disse ele – Preciso te perguntar uma coisa...

- Pergunte então... – disse ela com o sorriso estampado no rosto, mas no fundo tinha um quê de preocupação. O que ele iria perguntar? Rezava para não ser algo que estragasse aquele momento tão lindo.

Ele se ajoelhou e segurou sua mão direita com delicadeza.

- Talita Tabosa, — disse cortez – você aceita namorar comigo?

Ela sorriu. Seus olhos cintilaram e algumas lágrimas correram alegres pelo seu rosto. Ele não pôde contar a paixão ao vislumbrar aquele lindo rosto. Ela era a luz do seu dia. Sem ela, com certeza, sua vida seria mais escura e nublada. Talita era, definitivamente, sua estrela.

- Lógico que aceito. – ela respondeu com a voz embargada. Sorriu o sorriso mais feliz que alguém pode sorrir.

Um longo abraço marcou o começo daquele namoro. A conexão deles era perceptível. Se almas-gêmeas existem, aquilo era o encontro de duas.

Beijaram-se novamente. E fizeram com que aquele momento durasse para sempre.


***

Paloma apertou o ursinho ainda mais forte. Nem ele conseguia fazer sua tristeza ir embora. Já dispensara a mãe inúmeras vezes dizendo que estava tudo bem. Estava tudo bem? Decididamente não estava nada bem. Não parara de chorar desde o momento que tinha conversado com Leandro. Porque ele mexia tanto com ela?

Sentia vontade de se matar... Talvez ninguém se importe mesmo com minha falta. As lágrimas caíam feito cachoeira, rolando por suas vermelhas bochechas. Secou o rosto com as mãos. Respirou fundo.

Ouviu o celular tocar. Alcançou-o rapidamente. Tinha esperanças que fosse Leandro, mas o garoto nem lhe pedira o número do celular. Era Maria. Rejeitou a ligação como fizera com todas as outras da amiga. Maria ligava-lhe insistentemente desde a noite passada; deve ter ficado preocupada por Paloma ter faltado à aula. Mas ela queria ficar sozinha naquele momento, não queria ninguém testemunhasse seu momento de completa vulnerabilidade.

Observou o microssystem que tocava suavemente uma das músicas depressivas da Ana Carolina. Queria que aquilo não passasse de um terrível pesadelo.


II


Tiffany sentou-se na cantina. Retirou a serra de unhas da bolsa. Concentrou-se no tratamento de suas unhas, que mereciam uma atenção exclusiva; estavam horrorosas. Alguém, porém, desfez sua concentração: Débora e Pedro acabavam de entrar na cantina. Era impressionante como todos viravam para olhá-los e parecia que a garota insinuava-se cada vez mais, apertando-se nos fortes braços do rapaz. Tiffany quis ter uma arma dentro da bolsa para acabar com aquilo tudo de uma vez, mas como dizem: “a vingança é uma prato que deve ser comido frio.” Ela faria Débora pagar por cada humilhação que lhe fizera passar, ainda não tinha noção de como faria aquilo. Apenas sabia que faria.


***

Os alunos do coral acomodaram-se nos acentos do auditório. Osmar os observou, embora fossem audições para um solo, a maioria deles havia comparecido. Será que todos eles competiriam pelo solo? Leu sua lista de alunos... Faltaram apenas Tiffany e Pedro. Porque aquilo não lhe soava como novidade? – pensou irônico.

Fernando e Talita entraram de mãos dadas. Ela sorria luminosamente; parecia que ele lhe contara algo engraçado. Ao ver os dois, Maria esboçou um sorriso, o ar de preocupação, porém, continuou impregnado em seus olhos; Paloma ainda não aparecera no colégio. Olhou para Leandro, algo lhe dizia que o rapaz estava envolvido naquilo.

- O que foi gata? – perguntou JP no ouvido dela.

Ela sorriu ao sentir o hálito do rapaz.

- Nada não. – acariciou a bochecha dele e quis rir novamente ao sentir sua barba malfeita.

- Tem certeza? – perguntou preocupado – Você tá parecendo triste... Aconteceu alguma coisa?

- Pode deixar. – deu um selinho nele, JP sorriu – Eu vou resolver isso. Não precisa se preocupar.

- Tá bom então, — disse o rapaz ainda não muito convencido – mas se precisar de mim é só dizer!

- Crianças, — disse Osmar interrompendo a conversa de todos – fico feliz em ver que compareceram em peso às nossas audições. – admirou novamente a plateia – Como vocês devem saber, as audições que serão realizadas hoje e quinta permitirão com que eu escolha o solista de uma das músicas que apresentaremos na Seletiva do Festival Nacional de corais – aplaudiram; Osmar lembrou-se dos velhos tempos... Sacudiu a cabeça afastando-se das lembranças – Então, sem mais delongas, que comecemos as nossas audições! – Talita foi a única a aplaudir, Fernando a acompanhou em seguida.

Osmar desceu do palco e acomodou-se numa das primeiras fileiras.

- Então, quem será o primeiro? – disse animado o professor.

- Eu! – Fernando levantou-se contente. Talita deu-lhe um beijo de boa sorte e sorriu.

- Então jovem, o que irá cantar? – perguntou o professor.

- “Conversa de botequim” – disse timidamente e emitindo um sorriso contido para Talita; fora ela que o incentivara e ajudara a escolher a música para aquela audição.

- Ótimo... – murmurou Osmar – um clássico de Noel Rosa.


[Conversa de botequim (Noel Rosa {Caraivana}) – Fernando]


Seu garçom
Faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo
Um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao Sol
Vá perguntar para o freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
E vá falar ao seu patrão
Que me envie um bilhete, um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me mande uma revista, um cinzeiro e um isqueiro.

Tentou sambar, mas não era o melhor dos dançarinos. Todos riram da tentativa.

JP dançava com os ombros. Maria riu do garoto e deu-lhe um tapinha nos ombros.


Telefone ao menos uma vez
Para 344333
E vá dizer ao Seu Osório
Que me mande um guarda-chuva aqui pro nosso escritório
Seu garçom me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure essa despesa no cabide ali em frente

Seu garçom
Faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo
Um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao Sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Qual foi o resultado do futebol (bis).

Aplausos seguiram alvoroçados.

- Muito bem meu rapaz – comentou Osmar contente – Sua interpretação foi ótima, mas tome cuidado com os “rés”.

Talita piscou para Fernando como se dissesse: “viu, eu te avisei.” A garota gargalhou em seguida, contendo o som com as mãos.

- Quem seguirá essa incrível homenagem ao ilustre Noel Rosa? – perguntou o professor satisfeito. Graças a seu talento, seus alunos estavam cada vez melhores.

- Eu posso professor. – sugeriu Leandro timidamente.

- Suba ao palco, então, rapaz! – aguardou o garoto se posicionar e perguntou: — Qual será sua música então?

- “Céu azul”, do Charlie Brown Jr.

- Cante então!


[Céu azul (Charlie Brown Jr.) – Leandro]


Leandro cantava de olhos fechados. Parecia até que cantava para alguém.

Maria aprumou-se na cadeira. Queria ouvir melhor, talvez aquela música revelasse o que acontecera com sua amiga.


Tão natural quanto a luz do dia
Mais que preguiça boa,
Me deixa aqui a toa,
Hoje ninguém vai estragar meu dia,
Só vou gastar energia pra beijar sua boca

Fica comigo então, não me abandona não
alguém te perguntou como é que foi seu dia?
Uma palavra amiga? Uma noticia boa?
Isso faz falta no dia a dia
A gente nunca sabe quem são essas pessoas

Eu só queria te lembrar,
Que aquele tempo eu não podia fazer mais por nós
Eu estava errado e você não tem que me perdoar
Mas também quero te mostrar,
Que existe um lado bom nessa história:
Tudo o que ainda temos à compartilhar,

E viver, e cantar,
Não importa qual seja o dia
Vamos viver, vadiar,
O que importa é nossa alegria
Vamos viver, e cantar,
O que importa é nossa alegria
Vamos viver, vadiar,
O que importa é nossa alegria

Tão natural quanto a luz do dia...

- Ótimo rapaz! – analisou Osmar – Mais alguém irá se apresentar hoje? – ninguém se manifestou – Bem, então as audições por hoje estão encerradas. Lembrem que quem quiser participar terá apenas mais uma chance quinta-feira.

O professor deixou o local.

Todos iam saindo. Fernando e Talita um pouco mais atrás dos outros; caminhavam lentamente.

- Você não vai tentar?

- Vou sim. – respondeu Talita com um sorriso – Até parece que você não me conhece para fazer uma pergunta dessas...

- É porque você não se apresentou hoje. Normalmente você se apresenta no primeiro dia de audições...

- Estou preparando uma surpresinha querido... – beijou-lhe suavemente a bochecha esquerda dele, o rapaz riu.

- Surpresa pra quem? Posso saber? – perguntou curioso e a puxando mais para perto.

- Não, não pode. Senão não seria uma surpresa.


III


Maria abraçou Paloma o mais forte que pôde. Estava tão feliz por sua melhor amiga estar de volta... Mas ela estava estranha, além das olheiras e da leve palidez, seu jeito estava diferente... Ela parecia mais resguardada...

Paloma sentiu o abraço de Maria como se estivesse abraçando a própria mãe. Aquilo fora completamente reconfortante para ela. Ainda sentia-se triste, mas além das olheiras de duas noites sem conseguir dormir e dos dias sem se alimentar direito, tudo estava bem. De alguma forma, ela conseguira superar tudo aquilo. Não superar completamente, mas o suficiente para sair de casa sem desabar em lágrimas.

Maria soltou Paloma e afagou-lhe os ombros dizendo:

- Você não sabe quanta falta senti de você. – disse com olhos marejados.

Abraçaram-se novamente.

- Também. – respondeu Paloma quase não podendo respirar, devido ao abraço.

Maria segurou a mão da amiga e a levou até a sala. Sentaram-se uma de frente para a outra.

- Então, — disse Maria – o que foi que aconteceu contigo?

Paloma apertou as coxas antes de falar. Sempre ficava acanhada quando falava sobre aquele assunto.

- Bem...

- Espera! – interrompeu a outra – Deixa-me tentar adivinhar. Tudo isso foi por causa do Leandro. Acertei?

- É... – disse sem olhar nos olhos da amiga – Você tem toda a razão. – sua voz não queria sair; algo lhe tampava a garganta.

- Você quer falar sobre isso? – perguntou cautelosa.

Paloma mordeu os lábios. Acenou negativamente e Maria pôde ver uma lágrima escorrendo pelo rosto da amiga.

Maria segurou o queixo dela e levantou sua cabeça delicadamente. Agora se olhavam nos olhos.

- Às vezes é melhor desabafar... Pra você poder superar um problema, precisa conseguir falar sobre ele.

Caíram mais algumas lágrimas. Os olhos de Paloma estavam avermelhados, assim como seu rosto.

- É que é tão difícil... – disse envolta às lágrimas – É tão difícil quando você não é correspondida...

As lágrimas caíram severas. Paloma soluçava.

Maria buscou a amiga e trouxe-lhe para perto. Deu-lhe um abraço bem apertado. Disse quase sussurrando, enquanto acariciava os cabelos de Paloma:

- Vai ficar tudo bem! Não se preocupe...

Ficaram assim até que Paloma se acalmasse um pouco. Maria segurou as mãos da amiga.

- Sabe, acho que não vai dar certo conversarmos aqui; daqui a pouco isso aqui vai encher de gente...

- Você tá pensando em perder a aula? – disse Paloma enquanto assuava o nariz.

- Acho que é melhor resolvermos seu problema do que assistir à aula chata de história.

Paloma apenas concordou com a cabeça.

Maria levantou-se e levou a amiga até o lugar mais calmo que conhecia naquele horário: o banheiro feminino. Lá, elas seriam dificilmente incomodadas.

Paloma olhou-se no espelho. Estava um trapo. Os olhos negros, o cabelo ressecado, os ombros caídos e o nariz bem avermelhado, assim como suas maçãs.

- Você pode confiar em mim Pa... – disse sem olhar diretamente para ela.

- Eu sei...

- Mas tudo bem, não vou te apressar. – apoiou-se no balcão da pia – Quando você quiser pôr tudo para fora, é só me avisar.

- Você tem razão... – Maria olhou-lhe com um olhar compreensivo que ninguém poderia lhe dar; Paloma sorriu em retorno – Só vou conseguir parar de chorar e resolver toda essa bagunça na minha vida se contar para alguém... – suas mãos tremiam; ela buscou coragem onde não existia – Bem, você tinha razão... O problema todo é por causa do Leandro...

- Uhum... – Maria aproximou-se delicadamente e segurou-lhe o ombro.

- Fiz o que você me disse. Falei com ele depois do ensaio e nós nos beijamos... – Paloma sorriu, embora seus olhos estivessem ainda marcados pela tristeza.

- Então porque você ficou assim?

- Por que ele me deu outro fora. – uma lágrima teimosa escapou-lhe.

- Ai, amiga – Maria a abraçou – Desculpa...

- Não Maria. A culpa não é sua...

- Claro que é minha – disse enquanto afrouxava o abraço – Se você não tivesse seguido meu conselho não teria ficado assim... Sério, mil desculpas... – os olhos de Maria também estavam marejados agora.

- Mas se não tivesse tido coragem de procurá-lo, talvez ainda hoje estivesse sonhando com ele. – seguraram-se as mãos – Eu que preciso te agradecer...

Estava difícil para Maria segurar as lágrimas, mas ela precisava ser forte naquele momento. Não só por ela, mas por sua melhor amiga também. Respirou fundo e continuou:

- Mas você já o esqueceu?

- Sinceramente, — Paloma soltou as mãos da amiga e pôs-se de costas para ela – não. Ele ainda mexe muito comigo. Tanto é que toda vez que alguém fala nele, começo a chorar. Mas espero que isso passe logo.

- E o que foi que ele disse dessa vez? Espera! Você disse que se beijaram... Como foi? – não resistiu; aquela não era uma pergunta a ser feita naquela situação, mas a curiosidade foi maior que sua consciência.

- É... – Paloma tentou conter o sorriso ao lembrar do beijo – Foi interessante... Digo, o beijo... O beijo foi interessante – tropeçava nas palavras – Mas depois – um ar sisudo tomou conta dela, sua testa vincou talvez como se tentasse conter novas lágrimas, o olhar perdeu-se pelos azulejos amarelados do banheiro – ele disse que não poderia... – respirou fundo. Não poderia mais chorar; já fizera o suficiente por um ano nos últimos cinco dias – Disse que não poderia continuar com aquilo – engoliu em seco, o olhar perdido e a mente remorando aquele momento terrível. Quis morrer. Porque sofrera tanto? O que fizera para merecer aquilo? Mordeu os lábios e pigarreou, tentando fazer com que o nó em sua garganta desaparecesse – E eu achei que o problema fosse comigo...

Não conseguiu conter as lágrimas. Voltou a soluçar. Maria a abraçou por trás e acariciou-lhe os ombros.

- Calma! – dizia Maria tranquilamente – Estou aqui. Vai ficar tudo bem.

Paloma acariciou a mão de sua amiga. Sentia-se segura agora.

- ... Mas ele disse – continuou a garota tentando ainda conter os últimos soluços – que o problema era com ele...

Continuaram abraçadas por mais alguns minutos. Paloma virou-se e recostou sua cabeça no colo da amiga. Esta lhe afagou os cabelos.

- Ele disse que o problema era com ele? – perguntou Maria pensativa.

- É... Foi isso que ele disse... – sua voz saiu abafada devido à posição.

- Sabe o que acho Paloma?

- O quê? – disse afastando-se da amiga.

- Há duas opções para ele dizer que o problema é com ele... – disse tentando parecer confiante.

- Quais são? – perguntou curiosa; talvez Maria pudesse resolver aquela bagunça toda. Querendo ou não, ainda gostava muito daquele rapaz...

- Ou ele é gay, ou ele está com medo de você. – disse com um ar vencedor que escondia uma terrível insegurança.

- Como assim medo de mim? – perguntou confusa; nunca havia ouvido falar naquilo.

- Bem, — Maria buscou as palavras corretas – É o seguinte: tem algumas garotas que são tão fortes... Quando digo fortes quero dizer com personalidade forte... – Paloma assentiu – E elas são tão fortes que acabam assustando os rapazes. Entende? – Paloma estava confusa demais para entender qualquer coisa, mas concordou assim mesmo – Você sabe como é, eles tem aquela mania de sempre estar por cima, de ser o líder da relação e quando veem uma mulher poderosa, acabam se assustando.

Quer dizer que era aquilo? Não acreditava no que acontecera... Se Leandro estivesse apenas com medo dela, o problema seria facilmente contornado. Acabara ficando mais feliz com os conselhos de Maria.

- Obrigada amiga. – Paloma abraçou Maria com um sorriso estampado na cara.

Maria estava se sentindo péssima naquele momento, mas precisava parecer feliz. Não fazia ideia por que Leandro dissera aquilo sobre o problema ser dele, ela, porém, não poderia ficar parada vendo sua amiga sofrer. Era necessário que ela tomasse alguma providência e aquilo fora o que passara primeiramente por sua cabeça. Rezava para uma das duas opções estar certa.


IV


- Oi gata! – disse JP.

- Oi lindo. – respondeu Maria dando-lhe um selinho.

- Então, o que você me diz do nosso jantar no sábado? – perguntou com as mãos escondidas nos bolsos da calça.

- Uma palavra: perfeito. – sorriu.

- Quer dizer que mereço um beijo então? – perguntou com um sorriso marcado nos lábios.

- Merece, — deu-lhe um beijo na bochecha – mas não abusa.

- Poxa gata! Mereço mais que isso!

- Não enche garoto! – deu-lhe as costas.

- Não enche é? – um sorrisinho safado tomou a expressão do garoto.

JP segurou a cintura de Maria e girou-a de tal modo que suas bocas se encontraram.

Era incrível como aquele garoto conseguia mexer com ela. João Paulo era totalmente diferente do que Maria acreditava. Mas será que era verdade mesmo? Dizem que depois da tempestade vem a calmaria, mas nunca mencionam que depois da calmaria também vem a tempestade. Tudo estava indo tão bem em sua vida... Encontrara um rapaz romântico, perfeito... Ah! – suspirou – Ele estava conseguindo fazer com que ela se apaixonasse por ele, mas a ideia de que ele era só mais um mulherengo não saia de sua cabeça.


V


- Muito bem, caros alunos – disse Osmar – dando início ao nosso último dia de audições, quem será o primeiro a tentar?

Paloma levantou a mão determinada.

- Eu professor. – disse já se encaminhando para o palco.

- E o que a senhorita irá cantar?

- Bem, antes de anunciar o título da música queria fazer uma dedicatória.

- Pois faça, então. – permitiu o professor curioso. Será que era para ele? Por todo o trabalho que teve para tirar aquelas pobres crianças da lama da falta de cultura e ensiná-los a magnífica arte de cantar, merecia uma dedicatória.

- Quero dedicar essa canção a um garoto muito especial – olhou para Leandro, este se encolheu na cadeira – e gostaria de dizer a ele que não precisa se preocupar; já entendi o problema dele. – sorriu, o rosto do rapaz estava em chamas.

Ninguém entendeu o que ela quis dizer, apenas Maria que também se encolhera na cadeira. Por favor, que ele realmente esteja apenas com medo de amar.

- Ótimo senhorita, — escondeu a decepção na ironia – qual será, então, a sua canção?

- “Medo de amar” da Adriana Calcanhotto.

- Cante! – disse Osmar.

Paloma acenou para o violinista.

Um esboço de sorriso em seu rosto e as mãos timidamente para trás.


[Medo de amar (Adriana Calcanhotto) – Paloma]


Você diz que eu te assusto
Você diz que eu te desvio
Também diz que eu sou um bruto
E me chama de vadio
Você diz que eu te desprezo
Que eu me comporto muito mal
Também diz que eu nunca rezo
Ainda me chama de animal

Você não tem medo de mim
Você não tem medo de mim
Você tem medo é do amor
Que você guarda para mim
Você não tem medo de mim
Você não tem medo de mim
Você tem medo de você
Você tem medo de querer.

Você diz que eu sou demente
Que eu não tenho salvação
Você diz que eu simplesmente
Sou carente de razão
Você diz que eu te envergonho
Também diz que eu sou cruel
Que no teatro do teu sonho
Para mim não tem papel

Você não tem medo de mim
Você não tem medo de mim
Você tem medo é do amor
Que você guarda para mim
Você não tem medo de mim
Você não tem medo de mim
Você tem medo de você
Você tem medo de querer...

Me amar (bis).


Aplaudiram. Ela realmente cantara bem, mas ainda faltava-lhe algo.

- Ótimo! – Osmar anotou algo – Mas alguém ou posso encerrar as audições?

- Eu! – Talita levantou a mão.

- Uhm... – disse Osmar com um sorriso no canto da boca – Já estava sentindo falta de sua voz, Talita...

- Estive preparando uma surpresa professor. Queria cantar uma música perfeita nessas audições.

- Parece que todos hoje estão preparando surpresas... – resmungou Osmar. Será que pelo menos aquela seria para ele? – E para quem é a surpresa?

- Quando eu cantar, a pessoa vai saber. – sorriu enquanto olhava fixamente para o professor.

- Qual será a música então?

- “Hino ao amor” da eterna diva Maysa.

- Ótima escolha. – Osmar largou o lápis que segurava na cadeira ao seu lado e debruçou-se sobre o encosto, se bem conhecia sua aluna, não precisaria fazer nenhum tipo de anotação.


[Hino ao amor (Maysa) – Talita]


Se o azul do céu escurecer
E a alegria na Terra fenecer
Não importa, querido
Viverei do nosso amor.


Os olhos de Fernando encheram-se de lágrimas. Os dela também, mas isso não fez com que desafinasse ou tivesse qualquer problema vocal.


Se tu és o sol dos dias meus
Se os meus beijos sempre foram teus
Não importa, querido
O amargor das dores desta vida

Um punhado de estrelas no infinito irei buscar
E a teus pés esparramar
Não importa os amigos, risos, crenças e castigos
Quero apenas te adorar.


Maria olhou para JP, que estava ao seu lado. Deu-lhe um beijo.


Se o destino então nos separar
Se a distante morte te encontrar
Não importa, querido
Porque morrerei também

Paloma olhou para Leandro. Ele parecia nervoso e chateado. Será que fizera certo cantando aquela música para ele?


Um punhado de estrelas no infinito irei buscar
E a teus pés esparramar
Não importa os amigos, risos, crenças e castigos
Quero apenas te adorar

Quando enfim a vida terminar
E dos sonhos nada mais restar
Num milagre supremo
Deus fará no céu eu te encontrar.

Talita sorriu docemente. Uma lágrima apaixonada saltou-lhe.


Notas finais
Então, o que acharam?
Vou deixar um presente:
SINOPSE DO PRÓXIMO EPISÓDIO:
Ep12 - O manuscrito
Fernando e Talita encontram um livro onde Osmar escreve suas memórias. Quais serão os grandes segredos desse misterioso professor?
Té semana que vem! o/
Baixe as músicas do episódio:
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