Cante!
3 Ep03 - Coisas que Lua canta
Notas iniciais
[Desculpem a demora por postar esse novo ep, tava sem tempo e sem muita inspiração... :S]
Baixe as músicas do episódio:
http://www.4shared.com/rar/bJn0tyhU/Cante_1x03.html
EPISÓDIO 03
COISAS QUE LUA CANTA
I
Osmar estava em silêncio há pelo menos dez minutos. A sala de sua casa estava escura, apenas um pequeno abajur iluminava uma folha de papel que trazia sobre o colo. A noite estava fria.
Desde que o diretor havia lhe informado o tema da Semana de Artes, estava pensativo. A cultura nordestina, embora pouco valorizada em alguns recantos brasileiros, era um movimento cultural bastante rico. Por ser rico, no entanto, era muito amplo e muitos artistas mereciam ser homenageados. Este era o problema: quais artistas homenagear?
E lá estava ele, sentado na poltrona de sua sala.
— Axé? – falou para si mesmo.
Riscou. Para ele, aquele não era um ritmo que representasse o Nordeste como um todo; além de não ter muita cultura agregada...
— Swingueira?
Riscou várias vezes. Se Axé não era possuidor de cultura, essa não era mesmo.
— Forró.
Sim... Forró era um ritmo que representava o Nordeste como um todo. Não o forró atual, que os jovens chamam de universitário, mas o forró na sua concepção mais pura: o Forró pé-de-serra. Pronto! Estava decidido, homenagearia o Nordeste através do forró. Mas voltava-se agora para a pergunta original: quais artistas homenagear? Afinal, o forró também possuía inúmeros cantores imensamente talentosos...
Luiz Gonzaga. Esse foi o primeiro nome que lhe veio à cabeça, mas não seria muito simplório fazer uma apresentação com músicas do rei do baião? Na maioria dos espetáculos sobre aquela região, havia músicas dele. Então? Deveria ou não?
Foi nesse momento que passou, em frente a sua casa, uma van com um alto-falante que berrava:
— Venha curtir o Arraiá do nosso bairro! Esse ano homenageando o centenário de Luiz Gonzaga. Venha conferir!
Os olhos de Osmar brilharam. Que motivo melhor para homenageá-lo do que no ano do seu centenário? Estava decidido, então. O artista homenageado seria o grande mestre Lua.
II
Estavam todos no auditório, sentados na plateia. O professor no palco, sentado no seu banquinho.
— Bem crianças, a nossa reunião de hoje será dedicada à discussão da apresentação da Semana de Artes, cujo tema será Cultura nordestina. – todos estavam apáticos – Então, alguém tem alguma ideia?
Talita levantou o braço o mais alto que pôde. Estava muito animada; tinha muitas ideias. Precisava colocar tudo para fora.
— Bem, como ninguém tem ideia do que fazer – fingiu não ver a garota balançando o braço freneticamente -, vou propor um desafio a vocês. – Talita abaixou o braço, adorava desafios. – Cada um vai subir aqui e irá cantar uma música do rei do baião, Luiz Gonzaga. Podem se apresentar também em duplas, ou mesmo em grupos. A melhor apresentação levará o solo de uma das músicas da apresentação da Semana de Artes. Bem, então, boa sorte! Vejo vocês terça que vem, com as apresentações prontas.
Osmar deixou o recinto. Talita estava muito ansiosa; já sabia a música que iria cantar, só precisaria da ajuda de algumas amigas. Olhou em volta. Já sabia de quem precisava.
III
— Tá certo então... – disse Talita despedindo-se de Maria e Paloma – Quinta, às 3hrs no auditório.
Estava tudo dando certo. Sua apresentação seria um sucesso, disso tinha certeza. Só precisava falar agora com a última integrante do seu quarteto fabuloso: Tiffany. E para sua sorte, ela vinha caminhando em sua direção, com Débora.
— Ai amiga, adorei esse vestido. – Débora mostrava um modelo em uma revista que ela e Tiffany vinham lendo – Ele é, simplesmente, perfeito!
— Só não gostei desses detalhes aqui... – a outra entortou a boca.
Talita aproximou-se das duas. Tiffany assustou-se assim que a viu.
— Tiffany, preciso... – disse Talita.
— Claro! – interrompeu, tirando de dentro da bolsa uma foto sua – Toma aqui, uma foto autografada! – saiu o mais depressa que pôde, puxando Débora.
Talita viu aquela cena espantada. Que garota estranha...
— O que foi aquilo amiga? – perguntou Débora desconfiada.
— Você sabe né? Rainha sofre. – pôs a mão na testa, fingindo cansaço – Tenho que sempre agradar meus súditos. – sorriu desconcertada. – Sabe amiga, acho que preciso ir à biblioteca; tenho um trabalho de Física pra terminar.
— Ai amiga, nem me fale nesse lugar. – respondeu – Vou ficar por aqui. Tô de olho num gato ali. – piscou.
As duas deram um gritinho fino. Despediram-se.
***
Tiffany não foi à biblioteca. Precisava apenas despistar Débora, afinal, essa não poderia nem sonhar no que estava acontecendo; caso contrário, o reinado de Tiffany estaria correndo sério perigo.
Precisava falar com Pedro. Ligou para o celular dele, mas estava desligado. Que horas eram? Dez e meia da manhã. Não, ele não poderia estar em nenhum treino agora. Bem, se não estava treinando, só havia um lugar onde ele deveria estar: a cantina.
Dito e feito! Lá estava ele, lindo como sempre, conversando com seus amigos. Provavelmente sobre futebol ou alguma coisa assim... Puxou-o para um canto.
— Que foi gata? Que pressa é essa?
— Você falou pra alguém sobre o coral?
— Relaxa gata! Não falei pra ninguém. E pelo visto, ninguém sabe... Tá tudo como sempre!
— Ótimo. – secou algumas gotas de suor que brotavam da sua testa. – Precisamos retardar isso o máximo possível. Hoje, aquela hipopótamo do coral, a Tamires, veio me procurar justamente quando eu estava conversando com a Débora; fui mais rápida que a baleia e conseguir despistar. Mas não sei por quanto tempo vou conseguir esconder isso da Débora. – falou pensativa – Ninguém pode saber disso! Ouviu? Ninguém pode saber! – foi enfática na segunda vez.
— Não tenho nenhum interesse que alguém saiba disso! – respondeu o garoto que estava muito tranquilo, ao contrário dela – Aliás, ainda não entendo essa sua preocupação toda...
— Ah querido... Ser rainha é totalmente diferente de ser rei...
— Pra mim, isso é a maior besteira.
Tiffany o estapeou.
— Nunca mais repita isso! “Isso” é muito importante pra mim. – arrumou o cabelo e sua blusinha que havia saído um pouco do lugar – Bem, preciso ir. Acho que estamos conversados!
Pedro ficou massageando a bochecha dolorida enquanto via aquela garota afastar-se. Com certeza, aquela audição havia mexido muito com ela. Estava... Mais louca do que nunca.
IV
Talita ainda precisava falar com Tiffany. Para seu plano dar certo, precisava das outras três meninas do coral; Maria e Paloma já haviam aceitado, mas Tiffany fora muito estranha quando Talita tentou falar com ela. Não podia desistir! Por falar nisso, lá vinha ela, e estava sozinha.
— Tiffany, ainda preciso falar contigo.
— Diz! – baleia, aquela garota realmente lhe estava chateando.
— Estou montando um número para a gente apresentar como a tarefa da semana do coral. E queria saber se você queria participar?
— Pode ser. – pelo menos, livrar-se-ia daquela tarefa idiota. – Qual é o número?
— As meninas do coral vão apresentar “Xote das meninas”.
***
Terça-feira. Ensaio do coral. Auditório.
[Xote das meninas (Luiz Gonzaga {Marisa Monte}) – Meninas do coral]
O palco estava todo escuro. Vestiam vestidos pretos que iam até o joelho. O holofote acende sobre Talita.
TALITA:
Mandacaru
Quando “fulora” na seca
É um sinal que a chuva chega
No sertão
Toda menina que enjoa
Da boneca
É sinal de que o amor
Já chegou ao coração...
Meia comprida
Não quer mais sapato baixo
Vestido bem cintado
Não quer mais vestir jibão...
Mais três holofotes acenderam. Cada um sobre cada menina. Estavam em linha e cantavam estalando os dedos.
TODAS:
Ela só quer
Só pensa em namorar
Ela só quer
Só pensa em namorar... (2x)
Paloma veio para o lado esquerdo do palco, as outras foram para o oposto.
PALOMA:
De manhã cedo já está pintada
Só vive suspirando (MENINAS: aaai...)
Sonhando acordada
O pai leva ao doutor
A filha adoentada
Não come, nem estuda
Não dorme, nem quer nada...
Agora, dançavam em pares.
MARIA:
Ela só quer (TALITA na 2ª vez: oi, oi, oi, oi, oh...).
TODAS:
Só pensa em namorar
MARIA:
Ela só quer
TODAS:
Só pensa em namorar... (2x)
TALITA:
Mas o doutor nem examina
Chamando o pai do lado
Lhe diz logo em surdina
Que o mal é da idade
Que prá tal menina
Não há um só remédio
Em toda medicina...
TODAS:
Ela só quer
TIFFANY:
Só pensa em namorar
TODAS:
Ela só quer
TIFFANY:
Só pensa em namorar... (2x)
MARIA:
De manhã cedo já está pintada
Só vive suspirando (MENINAS: aaai...)
Sonhando acordada
O pai leva ao doutor
A filha adoentada
Não come, nem estuda
Num dorme, nem quer nada...
TIFFANY:
Ela só quer
PALOMA E TALITA:
Só pensa em namorar
TIFFANY:
Ela só quer
PALOMA E TALITA:
Só pensa em namorar... (2x).
Todas no centro do palco.
PALOMA:
Mas o doutor nem examina
Chamando o pai de lado
Lhe diz logo em surdina
MARIA:
Que o mal é da idade
E que prá tal menina
TODAS:
Não há um só remédio
Em toda medicina...
Todos aplaudiram. Osmar apenas observava. “Essa foi a homenagem mais lésbica que já vi de Luiz Gonzaga”, pensava.
— Muito bem meninas. – levantou-se – Quem será o próximo? – Leandro levantou o braço. – Muito bem, meu rapaz. – Qual era mesmo o nome dele?
Subiu ao palco, Leandro. Apenas um microfone ao centro e a banda atrás. O guitarrista começa.
[Pau de arara (Luiz Gonzaga {Cabruêra}) – Leandro]
Quando eu vim do sertão,
seu môço, do meu Bodocó
A malota era um saco
e o cadeado era um nó.
Só trazia a coragem e a cara
Viajando num pau-de-arara
Eu penei, mas aqui cheguei (bis)
Trouxe um triângulo, no matolão
Trouxe um gonguê, no matolão
Trouxe um zabumba dentro do matolão.
Xote, maracatu e baião
Tudo isso eu trouxe no meu matolão.
Todos, também, aplaudiram. Osmar, porém, ainda não estava satisfeito. Leandro desceu e ele subiu ao palco.
— Muito bem crianças, meus comentários agora. Meninas você foram ótimas – Tiffany finalmente conseguiu cantar um verso sem desafinar pelo menos metade das notas; era realmente um ótimo professor, conseguiu transformar aquela gralha desafinada num canário, que ainda não cantava bem, mas, devido ao talento de Osmar, em pouquíssimo tempo sua voz seria fabulosa. – Você também foi muito bem Leandro. Só tenho uma crítica a fazer a vocês. O tema da Semana de Artes desse ano é “Nordeste” e, embora tenham cantado músicas de Luiz Gonzaga, nenhuma delas foi a um ritmo típico nordestino. Acredito que se essas músicas fossem cantadas em seu ritmo original transmitiriam melhor o verdadeiro espírito nordestino, que é o que eu tanto procuro. – silenciou-se por alguns segundos – Acho que por hoje está ótimo de apresentações. Faremos apenas mais um exercício de técnica vocal e, excepcionalmente essa semana, marcarei um ensaio quinta, para os que não se apresentaram hoje. Então, os que ainda estão pensando na música, apressem-se!
Seguiram dali com o exercício e, após, Osmar os liberou. As apresentações foram muito boas, havia apenas pequenas imperfeições que logo seriam corrigidas levando em conta o aspecto vocal. O professor estava bem confiante com seu novo grupo, sabia que iria longe.
V
Fernando encontrou Maria e Paloma no dia seguinte. As duas conversavam e riam bastante antes dele chegar.
— Quem é que vocês estão tesourando tanto, aí? – perguntou o rapaz.
— Não estamos tesourando ninguém. – respondeu Maria aborrecida – Estávamos apenas falando do professor Osmar.
— Ah... Estavam tesourando a múmia! Cuidado para não tesourar demais, se não, podem cortar as ataduras.
— Coitado! – replicou Maria com pena – Deixa de dizer isso Nando! Só estávamos comentando como é chato aguentar as aulas de história dele. Só que lá no coral, as aulas dele são tão empolgantes – seus olhos brilharam – Parece que ele realmente se entrega...
— Infelizmente, preciso concordar com você. O Matusalém realmente sabe ensinar canto muito bem.
— Já pensou em qual música vai cantar amanhã, Nando? – perguntou Paloma, após um breve silêncio.
— Ainda não. Mas estava pensando em fazer que nem vocês. – disse o rapaz enquanto folheava um livro – Não queria me apresentar só. Mas não sei quem poderia ser meu parceiro...
— Ah Nando... Ainda tem o Pedro e o Renan. – explicou Paloma.
— Uhm... – pensou – Não vou muito com a cara do Pedro. Acho-o muito superficial, tenho a impressão que não me darei bem com ele. Mas o Renan parece uma pessoa legal. – disse olhando para as garotas – Vou falar com ele. Ele é da nossa turma né?
— Sim. – respondeu Paloma – Ele senta do meu lado.
— Perfeito! Falo com ele hoje na aula de português. – disse sorridente.
— Ih... – reclamou Maria – Nem me fale em português! É hoje que a professora Márcia entrega as provas.
— Ai céus! Fui um horror naquela p**** de prova! Se tirar três, é muito. – retrucou Fernando.
— Ah gente, achei a prova tão fácil... – comentou a terceira.
— É porque tu “é” nerd Paloma! – disseram juntos, os outros.
O sinal tocou. Todos entraram.
— Chegou a hora da desgraça! É hoje que sou expulso de casa! – brincou o rapaz.
— Entra logo, seu sem-teto. – Paloma ria do amigo.
Renan entrou apressado na sala. Parecia que havia saído de uma coletiva de imprensa. Estava inquieto e suava bastante. Fernando foi falar com ele.
— Oi Renan! Tudo bem?
— Oi! – disse o garoto, enquanto limpava a testa com uma pequena toalha branca que trazia dentro da mochila. – Tá tudo bem! Só estou um pouco nervoso. Sabe, hoje é o dia do fechamento do jornal da escola; e dia de fechamento significa confusão.
— Ah... – Nando não havia entendido nada do que ele havia dito. – Queria te propor o seguinte: porque não fazemos a atividade do coral juntos? Sabe, que nem as meninas fizeram.
— Ótimo! – respondeu Renan um pouco surpreso, nunca fora chamado por ninguém para fazer trabalho em dupla. Acostumara-se a fazer os trabalhos escolares individualmente e, quando fazia em equipe, é porque o professor o colocara em alguma. – Você já tem ideia de música? – perguntou ajeitando os enormes óculos negros.
— Não... Você tem?
— Pensaremos em algo. É pra amanhã à tarde, né?
— Sim!
— Dá pra ensaiar hoje à tarde, às 16hrs?
— Claro! Tá ótimo pra mim.
— Perfeito, então.
A professora entrou. Trazia consigo uma grande pasta que provavelmente continha as provas dos garotos.
VI
Fernando e Renan estavam sozinhos no auditório pensando em qual música cantariam.
— Ainda acho melhor cantarmos “A triste partida”. – argumentou Renan.
— Não gosto dessa música. – replicou Fernando, que estava entediado. Não sabia que era tão chato ensaiar para a tarefa do coral. Se soubesse que seria assim, teria feito individualmente mesmo.
Ficaram em silêncio por alguns instantes. Renan sentou-se numa cadeira da primeira fileira.
— Como foi a prova de Português?
— Péssima! Sabia que a minha nota seria ruim, mas não pensei que tiraria um e meio... Acho que nem o “ABC” sei escrever direito... – disse o rapaz tristonho.
— Cara, você me deu uma ótima ideia. – disse o garoto levantando. Seus olhos brilhavam intensamente.
***
Auditório. Quinta-feira. Apresentação de Fernando e Renan.
[ABC do sertão (Luiz Gonzaga e Fagner) – Fernando e Renan]
FERNANDO:
Lá no meu sertão pros caboclo lê
Tem que aprender outro ABC
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê
RENAN:
Até o ypsilon lá é pissilone
O eme é mê, O ene é nê
O efe é fê, o gê chama-se guê
Na escola é engraçado ouvir-se tanto "ê"
FERNANDO:
A, bê, cê, dê,
Fê, guê, lê, mê,
Nê, pê, quê, rê,
Tê, vê e Zé
RENAN:
Lá no meu sertão pros caboclo lê
Tem que aprender outro ABC
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê
FERNANDO:
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê
RENAN:
Até o ypsilon lá é pissilone
O eme é mê, O ene é nê
O efe é fê, o gê chama-se guê
Na escola é engraçado ouvir-se tanto "ê" (Bis)
FERNANDO:
A, bê, cê, dê,
Fê, guê, lê, mê,
Nê, pê, quê, rê,
Tê, vê e Zé
JUNTOS:
A, bê, cê, dê,
Fê, guê, lê, mê,
Nê, pê, quê, rê,
Tê, vê e Zé.
Aplaudiram. Osmar levantou-se:
— Muito bem garotos! – eles conseguiram encontrar o espírito nordestino, mas ainda faltava algo e ele não sabia o que era. Talvez uma apresentação em grupo resolvesse o problema – Gente, — disse enquanto caminhava para o palco – vamos ensaiar um número em grupo...
VII
— E aí meninas – cumprimentou Fernando na segunda-feira – o que acharam da minha apresentação?
— Muito boa – disse Maria – mas nada supera o “Xote das meninas”. – piscou para Paloma. As duas riram.
— Veremos quem ganhará esse solo...
— Gostei do número em grupo... – ponderou Paloma.
— Também – concordou a outra – Tomara que seja essa música que a gente vai cantar na Semana de Artes.
— Ela é boa, mas me lembra de Festa Junina. – replicou o rapaz.
— Quê que tem? – argumentou Maria.
— Acho que restringir o Nordeste a apenas Festas Juninas é muita falta de cultura. Sabe, a cultura nordestina é tão rica... Tem tantas faces... Seria bom se pudéssemos aproveitar isso na nossa apresentação.
— Gostei! – disse Paloma – Concordo com o Nando. O Nordeste é rico demais pra gente pensar só em forró e Festas Juninas. Porque não falamos com o Osmar sobre isso?
— Se o faraó do baião concordar...
— Nando – gritou Maria – Deixa de ser tão grosso!
O rapaz apenas gargalhou.
***
Tiffany andava distraída vendo um site de fofocas no seu iPhone, quando um braço envolveu suas costas. Seu braço arrepiou-se instantaneamente. Conhecia aquele toque, mas não queria senti-lo tão cedo. Virou-se.
— O que você tá fazendo por aqui? Disse pra não ficar tão perto de mim!
— Calma... – disse o rapaz – Ninguém vai saber de nós dois...
— Você não falou nada com ninguém, não é?
— Claro gostosa... Tenha calma! Só tô querendo... “Cê” sabe né? Um flashback.
— Não vai rolar nenhum flashback, queridinho. – ela era ácida e suas palavras soavam secas, totalmente desprovidas de sentimento – Olha, eu não queria ter ficado com você. Não agora que eu finalmente consegui prender o Pedro.
— Pedro, Pedro! – disse o rapaz claramente irado – Será que nenhuma garota desse colégio não para de falar naquele Mané?
— Queridinho, põe uma coisa na tua cabeça! O Pedro é PERFEITO, você, não!
A garota continuou andando. O rapaz ficou estático no meio do corredor.
— Perfeito é? Veremos... – disse para si mesmo.
VIII
Osmar continuava preocupado. Ainda não encontrara o aluno perfeito para o solo da Semana de Artes. Será que nenhum deles conseguiria expressar o espírito nordestino? Parecia que faltava algo e ele não sabia o que era... Sua esperança era a apresentação em grupo... Aquilo precisava suprir o espaço que faltava, caso não, não saberia mais o que fazer...
***
— Certas crianças – disse Osmar – Mais uma vez, ok?
Os alunos estavam no palco. Osmar sentado na primeira fila da plateia. As meninas vestiam vestidos bem alegres, de cores vibrantes que iam até o joelho. Uma fita vermelha no cabelo e muita maquiagem. Os rapazes, blusa xadrez de diversas cores e calça de chita com uma sandália de couro.
— 1, 2...
[Quero chá (Luiz Gonzaga) – Coral]
A apresentação começa com quatro casais dançando: Talita e Fernando, Paloma e Pedro, Tiffany e Leandro, Maria e Renan.
FERNANDO E TALITA:
Morena eu quero chá, eu quero
chá, eu quero chá morena velha
eu quero chá.
TODOS:
Morena eu quero chá, eu quero
chá, eu quero chá morena velha
eu quero chá.
RENAN:
Já, já, já, já morena velha eu
quero chá.
TODOS:
Já, já, já, já morena velha eu
quero chá.
Coreografia individual.
FERNANDO:
Pula, pula moreninha não deixa
o samba esfriar catuca Zeca do fole
para o compasso agitar
nas tanta da madrugada antes
da barra quebrar vai depressa
na cozinha e traz cházim pra
nós tomar.
PALOMA:
Já, já, já, já morena velha eu
quero chá.
TODOS:
Já, já, já, já morena velha eu
quero chá.
Trocam de casais: Maria e Pedro, Talita e Leandro, Tiffany e Renan, Paloma e Fernando.
MARIA E PEDRO:
Morena eu quero chá, eu quero
chá, eu quero chá morena velha
eu quero chá.
TODOS:
Morena eu quero chá, eu quero
chá, eu quero chá morena velha
eu quero chá.
MARIA:
Já, já, já, já morena velha eu
quero chá.
TODOS:
Já, já, já, já morena velha eu
quero chá.
LEANDRO:
Pula, pula moreninha não deixa
o samba esfriar catuca Zeca do fole
para o compasso agitar
nas tanta da madrugada antes
da barra quebrar vai depressa
na cozinha e traz cházim pra
nós tomar.
TODOS:
Já, já, já, já morena velha eu
quero chá. (2x).
RENAN E TIFFANY:
Morena eu quero chá, eu quero
chá, eu quero chá morena velha
eu quero chá.
TODOS:
Morena eu quero chá, eu quero
chá, eu quero chá morena velha
eu quero chá.
TALITA:
Já, já, já, já morena velha eu
quero chá.
PALOMA:
Já, já, já, já morena velha eu
quero chá.
FERNANDO:
Já, já, já, já morena velha eu
quero chá.
MARIA:
Já, já, já, já morena velha eu
quero chá.
TODOS:
Já, já, já, já morena velha eu
quero já.
Osmar apenas observava. Droga! Não conseguira achar o que faltava, aliás, que ainda falta. Teve vontade de esmurrar sua prancheta, mas não queria demonstrar fraqueza para seus alunos. E agora? O que faria? Sua apresentação seria uma completa desgraça. Como tantos talentos não conseguiam cantar uma música nordestina com espírito? Fez-se a luz na sua mente. Era disso que ele precisava: um puro espírito nordestino, alguém do próprio Nordeste. Somente assim o coral estaria livre da desgraça... Mas como achar alguém assim?
Talita levantou o braço, o que tirou Osmar de sua introspecção.
— Então professor, já escolheu a sua solista? – disse confiante.
Leandro olhou para ela como se quisesse dizer: “O que essa doida está falando? Como assim ‘a’ solista? Eu também estou concorrendo nisso, sabia?”.
— Não Talita! – disse Osmar cabisbaixo – A meu ver, nenhum de vocês ainda está pronto para receber esse solo. – olhou suas anotações – Vamos continuar fazendo os exercícios e os ensaios. Quem sabe, daqui até o fim de maio eu não decida quem terá o solo?
O professor deixou o recinto. Todos se encaminharam para os camarins para tirar os trajes da dança. Todos menos Talita, que ficou estática no centro do palco.
IX
“Como assim eu não ganhei aquele solo? Aquele professor está ficando demente?”, pensava Talita enquanto andava pelos corredores do colégio. NENHUMA apresentação se comparou a minha! NINGUÉM tem a MINHA interpretação!
Preciso fazer algo para reverter isso... Quem sabe contatar o amigo de seu pai que era psiquiatra? Talvez uma declaração de insanidade mental... Quem sabe...
Mas de uma coisa ela tinha certeza: Precisava provar para aquele professor ingrato – sim ingrato; ela deixou ele se aproveitar do seu enorme talento – que ela, mais do que qualquer um daquele coral, merecia o solo. E só havia uma maneira: Fazendo o que sabia fazer melhor. Cantar.
Foi correndo para casa. Precisava encontrar um songbook que há muito não via. Precisava dele urgentemente. Já tinha ideia da música que cantaria, precisava apenas ensaiar. Além disso, necessitava conceber uma maneira de fazer com que Osmar assistisse sua nova apresentação...
X
O que significaria aquilo? Osmar encontrou um bilhete que dizia: “Encontre-me no auditório, quinta às 12h30min! Você não vai se arrepender...”. Quem teria lhe mandado aquilo? E o que queria? Bem, já estava perto e ele havia perdido metade do seu horário de almoço por causa daquele maldito encontro misterioso. Esperava que valesse mesmo a pena!
Chegou ao local marcado. Entrou pela porta principal, como pedia o bilhete. Não havia ninguém no palco. Sentou-se na última fileira de cadeiras.
Passaram-se poucos segundos e uma música começou a tocar. Talita entrou vestindo um longo vestido azul escuro.
[Qui nem jiló (Luiz Gonzaga {Maria Eugênia}) – Talita]
Se a gente lembra só por lembrar
Do amor que a gente um dia perdeu
Saudade até que assim é bom pro cabra se convencer
Que é feliz sem saber, pois não sofreu.
Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade entonce aí é ruim eu tiro isso por mim
Que vivo triste a sofrer.
Ai quem me dera voltar
Pros braços do meu xodó
Saudade assim faz doer e amarga que nem jiló
Mas ninguém pode dizer
que me viu triste a chorar
Saudade o meu remédio é cantar
Saudade o meu remédio é cantar.
Saudade o meu remédio é cantar
Saudade o meu remédio é cantar.
Osmar levantou-se. Caminhou até a metade da plateia. Talita não queria admitir, mas estava nervosa naquele momento. Suas pernas tremiam por debaixo daquele enorme vestido e seu rosto corava a cada passo que ele dava.
O professor a olhou nos olhos.
Notas finais
Até semana que vem! o/
Baixe as músicas do episódio:
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