Cafés e Gatos
10 Capítulo 10
— Sim — respondeu Edgar enquanto bocejava e coçava a nuca.
— Dormiu bem? — ele colocou café em uma caneca e o entregou. O leve cheiro pareceu ajudá-lo a despertar, pois seus olhos deixaram de ser apenas uma linha. — Não iria deixá-lo dormir no sofá, mas estava dormindo tão profundamente que não quis acordá-lo.
— Você? Pensando no bem-estar das visitas? Que surpresa! Acho que estava tão cansado que apaguei totalmente… — levou a caneca até os lábios e bebericou um pouco. — Hm… Bom. Está meio cedo, não?
— Quase 6 horas da manhã — respondeu Theo. — Tenho o costume de acordar por volta desse horário por causa do meu antigo trabalho. Agora faço isso para assistir ao jornal e conversar com a minha avó.
— Duas senhoras tricotando logo de manhã… As fofocas devem ser muito boas — provocou Edgar tentando lançar um sorriso sarcástico, mas seu rosto se contorceu em uma estranha careta sonolenta. — Normalmente já estou acordado esse horário, mas ainda demoro para realmente despertar.
— Sério? Não deu para reparar que sua alma não voltou ao corpo. Quer algo para comer? Acho que ainda temos torrada… E talvez pão de forma.
— Sem um dos seus bolos dessa vez? Você já foi melhor, Thiago. Ou melhor, Theo. Ele não gosta que errem o nome dele…
— Theo é apelido — retrucou colocando pote com queijo e presunto na mesa, junto com o pão. — Mas virou praticamente meu nome.
— Então qual é o seu nome de verdade? Thiago?
— Talvez um dia você descubra.
— É mesmo? — Edgar voltou até o sofá e apanhou seu celular. — Sabe… Minha mãe deve ter o registro dos antigos funcionários do café. Não seria difícil descobrir seu verdade nome… Não… Não é possível. Seus pais te odeiam?
— O que? Como pode achar algo assim tão rápido? — Theo foi até ele e tentou pegar o celular de sua mão, mas Edgar ergueu fora do seu alcance. — Vamos lá! Me mostre o que tem aí.
— Por que, Theodoro? — perguntou, dizendo as últimas palavras lentamente como se as saboreasse. — Não era melhor ter ficado apenas com a primeira parte? Não me admira que esconda esse segredo à sete chaves!
— Não estou escondendo. Só é mais fácil dizer que é Theo. Se não for comer agora, vai ficar sem tomar café!
— Olha como é assustador esse Theodoro. Não esperava tantas surpresas vindas do Theodoro. O que tem mesmo para comer, Theodoro?
As pequenas provocações pareceram ajudá-lo a despertar rapidamente, pois todo o sono desapareceu enquanto repetia o nome de diferentes maneiras sempre que tinha a oportunidade. Felizmente não ficou muito tempo para continuar insistindo ao ponto de ficar irritante. Por mais que Theo não se incomodava com o nome, vê-lo sendo repetidos tantas vezes lhe dava vontade de pegar cubos de gelo e coloca-los na camisa de Edgar apenas para vê-lo sofrer um pouco. Se continuassem sozinhos por mais tempo, provavelmente aconteceria.
O convidado tomou banho e colocou suas roupas sociais juntas novamente. Os dois saíram da casa e desceram os degraus até chegarem ao carro estacionado desde o dia anterior, mas não sem deixar de reparar nas cores roxas da parede. De fato, poderia não ter sido um resultado profissional. Se reparasse bem, poderia ver algumas pequenas marcas de onde havia sido raspado. Porém, no geral, o resultado ficou melhor que o esperado. Dava uma vida diferente ao lugar.
— Você fez um trabalho muito bom — comentou Edgar lhe dando pequenos tapinhas nas costas.
— Não fiz tudo sozinho. Você ajudou.
— Sim, mas você foi o responsável pela maior parte e pelos detalhes. Seria ainda melhor se a algo funcionasse aqui — ele se aproximou do vidro e olhou para o interior, com suas poucas mesas. — Daria outra vida ao lugar.
Essa conversa ainda não havia acontecido entre Theo e sua avó. Tinha curiosidade para saber o motivo da loja estar naquele estado. Se fosse de fato um café ou uma lanchonete, os amigos de sua avó ainda poderiam se reunir e teriam um ambiente agradável para isso. Além de que ela poderia ganhar dinheiro, fosse alugando ou reabrindo.
— Agora preciso ir. Infelizmente tenho problemas para serem resolvidos hoje.
— Me empreste seu celular um segundo — com a testa franzida, Edgar lhe entregou seu aparelho. Não demorou muito para que Theo digitasse seu número de telefone e devolvesse. — Para você não ser deixado ao relento por horas, olhando para uma janela. Caso faça uma loucura dessas novamente, me ligue.
— Pode deixar, Theodoro.
O carro ganhou velocidade aos poucos e, antes dele chegar à esquina e desaparecer em uma curva, o braço de Edgar saiu pela janela e fez um gesto dramático de adeus. Balançando a cabeça e sorrindo, Theo se virou e voltou para casa, saltando de um degrau a outro.
Estar sozinho foi algo um pouco estranho. Não se lembrava quando havia sido a última vez em que ficou totalmente sozinho em casa. Lhe trazia uma calmaria inesperada. O silêncio era tranquilizante, e foi apenas rompido por Bigodes miando atrás de comida.
Retornando seu hábito, colocou a ração para os gatos, arrumou a cozinha e foi limpar o restante da casa. Aproveitou para deixar as roupas lavando enquanto assistia a receita do dia e logo se colocou a preparar o almoço. Preferia cozinhar para outras pessoas, por isso não fez nada elaborado para si. Aproveitou apenas as folhas de alface para fazer uma pequena salada.
Ao sentar para descansar, pegou seu celular e haviam duas mensagens. Uma delas era de um número desconhecido, enviando apenas uma imagem de um palhaço. Não foi difícil notar que se tratava de Edgar. A outra mensagem era de Beatriz lhe chamando para ir à casa de Ivana mais tarde. “Não é nenhuma nova leitura. Apenas para passar um tempo”, especificou. Ele acabou aceitando. Ficar sozinho o dia inteiro talvez se mostrasse demais para ele.
***
Havia algo diferente, mas ele não sabia dizer o quê. Sentado ao lado de Beatriz no carro de aplicativo, sentia uma diferente sensação vinda da garota. Talvez o cabelo novamente tingido ao seu tom natural… Mas não havia nada perceptível além disso. O que poderia ser?
Foram recebidos com abraços calorosos de Ivana. Seu cabelo estava sem os dreads e cortados acima dos ombros. Se não fossem as tatuagens e os piercings, diria que se tratava de outra pessoa. O comportamento, olhando para a janela onde a vizinha estava escondida observando, também a entregava facilmente. “Dessa vez, essa mulher disse que me viu pelada aqui fora fumando! Acredita?”, perguntou incrédula. Quando questionada se a vizinha tinha mesmo inventado aquilo, Ivana negou e admitiu ter feito isso apenas para confirmar se ainda vigiava sua vida.
Entraram na casa e caminharam até o quarto da garota, sendo seguidos de perto por sua gata preta. Sentaram-se novamente ao redor da pequena mesa e esperaram até Ivana retornar com uma garrafa de vinho e alguns copos.
— Vai com calma, garotão. Você é fraco para vinho — disse Beatriz de maneira zombeteira. Theo era fraco para qualquer tipo de bebida alcóolica. — Temos algum motivo especial para isso? Ou estamos naquela fase onde não temos motivo para beber, só bebemos?
— Segunda opção — respondeu a prima enchendo os copos. — Me deu vontade e, como foi divertido da última vez, pensei em repetir um pouco.
— Como anda os estudos? Avançando muito na arte das cartas? — perguntou Theo bebendo um pouco do vinho. Fez careta ao sentir o álcool entrar em contato com sua boca, mas se forçou a engolir.
— Não. Acabei descobrindo que a professora era uma charlatã! Enganava pessoas com falsos guias espirituais para roubá-las. Acabou passando até na televisão, acreditam? Depois disso acabei perdendo a vontade. Fazendo uma pausa, por enquanto — retrucou Ivana, bebendo metade do vinho em seguida. — Além do mais, alguma coisa que previ aconteceu com vocês? Depois do acidente, Beatriz disse que estávamos errados sobre você e o amor da sua vida. Comprometido, não é?
— Em breve estará noivo — disse Theo virando o copo de uma vez. Ricardo havia contado que estava comprando as alianças e pensando qual seria a melhor oportunidade para fazer o pedido. De brincadeira, Theo enviou um vídeo de um pedido feito através de um flash mob, ao que o outro pareceu levar como uma opção.
“E se…?”, passou em sua mente. Existia uma outra possibilidade que não envolvia Ricardo ficar louco e desistir do casamento do nada para ficar com ele. “Ele foi fofo, não é?”, se perguntou. Aquele nome havia passado por sua cabeça diversas vezes durante o dia, normalmente lhe trazendo um breve sorriso ao recordar de alguma situação. Fosse ele sujando seu rosto de tinta, surgindo de toalha atrás dele ou dormindo com a cabeça apoiada em seu ombro. “Mas ele só estava sendo legal”.
A outra opção não dizia respeito a ele ou suas futuras ou inexistentes relações amorosas. Ficar de frente a possibilidade de gravidez trouxe um baque muito grande para sua amiga. Talvez a mudança de vida prevista nas cartas pudesse acontecer, ou estar acontecendo. Mas dizer que isso tinha relação com o mostrado pelas cartas soava improvável.
— Acho que meu talento para isso não existe, afinal. Me empolguei tanto depois de você ser atropelado para nada… — ela terminou de esvaziar o corpo de uma só vez e voltou a enchê-lo, assim como o da prima. — Mas vamos limpar toda essa negatividade desses corpinhos! Do que adianta lamentar pelo leite que nem chegou para ser derramado? Vou colocar uma música.
— Pode ser que não estivesse errada — declarou Bia e seus olhos se encontraram com o do amigo. Por um segundo Theo pensou que talvez estivesse lendo sua mente. — Você previu o caos para a minha vida. Eu seria levada para uma mudança depois da minha vida acabar ficando de cabeça para baixo. Talvez eu tenha passado pela primeira parte disso e agora esteja esperando a mudança. O que acha, Theo?
Depois de beber dois copos de vinho, sentia-se um pouco tonto e quente. Até mesmo seu braço parecia se mover engraçado, um pouco mais lento que o normal e, por algum motivo, isso parecia engraçado. De fato sua fraqueza para bebida às vezes se mostrava mais rápido do que gostaria. Ao invés de responder, bebeu um pouco mais e ficou pensativo.
— O mundo é doido, não? — respondeu o garoto levantando os cantos do lábio em um pequeno sorriso. — Tudo pode acontecer.
— Gente… Ele já está bêbado mesmo? — perguntou Ivana colocando a música para tocar.
— Só levemente alterado — disse Bia rindo da expressão facial do amigo, que concordava com pequenos movimentos de cabeça. — A melhor maneira de conseguir informações do Theo é lhe dando um pouco de álcool. Ou ele responde, ou então muda de assunto como fez agora.
— Mas não estou errado. O mundo é doido — insistiu bebendo um pouco mais. Ele franziu a testa e apontou o dedo para sua amiga. — Por exemplo… Estudávamos com a Nathália e conhecemos o namorado dela antes mesmo de sabermos quem ele era. Até a irmã dele eu acabei conhecendo.
— Sério? Ela saiu com vocês no dia do cinema?
— Não, não. Acabei a encontrando quando fui comprar flores para a casa da minha avó. Ela estava com o… — Theo parou de falar, cerrou os olhos e deu uma risada. — Quase me pegou nessa. Felipe, sim. Acho que ele gostou de você, mas pensei que era melhor esperar ao invés de te dizer.
— E quem é Felipe? Seu futuro gatinho? — perguntou Ivana cutucando a prima. — Vamos lá, conte-me tudo. Estou por fora de todas essas fofocas. Ninguém me conta nada.
— Ele é! — exclamou Theo antes que a amiga pudesse dizer. Pegou seu celular e começou a procurar o perfil do garoto. — Faz o tipo dela! Aqui, uma foto dele sem camisa.
— E desde quando você se tornou um pervertido vendo foto dos outros sem camisa? Você já foi melhor do que isso.
— A maior parte das fotos são de praia e ele está sem camisa! Além do mais, ele é legal e seu corpo não me causa nenhum tipo de atração — se defendeu, deixando o corpo cair de lado até o chão. Tocava uma música animada e ele deixou sua cabeça balançar no ritmo.
— Ninguém te causa atração, seu chato.
— Qual é! Sem dúvidas vai ter alguém que faz seu corpo esquentar igual a um vulcão em erupção! — Ivana aproveitou para se jogar sobre Theo e começar a fazer cócegas. O garoto não conseguia lutar muito para se soltar, mas se debatia em uma fraca tentativa de se ver livre. — Vamos! Diga! Tom Holland? Ou prefere algo tipo… Geizon Carlos?
— N… Não! P… Para! M… Me solta! — dizia o garoto entre as gargalhadas e vezes que parecia lhe faltar ar.
— Vocês dois são como duas crianças — Beatriz segurou as mãos da prima e a afastou. — Eu tento fazer isso por anos, mas até hoje não consegui descobrir qual é o tipo dele. Provavelmente só personagens 2D.
— Vai me dizer que é um daqueles que gosta de bichos animais antropomórficos?
— Não! Eu não! — respondeu, mas continuava rindo e com dificuldade para se levantar. Parecia uma tartaruga virada com o casco para baixo. — Eu só não tenho um tipo.
— Mas tem algo que pense ser atraente? — insistiu Ivana com grande interesse. — Nunca se apaixonou antes, garoto? Como pode?
— Sim, me apaixonei uma vez — Theo conseguiu se levantar e bebeu um pouco mais. Bia virou o rosto para outra direção, imaginando o que viria a seguir. — Era uma vez… O pequeno Theo!
— Não tão pequeno assim. Tínhamos 12 anos!
— O Theo quase na pré-adolescência! — se corrigiu de maneira dramática, como se lançasse as letras no ar. — Estudávamos juntos com um garoto miúdo chamado Jorge, de franjinha e óculos tão grandes que deviam cobrir toda a sua cara… Naquele fatídico dia, minha mãe havia esquecido de me dar dinheiro para o lanche e a Bia não foi a escola! Um grande ato de traição cometido por ela por um motivo tão banal…
— Fui ao dentista.
— Com fome e sem ninguém para conversar, o jovem eu estava sentado sozinho quando Jorge chegou e dividiu o lanche comigo e me deixou jogar Pokémon no seu Game Boy! Foi ali que eu me apaixonei por Pokémon! E o amor pelo Jorge veio em conjunto, se tornando a minha grande desgraça! Depois disso, ele começou a conversar comigo algumas vezes e eu estava contente. Levava alguma coisa extra para ele comer, sentamos juntos algumas vezes e um dia chegou a segunda traição dessa história! — Theo fechou a cara em uma grande careta mal-humorada e colocou a mão no coração.
— Vamos lá… Não seja tão dramático…
— Ele se declarou para a Bia bem na minha frente. Esteve todo aquele tempo se aproximando de mim porque queria chegar até ela! Meu coração ficou totalmente despedaçado até a resposta ser dita… — fingindo que sua mão era um microfone, esticou em direção à amiga. — Foi quando ela disse…
— Credo! Não! — disse Bia, tentando reproduzir da melhor maneira o acontecido.
— Quando dizem que o pior que pode te acontecer é um “não”, vem um “credo” junto — riu Ivana.
— Em minha defesa, eu não fiz isso porque o achava feio! Ele era bonitinho, mas eu sabia que o Theo tinha interesse nele. Foi apenas uma reação automática.
— Depois disso, sempre que eu me sentia mal por causa do ocorrido, começava a rir sem parar ao lembrar da resposta. Jorge não voltou a falar comigo depois disso e se juntou com um pessoal que sentava no fundo da sala — concluiu Theo, assentindo com a cabeça como se tivesse concluído uma grande história. — Graças a ele, conheci algo que gosto até hoje. Foi bom tê-lo conhecido.
— Garotos estranhos e de óculos, então! Esse é o seu tipo! Sem dúvidas devo ter algum colega para te apresentar. Todos são estranhos.
— Se quiser bancar o cupido, vá em frente. Depois de todas as minhas tentativas, apenas aceitei que ele não está interessado em conhecer alguém.
Depois de mais alguns copos, Theo estava de pé dançando junto de Ivana. Alguma música dizia para colocar as pernas para o alto e ele caiu deitado depois de tentar, para a diversão de Beatriz. Sua amiga dançava com um copo na mão, não deixando que nenhuma gota fosse derramada. Tentaram jogar “eu nunca”, mas acabou rapidamente onde Theo abaixou seu dedo apenas para a frase “eu nunca tive um ‘crush’ no parente de algum amigo”. Depois de certa insistência, admitiu ter tido uma queda momentânea pelo irmão de Bia. Também assistiram a um filme de romance erótico onde quem sentisse vergonha alheia deveria beber.
Horas depois, alternando um copo de bebida com um de água, sentia-se melhor e mais controlado. Ivana foi a primeira a cair no sono, dormindo com os braços para um lado e as pernas para o outro. Eles pegaram uma caneta e desenharam um terceiro olho em sua testa para combinar com suas atividades místicas.
— Está cansado? Quer ir embora agora? — perguntou Bia, se espreguiçando. Parecia de bom humor e os olhos tinham um leve brilho, mas ele não deixou de pensar no que sentiu mais cedo. — O que foi?
— Você está com medo…
— Que tipo de pergunta é essa?
— Não foi uma pergunta — Theo se ajeitou e olhou diretamente nos olhos da amiga. Ela o encarou de volta, com a testa franzida. — Foi por causa do que aconteceu, não é? Está com medo de sair e levar sua vida como antes e agora prefere ficar dentro de casa.
— Acho que você bebeu demais, Theo…
— Está tudo bem ter medo. De verdade! Mas nada do que aconteceu foi culpa sua. Você não destruiu nenhuma família. A decisão de partir foram deles e tenho certeza de que sua mãe iria querer que você vivesse a sua vida da melhor maneira possível! E ela te amaria como eu amo você, ou ainda mais! Sei que eu sou horrível para demonstrar sentimentos, mas gostaria que soubesse disso. Eu amo você e tenho orgulho de quem você se tornou. Estarei sempre ao seu lado, nos bons momentos e nos nossos piores. Se as cartas falaram a verdade, tenho certeza de que já encontrei o amor da minha vida!
— Você só está dizendo isso porque está bêbado — disse Bia, secando lágrimas que tentavam escapar de seus olhos.
— É claro! Mas olha bem para a minha cara. Eu sou a pessoa mais confiável desse mundo.
— Theo… Se a gente chegar nos trinta anos e estivermos solteiros, vamos nos casar e ter um relacionamento aberto.
— Depende. Vamos adotar um hamster?
— Sim! E ter um cooktop, mas você quem irá cozinhar.
— E uma rede na sala. Quero poder ler meus livros em uma rede!
— Uma rede na sala? É um pouco demais, porém faço esse sacrifício por você. Se tivermos um quarto para sadomasoquismo.
— Safada!
Os dois trocaram um sorriso sincero e sabiam que não precisavam falar mais nada. Todos os sentimentos que sentiam ou gostariam de dizer podia ser transmitido apenas por aquele pequeno ato. Theo apoiou a cabeça no colo da amiga, sentindo seus dedos bagunçarem o cabelo que levou tanto tempo para tentar arrumar. Por aqueles pequenos instantes, sentiu paz. Não havia preocupação quanto ao futuro, necessidade de tomar decisões, medo de voltar e encarar sua mãe e dizer o que precisava a ela, ou qualquer outro pensamento. Apenas uma pequena e silenciosa paz, enquanto uma música de funk tocava ao fundo junto dos roncos de Ivana.
— Você estava certo quando disse que estou com medo — disse Bia, sua voz levemente trêmula, como se segurasse o choro. — Se não tivesse cometido um descuido, não teria tido medo da possibilidade de estar grávida. Às vezes tenho alguns pesadelos, onde estou grávida, sozinha… Voltar a sair não me faria transar e ficar grávida. Afinal, a maior parte das vezes eu apenas saia com algumas amigas, ficávamos bebendo em um bar e conversando. Mas é como se uma coisa estivesse associada a outra na minha cabeça.
— Foi um grande susto e ainda está se acalmando. Só não negue a si mesma voltar a viver por medo.
— Eu me sinto um pouco hipócrita. Por muito tempo critiquei seu jeito de viver, acreditando que você estava sem um propósito na vida e apenas se isolava do mundo. Tentei por vezes te fazer sair de sua casca e conhecer alguém, como se namorar fosse resolver todos os seus problemas! Foi esse período assustador da minha vida que me fez parar e olhar para mim mesma. O que estou fazendo? Quer dizer, o que almejo na vida? Estava apenas vivendo o presente e em nenhum momento parei para pensar em quem eu gostaria de ser no futuro. Onde eu gostaria de estar, o que eu sonhava, qual profissão gostaria de exercer…
— Para ser justo, a maneira que levo a minha vida não é tão diferente nesse sentido. Também não faço ideia.
— Somos um desastre, não é?
— Sim… Mas belos desastres!
***
Sua avó retornou para casa na tarde de terça. Chegou trazendo alguns pequenos presentes, como um painel com pequenas flores feitas de conchas e enfeites de geladeira em formato de galinhas. Não demorou para rasgar elogios quanto a pintura e o trabalho feito por ele e Edgar, e sem dúvidas seus pequenos sorrisos maliciosos indicavam que ainda acreditava que os dois eram mais que amigos.
A princípio, não considerava seu ex-chefe como seu amigo. Felipe e Ricardo sim. Havia mantido certo contato com eles depois da vez que foram ao cinema, mas Edgar foi totalmente ausente de sua vida até voltar para lhe devolver sua identidade e depois retornar com latas de tinta e o ajudar a pintar. Depois de ter salvo seu número, não recebeu mais mensagens dele e nem sabia o que poderia mandar, mas agora o considerava um amigo.
Lua e Theo passaram o resto do dia sentados à frente da televisão, conversando sobre como havia sido seus dias com os netos. Os dois pareciam boas crianças, apesar de terem certa dificuldade para obedecer a horários. Queriam comer e dormir quando quisessem e batiam o pé quando contrariados. Porém, apesar disso, tudo correra bem. Até mesmo lhe ajudaram a fazer biscoitos! Podia ver o brilho nos olhos da avó. Estar com a família lhe parecia fazer muito bem.
Deveria ser por voltar das 22 horas quando foram se deitar para dormir. Theo afundou em sua cama, abraçou o travesseiro e deveria estar sonhando com um mundo de fantasia, onde um homem com cabeça de cachorro empunhava um machado e enfrentava uma horda de criaturas. Os monstros pareciam feitos de carvão e se despedaçavam a cada golpe levado. No instante que o homem cachorro foi encurralado, o som do despertador começou a tocar. Theo fez uma careta ao acordar com o barulho e tateou atrás do celular enquanto se dava conta de algo: não deixava o despertador do celular ativado.
Conseguiu encontrar o aparelho no meio do turbilhão de coberta e travesseiro e cerrou os olhos ao entrar em contato com a luz da tela. Ao invés das horas, o nome “Edgar” surgia na tela.
— Hm? Alô?
— Até que enfim resolveu atender. Achei que tivesse dito que não me deixaria novamente congelando, ao relento…
— O que? Como assim?
Theo levantou, lutando para não cair quando o primeiro pé tocou no chão gelado. Saiu do quarto ouvindo o miado de um dos gatos e precisou tomar cuidado para desviar e não acabar pisando na cauda de alguém. Ao alcançar a janela, olhou para a rua e viu o carro estacionado e, apoiado no carro com o celular no ouvido, Edgar acenou com a mão livre.
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