Calm The Storm
6 Sentimentos
Notas iniciais
Fiquei sem almoçar naquele dia.
Brotou trabalho de sabe Deus onde, e eu até tinha perdido a fome depois de brigar com Kinana por causa de um pote que ela queria no lugar e eu no outro...
Estava uma pilha de nervos. Mas me privar de comer era a pior coisa. Lavei o rosto antes de sair do trabalho e fui ao restaurante que costumava me encontrar com Gray.
Encontra não caralho... Ver... É... E só pegar o livro!!
Cheguei me sentando na cadeira encostado no bar e pedi um café com chantily e pão de queijo.
O garçom me reconheceu e perguntou se eu estava melhor. Que amor... Revirei os olhos.
–Deixaram isso pra você moça.
Ouvi a voz dele enquanto mordia o pão de queijo e quase engasguei.
–Pra mim?! — olhei espantada, mas logo entendi quando o garçom estendeu uma sacolinha azul. Larguei o pão ali limpando a mão sem jeito e abri. Era um livro. — Mares da Guerra. – o abri.
Escrito naquela mesma caligrafia do cartão, toda redondinha.
Grossa (:
Fullbuster
Dei risada alta. E o cheirei como fazia de costume. Novíssimo.
Peguei o celular e liguei pra Levy.
Assim que ela atendeu disse o que tinha acontecido.
–Talvez ele não quisesse me emprestar. – dei um gole no café.
–Não! – ela gritou — Deixe de nóia Juvia ele realmente te deu um presente.
–Porque ele me presentearia? Minha nossa... Nós nos conhecemos há dois meses. Sem contar que eu o odiava.
–Hm danada, sabe até quantos meses já se conhecem é?
Bufei.
Fiquei encarando o livro enquanto Levy falava passando os dedos pelo relevo da letra...
Imaginando que algumas horas atrás,ele poderia ter ido ao shopping,livraria e comprado um livro pra mim... Pensando a) ótimo , vou comprar isso pra ela não me pedir mais nada. ou b) ele realmente pensou em mim e me deu um presente.
Seja lá o que fosse,minha mãe mesmo sendo chata me deu educação,e eu tinha que agradecer a ele.
–Quer saber eu vou lá. Tchau.
Desliguei o celular sem esperar Levy responder.
Disse um obrigada ao garçom e sai andando até a oficina que por sorte não ficava longe.
Justo hoje que eu tive uma apresentação, tive de ir num salto... Espero que ele não ache que seja pra ele toda a minha arrumação.
Virei à esquina entrando na oficina, vendo a recepcionista ao telefone. E, Gray ao lado dela lendo uns papéis todo concentrado...
Estava com uma camisa da oficina e calça jeans... Ou aquela camisa era muito apertada ou... Ele era fortinho daquele jeito?... Quase me dei um tapa por pensar aquilo e entrei, e tive de segurar uma risada quando ele se virou e o seu queixo caiu de leve.
Gray Fulbuster
Sempre entravam mulheres muito bonitas na oficina. Mas não eram ela.
E eu tinha que dar tão na cara o quanto a achava bonita? Não pude segurar a reação de surpresa quando ela entrou na oficina, o barulho de saltos batendo no piso...Virei achando que era uma cliente e ela sorriu de leve. Usava um jeans escuro e camisa social roxa clara... E cabelo preso.
Um dia eu ainda os veria soltos... Acho que eu tenho um fraco por cabelos cumpridos,e o coque dela denunciava ter sido feito com várias voltas.
Ela balançou o livro na mão.
–Ah, — cocei a cabeça sem graça e por pouco não derrubei os papéis — Dei uma volta por ai antes do almoço e comprei.
–Não gosta de emprestar seus livros? – ela franziu as sobrancelhas.
–Preciso de um certo grau de confiança pra isso... – brinquei — E ela diminuiu dez por cento já que você não apareceu. – levantei uma sobrancelha.
Ela suspirei batendo os dedos da capa do livro.
–Me desculpe... Eu tive uns probleminha e não tinha como te avisar que eu não ia.
Peguei um cartão e anotei o número do celular pessoal e um Fullbuster já que ela como ela me chamava.
–Sei... — estendi pra ela — Agora tem como avisar...
–Ah – ela pegou sem graça – Não posso aceitar.
–E por que? Vejo que gosta de livros, e não que eu não quisesse emprestar, mas vai que você quer reler. Não foi caro nem nada.
–Mas...
–Insisto, é só um... mimo.
Ela riu.
–Ainda assim, me desculpe.
Eu sorri.
–Está sendo gentil ultimamente... – provoquei — Obrigada, desculpas...
–Olha aqui eu sou gentil. – ela cruzou os braços.
–Hm, sei — sorri — Quer um café?
Ela já ia responde quando a voz de Melissa surgiu atrás de mim. E eu suspirei girando os calcanhares.
–Oi...
– Tem um trabalho pra você agora as...
–Eu sei.
–A jura?
Eu sou um cara muito burro.
Porque tive de ir pra cama com a garota do meu trabalho... Que agora achava que era talvez minha namorada ou sei lá...
–Só um minuto... – disse me virando pra Juvia e fui até a recepção apoiando os cotovelos na frente dela. — Eu sei sabia.
–Quem é? – ela disse curta e grossa e talvez, alto o suficiente pra Juvia ouvir.
–O que?!
– Quem é essa garota? – ela desceu da cadeira
Gargalhei.
–E desde quando eu lhe devo satisfações Melissa?
– Desde ontem.
– Me poupe. – bufei me preparando pra voltar quando ela me puxou.
– Gray!
– Que parte do sexo casual você não entendeu? – afastei a mão dela de leve.
Ela me fuzilou com os olhos e depois Juvia.
– Seu novo brinquedinho?
– Não vou te mandar calar a boca porque seria abuso de poder. – dei as costas e sorri mesmo sem querer fazê-lo... — Então...
– Não quero atrapalhar eu só queria mesmo agradecer. Melhor eu ir. – ela caminhou até a porta da oficina e eu acompanhei.
–Porque não fica um pouco?
–Acho melhor não. Alías, gostei do que fez no carro do meu irmão.
– Ah — eu ri — Ele tem um gosto diferente.
E ela riu também.
– Isso é verdade... Mas eu acostumei. Quando ele era criança queria fazer uma tatuagem na língua. – gargalhei.
–É por você não? — perguntei olhando a cor do cabelo.
– É... Ele sempre faz umas coisas assim...
– Bonito da parte dele...
–Tem irmãos? — ela se aproximou.
Suspirei.
–Eu tinha. Uma irmã...
–Ah eu sinto muito.
– Não tudo bem, faz bastante tempo já... Eu era criança.
Ela ficou em silêncio por tempo mexendo o livro nas mãos. Passando os dedos pelo relevo da letra...
–Gray! — ouvi Melissa mais uma vez e soltei um palavrão.
– Vai lá não quero atrapalhar.
–Mas você não atrapalha. – bufei — Queria conversar mais com você. Nunca...consigo. -admiti
Os olhos dela se arregalaram e as maçãs do rosto ficaram vermelhas.
–Eu... Também... — ela disse pausadamente quase inaudível — mas você precisa voltar ao trabalho e acho que sua recepcionista me odeia.
Olhei pra trás e Melissa revirou os olhos.
–É impressão sua, ela é assim com todos.
–Ah claro... Com todas, você quis dizer...
– Olha ela...
– Quer tomar café amanhã? – ela disse tão de repente que fiquei até confuso — Claro se você gostar de café...
–Gosto.
Sorte que eu gostava mesmo.
– Okay...
– Okay...
Que era isso agora a culpa é das estrelas?!!
– Okay... Então tchau...
Dei um passo à frente impedindo a de sair... Talvez rápido demais e lhe dei um beijo na bochecha. Até eu senti que minhas bochechas esquentavam agora e parecia que minha barriga era feita de gelo.
– Tchau.
–Tchau... — Ela se virou e saiu rápido o suficiente pra eu piscar e ela não estar ali mais.
Tá.
Acho que eu tinha feito merda.
Não queria que ela pensasse que eu estava fim de pegar ela ainda,por mais que ela fosse... Linda. Eu diria sim sem pensar.
Assim que cheguei em casa não desgrudei do celular. Eu ... Achava que ela podia falar comigo.
~~
Desisti lá pelas duas da manhã já morrendo de sono.
Juvia Lockser
–Levy.
–Mano, pelo amor!! Esse mundo virou do avesso.
–Levy...
–Sério, Ju, ele deve querer conversar... Se ele quiser ficar com você de novo só dizer não.
–Levy...
–Mano ele te deu um livro... — ela soltou um suspiro — porra eu dava pra ele! Gajeel me deu vários livros por sinal... — ela riu maliciosa — Mas claro ! Que não quer dizer que eu e ele já tenhamos feito isso!
–Levy!!
–Oi.
Respirei.
Olhei o livro aberto no meu colo. Já estava na página 77 de Marés da Guerra,Kalecgos- por quem eu começara a nutrir uma leve paixãozinha — escoltava Jaina — provavelmente o ship dele se o livro não fosse no meio de uma guerra da Horda e da Aliança.
–Eu, bem... Nem sei o que aconteceu. Do nada nós estamos nos falando,ele me dá um livro... Tá,ele parece legal, e me dá vontade de falar com ele também. E eu chamei ele pra tomar café,tipo – fechei o livro – Que demônio se apossou de mim porra?!
–Então, o que é?
–Como assim?
–Qual é, do que você tem medo? Vocês só vão conversar... E primeiro devo confessar que um ele é uma pessoa super legal de se conversar, segundo não é porque ele é um pegador que ele não possa sair com você sem segunda intenções,mesmo se for é só você dizer não de novo... E terceiro:
Vocês são fofos.
–Vai se foder por favor Levy...
–Me conte como foi o café depois. – ela riu
–Acha que devo falar com ele?
–Agora? – ela fez um hmm do outro lado da linha – Eu não falaria só pra deixar assustado. – ri junto com ela – Mas...
Olhei o contato no celular “Fullbuster Pica de Mel” e gargalhei.
–Não vou falar não.
–Ok. – ainda ria – Sabe a real Juvia?
–O que ?
–Você está com medo é de gostar do Fullbuster isso sim.
Dei uma leve travada.
–Não tem nada nele que me faça gostar dele. -
Mentiiii feio pra caralho... Porque fora a beleza,inteligência,ser gentil e gosto por livros... Nada.
– E você sabe que...
–Eu sei. Eu sei, e por isso acho que está com medo de gostar dele.
–Não vou falar desses assuntos em plena 1:30 da madrugada.
–Não estou falando nada, você que se entrega automaticamente. E suas promessas de tentar mudar isso?Conhecer duas pessoas e se tornar amiga dela... Você devia só tentar pra variar,viver deixando isso pra lá.
–Não dá pra deixar pra lá o fato de eu ter sido estuprada.
Levy fez um silêncio mortal do outro lado da linha.
E eu respirei fundo chutando a cômoda.
–Não foi... Isso que eu quis dizer...
–Mas é disso que eu lembro e dá no mesmo tá legal?! — agora eu tava gritando...
–Acho que vou deixar você dormir.
–É... Eu vou. – desliguei.
~~
– Acho que tenho algo a contar.
Soltei na hora do intervalo enquanto Levy estudava pra sua prova de latim. Gajeel mexia numa mecha dos cabelos dela sem que ela nem percebesse bebendo refrigerante. Ele me olhou esperando que eu falasse.
Cara, eu me sentia sentada na frente de um pai prestes a contar que estava grávida...
–Diga. — ele disse e Levy continuou enfiada nos cadernos segurando uma risada.
Batia os dedos freneticamente, até que levantei e comecei a andar com a garrafa de água pela metade aberta na mão. Eu sempre me sentia melhor quando começava a andar.
– Eu meio que me acertei com o Fullbuster... – comecei a falar rápido — A gente se viu num almoço antes de ontem e o Sting estava lá então eu passei mal e ele me ajudou. – Gajeel arregalou os olhos na palavra Sting na frase e na minha pausa eu percebi o quanto tinha gaguejado, mas não queria que ele falasse então, comecei de novo — Ah e ele me devolveu o celular, que eu esqueci em cima no banco do restaurante que almoço uns dias atrás também, dias não semanas... Mas disso você já sabia... E .. Ah me deu esse livro – peguei de cima da mesa — e disse que queria conversa mais comigo aí vamos tomar café hoje. Pronto falei tchaaau.
Me virei escutando Levy rir e Gajeel arrastar a cadeira se levantando.
– Sting???! — Gajeel gritou – Fullbuster?Almoço?
–É.
–Como assim você viu o Sting?!
–Só ouviu a parte ruim... – comecei a encher a garrafa – Não falei com ele, nem ele comigo... Ele nem me viu!
–Cara ele te deu um presente? Disse que não queria ele nem pintado de azul!!
–É... E eu não disse isso!
– Você só contou hoje?!
– Desculpa... Juvia devia ter contado, mas não queria que pensasse que eu gosto dele. E também você ia surtar...
–Tipo agora. – Levy comentou
–Tipo agora. – repeti
–Eu não ia!!
–Ia é passado, você já está. Para de proteger a Juvia de tudo. – Levy cutucou
–É o que?! – ele se virou pra ela.
–Tá,vamos entrar nesse mérito depois. — entrei no meio dos dois — Eu só quis avisar.
Ele caiu na cadeira e Levy deu dois tapinhas no braço dele.
–Sua filha está crescendo...
~~
Suspirei com mais uma pergunta do Gajeel a caminho do trabalho.
Em dois anos de faculdade aquele fora o primeiro dia que Gajeel me levara até o serviço.
A porta do ônibus abriu e eu desci.
–Chegamos pode ir. – disse de braços cruzados.
Ele suspirou e passou a mão nos cabelos.
–Tenho medo de você quebrar a cara.
–Cara... – apoiei as duas mãos nos ombros de Gajeel — Gajeelzinho... Não é como se eu estivesse namorando com ele, até porque nunca vai acontecer isso. — bufei — Mas, confesso que eu também tenho medo, não sei porque,mais que você.
–Eu sei.
–Você mesmo dizia que eu tinha que viver!
–Eu sei!
Fiquei em silêncio...
Nem eu acreditava no que eu falava... Nem eu queria fazer aquilo. Simplesmente puft,sair no mundo jogando foda-se pros problemas,sem me preocupar com nada. Aquela não era eu...
–Eu não consigo ser assim... – sussurrei – Eu não sei o que acontece...Só tenho vontade de conversar com ele sabe? Mas... É difícil... Pra mim...
–Eu sei. – ele me puxou num abraço forte.
–Tô com medo Gajeel... Mas quero que você me ajude... Seja lá o que acontecer.
–Eu vou, prometo. – ele sorriu. – Sabe que eu sempre ajudo.
~~
Eram 15:00 horas e eu não havia mandado mesma nenhuma mensagem. Desde que ele me dera o número eu olhava o contato no whats com uma foto dele sorridente e não conseguia se quer mandar um oi e nem parar de olhar a foto...
–Quer que eu digite? – Kinana se ofereceu na hora do almoço.
– Não... Tenho que mandar...
Digitei de repente um “Oi , Fullbuster” Caraca ... Pareceu meio seco .
– Ai meu Deus!! Como cancela?! – gritei com a boca cheia
–Não cancela louca.
–Puta que -
O som da notificação segundos depois preencheu meu palavrão e eu olhei na tela.
Caralho!!!
:Eai.
Pisquei estranhando... Ele devia estar ocupado.
:E então, podemos marcar pras 16:00?
Porque eu tive de pular pro assunto tão rápido.
:Tenho trabalho.
Dei uma risada só que de raiva. E larguei o celular lá.
A minha vontade era de mandar “devolve o celular pra ele por favor?”
Mas o cérebro tinha que me pregar uma peça pra achar que era ele mesmo falando ...
Deixei de lado. Se fosse ela,menos mal, agora se fosse ele... Foda-se ele teria que me comprar muitos chocolates pra fazer eu falar com ele de novo.
–Porque eu to ligando?!! – me perguntei em voz alta e Kinana se assustou.
–Bem,não sei do que você ta falando, mas acho que gosta dele.
–Calada!
No fim do expediente já ia descer pra ir embora quando Kinana avisou que teríamos uma reunião e eu tinha de assistir porque teria que lidar com isso no futuro,bláblá...
Assim que entrei na sala... Eu nunca vi falarem tanto e muitos assuntos chatos,opiniões que eu discordava mas ... A estagiária fica quieta...
Estava olhando quase desesperada pra Kinana,mas ela estava ocupada o suficiente pra nem notar.
Acabou por volta das 17:00.
Pulei a escada de dois em dois degraus de volta a nossa sala e peguei o celular.
:Juvia, é o Gray. Agora... Enfim, sinto muito. As quatro está ótimo no restaurante de sempre? — 14:20
:Estou aqui... Se quiser ir a outro lugar... -15:50
Que outro lugar ... ?
:Ok... Você está atrasada de novo? Sem crédito... — 16:25
:Vou parar de ser chato vai, te espero até as 17:00."
Aaaaaaaaaaaa!
Acho que aquele tinha sido o banho mais rápido da minha vida.
Me entupi de desodorante mesmo que dizem não fazer efeito quando se está sujo. Troquei minha blusa branca por uma verde clara e fiquei com a calça branca e sai correndo sem avisar Kinana.
Tudo tinha de dar errado assim mesmo?
Assim que virei a esquina vi do outro lado da rua Gray dentro do restaurante com o celular na mão bebendo um copo de alguma bebida. Já eram 17:20.
Atravessei a rua e entrei parando em pé na frente dele ofegante que me olhou por cima do copo e riu.
–Me desculpa... — me sentei respirando
–Você é uma mulher bem ocupada pelo que vejo. – ele pousou o copo na mesa e eu senti o cheiro de uísque.
–Nem tanto... – cocei o nariz — Acho que sou desorganizada isso sim...
–Não precisa se desculpa, na verdade eu tenho que me desculpar...
–Não precisa. – interrompi. — Você não precisa se desculpar por sua namorada – provoquei de leve — talvez, ou a menina que gosta de você não quer que você se encontre com outra. Acho que,deve ser normal.
Ele soltou uma risada e bebeu o resto do copo.
–Então estamos num encontro?
Raciocinei...
Era pra você dizer se ela era ou não sua namorada,ficante...E não entrar nesse mérito de encontro...
–Não. – dei de ombros — Lógico que não foi só uma palavra que encontrei... – eu já começava a me embaralhar então parei de falar sobre — Deixe de ser cafajeste.
Outra risada.
– Ok. O que vai pedir? — ele me deu o menu aberto na parte de cafés.
– Acho que não vai te fazer bem tomar café depois disso aí... – disse olhando pro copo.
Como eu odiava o cheiro daquilo.
–Não gosta?
–Não.
Na verdade eu nem saia pra falar se bebia ou não.
Mas ter um pai morto alcoolizado. Acho que não eu não gostava.
–Sugiro – voltei a falar – Um lugar que nós dois vamos gostar.
–Ah é? – ele fez uma cara... de ... malicioso!
–Deixe de ser cafajeste – avisei me distanciando — é uma sorveteria¹ – senti os olhos dele brilharem – que tem o melhor milk shake de chocolate belga.
Ele sorriu e pediu a conta pra um dos garçons.
Gray Fullbuster
Nunca ser chamado de cafajeste soava tão, legal.
Ela sorrira tão bonito na palavra sorveteria, que não pude me conter. E nem era porque era minha sobremesa preferida.
Eu não fazia ideia pra onde estava indo ... E não estava me importando já que minha companhia valia ir pra qualquer lugar...
Só ficou realmente estranho quando ela me fez pegar um ônibus.
–Faz bem um anos que não pego um desses. É tão longe?
–Mais ou menos, só uns quinze minutos.
–Se soubesse íamos no meu carro. – disse normalmente
–Quem disse que eu entraria no carro de um estranho?
–Ah,é assim? – ri.
O ônibus freou um tanto brusco fazendo Juvia se jogar pra frente em pé na minha direção batendo a cabeça contra meu peito e voltando pro lugar dela.
Era um pimentão em pessoa.
Não consegui me segurar e comecei a rir.
–Qu-qual é a gr-graça?!
–Você literalmente é o ditado “virou um pimentão”
–Eu nada!
–Ainda mais que você é branca – fiz questão de continuar zoando ela – Vai virar uma... Algum legume roxo...
–Cafajeste.
Eu já estava na quarta taça de sorvete de um sabor diferente e Juvia na segunda do chocolate belga. Ficamos sentados numa praça que ficava na frente de uma faculdade que era a que ela estudava.
–A propósito... – disse enquanto nós falávamos de como era grande os campus – O que você faz? Quer saber não. – levantei o indicador – Enfermeira?
–Não. – ela disse a boca meia cheia
–Psicóloga?
Ela soltou uma gargalhada.
–Acho que eu sou problemática demais pra isso, não.
–Hmm, Nutricionista?
–Não.
Suspirei...
–Bem,certeza que pode ser algo da área da saúde...
–Química.
Engasguei de leve com o sorvete.
–Sou Engenheira Química... Vou ser na verdade.
Acho que eu esperava qualquer coisa menos Engenheira.
–Tá... Beleza, você é uma gata que faz engenharia... – ela desatou a ir
–Já disse pra parar de ser cafajeste.
– Eu sou horrível em matemática sabia?
–Eu também era, por isso tive de fazer uns dois anos de cursinhos pra estar aqui... Mas, e você?
Juvia Lockser
Eu já estava começando estranhar a facilidade que eu estava tendo pra falar com ele. Não sabia que ele podia ser... Tão, simpático assim.
Gray largara a faculdade de arquitetura no primeiro ano.
–Por que?
Ele ficou em silêncio por um tempo.
Talvez não quisesse me contar... Mas ele parecia ter sido incomodado com a minha pergunta. E eu conhecia bem esse tipo de sensação.
–Aposto que a oficina deu tanto sucesso que você não tinha tempo. Acertei não? – brinquei.
Ele sorriu meio de lado e olhou pra mim.
Não consegui entender nada do que aconteceu depois. Ele apenas esticou a mão e pousou em cima da minha apertando de leve fazendo um arrepio estranho correr na minha espinha.
–Obrigado.
Já eram por volta das oito e meia quando eu não aguentava mais comer nada que aparecesse na minha frente.
Depois da sorveteria, vimos um carro de churros e eu comi dois e ele três. Do outro lado da rua da faculdade tinha uma feira de artesanato e Gray insistiu pra irmos dar uma olhada nas coisas.
–Não... Eu tenho que voltar...
–Uma olhadinha...
Suspirei.
Era tudo tão lindo.
Eu inveja muito quem conseguia fazer aquelas coisas.
Dois caras com dread por todo cabelos faziam alguns colares e pulseiras na hora. Fiquei encantada com toda a agilidade deles e nem percebi que começara a conversar com um dos rapazes e eles contaram sobre como começaram a fazer essas coisas e etc.
–Aquela azul é sua cara. – Gray comentou abaixando do meu lado apontando uma pedra redonda enrolada em várias linhas num cordão preto.
–É linda mesmo... – sorri sem graça
–Você quer?
–Oi? – olhei pra ele. – Não,não precisa.
–Mas...
–Você já meu deu uma coisa. – disse envergonhada – Eu posso pegar por mim mesma.
Me levantei abrindo a bolsa e pedindo o colar.
De perto era mais bonito ainda.
Gray sorriu e continuou olhando mais colares. Vi os olhos dele fixarem numa cruz prateada.
–Pega essa também. – pedi e assim que peguei na mão estendi pra ele.
–Ah não.
–Ué, você gostou.
–Eu ia pegar por mim mesmo. – ele me imitou
–Acontece que eu já ganhei um livro, então,porque não posso te dar um colar?Vai se vira.
Ele sorriu e ficou de costas pra mim...
E ai eu travei.
Estava tão no automático que nem percebera o que acabara de fazer...
Minhas mãos tremiam de leve enquanto passei o colar por cima da cabeça dele e dei a volta no pescoço.
A droga do fecho começou a escapar da minha mão e eu não conseguia fazer ficar de jeito nenhum. Cheguei mais perto já que não enxergava nada da distância que eu estava.
Ele... Era,bem cheiroso... Por Deus,era muito cheiroso!
A ponta dos meus dedos encostavam vez ou outra no pescoço dele,e eu podia jurar que estava levando uma espécie de choque.
–Conseguiu?
Levei um susto e o fecho finalmente ficou.
–Já. – suspirei aliviada
–Obrigado. – ele pousou a mão em cima da minha cabeça me fazendo um carinho
–D-de nada. – me afastei o mais rápido que deu.
Olhei a hora no celular que por sinal estava no silencioso revelando cinco chamadas perdidas de Bicks, e sete da minha mãe.
–Ótimo... – sussurrei. – Preciso ir.
–Mas já?
–É, eu...
Como eu iria explicar que minha mãe não sabia que eu estava aqui... Como uma criancinha que não podia sair.
–Eu,tenho... Tenho umas lições ainda pra terminar pra amanhã. – menti
–Ah,entendo. – ele coçou a cabeça — Te levo até sua casa.
Oi?
–Não! Magina, — comecei a andar – Eu vou sozinha, nem demora e não é perigoso.
–Pode não ser, mas já esta de noite – ele trocou de lado comigo na calçada e eu me perguntei porque ele fazia isso.
Diversas vezes eu percebera ele vir pro lado da rua e me deixar do outro lado.
Minha língua coçou pra perguntar, mas não o fiz.
–Mesmo de noite, eu vou ficar bem. – parei no ponto de ônibus – De verdade.
–Tá... Da próxima eu levo pode ser? – ele sorriu
Da próxima?!!
Que próxima?!
–Ok. – foi só o que consegui dizer.
–E obrigada de novo pelo presente.
–É só um mimo. – o imitei
Ele sorriu colocando as mão no bolso ainda parado ali.
Torci pro meu ônibus chegar logo porque não fazia ideia de como me despedir dele.
Quase morrera de vergonha e de tudo quando ele me deu um beijo na bochecha. Por pouco meu sexto sentido não me fizera acertar um murro nele... Como... Já era de costume eu fazer.
Cinco minutos de silêncio se passaram e meu ônibus dobrou a esquina.
–Bem, eu vou indo.
–Me avisa quando chegar?
Pisquei duas vezes confusa.
–Tá.
–Tchau, e cuidado.
Numa fração de segundos ele deu um passo a frente colocando a mão na minha nuca me dando um beijo na testa e se virou dando um tchau com a mão.
Fiquei parada sem qualquer reação vendo ônibus passar direto já que eu não tinha forças nem pra dar sinal.
~~
Contei até três antes de abrir a porta.
–Oi ma-
–Onde você estava?! – ela gritou
Bicks veio correndo da cozinha e suspirou aliviado.
–Eu disse que ela estava bem. -Cana disse do sofá me jogando um sorriso.
Enquanto Bicks e minha mãe davam alguns sermões que eu nem conseguia compreender as duas vozes juntas. Fechei a porta e fui até a escada. Na primeira tentativa de subir o degrau minha mãe me puxou pelo braço.
–Estou falando com você!Onde você estava?!
–Eu... Sai. – disse e percebi que minha respiração estava descompassada.
–Pra onde?! Juvia você que horas são?!
Olhei o relógio da cozinha.
Eram 22:45.
–Eu sai já disse.
–Onde?!Eu perguntei onde você estava?!
–Rebecca porque não – ouvi Gildarts começar a tentar ajudar.
–Fica na sua você também. Me responde.
Respirei fundo.
Eu só queria deitar na minha cama, dormir e chorar muito.
Depois de tudo, tudo de hoje...
–Juvia?!
–Eu sai com a Erza mãe... Desculpa.
–Quem é essa e não atendeu porque? Alias, aquela garota baixinha está ai.
–Estava no silencioso... – ergui as sobrancelhas – Levy...
–Mas você...
–Vou dormir. – soltei meu braço do dela quase a fazendo cair com a força e subi as escadas pisando forte e chutei a porta.
Levy tomou um susto enorme.
Me sentei no chão do quarto.
Eu não podia com isso.
Porque eu tinha que agir tão normal com ele?
O que ele fizera que parecia não... Parecia não ter acontecido nada comigo. Ele não ma dava medo, ou raiva,ou nojo. E porque ser tão gentil?!
Acontece que tudo aquilo estava acontecendo de novo. Todos aqueles sentimentos, eu já tinha sentido antes e depois eles simplesmente foram massacrados. E não aconteceria de novo.
Não podia ficar mais um segundo com Gray Fullbuster.
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