Calm The Storm
34 Bônus: Lyon
Notas iniciais
Eu dirigia concentrado na rua com Meredy apoiada a cabeça no meu ombro, fazendo carinho na minha mão que segurava a marcha.
Pretendia apenas deixá-la em casa e sair, mas acabava ficando a maioria das vezes.
Então estava sempre preparado para ficar lá. Troca de roupa e demais coisas do gênero.
Dessa vez, uma coisa a mais na minha mochila me fazia ficar agoniado.
Tinha tomado a decisão mais importante da minha vida sozinho. Sem antes consultar ninguém, ou perguntar se seria uma boa ideia.
Não sei se fora o calor do momento, ou o que.
Sei que realmente, eu amava Meredy.
Muito.
O suficiente para querer tê-la perto de mim para o resto das nossas vidas.
Eu só não sabia se ela queria agora...
Fora a mudança drástica na minha vida que envolvia, resolver voltar para cá, me tratar e ser perdoado. E em todos os segundos ela esteve presente, me apoiando e repreendendo também. Durante a mudança, sabia que ia ser difícil não ter ela sempre por perto como antes, e ela em todos os fins de semana deu seu jeito de vir até aqui ver como eu estava e me ligava todos dias.
Ela sabe que eu nunca fui flor que se cheire, mas Meredy era teimosa, e ela me cheirava com toda a vontade do mundo de tornar aquele cheiro ameno ao restante das pessoas.
Era assim que eu me sentia.
Fedido e sujo, aos poucos sendo lavado e limpo por essa garota.
Tudo se ajeitava aos poucos. Eu comigo mesmo, e com as pessoas a minha volta.
Me sentia bem melhor, mesmo ainda medicado, não sentia mais toda aquela sensação bizarra de machucar alguém porque queria. Pelo contrário.
Eu me medicava, ia a todas as consultas e Evergreen recomendou que eu fosse a uma terapia grupal de abuso sexuais. De pessoas que foram abusadas.
E ver outras garotas e até garotos, naquela situação, contando suas histórias eu ficava com cada vez mais nojo disso e enxergava menos a presença do meu pai na minha vida.
Estava mudando, e agora eu sentia isso.
De verdade.
Juvia se tornara uma amiga.
As vezes nos sentávamos na sala esperando Gray e/ou Meredy para alguma coisa e conversávamos sobre qualquer assunto como se desde sempre fossemos amigos. Bons amigos.
Logo passei a ganhar um espaço novamente no coração da Lucy também. Levy ainda lutava contra mim, assim como Gajeel e Natsu, mas eu sabia que devia dar tempo ao tempo, para todos.
Inclusive tempo a mim mesmo.
Desde o início do tratamento, tenho me dedicado todo e cem por cento a minha melhora porque quero ser uma pessoa melhor para ela. Ainda mais agora que eu sabia os sentimentos dela por mim e ela os meus, e eu sabia que me tratar era uma etapa imensa pra ficarmos juntos.
Em relação a isso. Romper com o Rusty não foi fácil, e ainda não está sendo. Meredy diz que ele vai à casa dela pedir para voltar. Ou aparece no trabalho no fim do expediente.
Eu tinha medo do que ele podia fazer.
Na minha mochila eu carregava o peso de uma aliança.
Confesso que de primeira achei que foi pura empolgação. Eu comprara o anel em uma joalheria voltando do trabalho, e estava decidido a pedi-la em casamento. Mas então todos os outros obstáculos vieram a minha mente.
Primeiro que eu não estava cem por cento bem. Eu tinha medo que como me relacionar com ela. Apesar de que, a primeira vez que ficamos juntos não acontecera nada de ruim, pelo contrário!!
Mas eu não sabia o que fazer agora. Eu realmente tinha medo.
Estacionei o carro e juntos entramos dentro do apartamento.
Ela perguntou umas duas vezes porque eu estava quieto, mas tentei desconversar, mesmo sabendo que ela arrancaria de mim uma hora ou outra o motivo. Enquanto Meredy tomava banho eu fiquei sentado na sala tentando lembrar o porquê de não ser assim com ela.
Como eu conseguia não querer machucá-la.
Se fosse agora, o tratamento seria um bom motivo, mas e antes?
—Lyon? – Meredy me acordou do meu transe – Tudo bem?
—Está. – menti.
Na minha bolsa, como eu disse, estava a decisão que eu vinha tentando tomar iniciativa a tempos. Não comentei com ninguém.
Se eu dissesse ao Gray ele iria surtar de felicidade, e isso seria ótimo, mas eu queria uma opinião racional. Eu podia ter perguntado a Juvia, mas não tive oportunidade o dia todo de falar com ela sobre isso. Sabia que ela seria uma pessoa certa a me ajudar porque ela sabia o que eu era, e fazia e como estava sendo toda essa “nova fase”. Podia contar ao meu pai também.
Eles dois pareciam ser as pessoas mais certas para isso.
Talvez eles dissessem para esperar mais um tempo de tratamento e ver como seria.
Afinal, eu precisava ter cem por cento de certeza de mim mesmo, do que eu era e não era mais capaz, apesar de ser diferente com ela, eu devia sentir o mesmo por todas as outras mulheres ao meu redor, no sentido de ser alguém melhor, alguém que impede isso e não pratica.
Eu ouvia cada dia histórias novas sobre estupro e ficava cada dia mais enojado e desejava que se fosse possível abominar aquilo da terra.
—Não tá. – ela me beliscou de leve e eu dei um aí alto. – Você não está nem me ouvindo.
—Desculpe Meldy.
—O que aconteceu? – ela se sentou do meu lado na cama – Por que não quer me contar
—Eu não disse que não queria.
—Você fica fazendo rodeios de não é nada não é nada o dia todo. Eu sei que é algo, eu te conheço a anos.
Suspirei.
Eu não podia falar.
“Então é por que eu não sei se peço pra casar com você agora ou depois”.
O pior é que eu agora iria precisar de um motivo para fazê-la não se preocupar comigo, mas teria que mentir.
—Está estressado.
—Um pouco.
—Hm, bem se quiser me contar, eu vou estar aqui de qualquer maneira sabe disso.
—Desculpa.
—Não precisa pedir desculpas. – ela se deitou no meu ombro. –
Eu fiquei observando disfarçadamente enquanto ela pegava no sono, me lembrando da época em que era rotineiro dormir com a Meredy mesmo nós sendo só amigos.
Eu lembrava daquela noite como se fosse recente.
Nós tínhamos dezoito anos. Foi antes dos ocorridos com a Juvia e tudo mais.
Mas eu já tinha toda aquela essência esquisita. Desde sempre.
Tinha ficado com outras garotas, e era sempre a mesma coisa. Era só que elas nunca reclamaram quando eu mudava meu jeito de agir. Eu sempre soube da verdade, porque sentia que ficava tudo diferente dentro de mim, mas elas nem percebiam.
Digamos que eu não as forçava. Todas elas queriam estar comigo, mas quando eu ficava... agressivo, elas não se importavam.
Na época Juvia foi a primeira a ter essa maldita experiência.
Meredy e eu havíamos ido a uma social de amigos da escola. Ela odiava festa.
Na verdade, eu mal andava com a Meredy.
Acho até melhor explicar tudo do começo para não virar bagunça.
Ela era a nerd de óculos com armação azul escuro sentada sempre no canto esquerdo da sala, olhando ora janela. E eu o cara do fundão junto com Sting, Hisui e o pessoal.
Nós começamos a nos falar só por causa de uma atividade de sala. Fui literalmente obrigado a me sentar com a Meredy.
Eu a evitava era verdade. Evitava porque eu não queria me perder naqueles olhinhos e no rosto rosado de maçã.
Eu não era cara pra ela – e ainda não era.
Ela era muito para mim, tudo o que procurava nas noites em festas ela tinha e eu não queria me envolver.
—É só uma lição. – lembro dela dizer quando me sentei jogando minha mochila debaixo da mesa com raiva – Só responda metade e pode voltar para o seu grupo. – fingi não ouvir – Sabe pelo menos responder a metade?
Respirei fundo.
Era biologia.
Menos mal. Eu era ótimo em biologia.
Peguei a folha da mão dela e comecei a escrever as que eu sabia em silêncio.
Olhando meu caderno, desviava minha atenção as vezes pra ela. O cabelo meio ruivo meio rosa, sempre preso numa trança, moletom naquele dia de frio e a calça da escola apertada de sempre. Os óculos redondos no rosto que ela fazia questão de ficar arrumando de cinco em cinco segundos.
Entreguei a folha a ela que começou a responder.
—Achei que fosse burro.
—Achou errado. – dei de ombros
—Mas a sete está errado, aqui – ela apontou a caneta – são estafilococos, não bacilos.
—Tá. – disse com raiva por ela estar certa. – Eu estava em dúvida dessa também.
—Pelo jeito seus amigos não se viram sem você.
Olhei para trás e os vi Sting sussurrando tentando me entregar a folha e responder pra ele, enquanto Hisui lixava as unhas, me virei de novo, sem dar atenção e enquanto ela respondia as que faltavam, peguei meu livro do John Hill e comecei a ler.
—Do que se trata?
—Isso? – indiquei o livro e ela assentiu – Ah, um cara que vira demônio da noite para o dia.
—Só?
—Não, tem toda uma história por trás. Não sou de dar spoilers, vai precisar ler pra saber.
—Pode me emprestar depois?
—Te emprestar? – questionei surpreso. Eu não era de emprestar livros, tinha ciúmes, mas era Meredy. – Não sei se o tipo de livro que uma garota lê.
—Deixe de ser babaca, pode ou não?
Babaca??!
Revirei os olhos e fechei o livro entregando pra ela.
—Pode acabar primeiro.
—Estou lendo pela terceira vez, pode ficar à vontade.
—Terceira vez? Seu repertorio de livros está tão morto assim.
—Está. Não gasto muito dinheiro com isso. Até porque, nem tenho para gastar... – sussurrei essa última parte.
—Eu te empresto um também.
Ela me entregou o médico e o monstro, dizendo que era uma versão menor mas muito boa.
Eu não podia me apaixonar mais.
Quando o sinal bateu, me lembrei o porquê de nunca contar a ela o que sentia. O idiota do Rusty aparecera na porta com o casaco do time de basquete e a abraçou dando um beijo no seu rosto depois olhou pra mim.
Sim, ela tinha namorado.
Não que ele fosse importante. Era esquelético, reserva do time e um tremendo pé no saco.
Eu via pelo modo como ele a tratava quando estavam juntos, que ela estava em um relacionamento abusivo e não queria contar pra ninguém.
Depois desse dia, nós íamos todos os dias na biblioteca procurando livros novos pra ler.
E cada dia mais eu percebia os motivos de ter me apaixonado por ela mesmo sem nem conversar.
Eu não falava com ela na frente dos outros. Nisso, eu podia dizer que era bem filha da puta. Bem mais do que eu já era.
Tinha vergonha porque as meninas pegavam no meu pé por andar com a nerd da sala, porque não queria elas enchendo o saco da Meredy, nem arranjar confusão com o esquentadinho do namorado dela.
—Porque namora o Rusty? — questionei de repente com a cabeça deitada no colo dela. E que colo aconchegante...
—Porque? – ela riu – Porque, gosto dele.
—Ah é. — afirmei
—Não. – ela fechou o livro – Eu não gosto mais dele. Já gostei muito, mas ele se tornou um idiota possessivo e eu só queria terminar, mas ele não quer.
—Ele não quer? E você vai ficar nessa até quando?
—Eu não sei Lyon.
Vi a expressão dela triste e me xinguei por tocar no assunto.
—Você não merece isso. – disse me sentando de frente pra ela.
—Eu sei que não. Há tantas coisas que eu queria fazer, e é tão chato ser impedida por alguém. Tudo é chato. Tudo. Sair com ele, conversar, fazer sexo... – fingi não sentir ciúme e pigarrei baixo – Já fez isso com alguém que não gosta? Nem um pouco. Nem achar bonito.
—Já. – disse sentindo a verdade doer em mim. – Mas devo acrescentar, que ser mulher nisso deve ser bem pior.
—É, pode ser. Quando eu o rejeito, ele diz que é porque eu tenho outra pessoa. Eu queria ter mesmo. De verdade. Queria colocar um chifre gigante na cabeça dele.
Me engasguei com a própria saliva começando a rir.
Como uma garota tão fofa podia fazer isso?!
Ela não era do tipo que agia assim, estava no rosto dela. Por mais errado que fosse, eu entendia.
—É só você trair ele com alguém.
—Ah é. Ninguém vai me querer não.
—Hmmmmm – cocei minha cabeça nervoso – Se você acha.
—Você vai à festa da Hisui? Claro né. – fiz que sim – Amélia me chamou para acompanhar ela, porque elas são primas, mas não fala muito com ela. Então...
—A gente se vê lá. – disse sorrindo
—Ah, nem. Você vai ficar sumindo e indo para perto delas que eu sei.
—Sabe que prefiro você.
—Eu também prefiro você Lyon.
Eu não sabia em que sentido aquelas palavras tinham sido ditas, mas meu coração palpitou rapidamente de ouvi-las e senti uma fagulha de nada de esperança.
Estava no sofá do lado de fora da casa da Hisui, com os botões da minha camisa aberto.
Bêbado.
Mas eu nunca dava vexame, só ficava tonto e na minha.
Meredy estava do outro lado do quintal com Amélia e dois caras. Um deles abraçado com ela vinha tentando desde a hora que eu estava ali do outro lado observando, roubar um beijo dela. Revirei os olhos. Pelo menos ela ia cumprir o que tinha me dito. E eu ficaria feliz por ela estar feliz. Mesmo indo pro inferno por aplaudir um adultério, eu iria de qualquer jeito se não fosse por esse motivo.
Mas ela estava linda.
Demais.
Usava um vestido preto nem tão curto nem tão cumprido. O cabelo estava solto dessa vez, até o meio das costas com uma presilha do lado e um salto pequeno.
Eu agradecia por ela estar lá do outro lado.
Por mais que eu tivesse a mínima chance com ela, sabia que não deveria tentar nada. Não era para mim. Eu era um monstro e tinha consciência de ser um monstro e isso machucava quem estava ao meu redor. E ela era uma pessoa que não merecia alguém como eu na vida. Ela era bondosa demais, gentil, empática, educada, inteligente e linda...
—Te achei! – olhei para o lado tarde demais pra me defender dela cair em cima de mim.
Meredy tinha bebido um pouco certeza, o cheiro do álcool misturado com cereja estava no seu cabelo e na sua boca.
Ela apoiou as mãos no meu tórax nu, sentando-se na minha perna.
—Achei você.
Eu estava totalmente sem graça e tentei em vão fechar minha blusa, mas ela tinha sentado em cima de um pedaço dela, impedindo os botões de juntarem.
—Que bom né. Cadê Amélia?
—Ela foi ficar com um garoto.
—E você?
—Eu também.
Gelei na hora.
Ela tinha ficado com aquele cara?!
Sério?
Quando?
Eu nem tinha visto quando Amélia saiu de lá.
—Foi bom pelo menos? Pra dar um chifre tem que valer a pena hein?
—Não, eu não fiquei – ela riu alto – Eu vim ficar. Com você.
—Ah Deus... – sussurrei e ela se deitou no meu peito.
—Estou ficando com sono, por isso odeio beber. Quando vai para casa?
—Quando você for. Disse que ia te levar.
—Vai ficar lá hoje também? – ela se ergueu de novo alegre.
Ta, tá
Pode chamar de friendzone, mas eu já tinha dormido na casa dela, duas vezes. Não era a casa. Era uma republica mista. O quarto dela e da Amélia, mas Meredy odiava dormir sozinha. Então, concordei que quando Amélia saísse, eu ficaria lá.
—Vai estar sozinha hoje de novo?
—Pelo jeito. – ela deu de ombros – Por favor...
—Ah, eu não sei não... – cocei a cabeça – Um dia Rusty vai descobrir e me matar.
—Só quando ele descobrir né. Se não... – ela riu de novo
—Fica rindo na cara do perigo porque não é você.
—Olha eu não ligo. Você é a única pessoa que o Rusty não pode falar nada. Eu deixo ele na mesma hora.
—Ah jura? – ri
—Juro. Juro mesmo. Faço qualquer coisa pra ficar com você Lyon.
—Você está bêbada Meldy. – usei o apelido que lhe dera.
—Eu devo estar, mas eu não ligo. – ela deu de ombros – Eu quero mais que ele suma da minha vida. – ela deu um suspiro pesado -Vai lá para a casa vai...
Como é que eu ia falar não?
Me levantei pegando ela pela mão pensando em encarrar a barulheira lá dentro e passar pra portada frente pra ir embora.
Assim que entramos na sala Meredy deu um gritinho dizendo que começara a tocar sua música preferida e queria esperar.
Ela começou a dançar sozinha, e me puxando mais junto dela.
—Eu não danço. – avisei
—Eu também não. Anda, deixa de ser chato. Porque você bebe e fica chato?
—Por que você bebe e fica toda animada? A chata aqui é você!
Ela mantinha o corpo cada vez mais perto do meu enquanto mexia o corpo de um lado ao outro lado, rebolando.
Por mais que eu tentasse sair dali me sentia como imã sendo atraído pra ficar mais, mais e mais perto dela, até minhas mãos estarem na sua cintura e nós dois totalmente colado um no outro.
Quando a música acabou ela se virou de frente pra mim com os braços no meu pescoço e disse alto no meu ouvido.
—Viu?!. Não doeu!!
—Não, mas me deixou excitado. – disse entornando todo o resto do copo de vodca e soda que eu tinha na mão ainda cheio.
Ela parecia ter escutado o que eu falei porque a cara dela ficou vermelha na hora, e ela gargalhou depois jogando a cabeça pra trás, rindo tanto que saíra até lágrimas.
—Se eu disser que eu também, é estranho? – ela perguntou sorrindo. Fiz que não, sem tirar os olhos dos delas.
Senti a sua mão quente na minha e saímos pela porta da frente de mãos dadas.
Peguei mais um copo de alguma bebida antes de sairmos totalmente da casa e ela me advertiu dizendo estar bebendo demais.
Talvez, eu estivesse. E talvez eu quisesse estar bêbado o suficiente para dizer e fazer n coisas que eu não me arrependeria depois, mas sabia que daria a maior cagada da minha vida.
O estranho foi nós irmos daqui até a república que ficava a pelo menos trinta minutos andando. Era três horas da manhã, a rua estava deserta e eu não sentia medo de ser assaltado, ou qualquer coisa contanto que eu pudesse segurar a mão dela por mais tempo.
Dei meu casaco a ela e preferi passar frio só porque queria admirar que ela ficava linda com ele.
Assim que chegamos na porta do quarto dela, fazendo o menor silêncio pra ninguém dos outros quartos acordar. Quando a porta abriu cai de costas do tapete, tonto de ter bebido tanto e tanta coisa diferente.
Nem preciso dizer que Meredy desatou a rir porque eu tinha caído no chão. Queria fazer força para o meu corpo levantar, mas aquele tapete fofinho me segurava.
Vi ela passar por cima de mim e ir em algum lugar e voltar com uma coberta na mão.
Me sentei encostando no pequeno sofá e ela abriu a coberta em cima de mim e tirou meu casaco... e depois o vestido ficando só com o tipo de macacão apertado por baixo. Eu não sabia o que era. Devia ser algo que se usa por baixo de vestidos, mas eu achava lindo daquele jeito mesmo.
—Por que... – meu queixo caia diante daquele corpo tão... tão, lindo. Pequeno, com as curvas arredondadas. – Tá tirando a roupa.
—Eu me troco aqui. É meu quarto.
—É a sala.
—Não – ela riu vestindo um moletom e sentando-se a minha frente – É um quarto com uma mini sala improvisada.
—Não pode sair tirando a roupa assim. Na frente dos outros.
—Na sua frente eu posso. Eu quero.
—Não faz isso... – sussurrei, mas ela já estava próxima a mim, sentada com as pernas envolta do meu colo. – Meredy...
—Eu quero ficar com você Lyon.
—Rusty ele... vai... – eu queria falar, mas só conseguia sentir o calor das coxas delas em cima do meu colo.
—Não ligo. – ela encostou no meu peito e começou a beijar meu pescoço de leve e senti todos os pelos do meu corpo se arrepiarem. – Quer ficar comigo?
QUERO!
Eu queria gritar.
Queria agarrá-la e jogá-la no chão de cobertor, tirar todas as peças de roupa e satisfazê-la com tudo o que já pensei que faria com ela.
Eu queria mesmo.
Parar só de imaginar como era o seu corpo e ver com os meus próprios olhos, e tocar.
Mas.
—Eu não quero te machucar Meredy.
Ela relaxou como se não entendesse do que eu falava e eu sabia que não entendia mesmo. Nada.
—Não posso machucar você.
—Mas, você não vai.
—Eu vou...
—Lyon, por que está dizendo isso? Eu confio em você. Confio mesmo. Eu quero isso, muito. Esquecer todo lá fora, e ficar só com você, hoje. Por favor...
Eu estava de olhos fechados enquanto ela me dizia tudo isso.
Respirei fundo de uma vez só e ergui meu rosto do sofá abraçando sua cintura e sua nuca, a beijando nos lábios antes que ela pudesse terminar o seu “por favor”.
Eu não a faria pedir por isso.
A boca de Meredy era quente, e tinha gosto de cereja e álcool, assim como o pescoço, a curva dos seios, os seios em si, e todo o restante do seu corpo que eu tive a chance de provar naquela madrugada. O cheiro inebriante de perfume, me deixava enlouquecido e eu não estava sendo, ou sentindo nada agressivo.
Eu a tratei como nunca tinha tratado uma garota.
E me senti como nunca tinha me sentindo antes.
A impressão era que eu me senti homem de verdade com alguém.
Depois de tirar suas roupas, beijar e tocar seu corpo eu ainda estava como eu mesmo.
Ela mordia meus lábios enquanto eu soltava um gemido, sentindo minha pele entrar em contato com a dela em sua intimidade.
Voltei a beijar seu pescoço e me concentrei em continuar lúcido enquanto começava a entrar em sua intimidade quente e molhada.
Ela hesitou um pouco, mordendo os lábios e contraindo sua pélvis e as pernas.
Antes que eu pudesse questionar, ela sussurrou “não para” quase inaudível.
Colei meus lábios nos dela e segurei sua mão entrelaçada na minha no lado da sua cabeça e a penetrei sentindo todo o meu corpo levar um choque e gemi abafado.
Eu sentia toda a vibração e prazer correr pelo meu corpo e juro que nunca tinha sido assim.
Era sempre... dor, más lembranças, prazer barato e feições assustadas com misto de prazer.
Nada de calor, intensidade, cheiro de morango e gemidos que eu escutava agora no canto do meu ouvido sem preocupação de alguém pudesse ouvir.
Eu queria que não acabasse.
Nunca.
Mas meu corpo começou a dar sinais de fraqueza e orgasmo que até isso eu não sentia a tempos. O corpo pequeno, mas farto formigava e vibrava embaixo de mim, e minhas costas eram arranhadas com força e carinho, até que eu me desfiz por completo encostando minha testa no seu tórax.
Meredy estava ofegante, formigando e suada. Suas pernas e o quadril tremiam de leve.
Me ergui por um tempo só para ver a expressão no seu rosto sorridente com algumas gotículas de suor no pescoço.
Senti meus olhos marejarem.
—Por que você está chorando? – ela segurou meu rosto rindo mas preocupada.
—Eu.... Não sei. – menti
Eu sabia por que.
Porque ela era a única que me fazia ser diferente, por algum motivo eu conseguia ser eu mesmo com ela. E não um projeto de psicopata. Talvez, isso fosse algo que eu realmente não conseguisse entender. Não por completo. Por que ela? E porque eu machuquei tantas pessoas na vida sem perceber isso.
Arrependimento é diferente, eu me arrependia de como aquela situação de dor me fazia ser prazerosa, me arrependia de tudo e com todas. Mas acontecia, e outras vezes também por mais que eu evitasse o máximo.
Mesmo a psicóloga me orientando a pensar no meu “melhor” e ir aos poucos abandonando isso. Eu pensava quase todos os dias em todos os que machuquei.
Principalmente quando vejo Juvia feliz ao lado do Gray me faz pensar como um dia eu pude ser tão... cruel.
Mas eu sentia a mudança cada vez mais. Em mim. Na minha relação com as outras pessoas.
Sabia que isso tudo acabaria e eu seria finalmente, apenas eu.
Fale com o autor