Caminhando entre os mortos

44 Capítulo 44 - Desabafo


Notas iniciais
Olá pessoas queridas, estou muito feliz, quero agradecer as duas recomendações que recebi, Kate e Cabot, fiquei tão contente, não esperava mais recomendações e foi uma surpresa me deixou muito emocionada, é sempre emocionante saber que alguém se deu ao trabalho de recomendar a história, então só o que posso dizer é obrigada pelo carinho. Kate, obrigada! Cabot, obrigada!

Pov – Alice

−Esse era definitivamente o último lugar em que achei que a encontraria! Daryl me diz entrando em nossa cela.

−Moramos aqui, onde mais poderia estar? Digo triste, ele nota.

−Não sei, é quase hora do almoço, pensei que estaria por ai, zanzando pela prisão.

Eu suspiro, estou fugindo da conversa com Bob, Daryl sabe disso, e está tentando me obrigar a dizer, desde ontem quando chegamos estou meio reclusa, literalmente adiando o momento de me deparar com a verdade.

A lanterna está em minha mão, estou acendendo e apagando me distraindo com o clique irritante que faz, tempos difíceis, eu me recordo, quando ainda não tinha Daryl e já tinha perdido tudo.

−Está fugindo do seu amigo? Daryl se senta do meu lado, ficamos os dois olhando para parede a nossa frente, continuo com meu clique perturbador – Acho que odeio essa lanterna, ela me irrita.

−Fugir não é bem a palavra! Tento me defender — Eu amo minha lanterna, se te irrita o problema é seu.

−Qual é a palavra então? Ele me pergunta – Não mora sozinha, o problema não é só meu se me irrito com essa coisa insuportável que tem com esse monte de metal.

−Eu sei que tenho que falar com ele está bem, não é fácil – Aviso de má vontade — Desculpe se é obrigado a dividir sua casa com minha lanterna, mas ela vai onde eu for e não é um monte de metal.

−Eu sei que é difícil, que vai trazer recordações, mas talvez no fundo te faça bem falar e não estou mandando sua lanterna embora, parece louca!

−Não sei realmente como posso ter essa conversa com Bob e ainda me sentir melhor! Aviso parando de fazer o barulho e agora apontando a luz da lanterna para Daryl – Não poderia mandar minha lanterna embora, e eu não sou louca coisa nenhuma, ela é muito útil!

−Desabafar é bom, além de saber o que afinal aconteceu no acampamento – Daryl empurra a lanterna para tirar a luz de seu rosto, miro a parede de má vontade, nem sei por que está acesa já que é dia – Se servir para matar zumbi então é útil, de outro modo não serve para nada.

−Eu não sei se quero mesmo saber o que aconteceu, me dá medo – Apago finalmente a lanterna e a envolvo, até ter um lugar nessa prisão a lanterna era como um porto seguro – Está maluco, acha que vou estragar minha lanterna naqueles cabeças ocas?

−Fugir é que não vai servir de nada, seja corajosa e enfrente logo a verdade! Ele me diz agora me puxando para mais perto dele, me encosto em seu ombro – Realmente espero que num momento de necessidade você mate o zumbi com a droga da lanterna e fique viva, posso te dar outra lanterna.

−Cansei de conversar! Eu aviso fechando os olhos.

−Com fome? Ele me pergunta, passa o braço por meu ombro, eu olho para ele.

−Vou comer e falar com o Bob, preciso saber como ele está.

Não posso fugir para sempre e sei que ele tem algo a me contar, quase recusou se juntar ao grupo, isso deve significar alguma coisa.

−Sasha me disse que ele dormiu até a pouco, depois comeu e ficou na cela, acho que está cansado.

−Imagino que sim, deve estar sozinho desde que nos separamos, imagina algo assim, dias e dias sozinho no meio do apocalipse?

−Não, eu não sou o tipo que pode passar por isso sozinho, tenho que ter uma referência, um lugar para onde voltar.

−Nossa se lembra quando fiquei sozinha, meu Deus foi um tormento e foi só uma noite!

−Detesto me lembrar disso, eu ferido achando que estava morta, querendo ir atrás de você e me chega toda contentinha naquela moto estupida.

−Eu estava feliz de estar voltando para perto de você e diz que estava toda contentinha, que ingrato!

−Ridícula, vamos comer de uma vez, depois vou com você atrás do seu novo amigo.

−Velho! Eu o lembro, Daryl parece não entender, me olha confuso – Velho amigo, não novo, eu o conheço a muito tempo.

−Já entendi! Daryl resmunga – Não precisa ficar se explicando, apenas vamos logo resolver isso e você fica livre dele.

−Livre dele? Eu questiono.

−Do seu velho amigo! Ele faz uma careta.

−Não quero me livrar do Bob, que ideia! Ele me olha torto, já vi que isso vai ser um problema, mas se tem uma coisa que não abro mão são das minhas convicções e não dou as costas aos amigos só porque meu amor tem ciúme.

Comemos juntos, conversando um pouco sobre as coisas da prisão, depois me levanto, Daryl fica atento, acho que tem um pouco de receio de que eu queira ficar sozinha com Bob, está enganado sobre isso, acho que não quero estar sem ele quando tudo voltar à tona.

−Vem comigo? Eu convido e ele prontamente se levanta, pega minha mão estendida, e seguimos para o bloco D, entramos e encontro Bob no refeitório, ele folheava um livro, estava longe de parecer concentrado, o velho Bob de sempre, me aproximo e ele sorri.

O sorriso é triste e cansado, estamos todos cansados, penso ao me sentar com ele, Daryl acena com um movimento leve de cabeça, frio e distante como sempre costuma ser com desconhecidos.

−Não mentiu quando disse que aqui era seguro, fiquei impressionado.

−Eu sei, descansou, comeu?

−Como acho que nunca fiz desde que o apocalipse chegou, as grades são uma segurança que não esperava encontrar nunca mais.

−Me senti assim quando cheguei.

Ficamos em silencio, um silêncio constrangedor, demora uns minutos para eu ter coragem de olhar para Bob, ele respira fundo, desvia o olhar.

−Tínhamos saído aquele dia se lembra? Me pergunta e confirmo com a cabeça – Foi um dia bom, achamos muita coisa, estávamos mesmo felizes, você nos salvou de uma pequena horda, lembra disso Alice, de ter avisado o grupo, distraído os zumbis e por isso conseguimos?

−Lembro sim, Bob, foi uma manhã produtiva, se me dissessem que terminaria... – Me calo, odiando ter que voltar àquela noite maldita.

−Eu sei, era sua noite de vigia, mas trocamos a guarda por que Chase achou que merecia.

−Foi, ele me substituiu.

−A tarde foi longa e barulhenta, seu cunhado era péssimo líder, mas nem precisamos comentar isso, dividimos essa impressão muitas vezes naquele tempo.

−Cooper, não sei, ele era um idiota, apenas isso.

−O maior de todos, ou quase isso, talvez eu seja o maior deles.

−Bob...

−Espera Alice, deixa eu terminar, depois me contradiz se ainda achar que mereço.

A conversa toma um rumo que não gosto muito, me assusta pensar no que ele quer me contar, mas fico em silêncio esperando.

−Segue então, me conta o que afinal quer me dizer.

−A guarda ficou com Ethan e Chase, estávamos felizes e quando a noite caiu me reuni a eles, tínhamos duas garrafas de rum, estávamos decididos a seca-las no jogo de pôquer do dia seguinte.

Droga, não sei se quero ouvir, na verdade não tenho a menor ideia se quero saber o que aconteceu.

−Vocês beberam?

−Era para ser só uma dose, nada mais, estávamos conversando, Chase e aquela paixão pela Emma, começamos a falar sobre o assunto, Ethan sempre dizendo que devíamos tomar o acampamento, nos entretemos na conversa, e bebemos demais.

Me lembro de que quando tudo começou vi Chase caído, não tinha sido mordido, não entendi porque não avisou do ataque, mas agora faz sentido.

−Ficaram bêbados demais?

−Ethan sim, foi se deitar meio cambaleante, disse que só queria descansar um pouco, fiquei com o Chase e depois ele me pediu para avisar o Ethan que não estava bem, fiz o que me pediu, Ethan custou a acordar, disse que iria substituir o amigo e me pediu para chamar você, eu... Sinto muito Alice, me deitei, cai, não sei bem, apaguei, acordei um tempo depois com a confusão, vi Ethan lutando, as pessoas sendo devoradas eu não entendi o que estava acontecendo, apenas corri para longe, quando me dei conta que não havia nada a ser feito, ainda levei comigo George e Brenda, mas ela estava com uma mordida no braço, ele se perdeu no caminho e quando me dei conta estava mais uma vez sozinho. Encontrei o corpo de George e eu mesmo tive que atirar em Brenda, mas foi ela que me pediu.

Fico em silencio um instante, tentando digerir o que acabo de ouvir, pensando o quanto de culpa Bob carrega sobre isso, não sei dizer, provavelmente nenhuma.

−Consegui tirar Emma e as crianças de lá, Cooper nos encontrou logo depois, vi Ethan cair, Chase já estava morto quando sai da barraca, ou apenas bêbado, não deu tempo de me aproximar, encontrei ele como zumbi depois, acabei com ele, foi dolorido fazer isso.

Me dou conta que estou apertando firme a mão de Daryl tão forte que os nós dos meus dedos estão brancos, relaxo um pouco, respiro fundo, Bob mantem a cabeça baixa, não me encara e simplesmente odeio isso, detesto toda forma de covardia, principalmente agora que o mundo acabou e dependemos da nossa coragem.

−Depois, foi um atrás do outro, não vou contar, não gosto de me lembrar e não acho que seja importante para você saber – Me arrumo na cadeira, Daryl me faz um carinho nas costas me dá força – Olhe para mim Bob! Exijo.

−Desculpe!

−Eles morreram todos, Cassie foi a última, eu mesma tive que... Não importa, está feito, Ethan e Chase falharam, era responsabilidade deles, queria que fosse sua culpa, seria mais fácil, eu podia te dar um soco, quebrar seu nariz, gritar, chorar e quem sabe me sentisse melhor, mas a culpa não foi sua, essa porra de apocalipse nos pegou, destruiu tudo é uma merda, mas é isso.

Nem percebo que estou com os olhos marejados e a voz embargada.

−Me culpo desde então, se tivesse te acordado, você teria visto os zumbis, chamado os homens, talvez...

−Isso nunca vamos saber, apenas fique bem eu estou superando, não pense mais nisso, sobreviveu, por alguma razão aceite, se possível agradeça.

−Agradecer? Ele me encara abatido – Já pode fazer isso?

Olho para Daryl, o motivo de me levantar todas as manhãs, sorrir e seguir em frente, sim, já sou capaz de agradecer, estou reconstruindo.

−Agradeço a chance de recomeçar, de lutar, eu me casei Bob! Daryl me abraça em resposta, nos olhamos − Me dei essa chance, tenho pessoas que amo e quero preservar, pode conseguir o mesmo.

Me mexo quero me levantar e sair dali, seguir para longe dele e do passado, me aconchegar nos braços de Daryl e esquecer tudo isso.

−A bebida! Daryl diz e Bob me olha.

−Bob me desculpe, mas seu problema não pode ser um segredo aqui, somos mais que um grupo, aqui é diferente, somos uma família.

−Não se preocupem, eu não vou colocar vocês em risco, quero tentar, devo isso a você Alice.

−Se precisar de alguma coisa me avise! Eu me levanto e Daryl faz o mesmo, Bob continua ali, acena com a cabeça e me afasto em silêncio, o rosto de Cassie e seu momento de angustia antes de eu ter que pôr fim a tudo dança na minha mente, vamos direto para nossa casa me deito imediatamente.

Daryl se deita ao meu lado, me abraça carinhoso, sem precisar pedir me faz cafuné e só consegue que desabe em lágrimas.

−Calma! Me diz num tom gentil, chego a estranhar – É bom falar, superou isso não foi, sei que sim.

−Quando aconteceu, quando eu os perdi fiquei sozinha, tive que ser forte, mas agora é diferente, tenho você e fico com medo de desabar.

−Estou mesmo aqui, se acontecer vou te ajudar a ficar de pé mais uma vez, ficar de pé todas as vezes que for preciso, é minha mulher, te dei um anel.

Ele usa isso para me fazer sorrir, está tão gentil que me emociona, me faz sentir especial, só ele consegue isso.

−Me deu! Sorrimos um para o outro e minhas lágrimas diminuem – Não queria me lembrar daquele dia, acha que Bob é culpado?

−Acho, na verdade acho que ele e os homens que estavam de guarda, além do seu cunhado, mas já aconteceu, não adianta nada caçar culpados, não muda o que aconteceu.

−Não muda! Concordo com ele.

−Se sente melhor?

−Nem um pouco o rosto de Cassie não sai da minha mente.

−Pense nela Alice, se lembre, não precisa esquecer, simplesmente não precisa.

−Não fala de Merle, não quer se lembrar.

Ele continua mexendo em meus cabelos, fica uns minutos mudo, depois suspira e me faz chegar mais perto, apoio a cabeça em seu peito, as lágrimas ainda corriam.

−Tive o pior pai do mundo, viu as marcas, sabe do que estou falando.

−Sei! Digo sem olhar para ele, apenas seco minhas lágrimas.

−Minha mãe não era muito melhor e Merle era um arruaceiro que viva encrencado, quando estava em casa tentava cuidar de mim, não era muito bom nisso, além do mais eu era muito pequeno.

−Foi difícil não, fez você ser assim fechado não é?

−Sim, depois Merle simplesmente foi embora, me deixou e isso tornou tudo um inferno.

−Ele não quis te levar?

−Que diferença faz, cresci, me virei, aprendi, quando o apocalipse começou estávamos juntos de novo, mas nos separamos, conhece essa história, depois ele voltou, fez muito mal a minha nova família.

−Maggie e Glenn!

−E todos nós, nada disso teria acontecido não fosse por ele, mas depois ele foi atrás do tal governador se redimiu morrendo para me proteger, nos entendemos, parece estranho, mas quando encontrei meu irmão como um zumbi, quando eu mesmo tive que enfiar uma faca em sua cabeça, foi nosso acerto de contas, nosso reencontro, pude perdoar meu irmão, hoje eu superei isso.

−Pensa nele? Pergunto sabendo que o que ele está fazendo é grande, Daryl não se abre muito, me contar sobre isso é como um sinal, uma prova de que sou mesmo importante para ele.

−Sempre, agora de um modo diferente, sem magoas.

−Entendo isso, não tenho magoas, apenas medo.

−Não precisa, fez tudo que pode protegeu, se arriscou, não deixou ninguém para trás, não teve culpa, se entender mesmo isso vai poder se lembrar deles, fala sempre da sua irmã, porque com os pequenos é diferente?

−Falo, ela era adulta, fez as escolhas dela, meus sobrinhos não, e Cassie então que morreu em meus braços.

−Que bom que estava lá, que pode tornar aquele momento confortável para ela, eu estava com você Alice, vi como fez parecer que tudo estava bem.

−Queria que já fosse meu, teria sido mais fácil.

−Agora eu sou! Ele está me deixando zonza com tanto carinho.

−Toda vez que eu ficar triste vai ficar assim bonzinho me agradando e fazendo cafuné?

−Vou, mas não vá tornar isso um habito só para se dar bem! Eu acabo rindo, fecho os olhos, chorar cansa – Me ouviu chorando, na primeira noite?

−Sim, queria ter ido de consolar.

−Quando descobriu que me amava loucamente?

−Quando chegamos nesse assunto?

−Responde!

Ele me abraça e fica pensativo.

−Fiquei de olho em você quando saiu do bloco de cela no dia seguinte, mas brigamos feito loucos logo de cara.

−Porque você é ridículo!

−E você maluca! Pronto, já me sinto melhor, beijo Daryl, chega de dor e sofrimento, basta os mortos caminhando entre nós, conquistei Daryl Dixon, ele é meu, com mortos ou sem mortos eu vou ser feliz.

−Sabe, acho que está certo, posso pensar neles, sentir saudades e me lembrar das coisas boas.

−Pode!

−Posso até chorar quando sentir vontade.

−Sempre, vou estar com você.

−E o Bob não é culpado, vou ajudar meu amigo a superar tudo isso, quem sabe aqui sem bebida ele não se recupera?

−Menos! Ele me diz sério – Não gosto muito de pensar em você muito perto desse cara.

−Você me ama demais me sufoca, preciso de espaço! Ele me olha preocupado, acabo rindo – Amo você, entende isso?

−Entende que não quero você para cima e para baixo com esse Bob?

−É muito ciúme! Digo rindo e ele fecha a cara, se vira de costas para mim e preciso me controlar para não rir, respiro fundo, uso meu tom mais doce.

−Daryl? Ele não responde – Amor!

−O que? Ele se vira meio com cara de bobo, gosto disso, acho que posso me aproveitar disso, chamar Daryl de amor e deixar ele logo de bem.

−Amor! Eu digo de novo – Quer parar de ser bobo e ficar comigo aqui, eu te amo e não quero ninguém!

−Ótimo! Ele me abraça de novo – Amor é?

−Gostou? Pergunto – Vou usar isso a meu favor!

−Traíra! Ele brinca me beijando – Nada de ajudar seu amiguinho, arrume alguém para fazer isso por você!

Nem me dou ao trabalho de brigar, no momento estou cansada e abatida, quero apenas ficar nos braços dele, sem pensar em nada que me deixe triste e me faça chorar, detesto chorar, não nasci para ser infeliz, não mesmo.

Foi bom desabafar, falar sobre tudo, sei que fez bem a Bob, e Daryl também, tenho certeza que sim. Que seja um recomeço.

Notas finais
Gostaram? Espero que sim, vou fazer mais um capítulo e depois faço o bônus, em seguida entro com a nova temporada. Beijos