Cancro & chaos
2 Espaço-tempo sentimental
Muitas coisas aconteceram comigo quando eu era mais jovem. Uma época em que eu chorava mais, amava mais e até pedia desculpas por respirar. Sonhava com um mundo melhor e tinha a certa esperança de que tudo se ajeitaria quando a humanidade menos esperasse. Minha única esperança, hoje, é de ter a esperança do meu tempo de petiz. Criança.
Depois do sumiço dos meus pais, enquanto a minha vó Zumira planejava me levar para o Ninho, o quê contarei nalgum momento desse livro, fiquei na casa de 3 velhinhas, cada uma com mais de 80 anos, amigas da minha avó mística. Não eram parentes, mas, eu chamava-as de “vós”. Elas decidiram cuidar de mim após o acontecimento.
Eu vivia no fundo da grande casa, não por ser forçado a isso, apenas não acreditava merecer a cama mais macia e o ar condicionado. Primeiro, sabe o raio do motivo que estou contando tudo isso? Enquanto eu perambulava pelas ruas soturnas e coloridas da noite, percebi-me defronte a vitrine de uma doceria e vendo um bolo de churros estampado, lembrei-me das vós.
Esqueci de avisar, havia uma mulher na mesma casa que elas, chamada Angel. Um nome meio artificial. Ainda assim era o nome dela.
Ela tinha grandes problemas. Era a conurbação de vícios e solitude.
(Desculpe os colapsos temporais, é simplesmente difícil manter um discurso conexo com tanto passando em minha cabeça)
Enquanto ruava, as luzes dos postes e as moscas que rodeavam suscitavam reflexões do arco da velha. Eu queria chover. Queria esparramar-me. Eu queria tudo e o nada. E eram só moscas e luz. A vida e o segredo de sê-la.
Nos meus primeiros dias na casa das mulheres que cuidaram de mim, algo simples comovia-me com uma quantidade peculiar de emoção. Na pia, do banheiro do fundo, tinha um sabonete velho e oxidado... O que me movia no espaço-tempo sentimental era o simbolismo suave daquele sabonete abandonado. Amarelo, lembro-me bem. As vós sabiam que eu ficaria com elas e nem se importunaram em busca de deixar a casa um brinco. Elas não precisavam fingir o asseio e a intocabilidade. O lixo tinha papéis usados, as paredes tinham insetos minúsculos e o teto de madeira tinha um pequeno racho. Mas, a riqueza do sentimento e das outras estruturas eram belas e singelas na sua própria essência.
No antigo mundo sólido, havia pessoas mais retraídas, vestiam sim as suas máscaras, porém, não trocavam-nas celeremente. Apenas na necessidade. Na contemporaneidade, resta-nos a troca sucessiva de máscaras e corpos, nunca estamos satisfeitos (imbatível Eros), estamos sempre sobre a tutela da angústia que nos invade se não temos o novo, o ideal, o “parecer feliz” e jovem. Viramos verdadeiros bobos da corte. Até onde ganhamos com o processo civilizatório de suposto progresso?
Houve um momento que também me tocou (assemelha-se à instância que um bebê aperta o seu dedo): uma das vós, parou na minha frente, na cozinha, tomou do meu ombro com a mão envelhecida, os olhos aguados e a alma molhada; disse-me: “Você é um bom menino”.
O quê aquilo queria dizer?
Ela não sabia do meu passado. Das vezes que falei mal do cabelo da minha mãe. Das vezes que caçoei da careca do meu pai. Ela viu além dos meus olhos e da minha roupa, além dos meus modos.
Complementou com uma poesia arcaica do seu tempo, talvez.
— Ostra... Você é uma ostra-menino. Seja lá o que você quer sanar com tanta educação e cortejo, não precisa... Você é uma ostra que pelo menos tem pérola.
Eu não sabia o quê dizer. Não sei igualar o espanto que tive naquele momento com o espanto decorrente do sumiço da minha casa, só sei dizer que minha perplexidade levou-me ao fundo do lar que me abrigava.. Sentei na mesa de mármore e chorei derramando água que nem evaporou: minhas coxas pareciam absorver tudo para que eu chorasse mais. Exagerado, hiperbólico, sentimental. Vulgarmente uma gelatina emocional.
Aquelas mulheres me trataram como um filho. Eu não sabia como agradecer. Perdi as contas de quantas vezes soltei gracejos pela hospitalidade. Quando cresci, mesmo com toda as promessas delas suprirem as minhas necessidades, tive que sair. A minha avó Zumira tinha outros planos para mim.
Sobre a Angel... Tornado humano.
Todas as noites ela comprava um fardo de cerveja, cigarros azuis, ligava a televisão do quintal, conectava no lobby dum jogo de pôquer online e passava suas derradeiras horas num suicídio lento, tragando a fumaça, revirando seja lá o quê tinha naquela cabeça e jogando jogos de azar. Nos dias que eu dormia no ar condicionado à mando da Angel ou das vós, ela chegava pelas 6 da manhã, descalça da motivação e dos chinelos; ligava a televisão gigante do quarto, baixo para não me acordar (mas, acordava de qualquer jeito). Tomava as suas pílulas, desligava a TV, deitava na cama de casal ao lado da minha de solteiro, cobria-se dos pés à cabeça e apagava, como se o cobertor, os medicamentos e a noite de dilaceração passada fossem barreiras intransponíveis para os fantasmas que custavam atormentá-la. Fui negligente o bastante para não perguntar e nem tentar descobrir o que tanto assolava-a, já bastava a decadência do mundo como justificativa respeitável, mas, não sei se entendível.
Angel era desbocada com as vós, tinha um palavreado chulo, contudo, eu conseguia ver um coração belo e preocupado habitando o corpo cansado. Ela não trabalhava, mas dormia toda manhã como se tivesse um elefante deitado em suas costas.
Não sei por onde andam essas protagonistas de uma parcela da minha vida. Assustador. Esse é o mal da efemeridade líquida. Bauman explica.
Já esqueci do gosto do bolo de churros que me ofertavam após o almoço ou do jantar. Mas, vê-lo naquela vitrine trouxe-me à tona bons pensamentos, além dos maus. Ignoto é pensar que eu nunca lembraria das vós se eu não tivesse tido a minha casa inexistida.
A árvore continuava a florir.
Num coquetel de emoções, saí do raio da vitrine piscante e continuei andando. Com o bolso vazio e só com o quê o coração conseguia aguentar.
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