“Só pode ser brincadeira”, foi seu primeiro pensamento ao ver a estranha cena. Cinco horas da manhã e Edgar estava parado do lado de fora, usando roupas de academia e novamente de óculos. A imagem era mais surreal do que ao domingo anterior, vestindo roupas sociais num domingo de manhã e buzinando. “Deve ser um sonho. Dos estranhos”, tentou se convencer enquanto calçava seus chinelos e descia os degraus.

— Preciso perguntar ou você vai se explicar sozinho?

— Estou aqui para irmos naquela corrida matinal.

Theo ergueu as sobrancelhas e não disse nada. Não lembrava de nenhum momento ter combinado alguma loucura como aquela, apenas deixado a possibilidade em aberto. E, mesmo assim, estava vendo aquele homem com uma expressão séria e inabalável, pronto para insistir e recusar qualquer tentativa de “não”. A única explicação plausível se tratava de loucura. Depois dos beliscos comprovarem que estava desperto, não restava outra razão para aquilo. Edgar era um homem doido, fugitivo de algum sanatório e que assumira a identidade do filho de algum casal.

E ainda havia o sono. Por mais que o susto pudesse tê-lo feito despertar, ainda desejava voltar para o conforto de sua cama. Cinco horas da manhã não parecia o momento apropriado para tudo aquilo, seja lá o que pudesse ser.

— Tudo bem. Eu vou voltar lá para cima, deitarei em minha cama e tentarei dormir — disse lentamente, como se explicasse para um bebê algo muito complexo para seu cérebro entender. — Você entrará no seu carro, voltará para onde quer que precise estar e… Obrigado. De nada.

— Receio que não será possível. Fizemos um acordo, se lembra? — com sua grande mão, Edgar agarrou o rosto de Theo. Poderia ser o sono ou o estranhamento de tudo aquilo, mas o garoto ficou parado. — Essa foi a minha assinatura, lembra? “Faço o que você quiser”, foram suas palavras. Se recusar, entrarei em contato com meus advogados para discutirmos essa quebra.

— Eu nem tenho roupa para sair correndo por aí…

— Sim, eu imaginava — respondeu ele, enfiando metade do corpo para dentro e puxando uma sacola do banco do passageiro. — Suba e se troque. Temos alguns quilômetros para fazer antes do sol queimar sua pele pálida.

— Você… Por que… Não precisava me comprar nada…

— Comprei e não é possível fazer devoluções, então… Rápido, está perdendo tempo.

Contrariado e um pouco sem graça, Theo pegou a bolsa e subiu em silêncio para não acabar acordando sua avó. Haviam três camisas que o fizeram ter vontade de rir. Todas possuíam um personagem musculoso pequeno do lado direito do peito. A vermelha tinha um Magikarp com pernas e braços torneados, a preta era o Patrick Estrela e a cinza um Yoda. Aquilo era divinamente ridículo, e ele adorou cada pedaço. Além delas, haviam três shorts pretos que deveriam servir para combinar com qualquer coisa que ele quisesse vestir.

Enquanto se vestia com a camisa vermelha, Theo não conseguia deixar de conter um sorriso. Aquilo o estava fazendo genuinamente feliz por ter algo tão engraçado.

Voltou para a rua e fez uma pose dramática, mostrando seu visual. Edgar coçou o queixo e o olhou de cima a baixo, com balanços de aprovação. Parecia estar em um programa de moda, analisando a roupa do participante. Mas, naquele caso, ninguém além dos dois teriam aprovado.

— Ficou melhor do que pensava, mas ainda falta uma coisa… — de dentro do carro, tirou um boné preto e o colocou em sua cabeça. — Agora não parece que acabou de sair da cama.

— Meu cabelo não está tão ruim assim — retrucou Theo. Tentou se ver no retrovisor do carro e, de fato, seu cabelo estava bastante bagunçado. Qualquer um pensaria que ele pulou da cama e saiu correndo para a rua. — Tem razão, mas só me ouvirá dizer isso dessa vez.

— Eu sempre tenho razão — disse de maneira esnobe, entrando no carro. — Vamos lá! Está na hora.

— Aliás, onde comprou essas roupas? Eu gostei muito delas!

— Mandei fazer — respondeu. O tom casual da resposta fez o rosto de Theo enrubescer. Como alguém podia dizer algo assim dessa maneira? Para ele, parecia que tudo não havia sido nada, mesmo sendo uma grande coisa. — Vendo suas roupas, imaginei que gostaria de algo nesse estilo. E olha só! Estava certo de novo.

— Eu odeio você.

— Como? Me adora? Ah, como não me adorar? Eu sou ótimo, não é?

Theo balançou a cabeça e revirou os olhos. A maneira como falava aquelas palavras e sorria de maneira sínica… Todo aquele ego inflado no final das contas parecia uma de suas tentativas de fazer humor. Mesmo quando tentava se manter sério ao dizer aquilo, era possível ver os cantos do seu lábio tremendo para se conterem e não sorrirem.

Seu rosto era cheio de pequenos detalhes como aquele. Enquanto dirigia, fazia caretas para não xingar outros motoristas, estreitava os olhos quando se aproximava de um sinal, como se o desafiasse a ficar vermelho, também mordia o lábio e balançava a cabeça ao ver alguém fazendo algo errado. Podia-se notar que ele havia muito mais expressão do que as mostradas nas reuniões que fazia no café. Antes, sempre parecia mal humorado e desinteressado, mas agora… Parecia outra pessoa muito mais agradável.

— O que foi? Está admirando minha beleza?

— Existe alguma beleza para ver? — retrucou para provoca-lo.

Atividade física nunca foi o ponto forte de Theo. Praticava na escola apenas quando era obrigado, e fugia nos dias que o professor declarava “meninos vão jogar futebol e as meninas queimada”. Acabava ficando de fora, observando Bia e as outras meninas jogarem, pelo menos foi assim até o professor lhe chamar para uma partida de xadrez e o ensinar a jogar. Foram seus dias preferidos daquela aula.

Seu físico franzino entregava facilmente a falta de exercícios em sua vida. Quando chegaram até a ciclovia ao redor da lagoa, precisou copiar o alongamento de Edgar. Algumas poses eram estranhas e sem dúvidas estava fazendo aquilo apenas para implicar com ele, porém fez mesmo assim. O lugar estava relativamente vazio, mas vez ou outra era possível ver algum corredor ou ciclista passando com grande animação. “E quem consegue ficar animado para fazer algo assim logo pela manhã?”.

Para aquecer, começaram caminhando. Foi uma parte tranquila. A vista agradável tornava tudo mais prazeroso. Porém, quando aceleraram o passo, não durou muitos minutos antes do corpo de Theo começar a gritar em protesto! Se esforçava ao máximo para acompanhar a velocidade de Edgar, mas tinha uma forte impressão de que estava acontecendo o contrário. Ele já teria saído em disparada e sumido de vista, se Theo não o estivesse retardando.

Continuaram seguindo o ritmo, onde corriam por poucos minutos e caminhavam o dobro. Apenas pararam ao alcançar um deque e o banco de madeira ser o melhor amigo que Theo nunca imaginou desejar conhecer. Parecia que o simples ato de se sentar nunca foi tão apreciado e querido, assim como beber água. Se não fosse impedido, beberia tudo rapidamente como se fossem as últimas gotas da Terra.

— A vista é bonita, não é? — perguntou Edgar. De fato, era bastante agradável. O céu azul, a luz de sol matinal tocando a lagoa, as árvores ao redor deles, a cidade ao longe, o vento… Tudo parecia compor uma bela pintura. — Às vezes gosto de me sentar aqui e descansar um pouco. Parece um pequeno refúgio de todo o caos da vida.

— Então podemos dizer que é um lugar especial para você?

— É, acho que sim. O segundo, pelo menos. Sem meu pai querendo me dizer o que preciso fazer, minha mãe tentando escolher lados, sem negócios, dinheiro…

— E qual é o primeiro?

— Foi onde conheci uma pessoa que foi muito especial para a minha vida. Mesmo tendo a conhecido por poucas horas, ela conseguiu deixar uma marca em mim.

— Espero que um dia você consiga encontrá-la novamente… E seja tão incrível quanto da primeira vez — disse Theo com um sorriso amigável. Os dois permaneceram em silêncio, cada um com seus próprios pensamentos. Ele tinha razão. O lugar era bastante tranquilo e te fazia esquecer do mundo. Apenas existia o momento, aquele pequeno momento. — Verde… Eu gosto de verde. É a minha cor favorita.

— Por que isso do nada? E verde não é das melhores cores. Preto, sim.

Essa é a cor mais sem graça! Todo mundo gosta, é a ausência de cor. Até marrom é uma cor melhor para ser a preferida! E olha que é uma cor horrível.

— Podemos concordar nisso. Marrom é horrível… Mas preto ainda é melhor.

Depois do descanso, Theo sentiu-se revigorado. Insistiu em correr um pouco mais, até não aguentar e terminar de dar toda a volta caminhando. Parecia que tinha conseguido! No fim, apesar das dificuldades, tudo fora tranquilo… Até tentar sair do carro e mal conseguir andar. Suas pernas o amaldiçoavam com tanto afinco, como se dissessem que nunca mais funcionariam. Poderia lidar com isso, mas não com Edgar o carregando nas costas escada acima.

— Nunca mais andarei novamente… — resmungou Theo sendo colocado no sofá. — Posso te processar por ter me causado isso?

— Vamos lá, é só por causa da sua falta de prática. Daqui a pouco está andando normalmente e daqui a dois dias a dor passará.

— Dor? Por dois dias?

— Obrigada por ter trazido meu neto, Edgar. Você é um amor! — sua avó parecia estar perto de apertar suas bochechas, mas se controlou. — Quer ficar e comer algo?

— Não precisa, obrigado! Ainda preciso passar em casa antes de ir para academia. Só vim desovar esse corpo no seu sofá — respondeu Edgar dando leves tapas no ombro de Theo. Ele soltava um gemido de dor cada vez que sentia a mão lhe tocar, mesmo que fossem as pernas o problema. — Daqui a alguns dias repetimos isso, certo?

Aquelas palavras pareciam uma ameaça. Não bastava todo o sofrimento que sentia, precisaria ser prolongado para outros dias! Deveria pegar uma almofada para jogar em sua cabeça, mas sua avó ficou no caminho enquanto o acompanhava até a porta. Só restou a Theo acenar para se despedir.

Horas depois, andar não era o mesmo sofrimento. Sentia-se como um bebê que tentava aprender a fazer aqueles simples movimentos, pois parecia estranho e incorreto toda vez que andava. Sempre parecia que algo estava errado, mesmo que fosse apenas impressão sua. Nem mesmo quando foi atropelado por uma bicicleta as consequências foram as mesmas de uma simples corrida… Uma longa corrida quase de madrugada.

Alguns dias depois, a situação se repetiu. A ligação, a criatura parada diante de um veículo, a corrida ao redor de toda aquela lagoa… Mas dessa vez não houve a mesma dor. Sentiu um pouco de desconforto, mas já não doía como da primeira vez. O que levou a próxima corrida a acontecer mais cedo do que imaginava. Antes que pudesse imaginar, parte da sua rotina envolvia correr três vezes por semana e as distâncias aos poucos ficavam mais longas.

E ele precisava admitir: nunca havia imaginado que praticar alguma atividade física poderia ser divertido. A companhia de Edgar também era bastante agradável, mesmo que não conversassem muito nesses momentos. Geralmente, ele costumava provoca-lo para tentar fazê-lo ir mais rápido ou correr um pouco mais. Quando estavam no carro, Edgar até mesmo o deixava escolher as músicas que ouviriam, e sempre franzia a testa como se tentasse entender como passavam de Ariana Grande para AC/DC. Theo gostava de fazer essas brincadeiras para ver se ele reclamaria de algo, mas em poucos dias o estava ouvindo murmurar o refrão de “7 rings”.

— Ah, vai fazer alguma coisa no sábado? — perguntou Edgar repentinamente quando retornavam para o carro. O céu estava bonito, azul e com poucas nuvens. Seria um dia agradável se o sol não resolvesse castigar a humanidade.

— Sábado? Creio que não. Por que?

— A autora daqueles livros que te recomendei está na cidade e vou encontrá-la. Pensei que poderia te interessar conseguir um autógrafo.

— Se não for incomodar! Você pode levar os livros e…

— Não. Terá que pedir você mesmo — cortou, coçando o queixo.

— Nossa… Como você é cruel. Não basta me obrigar a correr uma maratona, ainda me força a falar com pessoas que não conheço… — Theo, de maneira dramática, começou a mancar e andar de maneira arrastada.

— Estou te dando uma oportunidade e sou cruel por isso? — apesar da tentativa de se manter sério, os cantos do seu lábio se curvavam em uma tentativa contida de sorrir. — Deixe para lá então.

— Não! E… Eu vou. Claro, eu vou sim — com seu dedo indicador, ele cutucou a costela de Edgar. Ele, por sua vez, deu um pequeno salto para longe. — Parece que alguém sente cócegas!

— Não são cócegas, apenas nervoso — retrucou agarrando a mão do outro quando tentou novamente estocá-lo com o indicador. — Faça isso novamente e eu jogo você nessa lagoa.

— Quer correr o risco de eu voltar com três olhos ou cinco braços?

— Acho que vou me arriscar — a facilidade com que levantou o corpo de Theo não foi surpreendente, e sim a agilidade com a qual o jogou em cima do ombro e começou a caminhar em direção a borda da ciclovia. Ignorou com grande facilidade os pequenos socos em suas costas e as pernas chacoalhando em sua frente. — Se continuar, vou perder o equilíbrio e nós dois vamos cair. Vai por mim, não será bom nos fundirmos em um monstro bizarro. Não quero perder a minha capacidade de enxergar!

— Como se você enxergasse sem suas lentes de contato ou seus óculos! Me coloque no chão! Vou cair de verdade!

— Relaxa. Não vou deixar você cair! Vou jogá-lo, é diferente!

— Tá bem! Eu desisto! Eu desisto!

— É só tirar você do chão para concordar com qualquer coisa? Esse é o seu ponto fraco? — questionou colocando-o de pé.

— Eu odeio você.

— Quer dar outro passeio…?

— Não! Não! É brincadeira! — retrucou colocando as mãos à frente do corpo e se afastando.

***

A grande maioria das vezes, viu Edgar usando roupas leves para fazer exercícios. Corriam juntos ao menos três vezes por semana. Além dessas, o tinha visto usando roupas sociais em algumas ocasiões, como no trabalho ou no dia em que levou as tintas para pintarem a fachada. Roupas casuais ficava em último lugar, quando foram juntos com os amigos dele ao museu. Por isso foi um pequeno estranhamento ao vê-lo daquela maneira no sábado.

Havia chovido no dia anterior e a temperatura estava agradável. Não fazia calor e o leve frio criava uma atmosfera amigável. Edgar vestia uma calça de moletom cinza, uma camisa de gola portuguesa verde de manga longa. Optou por não usar suas lentes de contato, pois usava seus óculos redondos para completar o visual, junto de seu cabelo recém-cortado nas laterais e um topete em cima. Theo, por sua vez, temendo parecer infantil com suas camisas geeks, optou por vestir uma camisa listrada e calça jeans.

Era possível que os dois julgavam estranho o visual um do outro, pois se encararam em silêncio até finalmente entrarem no carro. O silêncio foi quebrado rapidamente pelo rádio do carro começando a tocar “All the Things She Said” de t.A.T.u. e a cabeça de Edgar acompanhava a música com pequenos movimentos. Parecia ter sido um costume criado quando não sabia a música para murmurar a letra. Quando não gostava, seu lábio superior se erguia levemente para uma expressão de nojo. E Theo não se dava conta de como estava reparando e aprendendo sobre esses pequenos detalhes corporais.

— Deveria usar menos lentes. Você fica bem de óculos. Deixa sua cabeça menor.

— Sério? Geralmente me falavam o contrário — retrucou fazendo uma longa pausa. — Mas fico bonito de qualquer jeito. Cabeçudo ou não.

— Parabéns. Acabou de ficar horrível em questões de segundos — Theo fez uma careta e se ajeitou no banco, olhando para frente. — Sinto vontade de enfiar minha cara em um balde de gelo sempre que ouço esses seus comentários.

— Alguém me disse uma vez que, se você falar algo em voz alta com frequência, acaba acreditando. Eu não me acho bonito de verdade — disse, recebendo um olhar de incredulidade. — O que foi? Não acredita? Estou longe de ser feio, mas apenas me acho uma pessoa normal. Mesmo depois de várias garotas já darem em cima de mim e elogiarem minha aparência, não é algo que eu devo acreditar.

— Normalmente é o motivo para os caras se acharem a última bolacha do pacote.

— Talvez. Mas nunca soube se estavam falando a verdade. Já perdi a conta de quantas pessoas tentaram me bajular por causa do meu pai. Ou das que mentiram e fingiram gostar de mim com a intenção de conseguir algo. Por que seria diferente sobre a minha aparência?

Theo sentiu uma pontada de pena. Sua cabeça começou a procurar as palavras certas para dizer, mas o que poderia ser? Era o tipo de situação onde se deveria consolar? Por mais que não tivesse passado pela mesma situação, conseguia imaginar o sentimento. Ele próprio sentia algo parecido e inúmeras vezes se pegou pensando sobre. “Alguém um dia gostará de mim pelo o que sou?”, se perguntava nesses momentos. Cresceu com a ideia de que precisava ser útil para que gostassem dele. Seus pais não lhe deram outra opção quando precisou cuidar do seu irmão e deixar toda a sua vida e vontades de lado. Para ter o amor deles, foi útil como podia.

A vida de sua mãe pareceu girar em torno de Victor desde seu nascimento. Tudo parecia girar em torno dele. Theo não podia fazer aulas de desenho, pois precisava cuidar de seu irmão mais novo. Não podia ganhar o videogame que gostaria, pois o irmão necessitava de móveis para seu quarto. E no natal, quando pediu um simples livro de colorir, ganhou um par de meias enquanto o irmão conseguia um boneco de ação popular. Sendo oito anos mais velho, seu trabalho se tornou cuidar de Victor. Deveria sentir raiva? Pois tudo o que sentia era a necessidade de ser mais útil. Cuidar da casa, levar o irmão para o futebol, escola, parquinho… Seus pais trabalhavam. Não tinham outra escolha a não ser confiar tudo a ele.

Percebeu que as unhas estavam pressionando a carne de sua mão com força. Respirou fundo e deixou que seus músculos ficassem menos tensos.

— Sinto muito — conseguiu dizer.

— Relaxa… Não é nada demais.

É! Quer dizer… Você se sente mal por conta disso, não é? Ou se sentia. Deveria levar mais em consideração o que você sente! Caso contrário, apareço para te dar um chute e lembrá-lo disso!

— Seu chute provavelmente deve ser como uma picada de mosquito: incômoda, mas quase imperceptível — retrucou com um sorriso presunçoso no rosto, mas que logo se suavizou. — Mas obrigado. Você tem razão quanto a levar em consideração o que sinto. Por isso preciso te dizer uma coisa: você tem um péssimo gosto musical.

— Como é que é?

— Foi você quem disse que precisava ser sincero com o que eu sinto! Quer dizer… Aqueles cantores que você ouve e ninguém conhece são bons! Mas agora… Bruno Mars? Katy Perry? Lady Gaga? Não, obrigado.

— Parece que o “péssimo gosto musical” pertence a você! Eles têm ótimas músicas!

— Vai me dizer que pensa em se casar ao som de “Marry You”?

— E qual seria uma escolha melhor do que esse clássico?

— Provavelmente “Highway to hell” — respondeu com um leve sorriso.

Starbucks parecia algo muito de série ou cinema. Pisar pela primeira vez em um foi uma experiência minimamente curiosa, porque não havia nada diferente. Não parecia nada cinematográfico, apenas um lugar bem decorado e com todas as mesas ocupadas de amigos conversando animadamente com seus copos nas mãos ou esperando por suas bebidas.

Edgar o conduziu até uma mesa ao lado da janela, onde uma garota de longos cabelos cacheados estava anotando algo em seu celular. Ao avistá-los, ela se levantou para abraçar Edgar como se fosse um velho amigo e então apertou a mão de Theo com um sorriso amigável. Alanis Matos era exatamente como a foto no final do livro, porém mais baixa do que havia imaginado.

— Nossa! Você está ótimo! — ela deu uma boa olhada em Edgar, até mesmo apertou seus bíceps. — Pelo visto continua firme na academia até hoje. Coragem! Eu já teria abandonado.

— Não teria! Você abandonou! — corrigiu com grande divertimento. — Como eu te falei antes, esse é o Theo. Acabei apresentando seus livros para ele.

— Obrigada pelo marketing gratuito! Fazendo um trabalho melhor do que muitos agentes por aí — Alanis virou-se para Theo e pareceu observá-lo melhor e com mais cautela, como se pudesse pegar todos os seus detalhes. — Espero que ele tenha falado bem do livro e que tenha atendido às suas expectativas!

— Ah, eu… Nossa… — parecia difícil reunir as palavras e colocá-las para fora. Falar do trabalho de alguém, diretamente para a pessoa, nunca foi uma experiência das mais fáceis. Por isso respirou fundo na tentativa de colocar a cabeça no lugar. — Nossa! É um prazer te conhecer! Seus livros… Foram ótimos. E… Eu gostei muito deles e de como a história aconteceu.

— Não se tornou uma daquelas pessoas que quer tacar ovos na minha casa por eu ter matado um personagem querido, não é?

— Aquilo! Foi chocante! Eu n… Não imaginava de nenhuma maneira que isso fosse acontecer! F… Fiquei uns bons minutos andando pela casa tentando assimilar o que tinha acabado de ler!

— Parece mesmo que te dei um fã, não é? — provocou Edgar, esbarrando no ombro da garota. — Vai ser por minha conta hoje. O que vão querer?

— Olha quem está todo generoso! Vou querer então um cappuccino de doce de leite venti e um biscoitinho. Ah, se tiverem chiclete, aceito também! Não de menta…

— “De hortelã. Menta ataca minha sanidade mental” — completou Edgar imitando sua voz. Os dois pareciam mesmo bons amigos. — E você?

— Na verdade… Eu nunca vim aqui antes. Não sei o que tem — retrucou Theo coçando a nuca.

— Aceita a opção “surpreenda-me”? — questionou e Theo apenas assentiu com a cabeça. — Tudo bem. Vou ali sofrer um pouco na fila.

— Então, Theo… — ela disse seu nome de uma maneira diferente, como Edgar fazia ao tentar provocá-lo. Fisicamente, ela parecia uma pessoa bastante amigável e receptiva. A maneira como sorria, de orelha a orelha, ajudava bastante a criar essa imagem. — Como vocês dois se tornaram amigos?

— Ah… Hm… Amigos em comum — retrucou com um sorriso tímido.

— Achei ter ouvido uma história sobre você trabalhar para ele.

— Sim — disse, surpreso por ela saber daquilo. — Mas só fomos nos tornar amigos bem depois, quando um dos amigos dele acabou me atropelando com uma bicicleta. Parece que estou inventando isso, mas é sério.

— Atropelado? Que horrível.

— Foi uma experiência estranha. Eu estava bêbado.

— Nossa… Parece um cara da faculdade que quebrou o pé depois que a roda de um carro passou por cima dele e só descobriu no dia seguinte. Edgar tinha alguns amigos bem estranhos naquela época. Ele próprio podia ser chamado de estranho.

— Jura? Não consigo imaginar o vendo tão… Centrado.

— Ah, vai por mim! Ele parecia estar em uma banda de rock, festejando em todas as oportunidades que tinha e usando aquele monte de pulseiras. Mais um pouco se tornaria um hippie, amarrado em árvores e protestando contra o sistema! Apesar de que a galera da informática protestou hackeando o site da faculdade e colocando um jogo antigo no lugar da página das notas dos alunos — enquanto falava, seu rosto parecia se iluminar pelas boas memórias. — Edgar era muito namorador naquela época. A cada mês trocava de namorada uma ou duas vezes. O conheci porque ele namorou uma das minhas amigas e nossa amizade superou o término deles. Quer dizer, continuei sendo amiga dele, porém ela parou de falar comigo. As garotas pareciam achar que namorar para ele era apenas um jogo. Que Edgar ficava desinteressado com tanta frequência e por isso seus namoros não duravam muito tempo. Isso despertava certa fúria em suas ex-namoradas.

Theo não pôde deixar de lembrar das palavras que ele havia dito mais cedo. “Das que mentiram e fingiram gostar de mim com a intenção de conseguir algo”, foram suas palavras. Deveria ser difícil para se conectar com alguém tendo isso em mente, duvidando dos sentimentos de todos os que estavam ao seu redor.

— Devia ser um saco lidar com tudo isso — comentou Theo, pensando alto.

— Ah, sem dúvidas. Ele era do tipo “ame ou odeie”, mas melhorou bastante depois de terminar o curso.

— Não diria que o “ame ou odeie” tenha passado. Tem momentos onde ele pode ser bastante…

— Difícil? Complicado? Insuportável? Sim, concordo totalmente — Alanis riu e se ajeitou no banco. — Você é bastante fofo. Parece com o personagem que estou criando para o meu próximo livro.

— Eu? O que? Que nada! Que isso! Mas não… Nossa…

— O que os dois estão fofocando? — Edgar se aproximou e se jogou no banco, deixando Theo encurralado entre os dois. — Espero não ter que ouvir qualquer história sobre eu tirar emprego dos outros.

— Ah, não. Estava contando ao Theo sobre quando você quis atuar em uma peça e foi escalado para ser uma árvore.

— O melhor ator da peça e uma ótima árvore!

— Claro… Uma rabugenta fazendo cara feia durante dois atos. Preciso encontrar essas fotos… São um grande tesouro!

— Pelo menos nunca te forçou a acordar de madrugada para correr… — comentou Theo, ainda envergonhado depois do elogio.

— Nossa! Ele tentou fazer isso comigo uma vez, mas parou depois que joguei um balde de água fria.

— Literalmente. Eu fiquei totalmente ensopado naquele dia — Edgar cruzou os braços e fitou o teto. — Sorte que se mudou para outro estado, senão iria parar na frente da sua casa e buzinar todos os dias.

— O que mais tenho em casa agora são livros. Não seria mais água voando para te acertar…

Quando as bebidas ficaram prontas, Theo recebeu um copo escrito seu nome e com um líquido levemente marrom-alaranjado, com chantily por cima. Não fazia ideia do que poderia ser, mas a opção “surpreenda-me” o deixava com os dois pés para trás. O tal “frappuccino de doce de leite” tinha uma aparência minimamente interessante e o gosto o surpreendeu. Provavelmente parecia uma criança enquanto bebia, pois Edgar ria e balançava a cabeça.

Os dois amigos aproveitaram o momento juntos para colocar a conversa em dia. Isso poderia ser bastante excludente, pois Theo era a terceira parte ali e não fazia ideia sobre alguns dos assuntos. Entretanto, Alanis fazia questão de lhe explicar algumas coisas ou o inserir na conversa perguntando sua opinião ou querendo saber mais sobre ele. Era difícil falar sobre si mesmo, ainda mais para alguém que acabara de conhecer. Suas vidas pareciam muito mais interessantes do que a dele.

— Vamos lá! Qual foi a coisa mais constrangedora que fez em público? — questionou Alanis, depois de contar quando sua saia rasgou depois de ficar presa no elevador, e como precisou desfilar de roupa íntima até o seu apartamento.

— Ah… Não me vem nada a mente…

— Chorar e cantar “evidências” deveria se enquadrar nessa categoria — comentou Edgar, bebericando seu cappuccino. Vendo a expressão de confusão no rosto de Theo, completou: — No dia em que você jogou minha cerveja em mim. Você estava no palco cantando essa música com uma garota, e os dois pareciam sofrer por relacionamentos.

— Em primeiro lugar: fico surpreso por você lembrar disso. Em segundo: não joguei nada em você. Apenas esbarrei e ela acabou caindo. Já em terceiro: eu estava bêbado. Fora das minhas faculdades mentais.

— Ai meu Deus! Eu amo karaokê! Deveríamos ir juntos na próxima vez que eu voltar! Para ser honesta, eu faço uma Celine Dion excelente! E minha Ariana Grande? Nem Marya Carey supera meus falsetes — disse Alanis com grande animação.

— Você chama aquilo de falsete? Eu chamaria de apito pra cachorro — brincou Edgar.

— Pelo menos eu sei atuar o bastante para não ser uma árvore — provou a garota, pegando seu celular. — Bem, pessoal, infelizmente terei que ir agora, mas obrigada pela ótima tarde! Me diverti muito!

— Não esqueça de autografar o livro dessa criança aqui antes, ou ela vai chorar em posição fetal a noite toda — Edgar cutucou Theo até que ele pegasse o livro e o entregasse. — E apareça mais vezes! Saia do seu quarto de vez em quando e faça uma viagem para cá. Não vai te matar.

— Mas vai matar todas as minhas economias, sem dúvidas.

Quando recebeu o seu livro de volta, lá estava escrito “Para Theo, meu mais novo fã e inspiração para o próximo livro”. Não pôde deixar de sorrir e se sentir lisonjeado pela ideia. O sorriso bobo em seu rosto não o deixava mentir sobre isso, e ele durou até a autora se despedir e sair do estabelecimento.

— Pelo visto, alguém está muito feliz — comentou Edgar para provocá-lo. Estava com aquele sorriso presunçoso enquanto os braços permaneciam cruzados e olhava para o outro lado do salão. — De nada.

— Eu agradeço… Mas não se acostume. Não farei com frequência, ou você começará a se achar demais.

— Ah, eu não me acho. Eu sei que sou ótimo — ele inclinou seu corpo em sua direção, as sobrancelhas arqueadas.

— Sim, sem dúvidas. Um ótimo… Feioso? Um ótimo… Pernas de frango? — Theo aproveitou a proximidade deles para dar um peteleco em sua testa. A expressão de Edgar sumiu e ele franziu a testa. — Sem dúvidas… Um ótimo palhaço.

— Ah! Olha só quem está aqui — de pé, Ricardo estava de braços entrelaçados com Nathália. A garota sorria e acenava.

— Surpresa agradável, não é? Incomoda se nos juntarmos a vocês? — perguntou Nathália.

— Na verdade, já estou de saída — disse Edgar, erguendo-se rapidamente e quase caindo depois da perna ficar presa à mesa. — Ele veio pedir o autógrafo de uma amiga minha e agora preciso resolver umas coisas.

— Tudo bem, não precisa se explicar — respondeu Ricardo, dando-lhe leves tapinhas no ombro. Os dois possuíam quase a mesma altura e o tipo de corpo semelhante, mas um deles possuía uma cara mais amigável e o outro parecia bem mais sério. — Como está desde a nossa última conversa?

— Ótimo, eu diria — retrucou. Seu rosto vira-se para os lados, como se procurasse a saída mais próxima. Apenas parou ao encarar Theo e acrescentar: — Vai ficar ou quer uma carona para casa?

— Aceito a carona — ele se levantou sem muitas dificuldades e ainda tentando entender o clima estranho que estava no ar. — Foi bom ver vocês dois.


— Igualmente — Ricardo abriu um largo sorriso e tocou as costas de Theo. — Foi mesmo bom encontrar com você hoje. No próximo fim de semana iremos em uma feira medieval e vou precisar de um airbag.