Cante!
6 Ep05 pt02 - A flor do mandacaru
Notas iniciais
Osmar começa os ensaios com Annah, enquanto isso, porém, Débora e Talita planejam como acabar com seus respectivos inimigos.
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III
Osmar estava animado com sua genialidade. As coisas finalmente voltaram aos seus devidos lugares; Talita havia parado de perturbá-lo, encontrou sua solista e não via Vivian há dias, e o mais importante de tudo: sua criatividade voltara com potência máxima; a audição de Annah, que mostrara toda a força nordestina – talvez era isso que faltava nos outros alunos, nenhum deles cantou com a garra que é intrínseca ao Nordeste, ou com a angústia pelo trauma das secas misturada ao humor nato daquela região -, inspirou-lhe e, agora, sua mente fervilhava com ideias. Assim como a flor do mandacaru anuncia que a chuva está chegando ao sertão, a chegada de Annah trouxe-lhe uma chuva de ideias. Aquilo lhe deixava mais animado ainda e fazia-o lembrar dos seus momentos gloriosos... Não! É melhor deixar o passado no passado, afinal, um dos maiores erros do homem é viver do passado e não do presente. Deveria, agora, concentrar-se na apresentação da Semana de Artes que já estava se aproximando.
IV
Fernando, Maria e Paloma conversavam sobre o coral na sala durante o intervalo:
— O que vocês acharam da garota nova? – perguntou o rapaz sentado sobre uma mesa.
— Ela parece legal – respondeu Paloma – e, pela maneira como o Osmar a aplaudiu, ela realmente possui o espírito nordestino que ele tanto falou.
— Verdade. – continuou Maria – Nunca o vi tão animado com alguma coisa. Os olhos dele brilhavam enquanto ela cantava.
— Ela realmente parece legal – completou Fernando -, mas “tô” preocupado com a Talita, ela não pareceu estar muito bem depois da audição.
Maria olhou de relance para a porta e viu Talita passando.
— Por falar nisso, lá vai ela. – apontou.
— Vou lá falar com ela. – disse o rapaz pulando da mesa e correndo para alcançá-la.
As duas observavam tudo.
— Pa, você tá pensando o mesmo que eu?
— Com certeza.
Entreolharam-se e começaram a rir.
***
Fernando precisou correr um pouco para alcançar Talita; apesar de pequena, andava rápido.
— Talita. – disse tocando o ombro dela.
Ela virou. Trajava um vestido preto que passava dos joelhos, Fernando teve vergonha de perguntar, mas não sabia se ela usara sombra preta em todo o olho, ou estava com enormes olheiras.
— Oi. – respondeu apática.
— Você tá bem? – preocupava-se com ela.
— Se estou bem? Eu pareço bem? – disse em um ímpeto de fúria – Você sabe por que estou de preto hoje? – ela estava o assustando, ele não teve nenhuma reação – Como poderia saber né? Você também estava aplaudindo a jararaca nordestina. Bem, para sua informação, estou de luto; luto pelo enterro do meu talento, que você e todos os outros membros do coral ajudaram a matar ao aplaudir aquela... Aquela... Aquela víbora da peste. Sabe o que é isso? – apontou para os olhos escuros – São olheiras de uma noite sem dormir. Eu... Eu... – entregou-se ao choro, lágrimas despencavam por suas gordas bochechas – Eu... Só queria... Eu só queria aquele solo – soluçava.
Fernando abraçou-a e deu leves batidinhas nas costas dela, enquanto ela repousou sua cabeça sobre o ombro dele.
Ficaram assim por longos minutos.
V
Chegara novamente a terça-feira. Ensaio do coral.
Osmar chegou dez minutos atrasado, trazendo consigo um envelope. Dali de dentro tirou algumas partituras e as distribuiu entre os alunos. Por fim, sobrou apenas uma.
— E essa é da nossa querida solista Annah. – disse sorridente.
Todos abriam e procuravam entender suas partes. Talita estava de cara fechada e nem mesmo tocou na sua.
— Bem crianças, — disse o professor chamando a atenção dos alunos – começarei explicando a parte dos meninos, depois das meninas e, por fim, o solo. A propósito, Annah, você poderia ficar hoje um pouco mais tarde para estudarmos técnica vocal?
— Claro professor.
“Técnica vocal?”, pensou Talita, “para aquela garota, somente um milagre vocal surtiria efeito”.
***
[Severina xique-xique (Genival Lacerda) – Annah e coral]
Formavam casais. Annah cantava sozinha, passeando por entre os casais, como em uma quadrilha junina.
ANNAH:
Quem não conhece Severina Xique-xique,
que montou uma butique para vida melhorar.
Pedro Caroço, filho de Zéfa Gamela,
passa o dia na esquina fazendo aceno para ela.
TODOS:
Ele tá de olho
ANNAH:
É na butique dela! (4x).
ANNAH:
Antigamente Severina,
coitadinha, era muito pobrezinha,
ninguém quis lhe namorar.
Mas hoje em dia só porque tem uma butique,
pensando em lhe dar trambique,
Pedro quer lhe paquerar, haih.
MENINOS:
Ele tá de olho
ANNAH:
É na butique dela!
MENINAS:
Ele tá de olho
ANNAH:
É na butique dela! (bis).
ANNAH:
A severina não dá confiança, Pedro,
eu acho que'la tem medo de perder o que arranjou.
Pedro Caroço é insistente, não desiste,
na vontade ele persiste, finge que se apaixonou, haih.
TODOS:
Ele tá de olho
É na butique dela! (2ª vez: ANNAH: viu?)
Ele tá de olho
É na butique dela! (bis).
— Muito bem, muito bem. – disse Osmar levantando-se – Apenas algumas observações: Maria, você precisa entrar com mais segurança nos uns; Paloma, cuidado com os semitons, você está subindo um pouco algumas notas e está chocando com a terceira voz; Leandro treine um pouco mais suas notas agudas e exercícios de respiração, você não está conseguindo cantar integralmente os versos mais longos; Annah, precisamos estudar mais as notas agudas e técnicas de impostação de voz. – olhou para o relógio, já eram 15hrs55min – Todos dispensados, menos você, Annah.
A garota e o professor sentaram-se ao piano. Talita observava. Ela precisava fazer algo para dar o troco naquela garota.
VI
Débora ainda não pensara em uma maneira de sair com Pedro. Sentou-se num banco da cantina para pensar em como fazê-lo. Engraçado! Sentia a falta de Tiffany, não somente por que estando perto era mais fácil de sabotar seus planos, mas também por que sentia falta da companhia, das conversas, dos babados... Mas ela tomara sua decisão, não havia mais nenhuma chance de voltarem a ser amigas. Débora passara muito tempo sendo a sombra de Tiffany, o fiel cavaleiro, agora era hora de se tornar rainha.
Voltando ao que era importante: como ela separaria aqueles dois? Nada vinha a sua mente. O que ela sabia de Tiffany que serviria como pivô de uma separação? Tentava puxar os segredos mais sórdidos da ex-amiga à cabeça.
Claro! Lembrou-se de algo que ela lhe confessara há mais ou menos um mês. Aquilo seria perfeito, com certeza Pedro terminaria o que quer que haja entre eles. Precisava, apenas, encontrar uma maneira de fazer com que ele soubesse de tudo, mas sem que ela precisasse se expor. Tomou um gole do suco de goiaba que pedira. Deveria ser prudente, não poderia trocar os pés pelas mãos agora. Sentia cada vez mais a coroa aproximando-se de sua cabeça.
***
Pedro e JP vinham conversando pelo corredor.
-... aí a Tiffany começou a chorar dizendo que a Débora tinha dito pra todo mundo que ela tava no coral... – falava Pedro.
Passaram por Fernando, Maria e Paloma, que também conversavam. JP esticou o pescoço para ter uma visão melhor de Maria. Ela fez o mesmo.
-... ela começou a chorar no meu ombro – dizia Fernando – e eu fiquei consolando-a. Pronto, foi só isso.
— Só isso, é? – disse Paloma irônica – Mas você queria que tivesse acontecido “só isso”?
As maçãs de Fernando avermelharam-se. Ia responder, Maria, no entanto, o interpelou:
— Não precisa dizer nada, aí vem a sua “amiga” – apontou para o outro lado do corredor.
O rapaz dirigiu-se a ela.
— Oi Talita. “Cê” tá melhor?
— Tô sim Fernando. Ah... Obrigada por ter me ajudado semana passada. – abraçou-o.
— De nada. – respondeu tímido – Então, superou a perca do solo?
— Não. E nunca superarei. – ficaram em silêncio, sem saber o que dizer – Posso falar com você em particular?
— Claro.
Talita puxou-o pelo braço até a cantina. Sentaram-se.
— Então, — disse a garota – eu estava pensando em... Como posso dizer? “Me” vingar da Annah.
— Quê? – disse assustado – Você não pode querer se vingar de alguém só por que ela vai cantar o solo de uma música. Você tá ficando doida?
— Doidos estão vocês em aplaudir aquela... Nordestina.
— Epa! Isso é preconceito, sabia?
— Como assim? Não disse nada demais...
— Mas seu tom de voz disse. Ela poderia te processar, se tivesse ouvido, sabia?
— Ok! Vamos deixar esse papo de processo de lado. O fato é que eu ainda quero me vingar dela. – parecia que ela era inflexível.
— Por que você quer fazer isso?
— Porque ela roubou o MEU solo. Ninguém, naquele coral, é mais qualificado do que eu, muito menos ela, que não tem um pingo de noção de técnica vocal.
— Acho que esse é um motivo muito pequeno para você falar em vingança... – tentava dobrar a moça.
— É porque não foi você que foi humilhado. Se acontecesse contigo, entenderia.
— Acredito que você está dando muita importância para uma coisa ínfima. Vai haver muitas outras oportunidades para você ter um solo.
— Você tem noção que talvez essa seja a nossa única apresentação do ano? O Augusto dos Anjos não tem muitos eventos que envolvam artes e, principalmente, o coral.
Fernando ficou calado; não adiantaria discutir com ela. Despediu-se e saiu.
VII
Annah estava apressada; iria combinar com o diretor o recebimento de seu auxílio-moradia. Estava próxima a diretoria quando seu celular tocou:
— Alô. – atendeu.
— Oi. – disse uma garota – É a Annah?
— Sim. – respondeu não reconhecendo a voz de sua interlocutora.
— Gostaria de saber quanto é o programa.
— Que programa? – suas mãos começaram a tremer.
— Ué. Aquele que você colocou no banheiro feminino. – ficaram em silêncio por alguns instantes; Annah não queria acreditar no que estava acontecendo – Não é você? Mas o celular que tinha no cartaz é esse, tenho certeza.
— Não faço nenhum programa. – disse Annah após mais alguns segundos de apatia.
Encerrou a chamada.
Suava bastante. Aquilo não poderia estar ocorrendo com ela. Não com ela! Já vira acontecer em filmes e era a maior humilhação que alguém poderia passar. Precisava ver aquele cartaz com os próprios olhos. A garota do telefone disse que o vira no banheiro feminino. Correu o mais rápido que pôde.
No meio do caminho, teve que diminuir o passo; um bando de garotos vinha da direção contrária. Um deles apontou para ela e disse para o que vinha a seu lado.
— Olha aí Márcio, não é a Annah Canhão?
Riram. Suas risadas a machucavam, pareciam espinhos que perfuravam seu corpo. Choraria se pudesse, mas chorar era pior. Mais do que nunca, precisava parecer forte.
— Ih... – continuou Márcio torcendo o nariz – Se for até 30, eu pago.
Gargalharam mais alto. Ela não aguentou, continuou correndo.
Passou por entre eles e sentiu todo o escárnio a consumindo por dentro, como veneno. Lágrimas era o antídoto, sabia, mas, definitivamente, deveria ser forte. Lembre-se: o vem de baixo não te atinge! O QUE VEM DE BAIXO NÃO TE ATINGE! Precisou fazer força para conter a água nos olhos. Não! Agora não! Seja forte, você é forte.
Quase chegando ao seu destino, cruzou com Talita. Essa a olhou com um ar superior, um jeito malditamente vitorioso. Annah entendeu tudo. Não seria uma ideia brigar ali e, mesmo assim, não queria. A única coisa que queria naquele momento era alcançar o banheiro. Continuou.
Talita olhou para o outro lado do corredor e viu Fernando olhando-a com repreensão, retribuiu como se quisesse dizer: “ela mereceu”.
Annah finalmente chegou ao banheiro. Entrou e viu uma folha de A4 pregada ao lado do espelho. Por mais que não quisesse lê-la, era necessário. Hesitou algumas vezes, no entanto, chegava cada vez mais perto, até que pôde ver as letras nitidamente.
“QUER SABER O QUE É UMA MULHER MACHO?
Venha descobrir!
Faço programas com homem e mulher. Não se acanhe!
PS: Só me satisfaço com coisas BEM grandes.
Venha conhecer uma legítima cabra-da-peste!
Ligue para Annah Canhão!”
Seu celular encerrava o anúncio... Não sabia o que fazer...
Arrancou a folha da parede. Abriu um Box e sentou-se na tampa da privada. Rios nasceram de seus olhos. Pôs as mãos nos ouvidos querendo esquecer o riso daqueles alunos, mas parecia que eles grudaram em sua mente, e repetiam sem cessar. Queria esquecer Talita, esquecer aquelas pessoas, aquele lugar. Precisava do colo de sua mãe, queria ouvir sua voz. Por que as pessoas são tão más? Será que não existe ninguém bom?
Mas ela era forte, nada poderia derrubá-la, nem mesmo uma jubarte invejosa. Como mágica, o choro cessou e a vergonha deu lugar a algo que não sentia há muito tempo: ódio. Faria algo em relação àquilo tudo. Aquela jumenta não sabia em quem havia pisado.
Saiu do Box. O banheiro continuava vazio. Guardou o cartaz no bolso da calça; ele seria muito útil. Olhou-se no espelho, viu os olhos avermelhados e a maquiagem borrada. Você é forte! Você é forte! Repetia insistentemente.
Parecia que o choro queria voltar; sentiu algo subindo por sua garganta. Você é forte!
[O canto da cidade (Daniela Mercury) – Annah]
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
Saiu do banheiro.
O gueto, a rua, a fé, eu vou andando a pé
Pela cidade bonita o toque do afoxé
E a força de onde vem
Ninguém explica ela é bonita.
Uô ô verdadeiro amor
Uô ô você vai onde eu vou
Uô ô verdadeiro amor
Uô ô você vai onde eu vou
Não diga que não me quer
Não diga que não quer mais
Eu sou o silêncio da noite
O sol da manhã
Mil voltas o mundo tem
Mas tem um ponto final
Eu sou o primeiro que canta
Eu sou o carnaval
Andava por entre os alunos, todos riam e cochichavam, mas parecia que nada poderia atingi-la.
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
Não diga que não me quer
Não diga que não quer mais
Eu sou o silêncio da noite
O sol da manhã
Mil voltas o mundo tem
Mas tem um ponto final
Eu sou o primeiro que canta
Eu sou o carnaval
Uô ô verdadeiro amor
Uô ô você vai onde eu vou
Uô ô verdadeiro amor
Uô ô você vai onde eu vou
Abriu a porta principal do colégio e cantou para que todo o mundo pudesse ouvir.
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
Notas finais
PS: relevem os erros ><, não tive muito tempo para revisar!
Comentem! XD
Até semana que vem! o/
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