Calm The Storm

35 Nina "Pepper"


Julho

Naquela noite, eu esperei lá na garagem, enrolada no meu cobertor e com o notebook no colo, Gildarts sair de casa.

Assim que ele chegara, me sussurrou que precisava conversar comigo, e mesmo sabendo que ele iria embora mais tarde hoje, esperei pacientemente e curiosa.

Pensando nele esse tempo na garagem, percebi que já estava na hora de resolver isso. Essa conversa toda dele ficar fora de casa. Ele e minha mãe queriam muito morar juntos e a única coisa que os impedia, era eu.

E eu devia acabar com isso agora.

Eu já estava melhor. Nem precisava dizer que estava melhorando.

Eu estava inteiramente bem.

Tanto por ter alguém na minha vida novamente, tanto por conseguir perdoar Lyon por tudo o que aconteceu. E agora, eu devia fazer isso pela minha mãe.

No começo fora resistência minha não só pelo acontecimento com meu tio. Ela já sofrera com outros relacionamentos e eu não queria isso de novo.

Mas quase três anos depois, eu devia saber que ele amava minha mãe de verdade.

Eu devia deixá-los viver como um casal. Na nossa casa.

Ele era um homem bom, tanto pra ela como pra nós. Ele sempre procurou nos ajudar da melhor forma. Até mesmo eu, que o rejeitava sem dó. Agora mesmo, pedindo este favor, ele não pensou em me negar ajuda.

Era exatamente sobre isso que eu conversava com o Gray agora.

Ele dizia estar orgulhoso de mim por tomar essa decisão. E por eu aceitar que estou melhor.

...

Fiquei extremamente emocionada com aquilo e quando Gildarts chegou tive que esconder rapidamente que estava choramingando.

—Aconteceu algo?

—Nada, nada... – sorri fungando – Pode falar.

—Bem, — ele pegou um envelope pardo do bolso – isso é tudo o que consegui com o sobrenome que me deu.

Ele me entregou o envelope e meu coração quase saltou da boca.

—Sinceramente, achei que não fosse achar nada. Mas, como suspeitei haviam pelo menos vinte famílias com esse sobrenome. Sua história me intrigou e fui investigar as que podia e a história que pareceu a que você procura é essa.

Eu abri o envelope, folheando os papéis digitados a máquina de escrever, com algumas fotos anexadas com clipes.

—Essa moça se chama Nina Oliveira. Ela tem passagem pela polícia por porte de drogas e assassinato.

Engoli seco sentindo meus olhos marejarem. Na foto a minha frente, sem sombra de dúvida era a mulher ruiva que eu e Meredy vimos nas fotos.

—É ela.

—Ela ainda está presa. Falta exatamente cinco meses e ela sai da penitenciaria feminina. É aqui em São Paulo. Presa por assassinato de – ele mexeu os papéis e me mostrou outra foto e um papel com alguns dados – Diogo Dantas.

O homem da foto era barbudo, com aparência de cinquentão e tatuado.

—Ele levou uma pancada na cabeça não o suficiente pra morrer, as facadas que foram. Ela foi pega tentando viajar pra Portugal. Não resistiu à prisão da polícia e confessou em julgamento o assassinato.

—Sabe o motivo dela ter matado ele?

—No começo ela não quis falar. Mas depois um dos investigadores conseguiu fazê-la contar que o tal Diogo era padrasto do seu filho e abusava da criança. Ninguém até hoje achou o menino. Ela disse que ele estava bem, que foi deixado com uma irmã para ser cuidado.

—Obrigada.

Eu estava incrédula.

Não precisava de mais certezas do que aquelas.

—O que vai fazer agora?

Não fazia ideia.

A primeira coisa, seria obviamente contar tudo a Meredy. Como contar isso ao Lyon é que era nosso maior problema agora. Dizer a ele que a mãe estava viva, presa, mas viva.

Alguém que passou a vida acreditando estar “órfão” biologicamente.

—Vai ter que me contar o que acontece Juvia. Essas informações são muito valiosas e importantes para eu dá-las a você sem motivo aparente.

Gildarts assumiu rapidamente a sua postura profissional e me senti encurralada.

—O filho abandonado... ele é meu amigo. – ele não pareceu se surpreender. Não visivelmente. – Eu e namorada dele queríamos achar a mãe, achamos que isso ajudaria em alguns problemas pessoais. Ele precisa muito dela agora.

Ele pareceu pensar enquanto coçava a barba rala.

Eu folheei os papéis lendo as informações, olhando as fotos... Era realmente ela!

O mesmo cabelo, um garoto abusado pelo padrasto. Uma mãe que se vigou...

Morto a quatorze facadas, era o que dizia no relatório.

Pensei nessa cena perturbadora por alguns instantes. Refletindo, até que ponto uma mãe chegaria.

Ela devia estar desesperada para tentar algo desse tipo. Perdera totalmente a cabeça.

Infelizmente, eu desejaria a morte de alguém desse tipo nojento como o pai dele, mas sei que isso é errado. Matar alguém. É errado perante a lei de todas as leis. Mas pensar na coragem que ela teve pra tudo isso, abandonar o filho, matar o pai e confessar o crime tão abertamente, no dia do julgamento...

—Tem alguma coisa sobreo pai biológico? – questionei

—Hm, — ele pegou um papel a parte – Augusto Vastia. Atualmente, ele tem por volta de sessenta anos e mora em Portugal.

—Sessenta?!

—Sim, o cara era um coroa quando namorou essa mulher.

—E quantos anos ela tem?!

—Atualmente, quarenta.

—Então o pai dele está vivo.

—Sim,. Em algum asilo de rico. Ele é muito rico e tem mais três filhos. Divorciado.

—Meu Deus... – tirei os papéis do colo e me levantei.

Era muita informação.

Os pais biológicos do Lyon estavam vivos. Ele tinha mais três irmãos fora o Gray e Ariane.

A mãe dele sairia da cadeia em cinco meses, e estava aqui em São Paulo.

—Como vou contar isso tudo a ele? – perguntei mais a mim mesma do que a Gildarts, mas ele respondeu:

—Você vai realmente fazer isso?

—Preciso.

—E se ela não quiser vê-lo Juvia? Afinal, ela deu o menino a outra pessoa. Mesmo se pensarmos na possibilidade de ser para proteção dele. Talvez ela queira seguir em frente agora.

—Que mãe não ia querer ver o filho? Olha, a mulher a quem ela deu o Lyon morreu.

—Lyon??Estamos falando do seu cunhado?!

—Ah droga...

—Deus do céu. – Gildarts bufou – Toda aquela história que sua mãe disse sobre ele ter... – fiz que sim — então Diogo é o tal culpado por ele.

—É tudo isso é verdade.

Ficamos em silêncio.

Me sentei no chão gelado, procurando me acalmar.

Como eu iria agir agora?

—Preciso falar com a Meredy.

—Olha, se vai levar essa história adiante, precisamos fazer direito. Posso conseguir uma visita a Nina. Pode ir vê-la. Dizer sobre ele e ver se ela quer isso.

—Acho que eu não sou a pessoa certa pra isso.

—E quem é?

—Silver.

Meredy apareceu na minha casa no horário antes do combinado. Ela devia estar muito ansiosa. Assim como todos nós dentro do carro.

Era quarta-feira.

Gildarts ia levar nós três a penitenciária. E ninguém além de nós saberia sobre isso, por enquanto. Ele odiou a ideia de ter que esconder este fato da minha mãe, como eu odiei ter esconder do Gray, Levy, Gajeel...

Silver ficara totalmente em choque ao saber sobre Pepper — que na verdade é Nina. E sobre ela ter assassinado o padrasto do Lyon, sobre o pai biológico dele ainda estar vivo...

E essa parte.

Extremamente essa parte, o deixou transtornado.

Assim como Meredy suspeitava, e eu também. Na cabeça de Silver, Lyon ia sair correndo para o pai biológico e deixá-lo aqui.

O que óbvio que não iria acontecer, mas nós preferirmos não contrariá-lo já que era um pensamento bastante comum em situações como essas.

—Ele pode até querer conhece-lo, mas nós sabemos que ele ama o Silver acima de qualquer coisa.

—Ele está muito quieto. – disse observando Silver de longe.

Ele fumava talvez o décimo cigarro no banco de madeira.

Lá dentro da penitenciária, Gildarts falava com um advogado e mais um policial.

O lugar era estranho.

De uma atmosfera carregada, que deixava qualquer um pra baixo. Cheirava a velho e o concreto em volta com cercas elétricas me fez sentir como um bicho em um zoológico bizarro.

A visita seria monitorada naquelas salas por um policial e eles dois apenas. Pelo que Gildarts nos contou, ela era uma presa bem tranquila. Nunca teve problemas com outras garotas e teve sua pena diminuída por bom comportamento.

Andei até ele meio hesitante.

—Está pronto? – questionei achando melhor “pronto” do que bem.

Ele tragou fundo o cigarro e soltou a fumaça devagar.

—Eu queria que Mica estivesse aqui agora. Ela saberia como agir.

Engoli seco.

—Não sei como reagir a isso. Quando Pepper souber que Mica morreu ela vai desabar. Mas o que mais me preocupa obviamente, é meu filho. Ele já tem muitos problemas psicológicos, todos sabemos. Não quero piorá-lo, ou deixá-lo abalado. Ele está indo tão bem sabe? – fiz que sim — E o pai dele está vivo então.

— O pai dele é você.

—Obrigada Juvia. – ele acariciou minha cabeça do mesmo jeito que o Gray fazia – Porém, imagino como deva ser a animação de saber a suas origens.

—Ele o abandonou.

—Não abandonou. – ele suspirou pesado — Ele deu toda a ajuda a Pepper. Lyon nunca foi um fardo nem abandonado por nenhum deles, ele foi protegido. É diferente.

Respirei fundo.

Eu não sabia o que dizer.

Silver via as coisas com uma visão mais ampla do que eu via agora. Sentia que estava agindo com total emoção, argumentando sobre abandono e ele ser o pai... Silver era racional. Ele sabia que não ia ser flores como nos filmes.

Era um sentimento que só ele sabia como estar sentindo.

Por mais que eu e Meredy tentemos acalmar a situação, nós duas tínhamos consciência que em sua cabeça a única coisa que passava era: eu já perdi uma filha, não posso perder outro.

Gildarts nos chamou e vimos de longe, uma mulher de coque e conjunto de moletom cinza vindo na nossa direção.

Silver respirou fundo e apertou os olhos com o dedão.

—É ela mesmo.

Ele ficou sentado e eu e Meredy em pé, olhando pela parede de vidro.

Pepper, tinha aparência de vinte anos. Se a cadeia de algum modo a tinha envelhecido, eu não enxergara essas características. Ela era muito magra, isso era visível. Mas seu rosto era extremamente jovial.

Ela se sentou com as pernas cruzadas sua expressão transmitia confusão e medo. Ela devia estar assustada por receber uma visita digamos, de repente.

O policial veio chamar ele na nossa sala.

—Ela está confusa. – Gildarts comentou – Pelo jeito ela não recebe visitas há anos.

Silver não hesitou. Entrou na sala assim que o policial abriu a porta. Sua expressão estava seria, mas quando Pepper o reconheceu e caiu em pratos, ele sorriu abraçando a mulher.

Isso fez meu coração doer.

—Eu sei que é tarde mas será que fizemos certo? — Meredy me perguntou

—Tarde demais.

Nós não conseguíamos ouvir muita coisa do lado de fora.

Me esforcei para tentar pegar algumas partes da conversa.

—Você não mudou nada!! – transparecia felicidade mesmo chorando – Ah! Queria ter a sua genética.

—Deixe disso, Nina.

—E a Mica?!

—Ah... – Silver engoliu seco e do lado de fora, nós também – Bem, a Mica faleceu há anos Nina.

—O que?

—Um acidente de carro... Ela estava com Ariane, você não chegou a vê-la. Era nossa filha.

—Eu... Sinto muito. — ela afagou sua mão -Não sabia de nada disso. Por favor me conte tudo. Como estão as coisas? Aliás, como apareceu aqui? Achei que pra vocês eu tinha morrido também, como ele.

—Não, eu nunca acreditei. Claro, que depois de tantos anos, eu passei a cogitar isso. No fundo, eu achava que você voltaria pra busca-lo.

—Buscá-lo...? – ela pareceu se assustar – Ah Deus... – ela voltou a chorar um pouco.

Por um minuto eu achei que ela não sabia de quem Silver estava falando. Mas entendi logo depois que ela se dera conta de quantos anos se passaram.

—Ele está bem. Muito bem Nina, você ficaria orgulhosa dele.

—Não, não... Ele tinha problemas Silver. Como ele está bem? Ele... era igual ao Diogo. Sabe do que eu estou falando.

—Essa história é muito longa...

—Silver eu preciso saber dele.

—Foi difícil. Depois da morte da Mica, ele se... rebelou. Ele achou que a culpa fosse dele.

Então Silver deu início a toda a história, desde a morte da Mica até eu e o tempo atual. Exatamente tudo, resumindo com detalhes suficientes para que ela pudesse entender seu comportamento, a relação dele conosco e o tratamento.

—Pode ter certeza quando eu digo Nina, ele está ótimo.

—E como ele é?

—Ah mesma cara de criança. Ás vezes, parece que nem cresceu. Ele nem tem barba. – Silver riu e ela também.

—Ele deve gostar das mesmas coisas que o Gray né? Jogos e heróis? – Silver fez que sim — Ele estuda?!

—Estuda... Ele acabou a faculdade de Designer Gráfico e está trabalhando agora. – ela sorriu emocionada.

—E como é essa moça?

—Meredy? Ela é adorável!

Dei um empurrãozinho na Meredy que estava toda acanhada.

—Eu gostaria de vê-las... As duas.

—Essa ideia toda foi delas.

—Sério?

—Sim, elas querem que você participe da vida dele.

—Eu não posso. – ela murchou de repente – Não tenho mais tempo. Olhe pra mim. Ele já está criado, ele tem vocês, eu só atrapalharia.

—Não atrapalharia Nina. Ele ia adorar ver você.

—Pode ser quando eu sair daqui? Não quero que ele me veja assim.

—Quando você preferir.

O policial deu duas batidas na porta anunciando o fim da visita.

—Meu Deus, é tanta coisa... Não teve um dia em que eu não pensei em vocês.

—Nós também. Nós também... – ele a abraçou de novo se despedindo.

Deus essa haviam sido as duas horas mais tensas da minha vida.

Eu estava dentro da banheira a quase uma hora. A água já tinha ficado fria, mas meus músculos ainda estavam tão enrijecidos que cheguei a considerar que ficaria assim até toda essa história se resolver.

Na volta pra casa, Silver combinou de sondar o comportamento de Lyon em relação a essa história e no tempo certo contaria pra ele a verdade.

—Você não está bem.

Eu ainda estava na banheira quando Gray ligou.

—Estou... tensa.

—Algum motivo?

—Não sei... – cocei a cabeça detestando a ideia de omitir pra ele a situação. – Acho que deve ser tpm. – menti.

Ele riu de leve.

—Eu te faria uma massagem relaxante.

—Sério?

—Claro que é sério.

—Eu estou numa banheira agora. Tentando me acalmar, mas suas mãos com certeza fariam mais efeito do que a água.

—Hm. Sua mãe está em casa?

Segurei a risada.

Nós agíamos como adolescentes.

—Ela foi jantar com o Gildarts, provavelmente volta tarde. Qualquer coisa dá tempo de você sair pela janela.

—Tô indo pra ai.

Nós estávamos a um fim de semana do resultado da faculdade do Gray e eu do meu tcc com Kagura.

Estávamos ensaiando no quintal nossas falas na frente de Levy e Gajeel, quando o meu celular tocou.

—Depois vejo. -disse a Levy quando a vi pegando meu celular a fim de me entregar.

—Acho bom atender. É o Lyon.

Quase derrubei o celular quando o peguei e dei a volta no quintal pra ficar sozinha.

—Oi.

—Oi, é o Lyon.

—Ah, eu sei. Aconteceu alguma coisa?

—Não, na verdade...

A voz dele estava trêmula.

Eu apenas conseguia pensar que algo acontecera com o Gray, ou que ele tinha descoberto sobre a visita a Nina e todo o resto.

—Eu precisava conversar. Você está ocupada?

—Não. — disse imediatamente — Nem um pouco. Quer falar aqui?

—Se puder pessoalmente.

—Eu vou ai?

—Não, Gray está aqui. Podemos ir a algum lugar? A cafeteria perto da faculdade?

—Okay. Chego em 15 minutos.

Me desculpei com todos principalmente com Kagura. Inventei que Lyon estava completamente desesperado e chorando e que iria ver o que estava acontecendo. Logico que Levy foi a primeira a elevar a voz pra dizer que eu não ia sozinha me encontrar com ele.

Fingi não ligar muito e me desculpando com Kagura, novamente calcei minhas botas e pedi carona a Gajeel que estava com o carro da mãe dele.

Entramos todos no carro e ele me deixou no centro.

—Se cuida sua louca. – Levy disse de bico pra mim.

—Pode deixar. – lhe dei um beijo na bochecha.

Quando entrei na cafeteria, Lyon já estava lá e deduzi que ele já não estava em casa quando me ligou. Principalmente, porque disse “não, Gray está lá” e não “aqui”.

Tirei minha luva e me sentei na cadeira.

—Me deixou preocupada. – avisei de cara.

—Isso é uma honra. – ele sorriu e eu evitei não sorrir de volta pra valer que estava sendo séria.

O garçom se aproximou a fim de anotar meu pedido. Pedi um café expresso com chantilly e ele um mocha e ficamos em silêncio.

Lyon olhava por todo o canto da cafeteria, menos pra mim.

Ora ele mexia os dedos e batia os na mesa, demonstrando claramente sua ansiedade. Fiquei encarrando o tempo todo esperando sua iniciativa de falar.

Ele de repente tirou uma caixinha do bolso e depositou sobre a mesa.

Me aproximei pra olhá-la e...

Arregalei os olhos compreendendo logo que era uma caixinha de aliança.

—O que significa isso?

—Eu comprei. É pra Meredy.

Relaxei na cadeira quase soltando um suspiro, mas hesitei pois não queria que ele percebesse.

—Ela disse não?

O garçom começou a arrumar nossa mesa, limpando, colocando os dois cafés a nossa frente.

—Eu não pedi ainda.

—Por que? – puxei minha cadeira mais pra perto da mesa e ele também.

O café estava quente deixando a mão dele vermelha. No entanto, eu sabia que ele nem ligava pra isso, já que estava nervoso o suficiente pra nem se importar com a temperatura do copo.

—Eu estou com medo.

—Do que? Exatamente.

Ele respirou e tomou um gole do café.

Eu que estava tão tensa, nem no meu tocara ainda.

—Exatamente eu não sei responder.

—Só diga então os motivos, sem se preocupar com a ordem de qual seria mais importante ou menos.

— Ainda estou me tratando. Pode ser que seja muito cedo pra isso. Pode ser que ela nem queira isso, em nenhum momento. Não quero que ela pense que precisa cuidar de mim o resto da vida, queria que ela me visse como um homem normal... Mesmo ela merecendo mais do que isso que eu sou.

Agora eu ia tomar o café enquanto refletia.

Eu entendia muito bem os motivos do Lyon. Até porque eu compartilhava alguns deles.

—Você falou sobre isso com a psicóloga?

—Faz duas semanas que não vou.

—Por que??

—Não tive vontade. Eu, fiquei pensando nisso a semana toda! – ele bufou

—A quanto tempo comprou essa aliança?

—Quase um mês.

Cocei meus olhos sentindo o calor da minha mão.

—Vamos esclarecer uma coisa aqui então. – pigarreei – Primeiro, não pare de ir a psicóloga. Com vontade ou sem, você precisa ir. Mesmo que seja pra ficar calado. Eve, deve estar enlouquecida atrás de você. Vai ter que ir ao encontro dela. Segundo... – pensei nas palavras pra usar – entendo você achar que é cedo pra isso, querer terminar o tratamento primeiro, mas, certas coisas as vezes precisam de um leve... empurrão. Eu falo por mim. Adiei por muito tempo ter contato com outras pessoas fora as do círculo que eu estava acostumada a me envolver. E sabia que precisava desse passo, todos me disseram isso. Um dia eu tive que dar. Hoje sei que se tivesse continuado naquela estaca, não teria acontecido metade das coisas que estão acontecendo comigo. Todos temos nosso tempo, Lyon. Precisa achar o seu. E ai tudo vai fluir tão bem que você vai estranhar.

—Você estranha?

—Todo dia. – sorri – Eu me pergunto todos os dias se eu realmente estou namorando, se falo normalmente com a minha mãe, se você e o Natsu não são apenas miragens na minha frente.

—Eu sei que preciso disso, mas... É horrível. A sensação de não saber o que é certo, o tempo...

—Essa é a graça. Não sabermos é o que torna tudo mais empolgante. Imagine só se você soubesse a reação da Meredy ao ser pedida em casamento? Se você soubesse o dia e a hora que você ia melhorar. Não ia ter graça. Não ia ter a mesma emoção. E Lyon, você tem que entender que você já está melhor. Olha nós agora. – indiquei a mesa – Olhe nós a anos atrás, acha que isso seria possível? E se nós soubéssemos que um dia isso seria possível, não faria sentido. Ia ser chato. A emoção que nos toma nas situações da vida, é algo que não se explica. O perdão, o amor... Se quer a minha opinião. Eu não sei. Não posso dizer vá e peça ela agora, ou não vá. Você vai saber quando esse momento chegar. Só posso dizer que deve, deve – repeti dando ênfase – ir atrás da Eve. Ela deve estar preocupada com as suas ausências.

—Eu vou. – vi ele sorrir sem graça e secar uma lágrima tímida que caia do seu olho. – Obrigada Juvia. Eu sabia que seria a pessoa certa para falar comigo. Não sei o motivo, mas eu precisava falar com você.

—Sempre que quiser.

—Há outra assunto que precisava falar. – ele ia guardar a caixinha de volta no bolso quando eu dei um gritinho e peguei.

—Não vai guardar sem antes me mostrar essa gracinha.

Lyon finalmente chegou no assunto da sua mãe. E me policiei pra não ficar tensa e/ou falar demais.

— Meu pai veio me perguntar se eu ainda pensava nela. Foi estranho na verdade. Ele sempre preferiu não tocar naquele assunto. De primeiro momento, eu questionei se ele falava da Mica, mas era da minha outra mãe, Pepper. Acho que você sabe, Gray lhe falou alguma vez.

—Não. – menti – bem, só por cima...

—Eu penso, foi o que eu respondi a ele. Penso todos os dias, é estranho porque eu não queria pensar sobre. Deveria deixar isso pra lá. Mas, eu vejo as coisas acontecendo comigo e no fundo reflito que gostaria que ela estivesse aqui pra presenciar tudo isso. Eu não consigo usar aquele discurso de “de um lugar melhor ela está olhando por mim” porque ela não está morta Juvia, eu sei.

Engoli seco a última parte e levantei o dedo pro garçom me trazer outro café.

—Ela está viva. Eu sei. Pelo menos, acho que sei.

—O que te faz ter tanta certeza?

—Talvez, eu sinta. Apenas isso. Eu sonho com ela pouquíssimas vezes. As vezes sonho com meu padrasto, mas no sonho ele é borrado, Mica é borrada, talvez meu subconsciente queira me mostrar que essas são pessoas mortas. Isso não faz sentido né?

—Faz, lógico que faz. Na sua mente faz. Então, faz. – nervosismo me tomava devagarzinho...

—Acha que se eu quisesse encontra-la, meu pai acharia ruim?

—Não! Magina! Ele entenderia. Tenho certeza. Se é pra ser sincera, talvez ele ficasse um tanto receoso se você quisesse encontrar seu pai verdadeiro, mas também não te impediria.

—Hm, não penso nele. – Lyon mudou sua expressão pra completa indiferença. – Já que não o conheci fica difícil pensar em querer vê-lo. Não que eu não queira. Deve ser, legal? – ele riu e eu também – Eu tenho pai Ju. Um pai que foi e é meu pai, mãe, irmão e amigo, numa pessoa só. Ele supre tudo que um dia faltou na minha vida.

Sorri emocionada.

Pelo discurso dele e por sentir falta dessa sensação paternal.

Eu tive meu pai.

Alcóolico e brigão.

Mas eu tive.

E quando ele estava longe do álcool, nós três éramos felizes. Essas situações eram raras. Infelizmente.

Mas eu ainda sentia falta dele...

Meu relacionamento com a minha mãe melhorara com o tempo, e continuava melhorando. E eu amava isso. Eu a amava. Nós nos tratamos juntas sem perceber, uma a outra.

Eu ainda não via Gildarts como um pai. Sentimentalmente falando.

Eu gostava...da figura.

A figura, o físico e a aparência.

O jeito dele ficar com a minha mãe, de acender o cigarro e sentar na poltrona de olhos fechados, de me levar a faculdade de vez em quando, carregar as compras, a barba desenhada sempre me pinicando quando ia me beijar, igualzinho meu pai...

Essas aparências eram o que eu tinha de pai. E eu gostava. Mesmo que não fosse sentimentalmente. Eu gostava de ver a figura dele pela casa, fazia me sentir... melhor. Mais completa familiarmente.

—Você não o considera pai não é?

Lyon lera meus pensamentos silenciosos certamente pela minha cara de paisagem natural prestes a ser desmatada pela violência da cidade grande, fitando meu café.

—Acho que ainda não consigo. Não totalmente.

Expliquei a ele minha visão de pai, física e de aparências.

—Entendo. Realmente entendo. Mas isso é bom sabia. Quero dizer, é um passo pra você também. Gostar da presença dele na sua casa, antes você não gostava muito não é? – fiz eu sim –Terá seu tempo também Juvia, enquanto isso só de uma chance a ele. Ele parece ser um cara legal.

—Ele é – suspirei. – Muito, principalmente pra minha mãe.

Meu celular começou a vibrar constantemente.

Ligação.

Eu não ia olhar, mesmo que fosse pra desligar porque com certeza era Levy!

Deve ser minha mãe... – mentira já que eu achava que era Levy achando que fui estuprada.

Nossa, essa foi pesada.

Balancei a cabeça.

Desbloqueei a tela.

Como se fosse automático, o celular do Lyon também começou a vibrar pausadamente.

Jesus que ela não tenha chamado a polícia.

—Al-

—JU!

—O que foi??

—Eu passei!

—Que?

—Na faculdade, Arquitetura. Eu passei!!!

—Ah meu Deus!!! – tampei minha boca pra não gritar – Lyon ele passou na faculdade!!!

—Sério?!!

—Lyon está com você? Espera que história é essa?

—Ah. – cocei a cabeça – Nos encontramos por coincidência mas vamos falar de você não é mesmo? – ri sem graça.

Gray veio nos buscar e fomos juntos à casa dele fazer uma noite de pizza para comemorar. Assim que chegamos todos estavam lá. Até Erza e Kagura. Fazia muito tempo que eu não via Erza de tão ocupada que estava nunca mais fora a academia.

Ajudei Silver com as pizzas quando elas chegaram, com pratos e copos levando tudo lá pra fora onde tinha mais espaço. Forrei o chão e fizemos um tipo de piquenique a noite.

Silve era todo emoção. Quase chorando. Abraçava Gray e Lyon toda hora dizendo o quão orgulhoso era dos dois.

Meredy e eu nos olhávamos feito cúmplices com aquela cara de questionamento de “ ele falou com você né?” Sabia que nós chegarmos juntos entregara tudo, mas em hipótese alguma eu diria algo sobre o casamento.

Assim que tivemos uma brecha fingi que ia na cozinha pegar água e ela me seguiu.

—Ele falou o que?? – ela já veio com tudo pra cima de mim

—Ele falou que Silver questionou sobre a mãe dele. Quis saber o que eu achava.

—Comigo também, hoje de manhã, mas ele não se estendeu muito. Na verdade, ele apenas jogou assim – Meredy fez um a mão – “Você acha estranho eu querer saber da minha mãe depois de tanto tempo?” Disse que não. Que é completamente normal. E o encorajei claro até porque nós estamos prestes a fazer isso.

—Sim. Saber que estamos escondendo isso dele machuca sabe? Se ele tomar iniciativa vamos ter que falar tudo, ele vai querer vê-la na cadeia e ela não querer isso.

—Temos cinco meses certo? Vamos ver o que rola até lá.

—Acha que ela sai no Natal? Ano novo?

—Mesmo assim, não é o que ela iria querer Ju. Vamos respeitar isso é melhor.

Concordei com Meredy.

Novembro

Era a um dia anterior ao meu tcc. Consequentemente, não dormi.

Nada.

Fiquei me revirando na cama a noite toda, sem nenhum sinal de sono.

Refiz a apresentação de novo, passei minha roupa para o outro dia.

Limpei o quarto e as prateleiras.

Sabia que essa hora Gray estaria jogando, mas não queria interromper.

Kagura, dormia feito anjinho pelo jeito que ignorava minhas mensagens.

Cochilei por uma hora e acordei às sete da manhã com as risadas da minha mãe no corredor, provavelmente fazendo alguma gracinha com Gildarts que já estava indo embora.

Rumei ao banheiro e liguei o chuveiro.

As apresentações se iniciariam as dez da manhã.

Nossa dupla, era o terceiro grupo (graças a Deus!!). Pulávamos o nervosismo de ser o primeiro ou o último.

Me troquei, coloquei apenas minha regata, ia vestir a camisa lá para não amassá-la no caminho.

Minha mãe, empolgada me fez um penteado. Uma trança embutida de lado, com vários negocinhos de enfeites que eu não sabia o que era.

Coloquei o salto e comecei a ficar ansiosa de novo.

Eve me ligou dentro do carro me tranquilizando, dizendo pra ter força, fazer os exercícios de respiração — que diabos esse exercício me deixava era mais nervosa.

Marcamos um dia para nos falarmos, nós três. Eu, ela e Lyon.

Chegando na porta da escola o nervosismo me tomou de novo e ameacei voltar pro carro, mas Gildarts me fez seguir em frente.

Ele, minha mãe, Bicks e Cana iriam assistir.

Gray, Silver, Lyon também, eu só não sabia onde eles estavam.

Gajeel e Levy eram de outros cursos e estavam em prova justamente na hora, mas eles iam tentar fugir.

Quando encontrei Kagura ao lado de Erza, e de uma mulher que provavelmente era sua mãe corri até ela e a abracei dizendo que dava tempo de corrermos e vender arte na praia.

—Deixe de ser mole! – Erza me advertiu – Vocês vão arrasar!

O auditório por enquanto contava só com alguns pais super adiantados como os nossos, e os alunos da sala.

No último dia, todo mundo decidiu se unir, tirar fotos e desejar boa sorte. E eu nem liguei mesmo sabendo que o pessoal todo ali tinha receio de mim, entrei nas fotos e abracei todo mundo que podia, até os nerds bonitões que nunca tinha contado a ninguém que achava eles bonitões, até agora.

Vi de cima do palco enquanto ajudava a arrumar o projetor que tinha dado um pife, Silver e Lyon chegar pela porta.

Acenei pra eles. Os dois estavam meio cabisbaixos e fiquei sem saber porque.

Sabia que Meredy não poderia vir porque precisava trabalhar.

Gray...

Engoli seco e desci do palco.

—Oi! – abracei eles -Cadê o Gray?

Lyon tentou fazer um rodeio de “aaan, então...” mas Silver, direto como sempreapenas disse:

— Ele teve que entregar os documentos na faculdade. Ficamos sabendo que era hoje até as duas horas da tarde. Ele saiu correndo pra levá-los. Acho que chega a tempo.

—Hm... – cocei a cabeça – Tudo bem.

Meu celular tocou quando eu estava no corredor sentada, quase chorando... Só quase.

—Oi.

—Ju.

—Oi Gray.

—A fila está grande... Já começou?

—Já... – funguei com meus olhos ardendo, mas eu não ia fazer toda aquela maquiagem de novo.

—Droga, eu devia ter olhado a data direito...

—Gray tudo bem, de qualquer forma você não poderia ir outro dia e nem eu apresentar outro dia. Está tudo bem.

—Não está.

Não está. Concordo, mas precisava deixá-lo calmo ou ele iria sair correndo pra vir aqui como eu sabia que iria fazer.

—Está sim. Conferiu os documentos?

—Sim, três vezes.

—Então está tudo bem, vai dar tudo certo.

—Boa sorte Ju.

—Obrigada, — sequei uma lágrima.

—Amo você.

—Também amo você Gray.

Era a nossa vez.

Meu coração doeu tanto que não consegui levantar e meu orientador teve que ir até minha cadeira ver o que tinha acontecido comigo.

Quando finalmente fui até a frente e subi no palco, olhei mais uma vez e nada do Gray.

—Que foi? – Kagura sussurrou nervosa para mim enquanto fingíamos procurar o trabalho no computador.

—Ele não vem.

—Droga, não pensa nisso. Fingi que ele está aqui.

—Não dá para fingir.

Começamos a apresentar.

A cada fala minha eu sentia minha voz sair trêmula de choro. Minha mãe me olhava com agonia. Sabia que ela queria subir até lá desligar e tudo me levar embora para chorar em casa.

Sabia que Gildarts segurava ela na cadeira e isso era o jeito dele de ser pai...

Escutei uns passos correndo no andar de cima e vi Gajeel e Levy que literalmente fugiram da sala só para ir lá me assistir. Os dois ficaram sentados no chão acenando para nós, encapuzados.

Quase perdi a fala ao olhar as gracinhas deles lá em cima, mas logo recuperei o raciocínio.

Estávamos quase no fim.

Faltavam mais um pouco do desenvolvimento, nossos dados e conclusão.

Ele não ia conseguir.

—Nós pudemos coletar os seguintes dados através...

Um barulho de porta tão grande me assustou, mas consegui segurar meu susto, já Kagura soltou o famoso gritinho que fez metade da plateia jovem rir e Levy gargalhar lá em cima. Os professores olharam feio e alguns se levantaram para ver quem fora o indivíduo que atrapalhara a apresentação.

—Desculpa. – escutei a voz grossa ecoar no silêncio do auditório. – estou atrasado. Bastante e fiz barulho.

Eu queria rir muito da cara do Gray toda suada, a gola da camisa parecendo uma piscina e a mochila na mão.

Ele andou pelo corredor e sentou entre o Silver e Lyon.

—Oi. – vi ele falar e acenar pra mim.

Contra as regras da apresentação, devolvi o oi e ainda joguei um beijinho e de novo todo mundo riu.

Continuamos a apresentação, eu mais feliz que nunca que sentia que estava iluminada e reluzente lá em cima.

No final quando agradecemos e todos bateram palmas. Meus olhos se fizeram duas poças de lágrimas e comecei a chorar.

Kagura me abraçou chorando também enquanto os sons das palmas repercutiam no auditório. A banca estava de pé nos aplaudindo e só conseguia pensar nas nossas noites sem dormir, os fins de semana que eu deixava tudo e todos pra pesquisar, ir a bibliotecas com Kagura.

Eu estava chorando de felicidade, de alívio, de vitória.

Todos se sentaram de novo e sequei minhas lágrimas com o lenço da minha professora, que chorava também.

A banca nos deu os melhores feedbacks de todos os grupos. Elogiaram nossa coragem de fazer toda essa pesquisa em duas pessoas, que com certeza seria o melhor trabalho da noite.

Minha professora, da qual eu gostava muito, não era da banca, mas pediu a palavra apenas para elogiar minha coragem e força. Disse a todos o quanto era notável minha mudança no começo do curso até agora e que ela estava feliz.

Eu sempre soube que ela sabia dos meus problemas, mesmo sem precisar falar comigo.

Novamente mais palmas, e Gajeel fez a maior barulheira lá em cima assoviando com Levy.

Olhei a plateia e vi Gray passar entre as cadeiras pra aparecer no corredor.

Desci o degrau e corri para o corredor nos meus saltos e pulei nos seus braços.

—Eu nunca estive tão feliz por ver você. – disse em seu ouvido.

—Você foi maravilhosa. Não vi tudo, mas sei que foi. – dei risada e ele secou minha lágrima – Como sempre é.

—Obrigada por estar aqui.

—Obrigada você, por estar na minha vida.