Caminhando entre os mortos
8 Capítulo 8 - Hecatombe
Notas iniciais
Pov- Alice
É horrível não saber! Eu penso quando vejo de longe Daryl e seus amigos saírem em uma nova missão, horrível não saber se está bem, se está vivo, se vai voltar, mas ele não se importa com isso, fico brava, fico brava com tudo que ele faz, e ao mesmo tempo adoro.
Adoro que ele fica segurando a vontade de rir, que finge estar bravo quando não está e adoro mesmo quando está, não sei como lidar com isso porque me sentir assim nunca fez parte da minha ideia de sobrevivência apocalíptica.
Agora tenho que me virar com isso, com o que sinto e com o que ele não sente, mas só preciso me manter longe, apenas isso, não pode ser difícil.
Na verdade eu não consigo fazer isso, ele me atrai feito imã, isso é constrangedor, adorei passar o dia fora, andar de moto, me sentir livre e a quem eu quero enganar? Ficar tão perto, abraçar Daryl me recostar nele e sentir seu cheiro enquanto minhas mãos descansavam eu seu peito e eu sentia as batidas do seu coração, isso sim foi o que fez meu dia tão feliz.
Passo o dia todo ajudando as pessoas, me sento com Hershel no começo da tarde e conversamos sobre a vida, ele me conta como foi perder a perna, os momentos dramáticos que passaram para dominar o lugar e eu os admiro profundamente.
−Fico impressionada em como são fortes, eu sei que perderam algumas pessoas, mas ainda estão aqui e isso é incrível.
−Rick é um líder importante e Daryl é muito forte, juntos eles nos trouxeram até aqui.
−Daryl... – Eu me calo, ele me intriga demais.
−Se entenderam bem!
−Brigamos o tempo todo! Eu respondo espantada com o comentário.
−Eu sou um velho bem observador e acho que já conheço bem o Daryl, ninguém entende ele melhor que você, ele precisava de um desafio como você!
−Hershel ele me odeia!
−Não seja tola, ele não odeia quase ninguém, e você definitivamente ele não odeia!
−Quase?
−Temos um inimigo, um homem que nos fez muito mal e que ainda está por ai, ele com certeza tem o ódio de muitos aqui, inclusive o de Daryl, principalmente talvez.
−O que matou o irmão dele?
−Sim! Ele me responde – Agora vou sair por ai, dar uma olhada nas coisas, não sei se notou mas voltei a ter duas pernas! Ele brinca comigo e eu sorrio para ele, beijo sua bochecha e a barba me faz cócegas, coço o nariz e ele ri bagunçando meu cabelo.
−Tem muita vida aí garota, gosto muito disso!
Hershel me deixa sozinha e então Carl se aproxima, se senta do meu lado, não parece muito contente.
−Está bravo?
−Um pouco, as coisas aqui mudaram um pouco, tem muita gente nova e meu pai me tirou a arma, acha que não posso me defender, que posso tomar a decisão errada.
−Eu estou na mesma, Daryl não me deixa sair, acha que não posso me defender!
−Uma porcaria! Ele reclama.
−Estamos os dois fu... – Não consigo pensar em uma palavra – Ferrados? Ele ri muito de mim, quase se dobra, acho que pelo menos o alegrei.
No fim do dia eu sigo para cela de Daryl, estou irritada com ele por não me deixar ir junto, jurei que não o esperaria mais na cela dele, mas estou aqui como um protesto por ter sido deixada para trás!
Convencida disso me deito na cama dele, gosto de ficar ali, o colchão dele é melhor, da próxima vez que ele sair e me deixar para traz vou roubar o colchão, só de raiva, então quando ele chega eu me esqueço que estou brava e que o chamei de sei lá o que, corro para ele e o abraço, nem me dou conta do que fiz, ele não corresponde, e logo me afasto, mas então ouço sobre porcos e claro que corro para ver os bichinhos.
Estão num cercadinho improvisado, tem algumas pessoas em volta olhando e me junto a eles, um é bem pequeno e eu pego o bichinho no colo, para isso tive que pular para dentro do cercado.
−Olha Carl que lindo! Ele faz um carinho no bicho – Será que é menino ou menina?
−Vira e vê! Carl me responde e faço o que disse.
−Menina! Eu respondo, o porco se debate um pouco em meus braços, quer correr de mim – Calma querida, não vou te machucar.
Me viro e vejo Daryl de pé próximo de nós me observando com um olhar enigmático, sorrio para ele e depois olho para Carl.
−Que acha de chamarmos ela de Violet?
−Eu gosto! Ele responde.
−Não quero ser chato nem nada, mas sabem que estão dando nome para o jantar né? Glenn diz parado ao lado de Carl, Maggie o cutuca.
−Jantar? Fico triste – Vamos jantar o bichinho? Eu digo em voz baixa para a pobre não ouvir.
−Sim Alice, e não aconselho a se apegar, nenhum dos dois! Rick diz olhando de mim para o filho, eu e Carl nos olhamos um pouco cúmplices, sem alternativa coloco o porquinho no chão e saio de dentro do cercado.
−É Carl, nós estamos mesmo... Você sabe.
−Completamente! Ele diz chateado.
Estava bom demais para ser verdade, nem fico mais ali, sigo para minha cela agora totalmente deprimida, o mundo está mesmo uma merda!
Não consigo dormir, me viro de um lado para outro, vejo Daryl passar pela minha cela, espero um tempo, mas como não consigo dormir vou até a cela dele, quando entro ele está deitado, as mãos sob a cabeça e os olhos fixos no estrado da cama de cima, aponto a lanterna para ele, penso se eles tem mais baterias depois preciso pergunta.
−Daryl?
−O que? Eu estou de pé na frente dele que me olha sério.
−Acha que se fizer uma campanha, salvem os porcos eles ficam vivos?
−Acho que se fizer uma campanha não matem o jantar vai acabar expulsa. As pessoas preferem comer, sabe, isso é meio que uma necessidade dos seres humanos.
−Entendi! Eu desanimo, ele tem razão – Boa noite!
Deixo a cela.
−Pobre Violet, sinto muito querida, mas é o fim do mundo, esse tipo de coisa acontece.
Eu me deito, gosto de bacon, quem não gosta, mas porcos são uma coisa e bacon em pacotinhos no supermercado é outra. Apago a lanterna, depois acendo de novo e fico brincando com ela um pouco acendendo e apagando.
−Alice! Dou um pulo de susto quando vejo Daryl na porta de pé com cara de bravo, que foi que eu fiz agora?
−Sim! Eu seguro a cabeça que bati no susto, reprimo pelo menos uma dúzia de palavrões.
−Se fizer mais uma vez esse barulhinho irritante acredite nunca mais vai ver uma lanterna na vida!
−Vai me tomar ela? Eu aperto a lanterna na mão – É o tipo de pessoa que dá presentes e depois toma?
−Apenas pare com esse barulho infernal!
−Sabia que se tivesse pedido com educação não doeria nada e eu pararia na hora?
−Sabia que se você fosse um ser humano normal não estaria fazendo isso?
−É possível! Eu responde, ele tem razão sobre isso – Tem mais baterias?
−Ahm?
−Bateria! Eu acendo e apago de novo, apenas para ele entender do que estou falando, Daryl dá um passo na minha direção.
−Não se atreva! Ameaço me encolhendo.
−Então chega!
−Eu paro, mas preciso acender, é o último! Acendo a lanterna e ele bufa irritado – Você mentiu!
Ele já estava na porta e se volta.
−Disse que não dava para ouvir nada da sua cela, e esse barulhinho te irrita?
−Mulher você é infernal!
−E você um chato, aposto que por você eu moraria lá no bloco Z!
−Não tem um bloco Z! Ele me responde já na cela dele – Mas adoraria que tivesse.
−Constrói um então! Respondo.
−Porque não se beijam de uma vez e deixam a gente dormir? Ouço a voz de Maggie a mil quilômetros de distância – Toda noite brigam sem parar, não tem bloco Z mais tem chiqueiro agora, é para onde os dois vão!
Fico em silêncio, ele também, nem sabia que todo mundo ouvia as provocações dele, agora amanhã vai ser uma vergonha e a culpa é dele e ele nem me respondeu se tem ou não mais bateria caso a lanterna se apague.
Beijar ele, porque Maggie acha que quero beijar ele? Bom, não é que eu recusaria se ele me beijasse, é bem possível que eu correspondesse, na verdade é totalmente provável, sim, eu corresponderia com certeza, mas só se ele me beijasse.
Será que ele quer fazer isso, porque Maggie acha isso, porque Hershel acha isso, ao menos foi o que pareceu achar hoje mais cedo.
Não Daryl Dixon não parece querer me beijar, talvez me estrangular, expulsar, mas beijar?
Quem sabe se parássemos de brigar, mas isso não vai acontecer, ele é muito irritável, e eu muito irritante a combinação perfeita para um furacão.
Demoro para descer na manhã seguinte, pretendo chegar lá em baixo só quando todos estiverem ocupados trabalhando, vejo Daryl passar pela minha cela, ele nem olha para dentro.
−Que se dane!
Todo meu esforço é em vão, quando chego lá em baixo todos os moradores do nosso bloco estão reunidos, incluindo Daryl.
Maggie me sorri como se nada tivesse acontecido, acho que nos parecemos um pouco, beijo Hershel, adorei aquela coisa de coceira no nariz, ele ri quando o coço de novo, estão discutindo alguma coisa sobre a prisão.
Me sento numa cadeira próxima mas sem estar em cima deles, não fui convidada para a conversa então apenas fico tomando meu café.
−São muitas decisões e nem tudo pode ser assim decido de forma democrática, não podemos sair perguntando de um a um o que acham sobre tudo! Glenn comenta.
−Acho que precisamos de um líder! Maggie olha para Rick.
−Eu realmente quero me afastar um pouco disso! Ele rebate o olhar.
−Então outro! Tyreese comenta.
−Não sei, eu não gosto da ideia de outro nos liderar que não seja o Rick, para mim ao menos não funciona! Daryl comenta – Mas concordo que não é viável sair por ai perguntando tudo para todos.
−Deviam fazer um conselho! Eu não resisto, eles me olham – Desculpe mas não pude deixar de ouvir, é um jeito de ser democrático, um conselho com representantes de todos, alguém que cuida dos problemas internos, alguém que cuida das coisas lá fora, alguém que convive bem com os moradores.
Todos me olham e dou de ombros um tanto sem graça.
−Viva a democracia! Eu digo bebendo mais um gole de café.
−Vem Alice, vamos falar mais sobre isso, acho boa sua ideia! Hershel diz e eu caminho até eles, me sento ao lado de Daryl ainda é a pessoa que me sinto mais à vontade, normalmente nem me lembro que brigamos, ao menos quando não estamos brigando.
−Achei a ideia muito boa! Sasha responde.
−Certo, mas como vai funcionar isso, votação, discussão, reuniões semanais? Glenn pergunta interessado, todos me olham.
−Eu não sei, acho que deviam apenas formar um conselho e depois esse conselho decide isso.
−Hershel tem que participar! Rick começa – E Daryl, já que ele cuida das coisas lá fora.
−E alguém que cuida de tudo aqui dentro, eu sempre vejo a Carol fazer isso! Eu os lembro, não sei o que ela e Daryl tem, se tem mesmo alguma coisa, mas ela é bem importante aqui dentro, isso já percebi.
−Sasha também devia, ela se entende bem com quem veio de Woodbury! Daryl comenta – E um dos dois! Ele aponta Maggie e Glenn.
−Ele! Maggie decide e Glenn apenas concorda.
−Rick? Hershel o encara, ele nega com a cabeça e ninguém discute – Alice, quero que faça parte disso.
−Obrigada Hershel, mas acho que não é boa ideia! Eu não quero criar problemas e sou muito impaciente para isso, me dou conta.
−Concordo com o Hershel Alice, você deu a ideia de dragar água do rio, trouxe a prótese para meu pai e acaba de criar um conselho, tem boas ideias e não tem medo de dizer ou rebater o que quer que seja!
−Isso não tem mesmo! Daryl resmunga, recebe uma careta, ele bufa de mal humor.
−Pode ser! Eu respondo – Mas depois não reclamem.
As pessoas conversam mais um pouco, marcam uma reunião para o dia seguinte, e se dispersam, eu então saio sozinha para o pátio, caminho distraída e sigo até a cerca, passo para o lado de fora, está tudo limpo de zumbi, estou com minha faca e só quero mesmo ir até o rio, tem uma pequena ponte e só pretendia dar uma molhada nos pés, os três zumbis que se podia ver estavam muito longe, do lado direito, entretidos com o trabalho de alguns homens que iniciavam uma horta e a construção de um chiqueiro para Violet e seus irmãos.
Quando chego na ponte olho em direção a mata, na mesma direção que caminhei quando fui para o acampamento, estávamos tão perto da segurança da prisão, se tivéssemos pensado nisso todos poderiam estar vivos.
Um zumbi caminha entre as folhas um pouco distante, eu forço a visão, ele não está se aproximando, caminha em outra direção, nem mesmo me vê, mas algo nele me chama atenção, caminho mais um pouco, conheço aquela camisa xadrez azul que agora está suja e rasgada.
−Chase! Eu digo caminhando para ele, pulo uns galhos de árvores, e caminho em silencio, então chego a uma clareira, sinto pena, acho que Chase foi o único amigo que tive desde que o apocalipse começou, não posso deixar que fique por ai vagando, ele me percebe.
Quando se vira é triste, está com a barriga meio aberta, feridas pelo pescoço que pende um pouco para o lado direito, os olhos leitosos e fixos em mim, o andar incerto, meio trôpego, geme e ergue o braço, faltam alguns dedos na mão.
É uma imagem inesquecível, diferente de quando se vê um zumbi qualquer, é a primeira vez que estou diante de algo assim, todos os zumbis que topei no meu caminho eram apenas figuras míticas, vindas de um filme de terror, nada além disso, mas isso é diferente, eu conheci o homem que vivia ali dentro.
−Eu disse que seguir Cooper cegamente te levaria a isso! Digo a ele que caminhava em minha direção, está distante ainda, eu o espero – Mas você não podia se rebelar, você estava apaixonado por ela não é? Eu sei que sim, por isso seguia Cooper, para ficar perto dela, Emma está morta agora, todos estão, ela era linda não é? Perfeita, doce e delicada, sinto muito! Eu seco uma lágrima – Não consegui evitar, não pude salvar nenhum deles, nem você, Ethan, ninguém, apenas eu, mais nada! Dou uns passos para trás quando ele se aproxima demais, eu sei que não é ele, que não está me ouvindo, que sua atenção é para minha carne e não palavras – Sou mesmo uma Hecatombe como costumava dizer!
Mais gemidos me chamam atenção, zumbis vindo da floresta, é hora de ir, antes que me alcancem, dou um passo em direção a Chase, aperto a faca na minha mão e o encaro.
−Sinto muito! Eu o acerto, prefiro a testa, ele cai com minha faca presa a ele, eu a puxo de volta com dificuldade.
−Você é uma grande imbecil! A voz de Daryl ecoa e me viro ele caminha com a besta em punho, abaixa quando chega perto de mim – Idiota, o que tem na cabeça?
−Vai para o inferno! Eu grito irritada, ele parece que não entende que eu sei me virar – E chega de gritar comigo!
−Aquela coisa está certa! Ele aponta o corpo de Chase no chão – Hecatombe te define muito bem!
−E você é um grosso! Eu caminho até ficar diante dele, nos encaramos um instante.
−Odeio ficar por ai te seguindo evitando que se mate, odeio o quanto é teimosa e irritante!
−Não pedi que me seguisse, não sou seu problema, não sou problema de ninguém, e eu odeio você, o quanto me tira do sério, odeio! Eu grito
−Para de gritar! Ele pede, mas não registro, ele me deixa furiosa.
−Odeio, ouviu, estou cansada de fazer tudo que me mandam.
−Não grita sua maluca! Ele diz mais uma vez, olhando para mim e depois para os lados – Vamos! Ele pega meu braço eu me solto furiosa.
−Eu decido quando e onde eu vou, não você, nem ninguém!
−Sua idiota...
−Eu sei! Eu grito de novo – Eu sei que sou uma idiota, mas ele era meu amigo, não podia deixar...
−Vamos! Ele me puxa mais uma vez, de novo me solto e então quando me dou conta estou em seus braços e ele está invadindo minha boca com a sua, me beija de um modo feroz, sinto sua língua em contato com a minha, meu coração saltava fora do ritmo, minhas mãos desobedecem minhas ordens e mergulham em seus cabelos quando ele me aperta mais, colando meu corpo ao dele, as mãos de Daryl se espalmam em minhas costas e minha respiração acelera, nunca senti nada igual, é completamente poderoso, me domina por inteiro.
Então ele me afasta, não sei quanto isso durou, eu demoro a me dar conta de tudo, pisco tentando recuperar meu auto controle.
−Eu sei que não devia, mas estava fora de si! Ele diz.
−Me beijou apenas para... para me conter?
Ele me olha, seu olhar é impenetrável, não sei o que se passa com ele, Daryl não responde e me sinto magoada de um modo que ele jamais vai entender e nunca vou deixar que ele descubra.
−Conseguiu! Ele me olha sem entender – Me conteve! Eu passo em sua frente quando dois zumbis já surgiam na clareira, depois do escândalo que fiz é possível que muitos apareçam, caminho de volta para prisão, nada mais que dois minutos de caminhada, passo pela primeira grade e seguro para ele passar, ia começar a fechar, ele afasta minha mão, sinto como se fosse um choque elétrico passar por meu corpo quando nos tocamos.
−Eu... eu fecho! Ele fica confuso também, eu sinto.
Sigo para o outro, abro e passo, espero que passe e de novo ele evita que eu feche.
−Afinal temos baterias ou não? Eu pergunto e Daryl para diante de mim.
−Como disse?
−Baterias para a lanterna, temos ou não?
−Sim, desde que use com responsabilidade! Ele me responde atordoado.
−Já vi que vou ficar sem baterias! Recomeço a andar, tropeço em uma pedra escondida na grama – Cassete! Daryl explode numa gargalhada que a princípio me irrita e depois me faz rir – Para de rir de mim seu idiota!
−Hecatombe! Ele diz ainda rindo.
Não sei o que está acontecendo comigo, não sei o que está acontecendo com ele e muito menos onde isso vai nos levar, mas me faz sentir viva e isso num mundo de mortos que caminham, é um luxo do qual não vou abrir mão.
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