Cante!

4 Ep04 - Ambição


Notas iniciais
Ambição é uma palavra que pode descrever muito bem algumas alunos do Colégio Augusto dos Anjos. Enquanto umas fazem de tudo para ganhar o solo da Semana de Artes, outras não medem escrúpulos para abocanhar a coroa.
Baixe as músicas do episódio:
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Boa leitura! (=

EPISÓDIO 04

AMBIÇÃO

I

— Amiga Débora chegou apressada Você já soube do último babado?

— Não. Qual? perguntou Tiffany curiosa.

— Menina, o Pedro entrou no coral.

Tiffany perdeu o chão. Estava nervosa. Aquilo não poderia estar acontecendo, não justamente agora! Se haviam descoberto Pedro, seria apenas uma questão de tempo para descobri-la. O que faria agora? Precisava ganhar tempo. Aquilo precisava ser escondido o máximo possível...

— Amiga? perguntou Débora Você tá bem?

— Claro! Tô ótima! sorriu desconcertada.

— É que você ficou aí...

— Ai amiga, é que foi um choque pra mim, sabe? Logo o Pedro? Você tem certeza disso?

— Claro amiga! Cê num viu o facebook hoje não?

— Não. Por quê?

— Postaram uma foto dele entrando no auditório. E você sabe, a única coisa que acontece ali é o ensaio do coral... disse enquanto lixava suas unhas.

— Droga! exclamou Tiffany.

— Que foi, amiga? perguntou desconfiada.

— Nada! Só que meu plano de aumentar minha popularidade usando o Pedro não vai dar certo agora. Bendita hora para isso acontecer! disse dissimulando. Bem amiga, preciso resolver um problema agora...

— Você vai falar com ele?

— Provavelmente.

— Tá certo, amiga.

Despediram-se com beijinhos na bochecha.

Tiffany distanciou-se.

— Nesse mato tem coelho. Ah, se tem... disse Débora.

II

Talita estava perplexa. Como Osmar pôde fazer aquilo com ela? Não conseguia entendia. O que fizera para merecer aquilo?

Depois de ouvir sua magnífica apresentação, o professor apenas se levantou e lhe disse: você canta muito bem!. Ela ainda tentara convencê-lo, mas ele completou: Olha Talita, não vou negar que dentre os alunos do coral você é a que tem o maior talento, mas, a meu ver, você não está pronta para cantar esse solo. Se fôssemos cantar Elis ou até mesmo Maysa, pode ter certeza, o solo seria seu. Mas não consigo sentir muito sentimento em você quando canta músicas de Luiz Gonzaga.

Sentimento. Quem era ele para falar em sentimento? NINGUÉM conseguia transmitir sentimento através da música como ela ali. Se ela não possuía o sentimento, ninguém possuiria então.

Pensando bem, ele nunca cantara uma música para o coral e como professor, ele deveria transmitir modelos aos seus alunos. Uma ideia veio a sua mente. Se o obrigasse a cantar uma música, talvez pudesse virar o feitiço contra o feiticeiro; se mostrasse a ele que nem ele mesmo possuía aquele sentimento, talvez, conseguisse o solo. Esfregaria na face dele que nem mesmo o professor do coral conseguia cantar decentemente uma música do rei do baião. Assim, ele seria obrigado a dar-lhe o solo, querendo ou não.

Precisava por seu plano em prática o mais rápido possível, de preferência no próximo ensaio.

***

Tiffany estava apressada. Necessitava conversar urgentemente com Pedro. Dirigiu-se, então, para o lugar onde ele costumava ficar quando não tinha nem aulas nem treinos: a cantina.

Estava lá, mas rodeado de pessoas que queriam explicações sobre aquele boato. Tiffany enfiou-se na multidão e conseguiu arrastar o rapaz para fora do furacão.

— Pra quem você disse? perguntou a garota.

— Não falei pra ninguém. Não sei como essa história se espalhou...

— Agora as coisas ficaram complicadas. ponderou Se descobriram você, será apenas questão de tempo para que me descubram.

— Calma gata! Vai dar tudo certo! E olha, as pessoas nem tão ligando muito para isso. disse apontando para alguns alunos que cochichavam e riam.

— Não tão ligando? disse cética Veremos! Vamos aguardar só a segunda parcial da eleição da realeza esse ano para ver o estrago que essa história causou.

— Quando sai?

— Daqui a duas semanas. Você conferiu a primeira parcial?

— Qual? A de março?

— Sim!

— Não.

— Nós estamos vencendo como sempre. Eu com 76% e você com 81%, em segundo lugar estavam a Débora, com 6%, e o João Paulo, com 8%. Por falar nele, qual foi a reação do seu melhor amigo? enfatizou a palavra melhor.

— Ainda não o encontrei. Mas acho que ele não vai se importar tanto.

— Realmente, ele parece não ligar muito para isso. Já o Márcio, tem cara de quem faria de tudo para te roubar a coroa. Cuidado gato!

— Relaxa! Ninguém vai roubar isso de mim, e mesmo que roubem não to nem aí.

— Não sei como você consegue não se importar com isso. Poxa, essas coroas representam a admiração que esses alunos sentem pela gente. Nós somos os líderes deles, você não percebe isso? Qualquer coisa que façamos se torna modelo aqui...

— Então por que entrar para o coral também não vira um modelo?

— Meu filho, aprende uma coisa! Isso é uma democracia, não uma ditadura. Existem coisas que nem nós podemos fazer enfatizou o nós E uma delas é participar do coral.

— Isso continua parecendo muito idiota para mim.

— Ok! olhou o relógio no pulso Não vou continuar perdendo meu tempo com você, já vi que essa conversa não vai sair do lugar. ameaçou sair E presta atenção numa coisa: ninguém pode saber sobre mim, entendeu? Se perguntarem algo para você, despista, diz que só fala na presença do teu advogado. Entendeu?

— Claro, gata! puxou-a pela cintura Sabe, to com saudade de diversão. Cê entende né?

— A última vez que nos divertimos disse desvencilhando-se dos braços dele acabou gerando essa confusão toda. Lembra? Tchau! deu um beijo na bochecha dele Gato!

III

Chegara a hora do ensaio do coral. Todos entravam no auditório, enquanto Osmar, como de praxe, estava sentado no seu banquinho sobre o palco.

— Muito bem crianças. Hoje focaremos apenas em exercícios vocais para aumentar a potência das suas vozes.

Assim que o professor parou de falar Talita levantou o braço.

— O que é Talita? com certeza ela pediria outra chance para tentar o solo. Céus! O que ele fizera para merecer aquilo?

— Professor, já que o senhor nos falou tanto semana passada em como encontrar o verdadeiro espírito por trás das músicas de Luiz Gonzaga, e como o senhor mesmo disse, nenhum de nós conseguiu o feito, — Leandro balançou a cabeça afirmativamente gostaria que o senhor nos mostrasse como despertar esse sentimento no nosso interior. Então, o senhor poderia interpretar uma música de Luiz Gonzaga para o nosso deleite? disse pomposa.

Osmar estava surpreso. Finalmente aquela garota falara algo que valesse a pena de se ouvir, algo que aumentaria, sem dúvidas, a experiência daquelas pobres crianças sem cultura. Afinal, ouvi-lo cantar era mais que uma honra. Dizendo em palavras mais acessíveis: uma música cantada por Osmar serviria como iluminação artística para aquelas crianças aculturadas.

— Claro, Talita! Mostrarei para vocês. colocou sua prancheta numa mesa que havia na coxia.

Virou-se para o tecladista e disse:

— A morte do vaqueiro, Ré maior.

[A morte do vaqueiro (Luiz Gonzaga) Osmar]

Sentou-se no banquinho.

Numa tarde bem tristonha
Gado muge sem parar
Lamentando seu vaqueiro
Que não vem mais aboiar
Não vem mais aboiar
Tão dolente a cantar


Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi


Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão
Nunca mais ouvirão
Seu cantar, meu irmão


Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi


Sacudido numa cova
Desprezado do Senhor
Só lembrado do cachorro
Quinda chora
Sua dor
É demais tanta dor
A chorar com amor


Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo
Ei, gado, oi
E... Ei...

Os garotos estavam boquiabertos.

— E não é que o Matu canta bem... Fernando cochichou para Maria.

Ela apenas balançou a cabeça.

Talita também estava impressionada. O talento do professor era incrível. Ele interpretara a música divinamente, conseguiu transmitir toda a tristeza inerente àquela música. Aliás, transmitiu toda a tristeza e mais um pouco, foi a interpretação mais melancólica que Talita já viu daquela música. Estava maravilhada. Mas ele não é perfeito, como eu, pensou voltando à razão. Levantou a mão e disse sem esperar a permissão do docente.

— Então professor, esse foi o espírito nordestino que o senhor tanto disse semana passada?

— Na verdade Talita, — disse com um singelo sorriso no canto da boca, percebendo a admiração dos alunos ainda não é isso que procuro. Quero algo bem mais autêntico, muito mais verdadeiro; uma interpretação realmente nordestina. Se é que vocês me entendem...

Talita balançou a cabeça afirmativamente. Não poderia se passar por desentendida.

— Agora, voltemos aos nossos exercícios disse tirando o banco do centro do palco.

***

Talita ainda não desistira. O professor houvera se saído muito bem na canção, mas ela ainda não desistira do seu tão sonhado solo na Semana de Artes. Logo ela, que sempre sonhou em ser uma estrela, não poderia se contentar em ficar balançando e cantando aahs e oohs. Precisava resolver aquela situação, mas não tinha ideia de como. Sua última cartada fora o desafio ao professor e ele havia cortado todos os seus argumentos ao dizer que nem a apresentação dele seria adequada para aquela apresentação.

Ela precisava colocar as ideias no lugar. Precisava entender o que ele queria dizer com uma interpretação realmente nordestina. Mais do que isso, ela precisava achar o que faltava em si mesma, caso contrário, não seria mais a cantora perfeita que sempre fora.

***

Uma hora e meia depois, Osmar encerrou o ensaio. Haviam treinado bastante alcance de notas e exercícios de respiração.

Todos estavam exaustos e logo foram embora. Ficaram apenas Talita e Osmar: ela, treinando algumas notas altas no piano; ele, organizando sua pasta.

— Merda! exclamou ele.

— Algum problema professor? perguntou tentando ser prestativa, talvez assim conseguisse a simpatia dele e mais tarde o solo, afinal, ele ainda tinha um mês para decidir.

— Esqueci-me de avisar aos outros alunos que terça-feira que vem o ensaio começará 15hrs...

— Posso avisá-los.

— Você faria isso? estranhou a atitude da garota; ela sempre fora tão arrogante.

— Por que não?

— Tudo bem, então. Você os avisa.

— Combinado. piscou para ele e sorriu, ele não retribuiu nenhum dos dois.

IV

Talita estava se saindo bem na sua tarefa. Já havia avisado quase todos os alunos do coral. Pela sua lista faltavam apenas Pedro e Tiffany, mas não tinha visto nenhum dos dois naquele dia e precisava avisá-los o mais rápido possível; o quanto antes terminasse a tarefa, maior seria a probabilidade de Osmar começar a simpatizar com ela e, por fim, maior seria a chance de receber seu solo.

Agora estava mais confiante do que nunca. Esse plano teria êxito, sem dúvidas. Já havia até ensaiado o que diria quando o professor anunciasse quem seria a grande solista:

— Eu professor? Não mereço essa grande honra. Aliás, sejamos honestos, sou a melhor cantora desse coral mesmo.

E sorriria, e todos a aplaudiriam...

Mas primeiro ela precisava focar no seu plano. Necessitava ter um bom relacionamento com Osmar, seu solo dependia daquilo.

Mas parecia que a sorte estava do seu lado; Débora vinha caminhando em sua direção distraída. Não era Tiffany, no entanto, era como se fosse.

— Com licença. disse Talita aproximando-se da moça.

— Oi? Débora estranhou a aparição daquela garota. Mais estranho é que ela lhe era familiar, mas não se lembrava de onde...

— Você é amiga da Tiffany, né?

— Sou a BFF dela, querida. disse arrogante.

— Você poderia me fazer um favor, então? continuou antes que a outra respondesse Você poderia avisar a ela que o ensaio do coral de terça começará às 15hrs?

Débora estava atônita. Como assim ensaio do coral? Tiffany estava participando do clube de horrores da escola? Aquilo era muito confuso! Já era muito estranho Pedro ter ingressado naquele grupo ridículo, mas Tiffany? Deveria ser o fim do mundo. Aliás, pensando bem, aquela seria a oportunidade perfeita para realizar o grande sonho de Débora: tornar-se rainha. Depois de anos vivendo à sombra de Tiffany, como se fosse seu poodle de estimação, Débora teria finalmente sua chance. Com essa nova notícia, com certeza a popularidade daquela cairia que nem o World Trade Center e ela seria eleita à nova rainha do Colégio Augusto dos Anjos. A diferença entre elas ainda era exorbitante, mas aquela trágica notícia impulsionaria sua campanha.

— 15hrs né? disse Débora voltando à razão.

— Isso mesmo. Você poderia me fazer esse favor o mais rápido possível?

— Claro. respondeu anotando em uma agendinha pink que trazia na bolsa de jeans rósea. como é seu nome mesmo?

— Talita.

— Certo, eu a avisarei ainda hoje. piscou para a outra.

— Obrigada. retribuiu com um sorriso.

Talita afastou-se contente; sua tarefa estava quase cumprida, enquanto Débora ficou observando-a.

— Você não sabe o favor que me fez... Débora disse para si mesma.

Agora, precisava apenas enviar uma mensagem para Tiffany informando-a da alteração no ensaio do coral, mas não podia se identificar, lógico. Na hora certa, Tiffany descobriria que ela sabia de toda a verdade. Primeiro precisaria arrumar algum celular desconhecido para enviar a mensagem.

Naquele momento, então, vinha caminhando pelo corredor uma garota que fazia Educação Física com Débora. Tiffany deveria não conhecer aquela garota por dois motivos: primeiro, naquele ano, ela não fazia Educação Física com Débora; segundo, aquela garota tinha uma tremenda cara de nerd, ou seja, ela repulsava qualquer tipo de popularidade que existisse perto dela.

— Oi! disse Débora tentando parecer simpática.

— Oi. olhava para o chão.

Além de nerd, ainda era tímida e o enorme aparelho em sua boca também não ajudava muito a melhorar suas feições.

— Desculpa, não lembro seu nome... disse Débora.

— Vanessa.

— Vanessa, preciso que você me faça um grande favor Vanessa olhou rapidamente para Débora, suas bochechas estavam muito vermelhas. É o seguinte: — Débora segurou uma das mãos dela preciso falar urgentemente com a minha melhor amiga, a Tiffany, não sei se você a conhece... a outra balançou a cabeça afirmativamente ainda concentrada nos seus sapatos Pois bem, eu preciso enviar uma mensagem para ela agora mesmo. Você poderia me emprestar seu celular?

Vanessa tirou de dentro da mochila um celular bem gasto, com algumas de suas teclas já desbotadas. Ela não poderia comprar um melhor? Pegou o aparelho da garota e começou a digitar a seguinte mensagem:

Tiffany, o ensaio do coral de terça-feira começará às 15hrs. Bjos, Talita.

Enviar.

Lembrou-se de apagar a mensagem. Ninguém poderia saber daquilo ainda, seria ela quem deixaria aquela informação vazar. Além do mais, Débora precisava de uma prova contundente que aquela informação era verídica.

***

Talita encontrou Osmar no corredor.

— Professor, já avisei a todos sobre o ensaio de terça.

— Que bom. disse secamente e continuou andando.

Como assim que bom? Ela passara a manhã toda correndo atrás de sete pessoas para receber um que bom como recompensa? Aquele homem realmente estava passando dos limites e Talita estava começando a perder sua paciência. Precisava de uma vez por todas ganhar aquele solo, nem que precisasse sequestrar Osmar para que aquilo acontecesse.

V

Pedro andava pelo corredor normalmente quando encontrou seu melhor amigo João Paulo, ou como era mais conhecido: JP. Ele era alto, cabelos negros arrumados em um topete muito bem penteado. Era forte, e as blusas que usava faziam seu corpo tonificado parecer ainda maior.

— Ei cara! — disse Pedro estendendo a mão para o amigo.

Abraçaram-se.

— Como é que vai a vida cara? perguntou JP.

— Tudo bem! E a tua?

— Ótima. Pegando só as gostosas. os dois riram Continua saindo com a Tiffany?

— A gente deu um tempo. Aconteceram algumas coisas e ficou um clima bem tenso...

disse entortando a boca.

— Soube que tu tá cantando agora. É verdade?

— O pior que é...

JP gargalhou.

— Cara, não te imagino cantando...

— Foi uma punição idiota do diretor.

— E o que fui que tu fez para receber essa punição?

— Dei uns amassos na Tiffany numa sala de aula.

— Car**** — gargalhou Tu é muito fo**. Não é à toa que é meu melhor amigo. simulou um soco no peito de Pedro.

Gargalharam ainda mais.

— E como é o coral?

— Apesar de tudo, é legal. O pessoal é bem talentoso, todos cantam muito bem. Acho que sou eu quem canta pior. fez uma breve pausa. Mas é legal.

— Pelo visto tá bem animado mesmo, hein?

— É. A minha vida tá boa...

Continuaram conversando por um bom tempo; embora estudassem no mesmo colégio, eram de turmas diferentes e mal se viam pelos corredores do colégio. Só se encontravam praticamente nos treinos da seleção de futebol.

***

Débora encontrou Tiffany no corredor.

— Amiga, tudo bem com você? perguntou a primeira.

— Tudo, Débora. E você?

— Tudo ótimo. Sabe amiga, tava com vontade de fazer umas compras na terça. Sabe, comprar algumas roupas da próxima estação. Você poderia ir comigo?

— Ih... lembrou-se do ensaio do coral Não vou poder ir, tenho que terminar um trabalho.

— Ai amiga, você tá trabalhando demais ultimamente. To começando a achar que você tá é fazendo outra coisa e não quer me dizer...

— Que nada amiga disse levemente corada você sabe que melhores amigas não escondem nada uma da outra.

— Verdade! sorriu, mas seu sorriso dessa vez pareceu falso, venenoso Deve ser coisa da minha cabeça.

As duas continuaram caminhando juntas. Débora permaneceu o resto do dia com um sorriso confiante no canto da boca.

VI

Chegara a terça-feira, o dia de grandes mudanças, inclusive na própria vida de Débora. Naquele dia ela não poderia se atrasar, nem se quer errar. Tudo precisava ser feito da maneira como planejou. Primeiramente, continuaria sendo a amiga-sombra-idiota de Tiffany; andaria com ela por todo o intervalo da manhã, assim como fazia todos os dias. À tarde, porém, transformar-se-ia em uma espiã. Estaria às 14hr40min em frente ao auditório, escondida, pronta para filmar o momento em que Tiffany entrasse ali. Depois, arrumaria uma maneira de entrar lá e filmar a garota ensaiando com os outros perdedores.

Débora ria de sua própria genialidade. Gastara grande parte de sua vida escolar no ombro daquela víbora, mas teria finalmente sua recompensa. Arrancaria as presas da víbora e seria aclamada como a nova abelha rainha do Augusto dos Anjos.

Aquele dia seria perfeito, seria o dia em que o papagaio se transformaria em águia. Riu novamente. Nada poderia atrapalhar aquele dia.

***

Tiffany havia acabado de almoçar na cantina do colégio e agora seguiria para o ensaio do coral. Perguntava-se por que ainda continuava indo às reuniões. Talvez porque gostasse um pouco de estar ali. Sentia-se bem. Por mais absurdo que isso poderia parecer, aquele antro de idiotas fazia Tiffany sentir-se livre de toda e qualquer pressão. Parecia que ali, nada poderia abalá-la. E, além disso, ainda poderia ser suspensa pelo diretor. Provavelmente era uma junção daqueles dois fatores que continuava fazendo com que ela fosse àqueles ensaios.

Precisava se apressar, senão, chegaria atrasada. Aproveitara para estudar um pouco de Física após sua última aula; não estava entendendo mais nada da matéria, afinal, é muito mais divertido conversar com suas amigas pelo facebook do que assistir à professora falar sobre cinemática.

Chegou ao auditório. Eram 14hrs54min. Entrou.

Do lado de fora, alguém tirava fotos.

VII

Débora estava em seu quarto. Seu ar vitorioso era evidente. Passara as duas últimas horas admirando as fotos que tirara do ensaio de Tiffany.

— Debi, Debi entrara sua irmã mais nova. Cabelos negros como os dela, aparentava ter uns cinco anos, vestia uma camisolinha já bem gasta e andava descalça A mamãe pediu pra você descer e ajudar ela a lavar louça.

— Diz pra ela que eu já vou Manu.

Deu leves palmadinhas no bumbum da menina e essa saiu correndo do quarto indo avisar a mãe do recado da irmã.

Antes de fazer o que sua mãe pediu, ela precisava terminar logo com toda aquela farsa. Abriu o facebook e começou a upar as fotos do ensaio.

Colocou um CD no microssystem do seu quarto e ajustou-o para volume máximo.

[Chic, chic... (Kelly Key) Débora]

Chic...chic...Chic...Chic...
Chic...chic...Chic...Chic...

Ninguém me entende quando eu aumento o rádio
A vida que eu levo nego pensa que é fácil
Ninguém me entende quando eu aumento o rádio
E fico rebolando na frente do espelho


Ninguém me entende quando eu aumento o rádio
A vida que eu levo nego pensa que é fácil
Acordar, lavar, varrer, passar
De cabelo em pé assim ninguém me quer
A unha cruz credo né?


Ainda tenho que aturar a família do mané
Faz isso, faz aquilo, nhanhanhanha, o paciência
Eu deixo tudo limpinho, você bagunça tudinho
Assim eu não aguento mais
Eu quero ser famosa, ser uma grande artista, gravar comercial,ser capa de revista
Eles vão ver só quando minha música tocar, vou dar maior gritão

Ahhhhh

Dançava para o espelho do seu quarto e cantava usando o pente como microfone.

Eu vou passar batom, chic... Chic... Chic... Chic...
Eu vou ficar bonita, chic...chic...chic...chic...
Segura. Eu vou rebolar, vou rebolar, vou rebolar( x 4)

Digitou o nome do álbum e clicou em compartilhar.

Chic, chic, chic, chic... (6x)

Foi ajudar sua mãe a lavar a louça, mas deixou o computador ligado. Na sua página de atualizações o primeiro item que aparecia era: Débora Sousa adicionou 9 fotos ao álbum A rainha que canta.

VIII

Talita estava no auditório. Preparava-se para cantar uma música que já era uma das grandes conhecidas do seu repertório. Não havia bolado mais nenhuma forma de como convencer o professor a deixá-la solar. Estava muito cansada, os últimos dias haviam lhe consumido muito. Colocou o CD com o playback da música no aparelho de som do auditório, sentou-se no tradicional banquinho de Osmar e começou.

[Se eu não te amasse tanto assim... (Ivete Sangalo) Talita]

Meu coração, sem direção
Voando só por voar
Sem saber onde chegar
Sonhando em te encontrar

E as estrelas
Que hoje eu descobri
No seu olhar
As estrelas vão me guiar

Se eu não te amasse tanto assim
Talvez perdesse os sonhos
Dentro de mim
E vivesse na escuridão

Se eu não te amasse tanto assim
Talvez não visse flores
Por onde eu vim
Dentro do meu coração

Hoje eu sei, eu te amei
No vento de um temporal
Mas fui mais, muito além
Do tempo do vendaval.

Nos desejos
Num beijo
Que eu jamais provei igual
E as estrelas dão um sinal

Se eu não te amasse tanto assim
Talvez perdesse os sonhos
Dentro de mim
E vivesse na escuridão

Se eu não te amasse tanto assim
Talvez não visse flores
Por onde eu vim
Dentro do meu coração

Secou seus olhos marejados. Das músicas de Ivete Sangalo, essa era a que mais a tocava, e coincidência ou não, sempre cantava aquela música quando estava triste. De alguma forma, parecia que a esperança que havia naquela melodia trazia-a para fora de suas dores.

Preparava-se para ir embora quando o viu sentado na última fileira, deu um pulo para trás de tanto susto.

***

— Oi, amiga a palavra amiga soou incrivelmente irônica.

Débora sorriu para Tiffany no banheiro feminino. A reação dessa, foi esbofetear aquela.

— Não acredito que você fez isso comigo. Colocar fotos minhas no coral no facebook?

— Não acredito que você escondeu isso de mim. Você por acaso não confia em mim?

— Não confiava e agora é que não confio mesmo. Tiffany estava vermelha de raiva.

— E olha que foi você quem disse: melhores amigas não escondem nada uma da outra.

— Isso era diferente.

— Você está insinuando que o seu precioso coral é nada? ela era tão peçonhenta quanto uma naja.

— Eu não me importo com o coral. Só estou indo para os ensaios por causa de uma punição idiota do diretor.

— Minhas fontes realmente disseram que você e o Pedro fizeram algo de errado e foram devidamente punidos. ela se deliciava com toda aquela situação, esperara por aquilo desde que se tornara seguidora de Tiffany. Sempre quis ver o momento em que pisaria na rainha.

— Quem são suas fontes?

— Querida, existe algo chamado sigilo. Você já ouviu falar?

Débora estava ávida. Tiffany nunca a vira agir daquela forma.

— Bem, agora eu preciso ir. Não gosto de ficar perto de ralé. falou com toda a sua arrogância.

Tiffany ficou lá. Olhando para si mesma no espelho. Estava cansada, nem toda a maquiagem do mundo conseguiria disfarças as fortes olheiras que brotavam dos seus olhos. Não imaginava o que lhe esperava fora daquelas paredes. O que fariam com ela? Xingariam-na? Jogariam bolinhas de papel nela? Será que alguém a protegeria? Não. Se Débora, uma das pessoas em quem ela mais confiava, a traiu, imagine as outras em que ela sempre ficava com um pé atrás? Só imaginava uma pessoa que lhe protegeria naquele momento: Pedro. Precisava dele, precisava do abraço dele. Queria sentir o calor de sua respiração, precisava chorar no ombro dele...

***

— O que você tá fazendo aqui? Talita perguntou.

— Só estava te assistindo. disse Fernando saindo das sombras Ensaiando para o show de talentos da Semana de Artes?

— Não. Acho que não participarei esse ano.

— Por quê? Você não venceu ano passado?

— Realmente. Acho que era difícil alguém superar o meu Fascinação.

Fernando esboçou um sorriso.

— Eu vi do que o seu Fascinação é capaz. disse o garoto.

— E você veio aqui só pra me assistir?

— Eu estava passando aqui em frente quando ouvi alguém cantando maravilhosamente uma das minhas músicas favoritas.

Talita corou e deu uma risada tímida.

— Obrigada.

Ficaram em silêncio por alguns intantes.

— Bem... Eh... Preciso ir... disse o rapaz gaguejando.

— Tá certo. Tchau. sorriu.

Saiu.

Ele estava estranho, pensou Talita. Nunca o vira agir assim, sempre se mostrara forte e engraçado. Hoje parecia tímido e frágil. Uhm... Alguma coisa estava acontecendo ali e Talita precisava ficar de olho nele.

***

Tiffany não poderia mais adiar aquilo. Precisava sair daquele banheiro. Respirou fundo. Deu um passo. E outro. Queria poder se teletransportar para sua casa. Queria ter agora um abraço aconchegante de seu pai. Chegou à porta do banheiro feminino. Talvez, naquele momento, estaria deixando para trás a Tiffany que sempre fora: a rainha preocupada com o que os outros achavam dela e não com o que ela achava de si mesma. Ela precisava fazer aquilo, precisava sair de sua zona de conforto.

Pôs um pé para fora. Seu scarpin de veludo roxo atravessou a barreira que a separava de ser quem os outros queriam que ela fosse e ser quem ela queria ser. A barreira fora quebrada e não haveria mais volta. Necessitava encarar essa nova fase de sua vida, talvez menos glamorosa, mas mais do jeito que ela queria.

Saiu do banheiro. Olhou em volta.

Nada aconteceu. Todos agiam normalmente. Parecia que nada havia mudado.

Sorriu.

IX

[Famo$a (Claudia Leitte) Talita, Tiffany e Débora]

Talita estava sentada no banquinho ao centro do palco.

TALITA:

Eu quero ser muito famosa
E ter o seu amor
Mas quero sentar no sofá do Jô

Eu quero casar com você
E estar na TV
Faturar milhões no BBB

Sempre que eu vou me deitar
Eu vejo o meu nome brilhar, ô, ô, ô
Mas sinto que se estou com você eu tenho paz
E o que eu vou fazer, se eu quero muito mais?

Débora caminhava por entre os alunos confiantes. Imaginava-se uma grande modelo tirando fotos.

DÉBORA:

Ela já nasceu estrela, mas o mundo ainda não sabia
Na cabeça mil ideias e a carteira bem vazia
Dormiu com o namorado e com ele se sentia viva
Mas o que ela tanto queria era acordar como uma diva
O que ela vai fazer, se o seu sonho tá dividido
Andar de limusine ou torná-lo seu marido?
Agora nasceu a confusão porque ela não pode ter tudo
Filhos, jardim, família e ser famosa pelo mundo
Ela quer andar pelas ruas e ser reconhecida
Ter um bilhão de fãs e na internet ser seguida
E ela não quer briga, só quer o que é seu
Mas ele ficou com medo da grande estrela que percebeu

Tiffany estava parada em frente ao banheiro feminino observando os outros alunos. Cantava sorrindo. Seus olhos cintilavam.

TIFFANY:

Eu quero ser muito famosa
E usar apenas Loboutins
Ter no twitter um milhão de fãs
Eu quero um carrão blindado
E você do lado
Quero o selinho da Hebe Camargo

De volta ao auditório.

TALITA:

Sempre que eu vou me deitar
Eu vejo o meu nome brilhar, oh não, não
Mas sinto que se estou com você eu tenho paz
E o que eu vou fazer, se eu quero muito mais?

JUNTAS:
O, o, o, o, o, o, eu quero muito mais (2x).

TIFFANY:

Eu quero ser muito famosa
E ter o seu amor

Notas finais
Então, gostaram? Comentem!
Baixe as músicas do episódio:
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Até semana que vem! o/