Caminhando entre os mortos
56 Capitulo 56 - Lágrimas
Notas iniciais
Pov – Alice
Assim que ficamos mais uma vez em condições de respirar, ficamos de pé, não dá tempo de pensar muito, é preciso sair dali.
─Para onde vamos? Eu pergunto a um Daryl completamente fechado, ele mal me encara, eu sei que perdemos muito, nem posso mensurar o que é para ele, essas pessoas estão com Daryl desde o começo, são seus irmãos e irmãs, ele nunca esteve assim, não é como eu, já perdi tudo uma vez, sei como é.
─Caminhar! Ele me responde seguindo em frente.
─Só isso? Eu questiono – Quer dizer, não vamos montar um plano, quem sabe buscar pessoas, arrumar abrigo?
─Não Alice, não vamos brincar de 007 hoje, então apenas caminhe.
No momento eu obedeço, eu sei que não vou obedecer para sempre, não combina comigo, mas acho que agora ele precisa se acalmar um pouco, se refazer.
Anoitece mais uma vez, estamos na floresta, eu levo apenas meu machado e uma pistola, Daryl sua besta e a faca.
Sinto o cheiro podre entrar por minhas narinas, só pode ser um número grande, olho para ele e então ouvimos os gemidos, os passos arrastados pisando nas folhas secas.
─Vamos! Ele me puxa e continuamos a correr, fico com a sensação que vamos correr para sempre.
Chegamos a estrada e sei que estamos sendo seguidos pelos mortos, tem um carro parado, arrebentado demais para funcionar eu penso, mesmo assim decido tentar, ele não funciona os mortos estão perto, nos olhamos um segundo e Daryl ergue o porta-malas, reviro os olhos quando entro, ele passa seu lenço ridículo trancando, às vezes me irrita um pouco que ele carregue isso sempre, mesmo que me diga que não tem importância. Eu sei que estou sendo o mais idiota possível, estamos sendo seguidos por um monte de zumbis e estou preocupada com a merda do lenço que ele carrega no bolso.
Eles passam, posso ver pelo pequeno vão, muitos deles, gemendo e arrastando os pés, ficamos mudos, Daryl com a besta pronta para o caso de sermos notados, o que mais me incomoda é o silencio, não poder falar me deixa fora de mim.
Eles são lentos e insistentes, demora muito tempo para terminarem de passar e mesmo assim não nos mexemos, ficamos ali, paralisados, e silenciosos até o dia amanhecer, eu detesto cada segundo daquilo, o silencio, o ambiente e o completo distanciamento de Daryl.
Cansada daquela merda toda abro o capo, que se dane, já é dia e não podemos ficar ali para sempre.
Saímos em silencio, acho que Daryl nunca mais vai falar comigo, começamos a reunir o que encontramos e depois seguimos pela estrada.
─Ainda estou um pouco doente sabia? Digo uma hora depois, ele me olha e volta sua atenção a estrada – Não está com pena?
─Muita! Daryl responde e então mais uma vez um carro arrebentado surge, juntamos mais coisas.
─O que vamos fazer?
─Voltar para floresta, montar um acampamento e vou caçar!
─Detesto caçar! Eu o lembro.
─Não é um convite! Ele me diz de péssimo humor – Vem!
Que merda, eu sei que não somos os únicos, que tem mais de nós por ai, ele não pode simplesmente deixar que se percam para sempre.
─É um rastreador de merda sabia? Eu digo parando de andar, ele me olha sério – É isso que ouviu, sua família está por ai e não moveu um dedo ainda para encontra-los!
─Preciso proteger você, não vamos achar ninguém, já caminhamos muito, foi difícil nos afastarmos dos zumbis.
─Não precisa me proteger porra nenhuma, e se é mesmo um rastreador pode acha-los, afinal eles também caminharam muito, vem, vamos entrar de novo na floresta e achar nossa família.
─Nem sabe se alguém...
─Tem crianças sabia, se lembra, crianças? Eu o lembro, ele me olha por um momento, está decidindo.
─Está doente, se lembra?
─Eu já sarei, quero procurar as pessoas!
─Pode se decidir? Ele reclama – Acaba de falar que está doente ainda.
Eu não perco tempo respondendo, apenas entro pela floresta seguindo em direção a prisão, ele me segue.
─Para! Me diz um tempo depois – Vem por aqui! Está atento ao chão, eu só vejo o de sempre, terra, folhas secas e galhos.
Vamos seguindo o tal rastro, Daryl concentrado, atento a cada centímetro no chão, depois de algumas horas paramos, tem corpos de zumbis no chão, ele vai me contando o que aconteceu, e me deixando assustada.
─As coisas ficaram feias aqui, tiveram que correr! Ele me avisa e seguimos na direção que correram.
─Está todo mundo morto! Ele me diz desanimado.
─Está vendo algum corpo? Eu digo irritada – Então tenha esperança.
─Que nos serve esperança, não serve para coisa nenhuma é o que digo, coisa nenhuma ouviu, me diga o que toda a esperança do Hershel serviu para ele?
─Grosso! Eu o ataco, devia ser mais compreensiva, mas ele me tira do sério, chegamos a uma linha de trem, ao lado dos trilhos alguns corpos, entre eles sapatos infantis.
Fico com as pernas bambas só de pensar na cena que aquele ambiente descreve, engulo em seco, Daryl me olha, não tem mais nada, meus olhos se enchem de lágrimas, queria muito ser o tipo que se entrega as lágrimas, queria ser mesmo aquelas garotas frágeis que necessitam ser cuidadas e protegidas, mas de fato não sou e não vou me entregar agora.
Encaro Daryl que está a alguns metros de mim, sério e fechado, nem parece o meu Daryl, respiro fundo, engulo em seco, me ergo, encaro Daryl, e caminho por entre os mortos em direção a ele, não importa por quantos corpos eu tenha que passar, se vão estar caídos ou reanimados, eu sempre vou caminhar para ele.
Acho que ele sabe ou apenas sente, porque sua mão segue de encontro a minha e seguimos em frente, eu não desisti, se estou viva outros estão, uma hora nossas vidas se cruzam mais uma vez.
No meio do dia decidimos montar um pequeno acampamento na floresta, passamos alguns fios por entro as árvores, eu prendo algumas latas, alguns objetos, só quero evitar sermos pegos desprevenidos.
─Vou buscar comida! Daryl me diz passando pelos fios que fazem um tilintar conhecido, enquanto Daryl caça a minha volta preocupado demais para se afastar muito, eu acendo uma pequena fogueira, ele volta trazendo uma cobra, abre, limpa, coloca para assar, tudo no mais completo silencio, apenas assisto seus movimentos perfeitos de quem sabe o que faz, de quem sempre fez.
Ele divide a carne comigo, se senta um pouco distante, não sei o que fazer para tira-lo daquele transe.
─Acho que a gente devia tomar um porre, e fumar um cigarro! Ele continua mastigando – Não acha uma boa ideia encher a cara?
─Acho que se esqueceu como seu último acampamento caiu, seus amigos estavam bêbados pelo que sei!
─Sim, foi o que Bob disse, mas e daí, vamos logo, se mexe, vamos sair daqui e beber!
─Bebe água! Ele me atira a pequena garrafa.
─Troglodita! Eu digo e ele continua mastigando aquela carne ruim enquanto fingia que eu não existia.
Mastigo mais um pedaço da carne, depois me deito no chão olhando para o céu, o dia ainda está claro, não tenho nenhuma intensão de passar meus dias acampada no meio da floresta só porque Daryl Dixon assim decidiu, e muito menos fazer isso longe dele como estou nesse momento, sei o que fazer.
─Bom se quer ficar ai divirta-se, vou encher a cara! Me levanto deixando ele sozinho.
Ele não me segue, caminho pela mata e meia dúzia de zumbis surgem, me escondo esperando que passem, um deles vem em minha direção, atiro uma pedra, o barulho chama a atenção do infeliz que se afasta, me viro e lá está Daryl me olhando feio, sorrio querendo quebrar o gelo.
─Idiota! Ele me diz abaixando a besta – Vamos!
Eu o sigo e então estamos de volta no acampamento, pego minha mochila, lá está minha lanterna, não salvei minha boneca, mas minha lanterna está comigo e isso é o que de mais valioso eu tenho no momento.
─Se quer passar o resto dos seus dias comendo cobra acampado na floresta divirta-se eu não vou ficar aqui!
─Claro que não, vai se comportar como a menininha de cinco anos de sempre!
─Vou! Eu grito só para irrita-lo, quero que saia do sério, que reaja.
─É uma idiota!
─E você um troglodita infeliz!
─Quer uma bebida, certo, vamos achar a droga de uma bebida para você!
Ele sai na frente, caminha atento, vamos apenas evitando os zumbis que surgem até avistarmos um campo de golfe, zumbis caminhavam por lá e logo estão a nossa caça, nos dirigimos a sede do clube, a primeira porta que tentamos está trancada, os zumbis se aproximam e vamos para a segunda, entramos e o cenário é tão terrível como todos os outros.
Vamos caminhando e ao olhar em volta uma história vai sendo contada, um grupo grande de pessoas se refugiou aqui, ricos, com sua louça cara e maços de dinheiro, Daryl os recolhe, coloca numa mochila, deve servir para alguma porcaria ou ele não pegaria.
Tem pessoas enforcadas, agora zumbis ansiosos por sua primeira refeição transformados, vai ficar para uma outro vez, eu penso enquanto continuamos investigando, o lugar caiu, agora só resta corpos e bagunça, os zumbis forçam a porta, nos encontraram afinal, vão acabar conseguindo entrar, corremos mais para dentro do lugar, pegamos um corredor, depois outro, cada vez mais dentro do clube, só queria um copo de qualquer coisa que amortecesse a dor que estou sentindo no momento.
Achamos uma sala, devia ser a loja do clube, tem roupas próprias para os jogadores de golfo, me lembra tanto a droga da vida que meu pai queria para mim, é tão angustiante estar no meio de tudo aquilo, fica tão claro que não tem mais qualquer importância.
Troco de blusa, arrumo os cabelos, sim o mundo acabou, mas continuo sendo uma garota.
Seguimos mais para dentro e encontro uma cozinha me afasto de Daryl e num armário encontro uma garrafa, me penduro para alcança-la enquanto Daryl remexia as prateleiras em busca de comida, cada um com suas prioridades.
─Isso deve ser uma merda! Eu digo com a garrafa na mão, então um zumbi, vindo das profundezas do inferno porque essa é a única explicação para eu não tê-lo notado, avança sobre mim, seguro seu pescoço, tento impedi-lo e acabo tendo que acerta-lo com minha garrafa, ele cai e então Daryl está me encarando – Agora são membros dos alcoólicos anônimos! Ele balança a cabeça se afastando – Foi uma piada ruim assim? Pergunto.
─Vamos! Mas agora é só isso que sabe dizer.
Zumbis surgem pelo lugar, saímos correndo, vou na frente ele me segue e entramos numa sala, então ele para, pega um taco de golfe e espera os zumbis, vai matando um por um descarregando toda sua fúria, eu fico parada, apenas assistindo seu ataque, seu dia de cão, o último fica no chão, sendo espancado por Daryl, depois ele acerta sua cabeça e a merda do sangue podre de zumbi espirra em mim é o apocalipse afinal, não se pode ficar muito limpo!
─Se espancar zumbis te faz sentir melhor, encher a cara é meu plano então me ajuda! Eu digo dando as costas a ele e seguindo em frente, finalmente o bar, está todo arrebentado, tudo que encontro é uma porcaria de uma garrafa de sei lá o que que tem uma cara horrível.
Ele fica andando pelo lugar enquanto encaro a garrafa, queria que Beth estivesse comigo, tínhamos combinado de tomar um porre juntas um dia, seria sua primeira bebedeira, Carl queria que esperássemos ele ter idade para isso, foi numa tarde de jogo, Zack disse que providenciaria a bebida, rimos como idiotas, felizes como se o mundo fizesse algum sentido.
Finalmente me dou conta que acabou, nunca mais vou estar com eles, perdemos tudo, não sei mais quanto tempo temos, onde vamos dormir e o que vamos comer, acabou e parece que jamais vamos ter grades para nos separar dos mortos.
O choro finalmente chega, finalmente a garota frágil que precisa de proteção surge e toma conta de tudo, me entrego por um momento, Daryl toma a garrafa da minha mão e atira longe, ela se quebra em mil pedaços como meu coração.
─Sei onde pode tomar uma bebida de verdade, vamos sair dessa merda de lugar!
Eu o sigo, de algum modo me sinto de novo perto dele, se ele pudesse apenas chorar, desabafar o que está sentindo, talvez pudesse se sentir de novo vivo e esperançoso, se não encontrarmos esperança então de nada adianta seguir em frente.
Voltamos para floresta e caminhamos por algumas horas, já estava achando que era mentira quando uma casa surge e ele me aponta.
─Aqui! Me leva até uma porta, abre é como um deposito de bebida ilegal, pegamos as garrafas, na verdade potes com um liquido transparente que eu bem podia confundir com água, entramos na pequena casa, mísera para ser honesta, ele me serve uma dose.
─Divirta-se! Me diz e dou um gole, sempre detestei beber, meu plano era só deixa-lo irritado, só queria fazê-lo se mexer um pouco, faço uma careta.
─Nojento! Digo tomando mais um gole – Até que melhora depois do primeiro, que porra é essa?
─Bebida de verdade!
Eu tomo mais uns goles, me sirvo de mais, quem sabe isso acalme mesmo meu coração.
─Bebe comigo! Convido.
─Não, alguém tem que manter a segurança, não bebe de uma vez.
─Sim senhor Dixon! Abro um sorriso e ele é claro não corresponde, mas decide beber também, se serve e toma de uma vez, depois pega mais um copo.
Decido arrumar um pouco o lugar enquanto ele vai fechando as janelas com pedaços de madeira, acho coisas engraçadas, como um tipo de vazo em formato de seios que me diverte, Daryl me olha um instante.
─Não estou bêbada! Eu aviso – Ainda! Completo, ele se volta para o trabalho, ouvimos um gemido – Quantos? Eu pergunto.
─Só um, deixa ele ai, não está incomodando! Daryl continua seu trabalho e sua bebida.
─Podemos transformar esse lugar num lar por enquanto.
─Lar? Ele explode – Acha que isso se parece com um lar? Eu o olho espantada, não esperava aquele ataque – Sim, é claro, meu pai diria que sim, é a cara dele, acredite, eu conheço essa porra de lar que está falando, olhe aqui a poltrona do meu pai! Ele me aponta a poltrona – O balde onde ele cuspia o verão todo enquanto fazia todas essas merdas de objetos velhos de alvo para treinar seus malditos tiros, aqui está a internet! Ele atira uma folha de jornal velho para longe – Vou te dizer uma maldita coisa, cresci aqui, nunca sai dessa merda de lugar.
─Ou essa merda de lugar que nunca saiu de você? Eu pergunto, ele vem até mim, está furioso.
─É o que acha? Justo você? Ele me pergunta gesticulando – A garotinha rica filinha de papai que fugiu de casa para chamar atenção? Me espanto – O que sabe sobre mim, nada, não sabe nada, mas posso dizer que nunca acampei com amigos, nunca tive férias de verão, não ganhei um maldito presente de natal e ninguém nunca soube quando era a porra do meu maldito aniversário! Meu coração dói com suas palavras, com o que ele passou, eu sempre soube que ele teve uma droga de vida, mas nunca forcei que me dissesse, achei que não importava quem éramos antes, eu não imaginava nada daquilo, não pensei que o fizesse sofrer tanto e me sinto culpada.
─Daryl fale mais baixo!
─Está com medo, vamos Alice, vamos nos divertir um pouco, não é isso que gosta, não é assim para você, que se dane o apocalipse e as pessoas morrendo vou apenas viver, vamos acabar com aquele imbecil lá fora!
Ele me puxa pelo braço, não o reconheço, lá fora acerta uma flecha no zumbi, o prende de encontro a uma árvore.
─Vai Alice, divirta-se, vem aprender finalmente a usar a Besta! Eu o empurro quando ele me puxa mais uma vez, o zumbi está ali, preso gemendo caminho até ele e acerto minha faca – O que está fazendo, estávamos nos divertindo.
─Isso não é para ser divertido! Eu grito, agora tão furiosa quanto ele – Eu sei o que está sentindo, eu sei que está com medo!
─Eu não tenho medo de nada! Ele grita a um milímetro de mim.
─Tem, tem medo de sentir, de lembrar, tem medo de tudo que perdemos, sente falta das pessoas, eles estão por ai, ainda podemos...
─Estão mortos! Ele grita mais uma vez me cortando – Todos mortos! Então me dá as costas, eu nunca o vi assim tão frágil, desesperado e perdido, meu coração se aperta, quero ajuda-lo – O governador entrou com aquele maldito tanque, derrubou nossas cercas, acabou com tudo, Hershel... eu podia ter feito algo, ele estava lá fora, eu não... eu desisti de procurar e ele acabou com tudo! Daryl chora, meu homem, meu amor se entrega as lágrimas, o homem mais importante da minha vida, chora e apenas o abraço.
─Eu não fiz nada! Ele me diz, me aperto mais a ele.
─Não podia saber, ninguém previu o que viria, foi o governador, mas podia ser outra coisa, qualquer coisa, os zumbis nas cercas, a merda daquela doença, não é sua culpa.
Ficamos assim, abraçados choro com ele, acho que nesse momento choro por ele, por sua dor, por tudo que perdeu, me dói não poder tirar essa dor dele como tantas vezes ele fez comigo, mas vamos ficar juntos, isso é o que importa agora e um dia vamos sorrir de novo.
─Amo você! Eu digo e ele me envolve, as lágrimas chegando ao fim.
─Também amo você! Ele me diz se recompondo, finalmente, agora sim estamos juntos, agora sim podemos recomeçar.
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