Calm The Storm
2 Terça-feira
Notas iniciais
–O que está fazendo aqui? – Kinana colocou as mãos na cintura com uma expressão brava batendo o pé freneticamente no chão.
–Ué vim trabalhar...
–Juvia...
Era terça feira havia acabado de sair da faculdade jogando um beijo pra Levy e mostrando a língua pra Gajeel, correndo para pegar o ônibus quando o celular tocou.
–Alô?
–Está atrasada.
Aquilo a fez parar de correr.
Terça — feira.
–Oi Mãe...
–Pela sua voz... Não vai ir não é?
Esse não vai ir... Era que há exatos dois anos Juvia ia numa psicóloga. E mesmo quando recebeu alta sua mãe insistiu pra continuar.
“Ela não está bem ainda eu sei”.
Dois anos de...
“Como você está sentindo hoje?”
“Está tomando os remédios?”
“Vamos conversar sobre aquilo de novo...”
Saudades Eve.
Fazia cinco meses que ela não iria ao psicólogo. Se ao menos fosse Evergreen, ainda podia ir ao consultório,elas ligariam o telecine, comeriam pipoca e chocolate como sempre...
–Achei que estava de alta.
–Eu achei que você estava bem.
–Você sempre acha tudo. Devia começar a perguntar pra mim.
–Ontem no jantar, eu vi que você não estava bem
Você que me deixa mal! Ela queria gritar no telefone.
–Mãe... Eu não vou ok?Meu ônibus está vindo – mentiu – Vou desligar.
–Juvia devia estar na -
–Eu não vou. – jogou a bolsa no chão – Caralho cinco meses e vocês ainda tem esperança de me convencer a ir.
–Sabe muito bem que as terças feiras eu quero que suma desse laboratório. – ela falou grossa fazendo Juvia parar o que estava fazendo. – Então... Por favor.
–Não quero ficar em casa.
–Vá passear! Cadê suas amigas? O que fez nessas terça feiras todas que não vinha pra cá fingindo ir ao médico.
Juvia respirou fundo e pegou sua bolsa.
–Tchau.
Sai pisando forte da empresa.
Colocou os fones de ouvidos e andou sem rumo até achar uma praça.
“O que fez nessas terça feiras todas que não vinha pra cá fingindo ir ao médico.”
Ligou para Levy...
–Estou no trabalho querida por quê?
Ligou para Gajeel.
–Tô na escola por quê?
Então ela foi...
Pegou um ônibus em direção ao centro e desceu na frente da academia ouvindo o barulho dos sacos de boxe.
Bicks não aprovava muito ela ir à academia... Sem ele. Ele achava que ela se jogaria no sacos de boxes,mesmo depois de prometer não lutar mais. Mas ela iria apenas pelo seu outro amor incondicional.
–Juvia! – Erza jogou as mãos pra cima e a puxou num abraço apertado – Não estou suada juro.
–Terça-feiras...
–Faz tempo que não vem aqui também.
–É... Capaz que esteja enferrujada...
–Ótimo, vai lutar comigo então pra aquecer?
Resistiu ao impulso de dizer que sim.
–Acho que só vou... Assistir... E nadar pode ser?
–Claro, a academia é sua. – ela sorriu lhe dando uma piscadela
A Academia Scarlet...
Juvia conhecera Erza através de Levy num dia que fora a ajudar com um trabalho da faculdade. As duas cursavam juntas Letras. A segunda faculdade que Erza fazia, a primeira fora Educação Física.
Erza era absurdamente linda, com um corpo de fazer qualquer babaca babar e qualquer mulher sentir inveja. Belas coxas torneadas, cabelo ruivo num tom natural escuro que ela nunca vira na vida... Ombros e costas largas de tanta malhação e lutas... Todos diziam que ela ficava menos feminina daquele jeito, mas... Ela não ligava...
Era lésbica dos pés a cabeça.
Juvia foi até seu armário que a ruiva sempre deixava guardado. “Um dia você ia voltar que eu sei”. Abriu e trocou de calça achando uma regata qualquer jogada no canto.
Olhou o saco de boxes e respirou fundo.
Pulou corda e fez alguns alongamentos antes de começar. Prendeu as pernas no saco e fez alguns abdominais...
De volta olhando para o saco fez um não com a cabeça e seguiu seu real objetivo...
Água.
Colou o maio, touca e óculos e pulou na piscina.
É como se formassem um só. Nadou de todos os jeitos que sabia, várias vezes seguidas até que estava ofegante. Ela nadaria até sentir câimbras como era de costume seu brincar com isso mas,deixara de ser brincadeira a tempos...
Câimbras...
–Juvia não pode nadar demais sabe disso.
–Eu sei, eu sei
–Você mal se alongou pode ter câimbras
–Não ligo.
Pulou na água...
Mais de duas horas se passaram quando Erza a achou boiando quase roxa.
–Aquela vagabunda fez de propósito! – gritou chorando dentro do quarto do hospital enquanto Bicks se recusava a acreditar.
Balançou a cabeça e saiu da piscina sentando na borda dela.
Juvia Lockser
Eram sete horas quando eu cheguei em casa com alguns fios de cabelo molhado.
Pelo jeito... Gildarts estava em casa,o carro dele estava estacionado na porta.
–Oi família linda maravilhosa... – sorri quando entrei
Minha mãe e ele estavam no sofá assistindo alguma coisa.
–Filha onde estava? – minha mãe se levantou
–Na psicóloga.
–Não minta Juvia.
–Não pergunte então. Eai – fiz um joinha para Gildarts
– Não esqueça os remédios.
–Vou estudar preciso ficar acordada.
Subi as escadas de dois em dois degraus abrindo a porta do quarto de Bicks.
Ele e Cana jogando videogame com um balde pipocas do lado e uma barra de hershey's.
–Eai maninha como foi a falsa consulta? –Cana soltou ainda concentrada no vídeo game
–Fui nadar.
Meu irmão levantou uma sobrancelha me olhando feio.
–Só nadar...
–Juvia.
–E foi pouco... – repeti pegando a barra de chocolate e saindo do quarto enquanto Cana protestava pra eu devolver.
O celular tocou enquanto terminava um trabalho da faculdade.
–Fala vagabunda!!! – Levy gritou – Milagre você atender essa hora.
–Eai... – não consegui não rir – Tomei tic tac... Fala.
–Pizza.Pijama.Minha.Casa.Agora.
–Não sei não...
–Agora porra!
–Estou no meio de um artigo de três páginas...
–Querida – gargalhou – te conheço com a palma da mão você terminou essa bagaça de artigo a horas.
É realmente...
Eu havia terminado o artigo a bem uma meia hora e estava adiantando um trabalho pra duas semanas.
Mas só de pensar em convencer a minha mãe a sair... É completamente normal uma pessoa da minha idade sair. Menos pra minha mãe.
Desde de quando eu tive depressão...
Ela me trata como se eu ainda tivesse.
Confesso que, não sou 100% curada... Mas comparado ao meu Juvia anterior, era bem melhor agora... Até eu achava...
Ela sempre achava que a cura da depressão estava nos remédios... Forçava-me a tomá-los até que eu desmaiei na faculdade de tão dopada que eu estava. Não foi fácil retirá-los da rotina... Nenhum pouco. Mas a troca pelos tic-tac faz meu psicológico acreditar que são remédios...
–Não tem nada que goste de fazer Juvia?
–Não sei...
–Tente algo, ler...esportes...Ajudam a lidar com abstinência.
Sem contar a natação por quem eu comecei a nutrir um amor incondicional.
–Vamos Ju, não aceitou não como resposta. Estou na frente da sua casa dentro do carro da Erza.
–Mas o que?!! – corri pra janela vendo um Fiat Punto preto estacionando Levy acenando na janela do carro. E Erza buzinou
–Suas...
–Anda Juvia! – Erza gritou no celular, mas de fora eu conseguia ouvir – To doida pra pegar você duas juntas.
–O que?! – cai na gargalhada... Acompanhada por Levy – Tá ta vocês venceram... Vou tentar convencer minha mãe.
–Só por minha causa né gostosa?!
–Meu Deus Erza você é desnecessária...
~~
–Não!
–E eu posso saber por quê?
–Porque não Juvia.
–Mãe eu já tenho 21 anos deixa eu te lembrar.
–Troca justa você vai ao psicólogo você sai.
Quase engasguei com a própria saliva.
Aquela mulher...
Por quê?
–Mãe...Você é tão... – rosnei de raiva – Para de me prender!
–Eu não te prendo Juvia, estou cuidando-
–Cuidando uma ova! Eve disse pra você me deixar sair!
–Aquela mulher não sabe de nada, ela te deu alta sem você estar bem.
–Você me deixa cada vez pior. – sussurrei dando as costas e saindo de casa.
Ouvi a gritar seu nome enquanto atravessava a garagem e saia.
–Não vou.
Erza não pode conter o desanimo, mas Levy logo lhe cutucou no braço.
–Ah tudo bem, nós sabemos que ela é prote-
–Retardada! – quase gritei – Ela é uma idiota!
–Precisa se acalmar... -Vou voltar pra dentro.
A casa; dentro dela tinha os remédios.
Bastava uma palavra da minha mãe pra eu entrar numa crise.
Às vezes no jantar eu levantava e saia pra não dar chilique. Mas hoje...
Meus dedos da mão já começavam a coçar e formigar, e mordi os lábios com tanta força que mais um pouco sangraria.
–Vamos indo Ju... Por favor... Se cuide. – Levy se aproximou na tentativa fail de me dar um abraço.
–Eu vou.
Entrei em casa marchando de raiva enquanto ainda ouvia minha mãe gritar alguma coisa que não entendia. Abri a porta do banheiro a procura dos remédios e me amaldiçoei jogando os na parede.
–Juvia sua mãe está completamente maluca! – Eve gritava ao celular – você não precisa disso!
–Ela quer que eu tome...
–Você não vai tomar esses remédio,vão te deixar... lesada! – Juvia riu com o argumento da médica – Está fazendo os treinos não está?
–Sim a natação,parei de lutar.
–Ah Glórias... – ela riu – Mas enfim, nada de depressivos. O seu pior da depressão já passou.
–Passou na época que ela viajou... Que eu saia...
–Eu sei querida... Eu sei.
Gritei de raiva de novo e aproveitando o tom da voz chamei Bicks.
Lembrei do dia que viramos o pote de comprimidos na privada fazendo a maior festa substituindo-o pelos tic-tac escondido da minha mãe.
Sim,os remédios eram calmantes não que uma pessoa depressiva já não fosse calma. O problema era que eu era extremamente... Agressiva...
–O que foi?!! – ele veio ofegante
–Remédio. Cadê os de verdade??
–Jogamos fora – ele sussurrou
–Todos... — fez que sim – Mas...Eu... Preciso! Ela não e deixa sair, e fica no meu pé.
Eu poderia simplesmente treinar agora como era acostumada a fazer. Se ela não tivesse jogado meu saco de boxe fora.
–Juvia! – gritou ela de lá debaixo me fazendo pular de susto
–Sai daqui! – dei um chute na porta do banheiro, mas ela bateu e voltou.
–Sem gritos! – ela me estendeu um comprimido
Meu Deus... Aquilo era quase um pedaço de pizza com queijo derretido... Ou chocolate
Estendi a mão pra pegá-lo quando Bicks deu um tapa certeiro na mão da nossa mãe fazendo o comprimido voar e cair na pia.
–Vem aqui!
Num minuto eu estava no chão e no outro Bicks me jogara no ombro descendo as escada abaixo as chaves do carro nas mãos.
Bickslow Lockser
Eu senti as lágrimas descontroladas descendo e molhando a costas da minha camisa enquanto ela batia nas minhas costas querendo descer.
Joguei a no banco de atrás e entrei no carro dando a partida.
–A gente vai à farmácia né?
–Não.
–Bicks! Por favor!
–Senta lá e cala a boca.
Ela respirou fundo na tentativa de se acalmar.
–Juvia de que adianta você dizer e tentar enfiar na cabeça da mamãe que está melhor se às vezes demonstra não estar? Você não vai tomar essas merdas nunca mais.
–Quero sair... Não agüento mais faculdade, trabalho, pra casa... E tudo de novo...
–Eu sei.
–Porque ela age assim?
–Ela prefere cuidar de uma filha dopada que da menos trabalho do que uma adolescente normal.
–Quando foi que eu fiquei bem mesmo... – ela secou as lágrimas – Eu nem me lembro...
Respirei fundo dirigindo mais rápido antes que ela começasse a falar nada com nada.
–Acho que quem precisa de um psicólogo é ela não você...
Um ano depois do tratamento começar. Eve declarou que ela não precisava mais do psicólogo nem de remédios, se fizesse ao menos uma aula de natação por semana.
Lembro até hoje quando a depressão de Juvia pareceu sumir num passe da mágica quando fui até a academia pagar a primeira parcela da musculação e seus olhos se fundiram na piscina gigante.
Mas, o problema às vezes não parecia estar nela. E sim na casa.
Ela passara a odiar aquela casa depois de que meu tio fora passar alguns tempos conosco... E não fora pra menos, eu também passaria a odiar se tentasse ser abusado toda vez...
Quando decidi... – é eu decidi contar – o que estava acontecendo pra minha surpresa minha mãe não acreditou numa palavra do que eu disse, nem depois do que ela disse. Voltando a entupi-la de remédios.
–Eu odeio a droga dessa casa!!
–Durma não vai precisar olhar pra ela se dormir toda vez que chega!
Devo ressaltar que Juvia tem as cordas vocais que faria qualquer cantora ter inveja...
Abri a porta do carro e toquei o interfone fazendo um código que só eu e as meninas da academia entendíamos...
–Porta de trás,piscina.
–Fala Bicks seu lindo! – reconheci a voz do outro lado
Além de Erza, Mirajane uma amiga nossa também tinha parte na academia e costumava ficar lá de noite depois que a mesma fechava. Eu ainda acho que elas se pegam... Enfim.
– Tô descendo.
Eu ainda ia comprar uma piscina pra por em casa... Nem que fosse de plástico. Gastaria menos do que a gasolina ate aqui. Apesar que com o tempo descobri que andar de carro a acalmava também.
–Venha até aqui senhorita revoltada.
Ela mantilha a cabeça entre os joelhos em silêncio.
Todo mundo dizia o quão forte eu era...
Eu queria ser mesmo.
Sempre tentava ficar o mais brincalhão possível quando ver tudo aquilo na verdade me corria por dentro... Talvez eu que devesse tomar calmantes.
–Juvia...
–Hm.
–Estou num lugar que você vai gostar...
Ela levantou a cabeça devagar mostrando apenas os olhos avermelhados de tanto chorar.
Mirajane surgiu atrás de mim segurando um maio azul de bolinhas.
–Olha que lindo! Chegou hoje, pensei logo em você Ju...
Alguns segundos ainda em silêncio quando ela saiu do carro e pegou o maiô emburrada.
Fiquei no canto da piscina vendo ela nadar.
Nadar ainda era uma coisa que nós... Eu podia fazer. Porque minha mãe só tinha idéias de girico então eu meio que era a “autoridade masculina da vida de Juvia”.
Nadar era algo que permitia — mesmo depois dos ocorrido — já que ela simplesmente se apaixonou pela prática e fora a que sobrara depois do boxe e muay thai.
Os treinos começaram depois que Eve disse que ela deveria se concentrar em outra coisa. Mas depois do ocorrido do meu tio ninguém achou que ela usaria os treinos pra tentar se matar.
A primeira tentativa mesmo não tão... eficaz, foi a pior pra nós.
Ela simplesmente pegou a mais forte da academia na categoria dela pediu que batesse nela... Mongolóide.
Bateu tanto... que os médicos acreditam ter sido um milagre ela não ter tido uma fratura cerebral ou grave o suficiente para fazê-la ficar sem andar,com complicações essas coisas.
Normal... Super, todo mundo faz isso.
Quantos as câimbras... Preferia não falar pra não me lembrar das preocupação que sentia cada vez que ela vinha pra cá.
–Ela parece tão... Melhor. – Mira sorriu se sentando ao meu lado com um roupão na mão.
–Ela está. Acredite, só os traumas que voltam às vezes e quando ela briga com a minha mãe é assim.
–E os remédios?
–Tic-tac... – disse e ela gargalhou
–Vocês são terríveis, mesmo que... Sabe que isso faz mal também.
–É eu sei, aos poucos vou tirar eles.
Deu um tempo até ela apoiar os braços na piscina e sair pedindo o roupão.
Juvia Lockser
Respirei fundo sentindo o quentinho do roupão e fechei os olhos.
Qual era a droga que a minha mãe tomava?
Já estava cansada disso...
Dentre esses tempos meu estresse com isso só piorara.
Talvez, ela não quisesse o meu bem... Como a maioria das mães deviam querer...
–Ju.
Virei à cabeça pra cima. Bicks segurava minhas roupas.
–Já?
–Já...
Me sequei e as vesti, me despedi de Mira e entrei no carro.
–Quer passar em algum lugar antes?
–Queria... Suco de maracujá.
Ele me olhou estranho, mas deu de ombros.
Dentro da lanchonete já estava no terceiro copo de suco.
–Tudo isso é sede.
–Maracujá é calmante... E quero chocolate.
Depois de entrar no carro de novo, só lembro de serem meia noite e do Bicks me carregando escada acima.
Fale com o autor