Caminhando entre os mortos
22 Capítulo 22 - Sozinha
Notas iniciais
Pov – Alice
Eu não sei de onde vieram tantos zumbis se tudo parecia tão calmo, mas eles estão nos cercando e a cada passo sinto estar mais distante do grupo, só posso tentar me esquivar e derrubar o máximo possível, não me desconcentrar e ficar viva.
Ouço o primeiro disparo de Paul, eu sei o que o pânico provoca, me viro e vejo Daryl receber uma bala, meu coração falha, mas eles estão com ele, sua família, grito apavorada, um zumbi caminha para mim, um segundo antes do ataque me afasto, são muitos, ouço Daryl gritar por mim, mas agora ele está ferido, não pode chegar até mim e não consigo sozinha, vejo Glenn empurra-lo para o carro enquanto os zumbis cada vez mais me separam dele.
−Daryl! Eu grito, acho que quero que escute minha voz que entenda que estou de pé, ele reluta, então perde as forças e eu quase perco as minhas, minhas lágrimas embaçam minha visão e só o que me resta é corre para longe, escuto o motor do carro partir.
Ele precisa de ajuda, eles tem que chegar a prisão e eu preciso ficar viva, desvio de zumbis que pareciam sair de todos os lugares, dobro ruas de um lado para outro, mal conseguia respirar de medo e tensão.
Não quero pensar que estou sozinha, que Daryl está ferido, que me separei dele e que pode ser para sempre, vejo uma escada de incêndio em um prédio baixo, uso o machado para puxa-la para baixo, antes de subir preciso acertar a cabeça de um zumbi, erro e ele fica com metade do pescoço pendurado a cabeça pende para o lado, num show de horror, ainda consigo me afastar e começar a subir.
Sigo direto para o telhado embora no caminho eu passasse por várias janelas, quatro andares ao todo, mas estou cansada demais para me arriscar a entrar sozinha num apartamento.
Lá em cima me sinto quase segura, não tem zumbis no telhado e olho em volta, nenhum sinal deles, com certeza foram para prisão para socorrer Daryl, eles precisam ter feito isso, todas as ruas que posso ver tem zumbis caminhando, todos parecem seguir em direção a onde os tiros foram dados, a cidade está vazia, me sento esgotada, preciso pensar em algo, uma maneira de voltar a prisão, não posso ficar aqui sem saber como ele está.
−Ele vai viver! Eu sei que sim – Hershel já salvou Carl de uma bala como me disseram, e era só um menino, o próprio Hershel teve a perna amputada, sim Daryl vai viver!
Eu sempre falei sozinha, mas dessa vez é diferente, quero ouvir minhas palavras para que possam me fazer sentido, me dar força.
Me encolho um pouco, a respiração vai se normalizando e vou me dando conta primeiro do silencio, mórbido e sombrio, depois da solidão, nunca estive sozinha desde que o apocalipse começou, me sinto oprimida e fraca, a imagem do tiro se repetindo em minha mente, Paul sendo devorado, mais um amigo, até quando vamos lutar, quanto mais temos que aguentar disso?
Meu rosto está coberto por minhas lágrimas, eu tento seca-las, não quero chorar, não posso me render a dor, não agora, agora preciso voltar e saber que ele está bem.
−Claro que está bem, vai ficar bem só para poder arrancar sua cabeça quando chegar sua idiota!
Me levanto, olho mais uma vez em volta, descer e seguir em frente não é uma possibilidade, não agora, não posso caminhar até a prisão, preciso de um meio de transporte e não posso conseguir um com esses malditos caminhando a minha volta, eu posso lutar com um, dois, quem sabe até três de uma vez, não mais do que isso, não tão cansada como estou, minhas mãos tremem sem qualquer firmeza.
−Certo Alice, pense, você não é burra!
Preciso de um lugar para descansar, beber agua e esperar, aqui será impossível ficar quando a noite cair, o frio vai me deixar ainda mais fraca, é meio da tarde, preciso passar a noite aqui, assim que o dia amanhecer eu dou um jeito.
−Daryl é um troglodita, ele vai ficar vivo! Digo me enchendo de esperança, se pensar diferente então não tem razão nenhuma para voltar, é melhor me deixar ficar aqui até que tudo se acabe, já perdi tudo que podia perder, ele não.
Volto para a escada de incêndio, aperto o machado na mão, vou para primeira janela no quarto andar, tento olhar para dentro, me lembro de Daryl fazendo barulho para ter certeza e faço o mesmo, bato no vidro e espero, me afasto um pouco, uns minutos se passam, nada e então me aproximo e quando tentava forçar a vidraça para entrar, um baque no vidro e mãos podres o arranhando me deixam apavorada, dou um passo para trás de susto, quase perco o equilíbrio, são três zumbis batendo no vidro, desisto e desço mais um lance de escada.
Repito o processo, bato e espero, dessa vez mais tempo, uma infinidade de tempo, nada acontece e decido tentar entrar, forço um pouco a vidraça, ela se abre e pulo para dentro sempre com o machado apertado na mão, estou numa pequena sala, tudo parece tão arrumado, dá medo pensar, sofá, tv, mesa de centro, um mundo de coisas que não tem mais importância.
Caminho assustada, me lembro do tempo em que morava sozinha, que ficava com medo e então cantava alto para espantar o medo e a solidão, não posso fazer isso agora, o apocalipse surgiu para nos desesperar, nos testar em todos os graus, não é apenas uma questão de coragem, é sobre se você quer ou não viver, eu quero, preciso, ao menos até saber como ele está.
Chego na cozinha, limpa e arrumada, nada de zumbis, continuo minha busca, uma porta está fechada, deve ser um quarto, não vou abrir, não preciso enfrentar o que tem ali, a outra está aberta entro, é um quarto de menino, computador, aparelho de som e muitos jogos, pôster de bandas de rock pelas paredes.
−Bom gosto! Um porta retrato mostra um rapaz e uma garota com roupas de esqui, tão clichê eu penso quando os vejo sorrindo, estão mortos agora, talvez caminhem, talvez não, mas sem dúvida estão mortos – Quadrinhos, Carl vai gostar disso! Enfio na mochila e saio do quarto, tropeço num skate na saída, caio criando um barulho descomunal perto do silencio que a morte deixou, meu coração parece sair pela boca de susto, fico um segundo imóvel, nada errado comigo, me levanto e volto para cozinha, bebo agua da torneira, abro armários, mas não tem nada.
Então um baque na porta da sala me causa outro sobressalto, mais um e depois uma sucessão deles, zumbis, ouviram meu barulho, não sei quantos, mas gemem e arranham a porta, empurro o sofá a mesa e tudo que encontro para encostar na porta, não quero arriscar, não sei quantos são e se podem derrubar a porta.
−Vão para o inferno! Eu digo me encolhendo na parede perto da janela – Merda, odeio isso, essa porra de fim de mundo! O dia começa a me deixar a sanidade parece ir com ele, escuro, não aguento o escuro, ele torna tudo maior e mais assustador, pego a lanterna, não é um cômodo escuro, uma casa escura, é uma cidade escura, um país escuro, é a vida escura!
−Não pensa nisso, você está com a lanterna, é só esperar, não vai durar para sempre! Eu choro enquanto os mortos atrás da porta insistem em tentar entrar, o barulho me alucinando – teve uma noite perfeita, Daryl te deu isso, pense Alice, pense na noite perfeita! Tento me lembrar do que senti, das mãos dele em mim, da respiração, do calor, então de novo vejo o tiro, o medo não quer me deixar, nunca mais vai embora.
Olho para fora, o céu estrelado ainda é o mesmo, mas não restou muitos para admirar, meus olhos ficam a cada segundo mais vidrados na porta, agora é só o que sou, olhos atentos ao barulho irritante.
As horas correm lentas, assisto cada segundo, me emociono quando o céu começa a clarear, sinto minhas lágrimas de volta, me ponho de pé, controlo o tremor nas pernas e mãos, aperto o machado e guardo a lanterna.
−Devia ter dito a ele como se sente! Esse pensamento passa por mim quando pulo de novo a janela para o lado de fora – Se não chegar ele nunca vai saber, é mesmo a idiota que ele diz que é!
O número de zumbis diminuiu, olho para baixo, um virando a esquina em direção oposta a minha, três parados na esquina, apenas parados longe o bastante, na outra esquina no lado oposto tem alguns carros e para minha sorte uma moto, não sei fazer ligação direta em carros, mas sei fazer em motos, perdi a chave da minha pelo menos umas dez vezes.
−Eu sabia que isso serviria para algo um dia!
Mas preciso chegar lá e rezar para ter combustível e estar funcionando e ter tempo de fazer tudo antes de os zumbis me alcançarem.
Olho por toda extensão da rua, alguns comércios e casas, posso entrar em algum lugar e me esconder se me sentir em perigo, começo a descer, assim que ponho os pés no chão os zumbis da esquina se viram.
−Inferno! Eu caminho apressada, correr agora não é uma ideia muito boa, um pode surgir do nada e me pegar, ando apressada pelo meio da rua, ouço os gemidos vindos da minha esquerda, o zumbi que não matei caminha com a cabeça pendendo, da direção da moto dois surgem – Merda! Entro numa loja, está vazia, caminho devagar e forço uma porta, um escritório talvez, eu abro devagar, uma mesa a sala do chefe eu penso fechando a porta atrás de mim, a janela dá para rua, me encolho debaixo da mesa, eles vão perder o faro e então posso pular a janela e seguir meu caminho.
Acho que nunca meu coração bateu tão forte, nem mesmo nos braços de Daryl, meu estômago se contorce ao pensar nele, vou chegar, eu preciso.
Deixo o tempo passar, uma hora, talvez duas, uma eternidade com certeza, estou longe de estar segura, não posso ficar aqui para sempre.
Vejo um fundo falso sob a mesa, no momento bem acima da minha cabeça, não resisto e com um movimento eu o abro, munição e armas, um trinta e oito e duas pistolas, várias caixas de munição, enfio na mochila, devia ter me dedicado melhor as aulas de Rick, mas eu nunca fui boa aluna e acho que esquecemos um pouco disso, eu me esqueci, me esqueci de tudo quando me apaixonei por Daryl Dixon, me esqueci até que agora os mortos caminhavam e comiam carne humana.
−Chega Alice, arrume coragem, lute, mas vá para casa! Digo a mim mesma me colocando de pé.
Sigo a passos lentos até a janela, nada de zumbis até onde posso ver, abro com cuidado, e passo para o lado de fora, que bom que não é preciso pular eu penso, caminho apressada a mente agora focada apenas na moto, chego finalmente nela.
−Me ajuda belezinha, me leva para casa! Eu peço me sentando, deixo o machado no colo, fico dividida entre mexer nos fios e olhar em volta, um zumbi caminhava para mim, me apresso as mão tremulas dificultavam o trabalho.
−Vai Alice! Olho para o zumbi – Olha se seu objetivo é só me matar não se preocupe Daryl vai fazer isso está bem!
Então a moto range, me arranca lágrimas acelero, e ela ronca perfeita, não paro para pensar apenas giro fundo o acelerador e ganho as ruas.
Saio da cidade passando ainda por um susto quando sinto um zumbi quase me alcançar, mas então estou na estrada, a mochila nas costas e o machado preso a cintura, só preciso rezar para o combustível ser suficiente.
Dirijo em direção a prisão, em direção a minha casa, é assim que me sinto, amo Daryl, mas não só ele, amo aquelas pessoas que me receberam bem, me deram amor e carinho, quero chegar, preciso.
Não estava longe quando um medo me domina, e se ele não conseguiu, e se for tarde, como posso ouvir que Daryl não resistiu?
Paro a moto na estrada, fico apenas parada, assistindo a minha curta vida a seu lado passar como um filme, uma tola comédia romântica dessas que se assiste quando se está de férias, não quero perder isso, não posso, não posso nem pensar em seguir em frente sem ele, sem saber que ele está vivo.
Choro, não gosto de chorar, não gosto, mas as vezes eu me entrego, porque tudo em mim é intenso e grande, como o que sinto por ele e não disse.
Limpo minhas lágrimas, não passou por tudo isso para morrer feito uma imbecil chorando no meio de uma estrada qualquer, sigo em frente, avisto a prisão bem ao longe, só consigo ver ele, seu rosto diante de mim.
−Toda linda ele disse, e idiota, imbecil e ridícula e tudo que conhece de adjetivos ruins e o tempo todo elas só querem dizer, toda linda!
Eu sei que sim, por isso não me importo, porque quando digo troglodita, e sei lá mais o que só quero dizer que sim eu o amo, é perfeito para mim.
−Você está vivo Daryl Dixon, eu sei que está!
Finalmente a prisão, assim que me aproximo do portão vejo uma confusão e então ele, meu troglodita, teimoso e mal humorado Daryl sentado na moto, ele está de pé, está vivo e está de pé, os portões se abrem e eu entro, paro a moto e desço, tem um mundo de gente a minha volta só vejo ele e seu olhar, primeiro alivio, depois alguma outra coisa que não sei o que é mais gosto e então a raiva, sim ele está lá e adoro, ele vai fazer um escândalo, eu vou responder à altura, porque o amo, mas não me dobro e ele gosta disso.
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