Cante!
2 Ep02 - Cante! Se puder...
Notas iniciais
Baixe as músicas do episódio:
http://www.4shared.com/rar/6dURDKEX/Cante_-_1x02.html
EPISÓDIO 02
CANTE! SE PUDER...
I
As mãos dele tomavam o corpo dela... Aquilo era tão... Quente! Ele mexia no cabelo dela, e ela arrepiava-se. Ela passava a mão pelo abdômen definido dele. Sentia o calor tomando conta do seu corpo... Desde a unha do pé até o último fio de cabelo: todo seu corpo estava quente e arrepiado. Ela se sentia amada, desejada, naquele momento. Talvez fosse isso que ela tanto desejou sua vida toda... Mas ainda assim, perguntava-se: ele é o cara certo? Ainda era virgem, mas de uma coisa tinha certeza, aquele não seria o momento certo... Não ali! Não com ele!
Já ele, apenas sentia! Não tinha preocupações. O momento era o que bastava. Não interessava o que aconteceria depois como consequência daquele ato. O importante era curtir! Essa não era a filosofia de vida de todos? Então, se todos vivem assim, devo viver também, pensava ele. Uma coisa passou por sua cabeça naquele momento: estou vivendo minha vida ou a dos outros? É melhor deixar isso pra depois... O melhor é aproveitar aquilo, afinal estava tão bom... Passava a mão pelas nádegas dela, e aquilo lhe dava uma sensação indescritível de prazer. Mas ele sentia-se normal naquele momento, estava apenas excitado, tudo, porém, continuava igual. O que afinal ele procurava? Queria sentir-se diferente, mas não sabia como... Será que aquela era a hora certa?
***
Vivian havia saído da sua última aula do dia. Era apenas nove da manhã, mas ela não aguentava mais aquela escola. Só estava ali porque precisava do salário. Gostava de lecionar, mas o grande problema era conviver com Osmar, não podia negar, ainda sentia algo muito forte por ele. O que aconteceu entre eles ainda não havia sido superado...
Andava pelo corredor em direção à saída principal, que dava no estacionamento. Passando por uma das salas, ouviu um barulho estranho. Decidiu parar para averiguar.
Encostou o ouvido na porta. Definitivamente, o barulho suspeito vinha dali. Colocou a mão sobre a maçaneta e a torceu o mais suave que pôde.
Ao ver aquela cena corou instantaneamente. Estavam dando uns “amassos” em cima da mesa da sala.
- O que está acontecendo aqui? – gritou a professora claramente desconcertada, mas tentando manter-se apática.
Os dois levaram um grande susto. Com isso, o garoto ficou estático e extremamente corado – realmente parecia um pimentão. A garota desequilibrou-se e caiu da mesa.
Parecia que estavam apenas se “pegando”; ela estava vestida e ele apenas sem camisa.
- Perguntei: O que está acontecendo aqui? – repetiu a professora parada em frente à porta.
- É... – o garoto gaguejou.
- Já para a diretoria! Os dois! – gritou.
Vivian escoltou Pedro e Tiffany até lá.
II
O diretor Ferreira também andava pelo colégio. Gostava, todos os dias, de passar pelas salas para ver como o ensino se desenrolava. Antes de tudo, era um educador, e prezava muito por aquilo. O colégio, para ele, era sua segunda casa.
Estava pensativo e sentia-se culpado. Não queria ter dissolvido o coral. Mas não podia voltar atrás... Tinha dito a Osmar que queria sete membros... Era um número razoável, não era? Ou foi loucura pedir aquilo? Só de conseguir fazer com que um aluno entrasse para o coral sentir-se-ia feliz, mas um coral não é feito por apenas uma pessoa... É... Foi um pedido justo, mas e agora? O que aconteceria? O diretor sabia que o programa de artes era imprescindível para a boa educação dos alunos. E, quanto mais opções, melhor!
Chamar Osmar e dizer que estava restabelecendo o programa seria humilhante. Além do mais, onde ficaria sua palavra? Precisava reverter aquela situação, mas não sabia o modo...
Chegou à diretoria. Lá, estava Vivian e mais dois alunos.
- O que está acontecendo aqui, Vivian? – perguntou confuso.
- Diretor, eu... – procurava medir suas palavras. – Encontrei estes dois alunos em uma sala... Praticando... Atos libidinosos.
O diretor corou. Chamou Vivian mais perto e falou no seu ouvido:
- Estavam fazendo sexo?
- Não... Estavam apenas... Se “pegando”.
Ferreira acomodou-se na sua confortável cadeira e olhou para os alunos. O rapaz, claramente envergonhado. Já a moça, tinha uma expressão muito arrogante e o olhava nos olhos. Estava totalmente despenteada e com um enorme galo na testa.
- Bem, crianças... Vocês sabem que praticar esse tipo de ato na nossa escola é proibido, não é?
O rapaz balançou a cabeça afirmativamente, a garota disse não.
- Desculpe? – Perguntou o diretor ao ouvir a resposta dela.
- Não sabia que era proibido não, diretor. Ainda mais por esse momento que estamos passando, chamado “adolescência”. Não sei se o senhor entende, mas os hormônios me deixam louca. Sabe? – respondeu Tiffany com todo seu ar de superioridade.
- Eu sei. Já passei pela mesma fase que vocês estão passando. Mas nem por isso chamei minha namorada para dar uns “amassos” – sinalizou aspas com os dedos – numa mesa de uma sala de aula. É pra isso que existem moitas... – Ops! Não deveria de dito aquilo.
Tiffany esboçou um leve sorriso no canto da boca.
- Pois é diretor, acho que o senhor deveria nos compreender... É muito complicado passar pela adolescência. – Pedro apenas balançava a cabeça.
- Entendo... Mas, infelizmente, o regimento da escola me obriga a punir vocês por isso. Precisamente falando: suspensão.
- Quê? – Pedro gritou, não podia ser suspenso.
Tiffany permaneceu calma.
- Não tem outra coisa que o senhor possa fazer? – perguntou o rapaz.
Ferreira viu ali a situação que tanto procurava. Se convencesse aqueles dois a entrarem para o coral, esse passaria a ter oito membros, e ele não precisaria mais dissolvê-lo. Pela expressão do garoto, aceitaria tranquilamente, mas a garota parecia mais difícil de persuadir.
- Bem – falou calmamente -, eu posso suspendê-los ou – Tiffany ajeitou-se na cadeira para ouvir melhor a segunda proposta – vocês podem ingressar no coral da escola e eu só darei uma advertência a vocês; nem precisarei chamar seus pais.
- Quê? – os dois disseram juntos.
- Prefiro mil vezes ser suspensa até o fim do ano do que entrar para aquele clube de idiotas... – falou a garota atônita.
- Não diretor! Ela só tá meio confusa... A gente aceita! – retrucou o rapaz.
Ela olhou para ele como se quisesse dizer: “O que você acha que está fazendo?”.
- Eu acho que VOCÊ – colocou o dedo no peito do rapaz – está ficando confuso... Onde já se viu? Querer entrar para aquele coralzinho chinfrim... – acomodou-se na cadeira.
- Combinado diretor! – Pedro virou-se para o diretor. – Nós vamos para o coral...
- Quê? – Tiffany tentou argumentar, mas o rapaz a segurou e tapou sua boca com uma de suas mãos.
- Ótimo então. Suas audições serão amanhã, às 14hrs no auditório.
Pedro saiu de lá ainda segurando Tiffany.
- O que foi isso diretor? – perguntou Vivian – Aquilo é punição?
- Assuntos particulares, Vivian... Assuntos particulares... – respondeu com um leve sorriso vitorioso. – Mas acho que o Osmar vai te agradecer por isso...
A professora abriu um enorme sorriso e seus olhos reluziram de alegria.
III
- Espero que você saiba o que está fazendo! – Tiffany estava histérica e desde que Pedro a soltou não parava de gritar. – Não vou entrar para aquele parque dos horrores da popularidade... Você já viu quem faz parte daquele zoológico?
Pedro estava ficando assustado. Tiffany tirou um caderno de dentro da bolsa.
- O menino nerd de óculos gigantes do jornal, o menino altamente estranho, literalmente falando, da seleção de vôlei e aquela baleia sorridente que me dá nos nervos!
- Porque você tem uma lista das pessoas que estão no coral? – perguntou assustado.
- Ah querido, sou a rainha desse colégio. Preciso estar sabendo de tudo. – fez uma carícia no queixo dele.
- Certo... – aquilo era muito estranho – Mas não entendo o motivo de você não querer de jeito nenhum entrar para o coral... É só por causa dos outros alunos?
- Acho que você não entende... Entrar para esse clube de perdedores, arruinaria minha campanha para rainha do colégio desse ano. Você sabe qual o nível de popularidade daquele clube?
Pedro estava confuso; aquilo era demais para ele.
- Menor que o do clube de xadrez... – continuou Tiffany – Entrar para o coral seria como decretar minha pena de morte! – estava muito chateada – Ainda mais agora que consegui sair contigo... – sussurrou.
- Como é? – Pedro estava abismado – Você só “tá” saindo comigo por conta dessa sua campanha imbecil?
- Olha lá! Não é uma campanha imbecil... – enfatizou o imbecil – Sim! – sussurrou.
O rapaz estava indignado, mas no fundo, não esperava algo melhor de Tiffany. Sabia que ela era uma garota para ser curtida, apenas.
Acalmou-se.
- Você querendo ou não, vamos fazer esse bendito teste para o coral. – respirou fundo para conter a raiva – Não vou ser suspenso por sua causa.
- Ah... Agora a culpa é minha? – retrucou – Lembra que foi você que queria se “divertir” um pouquinho?
- Ok! Nós dois somos culpados! Mas está dito: vamos fazer a p**** do teste! – saiu.
Nossa! Tiffany nunca o viu agir daquele jeito... De repente, ele havia ficado... Tão sexy...
IV
- O que o senhor quer dessa vez diretor? – perguntou Osmar entrando na diretoria.
- Tenho uma ótima notícia para você Osmar...
Ih... Boa notícia do diretor? O que seria dessa vez? Seria despedido? Já não bastava lhe ter tirado seu precioso coral, agora tiraria também seu emprego?
Para Osmar, a única coisa boa que lhe ainda restava era aquele coral, e agora, nem isso... Será que não dava para deixá-lo sem membros? – perguntou-se o indignado professor – Osmar adorava as tardes de terça, quando ia sozinho para o auditório, e ficava lá horas e horas cantando para a plateia vazia... Fazia-lhe lembrar dos velhos tempos... Ah... Que tempos! – lembrou-se com nostalgia – Quando valia realmente a pena viver. Agora, sem o coral, qual seria o objetivo da sua vida? Dar aulas chatas de história? Ele preferiria morrer a fazer aquilo.
-... Você terá uma nova chance com o coral – Osmar esboçou um sorriso – Mas, terá que abrir audições para dois novos candidatos. Fechado? – o diretor estendeu a mão.
- Fechado!
- E outra coisa: quero assistir essas audições.
- Tudo bem... – estranhou esse ato do diretor.
Apertaram-se as mãos.
Osmar até que estava satisfeito, se os dois candidatos que faltavam fossem tão bons quanto os anteriores, sua mina de ouro aumentaria ainda mais...
V
Tiffany estava muito preocupada. Com certeza sua entrada naquela coisa faria sua popularidade despencar e, consequentemente, sua campanha para rainha da escola entraria por água a baixo.
Andava em círculos, quando Débora chegou.
- Oi amiga!
- Oi Débora!
- Você tem alguma coisa amiga? Tá diferente...
- Alguns problemas... – não parava de andar.
- Eu percebi... Amiga, você combinou seu vestido rosa Pink fosforescente com a jaqueta verde limão... – puxou Tiffany para perto – Você “tá” parecendo um outdoor com luzes neon. – deu uma piscadela – Essas botas não são da estação passada?
Tiffany sentou-se num banquinho que havia perto e começou a chorar no ombro da amiga...
- Ai amiga... Às vezes é tão difícil ser eu... Sabe? – Débora concordou com a cabeça – Ter que ser perfeita em tudo, manter minha popularidade e tentar não reprovar em mais de uma matéria... – assuou o nariz – Isso é difícil...
- Calma amiga, vai ficar tudo bem... – respondeu dando leves batidinhas no ombro da outra. – O que aconteceu pra você ficar assim?
Tiffany ia responder... Não! Ninguém poderia saber daquilo, nem mesmo Débora. Aliás, pensando bem, Débora era confiável? Ou será que se ela soubesse do “segredo” contaria a todos? Bem, pelo sim, pelo não, melhor não contar.
- Ai amiga, é o Pedro. Ele tá se fazendo de difícil... – procurou despistar – Isso cansa, poxa!
- Eu sei, eu sei... – Débora respondeu desconfiada.
VI
- Então diretor, quem são os dois alunos misteriosos que o senhor não quis revelar? – perguntou Osmar ansioso caminhando para o auditório.
- Calma! Daqui a pouco você saberá...
- Eles já estão no auditório?
- Sim! Pedi que fossem para lá.
Osmar estava feliz. Pelo menos seu coral estaria de volta. Ele e todos os seus talentos preciosos. Aquela turma traria sucesso a ele, disso tinha certeza.
***
- Já disse que não vou! – gritou Tiffany.
Estavam, ela e Pedro, sentados na cantina. Faltavam poucos minutos para o início da audição.
- Você tem que ir! Meu pai não pode ser chamado pra vir aqui, se for, tô perdido... Ele já estava a um fio de cortar minha mesada, com isso, ele vai cortar na certa... – dizia, preocupado.
- Olha coração! – acariciou o queixo dele e sentiu sua leve barba a fazer; estranho, aquilo fez seu braço arrepiar-se. – Sei que se seu pai cortar sua mesada vai ser uma grande tragédia, mas você não está entendendo que cogitar a ideia de que entrarei para o coral da escola é assinar a sentença de morte do meu reinado. Nem você conseguiria alavancar minha popularidade, e olha que você já fez milagres...
- É... – falou o rapaz, meio convencido. Em certos momentos, Tiffany parecia ser tão amável, fazia sentir-lhe diferente... Mas depois ele lembrava o quão fútil ela era; definitivamente, ela era uma garota só para se divertir. – Deixa eu te mostrar então o milagreiro.
Puxou-a pela cintura para perto. Beijaram-se. Ela também gostava daquilo, mas ainda não tinha certeza se ele era o cara certo. Embora sua vida parecesse extremamente fútil, não gostava daquele estilo de vida; aquilo lhe lembrava de coisas que queria esquecer.
Ela o afastou suavemente.
- Não, Pedro. Agora não! Precisamos resolver isso... – falou séria.
- Já tá resolvido gata, to indo!
- Quê? – estava atordoada – Você tá doido?
- Você indo ou não, eu vou. Tchau.
Afastou-se. Ela ficou lá: sozinha, sentada em um banco da cantina. Não queria ser suspensa, mas, pelo menos por enquanto, sua popularidade é o que lhe mantinha de pé; uma das poucas coisas boas que havia nela, quiçá a única. Gostava de se sentir conhecida, do modo que olhavam para ela quando passava pelos corredores. Sentia-se desejada.
Em compensação, ser suspensa lhe traria alguns problemas bem sérios: provavelmente seu pai bloquearia seu cartão de crédito, ficaria de castigo sem usar o computador... É... De qualquer maneira, perderia algo. Não existiria um modo de perder o mínimo possível, ou melhor, não perder nada?
Se fosse para a audição, perderia, provavelmente, a popularidade, pensou. Se não fosse, perderia o cartão e ficaria de castigo... Espera! E se ela fosse e não passasse? Não poderia ser suspensa, pois foi à audição; e ninguém poderia culpá-la da sua falta de talento. Além disso, ninguém saberia que havia feito o teste para o coral. Sim! Essa era a saída, só precisava garantir que não teria a mínima condição de ser aceita, mas isso seria muito fácil, sempre fora horrível nas aulas de canto da igreja quando tinha nove anos. Ser reprovada seria muito fácil! Não precisaria fazer esforço algum – sorriu.
Levantou-se. Tirou o pente da bolsa de couro vermelho. Arrumou seu cabelo loiro e foi-se em direção ao auditório.
***
- Chegamos. – falou Osmar ao entrar pela coxia do auditório. – Então, onde estão os dois alunos misteriosos? – perguntou ansiosamente.
Pedro estava sentado em uma das primeiras fileiras, roendo unhas.
- Aí está um deles... – sorriu o diretor. – Falta só a outra...
- Bem, vamos começar então... – andou até o centro do palco e falou em um tom que o rapaz pudesse escutar – Boa tarde meu rapaz!
- Ahn... Boa tarde... – respondeu timidamente após levar um susto com a repentina chegada do professor.
- Suba então ao palco para nos mostrar seu talento... – Osmar estava contente, por incrível que pareça.
Os três acomodaram-se nos seus respectivos lugares.
- É... Boa tarde, meu nome é Pedro Martins.
- Boa tarde... Quais são suas qualidades, meu jovem?
- Bem... Sou bonito, e forte, e... Pego a mina que quero...
Ó céus! Aquilo começou da pior maneira... Aquele rapaz era claramente vazio de espírito artístico. Osmar tinha certeza que seu desempenho seria horrível; não teria a menor condição de aceitá-lo. Bem, pelo menos, ainda há outra pessoa; o problema é que ela ainda não apareceu... Osmar mordeu a ponta da caneta.
- E o que você veio cantar então? – ele precisava sair do palco; sua presença ali maculava aquele antro sagrado.
- Vou cantar minha música favorita: – sorriu o rapaz – “Ai, seu eu te pego!” do Michel Teló.
Osmar teve vontade de finalmente utilizar o que havia aprendido no curso de tiro que fizera durante a faculdade. Como alguém poderia gostar daquela música? Era uma afronta ao canto. Ele, definitivamente, precisava dispensar aquele rapaz...
- Pois então, Cante! – sugeriu o professor com um sorriso amarelo.
[Ai, se eu te pego! (Michel Teló) – Pedro]
Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai, ai se eu te pego!
Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai, ai se eu te pego!
Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar.
Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai, ai se eu te pego!
Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai, ai se eu te pego!
Osmar estava impressionado. Como uma só pessoa conseguia reunir tanta falta de talento? E pior, tanta falta de gosto musical! Ele queria esquecer a voz daquele rapaz cantando aquela música, mas não conseguia. A música era tão ruim, que ficou grudada na cabeça dele! Agora, só uma coleção de CDs do Chico Buarque conseguiria tirar aquela memória traumatizante do seu pensamento.
- Parabéns meu rapaz. Você realmente conseguiu mostrar seu valor. – ou a falta dele, pensou – Bem, como a outra pessoa ainda não chegou, acho que encerraremos por hoje.
Osmar precisava ir embora; aquela música fez-lhe sentir mal. Precisava de um remédio para enjoo.
- Estou aqui! – disse Tiffany, abrindo a porta do auditório.
- Que ótimo... – comentou Osmar num tom notadamente irônico.
O diretor estava contente. Conseguiu fazer com que Tiffany viesse à audição. Agora só precisava convencer o professor a aceitar os dois. E pela expressão de Osmar ouvindo Pedro cantar “Ai, se eu te pego!”, não seria nada fácil.
A garota subiu ao palco.
- Boa tarde, eu sou Tiffany Mendonça.
- Mendonça? – cochichou para o diretor – É ela a filha do dono da Construtora Mendonça?
- Sim!
- Bem, minha cara. – disse olhando para a moça e em um tom de voz audível – Quem é você?
- Desculpe? O senhor não sabe quem é Tiffany Mendonça? – sentiu-se afrontada; anos trabalhando sua popularidade para vir uma pessoa lhe perguntar quem era? Céus! – Deixa eu lhe informar: sou, simplesmente, a rainha do colégio. – respondeu arrogantemente.
- E o que é isso?
Tiffany estava chocada. Onde aquele homem vivia? Numa caverna há cinquenta metros abaixo do solo? Tudo bem que ele parecia vir da pré-história, mas não saber o que era a rainha? Não saber quem era Tiffany Mendonça? Só sendo o diretor do coral mesmo... Não era à toa que aquele grupinho era tão... Imbecil!
- Todo ano o jornal da escola elege a aluna e o aluno mais reconhecidos no ano, ou, como eles dizem: populares; eles são chamados de “Realeza do Augusto dos Anjos”. – cochichou o diretor no ouvido de Osmar.
“Que futilidade!”, pensou o professor.
- E o que vossa majestade irá cantar? – conseguia ser extremamente irônico.
- Bem, é uma música que resume muito bem o que eu penso do garoto com quem estou saindo ultimamente. – olhou para Pedro e, em seguida, virou para o guitarrista e ordenou: — Toca!
[Cachorrinho (Kelly Key) – Tiffany]
Se tem uma coisa que me deixa passada
É gritar comigo sem eu ter feito nada
Se tem uma coisa que eu não admito
É gritar comigo
Você gosta de mandar
Você só me faz sofrer
Você só sabe gritar
E grita sem saber
Mas sem mim você não vive
Sem meus cuidados amor
Fala baixinho comigo
A sua dona chegou
Vem aqui que agora eu tô mandando
Vem meu cachorrinho, a sua dona tá chamando (2x)
Cantava olhando para Pedro e dançava de um modo bem sensual.
Sit, junto, sentado, calado (2x)
Você gosta de mandar,
Você só me faz sofrer
Você só sabe gritar,
E grita sem saber
Mas sem mim você não vive,
Sem meus cuidados, amor
Fala baixinho comigo
A sua dona chegou...
Vem aqui que agora eu tô mandando,
Vem meu cachorrinho, a sua dona tá chamando (4x)
Vem aqui
Sit, junto, sentado, calado (2x)
“Quanto será que ela cobra por uma noite?”, pensou Osmar. Bem, pensando na apresentação: seu talento vocal era inexistente, mas ela dançava bem. Se seu gosto musical fosse bom, a possibilidade de aceitá-la seria considerada, mas a música que ela cantou... – balançou a cabeça negativamente – Coitado do rapaz a quem ela ofereceu a música, era um tremendo “barriga-branca”.
Enquanto isso, Pedro estava afundado na cadeira. Nem queria ver Tiffany, depois daquela vergonha que lhe fez passar. Será que o professor percebeu que ele era o rapaz? Tomara que não...
- Bem minha querida, você foi muito bem! Parabéns! – muito bem em cantar mal, isso sim.
O professor levantou-se, e o diretor em seguida.
- O resultado da audição de vocês será dado amanhã, aqui mesmo no auditório. Boa tarde! – os dois saíram.
VII
Osmar havia sido chamado novamente à diretoria. Ele passava mais tempo ali, nas duas últimas semanas, do que na própria casa.
- Diga diretor! – entrou de supetão, notadamente irritado.
- Chamei-o aqui para conversarmos sobre as audições de ontem...
- Não há nada a ser conversado – interrompeu.
- Ao contrário, tem muita coisa a ser acertada. Sente-se! – o professor acomodou-se na cadeira estofada que, por sinal, era bastante confortável – O que você achou das apresentações de ontem? – o diretor pegou sua xícara de café que estava sobre a mesa e tomou um gole.
- Ridículas! – falava indiferentemente – Nunca vi tanta falta de cultura em menos de dez minutos.
- Foi tão ruim assim? Eu até que gostei da versão do Pedro de “Ai, se eu te pego!”.
- Desculpe, mas o senhor é surdo? O garoto lá desafinou boa parte das notas! E olhe que a música nem é tão difícil assim...
- E a Tiffany?
- Olha, se fosse um concurso de prostituição ela ganhava, certeza. Ela fez partes minhas ficarem animadas...
- As minhas também... – sussurrou o diretor enquanto tomava outro gole de café – E qual a sua decisão então?
- Não vou aceitá-los, é lógico! Aceitar aqueles dois seria praticar eutanásia no meu coral! – o professor estava atônito.
- Não aceitá-los seria o mesmo – disse, calmamente, o diretor.
- Como?
- Vou repetir Osmar: o coral precisa ter no mínimo sete integrantes para eu poder revitalizá-lo. Até semana passada, só havia seis. Então, ou você aceita os dois, ou o coral será realmente cancelado! Essa é minha última palavra.
Osmar respirou fundo, para não socar o diretor. Bem, então a escolha era: continuar o coral, mas com dois seres destituídos de alma artística, ou acabar com o coral... Em outros tempos ele escolheria acabar com o coral, só de pensar em ouvir aquelas vozes de novo ele enjoava. Mas sua última semana fora horrível, não aguentava ficar longe daquele auditório. Bem, então, se a escolha na verdade era pelo coral: escolhê-lo-ia. Só teria que dar um jeito de manter aquelas duas boquinhas muito bem fechadas. Quem sabe até, seus seis talentos ofuscariam aqueles outros dois.
- Tudo bem. Vou aceitá-los.
- Ótimo – respondeu calmamente o diretor que, por dentro, estava pulando de felicidade.
VIII
Depois de sair da diretoria, Osmar, que ainda estava chateado com a ideia de ter alunos sem talento no seu precioso coral, foi à sala dos professores. Sentou-se em uma mesa que estava vazia e começou a ler um livro; não gostava de sentar com os outros professores; eles eram... Chatos.
- Oi Osmar! – falou Vivian, aproximando-se.
- Oi! – falou sem tirar os olhos do volume.
- Quero que você me explique uma coisa! – sentou-se ao lado dele.
- O que? – falava de modo entediado.
- Peguei dois alunos dando... Fazendo coisas proibidas, e os levei ao diretor. A punição que ele aplicou foi obrigá-los a fazer o teste para o coral. E depois, ele disse que você me agradeceria... – sorriu – O que aconteceu?
Osmar parou de ler e olhou para ela com olhos de tempestade.
- O que aconteceu? Você, simplesmente, conseguiu destruir o coral! – estava irado.
- Como?
- Não poderia esperar nada melhor de você... – disse enquanto colocava o livro dentro da bolsa. – Você nunca conseguiu fazer nada certo. NADA! — Saiu.
Ela queria chorar, queria morrer... Não! Ele não merecia... Ele só merecia uma coisa dela: ódio.
IX
Todos estavam sentados no auditório. Não sabiam o motivo de Osmar tê-los chamado, mas Talita tinha um bom pressentimento:
- Estou falando, pessoas. Algo me diz que o coral não será cancelado. – agora falando sozinha – O diretor teve ter visto um dos meus solos que posto no facebook...
Além de todos os integrantes do coral, também estavam ali Pedro e Tiffany. Aquele continuava com raiva dessa.
- Muito bem pessoal – falou Osmar entrando apressado – Serei sintético. Tiffany e Pedro passaram no teste de admissão – disse entortando a boca -, portanto, estão dentro. Com isso, passamos a ter oito membros, e o coral volta a funcionar. Próxima reunião na terça-feira, às 14hrs. Boa tarde!
Saiu do mesmo modo como entrou. Enquanto isso, todos comemoravam e gritavam; estavam muito felizes! Aliás, todos menos Pedro e Tiffany. Ele estava indiferente à situação, ela estava estática. E agora? O que seria da sua campanha para rainha?
X
- Diga diretor! – Osmar já estava cansado de entrar naquela sala. O que seria dessa vez?
- Calma Osmar, não é nenhum problema. – disse com um sorriso confiante nos lábios – Já que o coral está em pleno funcionamento, e vocês terão que se apresentar na Semana de Artes do colégio, preciso lhe dizer qual será o tema desse ano.
- Pois então diga! – nem chegou a se sentar.
- O tema desse ano será... – batucou na mesa, tentando imitar tambores – Nordeste. Então, o que acha?
Notas finais
Não percam o próximo episódio sexta que vem!
Baixe as músicas do episódio:
http://www.4shared.com/rar/6dURDKEX/Cante_-_1x02.html
Fale com o autor