Caminhando entre os mortos
11 Capítulo 11 - Limpeza nas tumbas
Notas iniciais
Pov – Daryl
“Você é bom em beijar, mas é péssimo em abraçar” Essa frase diz muito sobre ela, sobre nós, ela gosta do meu beijo, isso é bom, mesmo que não queira admitir eu também gosto de beijar Alice, mais do que já gostei de beijar qualquer outra mulher, e sei que cedo ou tarde vou fazer de novo e ela vai corresponder, mas ela diz que sou péssimo em abraçar e isso também fala muito sobre nós dois.
Sou reservado e não sei lidar com carinho, esse tipo de sentimento me assusta, posso lidar com meu desejo por ela, mas com o resto do que sinto eu não sei demonstrar nem mesmo sei se quero fazer isso, prefiro sempre suprimir, é assim com todos, sempre foi e deveria continuar sendo, mas parece que essa garota infernal está fazendo de tudo para mudar isso.
Ela é toda emoção, cada parte dela, demonstra o tempo todo, sorri abertamente, rouba abraços, fala o que sente sem medo de se machucar.
É isso que me fascina em Alice, que me prende a ela e me deixa confuso e sem reação, me vejo fazendo coisas que nunca pensei que faria.
Apoio os braços na grade da torre, respiro o ar frio da noite, sempre gostei das minhas noites de vigia, mas hoje queria estar na minha cela, esperando a luz da lanterna iluminar meu rosto enquanto ela caminha leve em minha direção, pronta para brincar ou brigar, para Alice dá no mesmo.
−Inferno! Eu digo em voz alta, me afasto da grade me deito na droga do colchão duro e gelado, fico olhando para o teto da torre e de novo lá está ela dominando meus pensamentos, ela é encantada, só pode ser isso, deve ser um ser desses seres de contos de fadas, assim como os zumbis saíram dos contos de terror é possível que Alice tenha saído de uma dessas histórias infantis, um anjo caído do céu ou expulso depois de provocar alguma confusão.
Me vejo gritando com ela na frente dos outros, me vejo perdendo o controle e o limite, beijando Alice quando devia simplesmente caminhar para longe e a cada uma dessas atitudes ela reage na mesma proporção.
Quando vi a arma apontada para ela, quando achei que ela estava em risco, eu poderia ter mudado de lugar com ela, eu queria isso, ela é toda cheia de vida e o mundo sem ela ficaria uma merda ainda maior, então ela disse que queria ir com eles e achei mesmo que estava falando sério e me magoou pensar nisso, e me deu medo e não posso sentir isso, porque Alice é livre e simplesmente pode partir quando quiser e talvez vá, afinal ela é maluca.
Me reviro no colchão, será que ela foi atrás de mim, será que devia ter avisado que passaria a noite aqui?
Talvez ela fique furiosa, eu acabo sorrindo, gosto quando ela fica furiosa, talvez nem se importe, pode ter apenas ido dormir e estou aqui achando que ela está pensando em mim.
−Está parecendo a mocinha que seu irmão sempre te acusou de ser! Eu digo em voz alto e me lembro que Alice fala sozinha e que isso deve pegar.
Tenho uma noite infernal, as horas nunca demoraram tanto a passar, desço pela manhã, a prisão acordava, Carol me serve uma xicara de café, ela conversava com Maggie e Glenn, eu aceno para todos e subo, preciso dormir um pouco e depois temos muito o que fazer.
Entro em minha cela distraído e quase derrubo a caneca, Alice dormia tranquila na minha cama abraçada a lanterna que ainda estava acesa e me lembra que ela não tem nenhuma responsabilidade sobre economizar bateria, mas é tão linda, os cabelos estão espalhados no meu travesseiro, lindos e dourados, o nariz encrenqueiro é tão perfeito, a boca suave, ela está espalhada, tranquila e sei que seu cheiro nunca mais vai sair das minhas coisas e nunca mais vou dormir por conta do que vão provocar em mim.
O jeito é ir me deitar na cama dela e deixar que durma, dou meia volta e já estava quase na porta quando ela me chama.
−Onde vai? Me diz se espreguiçando confusa – É de dia já?
−Sim, estava saindo para te deixar dormir.
−Onde passou a noite? Ela pergunta entre curiosa e irritada – Vim te esperar aqui e só chegou agora?
−Eu estava de vigia, era minha noite na torre.
−Desde quando sabe disso? Ela se senta e começa a puxar os cabelos para traz, vai fazer um daqueles coques que deixam seu rosto ainda mais a mostra e fico olhando para ela meio perdido nos movimentos e em como ela fica... – Em Daryl, desde quando sabia?
−Desde sempre, toda noite um de nós fica de vigia na torre.
−Podia ter me avisado, fiquei feito uma idiota te esperando.
−Me pareceu que estava dormindo, e não me esperando! Rebato só pelo habito.
−Ingrato! Ela resmunga de péssimo humor, com aquela cara de brava que sempre a deixa mais bonita e eu mais furioso.
−Eu? Dê onde ela tira essas coisas?
−É sim, fiquei aqui te esperando nem merecia, mas fiquei só para te fazer companhia e é assim que me agradece?
−Deixa de ser ridícula!
Ela se senta começa a calçar os sapatos, eu ainda estou de pé sem saber o que fazer, nunca sei o que fazer com ela.
−É legal lá? Posso ser vigia também? O mal humor já foi embora.
−Não sei, o lugar é para vigiar, não dormir, então é meio chato, não sei se vai gostar.
−Queria ter ido com você, além de ingrato é egoísta, nem me convidou – Ela termina de calçar as botas, arruma a camiseta e se espreguiça – Vai dormir agora?
−Apenas descansar um pouco, tenho coisas para fazer mais tarde.
−Que chato, vou achar algo para fazer então, te vejo depois, quando formos limpar as tumbas.
−Vai mesmo querer fazer isso?
−Vai tentar me impedir?
−Não, mas precisa saber que lá é escuro! Sei que ela detesta escuridão por isso ama tanto a lanterna.
−Nem vem com essa, está de dia, quer me enganar.
−Ok! Eu dou de ombros, ela vai morrer de medo e subir rapidinho – Se quer ir esteja pronta.
−Vou descer, cuida da minha lanterna depois eu pego! Ela passa por mim sorrindo e sigo para cama, como imaginei seu cheiro está impregnado em tudo, isso é um inferno, como se precisasse de algo assim para pensar nela.
Rolo um tempo na cama, depois acabo pegando no sono, mas não dura muito, depois do apocalipse distúrbios de sono são comuns a todos nós, ninguém tem realmente muitas horas de sono, acabo me levantando, quando chego lá fora vejo que ainda era manhã.
−Quer mesmo fazer isso? Rick me pergunta – Limpar as tumbas?
−Acho que seria bom, além disso precisamos saber o que tem mesmo lá em baixo, aposto que podemos encontrar coisas úteis ainda, e nunca se sabe quando vamos precisar de espaço.
−Está certo, tem muita gente agora, acho que podemos encontrar móveis, a biblioteca, não sei, vou junto, quem mais vai?
−Acho que todos que estiverem dispostos, o que acha?
−Certo, mas se lembra do Hershel né, não sei, devemos nos organizar bem, pânico lá em baixo será um problema.
−Eu sei disso, vamos nos reunir depois do almoço e fazer logo isso.
Só encontro Alice na hora que o grupo se reúne para organizar as coisas, ela trazia seu pequeno machado, sorri para mim meio incerta, ainda acha que vou dar um ataque e tentar impedi-la de descer, acho que a escuridão vai fazer isso por mim.
−Sabem o que estamos indo fazer? Rick começa.
−Matar zumbis e limpar a merda que deve estar lá em baixo! Alice responde e todo olham para ela – Era uma pergunta retórica?
−Não Alice, é isso que vamos fazer, todos sabem que tiros não são boa ideia, não sabemos realmente quantos tem lá em baixo, já limpamos muitos corredores, os blocos e não foi fácil, Hershel perdeu uma perna e alguns presos morreram no processo! Rick continua e a história dos presos não foi bem assim, mas não precisamos entrar em detalhes com eles.
−Como vai ser isso? Ted pergunta – Quem vai descer?
−Quem estiver certo sobre o que está fazendo! Eu digo sério.
−Eu, Maggie, Sasha, Michonne, você e Rick com certeza! Glenn comenta.
−Também vou! Alice se posiciona ao lado dele que assente.
−Ted? Eu pergunto.
−Sim, mas vou levar meu rifle.
−Não vai não, sem armas pesadas lá em baixo.
−Eu também vou, quero ajudar! Paul avisa – E Sam também vai.
Sam era muito jovem, tinha o rosto abatido, parecia incerto sobre isso, não gosto da ideia.
−Melhor ficar! Eu olho direto para ele.
−Posso fazer isso, não se preocupe! Ele me diz menos determinado do que queria parecer.
−Tyreese vai ficar aqui com Karen! Sasha avisa — Acho bom ficarem de olho nas coisas aqui em cima junto com Hershel e Carol.
Pegamos nossas armas, nos dividimos em dois grupos, Michonne vai com Rick e Sasha conduzindo Ted e Paul, eu e os outros seguimos em outro grupo.
Abro a porta pelo bloco C e entramos, os primeiros corredores estavam limpos a muito tempo e fechados, temos que entrar mais fundo na prisão, nos dividimos, Rick pega se grupo e vai pela direita sigo com o meu pela esquerda.
−Que escuridão! Alice diz ansiosa logo atrás de mim.
−Avisei! Eu digo sorrindo por que ela não pode ver meu sorriso.
−Avisou nada, disse que era escuro, não muito escuro!
−E isso muda tudo! Eu comento baixinho, sigo na frente com ela colada em mim.
−Muda mesmo, quero ser do time que ilumina as coisas! Ela diz puxando a lanterna da minha mão.
−Pensei que preferia ser do time que mata zumbis!
−E você com certeza é do time dos chatos! Ela diz com voz tensa, viramos um corredor e começo a ouvir os primeiros gruídos.
−Atentos agora, não saiam da formação e fiquem em silencio.
Eu não precisava nem falar sobre tiros, ninguém tinha trazido arma de fogo, os primeiros zumbis surgem, eu me preparo, não posso deixar de pensar em Alice comigo, ela está com o machado na mão, é uma boa arma para ela, resistente e não muito pesada.
Acerto o primeiro com a besta de longe, deixo o outro se aproximar e é Alice que o acerta com o machado, estamos os dois na frente, mais três vem do corredor lateral, Maggie, Glenn e Paul os pegam, Sam está conosco e até o momento apenas treme assustado e protegido entre nós.
Três zumbis estavam presos numa cela, pegamos todos pela grade, do lado havia uma porta, nos posicionamos, dessa vez é Glenn que está ao meu lado, empurramos e lá encontramos uma sala cheia de móveis e colchões, estava vazia e fechamos em seguida, seguimos nosso caminho, duas solitárias estavam abertas, não se podia ver nada lá dentro, Alice ilumina a primeira.
−Que merda de escuridão! Ela reclama.
Zumbis surgem de dentro dela, quatro deles, vem todos em nossa direção e começamos a derruba-los, Sam se apavora e então sem que esperemos ele começa a atirar.
−Para Sam! Glenn grita e o rapaz começa a correr assustado – Droga! Ele some pelo corredor, ainda ouvimos um disparo ecoar pelo lugar.
−Vamos voltar! Paul pede.
−Não, o garoto está sozinho, temos que ir atrás dele! Alice diz determinada.
−Alice está certa, vamos ele seguiu por aqui! Eu sigo na frente – sabia que ele não devia ter vindo junto.
No caminho uma dúzia de zumbis surgem, não quero lidar com isso agora, Sam é nossa prioridade e viramos um corredor, mais zumbis, não tem jeito, se não está morto deve ter entrado numa dessas malditas celas.
−Que merda! Eu reclamo – Vamos ter que ir em frente, fiquem em formação!
Pegamos os zumbis, e seguimos a diante, mais um corredor e então vejo um corpo encolhido, Alice ilumina e vemos Sam, ele treme se assusta.
−Calma Sam! Alice diz se precipitando, uma luz surge vinda do outro corredor e antes que pudéssemos chegar até ele, Sam dispara.
Ouvimos um gemido, gritos e confusão, Sam acertou alguém do grupo de Rick.
−Rick! Eu grito – Estão bem?
−Daryl o que está havendo, Ted foi ferido.
−Sam, ele desceu armado! Glenn e Maggie se juntam a Rick que tentava ajudar Ted, Alice retira a arma da mão de Sam.
−Está tudo bem Sam, você não queria, nós sabemos, vem fica de pé temos que sair daqui! Ela o ajudava e Paul e eu damos cobertura, zumbis então começam a surgir.
−Temos que ir! Eu grito – Rick como está por ai?
−Eles vem vindo, não sei quantos!
−Vamos por aqui! Está tudo frenético e confuso, Rick e Paul agora carregam Ted, Michonne se posiciona ao meu lado precisamos abrir caminho para tirar Ted daqui.
Começamos a correr, e não vejo mais Alice temos muitos zumbis no caminho, Maggie e Sasha seguem logo atrás de mim, então ouço a voz de Alice.
−Não Sam, por ai não! Ele fugiu mais uma vez e sei que a idiota foi atrás.
−Alice! Eu grito e não ouço resposta, faço todos pararem – Onde eles estão? Pergunto.
−Pegaram o outro corredor! Paul me avisa, o imbecil viu Alice seguindo sozinha atrás do infeliz e deixou.
−Vai Daryl! Rick diz tomando a frente – Eu sigo com os outros.
Eu pego o corredor, dois zumbis estavam caídos, Alice esteve aqui, sigo mais a frente, agora estou perdido, ela pode ter ido para qualquer lado.
−Sam! Ouço seu grito e começo a correr – Não! Ela gritava, escuto o som de seus golpes, e quando finalmente me aproximo Sam está caído no chão tem algumas mordidas pelo corpo, Alice está a seu lado e quatro zumbis estão caídos a sua volta – Droga garoto, porque fez isso! Ela chorava, o pescoço dele jorrava sangue e em pouco tempo seus olhos fecham, ele pende para o lado, estremece é seu fim.
−Alice! Eu finalmente me aproximo, ela me abraça – Está tudo bem, fez o que pode.
−Ele estava apavorado demais, correu para eles, quando cheguei era tarde.
−Vem, vamos sair daqui! Eu me aproximo dele enfio minha faca em sua testa, Alice soluça – Vamos, temos que voltar.
−Sinto muito Sam! Ela diz enquanto a afasto dali.
Pegamos um corredor e sem alternativa temos que lutar, agora não são mais muitos apenas um ou outro, chegamos finalmente no ponto em que tudo está limpo, passamos e puxo a porta atrás de mim, vejo as marcas de sangue, Ted deve estar bem ferido.
Hershel já o atendia, examina seu peito, o tiro pegou no abdômen pelo olhar de Hershel não temos muito a fazer.
−Ted fique calmo está bem, vamos fazer todo possível! Ele diz tentando acalma-lo.
−Droga! Alice deixa o ambiente e sigo até ela.
−Está bem?
−Essa porcaria nunca acaba, achei que era seguro, que não perderia mais ninguém, mas isso não existe mais! Ela soluça.
−Sam não devia ter descido, mas isso acontece.
−Não quero me acostumar com a morte, não quero que faça mais parte da minha rotina!
−Ninguém quer, e não precisa, nem deve deixar que isso aconteça, precisa continuar lutando e se indignando, no dia que se acostumar então não faz mais sentido lutar.
Ela concorda, respira fundo, e segura minha mão.
−Voltou por mim! Ela sorri – Obrigada!
−É parte do grupo.
−Sou! Ela diz com certa tristeza, não foi por isso que voltei, não foi só por isso, mas não sei dizer, não consigo – Vamos, ele tem uma esposa sabia?
−Ted? Eu pergunto, ela faz que sim e então uma mulher entra correndo e chorando – Vem não tem nada que possamos fazer, Rick e Carol ajudam o Hershel.
Saímos de dentro do bloco e seguimos para o pátio, Carl se aproxima, Alice o abraça. Ele corresponde.
−Foi muito ruim?
−Sam está morto e Ted ferido.
−Que porcaria, meu pai, como está?
−Ele está bem, pode ir ver.
Ficamos sozinhos, ela se senta, logo o resto do grupo se aproxima, Maggie senta-se ao lado de Alice, Paul e Glenn também se aproximam e Michonne se junta a nós.
−Acho que devíamos descer e terminar o que começamos, e acho que devíamos fazer isso agora.
−Alice...
−Ela está certa, já sabemos o que tem lá em baixo e onde estão, não voltar lá só vai espalha-los mais uma vez, ainda temos boa parte da tarde, Rick pode ficar aqui com Hershel damos conta de tudo lá! Michonne comenta e ela tem razão.
−Vamos voltar então!
Seguimos de volta para dentro, passamos próximos da cela e pelo choro convulsivo foi tarde demais para Ted.
−Vão voltar? Rick pergunta.
−Vamos! Eu respondo abrindo as grades.
−Boa sorte e cuidado! Ele diz quando começamos a entrar, dessa vez o trabalho é mais seguro e rápido, conseguimos varrer tudo em pouco tempo, os corpos ficariam para serem recolhidos depois, mas limpamos finalmente as tumbas, encontramos a biblioteca, o acesso aos fundos do presidio e fechamos de modo que os que viessem do lado de trás pelo caminho que Sasha e o irmão um dia fizeram ficassem isolados.
Depois voltamos para cima esgotados, as mulheres seguem juntas para o banho e me separo de Alice, ela está triste e cansada eu penso quando subo para minha cela muito mais tarde, duvido que venha a minha cela hoje e não posso dizer que fico feliz com isso.
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