Caminhando entre os mortos

57 Capítulo 57 - Queimando o passado


Notas iniciais
Olá pessoas, me desculpem ter demorado, mas é que de fim de semana é complicado para mim, casa sempre cheia! Espero que gostem.

Pov – Daryl

Acho que nunca me senti tão ligado a ela, deixar que saiba quem afinal eu sou e como me sinto nos aproximou, chorar, apenas deixar acontecer, as lágrimas, a dor, todas coisas que sempre escondi deixei que viessem à tona, e não teria feito não fosse ela, só diante de Alice eu poderia me mostrar por inteiro pela primeira vez, desde... Desde sempre.

Agora as lágrimas se foram, me sinto de algum modo leve e inteiro, consciente das minhas perdas, triste por elas, mas sem culpa, sem dor e principalmente com vontade de caminhar para frente.

Estamos abraçados na frente da pequena casa que ainda é a recordação do meu passado, mas agora acho que posso aceitar esse passado.

─Desculpe por esse momento insano!

─Este momento? Ela sorri como só Alice pode sorrir nesses momentos – Anda insano a alguns dias!

─Então me desculpe por andar insano esse dias.

─Nem pensar! Ela me abraça – Adoro isso, detesto rotina, adorei que simplesmente enlouqueceu um pouco, acho que foi bom para você!

─Isso por que é maluca! Eu brinco, caminhamos para varanda, ela se senta.

─Ainda não acabei de beber, pega lá dentro a bebida!

Faço o que ela quer, estamos tranquilos, por alguma razão não temos muitos zumbis e apenas nos sentamos.

Alice dá uns goles na bebida, está sorrindo, é um sorriso melancólico, um tanto marcado por nossas perdas, é mais uma tentativa de se sentir feliz do que realmente um sorriso de felicidade.

─Está anoitecendo! Eu digo brincando com minha faca, ela olha para o céu.

─Temos teto! Ela diz.

─Como se sente, não está passando mal?

─Não, agora entendo porque Ethan e Chase... Porque Bob se entregava, acho que queria me sentir assim o tempo todo.

─É uma bêbada feliz! Eu brinco com ela que me sorri.

─Já você é um cretino quando bebe! Alice. Sempre a sinceridade de Alice.

─Eu fico um chato quando bebo! Admito, sempre foi assim, fazia tempo que não me dava a chance de simplesmente beber e extravasar.

─Me conta! Ela me pede, olho um instante para ela, depois fixo meus olhos na faca e nas lascas de madeira que retiro do piso enquanto passo minha faca me decidindo se ela ainda vai gostar de mim ou não – Chega de guardar, quero saber afinal quem você era, nunca me importou, mas acho que faz diferença para você!

Ela está certa, faz diferença para mim, quero dizer quem eu era, nunca disse antes, ninguém nunca soube, nunca quis saber, mas sempre me senti inferior, e agora que o apocalipse nos igualou quero contar.

─Merle tinha um traficante, um desses amigos dele – Começo a contar, me deixar ser visto – Era uma manhã qualquer e estávamos na casa dele, bebendo e assistindo desenho, Merle era difícil, nunca se controlava, começou a rir e fazer piada com o programa, os dois brigaram, era o desenho favorito dos filhos do traficante, dei um soco no cara e ele me apontou uma arma, fiquei ali com uma arma na cabeça, todo mundo gritando – Olho para ela, busco algum tipo de olhar de recriminação, é apenas minha Alice, sem julgamento me ouvindo atenta – Achei que iria morrer.

─Que bela encrenca! Ela sorri – Como saiu dessa?

─Ele me deu um soco eu vomitei e os dois começaram a rir, se esqueceram! Fico mudo um instante, ela é paciente, está silenciosa, ouvindo e me dando espaço e tempo – Quer saber o que eu era, eu era só o cara que seguia o Merle, que fazia o que ele queria, eu era um nada, só um caipira imbecil.

─Isso você ainda é! Ela diz com um sorriso largo – É meu caipira imbecil!

─Acho que sou! Sorrio para ela.

─Muito bom! Ela diz – Sente falta dele? Me pergunta e não respondo, não tenho certeza sobre isso, às vezes sim, mas não gostava de quem me tornava ao lado dele, então acho que não, sinto falta da pessoa, do que os laços de sangue representam, mas não de nós dois juntos.

─Sinto falta da Emma, do modo como estava sempre me recriminando, das coisas que queria transformar em mim! Ela sorri – Ela se foi, e então achei uma nova família, achei que ficaria tudo bem... – A voz de Alice embarga – Achei que tomaria com a Beth seu primeiro porre, que Carl iria crescer e que as coisas estariam bem, que nós dois teríamos uma vida tranquila cheia de brigas, com você me chamando de idiota e eu te chamando de troglodita! Nos olhamos profundamente, ela chora agora – Acho que tem razão quando me chama de idiota! Ela toma mais um gole, busca algum controle.

─Era assim que devia ser! Digo a ela, ainda brincando com a faca, tentando não ir tão fundo, mas agora é tarde.

─Eu não quero mudar! Ela me diz – Desculpe, as coisas que me disse... não é como se não me importasse, não jogo a sujeira para debaixo do tapete, se parece que não me importo que faço disso uma brincadeira está errado, mas eu luto, luto desesperadamente para manter quem eu era, a pessoa que eu era entende?

─Eu sei, não leve minhas palavras à sério, só queria te magoar.

─Eu sinto, sofro, mas se me entregar, se não sorrir e não me encher de vida então não faz sentido continuar, sou movida a esperança e riso, de outro modo eu não posso, você diz que não tenho limites e está certo, eu não tenho, não quero ter, não sou a riquinha mimada que queria chamar atenção...

─Alice...

─Espera! Ela me pede, só quero me desculpar mais uma vez, por ter magoado a única pessoa que tenho – Sei que não quis dizer nada daquilo, mas não pense que nunca pensei sobre isso, eu pensei e cheguei a conclusão que se pudesse fazer diferente eu não faria, busquei me espaço, minha verdade e não era aquela, não era o luxo dos campos de golfe e porcelana, era só ter alguém como você para dividir a vida, ainda não gosto das horas, ainda acho as horas longa e entediantes, ainda busco os minutos perfeitos e Daryl, você é meu minuto perfeito, então eu não me arrependo.

─Nem deve! Ela sorri me olha com toda aquela angustia no peito, sou seu minuto perfeito e isso é o bastante para mim, é mais que isso é tudo que me importa.

─Talvez eu não esteja pronta para esse mundo.

─Claro que está.

─Não como você, parece que foi feito para como as coisas estão agora.

─É como eu digo, sempre vivi desse jeito, com as coisas ficando feias, cresci num lugar como esse! Aponto com o olhar a casa e tudo que ela ainda representa para mim.

─Mas você saiu disso! Ela diz convicta.

─Não saí! Rebato.

─Saiu sim!

─Acho que vai ter que me lembrar disso às vezes! Eu peço a ela, para o caso de ficar insano e culpado de novo.

─Não, você não depende de ninguém para nada, talvez um dia eu morra.

─Para com isso! Eu não gosto de pensar nisso, acho que não poderia seguir em frente sem ela.

─Sabe que pode acontecer e então será o último sobrevivente, o último homem sobre a terra! Ela me olha firme – Você já é, então apenas salve quem você é agora, não quem você era, aquele cara não existe mais, isso é bom, verdadeiro, apenas vá em frente!

─Alice...

─Se acontecer... Se me perder de um jeito definitivo então apenas vá em frente, mesmo que sinta minha falta, lugares como esse – Agora ela aponta a casa com o olhar — Precisa esquecer!

─E se não der?

─Precisa, ou vai matar você! Ela me olha, tem fibra, coragem, é a mulher mais firme que já vi – Vai matar você aqui! Ela aponta o coração, fico pensativo.

─Amo você, mas se for preciso apenas siga em frente.

─É mais do que isso! Tento dizer a ela, depois desisto, Alice também é forte e se um dia ela me perder em definitivo é o que quero que faça, que siga em frente e que consiga – Acho que devemos entrar.

A conversa agora tem um peso que não estou pronto, não quero falar de perder, chega de perder.

Me levanto e ela me olha, seus olhos brilham diante de alguma ideia do tipo que só a falta de limites de Alice podem produzir.

─Devíamos atear fogo na casa!

Ela está certa, pro inferno quem eu era, pro inferno meu passado, eu saí dessa merda e está na hora dessa merda sair de mim.

─Vamos precisar de mais bebida! Eu digo a ela e então com um lindo sorriso de vitória Alice se põe de pé, me beija feliz, e entramos os dois.

Pegamos as garrafas, os potes e toda bebida que encontramos, como dois adolescentes inconsequentes espalhamos pela casa, vamos queimar, queimar tudo aquilo e caminhar para frente, ainda entre os mortos, mas agora para um novo lugar.

Deixamos tudo molhado, pego um maço de notas, sabia que serviriam para alguma coisa, entrego a ela os fósforos.

─Quer fazer as honras?

─Quero! Ela está feliz como nunca, acende o fósforo, o maço de dinheiro queima, atiro na casa e logo as labaredas crescem queimando tudo que um dia me fez sofrer, meu coração está leve e sinto como se pudesse voar, me livrei do passado e do julgamento de um mundo de erros que não posso corrigir, evitar, ateei fogo nos juízes e seus julgamentos.

Nos olhamos, e juntos mandamos o passado para o inferno.

─Vamos maluca! Eu digo depois de assistirmos a casa queimar por um momento, a fumaça preta subindo e levando embora tudo de ruim.

Damos as costas e apenas seguimos em frente sozinhos, no meio do caos e dos mortos, numa noite escura e vazia e ainda assim me sinto inteiro pela primeira vez, é bom tê-la comigo, mais do que isso, é perfeito.

─Precisamos de roupas! Ela me diz e eu olho para ela enquanto caminhamos atentos por que foi simbólico atear fogo em tudo, mas pode também chamar atenção dos zumbis, mas ainda assim me sinto bem – Sim senhor, você fica ai todo estiloso com seu colete de asas de anjo, mas preciso de uma blusa de frio, e depois vai me ensinar a caçar, a rastrear e a usar a besta.

─Sempre detestou caçar, achava chato não é, andar por aí em silencio?

─Queimamos o passado se lembra, foi a algumas horas, agora é uma nova vida, quero ser uma caçadora e não depender de você.

─Gosto que dependa de mim!

─Eu sei, mas chega disso, já me tem em suas mãos, não precisa disso!

─Tenho é?

─Sim senhor Dixon, já me tem, mas agora vamos, preciso de um cigarro!

─Deixa de ser ridícula, você não fuma!

─Eu sei, mas é bom ter um objetivo, vamos achar um cigarro, uma blusa e um lugar para dormirmos porque acho que vou ficar de ressaca assim que ficar sóbria.

─Avisei!

─Adora tripudiar, isso não é legal!

─Não posso evitar, é mais forte que eu e faria o mesmo!

─Pode apostar nisso! Rimos os dois, pegamos uma pequena estrada, o dia amanhecia e finalmente uma casa, sempre prefiro a floresta, mas acho que Alice merece uma cama e umas horas de sono.

Detesto invadir casas, é sempre um perigo desconhecido, é sempre uma surpresa, mas afinal não é assim todo nosso mundo?

Dou uma olhada pelas janelas, bato na porta um instante, esperamos com a impaciente Alice resmungando, então como nada parece se mover abro a porta com um chute, ela sorri.

─É tão delica esse seu jeito machão!

─Cala boca Alice!

─Tá! Ela diz com seu machado a postos, caminhamos pelos ambientes, nada no lugar, vou fechando janelas, trancando portas e a parte de baixo está limpa, subimos, os quartos também estão vazios, é um alivio, bem que merecíamos um pouco de paz.

─Preciso de um banho! Ela me diz, faço que sim e ela segue para o quarto enquanto dou uma volta pela casa protegendo as portas e chego a cozinha, nada de comida, apenas uma geladeira aberta com potes vazios, recolho duas facas boas e sigo ao encontro de Alice, ela remexia as gavetas.

─A mulher tinha péssimo gosto! Me diz atirando tudo para fora das gavetas – Mas afinal tinha uma boa blusa de frio e o cara já era mais estilo Daryl Dixon, achei roupas para você! Ela me joga umas peças – Vem vamos tomar um banho!

─Juntos! Reclamo enquanto ela me puxa para o banheiro – Quem vai garantir a segurança?

─Seja um homem de fé ao menos uma vez! Me diz me empurrando para o chuveiro – Agora reze para sair água!

Ela gira a torneira e a água escorre, Alice dá pulinhos, é minha e nem acredito, então ela começa a me arrancar as roupas, já estamos no inferno então que ele queime!

Faço o mesmo, arranco as roupas de Alice, do nada tudo fica urgente, intenso e apenas deixamos as coisas acontecerem, a água está gelada, mas isso não apaga o fogo que me queima por dentro e por fora.

─Te amo! Eu digo a ela enquanto trocamos beijos e caricias.

─E me acha uma delícia? Sempre a minha Alice, me arranca um sorriso.

─Nesse momento acho o que quiser! Digo sem me afastar dela, nem me lembro que o mundo acabou, nos entregamos.

─Eu te acho uma delícia! Ela diz me puxando para ela.

Fazemos amor sob a água gelada, é intenso, de um modo novo, é sempre novo com ela, depois vamos para cama, parece que aquele fogo nunca mais vai apagar, sussurramos palavras desconexas, trocamos caricias e olhares, beijos intensos e cheios de promessas, não importa quanto tempo passe nunca mais vou esquecer esse dia.

Passamos toda manhã assim, entregues aos nossos instintos, deixamos que nossos corpos nos guiassem e isso torna tudo perfeito.

Depois ficamos deitados, os corpos ainda colados, algo parecido com paz me invade, finalmente eu não tenho nada que me afaste dela, nada que me faça temer.

─Preciso de uma garota! Ela me faz rir.

─E eu que achei que estava arrasando!

─Dixon, você foi incrível! Ela suspira, se vira e fica sobre mim – Eu só queria contar a uma garota sobre isso, achei... Porra foi perfeito! Ela se deita em meu peito – Admite, eu sou uma delícia, se não fosse esses cabeças ocas de merda podíamos bem passar o resto da vida aqui!

─Podíamos, mas...

─Não diz, é muito estraga prazer, já vem com seu balde de agua fria!

─Nem sabe o que ia dizer! Reclamo.

─Não precisa! Ela me beija – Fica de boquinha fechada amor! Ela ri, me beija e sim, eu queria ficar ali para sempre, mas não podemos, talvez um dia, não hoje – Certo, já está ai com cara de preocupação, vamos vestir roupas e procurar comida, o povo dessa casa podia ter deixado algo para a gente, é uma gente que definitivamente não incentiva o romance.

─E eu que tenho que ficar de boca fechada?

─Não amor, nem sempre! Ela fica de pé, despreocupada com sua nudez, vai caçando as roupas – Tem umas coisinhas que faz com a boca que vale a pena...

─Cala boca Alice!

─Você é tão tímido! Me visto, talvez seja mesmo.

Temos uma tarde inteira pela frente, luz suficiente para caçarmos um pouco, descemos de mãos dadas, beijo Alice mais uma vez antes de deixarmos a casa, pegamos a floresta, vamos caminhando um do lado do outro, quero ter certeza que temos alguma segurança antes de começar com as aulas.

─Podemos começar com as aulas? A impaciente Alice.

─Podemos.

─Ótimo, hoje eu providencio o jantar!

─Calma ai, não pense que é assim fácil.

─Não pense que vai me enrolar, se acha o caçador! Ela diz arrumando o machado na cintura – Vai Daryl me dá essa besta!

Passo a arma para ela, faço isso com um sorriso, é uma arma pesada e difícil de carregar, ela faz uma careta quando ergue a arma, tenta fazer mira, sem dizer nada arrumo a arma, corrijo sua postura.

─Agora fica atenta aos sons, note as coisas a sua volta, os movimentos, não fique fechada ao que está apenas visível.

─Tá parecendo um daqueles gurus do velho mundo! Ela ri, me irrita, sempre me irrita.

─Quer aprender ou não? Acabou meu humor.

─Não quero, mas preciso, então vai me ensina, mas seja prático.

─Prático? Eu bufo – Certo, quando vir um bicho dispara a porra da flecha e reza para acertar!

─É um troglodita grosseirão mesmo, sabe que adoro salvar a floresta, é difícil para mim ir contra minhas convicções! Nunca vi tanto cinismo reunido, ela faz aquela cara de pobre coitada que sempre me deixa arrependido mesmo sabendo que está blefando como se a vida fosse uma mão de pôquer.

─Vamos recomeçar Alice! Ela sorri me passando a besta – Vou te ensinar a olhar o ambiente reconhecer como tudo a sua volta pode contar uma história.

─Está bem, vou prestar toda atenção e aprender tudo, juro que não vou brincar sobre isso, quer dizer, eu prometo, jurar é muito definitivo para mim, não gosto de nada definitivo, a não ser você!

─Você apela Alice! Eu digo um tanto orgulho, é assim para mim também, Alice é a única coisa definitiva na minha vida, ou é ela ou não é nada.

Notas finais
Espero ansiosa pelos comentários! Obrigada, mais tarde posto nas outras fics. Beijos