Cante!
10 Ep09 - Ti ti ti
Notas iniciais
Débora encontra uma nova forma de tentar roubar a coroa da Rainha Tiffany: espalhando boatos! Enquanto isso, no coral, duas alunas disputam pelo posto de mais talentosa.
Baixe as músicas do episódio:
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EPISÓDIO 09
TI TI TI
I
Renan estava extremamente satisfeito consigo; passara grande parte das férias trabalhando na entrevista com Fernando “Empreguete”, mas o tempo gasto gerou bons frutos; a matéria ficara perfeita.
Era o primeiro dia de aula do segundo semestre e ele caminhava a passos largos até a sala onde era realizada a edição do jornal, afinal, naquele mesmo dia a matriz seria levada para a gráfica. Caminhava mais rápido agora; não podia perder a oportunidade de ter sua primeira matéria de capa – seus olhos reluziram quando olhou para a folha em suas mãos -, ainda mais sendo um trabalho tão bom quanto aquele. Dera muita sorte de ter sido escalado como repórter responsável pela cobertura da abertura da XIII Semana de Artes.
Abriu a porta lentamente. Dentro da apertada sala, cinco alunos discutiam a pauta e alguns ajustes finais que seriam feitos naquela edição. Renan dirigiu-se a Roger, aluno do 3º ano e editor-chefe do jornal naquele ano.
— Roger, a matéria da abertura da Semana de Artes e uma entrevista exclusiva com Fernando Empreguete. – passou a folha ao rapaz que a examinou rapidamente.
— Muito bem Renan – disse sem parecer se importar com o trabalho do garoto – Sua matéria ficará na 2ª página do jornal. – pegou alguns recortes que estavam em cima de sua mesa e os colocou cuidadosamente sobre uma folha branca, como se estivesse montando um quebra-cabeça.
— Como? – disse confuso – Mas todo ano a matéria sobre a Semana de Artes fica na capa. Porque não esse ano que ocorreu algo tão original?
— Você não soube ainda? – não tirava os olhos de sua mesa.
— Saber do que?
— A Débora, do 1º ano, me concedeu uma entrevista exclusiva contando os grandes podres da Tiffany.
— Quê? – Renan gritou; todos pararam para ver o que acontecera com ele.
II
Como sempre, o diretor atrapalhando meus planos – Osmar caminhava pelo corredor. Minhas férias de seis meses já estavam muito bem planejadas e ele me vem com essa história de Festival de corais... Se pudesse o matava; não é a primeira vez que ele me arranja problemas – pensava furioso. Primeiramente, queria que entrassem alunos no coral, o que não foi de grande perda; muitos dos alunos eram bastante talentosos, e os que não eram, o talento de Osmar tratou de encaminhá-los. Depois, obrigou-o a aceitar Tiffany e Pedro; não podia negar que Tiffany evoluíra no canto e dançava bem, mas Pedro continuava uma desgraça. Tinha agradecido por ter se livrado da Semana de Artes e agora ele inventara aquilo? Queria lhe endoidecer na certa.
Poderia recusar, logicamente; aquilo, porém, poderia fazer com que seu bônus de participação no programa de artes fosse cortado e mais algumas aulas pela madrugada poderiam ser adicionadas ao seu currículo. O melhor, pelo menos por enquanto, seria continuar como estava. Talvez com o tempo pensasse em algo.
Osmar olhou novamente para a folha que estava em suas mãos. Aquilo doeria mais nele do que em qualquer outro, mas era necessário. Fixou o papel em frente ao bebedouro.
“AVISO!
Informo que o Coral do Colégio Augusto dos Anjos voltará a suas atividades normais a partir do dia 07/08/2012, terça-feira. O local e horário dos ensaios permanecerá inalterado: Auditório às 14hrs.
Atenciosamente,
Professor Osmar Camelo, coordenador do coral.”
III
— Oi. – disse Fernando.
— Oi. – Talita assustara-se com a chegada repentina do rapaz – Tudo bem?
— Tudo ótimo. Como foram as férias?
— Ótimas! Pude descansar o suficiente para que meu talento voltasse divinamente para o nosso segundo semestre. – sorriu – Já viu o aviso do Osmar?
— Sim. – disse impaciente – Você, pelo visto, ficou feliz hein?
— Ainda pergunta? Lógico. Agosto não poderia começar com notícia melhor. – percebeu que ele estava estranho – Você não?
— Fiquei feliz também. – sorriu amarelo. Queria dizer algo a ela, mas faltava-lhe coragem. Não parava de mover os pés e as mãos. A garota percebeu a inquietude do rapaz.
— Você tá bem? – perguntou preocupada – Precisa de algo?
— Preciso sim! – num impulso de coragem – Olha, nós já nos beijamos algumas vezes e até já saímos juntos. Na primeira vez que nos beijamos você disse que precisava de um tempo para pensar. Bem, já passou um mês e meio e até agora você não disse nada. – estava ofegante; disse isso em ritmo frenético, sem respirar.
Talita assustou-se com a forma com que ele dissera aquilo, fora bem direto.
— Olha Fernando, — puxou-o para um canto para que pudessem conversar mais à vontade – não quero te magoar e para isso preciso ter certeza do que estou sentindo.
— Em um mês e meio você ainda não entendeu? – disse magoado.
— Isso... Digo: nós. É algo complicado que precisa ser pensado muito bem. Se você pudesse esperar só mais um pouquinho ficaria muito agradecida. – o olhar que deu a ele fez o coração do rapaz derreter-se.
— Ok. – tentando parecer imune a ela – Quanto tempo?
— Duas semanas. Pode ser?
— Tá bom.
Ele saiu o mais depressa que pôde. Ela precisava ficar sozinha naquele momento.
Já sabia o que sentia por ele, mas ainda não tinha achado coragem ou o momento certo para o desabafo. Observou-o até que desaparecesse de sua vista.
[Piscar o olho (Tiê) – Talita]
Foi só piscar o olho
E eu me apaixonei enfim
No meio da fumaça
Ele também gostou de mim
O tempo foi passando
E o nosso amor saiu do chão
E eu fiquei tão grande
E mastiguei meu coração
Dessa vez não tive medo
Mesmo assim não disse "sim"
Percebi o percevejo
E deixei cravado em mim
Ela estava apaixonada?
Só eu sei o que é melhor pra mim
Às vezes é mais saudável chegar ao "sim"
Chegar ao "sim" (bis).
IV
— Meus caros alunos – disse Osmar tentando parecer acolhedor enquanto os alunos entravam no auditório – estava sentindo a falta de vocês – só se fosse a falta de talento deles -, mas nosso querido diretor conseguiu um novo motivo para nos manter unidos – sorriu, mas passava longe de ser ator; queria mesmo era envenenar o diretor por ter lhe metido em mais uma enrascada; quem sabe chumbinho no seu café. – Agora, então, teremos que voltar a ensaiar. Não se preocupem; nossa rotina de ensaios continua a mesma. Mas hoje estava pensando em fazer algo diferente, talvez como uma demonstração. – ninguém prestava atenção no que ele dizia, Pedro jogava no celular, Tiffany cerrava as unhas e Leandro quase dormia — Então, há alguém interessado em nos mostrar do que se trata a verdadeira música brasileira?
Talita levantou o braço. Annah levantou-se e subiu ao palco.
— Querida, — disse Talita – você não tem educação não?
— Oi? – Annah fingiu que não ouviu – Desculpe, mas acho que a gordura nas suas cordas vocais deixa a sua voz um tanto incompreensível – Talita ficou vermelha de raiva, bufou – Mas não se preocupe professor, Annah aqui mostrará o que é música para meus queridos colegas e para a baleia ali.
— Professor, o senhor certamente não vai querer que a cabelo de ovo nos demonstre. A menos que o conceito de MPB tenha se reduzido a axé – Annah sentiu-se ofendida.
Osmar estava adorando assistir aquilo. Precisava lembrar de pedir ao diretor para mandar instalar uma pipoqueira no auditório. Aquilo estava fervendo e uma pipoquinha cairia muito bem.
Todos pararam o que estavam fazendo e prestavam atenção nas duas.
— Hipopótamo, presta atenção! Nosso amado professor é a favor de todo estilo de música. Não viu a escolha de repertório dele para a Semana de Artes?
— Na verdade, — interrompeu Leandro – tecnicamente, ele foi obrigado.
— Deixem eu me apresentar logo! – Annah posicionou-se ao centro do palco.
Talita subiu apressadamente.
— Você só canta aqui por cima do meu cadáver.
— Você pode esperar um segundo? – disse a outra ironicamente – Vou chamar um guindaste pra levantar o teu cadáver.
Os olhos de Talita encheram-se de ódio. O mesmo com os de Annah. Osmar levantou e interpelou:
— Acho a determinação de vocês inspiradora – pausa – Porque não utilizamos essa rivalidade toda em algo que beneficie o grupo?
— Aonde o senhor quer chegar professor? – perguntou Talita pronta para arrancar o cabelo da adversária.
— Porque não fazemos um duelo entre as duas?
— Duelo? – perguntaram em uníssono.
— Sim. – seus olhos brilhavam – as duas cantariam e nós teríamos nossa demonstração.
— Aceito. – disse Annah – Mas não sei se a baleia encalhada aí vai ter coragem de me enfrentar...
— Terei todo o prazer em te esmagar com o clássico de Elis Regina “O bêbado e a equilibrista”, querida. – disse a outra arrogante.
— A música será escolhida por mim, Talita – disse Osmar – E para que nenhuma das duas seja prejudicada, optarei por algo que não está no repertório de nenhuma. — Osmar ficou calado por alguns segundos para manter o suspense – Escolherei, então, o hit do fim dos anos oitenta que vive agora como hit dos karaokês de esquina: a lambada “Chorando se foi” da Banda Kaoma.
— Amo essa música. – sussurrou Maria.
— Ótima escolha professor, — disse Annah – a hipopótamo vai saber agora o que é o poder baiano.
— Coitada de você – esnobou – Não enxerga a coitadinha. Você sim vai saber o que é talento e uma voz perfeita.
— Minha voz é perfeita, Orca.
— Pelo menos não erro os sustenidos. – comentou Talita com desdém.
— Sustento muito bem. A propósito, pra quando é o bebê?
Talita ficou irada e partiria para cima da garota se Osmar não tivesse se posicionado entre as duas.
— Então minhas caras, excepcionalmente, quinta-feira, às 14hrs, nesse auditório, assistiremos as duas se enfrentando com “Chorando se foi”.
“Vou fazê-la em pedaços.”, pensou Annah. “Ela nem chances têm”, pensou a outra.
V
O dia de Tiffany fora bem cansativo: pela manhã, aula, e à tarde, o ensaio normalmente chato do coral, mas que lhe surpreendera hoje. Havia amado ver o barraco entre Talita e Annah. Agora, não via a hora de chegar a sua casa e descansar na sua cama.
Passava pelo corredor que dava acesso à entrada principal do colégio. Avistou um garoto do jornal entregando o exemplar mensal, não lhe deu muita importância. Apenas aceitou o papel quando lhe ofereceu. Provavelmente, não havia nada demais; aquele não era mês que saía parcial da votação da Rainha, seria apenas dali a dois meses.
Elevou o jornal até a altura dos olhos e ficou assustada com o que leu: “Débora Sousa, 1º ano, revela ‘podres’ da Rainha Tiffany Mendonça”. Não acreditava no que estava lendo... Como Débora pode ser tão baixa? Já mostrara ser indigna de sua confiança, mas chegar àquele ponto? Inventar boatos sobre ela? Já era demais. Precisava ter um acerto de contas com sua ex-melhor amiga.
Não demorou muito para encontrá-la; sabia que a garota estaria na cantina.
— Sabia que você viria me procurar. – disse Débora num tom de deboche levantando os óculos escuros.
— Como você pode fazer isso? – mostrou o jornal.
— Contei apenas o que sabia, queridinha – tomou um generoso gole do seu suco de laranja.
— Você sabe muito bem que a maioria das coisas que está aqui não é verdade. – Tiffany a desprezava agora mais do que qualquer outra coisa.
— Mas algumas são. – disse calmamente.
— Olha aqui, sua puta, fui muito paciente com você, mas se você não parar com essa sua obsessão idiota, vou ter que descer ao seu nível...
— E o que seria descer ao meu nível? – desafiou.
Tiffany colocou os óculos e disse antes de sair:
— Não perco meu tempo com pessoas pequenas como você.
Deu dois passos e Débora gritou para uma garota que estava do outro lado da cantina:
— Mariana! Já leu o jornal do colégio desse mês? Tá muito interessante! Aposto que você vai amar.
Tiffany virou-se e encarou Débora com fúria.
[Tititi (Rita Lee) – Tiffany e Débora]
Tiffany conseguia ouvir as pessoas rindo e caçoando dela.
TIFFANY:
Se pintar um negócio na China
DÉBORA:
Corre e vê se eu estou lá na esquina
TIFFANY:
E se estiver, vê se me deixa em paz
Eu quero mais ficar bem longe desse
JUNTAS:
Tititi
DÉBORA:
Pouco milho pra muito bico
Muita caca pra pouco penico
TIFFANY:
Não vou procurar sarna pra me coçar
Então desgrude e vai à luta e chega de
DÉBORA:
blá blá...
TIFFANY:
Volta e meia, meia volta, volver (DÉBORA: uhu...)
Saio de fino pra ninguém perceber (DÉBORA: Uhu, uh...)
Essa galinhagem é mais chata que gilete
Nada mais furado do que
JUNTAS:
Papo de tiete
DÉBORA:
Volta e meia, meia volta, volver (TIFFANY: uhu...)
Saio de fino pra ninguém perceber (TIFFANY: Uhu, uh...)
Essa galinhagem é mais chata que gilete
Nada mais furado do que
JUNTAS:
Papo de tiete
TIFFANY:
Tititi,tititi,tititi,
DÉBORA:
Tititi,tititi
JUNTAS:
Papo de tiete
TIFFANY:
Tititi, (DÉBORA: Uhu...)
Tititi, (DÉBORA: Uhu…)
Tititi,(DÉBORA: Uhu, uhu...)
JUNTAS:
Papo de tiete.
VI
— Então, — disse Fernando sentando-se – ansiosa para o duelo?
— Ansiosa para humilhar a Annah isso sim. – respondeu Talita com determinação.
O rapaz havia a convidado para tomar um suco na cantina.
— Você acha mesmo que vai arrasar cantando lambada? Você sabe: a Annah arrasa nessas músicas mais... Sensuais.
— Você por acaso tá dizendo que eu não tenho sensualidade? – perguntou um tanto ofendida.
— Não! – preocupado – É só por que nunca te vi cantando uma música mais animada antes... Não to falando dos números em grupo, mas solos. – ela tentava entender o raciocínio dele – Você nunca cantou um rock, sei lá... Essas músicas mais agitadas – tomou um gole – Até na Semana do Luiz Gonzaga, você cantou um reggae.
— Entendo aonde você quer chegar... Mas não se preocupe; — apertou a mão dele – sei me cuidar e, além do mais, Annah não tem a potência vocal que tenho, muito menos a técnica.
— Espero que você esteja certa... – brincou com o copo.
Os olhos dela brilharam. Ele parecia mesmo se preocupar com ela. Talvez aquela fosse a hora perfeita para dizer-lhe o que sentia... Não tinha tido uma oportunidade adequada desde quando voltaram das férias e aquela parecia ideal; estavam sozinhos. Sim! Era o momento perfeito.
Concentrou-se. Ela precisava dizer as palavras certas para não deixar nenhuma dúvida. Respirou fundo. Ele continuava brincando com o copo, ela formulava a frase. As palavras, ou melhor, seus sentimentos queriam sair pela boca.
Concentrou-se ainda mais. Era agora ou nunca! Coragem!
Abriu a boca, mas nada saiu. Ele não percebeu; estava muito atento ao seu brinquedo.
— Eu... – disse em tom muito baixo, quase inaudível.
— Eu preciso ir para a sala. – disse ele levantando-se. – Te vejo no coral. Boa sorte com a música.
— Ok! – ela sorriu amarelo.
Droga! Agora era muito tarde. Teria que esperar outra ocasião como aquela. Tomara que não demorasse tanto, tudo aquilo estava lhe dando um nó na garganta.
Foco! Você tem um duelo a vencer.
***
Tiffany jogara a bolsa na cama e estava na mesa do computador lendo o jornal com calma.
Como Débora pôde se rebaixar tanto? Contar tantas mentiras só para lhe roubar a coroa?
Qual era, afinal, a importância de tudo aquilo? Tiffany não tinha mais amigos e talvez perdera a oportunidade de ter algo muito especial com alguém. E tudo por causa daquela maldita coroa! Será que tudo aquilo valeria a pena? Magoar e passar por cima das pessoas só por reconhecimento? Onde tudo aquilo acabaria?
Quem sabe Pedro sempre estivera certo em não ligar para popularidade; aquilo poderia ser apenas uma convenção idiota. Convenção que estava estragando sua vida...
Mas quem seria sem a popularidade? Ela era definida por ser popular... A popularidade era intrínseca a ela, ou seria o contrário? Ser popular era sua grande “qualidade”. Ou seria seu grande defeito? Era só isso que existia nela? Bem, era só isso que as pessoas sabiam que havia nela.
Quando isso aconteceu? Quando ser popular passou a ser seu grande objetivo? Talvez fosse fruto da sua infância, mas não queria pensar nisso agora; a entrevista de Débora deixou-a triste demais e se fosse lembrar tudo aquilo acabaria deprimida...
Como Débora pôde fazer aquilo? Leu em voz alta:
— “Tiffany sempre se faz de legal e atenciosa na frente das pessoas, mas, na realidade, ela é uma cobra! Não consigo lembrar todas às vezes que ela tesourou ou alfinetou alguém. [pausa] Ela gostava muito de comentar roupas, e sempre dizia: ‘a fulana deveria ser presa por usar roupa tão cafona!’ A VOZ DO AUGUSTO DOS ANJOS: E porque vocês duas não são mais amigas? DÉBORA: Olha, vou ser sincera com você. Cansei dessa vida de ódio e inveja que ela vive. Fui amiga dela durante três anos e já estava cansada de aguentar tudo aquilo calada. [pausa] Tiffany é muito assim: ela te dá um abraço e te chama de amiga e quando você dá as costas ela mete a faca. E outro motivo por que nos afastamos foi por que percebi que o Augusto dos Anjos merece uma rainha melhor que ela, alguém mais verdadeira, que realmente entenda e goste dos outros alunos. Foi aí que me distanciei dela: quando decidi tornar minha campanha à Rainha 2012 algo real. Ela até tentou me procurar depois, mas recusei.”
Como ela conseguia ser tão cara de pau? Ela nem mencionou todas as armações que fez, nem a inveja que ELA sentia de Tiffany. A próxima linha, porém, deixou Tiffany mais enfezada.
“VAA: Já que você conviveu tantos anos com a Tiffany, sabe algum podre dela? D: Ela traiu o Pedro com o Márcio, mas acho que todos já sabem disso. Agora um podre... [pausa] Ela tem umas manias bem estranhas [risos] tipo: ela come um pouco de esmalte antes de fazer as unhas dos pés... E, por falar em pés, ela nunca faz a unha do dedão do pé esquerdo. Parece que ela tem um fungo na unha e não pode passar nenhum produto em cima. Normalmente ela só fica com caras mais velhos que ela... VAA: Mas ela e o Pedro não tem a mesma idade? D: Mas aí foi diferente; ela só ficou com o Pedro por que achava que isso daria a vitória certa para ela esse ano, mas ela com certeza não contava que ele descobriria a traição, que, a propósito, foi um ato que eu desaprovei desde que soube. VAA: Quer dizer que você já sabia de toda essa história?”
Tiffany parou de ler. Não estava aguentando mais ver tanta cara de pau. Aquela vadia ainda vai ter um troco!
O pior é que aquilo afetaria sua campanha. Por que sua campanha era tão importante assim? Foco! Você precisa disso, é assim que você é! Não pode negar suas origens.
Ligou o computador e abriu o facebook.
25 atualizações.
Abriu seu perfil.
“Fala aí dedo podre ahsuahsu”, um garoto postara na sua linha do tempo. Assim como ele, muitos fizeram o mesmo. Comentavam e a xingavam nos grupos. Continuavam marcando-a em postagens ofensivas.
Porque seu ensino médio era assim? Parecia que todos estavam prontos para destruir o colega ao lado no primeiro deslize...
Aquilo não seria nada bom para sua campanha, nada bom.
[Blá blá blá (Rouge) – Tiffany]
A vida é como uma viagem
Sem destino pra chegar
Quando vou partir
Onde vou chegar
Deixa o tempo me mostrar
Gente chata fala à toa
Não tem mais o que fazer
Não preciso de conselho
A minha vida eu vou viver
Na, na, na, na, na, uh, uh, uh
Na, na, na, na, na, uh, uh, uh
Na, na, na, na, na
E todo mundo quer falar
Lenga, lenga, blá, blá, blá
Fala, fala, sem parar
Lero, lero, blá, blá
Não quero ouvir falar (bis).
Quanta gente intrometida
De repente apareceu
Quer saber quem foi, o que aconteceu
Quem ganhou e quem perdeu
Eu tô certa, tô errada
Deixa o tempo me mostrar
Mas ninguém vai me dizer
O que eu devo fazer
Na, na, na, na, na, uh, uh, uh
Na, na, na, na, na, uh, uh, uh
Na, na, na, na, na
E todo mundo quer falar
Lenga, lenga, blá, blá, blá
Fala, fala, sem parar
Lero, lero, blá, blá
Não quero ouvir falar (bis).
Blá, blá, blá, blá,
Blá, blá, blá, blá,
Blá.
VII
— Agora, — disse Osmar no centro do palco – vocês terão a honra de presenciar o primeiro embate do coral do colégio Augusto dos Anjos. Rufos por favor! – o baterista atendeu o pedido; os holofotes foram ligados à meia potência – Do lado esquerdo do palco: Annah. – quase ninguém aplaudiu; ela entrou séria e muito focada, trajava uma saia rodada e uma regata branca, estava descalça – Do lado oposto: Talita. – entrou com os braços erguidos e sorrindo; ninguém aplaudiu – Preparadas? – concordaram – Então, que comece o duelo!
[Chorando se foi (Kaoma) – Annah e Talita]
ANNAH:
Chorando se foi quem um dia só me fez chorar
TALITA:
Chorando se foi quem um dia só me fez chorar
ANNAH:
Chorando estará, ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar
TALITA:
Chorando estará, ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar...
ANNAH:
A recordação vai estar com ele aonde for
TALITA:
A recordação vai estar pra sempre aonde eu for
Annah estava magnífica, dançava pelo palco e fazia sua saia dar piruetas no ar. A concorrente estava mais preocupada em alcançar as notas, portanto, não se movia muito; preferira ficar parada no centro do palco.
ANNAH:
Dança, sol e mar, guardarei no olhar
O amor faz perder encontrar
TALITA:
Lambando estarei ao lembrar que este amor
JUNTAS:
Por um dia um instante foi rei
TALITA:
A recordação vai estar com ele aonde for
ANNAH:
A recordação vai estar pra sempre aonde eu for
TALITA:
Chorando estara ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar
ANNAH:
Canção, riso e dor, melodia de amor
JUNTAS:
Um momento que fica no ar
Aplaudiram.
— Ótimo, meninas! – disse Osmar ainda aplaudindo – Vocês foram ótimas ao seu jeito. Annah, como sempre, você nos divertiu muito com seu espetáculo, ainda precisa treinar impostação e respiração, mas isso você aprenderá com o tempo. Talita, você foi impecável, vocalmente falando, mas tenho uma dica para você: da próxima vez, procure se divertir mais; parecia que você estava cantando “Chorando se foi” no funeral da Elba Ramalho. E é claro que a Annah era o espírito da Elba que voltou depois de tamanha afronta. – a garota sorriu; Talita manteve a expressão sisuda.
— Certo, professor! – interrompeu Talita – Mas qual de nós duas foi melhor?
— É... – concordou a outra – Qual foi melhor?
— Bem... – Osmar ponderava – Considerando a apresentação em si e o canto, para mim, quem se saiu melhor foi...
“Finalmente vou poder humilhar essa favelada”, pensou Talita. “A pobre da baleia vai se afogar na própria gordura de tanto mau gosto”, refletiu Annah.
O professor demorava a tomar sua decisão, todos ficavam impacientes.
— Bem... – disse subitamente – para mim, então, a melhor foi Annah.
Aplaudiram. Não pela vitória, mas por costume.
Talita estava decepcionada, fora humilhada mais uma vez por aquela Severina “dos” inferno. Não merecia aquilo! Talvez a garota precisasse de um novo corretivo...
VIII
Tiffany estava no facebook observando o que ainda comentavam sobre o jornal. Parecia que haviam esquecido; os comentários em grupos e as postagens na sua linha do tempo diminuíram. Agradeceu aos céus.
Ainda bem que aquilo passara. “Os boatos tem vida curta”, refletiu. Mas toda aquela traição de Débora ficara entalada em sua garganta. Precisava encontrar uma maneira de reverter aquilo a seu favor... Primeiro, deveria ligar para Roger e pedir direito de resposta; segundo, agora, mais do que nunca, desejava se vingar de Débora. Aquela vadia iria saber o que significa mexer com a reputação de Tiffany Mendonça.
***
Fernando procurava Talita como um desesperado; algo lhe dizia que ela iria aprontar com Annah novamente, e dessa vez ele não estava disposto a arriscar seu pescoço por ela. Uma vez tudo bem, mas cometer o mesmo erro duas vezes era burrice. Talvez ela não fosse a garota perfeita que ele achava.
Andava correndo, literalmente, atrás dela nos últimos meses. Lembrou-se de algo que sua avô dizia: “O que é oferecido não tem valor”. Talvez a garota não desse valor a ele mesmo. Deve ser por isso que ela está demorando tanto a lhe dizer o que está havendo entre eles...
Parou de correr pelo colégio; ela não merecia aquele esforço. Se for fazer besteira outra vez que faça! Mas que não contasse com o apoio dele.
Talvez por ironia do destino, Talita surgiu a sua frente. Ele não suportou a tentação, foi falar com ela.
— Oi Talita. – procurava manter-se sério.
— Oi Fernando. Tudo bem? – ela pareceu não se importar tanto com a presença dele. Definitivamente, ele era um idiota! Estava ali quase se jogando aos pés dela e ela nem se importava.
— Tudo. E você? – procurou sorrir, mas seus olhos mostravam a decepção.
— Tô ótima. – sorriu. Ele estava estranho, e ela envergonhada, por isso, não conseguia olhar-lhe nos olhos. Quando teria coragem de colocar tudo para fora?
— Sabe, — disse ele – vim te procurar por que tô preocupado contigo. Algo me diz que você vai aprontar alguma...
— Como assim? – disse desconfiada.
— Não sei. É como um pressentimento. Mas quero que me prometa — segurou as mãos dela. Nossa! Como era difícil ficar perto sem que seu coração acelerasse – que você não vai fazer nada com a Annah. Desde cartazes oferecendo programas eróticos até atirá-la num poço de ácido sulfúrico.
— Não tinha pensando em ácido sulfúrico ainda. Boa ideia. – irônica.
Ele arregalou os olhos. Ela riu.
— Não se preocupe não vou fazer nada disso com ela. – percebeu-se um ar de mistério em sua voz.
— Como assim? – disse ele preocupado; de alguma maneira que ele ainda não entendia, sentia-se um pouco responsável por ela – Você vai fazer algo né?
— Calma! – ela apoiou as mãos no peito dele tentando cessar aquele ataque de pânico – Você vai saber o que eu vou fazer...
Moveu-se, ele a seguiu.
— Talita, me explica isso direito! – disse quase gritando; estava claro que ela ia aprontar outra, ele estava desesperado.
O sinal de fim do intervalo tocou.
— Tenho aula agora querido, depois a gente se fala. – beijou o dedo indicador e o passou nos lábios dele.
Entrou na sala.
Droga! Estava tudo perdido.
***
Débora acomodou-se na cantina. Seu suco de laranja ficou pronto rapidamente daquela vez.
Observou ao redor. Vários alunos conversando, mas nenhum deles parecia notar que ela estava ali. “Parece que já esqueceram os boatos da Tiffany”, murmurou. Precisava dar continuidade ao seu plano, agora que a fase um fora estupenda! Com sorte, aquela entrevista faria com que ela ultrapassasse Tiffany, mas, infelizmente, só teria noção disso na próxima parcial da votação que sairia dali a dois meses.
Mexeu o suco. Tomou mais um gole. Analisou o copo meio vazio. Precisava, porém, garantir sua vitória e, para isso, Pedro era uma peça fundamental. Seu próximo passo já estava planejado: envolver-se de alguma forma com Pedro. Tiffany tentara isso, mas não dera certo; fora muito burra e deixou-se envolver pelo rapaz. Mas o que existiria entre Débora e Pedro seria apenas para fins de popularidade, de sua popularidade, quer ele saiba disso ou não...
Parece que a sorte estava do seu lado... O rapaz acabara de entrar na cantina.
IX
O sinal que anunciava o fim das aulas do dia soltou o tradicional ruído esganiçado. Os alunos saíram das salas aos bandos.
Talita saiu apressada. Precisava encontrar Annah, se não fosse agora, talvez não fosse nunca mais.
A nordestina saiu da sala. Talita cutucou-lhe o ombro. Virou-se.
— O que é jubarte? Resolveu encalhar de vez na minha vida foi?
Talita respirou fundo e repetiu várias vezes para si: “Você está calma! Você está calma!”
— Queria conversar contigo Annah, é um assunto importante...
— Comigo? Que foi? Não consegue alcançar o absorvente e agora ele tá ensopado de gordura?
Você está calma! Você está calma!
— Não! Na verdade, queria te pedir desculpas.
— Oi? – os olhos de Annah tremeram rapidamente, Talita conseguira desarmá-la.
— Queria te pedir desculpas pela “brincadeira” que fiz contigo semestre passado e por qualquer outra coisa que tenha acontecido entre nós...
Annah separou os lábios, nenhum som, porém, saiu.
— Ainda não tinha tido oportunidade – continuou Talita – de me desculpar pessoalmente. Sei que você poderia ficar com raiva de mim para o resto da sua vida – segurou as mãos dela – Mas gostaria que você aceitasse essas desculpas. É de todo o coração.
Os olhos das duas estavam marejados. Annah não tinha palavras para expressar a admiração que sentia por Talita naquele momento. Sabia como era difícil pedir desculpas, ainda mais quando isso passava por cima do seu orgulho, e ela fizera aquilo de uma forma tão... Bonita.
Talita entendeu o que Annah queria lhe dizer.
— Vem aqui! – disse Talita.
Abraçaram-se. Ficaram assim por algum tempo. Pareciam duas irmãs que não se viam a tempo.
— Tá bom – disse Annah secando os olhos – Aceito suas desculpas. – ficaram em silêncio por alguns segundos, talvez uma admirando o talento da outra – Mas que fique claro, — disse séria – que sou muito mais talentosa que você.
— Nem aqui nem na China, querida. – retrucou Talita.
Riram e abraçaram-se novamente.
Notas finais
Não percam o episódio de semana que vem intitulado "A verdade dói?"
Télá! o/
Baixe as músicas do episódio:
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