Caminhando entre os mortos

4 Capítulo 4 - Aventurando-se


Notas iniciais
Mais um era para ser só no sábado, mas ficou pronto então resolvi postar.

Pov- Alice

Me encolho na cama quando Daryl Dixon deixa o que agora parece ser meu novo quarto, ao menos por enquanto, não sei se sou mesmo bem vinda aqui, até quando vão me deixar ficar principalmente se acharem que não sirvo para nada como Daryl parece achar.

Mas ele está certo, fiz tudo errado e minha irmã está morta, Andy e Cassie também, não lutei o quanto podia por eles, fiquei feito uma idiota obedecendo os desmandos de Cooper e eles morreram.

Ainda escuto os pedidos desesperados de socorro de Andy, ainda vejo os olhos tristes de Cassie, ela me pedindo para fechar os olhos, morrendo diante de mim sem que pudesse fazer nada para evitar.

Engulo o choro, já chorei uma noite toda, já me entreguei ao desespero e agora preciso ficar de pé, ao menos até essa porcaria de apocalipse me pegar para sempre, assim como fez com minha família.

Quando vi os muros da prisão não pude deixar de pensar o quanto um lugar como esse teria sido maravilhoso para as crianças, quase posso ver Cassie e Andy caminhando pelo pátio na segurança de um lugar cercado por grades e gente forte.

Meu pensamento segue mais uma vez para Daryl, desde que o vi hoje pela manhã que me sinto estranha, ele é bonito, mas não é isso que me atrai nele, é algo em seu olhar, no modo como me olha, no modo como me desafia e me deixa confusa e desejando fazê-lo me admirar, queria muito que ele confiasse em mim, que me visse de modo diferente, mas só o que ele vê é a garota que deixou todos a sua volta morrerem, uma inútil.

Quando caminhava em direção a ele para agradecê-lo, o modo como me olhou, mesmo em meio a toda a minha tristeza senti meu coração disparar, bater descompassado, quase desisti de falar com ele, depois ele gritou comigo e isso me magoou muito mais do que devia.

E como se não bastasse ele está agora mesmo ao meu lado, eu tinha de ficar numa cela bem ao lado da dele, só para ficar assim, consciente de sua presença o tempo todo?

Me levanto, caminho de um lado para outro, preciso dar um jeito de ganhar a confiança das pessoas, não quero ser expulsa daqui, nem sei como seria ficar lá fora sozinha agora que não tenho mais ninguém.

As lágrimas me dominam mais uma vez, mas procuro evitar os soluços não quero que ele me ouça chorando de novo, sei que deve ter me ouvido na noite anterior, mas eu estava assustada demais, sozinha demais e triste demais para pensar em qualquer coisa que não fosse me entregar as lágrimas.

Me lembro do nosso acampamento, do último ataque que sofremos e em tudo que deixamos para trás quando fugimos, armas, suprimentos, agora tudo deve estar lá abandonado, se nenhum grupo encontrou o lugar eu posso ir até lá, e se der sorte trago o que tínhamos, e se conseguir o grupo vai confiar em mim e me deixar ficar. São muito “ses”, mas preciso arriscar.

Pelos meus cálculos posso ir e voltar antes do dia terminar, se morrer no caminho quem vai se importar, acho que nem mesmo eu me importaria realmente, mas se conseguir, se tiver uma chance de recomeçar entre essas pessoas, quem sabe tudo fique bem?

Preciso tentar, me controlo, seco meus olhos, prendo meus cabelos num rabo de cavalo e confiro se minha faca está bem presa, olho o pente da pistola, tudo certo, está pela metade, posso conseguir, não preciso lutar com zumbis, apenas fugir deles e sozinha isso não pode ser tão difícil.

Deixo a cela e caminho decidida, rezando para sair sem ser notada, não encontro nenhuma das pessoas que conheci, Daryl, Glenn, Maggie e Rick, só Beth que estava no refeitório ninando o bebê, nem acredito que eles tem um bebê, não pergunto nada, não sei de quem é aquela linda criança, nem mesmo paro para observá-la, ainda não me sinto pronta para estar tão perto de uma criança.

Do lado de fora tudo limpo um homem segurava uma arma próximo ao portão, ele parecia assustador de tão grande e forte.

−Oi! Eu tento sorrir e parecer natural – Sou Alice pode abrir para mim?

−Não sei não, não é seguro lá fora! Ele me diz como se eu não soubesse disso – Melhor perguntar para...

−Me disseram que aqui todos eram livres, achei que estava livre para sair se quisesse, como é seu nome?

−Tyreese, está certa sobre ser livre, se é o que quer – Tyreese me aponta as grades – Olhe saia por ali, abrimos aquele pequeno buraco nas duas cercas, vai ser menos barulhento e seguro, pode entrar de volta por ali, vai longe?

−Não! Eu respondo e caminho apressada antes que ele mude de ideia ou alguém apareça.

Passo rápido e uns minutos depois estou na floresta, paro um instante para me localizar, pego meu caminho.

Caminho bem rápido, prestando atenção em qualquer som a minha volta, a faca apertada na mão a ponto de sentir dor, depois de uma hora estou bem cansada, suando e com calor, a floresta é abafada.

Quando chego ao rio respiro aliviada, já me abaixava para beber água quando dois zumbis me notam, eles se viram e começam a caminhar em minha direção.

−Merda de mortos de fome! Eu resmungo seguindo a diante, o acampamento ficava no leito do rio e decido apenas seguir rápido não desvio o caminho os zumbis me seguem, mas logo se perdem de mim, são lentos demais.

Passo por um caminho íngreme, preciso pular uma arvore caída e me lembro de ter passado por ela nos tempos do acampamento, fico feliz, não devo estar muito longe.

Assim que passo uma perna por sobre o tronco e apoio o pé do outro lado sinto uma mão prender minha canela, reprimo um grito de pânico, puxo a perna, a mão a aperta mais oferecendo resistência, a faca felizmente está na minha mão me contorço toda para encontrar a cabeça da coisa e enfio a faca em seu olho do jeito mais desengonçado do mundo.

−Alice você é patética! Eu digo em voz alta, faço isso porque sou assim, vivi muito tempo sozinha e passei a falar comigo mesma em voz alta, no começo era só para ouvir minha própria voz de vez em quando, depois virou um hábito estúpido que já me fez passar por louca algumas vezes na vida, felizmente o mundo acabou e todo mundo que sobrou é meio louco.

Continuo meu caminho, e então depois de mais meia hora lá está ele, meu último acampamento, tudo está do mesmo jeito, as barracas ainda montadas, os corpos dilacerados, apenas restos mortais agora nos lugares que os vi cair, nada de zumbis, são como uma praga, eles vem devastam tudo e depois seguem em frente.

Vejo o corpo de Ethan caído, não restou muito, mas aquela boca quase sem carne ainda se mexe, eu o acerto com minha faca, é uma pena ver alguém como ele assim, olho em volta, ver todos assim, acho que mais gente conseguiu fugir e fico feliz com isso.

Pego mochilas e esvazio, depois começo o trabalho de organizar o que interessava, armas em uma, suprimentos em outra, remédios e roupas em uma terceira, e munição, tínhamos tido sorte e ali estavam elas, quase posso sorrir.

Recolho facas, algumas pistolas e uma das tais Ak qualquer coisa, está estava ao lado de Ethan, tínhamos alguns remédios também, coisa que eu mesma recolhi na minha última busca por suprimentos, deixo a barraca que ficava com as crianças estrategicamente por último, sabia que seria dolorido entrar lá.

−Vai Alice seja corajosa! Eu me incentivo parada diante da barraca, depois de tomar coragem eu entro, ainda sinto o cheiro de Cassie, meus olhos se enchem de lágrimas, recolho minhas coisas, uma mochila com algumas roupas e uma foto dos dois ainda pequenos, o último natal que passei com minha família antes de pegar a estrada e desapontar todos eles.

Então vejo o livro que Cassie lia avidamente quando estivemos ali juntas pela última vez, agora simplesmente não consigo controlar minhas lágrimas e choro por uns minutos, mas depois me recomponho, seco o rosto e deixo a barraca.

Sigo para o centro do acampamento onde juntei tudo que parecia importante para ser levado, e paro com cara de idiota quando me dou conta de que estou diante de cinco mochilas pesadas e um galão de combustível.

−Ótimo sua grande idiota agora como vai levar tudo isso para a prisão? Me pergunto com a mão na cintura.

−Eu também adoraria descobrir! A voz me faz estremecer, Daryl é claro, dou um pequeno pulo para trás, tropeço e caio feito uma imbecil, minha mão dentro do que restou da senhora Watts.

−Merda! Reclamo retirando minha mão agora gosmenta de dentro dela – Desculpe senhora Watts! Fico de pé me limpando constrangida e lá estão Daryl, Maggie, Glenn, uma mulher com uma espada nas costas e Tyreese, tento sorrir enquanto todos me olham, Glenn tinha uma cara de nojo de dar pena.

−O que você pensa que está fazendo sua grande idiota? Daryl me diz abaixando a besta que me apontava.

−Eu... Eu vim buscar... Esse era meu antigo acampamento, achei boa ideia vir buscar essas coisas, tem coisas bem úteis! Eu respondo.

−E porque saiu escondida? Ele está bem irritado, não sei se sou eu ou se ele é sempre assim, mas o fato é que não consigo não responder a altura.

−Você disse que eu não iria sair com seu precioso grupo de busca, fiz o meu próprio.

−Eu disse que não queria que saísse e foge pela janela feito uma adolescente idiota?

−Quer parar de gritar, está chamando todos os zumbis da região, se controla um pouco, isso é irritante sabia?

−Acha irritante? Ele me diz andando de um lado para outro – Então vamos lá como você vai levar isso para prisão?

−Já que está aqui pode ajudar, pelo menos até meu grupo de busca arrumar novos membros!

−Você não tem nenhum grupo de busca! Ele me diz lentamente como se eu fosse burra demais para entender e surda também, já que grita no meu ouvido.

−Como me acharam? Pergunto querendo desviar um pouco do foco.

−Daryl sabe rastrear.

−Uau! Eu digo, acho isso bem legal, se ele fosse meu amigo eu pediria para me ensinar, mas acho que ele preferiria ser devorado a fazer isso – Espere, estavam me seguindo desde a prisão?

−Sim! Glenn responde – Daryl nos obrigou a acompanha-lo nessa missão.

−Sinto muito! Respondo sem na verdade sentir, achei bom eles terem vindo assim me ajudam a levar as coisa.

−Vamos! Daryl ordena pegando uma das mochilas e colocando nas costas, todos fazem isso, e então olho em volta, me lembro da última conversa despreocupada que tive com Emma, nós duas sentadas na terra.

“Cega como é, nunca vai se dar conta do quanto ele é perfeito para você nem que ele esfregue isso na sua cara, mas não se preocupe, vou estar lá para dizer a você”

Acontece que ela não está, e nunca mais vai estar, ela me deixou para sempre, ela e seus sonhos de um dia me ver vivendo suas delicadas histórias de amor.

−Vem Alice! Maggie me chama e me dou conta que estou de pé chorando feito uma criança na frente de todos eles, pego uma mochila e começo a caminhar depois de secar meus olhos.

Todos estão em silencio, eu faço o mesmo por um tempo, mas depois a mulher com a espada me chama demais a atenção e puxo assunto.

−Como se chama?

−Michonne! Ela me responde atenta a tudo a sua volta.

−É uma katana? Eu pergunto e ela me olha de lado, acho que não está muito interessada em fazer amizade.

−Conhece armas brancas?

−Não, vi num desenho animado japonês que eu assistia, para mim é tudo espada, mas achei que chamar assim iria causar impacto.

Quase todos riem, menos ela e Daryl que revira os olhos, decido que fazer amizade com Michonne não é uma boa ideia por enquanto e volto a ficar calada.

Maggie vem para meu lado, gosto dela, é gentil e leve, me faz bem sua companhia.

−E então Alice, tinha alguém especial antes do mundo acabar?

−Tipo homem? Eu pergunto, meus sobrinhos eram especiais, minha irmã também, mas acho que ela está falando sobre outras coisas.

−Um namorado, por exemplo.

−Não, estava sozinha, minha vida amorosa sempre foi um completo desastre, não vale apena falar sobre isso.

Fico um pouco corada, Daryl está aqui e fico sempre consciente de sua presença e por alguma razão que ainda não entendo não quero falar disso na frente dele.

Glenn me olha rindo, balança a cabeça em negação.

−Que foi? Eu pergunto.

−Não se diz algo assim na frente da Maggie e fica impune.

−Exato, pode começar a falar, o que quer dizer com completo desastre?

−Nem pensar, não quero falar sobre isso em público.

−Mas vai, quero saber, foram muitos, tipo você era aquelas garotas que pegavam geral?

−Claro que não! Reclamo, não quero que Daryl pense isso de mim, mas porque a opinião dele me interessa tanto?

−Se não falar vamos achar que é isso, quantos?

−Maldição! Reclamo – Eu só tive um namorado está bem! Confesso sem entrar em detalhes, mas é claro que isso não parece suficiente.

−Que durou anos e morreu no apocalipse?

−Que durou uma semana e eu terminei quando ele quis me levar para um quarto de hotel no fim do baile! Respondo de uma vez.

−Quis? Ela diz mais do meu lado, arrumo a mochila melhor nas costas, olho de rabo de olho para Daryl ele parece compenetrado no caminho.

−Sim, e nem se atreva a dizer em público o que isso significa!

−Mas quando foi isso?

−Eu tinha dezessete, tenho vinte e quatro agora! Estou completamente vermelha, nem olho para cara de mais ninguém.

−E depois nada?

−Saí uma vez com o contador do escritório onde trabalhava, mas ele me achou meio maluca e não durou nada, nem até o fim do encontro, fomos embora no meio do jantar, feliz agora, eu tive um namoro que durou cinco dias agora chega.

−Uma semana tem sete dias! Glenn comenta e eu o fuzilo com o olhar ele dá de ombros sem graça, não acredito que ela me fez falar sobre isso.

−Caramba Alice, não acha que estava sendo muito exigente?

−Maggie eu estava esperando o cara certo está bem! Admito – Não sabia que o mundo iria acabar, Deus não me mandou nenhum memorando!

−Tem uns caras solteiros na prisão, e sempre pode surgir mais alguém, sabe que pode morrer a qualquer momento né? Ela me diz – Seria uma porcaria morrer sem nunca...

−As duas matracas podem calar a boca? Quero chegar vivo na prisão! Daryl esbraveja e me calo, no fundo estou quase grata por isso.

Finalmente nos aproximamos do nosso destino, eu suspiro aliviada, encontramos uma meia dúzia de zumbis ao longo do caminho, mas eles estão cada dia mais lentos e simplesmente continuamos, o problema é quando são muitos.

Entramos e jogo a mochila no chão cansada, Daryl caminha em minha direção, está bem bravo eu percebo.

−Não faça mais isso, já disse que não sou babá de ninguém e não vou sair por ai atrás da garotinha mimada cada vez que inventar de se aventurar lá fora.

−Eu não pedi para ir atrás de mim, teria sido muito melhor se não tivesse ido! Reclamo – E pare de ser chato, trouxemos muitas coisas, coisas importantes, você é um ditador irritante que só pensa em você, se não queria se arriscar lá fora devia ter ficado aqui dentro, não tem coração? Acha que gostei de voltar lá? Eu conhecia aquelas pessoas, eram importantes para mim! Eu lhe dou as costas e corro para minha cela, acho que fui longe demais e prefiro fugir a ter que ouvir sua resposta.

Me sento na minha cela e logo Maggie entra, ela se senta do meu lado, eu fico olhando para o chão, estou muito confusa com o que sinto.

−Daryl é tudo menos um cara covarde e sem coração como acabou dizendo a ele.

−Eu sinto muito! Respondo sem olhar para ela.

−Ele lutou muito por todos nós, é sempre o mais corajoso, por isso é ele quem coordena as coisas lá fora, Daryl morreria por essas pessoas, já deu provas disso muitas vezes.

−Só quis magoa-lo como ele estava fazendo comigo, nunca achei que era um covarde.

−Ele tem pavio curto, isso é certo, mais curto ainda quando se trata de você, também já notei, mas tem um coração gigante, ainda que não goste de demonstrar, e ele abriu mesmo mão de muitas coisas por todos nós sabe, o bem estar dele fica sempre em último lugar, um dia te conto boas histórias sobre ele.

−Ele me odeia não é? Eu pergunto agora com os olhos marejados – Acho que é por que viu Cassie morrer e deve me culpar por isso.

−Antes de entramos para o grupo, na verdade quando nos conhecemos, eles procuravam uma menininha que perderam, ela foi mordida e virou zumbi, assim que foi encontrada, Daryl foi quem mais procurou, não, ele não te culpa por isso por que sabe como é perder uma criança.

−Acho que fui longe demais, não é? Eu pergunto me sentindo culpada, não é justo que depois de tudo esse sentimento de culpa fique me corroendo, Maggie dá de ombros sem saber o que responder – Vou me desculpar com ele, eu prometo, assim que tomar coragem.

−Mas foi uma boa aventura te seguir de perto! Maggie ri – Daryl quis saber o que pretendia e ficamos só de longe.

−Foi uma boa aventura para mim também.

−Antes de ir, precisa saber que foi ele que decidiu te trazer quando te achamos na cabana, e também foi ele que decidiu ir atrás de você quando Tyreese nos avisou que tinha saído, ele na verdade ficou bem preocupado.

−Obrigada Maggie, vou tentar consertar as coisas com ele, prometo.

Ela me deixa e me deito na cama mais uma vez sozinha, tanta gente a minha volta e eu tão sozinha, sozinha como sempre fui e como se não bastasse aquele par de olhos azuis irritantes não sai da minha cabeça.

Notas finais
Espero que tenham gostado, comentem, ou não, sei lá, apenas espero que tenham se divertido. Beijos