Caminhando entre os mortos
15 Capitulo 15 - Caçar, brigar, beijar...
Notas iniciais
Pov – Daryl
Claro que preferia mil vezes beijar Alice a andar pela floresta atrás de esquilos e coelhos, mas temos pessoas para alimentar, ela inclusive, e além disso a floresta está cheia de perigos, zumbis, e quem sabe que tipo de sobreviventes podemos encontrar, nem quero imaginar ela de refém mais uma vez.
Seguimos em frente, ela me segue silenciosa, eu sei que isso está lhe custando toda paciência, Alice fala sem parar, mas ela é esperta, entende que preciso ouvir a floresta.
Mesmo sabendo que é perigoso gosto que ela esteja aqui comigo, Alice me faz sentir tantas emoções diferentes que nem sei mais como classificar o que sinto, e agora simplesmente parece que começamos algo, quis falar sobre isso, tentar entender e dar um rumo, quem sabe mesmo parar enquanto era tempo, mas ela não quis ouvir, e no fundo acho que de nada adiantaria conversar, eu a beijaria de novo e de novo, simplesmente não sei ficar longe.
Me viro para esperar por Alice, ela vinha caminhando um pouco mais atrás, tão perdida em pensamentos quanto eu, Alice tropeça num galho de árvore e cai, ela é boa nisso.
−Cassete! Ela se levanta, a mão suja de barro e sangue – Essa porra de galho me derrubou e olha o que fiz na merda da minha mão!
−É só te ouvir falar e logo se vê que estamos diante de uma dama! Eu digo me aproximando, como essa garota pode ser tão única?
−Você e seus ouvidos delicados! Ela resmunga, puxo o lenço do bolso de traz da calça.
−Deixa eu limpar para você!
−Esse lenço é de mulher! Ela constata quando me aproximo dela e seguro sua mão.
−Era da Carol! Eu respondo e então ela puxa rápido a mão, eu a olho sem entender.
−Anda com um lenço da Carol no bolso? Está mesmo brava eu posso notar, não sei bem porque, mas está.
−Bem agora é meu! Eu aviso – Deixa eu limpar isso para não infeccionar.
−Não vai passar o lenço da Carol coisa nenhuma!
−Deixe de ser ciumenta, temos que limpar isso.
−Ciumenta? Me chamou de ciumenta? Ela me encara cheia de raiva, escondo o riso por que acho que isso vai irritar ainda mais Alice – Quer que limpe a mão, aqui está – Ela passa a mão suja de barro e sangue na minha camisa, me suja todo, faz questão de esfregar bem a mão, fico tão perplexo que não tenho reação – Pronto, está limpa! Ela me mostra a mão machucada e ainda suja, olho para ela e depois para minha camisa toda melada.
−Você só pode ser doente mental! Porque diabos fez isso?
−Vá para o inferno, você e esse seu lencinho delicado! Alice me dá as costas e sai caminhando na frente.
−Tudo isso porque disse que é ciumenta, me chama assim o tempo todo!
−Mas você é ciumento e eu... Eu... Cale a boca que não estou falando com você!
−Pois não parece, parece que está falando comigo sim!
−Eu não estou mais falando com você!
Ela caminhava na frente, apresso o passo para poder alcança-la, essa mulher ainda vai me enlouquecer, sim, eu vou acabar completamente maluco, garota infernal!
Alice não me olha, só caminha pela floresta, não sei muito bem onde pretende ir, e embora definitivamente eu não ache que preciso me explicar não custa nada dar a ela uma satisfação.
−Eu era muito difícil quando o grupo se formou, logo no começo, muito mesmo, simplesmente não me encaixava – Ela diminui um pouco o passo, sei que está me ouvindo embora não me olha, afinal ela não está falando comigo – Era explosivo, mal humorado, mais do que agora, muito mais, meu irmão, Merle ele não era diferente e nas primeiras semanas foi deixado num telhado em Atlanta, foi um inferno para mim, voltei lá com Rick, Glenn e um outro que não conheceu, ele cortou a mão e partiu, chegamos tarde, eu fiquei mais revoltado que nunca, mas nunca soube viver sozinho e no fundo eu sabia que aquelas pessoas precisavam de mim, fiquei com eles, deixamos o acampamento, o marido da Carol foi atacado nessa época a filha dela sumiu e eu cacei Sophia noite e dia, Carol era a única que se aproximava de mim, ficamos amigos e foi só, na prisão teve um ataque achamos que ela tinha morrido, Carol era minha amiga, nada mais, nos unimos por conta da menina dela e fiquei triste, fizemos até um túmulo simbólico para ela, guardei o lenço, depois ela estava viva e ficou tudo bem, me esqueci do lenço e ele virou só um lenço mesmo, nada de qualquer significado, nem me lembrava que era dela.
Alice para e me olha, não sei se está brava ainda.
−Pretendia beijar você, mas não está falando comigo! Não custa apelar um pouco, ela gosta de me beijar, já disse isso algumas vezes.
−Não preciso falar com você para beijar você! Ela diz e então se aproxima e eu a beijo mais uma vez, um longo beijo, depois me afasto jurando que foi a última vez que fiz isso na floresta, não posso colorar a vida dela em risco – Ainda estamos de mal! Ela diz séria – Daryl logo atrás de você tem um cervo, me mostre seus talentos e quem sabe ficamos de bem! Ela sussurra, armo a besta o mais lentamente possível, evitando o barulho – Shiu, ele ergueu as orelhas!
Me viro e lá está ele, lindo e adulto, “oi jantar”, eu penso quando miro a besta e disparo a primeira flecha, ele fica atordoado, e então disparo a segunda e o cervo cai, caminho até ele e retiro minhas flechas, é um animal grande e vai alimentar todos por uns dias.
−Obrigado! Eu digo muito contente, sei que é difícil para ela, mas quando penso nas pessoas que vamos alimentar só posso ficar feliz.
−Você é bom! Ela me diz e sorrio.
−Faço isso desde criança!
−Não é disso que estou falando, você é um homem bom.
Me viro para olhar para ela, ela sorri, sorrio de volta.
−Está falando comigo?
−Sim! Ela dá de ombros – Mas eu não sou ciumenta, já você é um poço de ciúme, chega a me sufocar! Ela diz rindo – Precisa me dar espaço, fica me agarrando o tempo todo, não sai da minha cela, me quer só para você!
−Definitivamente falta oxigenação no seu cérebro.
−Meu cérebro é incrível! Ela diz como se estivesse falando uma grande verdade – Não vou te ajudar a carregar isso.
−Quando foi que pedi sua ajuda?
−Eu não iria ajudar mesmo!
−Não preciso, posso muito bem carregar um cervo sozinho, não vai ser o primeiro e espero que não seja o último!
−Eu também! Ela diz e então olha em volta – Daryl tem dois zumbis vindo, eu vou...
−Vai ficar bem ai! Eu solto o cervo que já erguia e pego a besta de novo.
−Posso fazer isso! Ela avisa – São só dois!
Ela caminha em direção a eles eu a sigo praguejando, garota infernal, sem limites, ela acerta seu machado no primeiro, abre uma rachadura em sua cabeça, um golpe muito bom eu não posso negar isso, o outro apressa o passo, faminto, ergue os braços, eu o deixo na mira, mas não faço nada, deixo que Alice faça já que quer tanto mostrar que pode, ela repete o movimento, o zumbi cai lentamente e quando ela se vira para mim sorri muito orgulhosa de si mesma, é bonito de ver sua alegria, os olhos brilham.
−Viu isso? Ela corre para mim e me abraça, fico surpreso – Sou uma matadora profissional, posso até te dar umas aulas!
−Ridícula isso é o que você é! Eu brinco.
−Acho que tenho que te dar umas aulas de abraço também! Ela diz, está com os braços em volta de mim, mas não correspondo, não sei muito fazer isso, sempre fico meio atrapalhado com isso, me achando meio ridículo.
−Acho que temos é que voltar logo para casa! Eu a afasto o mais gentil que posso.
Pego o cervo e seguimos de volta, o bicho é bem pesado, caminhamos lado a lado, Alice falando sem parar agora que sabe que não estou mais caçando.
−Eu não sei porque não montam umas armadilhas na floresta para pegar esses animais já que são tão importantes, você é o único caçador do grupo, nunca vai conseguir alimentar todos se demora um dia todo para caçar meia dúzia de esquilos e precisa de mim para achar um cervo para você!
−Eu não preciso de você para coisa nenhuma! Que mulher estúpida, mas de fato a ideia é realmente boa, eu perco mesmo horas numa caçada e nunca é como deveria, precisaria de dias na floresta para pegar carne suficiente para todos, umas armadilhas seriam perfeitas.
−Claro que precisa!
−Para que Alice? Eu teria visto o cervo sozinho!
−Que ingrato, eu devia ter deixado o bicho ir embora, estávamos de mal, mas fui ser legal com você, e agora diz que não precisa de mim para nada! O cervo está pesado demais para que ainda fique gastando energia numa briga sem sentido, como aliás são todas as brigas com Alice, eu me calo, ela faz o mesmo, não por muito tempo é claro, a prisão parece que fica a cada passo mais distante.
−Quer ajuda? Ela pergunta meia hora depois.
−Não!
−Porque sou uma garota?
−Não!
−Porque acha que sou fraca?
−Não, eu estou bem e alguém disse que não pretendia me ajudar!
−Mudei de ideia, nunca aconteceu com você?
−O tempo todo, as vezes acho que é idiota, depois de uns minutos mudo de ideia e tenho certeza que é!
−Mas mesmo assim você me adora e é mais feliz agora que eu existo na sua vida!
−De onde vem tanta certeza?
−Não é uma certeza, era só um empurrãozinho para você dizer é isso Alice, sou um homem muito mais feliz depois que chegou na minha vida!
−Esqueça. Não vou dizer! Eu respondo e finalmente a prisão surge.
−Está sendo mal comigo!
−Um monstro!
−Só queria ajudar, mas tudo bem. Quando vamos caçar de novo?
−Quando for preciso.
−Então eu vou junto?
−Eu tenho escolha? Ela viria de qualquer modo, querendo eu ou não e na verdade eu quero, mas nunca vou admitir.
−Definitivamente não, vamos ser uma dupla agora, comemos juntos, caçamos juntos e saímos em missões de busca juntos!
−Um pesadelo! Eu respondo já chegando nas grades.
−Mas tem os beijos que são como bônus! Eu começo a rir porque ela diz tanta bobagem que simplesmente não resisto, felizmente Tyreese vem correndo e me ajuda com o cervo, que com minha risada dobra de peso.
As pessoas se aproximam, todos querendo ver o bicho e falar sobre a caçada, Alice some para nosso bloco, eu não a vejo mais o restante do dia, ela é mesmo como uma multidão e tudo fica mais silencioso sem ela, as outras pessoas não exigem muito de mim, simplesmente se conformam que falo pouco e não insistem.
Eu tomo banho, a blusa toda melada eu devia entregar para aquela maluca lavar, mas decido não fazer isso, não quero que ela se lembre do assunto e recomesse com a ladainha, me reúno a Rick e Hershel, conversamos um pouco sobre as coisas da prisão, os novos membros e a comida, falo sobre as armadilhas.
−Essa garota é cheia de ideias! Hershel elogia.
−Amanhã podemos fazer isso eu e você, assim todos os dias um dos dois pode ir lá fora ver o que pegamos, é claro que os zumbis sempre podem achar antes, mas ainda assim vai ser uma boa tentativa.
Rick está muito animado, acabo concordando, não é meu estilo, sei fazer armadilhas, todo tipo delas, sempre preferi caçar com a besta, mas podemos tentar.
−Certo, amanhã fazemos isso.
−Vou ver o que encontro de material! Rick avisa – Viram Carl e Judith?
−Eles estão no bloco, vi os dois indo com a Beth na cela da Alice! Hershel avisa – Quando Alice não está com o Daryl está com eles.
−Vou indo! Eu e Alice na mesma frase não é boa ideia, logo o assunto vai começar a ficar pessoal e detesto isso, sigo para dentro, Carol estava cozinhando sozinha, normalmente Beth a ajudava.
−Sozinha? Eu pergunto.
−Beth está com Alice, não é só a você que ela parece fazer bem! Eu reviro os olhos.
−Vou descansar um pouco! Aviso me afastando.
−Amanhã vamos ter uma ótima refeição! Ela sorri, eu devolvo o sorriso e me afasto.
Subo as escadas e logo que chego ao andar de cima escuto vozes animadas na cela de Alice.
−Ganhei de novo, já limpei vocês dois! Alice diz rindo.
−Devia apostar sua lanterna se é tão boa! Carl reclama.
−Nunca, ela é tudo que tenho! Alice responde e fico ainda mais curioso sobre a importância que dá a essa porcaria de lanterna.
−Vamos de uma vez que logo a Judith vai precisar mamar e deixei a Carol sozinha.
−Então essa é a última!
Abro a cortina e assisto aos três sentados no chão jogando pôquer, eles não me veem, tem entre eles um monte de pedrinhas e algumas outras coisas.
−All in! Alice diz orgulhosa empurrando tudo que estava diante dela para o centro, Carl joga as cartas na mesa resmungando, Beth, fica na dúvida, morde o lábio, encara Alice, sorri de lado e paga para ver empurrando tudo que tinha.
As duas abaixam as cartas e Alice comemora a vitória, eles então me notam.
−Oi, quer brincar? Alice diz rindo, Faço que não, Judith resmunga no bercinho ao lado deles.
−Vamos descer, tenho que dar a mamadeira dela, amanhã quero uma revanche! Beth se levanta.
Eles saem rindo, muito contentes.
−Pôquer?
−Não é a dinheiro!
−Se fosse a dinheiro que diferença faria, vale menos que quase tudo hoje em dia! Eu respondo – Onde aprendeu?
−Nos mil acampamentos que passamos, Ethan e Chase adoravam, jogávamos todo tempo livre, de noite eu e meus sobrinhos jogávamos também, mas só de vez em quando, Emma não gostava.
−É boa?
−Muito, mas não se engane com aquela carinha de anjo da Beth, ela sabe blefar.
−Sei! Sorrio meio de lado – As cartas são suas?
−Sim, tínhamos uma regra, no caso de um ataque, primeiro o baralho, depois as crianças e por último as mulheres! Ela brinca, mas seu sorriso é um tanto triste, todos sabemos o que é largar tudo para trás e simplesmente seguir em frente – Ele acabou ficando comigo, sobreviveu.
−Te vejo depois! Eu deixo a cela e me sento na minha, aproveito a luz do fim do dia para limpar minhas flechas e pensar na vida, nas coisas que andam acontecendo comigo, no quanto estou disposto a mudar, não sei se posso ser o que Alice quer, nem mesmo sei se ela quer alguma coisa, o tempo todo ela parece apenas brincar com tudo.
Escurece e desço as pessoas estão comendo, recebo um sorriso aqui e ali, aceno para um e outro e me sento no meu lugar de sempre e então lá vem Alice toda cheia de sorrisos se senta do meu lado, muito do meu lado, quase no meu colo, mal posso me mexer, olho para ela sem entender.
−Para saber que estou aqui, vamos comer assim agora, bem pertinho um do outro!
−Que emocionante! Faço careta, as pessoas estão um tanto surpresas, nem acho que deveriam ficar, ela não sai do meu pé.
−Quando vamos sair em missão?
−Amanhã eu e Rick vamos espalhar umas armadilhas, depois de amanhã talvez.
−Prometi a Beth ajuda-la no trabalho amanhã, nossa dupla vai se desfazer, mas só amanhã.
−O que vão fazer?
−Ela quer pegar umas coisas lá em baixo, mas está com medo, vou com ela, Maggie também vai, se importa?
−Se me importar vai deixar de ir?
−Não, mas vou ficar feliz! Ela lambe os dedos.
−Me importo tome cuidado, embora ache que está limpo nunca se sabe e para de lamber os dedos assim na frente de todo mundo.
Ela suspira, pensa em dizer alguma coisa mais muda de ideia e se cala.
−E sua mão?
Ela abre a mão e me mostra os arranhões na palma, depois volta a comer.
−Não infeccionou e nem precisou do lencinho delicado!
−Vai voltar nisso?
−Não. Daryl, o Carl, ele é um bom menino, acha que o pai dele está certo em não deixar ele usar arma?
−Acho que ele é o pai e deve decidir isso, mas porquê?
−Cooper deu uma arma para o Andy, meu sobrinho, entramos numa loja, eu fiquei muito brava, não queria vê-lo armado, não queria arriscar, mas ele insistiu queria ser grande, proteger as pessoas, ele... Foi nesse dia que o perdemos, Carl me lembra ele e fico pensando se não é mesmo melhor ele saber o que fazer para não acontecer como aconteceu com o Andy.
−Ele sabe, não se preocupe, Carl sabe se defender, o que Rick quer é que ele entenda o limite, a diferença entre se proteger e atacar.
−Certo, são limites bem delicados, nem sempre temos certeza!
−Sente muito a falta deles não é, dos seus sobrinhos?
Ela só concorda com um movimento de cabeça.
−Não parece porque brinco demais, mas eu sinto.
−Parece sim, dá para sentir que tem uma coisa ai dentro.
−Você tem uma família Daryl, como sempre diz, eu não tenho nada! Ela pisca para afastar as lágrimas.
−Você tem uma lanterna!
−É eu tenho! Ela sorri e as lágrimas que quase amaçaram chegar se vão – E logo vou ficar sem baterias e vai ser o culpado.
−Vem vamos pegar essa malditas baterias de uma vez!
−Já quer ficar sozinho comigo, sempre querendo se aproveitar de mim!
−Você é que vive se aproveitando de mim!
−Me aproveito mesmo, você é bem... Ah! Eu não vou te elogiar, você nunca devolve o elogio, não sabe elogiar, não sabe abraçar, é um troglodita!
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