Cante!
5 Ep05 pt01 - A flor do mandacaru
Notas iniciais
1ª parte do episódio. Talvez domingo, poste o resto!
Espero que gostem! E comentem!!!
Baixe as músicas do episódio:
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EPISÓDIO 05
A FLOR DO MANDACARU
I
Osmar estava de mau humor. Por algum motivo sobrenatural, seu despertador o acordou 15 minutos antes do programado, e 15 minutos para um intelecto criativo como o dele faziam grande diferença. Provavelmente passaria o dia com as têmporas doloridas. “Conforme-se mundo”, pensava ele, “será um dia que você passará sem a iluminação divina das minhas ideias criativas”.
O que, porém, aumentava sua indisposição era a aula de história que ele lecionaria ao primeiro ano. Quem fora o imbecil que inventara aquele horário de aulas? Um gênio da arte como Osmar necessitava de suas preciosas horas de sono, e como não conseguia dormir cedo, à noite, descansava efetivamente pela manhã. Mas com aquele horário, quem poderia descansar? E para aumentar ainda mais sua frustração, sua aula madrigal era na turma de Talita. Ninguém merecia aquela garota levantando o braço a cada dois parágrafos lidos para lhe fazer perguntas. Que tipo de aluno faz perguntas? Estava inconformado. Sua manhã não poderia começar de maneira pior.
Entrou na sala sem cumprimentar seus alunos. Todos já estavam acostumados com seu jeito seco, portanto, nem fizeram caso. Sentou-se e tirou da bolsa a lista de alunos. Começou a fazer a chamada. No sexto nome, porém, encontrou algo estranho: um nome que nunca estivera ali, pelo menos não se recordava. Era diferente. Chamou-o:
— Francinalva Silva dos Santos.
Um braço esticou-se de uma das últimas cadeiras. Sua dona disse:
— É Annah.
— Como? – fingindo não ter entendido. Se ao menos conseguisse ver a dona do braço, mas Talita, sorridente, empatava-lhe a visão.
— É Annah. Com dois “n’s”, e “h” no final. – disse a garota do braço esticado.
— Mas aqui diz que seu nome é Francinalva.
— Deixe-lhe explicar, professor. – pôde perceber o sotaque carregado em sua voz, e para sua surpresa, parecia ser baiano. Ela se levantou e, agora, Osmar pôde vê-la. O cabelo loiro desbotado parecia ter sido tingido por uma mistura de tintura, água oxigenada e gema de ovo; seu rosto era marcado por maquiagem carregada, que deixava seus olhos maiores ainda; seu corpo era magro, os seios pareciam avantajados devido ao decote de sua blusa apertada; pulseiras faziam-na parecer alguns anos mais velha, e seu jeans marcava bem as curvas de suas pernas; por fim, uma plataforma nos pés arrematava o look. Parecia querer se vestir bem, mas querer não é poder.
— Francinalva – continuou – é meu nome de cartório, mas meu nome artístico é Annah.
— E você por acaso é artista? – disse o professor, tentando esconder seu fascínio pela garota.
— Ainda não, mas serei – disse convicta – Um dia cantarei ao lado de Ivete – seus olhos brilharam.
Talita estava estranhando aquela situação; percebera a maneira como Osmar olhava para aquela novata. O que estava pensando não poderia estar acontecendo...
— Pelo visto você é ambiciosa, hein garota? – disse Osmar levantando-se.
— Muito. – olhava-o nos olhos.
— Quero falar com você após a aula – esboçou um sorriso.
— Comigo? Por quê? – perguntou espantada.
— É um assunto do seu interesse – sentou-se e retomou a chamada interrompida.
Aquilo não estava acontecendo, repetia Talita para si. Era só um produto da sua mente cansada. Osmar não poderia achar que aquela baranga poderia solar na Semana de Artes. Ah não... “Só passando por cima do meu cadáver!”, exclamou para si. Precisava encontrar um método de reverter aquilo. Sentia seu solo escapulindo por entre seus dedos. Justamente agora, que estava tão perto de ganhar a simpatia de Osmar... Faria de tudo para por aquilo a seu favor, mas precisava ser rápida.
***
Osmar esperara sua aula terminar para voltar a falar com a nordestina. Assim que o sinal tocou, arrumou suas coisas apressadamente e dirigiu-se a ela:
— Annah, não é?
— Sim. – respondeu curiosa, queria saber o motivo pelo qual o professor queria falar com ela.
— Então Annah, você sabe cantar?
— Tento. – respondeu com um olhar sonhador – Desde pequena, sonho em ser uma grande cantora e poder ajudar minha família e, quem sabe até minha cidadezinha, a sair da pobreza.
— Seria um gesto admirável de sua parte – não ligava para a benevolência em seu coração, queria apenas saber se ela cantava; Osmar odiava melodramas – Qual é a sua cidade?
— É uma cidadezinha no interior da Bahia, que provavelmente o senhor não conhece – disse com pesar – Lá, a seca castiga muito. Já vi passar anos sem cair um só pingo d’água do céu. O caminhão-pipa, lá, é normal, já tá todo mundo acostumado. Os agricultores já passaram estações sem colher nada. – a angústia tomava conta de sua voz – É uma vida muito difícil... Só fico preocupada é com meus pais e meus irmãos tendo que sobreviver naquele inferno – uma lágrima rolou pela sua face, enxugou-a rapidamente.
“Que desabafo entediante, pensou Osmar, acho que minha dor de cabeça piorou”.
— Sua vida foi muito sofrida mesmo – procurava parecer sensibilizado – E como você veio parar aqui?
— Minha escola estava participando de um concurso de redações, e eu ganhei como melhor redação da Bahia. O Augusto dos Anjos me ofereceu uma bolsa integral durante todo o Ensino Médio e auxílio-moradia.
— Ótimo – não sabia que o colégio ofertava auxílios-moradia, será que poderia solicitar um? – Mas o assunto que queria mesmo tratar com você era o seguinte: sou o diretor do coral da escola e, esse ano, teremos que apresentar uma música cuja temática seja nordeste – a garota procurava entender onde ele queria chegar – Já fiz audições com todos os meus alunos e acredito que nenhum deles está preparado ainda para cantar a música que apresentaremos. Então, gostaria de saber, se você poderia fazer o teste.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes, como se ponderasse as opções.
— Acho melhor não, professor. Preciso arranjar um emprego. Só com o dinheiro do auxílio do colégio não dá para me manter. Mas, obrigada pela oportunidade.
— Se mudar de ideia, — disse frustrado – nossos ensaios são às terças-feiras, às 14hrs no auditório. Ficaremos felizes em lhe receber.
— Certo.
Despediu-se dele com um sorriso que ele não retribuiu. Andou alguns metros, sozinha. Era horrível estar numa escola nova. Sentia falta de seus amigos, da praça da cidade, das saídas noturnas despreocupadas, da pureza interiorana... Sentia, por mais extraordinário que fosse, falta da seca, do ar quente entrando por suas narinas e queimando tudo por dentro como carvão em brasa. Queria voltar para o aconchego de sua mãe, nada era como o abraço dela, ninguém poderia dizer palavras de reconforto como ela. E o pior de tudo é que na sua cidadezinha havia apenas um telefone público. Falar com sua mãe, então, tornara-se algo impossível. Outra lágrima ameaçou escapulir dos seus olhos. O que faria agora quando estivesse triste? Faria que nem os urbanos que escondiam seus problemas e medos atrás de vícios e manias? Definitivamente, aquele lugar não era o seu. Queria a simplicidade de sua cidadezinha de volta...
Um puxão em seu braço tirou-a do devaneio.
— Oi – disse a enorme garota que a puxou – deixe eu me apresentar: sou Talita Tabosa, da sua turma, integrante do coral e serei o mais próximo do que você conseguirá chegar de uma estrela. E um aviso, queridinha: aquele solo que o Osmar te disse, lembra? Será meu! – falava com ódio.
— Olá Talita Tabosa – conseguiu ser mais arrogante que a primeira -, sou Annah Silva, da sua turma, e essa estrela aqui, desviará toda a atenção da sua. Afinal, como você dever saber, as estrelas pequenas como você perdem o brilho perto de estrelas maiores como eu. – enfatizou a última palavra.
Talita deu-lhe um tapa.
— Ou você desiste desse solo agora, ou transformarei sua vida em um inferno! – disse Talita com os olhos queimando de raiva.
— Quer saber jumenta inchada – falava segurando a bochecha que ardia –, não ia fazer o teste para o coral, mas por causa disso – apontou para a bochecha latejante -, terei o maior prazer em fazê-lo.
Talita estava vermelha de raiva.
[Paraíba (Luiz Gonzaga {Zé Ramalho}) – Annah]
Cantava para Talita.
Eita, eita
Muié macho, sim sinhô.
Terça-feira. Auditório. Audição de Annah.
Quando a lama virou pedra
E o Mandacaru secou
Quando o Ribação de sede
Bateu asas e voou
Foi aí que eu vim me embora
Carregando a minha dor
Hoje eu mando um abraço
Pra ti, pequenina
Paraíba masculina,
Muié macho, sim sinhô (bis).
Cantava a maior parte da música olhando para Talita e essa retribuía com olhares que cortavam mais do que adagas.
Eita pau pereira
Que em princesa já roncou
Eita Paraíba
Muié macho sim sinhô
Eita pau pereira
Meu bodoque não quebrou
Hoje eu mando
Um abraço pra ti pequenina
Paraíba masculina,
Muié macho, sim sinhô (bis).
Eita, eita
Muié macho, sim sinhô.
— Acho que temos nossa solista. – disse Osmar aplaudindo-a de pé.
Talita estava em choque. Todos pareciam ter gostado dela, embora não fosse uma cantora perfeita – desafinara algumas notas altas e teve problemas com a semi-tonação de algumas das notas graves. O que aquela enxerida tinha que ela tinha? Será que o espírito nordestino que Osmar tanto falara nas semanas anteriores era tão importante assim? Porque seus colegas a aplaudiam? Não viam que, para aquele solo, tecnicamente, Talita era a mais qualificada.
Sentia-se mal naquele momento, era uma sensação estranha, como se estivesse perdendo o chão, como se seu mundo despencasse. Via todos a congratulando e queria sair dali correndo, queria ir para um lugar onde pudesse ficar só. Aquele solo tinha sido o motivo de sua vida durante o último mês e vê-lo esvaindo-se por entre seus dedos era doloroso demais.
Aos poucos, parecia que todos iam ficando em preto-e-branco, como naqueles filmes antigos. E os aplausos ficavam mais lentos, até o momento que todos ficaram imóveis como estátuas.
[Meu mundo caiu (Maysa) – Talita]
Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim
Não sei se me explico bem
Eu nada pedi
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí
Sei que você me entendeu
Sei também que não vai se importar
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar
II
Tiffany ainda não entendia muito bem o que havia ocorrido: primeiro, o diretor obrigou-a a ingressar no coral, depois, sua ex-melhor amiga descobriu e contou para toda escola via facebook, mas, ainda assim, parecia que ninguém se importara tanto. “Que estranho!”, pensava, as pessoas não se importavam com quem entrava ou saia dos grupos extracurriculares da escola? Será que Pedro estaria certo? Será que aquela história toda de popularidade era apenas uma futilidade que infiltraram em sua mente? Não. A popularidade era importante e era algo que ela necessitava cada vez mais. Ou não... E se eu fizer o que gosto, sem me importar com o que os outros vão achar?
— Para de pensar besteira! – disse para si mesma em voz alta.
Sabia do que precisava e, naquele momento era se concentrar na sua campanha à rainha. Estava muito ansiosa pela próxima parcial que seria divulgada dali a 15 minutos. Roeria as unhas se pudesse, mas seus esmaltes custavam caro demais para serem roídos.
Não aguentava toda aquela tensão. Faltavam poucos minutos agora...
De repente, uma caixinha azul surgiu do lado esquerdo do seu facebook:
“Voz de Augusto dos Anjos” – o nome “extremamente” criativo do jornal do colégio – “publicou uma foto sua no grupo Colégio Augusto dos Anjos”.
Ufa! Sentiu grande parte da apreensão em seu corpo se desfazer; se ela fora marcada na foto é porque ainda estava entre as três mais votadas. Hesitou em clicar no grupo, o que será que lhe esperaria naquela parcial? E se tivesse caído para terceiro lugar? Mais humilhante do que isso era Débora tomar a liderança... Ah! O que não daria para enforcar sua ex-melhor amiga naquele momento?
Parecia coincidência, mas a página do facebook demorou a carregar mais do que o normal, para aumentar ainda mais sua ansiedade.
A foto apareceu. Tiffany não queria olhar. Tinha medo da incerteza do seu futuro. Respirou fundo e tomou coragem. Abriu os olhos lentamente. Sorriu quando viu o resultado da pesquisa:
Resultado parcial da Realeza referente à Abril/2012
Tiffany Mendonça -> 68%
Débora Sousa -> 20%
Margarida Silva -> 6%
Pedro Martins -> 75%
João Paulo Campos -> 12%
Márcio Alencar -> 7%
Ela e Pedro continuavam no topo, ainda eram o casal perfeito. Gritou de alegria.
***
Do outro lado da cidade, Débora estava confusa com aquela parcial; Tiffany não caíra como planejara, teve uma grande queda, mas a distância entre elas ainda era bastante acentuada.
Sentiu vontade de quebrar o computador, mas precisava se controlar, precisava se manter calma. Agora que já começara não poderia mais parar; não havia a menor condição de voltar a ser a sombra de Tiffany. Precisava criar algo para reverter tudo a seu favor.
O que Tiffany possuía que ela não? Além do pai rico, é claro. A mente de Débora clareou-se instantaneamente olhando novamente para a imagem que continha o resultado das pesquisas. Tiffany estava saindo com o garoto mais popular da escola, então, Débora precisava fazer o mesmo. Deveria arrumar uma maneira de separá-los, mas como? Bem, caso dê errado, poderia ao menos sair com João Paulo, já seria alguma coisa.
O jogo, ou melhor, a guerra acabara de começar.
***
Continua...
Notas finais
Comentem!!! XD
Até domingo! o/
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