Caminhando entre os mortos
60 Capitulo 60 - É meu
Notas iniciais
Pov – Daryl
Eu a escuto me chamar, gritar meu nome já do lado de fora, mas preciso afastar os zumbis, preciso desesperadamente garantir sua segurança, desço para aquela sala macabra, empurro uma maca para me defender dos zumbis, pego um dos instrumentos e acerto alguns, vou ficando encurralado, então consigo sair no último segundo.
Subo correndo, me afastando deles, tenho apenas duas flechas, corro para fora, Alice, está lá, preciso encontrá-la.
─Alice! Eu grito por ela – Alice! Volto a gritar, não esperava por tantos do lado de fora, não sei de onde vem, parece quase uma armadilha, não há tempo para procurar por pistas, saber que direção Alice foi, só me resta rezar para ter ido para estrada como mandei, um zumbi surge à minha frente, acerto o cabo da besta, não tenho flechas suficientes para eles.
Começo a correr para a estrada, muito, o mais rápido que posso, não paro para respirar, pensar, caçar, apenas corro.
A estrada está vazia, nada de Alice, meu coração bate fora do ritmo, continuo seguindo em frente, tenho medo de ter se perdido, Alice aprendeu, pelo menos acho que sim, ela sabia ou devia saber como chegar aqui, mas não está.
Penso nos trilhos, já amanhecia, talvez ela tenha se confundido e seguido direto para os trilhos.
─Deus! Eu grito – Não posso ficar sem ela! Mal me aguento em pé, mas continuo a correr, preciso ter certeza que não está aqui antes de seguir em direção aos trilhos, Alice está viva, sei que sim, ela sobreviveu muito tempo antes de mim, sempre saiu em buscas, sabe se virar, mata zumbis e pode chegar aos trilhos, preciso acreditar nisso.
Paro no meio de uma encruzilhada, não sei mais o que fazer nem para onde ir, mal me aguento de pé, me deixo cair, esgotado, perdido, não vivo sem ela, simplesmente não sou nada, não quero ser.
Preciso buscar algum auto controle antes de tomar alguma decisão.
A besta está no chão ao meu lado, eu fico tentando trazer oxigênio para meus pulmões que ardem depois de horas correndo, então vejo botas, alguns pares delas, seis pares para ser mais preciso, eles me cercam.
Merda, isso é uma grande merda, me dou conta.
─Ora! Um deles diz – Vejam só! Ele para na minha frente, eu não tenho tempo a perder, num movimento pego minha besta o acerto e enquanto ele cai eu o deixo na minha mira – Parem! Ele grita quando seus homens me colocam sob suas miras.
─O colete é meu — Um idiota diz atrás de mim, não me dou ao trabalho de discutir, vai ter que me matar primeiro e não posso morrer agora, estou ocupado no momento.
O cara caído começa a rir, não gosto disso, me deixa confuso, me lembra o Merle e simplesmente não gosto disso, de como gente assim me faz sentir.
─Esperem! Ele se levanta limpando o sangue no rosto – Um arqueiro, gosto disso, realmente gosto, sabe... – ele fica diante de mim, não desvio a besta – Um homem com um rifle pode ter sido qualquer coisa naqueles dias, um fotografo, talvez um técnico de futebol, mas um arqueiro é sempre um arqueiro, é uma bela arma a que carrega – Ele começa a descrever minha besta, fala sobre querer uma, nada me desvia atenção, um passo em falso e nunca mais vejo o rosto de Alice de novo, eu prometi a ela, não posso deixar que justo agora que está sozinha que mais precisa de mim eu acabe morto, os caras a minha volta riem, provocam, então vem a ameaça – Se puxar esse gatilho, os caras ai te enchem de buracos, vamos rapaz, seria uma estupidez, porque se ferir se pode ferir outra pessoa?
Eu continuo calado, não sei onde quer chegar, mas acho que me matar não está nos seus planos, ele já teria feito se quisesse, preciso ser cauteloso.
─Meu nome é Joe.
─Daryl! Digo depois de baixar minha arma, sabia que seria com gente como aquela que acabaria, sou um Dixon afinal, essa merda toda me persegue, eu tento fugir, ser outro cara, mas então lá estou eu de novo com a turma de Merle, caminhando entre os mortos, tão morto quanto qualquer um desses zumbis que me perseguem.
Caminho com os caras, não foi um convite, se quisesse me livrar deles terminaria morto e isso está fora dos meus planos, vamos pela floresta, fico ouvindo a conversa deles, o modo como se relacionam, é tão lugar comum para mim, então fico silencioso, eles estão indo para os trilhos, por isso não me preocupo em deixá-los, não ainda.
O rosto de Alice fica dançando em minha mente, o modo como é leve, alegre, o sorriso fácil, a alegria com que leva seus dias, meu oposto.
Preciso encontrá-la, e preciso fazer isso sem esses caras ou morremos os dois, me dá medo pensar como ela está, se ainda pode sorrir, se está com medo.
Alice falou tantas vezes, pediu tanto, me disse sobre como me sentiria se ficasse sozinho e estava certa, a solidão age de modo assustador sobre mim, me agarro a oportunidade de seguir com esses idiotas encrenqueiros que só querem se dar bem porque não posso ficar sozinho.
A noite se aproxima, corri por uma noite toda, é a segunda noite que passo sem ela, desde que coloquei meus olhos em Alice nunca fiquei tanto tempo longe, me deito na floresta com eles, ao menos é mais seguro.
Não durmo, não posso, não com ela sozinha por ai, me odeio, sou um imbecil, um idiota, eu a deixei, eu não fui capaz de mantê-la comigo, de manter Alice segura, eu a perdi, é minha mulher, minha vida e a perdi, me levanto e sigo para longe deles, caçar vai me ajudar a pensar.
Um coelho se aproxima assim que amanhece, minha mente fica limpa assim que o vejo, nada de zumbis, nada de coisa nenhuma, apenas eu e o animal, me sinto livre por um segundo, atiro minha flecha e no mesmo segundo outra passa por mim, o coelho cai com duas flechas, me viro e um dos idiotas está lá, quer minha caça, discutimos, o tempo todo ele acha que pode me assustar.
─É meu! Ele diz – É meu, as regras da caça não funcionam aqui!
─Eu estou aqui desde que o sol nasceu! Aviso não vou me dobrar para um idiota como aquele.
─Sabe cara, aposto como foi uma vadia quem virou sua cabeça, estou certo? Alice me vem à mente, pego meu coelho e lhe dou as costas, mas ele não para de falar – Te deixou assim, andando feito um zumbi, tudo isso por conta de um rabo de saia, devia ser das boas – Pego minha faca, não vou deixar que fale dela, ninguém fala sobre ela, eu a deixei sozinha, sou um infeliz, mas ele não vai falar dela – Sabe deixa eu te dizer uma coisa, elas não duram muito hoje em dia — A ideia de que ele pode estar certo me deixa cego, Alice é forte, precisa ser, me viro com a faca na mão, mas então Joe me segura, já entendi que é o líder deles.
─Calma ai! Ele diz, está sempre com aquele ar apaziguador, esconde sua verdadeira personalidade, sei disso, mas me contenho porquê de algum modo me faz sentir como se fosse Merle e Merle sempre teve um certo poder sobre mim – Falou é meu? Joe questiona, o babaca confirma, exige que me deem uma lição, Joe se nega, fala sobre as regras do grupo, regras que criou na estrada.
─Não vou dizer é meu! Aquilo é ridículo, mas Joe insiste, me avisa como funciona com eles e parte o coelho no meio, o rosto de Alice me volta a mente, preciso encontrá-la, não é o momento de me rebelar e acabar morto.
Voltamos para a estrada, o que importa é estar seguindo para os trilhos, vou encontrar com ela, sei que sim.
Hecatombe! A lembrança me invade a mente, ela preenche o ambiente, tem a boca suja o rosto vivo e está sempre metida em encrenca, se engalfinha com zumbis, acaba de refém nas mãos de algum maluco, me tira do sério e me faz querer viver, é uma multidão, mas sem ela eu não sou coisa alguma, só o cara que anda com idiotas, que precisa reivindicar cama, comida e qualquer outra tolice que esses babacas inventam, funciona para o irmão de Merle Dixon, mas não sei mais quem eu sou, o quanto restou dele depois de tanto tempo.
Estamos nos trilhos, Joe caminha ao meu lado, quer me arrancar informações, promessas, aviso que não pretendo ficar, digo que apenas quero um outro lugar, ele não gosta muito, insiste comigo.
─Está aqui agora, precisa de um grupo – Começa com aquela filosofia de violência que reconheço, zumbis se aproximam, dois apenas, eles se divertem matando os dois, riem enquanto fazem isso, olho com certa repulsa, com medo de ser como eles.
Achei que não era mais assim, que era um homem diferente agora, mas se fosse eles já teriam me matado, reconhecem em mim o velho encrenqueiro, o cara criado nas ruas, o Dixon afinal.
─Deixa eu te dizer uma coisa Daryl, não tem nada mais triste que um gato de rua achar que é domesticado! Joe me dá as costas, fico ali, paralisado, talvez ele esteja certo, talvez eu seja mesmo apenas um gato vira-latas que pensou ser possível viver num lar, talvez Alice esteja melhor sem mim, nem ao menos pude protege-la.
Assim que entramos e nos certificamos que o lugar está limpo começa o jogo deles.
─É meu!
─É meu!
O tempo todo escolhendo lugares, brigando por pequenas coisas, não vou cair nessa, me deito no chão, no meio dos carros, cada um se arruma em um canto e o silencio domina o ambiente, a noite não demora a cair, mais uma noite sem ela.
Meu coração fica angustiado, talvez não procurar seja o melhor, não saber, se descobrir que Alice... A ideia me deixa angustiado, me levanto e deixo o galpão um instante, respiro o ar gelado, olho para os trilhos diante de mim, não sei mais quem eu sou, essa ideia fica o tempo todo martelando minha cabeça.
Joe e seu grupo parecem procurar por alguém, chegam a conclusão que quem quer que seja não esteve ali, fico me lembrando disso, eles acham que estão perto, mas isso não me importa, tenho minha própria busca ou fuga, estou confuso demais.
Pela manhã o idiota vem para cima de mim com a maldita história do coelho, quer de qualquer jeito me acusar, Joe se aproxima.
─Foi você quem pegou, quem mais estaria interessado em uma maldita metade de um coelho?
─Você não esquece isso idiota! Eu grito.
─Calma aí! Joe pega meu saco, sim agora é assim que levo minhas coisas, numa porra de um saco preto inútil, ele joga minhas coisas no chão e lá está a metade do coelho.
─Armou para mim! Grito acusando o idiota, agora estão todos de sobre aviso, sabendo que alguma merda grande se aproxima.
─Então ele pegou sua metade, você tem certeza disso, não armou para ele como aqueles policiais de merda faziam? Joe questiona.
─Não eu não fiz isso.
─Daryl você pegou o coelho?
─Eu não peguei merda nenhuma! Joe concorda e então derruba o cara com um único soco.
─Deem uma lição nele, uma boa lição! Ele ordena a seus homens – Eu vi quando ele colocou o coelho na suas coisas, ele mentiu, você não, você entende as regras, ele não! Joe se afasta, os homens começam uma seção de espancamento, me afasto.
Não, eu não sou mais esse cara, de tanto fingir que era diferente me tornei diferente, não sou mais o cara que fere as mãos torturando garotos em busca de informações, esse cara ficou lá atrás, espancando Randall em uma fazenda, eu não posso mais participar disso.
“Me acha uma delícia!” A voz de Alice me atinge, sim, é ela, eu a quero, mereço, mudei, sai da merda da vida que eu tinha, coloquei fogo no passado, no cara que era e odiava ser, no filho do bêbado, vou encontrar minha mulher, ela vai dizer que demorei, que sou um troglodita, e vou responder que é uma idiota, mas Alice é minha e vou atrás dela nem que seja a última coisa que eu faça.
Deixamos o galpão, passo pelo corpo do cara estendido no chão, está morto, uma flecha no meio da cabeça, passo por ele e sigo com Joe e seu grupo, apenas mais um pedaço, na primeira oportunidade dou as costas a esses babacas e vou fazer o que sei fazer, caçar Alice.
Continuamos mais um tempo, Joe me oferece bebida, dou uns goles, ele fala de como esse mundo foi feito para gente como nós, mas agora isso não me afeta mais, não sou como ele, simplesmente não sou e sei disso.
Pegamos os trilhos de novo, tem uma placa, Terminus, paro para ler.
─Já viu isso antes? Eu pergunto, será que ela viu, Alice, será que minha Alice está a caminho de terminus, quem sabe me esperando.
─Já, é uma mentira, não existe santuário para todos, não vão receber caras como eu e você de braços abertos.
─É para lá que estamos indo? Iludi-lo um pouco é bom, não quero que fique em dúvida sobre mim, não ainda.
─Agora faz parte do grupo?
─É isso ai!
─Estávamos numa casa cuidando da nossa vida quando um sujeito de merda escondido lá estrangulou um dos nossos e deixou o cara lá para se transformar e nos pegar seguimos ele, veio para esses trilhos.
─Viu a cara dele?
─Só o Tony, mas já dá para reconhece-lo.
Continuamos caminhando e então Tony caminha em direção de algo no chão, é uma peça de roupa.
─É meu! Reivindico, ele se afasta e então me abaixo para pegar, meu coração dá um pulo, é ela, minha maluca deixou uma pista, uma blusa minha, ela não desistiu de mim, não recuou, deixo que passem na minha frente, ele seguem andando e paraliso um instante – Vou encontrar você Alice.
Me sinto leve de novo, vivo e cheio de esperança, aquela idiota sabia que eu iria ficar maluco um tempo, mas depois seguiria atrás dela e me deixou pistas, isso é para que eu acredite, que tenha esperança e confie.
Agora preciso me livrar desses babacas e encontra-la antes que eles a encontrem.
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