Caminhos para o coração
8 Point no return
Notas iniciais
“Everybody get high sometimes, you now;
What else can we do when we’re feeling low?
So take a deep breath and let it go;
You shouldn’t be drowning on your own;
And if you feel you’re sinking, I will jump right over;
Into cold, cold water for you;
And although time may take us into different places;
I will still be patient with you;
And I hope you know...”
Cold Water
Justin Bieber
Apartamento Sarah Reese (quarta, 15/5 -11:47 a.m)
Sarah
Puxo o ar soltando-o lentamente ao virar de lado pela décima primeira vez apenas nos últimos cinco minutos (mas quem tá contando??), meus olhos buscando o despertador sobre o criado mudo ali perto.
Há mais de uma hora tentava, sem sucesso, dormir ao menos um pouco a fim de me recuperar do cansaço por haver dobrado o turno.
Depois que chegara em casa, tomei um banho demorado, preparei um café caprichado, posto que pretendia dormir durante toda manhã, limpei e troquei ração e água do Dino e vim para meu quarto. Fechei janela e cortinas e me deitei, ganhando a companhia de meu amiguinho peludo minutos depois. E assim permanecia. Deitada. Esperando o sono chegar.
Já havia tentado de um tudo para relaxar e finalmente adormecer, desde o silêncio total (ou quase pois era impossível silenciar os vizinhos e o mundo lá fora!), até contar carneirinhos, mas nada estava funcionando.
E nem posso dizer ser culpa do beijo trocado com doutor Rhodes pois apesar de estar lembrando dele a cada vinte minutos (outra vez, quem tá contando?), essa não era a única coisa a ocupar meu pensamento.
Questionamentos referentes ao que acontecerá a Cornélius Rhodes me consumiam de tal forma que mal fechava os olhos a cena inteira me vinha a mente outra vez, desde o chamado desesperado de Claire Rhodes até a chegada de Connor, seu espanto diante do quadro, a forma carinhosa e protetora como abraçara a irmã e como ficara abalado ante a gravidade da situação do pai.
Não era segredo o quanto a relação entre eles era tumultuada e se tornara ainda mais após Connor se envolver com a doutora Bekker. Aliás, segundo a central de fofocas do Med e informações fornecidas diretamente a mim por Dóris e Monique, se antes a relação profissional entre eles já era complicada, depois de assumirem o relacionamento pessoal a coisa só piorou chegando ao ponto de romperem, recentemente ao que parece, por razões não totalmente conhecidas. Na verdade, nada conhecidas. Os dois apenas romperam do dia para a noite. Assim, em um estalar de dedos. Tão rapidamente quanto começará, o caso terminará alguns dias após Connor ter esmurrado o pai em um evento onde ele, justamente ele, era um dos homenageados por conta da sala hibrida.
O motivo? Ninguém sabe. Mas palpites não faltavam. Alguns diziam que Cornélius havia dito alguma coisa muito grave ao filho que o fez agir de maneira tão radical em público. Outros que teria criticado o relacionamento do filho com Bekker, sabe-se lá por qual razão, e Connor teria reagido com exagerada agressividade. Outros ainda que teria algo a ver com o fato de ter sido Cornélius a patrocinar, sem que Connor soubesse, a sala e que Ava Bekker estaria ciente disto e não o teria avisado.
A verdade, de fato, apenas Connor sabia. E não falava sobre o assunto com ninguém, até onde se sabe. Nem mesmo doutor Choi ou doutor Hastead, com quem havia estreitado um pouco mais seus laços de amizade, pelo que soube.
O fato é que, apesar de todo este clima ruim entre Connor e o pai, desde o primeiro momento, desde a primeira cirurgia, ele ficara mexido. Mesmo tentando esconder, ainda que fingindo indiferença, ele ficara preocupado com o quadro do pai. E quando foi necessária uma segunda cirurgia em menos de um mês, todo este sentimento emergiu de uma forma que não mais conseguia disfarçar.
Foi lindo de ver que, apesar de tudo, amava o pai. Fiquei emocionada, confesso, pois eu mesma não sei se conseguiria, após ter descoberto a verdade sobre meu pai, agir da mesma forma que agiu. Sendo honesta, sequer cogitara visitá-lo na prisão. Nem mesmo seu estado atual de saúde procurei saber. Se pudesse, riscaria completamente de minha vida os acontecimentos de um ano atrás.
—Um ano!! O tempo passou voando – espanto-me, o resmungar baixo seguido por um rosnadinho e choro me fazendo baixar o olhar em direção a Dino, que dormia tão profundamente a ponto de sonhar – Queria ter essa facilidade de ferrar no sono deste jeito amiguinho – invejo e como para me contrariar, ele desperta, pondo-se em pé de supetão, orelhas levantadas, sinal que escutara algo – O que foi? Ouviu alguma coisa? – inquiro, o toque da campainha me vindo em resposta – Ok, que cães têm a audição aguçada é de conhecimento público, mas dai a ter sexto sentido também é novidade para mim – digo, levantando-me ao segundo toque – UM MOMENTO – grito a fim de avisar a pessoa que já escutara – Quem será? – pergunto-me, calçando as sandálias, esquecendo por um breve segundo estar usando nada além de um camisão de algodão – Ooops!! – exclamo, girando nos calcanhares, pegando um shorts de cetim preto – Ninguém vai saber que não estou de calcinha, além de você – pisco para Dino, que solta um bufinho invocado antes de pular fora da cama, adiantando-se em direção a sala – Esse resmungo foi para mim ou porque interromperam seu sono de beleza? – brinco, seguindo-o, olhando através do olho mágico antes de abrir a porta – Oi Laura, bom dia – cumprimento-a efusivamente.
—Queria muito que fosse, Sarah – ela responde e noto a ruga de preocupação entre seus olhos.
—O que aconteceu? Algum problema com você ou com a Persie? Posso ajudar? – quero saber, ela soltando um longo suspiro antes de responder.
—Em primeiro lugar, desculpa estar atrapalhando seu descanso. Vi que chegou mais cedo, o que significa ter dobrado o turno no hospital – pede e sorrio.
—Não atrapalhou. Na verdade, não consegui dormir – confesso, a mãe dela surgindo logo atrás de minha amiga, trazendo o que julgo ser o transporte de Persie.
—Bom dia Sarah – cumprimenta-me polidamente, a mesma ruga que via na face de Laura ornando seu rosto tenso – Já acertou com ela? Precisamos ir – inquere e franzo o cenho.
—Ia fazer isso agora, mãe. Não simplesmente chegar e pedir. Preciso saber se já tem outros planos, se não irei atrapalhar nada – Laura responde, parecendo mais tensa.
—Laura, que houve? Algum problema? – reinquiro, olhando de uma para a outra e para o transporte da gata, intuindo o que viera pedir – Quer que tome conta da Persie? – pergunto, direta.
—Sim, se puder – confirma, apertando as mãos, aflita – Acabamos de receber a notícia de que minha avó paterna foi internada em estado grave. Estamos indo para Nova York. Tom conseguiu passagens para um voo que sai dentro de quarenta minutos. Não deu tempo conseguir um hotelzinho, preparar as coisas da Persie. Já te falei como ela é complicada com esses lances de hospedagem, não falei? – justifica-se e novamente lhe sorrio, gentil.
—Já sim e será um prazer tomar conta desta mocinha – afirmo, sinalizando a senhora Derm me entregar o transporte.
—Muito obrigada minha flor! Será por poucos dias. Três ou quatro, espero – diz, pegando com a mãe uma sacola com pratinhos, ração e outras coisa dela e me ponho de lado para que pudesse entrar – Caso vá demorar mais do que isto, te aviso. Mas isso só ocorrerá se o pior acontecer – condiciona, afagando a cabeça de Dino, que a cumprimentava do seu jeito habitual: lambidas – Acho que ela não vai te incomodar, afinal passa parte do tempo aqui com vocês, mas caso isto aconteça, pode levá-la para um hotelzinho – libera, levando a mão ao bolso de sua calça – Me faria outro favor? Iria em casa regar minhas plantinhas uma vez por dia? – pede, enrugando o nariz numa careta engraçada, me entregando as chaves de seu apartamento – Estou abusando de sua boa vontade, não estou? – diz.
—De jeito nenhum. Será um prazer ficar com Persie e não me custa nada regar suas plantas. Pode ir sossegada e fique o tempo que precisar – afirmo, colocando o transporte sobre o sofá, acompanhando-a até a porta onde a mãe a esperava – Espero que sua avó fique bem – desejo.
—Também – suspira – Mais uma vez desculpa te alugar desta forma e muito obrigada por se dispor ajudar – agradece, sorrindo gentil.
—Por nada – digo, acenando quando se afastam, retornando para o interior do apartamento, indo até o sofá, abrindo a caixa transporte, libertando uma impaciente gatinha – Oi Persie, bom dia! – cumprimento-a, adocicando a voz, ganhando carinhos curtos antes de ela pular sobre o tapete, cheirando, rolando e ronronando, Dino deitando-se próximo, abanando o rabo, feliz – Bom, já conhece a área de seu amigo ai. Ponha-se a vontade gatinha – digo, ficando de pé, carregando a sacola e o transporte para a área de serviço.
Retiro as coisas lá de dentro, refletindo se poria os pratinhos de água e comida dela junto aos de Dino, optando por colocá-los no alto, sobre o balcão ali existente, como vira no apartamento da Laura certa vez. Ponho o pacote de ração ao lado do de meu cachorrinho e pego os brinquedos e um tipo de poste enrolado com corda de agave, pregado em uma tábua felpuda, que ela usa para afiar as garras, levando-os comigo para a sala, encontrando os dois brincando (do jeito deles).
Escolho um cantinho, posiciono o poste ali, deixando os demais brinquedos espalhados por perto, sorrindo ao vê-la se aproximar, examinando tudo.
Sento-me no sofá, observando-os interagir durante um tempo impreciso. Suspiro, levantando-me, indo para a cozinha onde preparo uma refeição leve a qual como sentada, com as pernas cruzadas, assistindo a maratona de Friends. Quando acabo de comer, limpo a cozinha, vou ao banheiro fazer minha higiene bucal, retornando à sala.
Fecho a janela o suficiente para que Persie não pudesse passar (muito embora ela e Dino estivessem muito entretidos um com o outro) e me deito, continuando a maratonar a série, acabando por adormecer sem sentir.
Quando acordo, melhor dizendo, sou acordada por lambeijos e mordidinha discretas em meu braço, a noite já chegara. Levanto-me, troco água e ração dos pets, preparo um jantar rápido e após comer, vou para meu quarto, tomo um banho refrescante, escolho um livro (romance hot que uma enfermeira do Baylor me presenteara pelo Natal), vou a sala, fecho porta e janela, verifico se os pets estão bem e retorno ao meu quarto, lendo até adormecer.
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Chicago Med (quinta-feira, 16/5 – 7:37 a.m)
Connor
Caminho a passos largos em direção a sala de cirurgia, respirando lenta e profundamente a fim de controlar a irritação que sentia.
Havia dado plantão na quarta, o dia inteiro e parte da noite, descansando o restante no quarto onde meu pai estava interno junto com Claire, dispensando April, para poder participar da cirurgia da pequena Sophie e agora, ao começar meu turno, descobri que haviam reagendado, mudando o horário para o início da manhã e não mais à tarde. Obra de Ava, sem sombra de dúvidas.
Respiro fundo uma vez mais antes de abrir a porta da sala de esterilização, aonde a própria já se encontrava.
—Por que não fui informado na mudança de horário da cirurgia da pequena Sophie? – questiono, parando ao lado dela.
—Bom dia para você também Connor – ironiza, sem me olhar, continuando o processo de esterilizar as mãos e antebraços – E se está aqui é porque obviamente foi avisado – diz, tranquila.
—Não fui e sabe disso. Descobri ao abrir meu turno – contesto, tomando o sabão, iniciando meu próprio processo de esterilização – Por que não fui informado? – repito, sério.
—Doutor Latham e eu refletimos e julgamos que seria melhor a cirurgia acontecer na parte da manhã e se não foi comunicado deve ter sido por alguma falha de comunicação – garante, ainda sem me olhar.
—Sério? Acha mesmo que vou acreditar nisso? – questiono-a, olhando de soslaio, vendo-a rir com o canto da boca – Acaso quis me excluir? – pergunto, direto.
—Nossa Connor, sua mania de perseguição está cada dia pior! – ironiza mais uma vez, sacudindo os braços, se encaminhando para as portas duplas de acesso a SO – Que mais eu fiz? Forjei o sequestro da Robin? – inquere, me encarando um segundo antes de entrar, deixando-me momentaneamente paralisado.
Sacudo a cabeça, espantando os pensamentos que ameaçavam me dominar, finalizando rapidamente o processo de esterilizar meus antebraços e mãos, seguindo-a.
—Tudo pronto? – ouço-a perguntar tão logo me posiciono no lado oposto ao que se encontra.
—Tudo – Martin confirma.
—Muito bem – me encara – Doutor Rhodes, faça as honras – convida, sinalizando a Beth me entregar o bisturi – Cuidado para não ferir ninguém acidentalmente – provoca-me.
Respiro, me acalmando, fazendo a incisão inicial. Os primeiros momentos da cirurgia são bastante tranquilos, mas logo uma pequena complicação surge.
—Doutor Rhodes...- Martin alerta.
—Temos uma hemorragia. Sucção – peço, a enfermeira atendendo-me rápido, permitindo-me uma visão melhor do coração pequenino – As aderências do externo abriram. Preciso de um cateter sugador – digo, estendendo a mão.
—Espero não termos nenhuma surpresa desagradável, como ocorreu a seu pai. Uma arritmia inesperada ou mesmo embolia pulmonar não seriam nada agradáveis– Ava comenta e fecho os olhos um segundo, abrindo-os a seguir, me concentrando na cirurgia novamente.
—Saturação caindo para cinquenta e dois por cento – Marin alerta.
—Lâmina onze e cânula aórtica – peço, me concentrando em deter a hemorragia.
—Rhodes ...
—Entrei – aviso antes que Ava pudesse dizer mais alguma coisa.
—Saturação subindo para setenta e seis por cento. Oitenta. Normalizada – Martin informa e respiro aliviado, o restante da cirurgia transcorrendo normal até o fim, para minha alegria.
—Sutura com porlene para a cânula aórtica – Ava determina, me olhando, a sombra de um sorriso se desenhando em seus olhos.
Baixo os meus, evitando o contato, descalçando as luvas, me afastando da mesa cirúrgica lentamente.
Retiro touca e máscara, apoiando as mãos na borda da pia metálica, fechando os olhos, respirando lenta e profundamente, as palavras dela me vindo a mente, sobressaltando-me ao sentir o toque em meu braço.
—Doutor Rhodes, Miss Goodwin pede que vá até a sala dela – a jovem enfermeira, Maria Luiza, acho, avisa, sorrindo polidamente.
—Ok – respondo, endireitando o corpo no exato momento em que Ava deixa a SO.
—Conseguimos. Salvamos a garotinha – comemora, sorridente e retribuo com um riso curto e discreto, me voltando para sair, ela retendo-me pelo braço – Connor, sinto muito pelo que aconteceu a seu pai – diz, não me dando tempo responder – Mas veja o lado positivo. Quem sabe agora ele não nos deixa em paz – completa e enrugo o cenho, confuso.
—Como?? – inquiro, olhando-a.
—Seu pai vai passar meses preso a uma cama, se recuperando e ainda assim as sequelas são imprevisíveis. Pode ser que sequer saia do estado em que se encontra. Com isto, nada mais nos separa. Podemos ficar juntos, tentar novamente – comemora, para minha surpresa.
—Ava, já passamos disto – afirmo, ela me olhando confusa – Não vamos recomeçar nada. Acabou – determino.
—Mas eu pensei que, com seu pai vegetando em uma cama....
—Ele não está vegetando!! – corto-a, libertando meu braço, irritado – O que deu em você? Como pôde pensar uma coisa dessas? Meu pai quase morreu!! – exclamo.
—E daí? – devolve, me chocando com sua observação seguinte – Se fosse o contrário, garanto que Cornélius estaria mais do que feliz em aproveitar a oportunidade para tentar se aproximar e me conquistar em definitivo, não se importando nem um pouco se você estaria vivo ou vegetando em uma leito hospi...
—AVA, PARE! – não me contenho, o grito fazendo Beth surgir entre as portas de ligação, olhando-nos, confusa.
—Tudo bem aqui? – inquere.
—Sim. Volte ao trabalho – ordena, fria, me encarando novamente durantes alguns segundos – Quer saber? Dane-se Connor! Não passa de um ingrato filho da....- praticamente cospe as palavras, cerrando os punhos, dando-me as costas, deixando a sala pisando firme.
Demoro alguns minutos para me recuperar da conversa, saindo do transe ao escutar a voz de Martin.
—Connor, tudo bem? – pergunta, genuinamente preocupado.
—Uhum – respondo, olhando-o – Poderia ligar para a emergência e pedir a doutora Manning que comunique ao pai da bebê que a cirurgia terminou e correu tudo bem? Tenho de ir à sala de Miss Goodwin. Diga-lhe que irei falar com ele tão logo seja possível – peço.
—Claro – prontifica-se.
—Obrigado – agradeço, saindo, caminhando meio que automaticamente pelo corredor rumo a sala de nossa administradora, refletindo acerca de tudo que me ocorrera nos últimos meses, desde minha relação conturbada com Robin, até Ava.
Suas palavras continuavam a reverberar dentro de mim fazendo-me refletir novamente sobre tudo que ocorrera entre nós, especialmente depois que rompi com ela. Se cheguei a duvidar ou pensar estar errado em suspeitar de suas atitudes, nossa conversa de minutos atrás reascendeu todas elas com força redobrada além de trazer uma nova: ela seria capaz de um ato que poria em risco sua carreira? Seria capaz de atentar contra a vida de meu pai apenas para tirá-lo, supostamente, do caminho?
Distraído, apenas noto não estar mais sozinho no corredor ao sentir o toque em meu ombro, fazendo-me voltar e estancar.
—Hei, não me escutou chamar? – Will pergunta, me encarando sério – O que houve? Algo errado com a cirurgia? A filha do Philip...
—Está bem – tranquilizo-o, vendo-o respirar aliviado – O que faz aqui? Algum problema na emergência? – inquiro, encarando-o.
—Não. Miss Godwin pediu que viesse a sua sala – informa e enrugo o cenho – Só para constar, não aprontei nada.... recentemente – adianta-se e mesmo diante da tensão evidente em nós dois, é impossível não sorrir – Vamos? – convida, indicando a porta alguns passos de onde estamos.
—Uhum – anuo, caminhando a seu lado, parando em frente a porta.
Dou uma leve batida anunciando nossa presença antes de girar a maçaneta, abrindo-a minimamente.
—Miss Godwin, queria nos ver? – questiono, pondo-me de forma a permiti-la enxergar Will e ao fazê-lo, noto as presenças de um dos advogados do Med, Andrew, de Hank Voigth, Latham, Nina, Daniel e... Reese.
—Sim. Podem entrar – convida nossa administradora e o fazemos, eu me posicionando de modo a ficar o mais próximo a Sarah possível, notando seu rosto levemente ruborizar – Bom, agora que estamos todos aqui, posto que Miss Garrett está acamada e a doutora Bekker não poderá comparecer por estar em atendimento, podemos começar – comunica e estranho. Como Ava poderia estar atendendo se mal saíramos da SO? – Sentem-se – convida, e obedecemos.
—Em primeiro lugar, gostaria de pedir a todos que o assunto que será tratado aqui não se espalhe pelos corredores do hospital a fim de não prejudicar as investigações ou alertar O ou Os responsáveis – Hank Voight pede, olhando-nos um a um – Infelizmente tenho de partir do princípio de que todos são suspeitos – acrescenta, me deixando confuso.
—Nem todos, sargento – Daniel diz, erguendo o indicador – Quero crer que os filhos e nós estejamos fora desta lista já que estamos aqui – comenta.
—Desculpem, mas o que está sendo investigado? – não me contenho mais em perguntar, notando o desconforto em Will e Sarah de imediato – O que está acontecendo? – insisto, desconfiado.
—Doutor Rhodes, infelizmente não há uma forma leve de se dizer isto – Miss Godwin toma a palavra, me fazendo lhe dar atenção – O que aconteceu a seu pai na terça está sob investigação – informa e imediatamente fico tenso – A suspeita foi levantada no mesmo dia, mas tivemos de esperar os resultados do laboratório para ter certeza e poder dar início ao processo – faz uma breve pausa, me encarando séria — Uma dose de Insulina sintética foi ministrada ao senhor Rhodes àquela tarde, causando a arritmia seguida por parada Cardiorrespiratória e uma embolia pulmonar que quase o levou a morte e por conseguinte acarretou o quadro atual em que se encontra – revela e sinto meu sangue gelar, entendendo o significado de suas palavras.
Alguém tentou matar meu pai! é o primeiro pensamento que me vem a mente.... Ava?...é o segundo.
—Como seu pai não é e nunca foi diabético, segundo informações que recebi, isto se caracteriza como tentativa de homicídio – Hank Voight dá voz meu pensamento – De fato, os presentes nesta reunião, a princípio, estão livres de suspeita...
—A princípio? Nós ajudamos a socorrê-lo. Sequer estivemos perto de seu quarto antes ou pretendíamos ir lá, até escutarmos o pedido de socorro da senhorita Rhodes. Como pode dizer que a princípio não somos suspeitos? – Will protesta, apontando dele para Sarah e Daniel – E Connor sequer se encontrava no hospital. O vi saindo pelo menos uma hora antes de tudo acontecer – defende-me – E, com todo respeito a ela, não acredito que Claire Rhodes tenha a capacidade ou conhecimento necessários a fazer algo do tipo, ainda mais ao próprio pai. Não vejo como ambos podem ser suspeitos – argumenta.
—Desculpa doutora Shore, mas como foi possível quantificar a insulina no sangue do senhor Rhodes se não é possível rastrear após ministrada? – Sarah inquere antes que o faça.
—Me fazia a mesma pergunta – digo, olhando-a antes de encarar Nina e logo a seguir Miss Godwin – E por qual razão levaram a hipótese de a arritmia ter sido provocada por medicação errada? Meu pai vinha de duas cirurgias cardíacas complexas e apesar de estar reagindo bem, sabemos que quadros como o dele podem se complicar sozinhos – argumento.
—Além da seringa, a qual meu pessoal já recolheu para análise e busca por digitais, há uma particularidade na medicação, pelo que fui informado – Voight diz, olhando diretamente para Latham.
—Sim, de fato – confirma meu mentor – A doutora Shore descobriu que o lote do qual esta Insulina em particular foi retirada, estava contaminada com Cromo, o que permitiu rastrear e quantificar os níveis no sangue do senhor Rhodes – Latham responde, olhando para Sarah – Quanto a suspeita de não ter sido causas naturais, por assim dizer, a causar o acidente vascular em seu pai – volta-se para mim – Deveu-se ao quadro encontrado pelos doutores Reese, Halstead e Charles ao entrarem no quarto, reforçado pela informações dadas pela senhorita Rhodes – revela.
—Quando atendemos o pedido de sua irmã Connor, e ela começou a relatar o quadro de seu pai, nossa primeira suspeita foi de hipoglicemia – Daniel explica – Como ele não é diabético e como não há necessidade alguma em aplicar Insulina a um paciente recuperando-se das cirurgias que citou bem como não havia registro de prescrição, passamos, Sharon, Latham e eu em particular, a suspeitar de um atentado contra o senhor Rhodes – revela.
—Por isto, no dia seguinte, antes mesmo de a doutora Shore confirmar, entramos em contato com Hank, que gentilmente veio, após o expediente, conversar conosco e se pôr a disposição, extraoficialmente, a nos ajudar – Miss Godwin informa.
—Agora, com a confirmação da suspeita, a investigação tornou-se oficial – Hank avisa.
—E peço-lhe que o mesmo sigilo de antes seja mantido sargento – o advogado do Med pede – Todos desejamos saber quem atentou contra o senhor Rhodes e lhe garanto o hospital não irá isentar-se a responsabilidade, doutor Rhodes, e os culpado será severamente punido, esteja certo disto – assegura, me encarando – Mas será melhor para todos se este caso permanecer sob sigilo – ratifica.
—Como saberemos quem foi o responsável? – questiono.
—Pelo acesso ao lote – é Latham quem me responde – Por estar contaminada e ter sua utilidade reduzida, poucas pessoas tiveram acesso a medicação. Como nada sai do estoque sem prévia solicitação e mediante registro, basta-nos saber quem solicitou uma ampola ou mais – diz, entrelaçando os dedos.
—E se a pessoa não passou pelos tramites legais? – Sarah questiona.
—Impossível! – Latham assegura.
—Na verdade é possível sim – Miss Godwin alerta, fazendo-o olhá-la surpreso – Infelizmente tivemos problemas deste tipo antes e justamente por isto instalamos câmeras não apenas nos corredores de acesso a farmácia, mas em seu interior. Poucos funcionários e médicos sabem sobre elas – revela.
—Eu não sabia – Will diz, fazendo uma careta ante o toque de seu celular, pegando-o e rejeitando a ligação rapidamente – Desculpem. Esqueci de colocar no silencioso – pede, e noto que desliga o aparelho.
—Peço a todos que mantenham sigilo sobre isto – Miss Godwin pede e anuímos com acenos – Já solicitei os registros e imagens dos últimos dias ao setor de segurança e ao de controle da farmácia. No máximo ao final do dia o sargento Voight, doutor Latham e eu teremos acesso a estas informações – avisa.
—Até lá, peço-lhes que mantenham a rotina e falem com meus detetives. Destaquei Atwater, Halstead e Upton para realizar as entrevistas – Voight avisa.
—E como justificara a presença da polícia aqui Sharon? – Daniel inquere.
—Com a verdade – responde.
—Meus detetives foram instruídos a pedir que não comentem com mais ninguém – Voight diz – A priori, apenas os enfermeiros e médicos que tiveram contato com o senhor Rhodes nas doze horas anteriores serão ouvidos. Caso se faça necessários, ouviremos os demais, inclusive, já começaram a fazê-lo enquanto conversamos – comunica.
—Por isto nós também devemos falar, correto? – Daniel pergunta.
—Sim e não por serem suspeitos, no caso de vocês, a princípio – reitera e sinto vontade de rir ante a expressão de Will – Mas porque podem ter alguma informação guardada em suas mentes e sequer saberem – afirma.
—No mais, todas as medidas cabíveis serão tomadas, como já disse – Andrew reforça, me encarando novamente – E evidente que entenderemos caso sua família decida processar o hospital – diz.
—Pensarei nisto em outro momento – digo, honesto, me levantando, Will e Sarah fazendo o mesmo – E quanto a Claire? Posso falar a minha irmã o que está acontecendo? – quero saber.
—Pode, mas lhe peço que o faça em frente um dos detetives para evitar qualquer má interpretação ou boato, tipo que teriam combinado o depoimento – pede e anuo com um aceno de cabeça.
—Muito bem. Estão dispensados – Miss Godwin libera.
—Sharon, se não se importa, gostaria de conversar com você um segundo – Daniel pede – Nada a ver com o assunto em questão – adianta-se dizer.
—Até imagino o que seja – responde ela, sorrindo discretamente.
—Se me permitem, retomarei a rotina – Latham avisa, inclinando minimamente a cabeça antes de se dirigir a porta.
—Eu também – Nina avisa, o seguindo.
—Acho que é nossa deixa! – Will exclama, apontando de si para mim e Reese, indo logo atrás de Nina, nós dois o seguindo quase que de imediato.
—Mais uma coisa Sharon. Quero que oriente os seguranças do Med a não permitirem ninguém deixar o hospital antes do final do turno – ainda escuto Hank Voight pedir antes de fechar a porta.
—Sinto muito pelo que aconteceu a seu pai doutor Rhodes – Nina diz, solidária – Espero que descubram logo quem fez isto – deseja, nos cumprimentando com acenos, seguindo corredor afora sem me dar chance agradecer.
—Ela ainda está um pouco chateada comigo – ouço Will dizer e me volto para ele.
—Difícil acreditar já que não dá pra ficar chateado com você por muito tempo – admito, caminhando vagarosamente entre ele e Sarah.
—Pra você talvez. Mas ela e Nat pensam diferente – insiste meu amigo, fazendo uma careta – E Ingrid também – acresce fazendo Sarah arquear a sobrancelha ao encará-lo quando paramos defronte o elevador – A agente do FBI que me pajeou enquanto estive fora – relembra, ela enrugando o cenho, mais confusa – Resumindo: fiz a besteira de me envolver com meu vizinho mafioso, mas ao contrário do filme ele não era nada divertido ou simpático e quando soube que estava ajudando a policia e o FBI a reunir provas contra ele, tentou me matar. Dois foram presos e um morreu e o resto da gangue queria beber meu sangue, logo tive de ser incluído no programa de proteção a testemunha, o que destruiu meu casamento posto que passei quatro meses isolado no meio do nada sem poder falar com ninguém, incluindo minha noiva. Ex noiva – conta, entrando antes de nós quando as portas abrem.
—E isto foi apenas o resumo! – exclamo, conseguindo sorrir ante a expressão estupefata de Sarah, sinalizando a ela entrar primeiro.
—Minha nossa! – exclama ela, recostando-se a uma lateral – Imagino a história completa – acresce, sorrindo pequeno e ao fazê-lo sinto como se milhões de borboletas batessem asas dentro de meu estômago.
—Não imagina, não e se te contar vai querer chorar ou me bater – Will afirma, suspirando.
—Ou as duas coisas – brinco, fazendo ambos rirem – Pessoal, desculpem todo este inconveniente. Se não tivessem ido em socorro de meu pai não teriam de passar por isto – peço, sério.
—E a esta altura seria um orfãozinho chorão e remelento enchendo o saco de todo mundo! – meu amigo brinca e acabo por rir, divertido – Não esquenta Connor. Seu pai é um pé no saco, mas você e sua irmã não. Ela não, ao menos – corrige-se e rio mais, deixando o elevador juntamente com eles.
—Não se preocupe doutor Rhodes, não está sendo inconveniente algum – Sarah garante, tocando meu braço tão leve e rapidamente que se não tivesse visto, pensaria tratar-se de uma brisa que passara ali.
Ainda assim, sinto a pele queimar onde tocara.
—Concordo com a Reese – Will diz – Não esquenta com isso. Tiramos de letra – garante quando paramos dentro da ilha de enfermagem da emergência, enrugando o cenho ao olhar por sobre meus ombros – A doutora Bekker não estava atendendo? – inquere e me volto a tempo de vê-la apertando as mãos de Kevin e Jay ao sair de uma sala.
—Vai ver terminou antes e foi chamada a falar com os detetives. Faz parte da equipe que trata do senhor Rhodes. Ou tratou – Reese argumenta.
—Pode ser – anuo, uma sensação estranha me tomando.
—Vai falar com sua irmã agora? – Will pergunta e lhe dou atenção outra vez, não perdendo os detetives de vista.
—Claire virá apenas a noite. Está resolvendo umas coisas na Dolan – comunico – Nos falamos depois – digo, tocando o ombro dele, fazendo menção me retirar, estancando e me voltando para Sarah, que se preparava a fazer o mesmo – Reese, poderíamos conversar em particular um segundo? – peço vendo-a corar.
—Agora? – devolve.
—Pode ser mais tarde – digo – Almoçamos, talvez? – sugiro, ansioso, admito.
—Uhum – anui, sorrindo pequeno.
—Ok – digo, dando as costas a ambos, caminhando diretamente a sala aonde Jay e Kevin conversavam, satisfeito.
Apesar e por causa de toda esta situação envolvendo meu pai, sentia que precisava esclarecer aquele beijo trocado na madrugada.
—Olá, posso entrar? – pergunto, batendo levemente a porta, fazendo os dois homens lá dentro erguerem seus olhos para mim.
—Hei. Claro – Jay libera, tomando a iniciativa de vir me cumprimentar – Cara, sinto muito por toda esta situação envolvendo seu pai – lamenta, apertando minha mão.
—Poderia ser pior não fosse seu irmão e Reese – digo, sorrindo sem vontade – Já começaram a falar com o pessoal? Vi a doutora Bekker saindo daqui– quero saber, apertando a mão que Kevin me estendia.
—Então.... – Kevin começa, trocando um olhar estranho com Jay – Estávamos justamente para decidir quem chamar quando a doutora Bekker surgiu e acabou se oferecendo pra ser a primeira a ser ouvida justificando que não poderia vir depois – diz e enrugo o cenho.
—Poderia falar agora, já que está livre? – Jay inquere.
—Por que não? – dou de ombros – O que querem saber? – inquiro, cruzando os braços ao encará-los.
—Saberia se alguém no hospital teria motivos para atentar contra a vida de seu pai? – Jay pergunta, sentando-se na ponta da mesa atrás da qual Kevin estava.
—Quer uma lista por ordem alfabética ou cronológica? – devolvo, rindo torto – Meu pai meio que coleciona inimigos por onde passa com seu jeito pouco amistoso, infelizmente. Aqui no hospital não foi diferente – lamento.
—Então não ficou surpreso em descobrir que haviam atentado contra a vida dele? – Kevin questiona-me.
—Evidente que fiquei. Jamais passou por minha cabeça que alguém aqui chegaria a tanto – admito.
—Entendo – ele diz, coçando a barba, trocando novo olhar com Jay, parecendo hesitar em perguntar algo – Como andava o relacionamento de vocês? – pergunta finalmente.
—Um pouco melhor, para ser franco – digo, enrugando o cenho.
—Então não discutiram algumas horas do ocorrido? – Jay questiona-me.
—Discutimos sim, mas nada sério – confirmo, olhando de um para outro, desconfiado.
—Não é segredo para ninguém o quanto a relação de vocês é conturbada. Tanto que o esmurrou publicamente alguns meses atrás em um jantar – Kevin relembra.
—Já nos entendemos no que se referia aquela questão em particular – afirmo, descruzando os braços – Onde estão querendo chegar? – questiono-os.
—Onde estava cerca de uma hora antes de seu pai começar a passar mal? – interroga e entendo o que Ava fizera.
—Na casa dele procurando por fotos antigas junto com nossa governanta – informo — Estou sendo acusado de algo aqui? Devo pedir um advogado? – inquiro, tenso.
—Vai precisar de um? – Kevin devolve e respiro fundo a fim de me controlar.
—Não tentei matar meu pai. Jamais o faria mesmo não o suportando na maior parte do tempo e se já terminamos aqui, vou voltar ao trabalho – aviso, me voltando para sair.
—Hei, Connor, não nos leve a mal cara – Jay pede, retendo-me um segundo – Precisamos checar todas a informações que recebermos a fim de elencarmos os suspeitos — justifica.
—Te respeitamos muito. Já salvou muitas vidas aqui, inclusive de amigos nossos. Deixe-nos certificar, para quem duvidar, de que não tentou tirar uma – Kevin pede.
Limito-me anuir com um meneio de cabeça, mesmo porque não conseguiria falar tamanho nó que a raiva provocara em minha garganta.
Deixo-os na sala, seguindo direto para o lado oposto de onde estávamos, na sala dos médicos onde visualizara Ava ter entrado, mas não a encontro. Saio, buscando-a, encontrando-a em uma sala anexa a cafeteria recém-inaugurada servindo-se tranquilamente de um café.
—Contou a polícia que discuti com meu pai horas antes de ele enfartar? – questiono, parando alguns passos dela.
—Eles perguntaram e falei a verdade – responde sem se voltar.
—Por que disse que sou ingrato? – inquiro, ela voltando-se lentamente, me encarando séria.
—Não entendi – finge, sorvendo um gole do líquido fumegante.
—Mais cedo, depois que terminamos a cirurgia, disse que eu era um ingrato. Por quê? – repito.
—Não lembro, mas se a carapuça lhe serviu... – insinua, dando de ombros, fazendo menção passar por mim, mas a retenho, segurando-a pelo braço – O que pensa estar fazendo? – inquere, brava.
—Hoje pela manhã estava dizendo que meu pai deixou de ser um empecilho para por estar preso a uma cama e que agora nada nos impedia de ficarmos juntos...
—O que se mostrou ter sido um erro – me corta.
—Logo em seguida me acusou de ser ingrato – prossigo, ignorando seu comentário – Por que disse isto? O que fez que não reconheci? – pergunto.
—Além de salvar sua pele diante da comissão quando foi acusado de conduta inadequada e ter conseguido o financiamento para custear Sua desejada sala híbrida? – questiona de forma irônica, em encarando.
—Fez isto em benefício próprio, por egoísmo, para impedir minha partida e me prender a você por um tipo de dívida, não por ser altruísta ou algo do gênero – afirmo, mantendo-a presa – Que mais fez Ava?
—O que está querendo insinuar? – inquere, me encarando.
—Insinuou para a polícia que fui a eu tentar matar meu pai, mas acho que foi você a fazê-lo – acuso, vendo sua expressão ir da surpresa a raiva e depois para algo indecifrável.
—Pobre Connor! Sempre com essa mania de perseguição, imaginando coisas – insinua — Parece que, afinal, seu pai está certo. Padece de delírios assim como acontecia a sua falecida mãe – acresce, não me dando tempo contestar – Nos diga Connor, quanto herdaria com a morte de seu pai? Vinte, trinta milhões? Mais? – insinua, desviando o olhar para o lado e faço o mesmo, deparando-me com Latham nos observando, estupefato – Agora solte-me! – ordena, entredentes, puxando o braço com força exagerada, libertando-o e se afastando apressadamente – Ah! – exclama, estancando perto de Latham – E saiba que darei queixa formal contra o senhor doutor Rhodes, por comportamento inconveniente com uma colega. Desta vez não será imaginação de sua mente – alerta, me fuzilando com o olhar antes de sair.
Em um impulso, desfiro um soco contra a superfície de uma mesa próxima, sentindo de imediato as consequências de meu gesto. Com certeza fraturara algum osso da mão.
—Pode me explicar o que raios está acontecendo aqui? – Latham inquere, cruzando os braços ao me encarar.
—A doutora Bekker fez insinuações a polícia em seu depoimento. Deu a entender que sairia lucrando com a morte de meu pai, me transformando em suspeito – conto, movendo meus dedos lentamente, sentindo pontadas de dor – E eu suspeito que ela o fez. Que foi ela quem tentou matar meu pai – digo, direto, sustentando seu olhar.
—Isso é .... Inimaginável! – exclama, chocado – Doutora Bekker é uma excelente cirurgiã, competente, não vejo motivos para que tenha....- cala-se, abrindo a boca, me observando um segundo antes de voltar a falar – Por acaso o mal fadado envolvimento entre vocês tem algo a ver com isto? – inquere, estreitando os olhos.
—Ava julga que meu pai tenha se tornado um empecilho para retomarmos a relação, sendo que deixei claro a ela não pretender fazer isto – afirmo – Não depois de descobrir que ela dormiu com meu pai para o convencer dar o dinheiro para a sala híbrida – revelo, vendo-o ficar ainda mais chocado.
—Se suspeita dela, deve falar a polícia – diz após se recuperar do susto.
—Não posso. Não tenho como provar esta ou qualquer outra suspeita que tenho sobre ela – assumo, causando-lhe nova surpresa.
—Há mais? – questiona e confirmo com um aceno, ele passando a mão sobre o rosto nervosamente – Não sei a quais suspeitas se refere e neste momento não vem ao caso. Mas até que se saiba quem teve acesso a Insulina, não quero ouvir qualquer tipo de acusação a ela e de sua parte – ordena — Direi o mesmo a doutora Bekker, e não se preocupe que não falarei sobre os registros de acesso. Posso não ser tão, como direi, ligado em tudo, mas não sou estupido doutor Rhodes – garante, rindo de seu modo discreto – Se tem essa suspeita, não serei eu a alerta-la e prejudicar as investigações – afirma, me trazendo alívio – Além do mais, este é o único jeito de trazer um pouco de paz a meu departamento. Ao menos até o final do dia – acresce, dirigindo seu olhar a minha mão – Melhor ir ao departamento de Ortopedia bater um raio X de sua mão e tomar os devidos cuidados – ordena.
—Sim senhor – respondo, sorrindo sem vontade – E doutor Latham, desculpe-me por toda essa confusão. Não foi, de forma alguma, intencional – peço, sem graça.
—Na verdade, eu deveria ter sido mais atento e tomado as devidas providências a fim de evitar maiores problemas, como aconteceram – admite, honesto – Agora vá cuidar desta mão – reitera, me dando passagem.
—Obrigado – agradeço mais uma vez, indo fazer o que ordenara, minha mente divagando entre tentar encontrar Reese no almoço ou tentar descobrir antes dos demais a resposta que queremos.
A grande questão é: o que farei se tiver minhas suspeitas confirmadas.
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Distrito 21 (12:34 p.m)
Adam Ruzek
—Ué, é feriado e não fomos avisados? – brinco quando Kim e eu chegamos ao topo da escadaria, visualizando apenas Antônio sentado atrás de sua mesa – O que houve Dawson? Tá de castigo? – não resisto provocá-lo mesmo sabendo o quão perigoso isto era.
—Aí depois a pessoa vai parar no hospital com metade dos dentes e o nariz quebrados e não sabe por quê!! – minha parceira, ex , quase futura namorada novamente (se conseguir convencê-la perdoar minhas cagadas, reconheço!) exclama e estanco, arqueando a sobrancelha ao encará-la.
—De que lado você está amor? – inquiro, escapando da tapa desferida por ela por centímetros.
—Já falei para não me chamar de amor. Não gostava que fizesse isto no trabalho antes e perdeu o direito quando foi pra cama com a Hailey – lembra, mas antes que pudesse responder, Antônio nos interrompe.
—Quando o casal de palhaços resolver encerrar o show, posso, quem sabe, se achar que mereçam, explicar o que está acontecendo, já que demoraram demais em realizar a simples tarefa de acompanhar um preso ao departamento de justiça – resmunga sem desviar o olhar da tela do computador a sua frente.
—Em nossa defesa, o trânsito estava horrível – Kim defende-nos, puxando uma cadeira e sentando-se ao lado dele – Onde estão todos? – quer saber.
—Hank está em uma reunião com a superintendente Brennan. De novo – diz, parecendo chateado – Kevin, Jay e Hailey ainda não voltaram do Med. Estão colhendo depoimentos sobre a tentativa de assassinato do pai do doutor Rhodes – relata.
—Oi?? – Kim e eu dizemos ao mesmo tempo.
—Como assim tentativa de assassinato? Que loucura é esta? – pergunto, confuso.
—Lembram que Voight foi chamado por Sharon Godwin ao Med ontem à noite, quando já estávamos de saída? – pergunta e ambos anuímos com acenos positivos – Foi por este motivo. Alguém no hospital ministrou Insulina ao senhor Rhodes, sendo que ele não é diabético. O resultado quase foi fatal – revela, enrugando o cenho, levando uma mão ao queixo.
—Nossa. Connor tá sem sorte mesmo. Primeiro o lance do falso sequestro da filha do doutor Charles, ex dele, e agora isto – lembro, balançando a cabeça negativamente.
—Em que pé está a investigação, sabe dizer? – Kim quer saber.
—Hank trouxe a seringa que usaram para ser periciada e a direção do Med está buscando pelos vídeos de segurança entre outras coisas – Antônio responde, desviando o olhar para mim – Falando no falso sequestro, está encerrado, não é? – questiona-me
—Sim. Tudo indica que a chamada partiu de um celular descartável já que o número que consegui identificar no aparelho dele me levou a um beco sem saída – respondo – Por quê? – quero saber.
—Hank me pediu para verificar algumas informações sobre um caso trazido por Kevin e All antes de ele precisar se afastar, e quando lancei os dados, um dos números bateu com sua investigação – diz, girando a tela do computador para mim – Vê? – inquere, indicando algumas linhas diferentes – Estas linhas aqui são as do caso de All e estas do seu – explica, indicando vários números interligados.
—Estranho. Por que um traficante usaria o próprio celular para chantagear alguém sabendo que pode ser rastreado? – Kim inquere.
—Por ser muito burro ou muito convencido – digo, torcendo o nariz – O cara deve se achar para fazer algo do tipo. Ou ter muita coragem – acresço.
—Apostaria na terceira opção já que uma das especialidades dele é justamente crimes cibernéticos – Antônio revela – Josh Chade. Tem uma senhora ficha criminal que vai desde extorsão a tráfico de drogas. Em contrapartida, quase nenhuma condenação – conta, exibindo a ficha do tal sujeito – O cara é safo! – exclama, rindo junto com Kim.
—O que foi? – ela quer saber ao me ver enrugando o cenho.
—Eu já vi este rosto em algum lugar – afirmo, arqueando a sobrancelha quando o computador começa emitir um sinal sonoro baixinho – Que foi agora? – inquiro.
—Programei uma pesquisa para saber se o mesmo número havia sido utilizado recentemente – Antônio explica, abrindo outra tela – Hum...duas ligações na terça à noite para dois números diferentes – diz, parecendo surpreso – Ué. Eu vi estes...- para, deslizando a cadeira para a mesa de Jay, vizinha a sua, pegando uma folha, deslizando de volta, aproximando-a da tela do computador – Por que um cara com ficha criminal ligaria para dois membros do staff do Gaffiney? – questiona, nos olhando.
—Quais membros? – pergunto, inclinando-me ao mesmo tempo que Kim, ambos curiosos.
—Gwen Garrett e Ava Bekker – revela, a voz da superintendente fazendo-nos erguer os rostos na direção dela.
—Que tem a Garrett? – inquere, vindo até nós juntamente com Hank, mas antes que Antônio responda, Platt surge, chamando o sargento.
—Hank, o laboratório pediu para entregar isto. Disseram que pediu urgência – explica, estendendo-lhe uma pasta fina.
—Obrigado Trudy – agradece – Que tem Gwen Garrett? – repete a pergunta da Brennan enquanto abre a pasta.
—Josh Chade, um criminoso com vasta e diversificada ficha criminal ligou para ela e para está outra pessoa, Ava Bekker. As duas constam como funcionários do Gaffiney – explica.
—Hank, é o mesmo número que foi utilizado para tentar extorquir Connor Rhodes mês passado com o falso sequestro de Robin Charles, fazendo uso de um programa de internet – lembro
—Pensei que usassem números não rastreáveis para este tipo de coisa – Brennan comenta, olhando-nos duvidosa.
—Normalmente é, mas este sujeito já fez isto diversas vezes sem ser pego. É uma das especialidades dele na verdade. Talvez sinta-se seguro o suficiente para arriscar um caso ou outro sem usar aparelhos descartáveis – Antônio supõe.
—Ou pode apenas desabilitar o número por um tempo e voltar a utilizá-lo quando a coisa esfria, como foi o caso do Rhodes – Kim sugere e me vem um estalo.
—Rhodes!! – exclamo, estalando os dedos, fazendo-os me olharem confusos – No dia em questão, alcançamos o Connor quando já estava no banco providenciando o pagamento, mas o impedimos graças ao doutor Charles, pai da suposta vítima, que nos alertou a respeito – relembro – Este cara estava em frente ao banco quando saímos. Lembro de ter esbarrado nele e me xingou mesmo após ter lhe pedido desculpas – digo.
—Ele devia estar por perto para receber o pagamento – Kim elucida.
—E o que este homem tem a ver com Gwen Garrett? – reitera a superintendente Brennan – A conheço da faculdade. Não me parecia o tipo que se envolve com pessoas como este Chade – explica-se.
—Pessoas mudam – Platt, que permanecia ali, opina, fazendo menção sair, Hank, que se mantinha em silêncio até então, impedindo-a.
—Trudy, emita um comunicado para que o senhor Chade seja trazido ao distrito prestar esclarecimentos. Ruzek e Burguess, busquem a Garrett para que faça o mesmo. Depois mobilize as viaturas nas proximidades do Med. Quero todas as saídas do hospital cobertas o mais rápido e discretamente possível – ordena, voltando-se para Antônio –Dawson, envie estas informações a nosso pessoal que está no Med. Diga-lhes que mantenham a doutora Bekker sob vigilância até que cheguemos – ordena, explicando-se antes que perguntássemos – As impressões no êmbolo da seringa eram de Ava Bekker. Foi ela quem tentou matar Cornélius Rhodes – elucida – Peça a Jay que comunique apenas Miss Godwin e doutor Latham, ninguém mais, especialmente Connor Rhodes, o laudo da perícia – termina de ordenar, voltando-se para Brennan, pondo sua arma no coldre – Vamos – comanda, nos pondo em movimento.
—Ficarei aqui, aguardando-os voltarem. Tenho interesse na elucidação destes casos – Brennan avisa.
—Como quiser – Hank libera, liderando-nos para fora do distrito, cada qual seguindo para um lado em busca de cumprir suas ordens.
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Gaffiney Chicago Med ical(13:45 p.m)
Narrador
—Vamos lá. É só uma conversa rápida para não deixar nenhum mal-entendido entre vocês – Connor murmura para si mesmo caminhando lentamente em direção ao trailer de comida natural onde Sarah se encontrava, parando a alguns passos da jovem, que olhava o cardápio afixado na lateral do veículo, distraída.
—O que vai ser doutora? – o atendente pergunta, ela empertigando-se, lhe dando atenção.
—Uma Salada....
—Garden— Connor completa o pedido, fazendo-a voltar-se, encarando-o surpresa – E um suco de ...laranja, correto? – inquere, sorrindo ao vê-la confirmar com um gesto de cabeça – Para mim pode ser uma vitamina mista, por favor – pede.
—Uma vitamina para o doutor Rhodes, uma salada Garden e um suco para sua garota – o rapaz ordena a outro jovem no interior do trailer, a médica voltando-se ligeiro.
—Não, eu não sou a garota dele – Sarah o corrige – Quer dizer...- volta-se para Connor novamente – Não que tenha algo ruim em ser sua garota ou que eu me sinta ofendida de alguma forma ou até que eu queira ser sua garota...- enrola-se, corando fortemente, Connor rindo divertido – Acho melhor me calar – diz, encarando-o sem graça.
—Tudo bem Sarah, entendi – tranquiliza-a o cirurgião, ficando sério – Será que podemos ter aquela conversa agora? – questiona-a.
—Claro – concorda a médica, recebendo seu pedido, preferindo ignorar o frio no estômago que escutá-lo pronunciar seu nome – Que aconteceu a sua mão? – inquere ao vê-lo estender o braço a fim de receber o dele.
—Burrice – Connor responde, fazendo-a enrugar o cenho enquanto caminham até uma mesa próxima – Sabe quando você sabe que se fizer algo vai se machucar e mesmo assim faz? – questiona, pondo o copo com vitamina sobre a mesa, adiantando-se em puxar a cadeira para ela sentar-se.
—Obrigada – Sarah agradece, aguardando-o fazer o mesmo – Acho que não entendi seu raciocínio – admite.
—Soquei o tampo de uma mesa mesmo sabendo que machucaria a mão – resume, rindo junto com ela.
—Desculpa. Não deveria rir, mas da forma como falou ficou engraçado — diz a jovem médica.
—Ficou mesmo – anui o cirurgião, girando o canudo em seu copo distraidamente.
—Então, sobre o quê quer falar? – inquire-o, abrindo o potinho que continha a salada.
—Sobre o que aconteceu no quarto de meu pai na madrugada da terça-feira – elucida Connor.
—Ah!! – Sarah limita-se dizer, imaginando se pediria desculpa pelo gesto, preparando-se mentalmente para ouvi-lo falar que se arrependera de o ter feito.
—Sarah, eu....- começa ele, a chegada de Robin Charles interrompendo-o.
—Ai está você! – exclama a infectologista, depositando um beijo na bochecha do cirurgião ao sentar-se – Te procurei por todo hospital – diz – Ah, olá Sarah – cumprimenta-a, olhando de um para outro – Interrompi alguma coisa.
—Não – respondem ao mesmo tempo.
—Estávamos apenas conversando – esclarece a Psiquiatra.
—Sobre o casamento? – Robin inquere.
—Casamento? – Connor devolve, olhando-as, confuso.
—Não sei se já te falei, com tudo que aconteceu nos últimos posso ter esquecido, mas o câncer de mamãe não está regredindo e meu pai resolveu pedi-la em casamento pela segunda vez – revela – Ele queria ir ao Havaí casar-se, mas mamãe e os médicos o demoveram da idéia – conta – Iremos realizar uma celebração simples, apenas para os amigos, lá no Keoni, hoje à noite. Conto com sua presença. Com os dois, na verdade – convida a médica, sorridente.
—Tentarei comparecer – Connor afirma, retribuindo o sorriso.
—Não tente, vá Connor. Precisa se distrair um pouco. Desde que toda essa loucura envolvendo seu pai começou mal saiu deste hospital – resmunga, fazendo biquinho, deixando Sarah desconfortável, o que não passa despercebido ao cirurgião – E leve Claire com você. Ela também precisa se distrair um pouco agora que o perigo maior já passou – acrescenta.
—Verei isto – responde ele, mexendo o canudo outra vez.
—Tem certeza que não estou atrapalhando? – Robin reinquire, sentindo o clima estranho, mas antes que qualquer dos dois responda, Will e Ethan surgem, puxando as cadeiras vagas a mesa em que estavam sentando-se, sobressaltando os três – Jesus amado, que susto!! – Robin exclama, levando a mão ao peito.
—Desculpem, foi sem querer – Will diz, sorrindo amável – Que estão fazendo? Almoçando? – pergunta, olhando-os um a um.
—Sarah sim. Eu e Robin estamos apenas fazendo companhia a ela – Connor adianta-se – E vocês? Estão fugindo de quem? – brinca.
—Eu de ninguém. Will da agente do FBI – Ethan é mais rápido em responder.
—Não estou fugindo. Apenas evitando – corrige-o.
—Por quê? – Sarah quer saber, levando uma generosa garfada a boca. Decidira comer pois não teria outra chance e como não davam sinal de que a deixariam sozinha, não desperdiçaria comida.
—Tim Burke saiu da prisão e ela teme que venha atrás de mim. Quer que eu saia da cidade novamente– revela o ruivo, contrariado.
—O que ele, obviamente não quer para não se afastar da Natalie – Ethan completa.
—Sério? – Connor inquere, sentindo-se impelido a contar-lhe que vira Philip com uma caixinha de veludo que tinha tudo para ser um anel nas mãos quando passara para ver a pequena Sophie na noite que antecedeu a cirurgia– Will, deveria ao menos pensar a respeito. Se ela julga que deveria se afastar, acho que.....
O discurso do cirurgião é interrompido por dois acontecimentos simultâneos: Os gritos emitidos por Natalie e Ingrid Lee, alertando-os para o carro, que subia a calçada em alta velocidade, arrastando tudo e todos em seu caminho, avançando contra eles.
O grupo tem tempo apenas de atirar-se ao solo, evitando receber o impacto total do veículo, que para somente ao atingir uma coluna ali perto.
Connor é o primeiro a se recuperar, levantando-se com certa dificuldade, olhando a confusão generalizada a sua volta, procurando pelos amigos.
—Robin, tudo bem? – pergunta, inclinando-se sobre a Infectologista, examinando-a.
—Estou bem – garante ela, exibindo apenas ralados e um corte na testa – Os outros, como estão? – pergunta ela, levantando-se com ajuda dele, ambos olhando em volta, visualizando Natalie e outros médicos que saíram ao escutar o barulho socorrendo as vítimas, um gemido baixo chamando atenção de Connor.
—Reese!! – exclama, aflito, inclinando-se sobre a jovem – Não se mexa. Me deixa te examinar – ordena, mantendo-a quieta, apalpando seus braços cuidadosamente, a médica gemendo de dor quando aperta-lhe o pulso esquerdo – Desculpe – pede, seguindo o exame, descobrindo que machucara ambos joelhos e torcera o direito – Fique calma, vou te levar lá para dentro – avisa, fazendo menção pegá-la nos braços.
—Está ferido – alerta a médica debilmente, tocando a fronte e o queixo do cirurgião.
—Não é nada – assegura ele, procurando os demais colegas com o olhar, localizando Will alguns metros de onde se encontra debruçado sobre Ethan, que parecia desacordado – Will? – chama ao mesmo tempo em que ajuda Sarah erguer-se com ajuda de Robin.
—Ethan fraturou a perna. Está bastante inchado e....
—HALSTEAD!! – grito corta-o, fazendo os presentes se voltarem em direção ao carro, o motorista aparecendo, trôpego, apoiando-se a lataria tendo um revólver a mão – VAI PAGAR PELO QUE FEZ A MINHA FAMÍLIA! – grita, apontando a arma em direção ao ruivo.
—ABAIXE A ARMA BURKE – Ingrid Lee ordena, apontando sua arma em direção ao homem – ABAIXE!! – ordena outra vez, mantendo-o sob sua mira.
—Tim, não faça isso – Will implora ao perceber a intenção do homem – Tim...por favor....- repete, inclinando-se sobre Ethan ao escutá-lo gemer, sentindo a dor fina em seu ombro ao mesmo tempo em que dois estampidos secos são ouvidos, erguendo o olhar a tempo de ver o ex vizinho e amigo de infância pender e tombar para frente, caindo morto ao chão – Não precisava ser assim – murmura o ruivo, deixando algumas lágrimas escorrerem.
—Will, está ferido – Natalie constata, agachando-se junto a ele, pressionando o ferimento enquanto mais médicos e enfermeiros surgem, bem como viaturas da polícia e bombeiros, socorrendo e levando as vítimas para o interior do Med.
—O que aconteceu lá fora? – Maggie pergunta ao vê os amigos e colegas de trabalho adentrando, feridos.
—Tim Burke veio atrás de Will. Jogou o carro sobre nós, passando por cima de quem estava no caminho – Connor relata, pondo Sarah sobre o leito – Preciso de um Raio X e medicação contra dor – ordena, sentindo-se zonzo – Maggie, page alguém para assumir aqui antes que eu apague – avisa, apoiando-se ao leito, a enfermeira vindo em seu socorro.
—Doutor Crockett!! – chama a enfermeira, o médico recém contratado vindo em seu auxílio.
Na hora seguinte, a equipe se desdobra em atender as vítimas do atentado, a presença de vários policiais passando despercebida durante algum tempo.
—Maggie, o que está acontecendo? Por que tantos policiais? – Connor pergunta, entrando na ilha de enfermagem, sobressaltando-a – Por que o susto? – inquere, desconfiado, vendo, por sobre os ombros da enfermeira seu mentor, Miss Godwin e Hank Voight passarem apressados – Maggie...
—Connor, mantenha a calma sim – aconselha ela, abrindo as mãos a fim de reforçar o pedido, olhando a volta em busca de auxílio.
—Maggie...- repete o cirurgião em tom de aviso.
—Doutor Rhodes, sente-se – Daniel Charles pede, tocando-lhe o ombro, fazendo com que obedecesse, Will, tendo o braço na tipóia, e Robin se aproximando, cautelosos – A polícia já sabe quem tentou matar seu pai – diz, o cirurgião retendo o ar um segundo – Foi...
—Ava – Connor sopra, soltando o ar, deixando a ilha de enfermagem antes que pudesse ser impedido, correndo em direção aos elevadores, adentrando no último minuto antes de as portas fecharem.
—Avisem Miss Godwin – Daniel pede, entrando no elevador seguinte, deparando-se, quando o mesmo para no andar seguinte, com Ava Bekker – Ah, justamente quem eu procurava – diz, o mais calmamente possível – Desce? – inquere.
—Sim – anui ela, entrando apressada – Que atentado é este do qual ouvi falar? – questiona ela, assustando-se quando Jay Halstead adentra o cubículo no último segundo.
—Deu tempo – diz o detetive, respirando fundo, indo recostar-se no fundo do local, trocando um olhar cúmplice com o Psiquiatra.
—Então...estava a sua procura por isto – Daniel Charles retoma – Não estou totalmente a par, mas parece-me que um home tentou matar doutor Halstead. Alguém ligado aquela família que ele ajudou a prender – informa, ficando imediatamente tenso quando o elevador para.
—E quanto a Connor? – pergunta a loira, estacando, surpresa, após dar dois passos fora do elevador ao deparar-se com policiais armados a sua espera – Mas o que...????
—Ava Bekker, está presa pela tentativa de homicídio de Cornélius Rhodes – Hank Voight dá voz de prisão, a cirurgiã voltando-se a fim de retornar ao interior do elevador, recuando ao se deparar com Jay Halstead.
—Acabou doutora – declara o detetive, vencendo a distância que os separava, algemando-a no exato instante em que Connor regressava ao setor de Emergência, avançando sobre ela, sendo prontamente impedido por Voight.
—Desgraçada! – rosna o cirurgião, recebendo um olhar de desprezo em resposta.
—Consegui a sala que tanto queria, te defendi diante da comissão, arrisquei minha saúde por você, por nós e é assim que me agradece!? Me dando as costas e traindo? – acusa — Não passa de um maldito ingrato!!! – diz, cuspindo nos pés dele – Deveria tê-lo deixado ir embora e aceito o pedido de seu pai. Teria lucrado bem mais a ter insistido com um perdedor como você! – escarneia, rindo de maneira sarcástica.
—Tirem-na daqui – Voight ordena, ainda segurando-o, fazendo com que este o encarasse tão logo a cirurgiã é levada sob os olhares confusos e espantados da equipe ali presente – Precisamos conversar Connor. O atentado contra seu pai não foi o único crime a ser cometido pela doutora Bekker – alerta, conduzindo o cirurgião até uma sala próxima, Sharon Godwin, Isidore Latham e Daniel Charles os seguindo.
—Ok pessoal, acabou o espetáculo. De volta ao trabalho — Maggie Lockwood comanda, fazendo todos se mexerem, cada qual retomando lentamente suas tarefas mesmos estando curiosos e sem entender nada do que se passara ali segundos antes, olhando em direção a sala aonde o grupo estava, penalizada e preocupada com o colega e amigo, pensando que precisaria de muito apoio após toda esta tempestade – Só espero que aceite – suspira, retornando a seu posto.
“... I won’t let go (Iwon’t let go, no, no, no, no, no, no);
I’ll be your life line tonight;
You won’t let go;
I’ll be you life line tonight;
I won’t let go;
I won’t let go”

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