Cante!

1 Ep01 - Novos horizontes


Notas iniciais
O coral do colégio está às moscas. Percebendo isso, o diretor pressiona o despreocupado professor do coral a abrir audições. Depois de ameaças, vagas são abertas.
Espero que gostem! :D

I


- Ok Osmar, vamos direto ao ponto – disse o diretor enquanto arrumava os óculos que estavam caídos sobre a ponta do nariz -. Ou você retoma o coral, ou serei obrigado a cancelar o projeto!

- Mas diretor, não tem como revitalizar o projeto em tão pouco tempo – respondeu o professor que possuía ralos cabelos e uma careca brilhante, com certeza frutos de muito sacrifício -. O senhor quer que nos apresentemos daqui a dois meses? Não tem condições.

- Isso não é um pedido Osmar, é uma ordem. Ou você reestabelece o coral ou terei que cancelá-lo – fez uma pequena pausa para afrouxar um pouco a gola da camisa que estava sufocando-lhe – e, consequentemente, seu bônus por participação no programa de Artes também será cortado.

- Mas diretor – argumentou, preocupado, o professor -, se o senhor cortar meu bônus, morrerei de fome.

- Sem chantagem psicológica, Osmar. Não dessa vez!

- Está bem então, o senhor venceu. Mas não há condições de eu preparar um número para a Semana de Artes; não um satisfatório – umedeceu um pouco os lábios que estavam ressecados -. Recrutar novos membros e torná-los suficientemente aprováveis para uma apresentação pública demanda tempo.

- Eu sei Osmar. Por esse motivo, tornarei as coisas um pouco mais animadas.

- Como? – Arguiu o professor que começou a suar depois da última frase. – O que o senhor quer dizer com “Tornar as coisas um pouco mais animadas”?

- Vou remanejar duas turmas suas para outros professores, mas, em compensação, você terá que reunir pelo menos sete integrantes até semana que vem.

- Desculpe? – Aquilo parecia loucura, quem em sã consciência exigiria aquilo?

- Desculpe Osmar, mas ou é isso ou terá que dizer adeus ao seu querido bônus...

O professor estava começando a ficar com raiva, mas não podia deixar aquilo transparecer. O mais sensato seria, embora fosse uma completa loucura, aceitar o proposto.

- Ok, aceito.

Apertaram-se as mãos e Osmar saiu da sala do diretor Humberto Ferreira. Estava, agora, em uma corrida contra o tempo. Não sabia onde ou como, mas teria que encontrar sete membros para seu coral. E não podia ser qualquer um, talento era necessário. Afinal, um professor do gabarito de Osmar não ensinaria qualquer um.


II


Osmar estava com muita raiva. Como aquele diretorzinho queria que ele organizasse uma apresentação em dois meses, e ainda por cima que reunisse sete membros em uma semana? Se existisse ao menos um talento naquela escola já seria muito. Será que ele não percebia que o motivo de o coral estar às moscas há tanto tempo era justamente o fato de não haver ninguém ali que valesse a pena a dedicação de Osmar?

Mas ele precisava ficar calmo... Como o diretor disse: “não era um pedido, era uma ordem”. Uma ordem muito idiota, isso sim! Não! Ele precisava focar, precisava organizar uma audição o mais rápido possível.

Talvez se ele anexasse a lista de assinaturas ainda hoje, daria para realizar as audições daqui a dois dias... Isso! Era isso que ele iria fazer.

Bem, para isso precisava trabalhar agora mesmo com o planejamento das audições, e para isso precisa de um lugar calmo.

Voltou à diretoria para pedir o resto do dia de folga.

III


No dia seguinte, a lista de assinaturas para o coral do colégio Augusto dos Anjos já estava anexada em um dos corredores, num lugar muito estratégico: perto do bebedouro.

Muitos alunos passavam por ali todos os dias e Osmar tinha certeza que aquilo chamaria a atenção de muitos deles, afinal, todos querem fazer parte de um coral dirigido por ele. O talento emanava de Osmar e quem não se sente atraído pelo talento?

Bem, em uma coisa ele tinha razão: o cartaz chamou a atenção de alguns alunos.

Três passaram por ali, um rapaz e duas moças, perto da hora do intervalo: ele, alto e magro, era o que mais falava; uma delas, que estava com um vestidinho róseo, vinha com a cara um pouco fechada e parecia que o primeiro falava com ela; a outra usava calça jeans e uma blusinha branca, bem simples; vinha em silêncio, apenas observando os outros dois. Foi essa última que percebeu o cartaz pregado ao lado do bebedouro.

- Olha gente, um cartaz sobre audição para o coral do colégio! – apontou a garota que se chamava Paloma.

- Nem sabia que isso existia... – respondeu o garoto, Fernando.

- Audições para entrar no coral? – replicou a garota do vestido róseo, que se chamava Maria.

- Não Moranguinho, não sabia que existia um coral. – retrucou o rapaz.

- Olha seu idiota – Maria estava ficando vermelha -, se você me chamar disso mais uma vez...

- As duas crianças poderiam parar de brigar um pouco, por favor. – apartou Paloma, que tentava ler o cartaz – As audições serão amanhã às duas da tarde...

- Ai, que legal... – os olhos de Maria brilhavam.

- Quando foi que começou a existir um coral aqui, que eu não fiquei sabendo? – Fernando parecia indiferente.

- Na verdade, pelo que eu sei, o coral existe há um bom tempo, mas já faz séculos que ele não tem membros. – respondeu Paloma – Não sei por que resolveram abrir vagas agora... – continuou a ler – Mas estou a fim de tentar, vocês vão?

- Se a Moranguinho também for... – replicou o rapaz.

- Ai seu idiota! – a garota começou a dar leves batidinhas no peito dele enquanto o garoto gargalhava alto.

- As duas crianças podem parar de brincar? – Paloma interveio.

Os dois ficaram em silêncio.

- E aí? Vamos? – questionou Paloma.


IV


Outros alunos também passaram por aquela lista, entre eles, uma garota gordinha.

Vinha ela e uma amiga, as duas pararam para ler aquilo.

- Acho que o universo está a meu favor hoje, o grande sonho da minha vida bate a minha porta. – falou a garota gordinha .

- Como assim Talita? – perguntou a outra garota.

- Desde pequena, sonho com o dia em que me tornarei uma cantora internacionalmente famosa. E pelo visto, meu sonho começa terça-feira. – seus olhos brilhavam.

A amiga gargalhou.

- Tudo bem, Talita. Vai se inscrever, então?

- Lógico, ainda pergunta? – tirou a caneta da bolsa e assinou o papel – E você, vai?

- Ah não! Tenho vergonha...

- Que é isso... É tão normal, já estou até acostumada...

- Boa sorte pra você então...

- Obrigado! Mas sei que terça, a minha estrela dourada começará a brilhar. – seus olhos brilhavam.


V


Também passaram por lá duas garotas.

Uma delas estava lendo aquilo atentamente, a outra – que usava botas vermelhas, jeans, jaqueta de couro rósea e tinha longos cabelos áureos– chegou e perguntou:

- Tá olhando o que aí Débora?

- Amiga, o que é coral?

- É um monte de gente imbecil cantando músicas idiotas, por quê? – respondeu Tiffany, a garota das botas vermelhas.

- Ah... – respondeu a garota, meio cabisbaixa – Achei que ia ter um teste “pro” elenco da nova temporada do Bob esponja...

- Como assim, Débora? – Tiffany levantou os óculos para ler o cartaz.

- Ai amiga, às vezes tu “é” tão burra!

- Eu sei quem é a burra aqui, amiga. – respondeu Tiffany recolocando os óculos cor-de-rosa, além de ter caprichado na ironia ao dizer “amiga” – Certo, chega de perder tempo com isso, vamos lá pra fora! Preciso falar com o Pedro.

- Hoje ele tá treinando?

- Sim!

Débora soltou um gritinho bem agudo.

- Ai amiga, tem alguma chance de vocês ficarem? – perguntou Débora, que estava se abanando.

- Se depender de mim, todas!

As duas riram alto.

- Vamos? – Tiffany perguntou.

- Agora! Quero saber todos os babados em primeira mão.


***

Enquanto as garotas iam para o campo de futebol, onde estava ocorrendo o treino do rapaz tão desejado por elas, Osmar passou no bebedouro para retirar a lista de assinaturas. Já havia deixado a lista tempo o suficiente ali.

- Uhm... – pensou o professor – Até que teve um bom número de assinaturas. Sabia que colocando a lista aqui atrairia muitas pessoas. Veremos agora se pelo menos uma delas merece ser minha aluna.

***

As garotas finalmente chegaram ao campo. Vários rapazes treinando futebol. Débora puxou Tiffany e falou perto do seu ouvido.

- Amiga, acho que a gente chegou “na” terra prometida. – abanava-se.

- Né? – as duas gargalharam.

Tiffany logo avistou Pedro, acenou e ele não demorou muito para vir falar com elas.

Estava sem blusa, mostrando seu corpo definido. Débora não conseguia parar de olhar para o peitoral dele; ficou estática.

- Oi meninas! – cumprimentou o rapaz.

- Oi lindo! – respondeu Tiffany, a outra estava hipnotizada apenas balançando a cabeça com a boca semiaberta. – Vim aqui saber quando é que a gente vai dar uma saidinha... – falou em tom sensual.

- Ah... Quando você quiser gata!

- Ah... Então se eu escolho – ajeitou o cabelo que caía sobre os olhos –, pode ser quinta, então?

- Quinta não posso, tenho treino de futsal.

- Ah tudo bem... – sorriu – Que tal sexta então?

- Ih gata... Tenho um jogo sexta a noite.

- Você tem treino no sábado? – falou quase gritando, estava irritada.

- Não, não tenho nada no sábado. – às vezes Pedro ficava assustado com as atitudes de Tiffany – Marcado, então?

- Lógico! – seu tom havia voltado ao doce, deu o sorriso mais meigo que pode.

De repente, um dos garotos errou um chute e a bola acabou batendo na cabeça de Débora, que continuava feito estátua. Nem se moveu.

Pedro observou tudo e perguntou:

- Você “tá” bem, Débora?

- Oi? – a garota finalmente acordou do transe. – Claro! Estou ótima.

- É que você tava aí tão concentrada...

- É... É que tava pensando na minha aula predileta... – deu um sorrisinho meio desconcertado.

- E qual é sua aula predileta? Pra merecer tanta atenção...

- Minha aula predileta? – o rapaz balançou a cabeça afirmativamente – É física.

Tiffany soltou uma gargalhada que todos que estavam ali puderam ouvir. Sabia que Débora detestava Física porque ainda não entendia a diferença entre velocidade e aceleração. A aula predileta de Débora era Artes, e nem porque gostava do conteúdo, mas por que a professora a deixava usar o celular durante aula, alguma coisa a ver com liberdade artística.

- Que ótimo... – replicou o garoto que considerou a reação das duas garotas estranha.

- Bem Pedro, então tá marcado. Sábado na Florence! – disse Tiffany puxando o garoto pelo braço.

- Certo gata! Te pego! – virou para Débora – Tchau Débora.

- Tchau! – acenou da maneira mais estranha que se possa imaginar.

Tiffany saiu dali extremamente feliz, estava garantindo seu passaporte para a popularidade. Enquanto Débora, ainda parecia que estava dopada.


VI


Finalmente chegou o grande momento da audição. Os inscritos reuniram-se em frente ao auditório da escola, assim como pedia o cartaz. Ali estava Fernando, Maria e Paloma, Talita – que por sinal, estava muito ansiosa, e, por isso, não parava de falar; já havia conhecido todos ali -, e mais dois garotos.

- Quem são esses dois? – perguntou Maria, em voz baixa, para Paloma.

- Sei que o mais alto é da seleção de vôlei. O menino de óculos, nunca vi.

- Eu também não.

De repente, a porta abriu-se. Ninguém estava ali. Havia apenas o auditório vazio e o palco decorado com pequenas lâmpadas que, ao longe, lembravam velas. Alguns instrumentos no fundo.

Todos entraram.

Nada. Silêncio.

De repente, ouviram-se passos. Era o diretor do coral, professor Osmar, subindo ao palco.

- Boa tarde. Agradeço a presença de todos e, sem mais delongas, que comecem as audições!

Todos se acomodaram. Osmar sentou-se em uma das primeiras fileiras. Organizou alguns papéis em uma prancheta que trazia debaixo do braço e iniciou...

- Fernando Gouveia. – chamou o professor.

O rapaz levantou-se e subiu ao palco.

- Boa tarde, sou o Fernando. – disse o garoto que estava claramente nervoso.

- Olá Fernando. – anotou alguma coisa – Não precisava ficar nervoso, não vou te comer. – parou de escrever – Em nenhum dos sentidos. – falou com a expressão séria.

Fernando que já estava nervoso ficou, agora, envergonhado. Estava vermelho até às orelhas.

- Bem, e o que você pode falar sobre Fernando Gouveia? – perguntou o professor.

- É... – o garoto ficou alguns instantes pensando – Ele é um cara legal, companheiro e leal.

- Muito bem... – anotava bastante – Conseguiria se descrever em uma palavra?

- Amigo. – respondeu o rapaz depois de pensar alguns segundos.

- Ok! E que música cantará?

- “Índios”, Legião Urbana.

- Vamos ouvir então.


[Índios (Legião Urbana) – Fernando]


Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.

Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer.

Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.

Todos aplaudiram.

Aquele rapaz até que tinha um pouco de talento, pensou Osmar, não seria um completo desperdício ensiná-lo. A sua interpretação não foi a melhor, estava muito preso aos moldes da sociedade, mas seu timbre é agradável... Se bem trabalhado, conseguiria boas músicas.

- Muito bem Fernando. – falou o professor – Bem, o próximo será Renan Carvalho...

O garoto de óculos levantou. Era pequeno e seus grandes óculos de armações negras faziam-no parecer menor ainda.

- Oi, meu nome é Renan Carvalho Nogueira.

- Olá Renan. – Osmar olhava nos olhos dele e aquilo assustava ainda mais o garoto – Farei a mesma pergunta que fiz para o Fernando, quem é você?

- Sou tímido... E... Companheiro também. – o garoto olhava para o chão e gaguejava bastante.

- Uhm... E conseguiria se descrever em apenas uma palavra?

- Comprometido.

- Que ótimo... – anotou – Isso é muito importante! – o garoto esboçou um leve sorriso – E o que vai cantar?

- Fácil do Jota Quest.


[ Fácil (Jota Quest) – Renan ]


Tudo é tão bom e azul
E calmo como sempre
Os olhos piscaram de repente
Um sonho

As coisas são assim
Quando se está amando
As bocas não se deixam
E o segundo não tem fim

Um dia feliz
Às vezes é muito raro
Falar é complicado
Quero uma canção

Fácil, extremamente fácil
Pra você, e eu e todo mundo cantar junto
Fácil, extremamente fácil
Pra você, e eu, e todo mundo cantar junto (Bis).

Osmar estava ficando impressionado. Esse não tinha tanto talento quanto o primeiro, mas era possível perceber a paixão que ele colocava nas coisas que fazia. Seria interessante admiti-lo?

- Leandro Marques.

O garoto alto levantou-se. Seu cabelo castanho-claro chamava a atenção para o seu rosto, dando-lhe uma aparência bem jovial.

Subiu ao palco.

- Boa tarde. Sou o Leandro. – sorriu apenas com o canto da boca, estava um pouco nervoso.

- Boa tarde. Qual é sua maior qualidade Leandro?

- A tranquilidade. – diferentemente dos outros, respondeu prontamente.

- E você conseguiria, que nem seus colegas, descrever-se em apenas uma palavra?

- Sonhador...

- Você tem grandes sonhos?

- Não sei se poderia considerá-los grandes, mas são muitos. Pretendo fazer muita coisa ainda na minha vida.

- Interessante... Qual música irá cantar?

- Faz parte do meu show do Cazuza.


[ Faz parte do meu show (Cazuza) – Leandro ]


Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor
Te levo pra festa e testo o teu sexo com ar de professor
Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão.

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor.

Confundo as tuas coxas com as de outras moças
Te mostro toda a dor
Te faço um filho
Te dou outra vida pra te mostrar quem sou
Vago na lua deserta das pedras do Arpoador
Digo 'alô' ao inimigo
Encontro um abrigo no peito do meu traidor.

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor.

Meu amor, meu amor, meu amor...

Maria e Paloma também fizeram a audição e, por sinal, saíram-se muito bem. A última a ser ouvida era Talita.

- Boa tarde! Meu nome é Talita Tabosa. – sorrio enormemente.

- Qual sua grande qualidade, Talita?

- Sou a melhor cantora que o senhor já ouviu em toda a sua vida.

Osmar já começou não gostando dela. Era muito arrogante e, provavelmente, egocêntrica. Ele odiava pessoas daquela maneira.

- E seu grande defeito? – anotou algo.

- Persigo meus sonhos não interessando as consequências.

- Ótimo. – se ele fizesse uma lista das pessoas que não entrariam, ela seria a primeira – E qual é seu maior sonho?

- Ser uma cantora conhecida mundialmente.

- Uhm... Grande sonho... – que garota irritante, não poderia sair logo do palco? Será que se ele jogasse seu sapato na cabeça dela seria preso? – Vai cantar o que?

- Fascinação da Elis Regina.

Osmar riu internamente. Uma das músicas mais difíceis de Elis, com certeza ela desafinaria em algum lugar. Seria a ocasião perfeita para não admiti-la.

Já ela, estava extremamente confiante, sabia que aquele era seu momento. Finalmente havia chegado sua hora de brilhar.


[Fascinação (Elis Regina) – Talita ]


Os sonhos mais lindos sonhei.
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar, tonto de emoção,
Com sofreguidão mil venturas previ.

O teu corpo é luz, sedução,
Poema divino cheio de esplendor.
Teu sorriso prende, inebria e entontece.
És fascinação, amor.


Osmar estava maravilhado. O talento daquela menina era indescritível. Ela era o próprio talento. Sua interpretação foi... Fantástica! Estava extasiado.

A plateia aplaudiu de pé.


VII


Fernando encontrou Maria e Paloma num dos corredores do colégio...

- E aí Nando, ansioso para o resultado da admissão? – perguntou Maria.

- Não muito. Não tô nem me importando com isso. A opinião do zumbi não me importa...

- Ai, coitado do professor Osmar... Chamar ele assim de zumbi... – disse Maria docemente.

- Coitado? O cara é mais velho que o Matusalém...

Paloma não aguentou e deu uma gargalhada, Maria olhou para ela com cara de desaprovação.

Ficaram em silêncio por alguns instantes.

- Ai, eu tô muito ansiosa! – Maria estava muito animada – Mal posso esperar para o resultado...

- Sai hoje à tarde, né? – perguntou Paloma.

- Sim! – replicou Maria.

- Sabe, eu sempre sonhei em ser uma cantora... – falava Maria com os olhos brilhando – Meu chuveiro é meu fã desde sempre...

As duas gargalharam.

- Tenho pena do coitado... – disse Fernando sério.

- Por quê? – arguiu Maria.

- Porque o coitado não tem braços pra calar tua boca.

- Ai, seu...

Ela começou a bater nele, aliás, tentar. E ele só gargalhava. Como de praxe, Paloma os separou.

Também passavam, naquela hora, pelo corredor, Tiffany e Pedro.

- Oi gata! – cumprimentou o rapaz.

- Oi gostoso! Não esquece viu? Sábado.

- Pode deixar gata. Já tá no alarme do celular. – deu uma piscadela para ela.

Ele já está na minha, pensou Tiffany. E, a partir do momento que nós sairmos, estará garantido mais um ano do meu reinado. Não tem como alguém derrubar meu voo direto para a fama quando o avião é o Pedro.


VII


Osmar estava muito confuso. Será que aqueles eram realmente talentosos ou foi uma ilusão da sua mente que, urgentemente, precisava de contato com as artes? Se aquilo realmente aconteceu, não poderia dispensar nenhum deles; os que não tinham uma grande voz, possuíam uma ótima interpretação.

Ainda mais, aquela garota gordinha que fez a interpretação mais brilhante de Fascinação que ele já havia ouvido na sua vida. Ela, com certeza, ele não poderia dispensar, embora não tivesse gostado nenhum um pouco da personalidade dela. Mas ele precisava focar no trabalho, nada poderia tirá-lo a atenção daquele coral agora. Principalmente agora que ele praticamente encontrou uma mina de ouro.

É... Ele precisava fazer isso... Já havia tomado sua decisão.


***

Todos estavam sentados no auditório. Osmar no palco. Alguns muito nervosos – aquilo era realmente importante para alguns deles –, outros tranquilos. Entre os eu estavam mais tranquilos, estava Talita, ela tinha plena certeza que seria aprovada.

- Muito bem... – falou Osmar, sentado em um banco ao centro do palco – Passei o dia todo pensando nas apresentações de vocês e cheguei, finalmente, à conclusão dos que entrarão para o coral do Colégio Augusto dos Anjos.

Maria era a mais ansiosa daquela sala. Não parava de balançar as pernas.

- Quero que, quem eu chamar, suba no palco.

O professor respirou fundo, elevou a prancheta até a altura dos ombros e começou:

- Fernando Gouveia.

O rapaz levantou-se e ficou ao lado de Osmar.

- Paloma Santiago. Talita Tabosa.

- Quem ficou na plateia...

Maria respirou fundo, aquilo não podia estar acontecendo. Ela queria muito entrar naquele coral.

- Está dentro.

Maria soltou um grito que quase ensurdeceu todos ali. Renan também estava muito feliz.

Enquanto isso, Talita, que não acreditou naquele resultado, desmaiou. Paloma tentou segurá-la, mas como a garota era muito pesada, as duas acabaram caindo.

- E quem está no palco também está dentro. – continuou Osmar.

Talita abriu os olhos.

No fim, todos acabaram comemorando juntos. Osmar estava até feliz de estar ali junto com eles naquele momento. Já fazia certo tempo que ele não se sentia verdadeiramente feliz. A última vez foi quando... Não! Era melhor deixar o passado para trás. Era melhor viver o presente, aquele já estava morto e enterrado há muito tempo.


VIII


Osmar estava preocupado. Qual seria o motivo do Diretor Ferreira ter mandado chamá-lo na sala dos professores urgentemente? Algo sério deveria estar acontecendo.

- Bom Osmar, chamei-o aqui para discutirmos o futuro do coral. Faz uma semana que conversamos e eu quero saber o resultado que conseguiu...

- Eu vinha hoje mesmo falar com o senhor. – Osmar estava muito animado, seus olhos cintilavam – Fiz as audições com alguns alunos, e os resultados que obtive foram os melhores possíveis.

- Que bom... Quer dizer que você conseguiu alunos...

- Sim diretor. Mas o principal é que todos os eles são muito talentosos. – ele chegava a ficar excitado — Até eu fiquei impressionado com a qualidade da apresentação deles e...

- Quantos são? – interrompeu o diretor.

- Seis.

- Eu pedi sete, lembra?

- Sim, eu lembro diretor. Mas não são seis alunos quaisquer, são seis alunos extraordinários.

- Desculpe Osmar...

- Como? – o professor estava confuso e aparentemente desapontado – Não entendi...

- Terei que cancelar o coral... Eu pedi sete membros, você só conseguiu seis...

- Ainda assim o senhor vai cancelar o projeto? – sentia-se ferido, como se tivessem arrancado algum órgão seu.

- Serei obrigado.

Osmar saiu furioso da diretoria. Se pudesse, mataria cada ser que passasse à sua frente.


IX


Todos os seis membros do coral estavam reunidos no auditório com Osmar. Sentaram-se em círculo, tendo o professor como centro.

- Tenho uma notícia ruim para vocês, garotos...

- Ah professor, nada pode estragar meu dia hoje...

- Ao contrário Talita... – acomodou-se melhor no banco — O diretor vai cancelar o projeto do coral...

Todos se alvoroçaram. Falavam em voz alta, gritavam, reclamavam e, principalmente, xingavam o diretor. Osmar pediu silêncio.

- Quando ele me convenceu a fazer as audições que vocês participaram, pediu que eu conseguisse sete membros, senão ele cancelaria o programa. E, como vocês devem saber, somos apenas seis.

Continuavam reclamando...

- Isso também é um tanto doloroso pra mim... Seria uma grande honra ser professor de vocês... – honra de vocês, pensou – Mas como não podemos fazer nada para reverter essa situação, teremos que nos conformar...

- Não professor! Deve haver alguma coisa que possamos fazer. – falou Talita – Sei lá, podemos cantar uma música na cantina e depois fazer uma guerra de comida...

- Aprecio seu entusiasmo Talita, mas vamos deixar do jeito que está. Mas, antes de nos despedirmos queria ensaiar um número com vocês...


***

[ Desordem (Titãs) – Coral ]


FERNANDO:

Os presos fogem do presídio,
Imagens na televisão.
Mais uma briga de torcidas,
Acaba tudo em confusão.

RENAN:
A multidão enfurecida
Queimou os carros da polícia.

LEANDRO:
Os presos fogem do controle,
Mas que loucura esta nação!
Não é tentar o suicídio
Querer andar na contramão?

TODOS:

Quem quer

FERNANDO:

manter a ordem?

TODOS:
Quem quer

FERNANDO:

criar desordem? (Bis)

PALOMA:

É seu dever manter a ordem?
É seu dever de cidadão?
Mas o que é criar desordem,
Quem é que diz o que é ou não?

MARIA:
São sempre os mesmos governantes,
Os mesmos que lucraram antes.

TALITA:
Os sindicatos fazem greve
Porque ninguém é consultado,
Pois tudo tem que virar óleo
Pra por na máquina do estado.

MENINAS:

Quem quer

MENINOS:

manter a ordem?

MENINAS:
Quem quer

MENINOS:

criar desordem? (Bis)


Notas finais
E aí, gostaram?
Vou tentar postar o próximo episódio semana que vem!
;D
Baixe as músicas do episódio:
http://www.4shared.com/rar/gVJ0xpfG/Cante_-_1x01.html?