Cancro & chaos
3 Homem-coisa
Ainda sobre o mando da Lua, caminhei desgovernado por ruas, paredões, pichações e representações artísticas sem voz.
Os jornais mentiram! A televisão ocultou fatos importantes sobre a vida terrestre! Havia violência e pobreza em todo o canto. Havia homens nus caçando presas com uma naturalidade assustadora.
Passei por tantas pessoas que repousavam quase que intrínsecas ao chão. Imundas. Inundadas pela água do descaso. O sistema de controle social (e suas esferas) e financeiro funciona assim... “Prefere viver naquelas condições desumanas ou acha melhor trabalhar para mim e garantir que não se torne aquilo?”. Tal citação representativa não é tão explícita, mas, basta que passe por meios midiáticos as mínimas consequências do desemprego, do baixo capital e da favelização, e já reavido fica, no nosso inconsciente, a necessidade de submeter-se a um “poder maior” para que não morramos de fome.
Fedor.
Seria irreal da minha parte ocultar as belezas do caminho desencaminhado: os letreiros eram chamativos e não eram belos por causa da alusão à compra, mas, sim pela luz, roxa, violeta, escarlate; o céu estava estrelado, haviam passado o vaporizador dois dias atrás para conter a bruma das indústrias. Havia vendedores de maçãs do amor. Não imaginava o gosto, era só, de certa forma, belo para o momento.
Um letreiro ao longe, na longa avenida, chamou-me a atenção duma forma brusca. “Empregos estupefatos”. Era um prédio alto e todo espelhado, parecia um reino rico e moderno proliferando-se verticalmente. Defronte o painel interativo, abaixo do letreiro, havia uma lista táctil a ser preenchida, com as perguntas seguidas de uma rápida justificativa. Saquei que era o passe para entrar. Eu estava fétido, com uma fome intragável, entretanto, pensei: “Quem sabe consigo algo melhor aqui, melhor do que rosquear tampas de garrafa”.
Havia opções a serem respondidas:
Homem ou mulher? (para calcular o salário e risco de gravidez)
Procura o seu primeiro emprego? (para pensarmos se damos o seu primeiro emprego)
É casado, namora ou pretende ter filhos? (gravidez é problemática, saiba disso/ filhos são chechelentos se não têm idade para trabalhar)
Importa-se com empregos subalternos? (precisa-se de faxineirxs)
Problemas com hierarquia? (obedecer é a chave)
Toma suas pílulas com periodicidade? (não apreciamos insanos)
Dinheiro ou poder? (para uma pesquisa nova)
Alguma DST? (esperamos que não contamine nenhum dos nossos)
Classifica sua vontade de trabalhar aqui como altíssima ou alta? (satisfação é parte do nosso trabalho para contigo)
Ponha seu polegar aqui ( ) para olharmos seus antecedentes trabalhistas e criminais
Nossa impressão digital agora é código de barras.
Foi nojento responder ao questionário, mas, enchi-me dum jubilo clandestino quando a porta de vidro se abriu para eu adentrar. A lista de perguntas era o retrato concreto (ou digital, se assim preferir) da nova era de enganos que os seres humanos nadavam. Sexismo, o capital em detrimento da humanidade e hierarquia inferiorizante.
Estavam fichando-me. Será que só eu percebi isso? Já percebeu como passamos a vida preparando um currículo para que ele seja mais importante do que nós na hora dum emprego? Já percebeu que é mais importante o quanto conseguimos trabalhar em detrimento do que nós emociona? O sistema não quer saber quem eu sou. Já captou a informação que plana? Somos substituíveis.
O mais incrível de tudo isso é perceber como uma pílula a mais ou uma pílula a menos consegue alterar a sua visão de tudo. Quando a minha visão de mundo foi clareando, constatei que há muita observação latente dentro de nós, basta que permitamos que ela saía, sabendo que vai doer. Todas as pontuações anteriores e as posteriores vieram sim num choque indizível, porém, também foram muito motivadas pela minha criação. Os livros que eu lia e o modo que eu via a passagem do tempo.
Meus pensamentos correntes continuaram. Empresas de fast-food. Funcionário do mês. Procure nalguma parede e talvez encontre um retrato desse exemplar trabalhador. Claro, eles tentarão fazer com que você se sinta especial. Trabalhe numa lanchonete famosa e irão pôr na parede, para que todos vejam, “o melhor funcionário do mês”. Não vem nenhum presente. Só um aperitivo para o ego. Não somos individualistas, estamos individualistas.
Uma curiosidade histórica para quebrar o gelo: na Guerra do Ópio, entre Grã-Bretanha e China, os britânicos viciaram os chineses em ópio para melhor dominar. Hodiernamente, aqueles que procuram supremacia, viciaram-nos em pornografia, em telenovelas e nas famosas músicas-chiclete. Deram-nos bebidas entorpecentes, cigarros de marca e glamourizaram o vício como se fosse virtude. Aristóteles se remexe no túmulo agora. Ao entrar no estabelecimento e avistar, numa televisão de 70 polegadas, propagandas contínuas que não acompanhavam a minha velocidade de piscar, remeti-me essa reflexão.
Até quando achará que a roupa que compra, o presidente que escolhe, o que você bebe e o beijo que dá, são escolhas suas? Feitas com consciência de Jó e sem nenhuma manipulação tendenciosa. Se já percebemos tais artimanhas, porque ainda permanecemos rústicos à tal visão parcial da realidade? É estranhamente jocoso pensar que é necessário que acontecimentos bruscos, como uma árvore roubar a posição da sua casa, para que perceba que existe muito mais além do pensamento compacto.
É tudo uma mesma repetição e aceitamos assim. É a mesma bebida com um gosto artificial. É o mesmo filme com personagens diferentes. É o mesmo roteiro de vida e cinematográfico com pitadas de erotismo e final feliz falso. São apenas frequências de gritos diferentes para os mesmos tipos de sustos; filmes de terror e a formula infalível.
Músicas onomatopeicas. Canções que prezam indefinidamente pela perdição. O erro é instintivo. Será?
Mudam a roupa dalgo esperando que não percebamos as características que se repetem por trás do traje.
Como dizia a minha mãe: “Não é fácil, meu filho”. Entrei no edifício. Nas paredes haviam quadros digitais com a ficha de alguns trabalhadores, organizados por salário e presença.
Alcancei o balcão principal onde uma mulher esperava-me atenta. Estava uniformizada. Vestia a farda “Saple”. O nome da organização. Atendeu-me sorridente, um sorriso artificial. Ela exalava demasiadas pílulas.
— Olá senhor Cancro, é um prazer tê-lo conosco! Vejo que veio procurar um emprego digno. Cansou-se de rosquear tampas, senhor? Brincadeira...
Não ri, permaneci sério. Ela continuou.
— Temos vagas para você... Irei dizer as opções: — Tocou na tela defronte ela e listou — girador de válvulas, catador de ratos subterrâneos, bajulador... Esse emprego é engraçado, senhor... — Riu discretamente e continuou — Cobaia para experimentos com agrotóxicos, experimentador de mousse de morango...
Eu não ouvia mais nada. Cansei-me da voz. Cansei-me de mim. Sinceramente, cheguei a me perguntar o motivo de ter entrado naquele lugar. Morri de velhice antes dos 30.
Saí dali. Só saí. Saí rapidamente da mesma forma que havia entrado, quieto por fora, não por dentro. O maior mal que alguém pode causar é matar o seu tempo... No fim das contas, é um processo assassino lento e velado.
Fui embora, feito um objeto programado para partir. Coisa, coisadamente.
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