Aparentemente Walt Disney tinha dito muitas coisas e aquela frase era uma delas. Theo pesquisou na internet para ter certeza se não seria algo inventado. Talvez tivesse razão. Se ele não colocasse em prática, aquilo se tornaria apenas um plano futuro e que talvez nunca entrasse em prática. E ter consciência de algo e fazer eram coisas diferentes. Sua semana consistiu em grande parte continuar sua rotina de leitura e assistir programas noturnos com sua avó. Às vezes descia e ficava com os amigos dela lá embaixo.

No geral, cada um parecia ter sua atividade predileta. Silvia estava com suas palavras cruzadas quase todos os dias. Quando não era de um dos jornais dados por William, levava sua própria revista comprada em alguma banca de jornal. Geralmente fazia tudo sozinha, mas algumas vezes perguntava por algo em busca de ajuda, principalmente se fossem coisas recentes, como novos famosos. “Cantora conhecida como Grande, mas na verdade é pequena…”, Theo ouviu-a falar uma vez, e lhe respondeu rapidamente “Ariana” sem precisar pensar.

Miriam gostava de fazer crochê. Tinha bastante paciência com a agulha na mão, fazendo aqueles movimentos que para ele pareciam bastante incompreensíveis. Por trás dos óculos meia-lua, seus olhos ficavam concentrados de tal maneira que às vezes nem mesmo reparava na aproximação dos outros. O que estivesse fazendo ficava cada vez maior, porém igualmente incompreensível para ele. Seria uma roupa? Porque o estado atual parecia apenas um longo e retângulo bloco de tecido verde com algumas listras marrons.

Rogério e William jogavam bastante xadrez ou damas. Passavam tempos em partidas intermináveis em sua pequena competição. Eles faziam um placar semanal, para saber quem tinha ganhado mais vezes durante aqueles dias e tinha sido o campeão. O “campeão” tinha o direito de carregar um cartão de telefone público antigo, mas que poderia ter bastante significado para eles. Quando separados, William costumava ler jornais e Rogério gostava de ficar conversando com Lua.

Sua avó, por sua vez, usava a cozinha para fazer alguns bolos ou petiscos para eles, ou ficava prestando atenção na pequena televisão antiga que havia sido instalada na parede próxima de onde era o balcão. Gostava particularmente das novelas e era um dos assuntos que eles mais comentavam. Falavam mal de personagens, ficavam chocados com as injustiças que alguns sofriam ou com planos de vilões para separar os protagonistas. Mesmo as novelas reprisadas pareciam inéditas para eles.

Algumas vezes, sentado ali com eles, Theo imaginava como ficaria o lugar com mais gente. Com uma decoração nova, pessoas para serem atendidas, sentadas, conversando… As histórias que seriam construídas por ali, ou que ele e Bia atrás do balcão inventariam para clientes… Isso o fazia sentir falta de seu antigo trabalho. Parte do seu plano era tirar um tempo para si e pensar no que gostaria de fazer, mas até aquele momento não tinha refletido sobre o assunto.

Também havia criado o hábito de mandar mensagens. De vez em quando perguntava ao irmão como ele estava e grande parte das vezes recebia uma imagem como resposta ou uma frase que deveria ser uma nova gíria jovem que ele não entendia. “Talvez eu esteja mais velho do que pensava”, se dizia nesses momentos. Beatriz também recebia suas mensagens e conversavam um pouco. Parecia que os últimos eventos lhe trouxeram um pequeno medo de sair. Todos os finais de semana eram movimentados e ela acabava saindo para alguma balada ou bar com conhecidos, mas agora ficava em casa e algumas vezes assistia algo com seus avós. “Esses dias acabei saindo com a Nathália para ir ao shopping”, comentou depois de Theo pergunta-la sobre se estava com medo de sair. Essa aproximação das duas fez desaparecer os comentários sobre Ricardo ser o amor de sua vida.

Vez ou outra Ricardo lhe mandava mensagens. Geralmente era um vídeo engraçado sobre algum filme ou série. Esse era um tema que conversavam e trocavam recomendações. Isso lhes rendeu uma boa discussão sobre onde Jogos Vorazes deveria ter acabado. Ricardo acreditava que deveria ter acabado no primeiro, pois acreditava ser o único sobre a história da protagonista. Os outros eram sobre assuntos diferentes que não lhe diziam respeito ou a desenvolvia. Theo discordava por acreditar que os outros eram sobre lidar com as consequência dos seus atos. Acabaram ficando até de madrugada com esse pequeno debate, algo que ele nunca se imaginou fazendo antes. Beatriz costumava ser a única pessoa com quem ele comentava sobre essas coisas e ela nunca se animava tanto com o assunto para fazê-lo render tanto. Tirando aquela vez. Ficaram alguns poucos dias sem se falar depois de terem discordado sobre Crepúsculo. Theo estava seguindo a onda de falar mal da obra, enquanto a amiga era uma defensora obcecada. Leu todos os livros e assistiu aos filmes no cinema, até o dia em que reassistiram aos filmes e ela admitiu que gostava, mas não era tão bom quanto se lembrava.

Felipe, por sua vez, não gostava muito de falar pela internet. Usava mais para divulgar os livros e postar algumas fotos. Seu instagram pessoal costumava ter fotos dele sem camisa, na praia, ou com wetsuit. Ele de fato surfava e também tinha um cachorro São Bernardo chamado “Mozart”. Theo podia jurar que era alguma brincadeira com um antigo filme onde um cachorro se chamava “Beethoven”.

Aos poucos sentia que sua vida estava ganhando novos ares.

— Bom dia… — Theo disse, sonolento. Era uma fresca manhã de domingo. Poderia ficar na cama até mais tarde, porém sentia que precisava de uma bebida quente para se aquecer. Sua avó já estava de pé, com os gatos miando ao seu redor.

— Bom dia, querido — disse, segurando a caneca com as duas mãos. — Fiz café e tem biscoito ou torrada, se preferir.

— Obrigado — ele pegou uma caneca branca com desenho de uma pera. Em alguns momentos, sentia falta de sua caneca preferida. Parecia que beber café sem ela não era a mesma coisa. — Quer ajuda com mais alguma coisa antes de ir?

— Não precisa. Já me ajudou muito ontem fazendo aqueles cupcakes — Lua lhe deu um leve tapinha na cabeça, para ajeitar o cabelo. Quantos meses estava sem cortá-lo? Não deveria estar mais de quatro meses sem cortá-los, mas sentia uma grande diferença. — Tenho certeza de que seus primos irão adorar.

Theo sabia da existência dos primos. Eram filhos de uma das tias que ele não mantinha qualquer contato, por isso não sabia nem mesmo o nome dos dois. Sabia que eram duas crianças, talvez um menino de dez e uma menina de sete anos. A avó iria passar três dias cuidando deles para que a mãe e o marido pudessem ter uma pequena “férias” fora de época. Os cupcakes seriam uma maneira de tentar fazer as crianças ficarem mais comportadas. Não havia muito com o que decorar, por isso chantily com pedaços de kit kat foram a melhor maneira que pode contornar a situação.

— Tem certeza de que ficará bem passando esses dias sozinho?

— Sozinho? Com Xena e o Bigodes me fazendo companhia? Eles devem estar ofendidos! — Theo tentou fazer uma pequena graça, mas sua cara de sono e os olhos pequenos deviam ter estragado a expressão que tentou fazer.

— Se preferir, pode chamar um de seus amigos também. Qual é aquela menina simpática que veio aqui?

— Bia.

— Sim, ela. Gostei muito da tadinha. Estava chorando tanto daquela outra vez! Ainda bem que ficou tudo bem, não é? — a avó compartilhava da ideia de que ter um filho era uma benção, mas se compadeceu da situação e ficou aliviada pelos medos da menina não terem se realizado.

— É domingo e está frio, vó. Acho que ela vai estar ocupada demais hibernando. Só a gente para estar acordado numa hora dessas.

Aparentemente haviam outros loucos acordados naquele horário. Theo terminou seu café e foi ao banheiro escovar os dentes e lavar o rosto. Já estava mais desperto e, quando a água gelada atingiu seu rosto, sentiu como se ganhasse uma nova vida! Terminou e levou uma coberta para a sala, onde ficou quieto assistindo aos programas matinais. Os de agropecuária eram desinteressantes, mas havia os piores: os de automóveis. Era uma sorte estar passando corrida de fórmula 1 no lugar. Não se precisava de muito conhecimento para entender quem estava na frente e mais perto de alcançar o primeiro lugar. Theo se viu simpatizando bastante com um veículo roxo listrado e torceu para que ele conseguisse sair do sexto lugar.

Estava bastante distraído quando ouviu a buzina na rua. Reparou no som depois da terceira vez, e na quinta já estava criticando a pessoa que não atendia logo para que o barulho parasse.

— Theo… — chamou sua avó. Ela estava na janela que dava para a rua. — Acho que é para você.

“Pra mim?”, ele se levantou e se juntou a ela para olhar. Em pé, estava Edgar. Por algum motivo, estava usando novamente roupas sociais que marcavam bem seu corpo em pleno domingo de manhã. Quando viu a cabeça de Theo surgir na janela, fez um pequeno aceno com a mão. “Mas o que diabos…?”, se questionou indo até a porta, confuso.

Desceu os degraus devagar, um de cada vez, com as mãos no bolso do pijama que nem lembrava estar vestindo. Talvez sua testa estivesse bastante franzida, pois Edgar ergueu as sobrancelhas e cruzou os braços.

— Bom dia…?

— Bom ver que ainda se lembra de ter educação depois de me deixar esperando por horas, no relento, olhando para uma janela…

— Não deveria ter pulado as aulas de atuação. A performance trágica digna de Shakespeare teria soado mais impactante — retrucou inclinando a cabeça para trás e cerrando os olhos, ainda desconfiado da visita repentina.

— Não tão impactante quanto o que estou vendo agora — disse apontando para a calça do pijama de Theo. — O que deveriam ser? Alienígenas? Ah, não. Agora vejo melhor. São dinossauros.

— O… O que está fazendo aqui? — questionou, finalmente se dando conta do que vestia. O usava apenas em dias frios ou que queria se sentir confortável. A camisa de manga longa tinha um grande gato sonolento com uma xícara de café e a calça pegou de seu irmão quando decidiu que estava “velho demais para dinossauros”. — E por que está vestido assim? Vai me dizer que dorme com essas roupas?

— Ah, claro. Nada melhor do que usar uma camisa social enfiada dentro da calça para dormir e não tirar minhas lentes de contato — disse de maneira sarcástica indo para o porta-malas do veículo. Tirou duas latas de tinta e um kit com rolos e pincéis. — Não sabia o que tinha em mente, por isso trouxe um roxo que pensei ser bonito e também uma lata de tinta branca. Tem corante roxo pra você fazer outro tom, se desejar. De nada.

— M… Mas por que tudo isso? Você é louco?

— Você estava enrolando e agora não tem mais desculpas para isso. Ricardo gosta de dizer que, às vezes, os outros precisam de um pequeno incentivo.

— Tenho certeza de que não se referia a isso!

— Não aceitarei devoluções, Thiago. Nesses momentos as pessoas costumam agradecer. Bem, dizem que pessoas são ingratas.

— Não é isso! — não se deu ao trabalho de corrigir seu nome. Àquela altura tinha certeza que ele errava de propósito. — Muito obrigado! De verdade. Eu só não estava… Esperando. Foi muito repentino.

— Relaxa, não foi problema nenhum. Um dia me mostre a arte depois de ter feito tudo.

— Ei, espera aí — ele segurou o braço de Edgar antes que ele pudesse se virar e entrar no carro. — Achei que estivesse dizendo que iria me ajudar.

— E ajudei.

— Não, senhor! Se quer fazer algo, tem que fazer o trabalho completo, já dizia o Walt Disney!

— Tenho certeza de que ele não disse isso.

Não foi necessária muita insistência para fazê-lo concordar. Em pouco tempo, Theo estava em seu quarto procurando roupas que caberiam nele. Por sorte tinha o costume de comprar roupas um tamanho maior do que vestia, por isso logo encontrou algumas peças que podia emprestá-lo.

Seu conhecimento sobre pintura era algo totalmente básico. Precisava ajudar o pai nas férias, quando a mãe inventava de pintar algum lugar da casa. Por isso a internet serviria para algo. Enquanto sua avó oferecia comida e bebida à Edgar, ele leu tudo o que precisava saber para fazer um trabalho… Satisfatório.

Depois de uma raspagem das partes que estavam soltas e lutar contra o medo de subir na escada, e sem muitas outras opções, começaram. Foi engraçado observar enquanto, vestido com sua camisa de Scooby Doo, Edgar segurava o rolo de maneira desengonçada e com medo de se sujar. Primeiro começou com um movimento vertical, mas logo trocou para outro horizontal, como se testasse a melhor maneira de fazer.

— Lembra quando pintava desenhos rabiscando e depois trocando o sentido do lápis? Como ficava marcado? O ideal é começar em um sentido e continuar seguindo com ele — disse Theo segurando sua mão e o fazendo realizar alguns movimentos. — Pegue o pincel e vai pintando os cantos, enquanto eu faço.

— Desde quando se tornou especialista?

— Li duas matérias sobre isso. Tenho quase um diploma!

A tarefa não era tão difícil, e sim trabalhosa. Levava bastante tempo para conseguir terminar e saber que precisaria passar uma segunda mão depois o deixava exausto só de pensar. Estavam na metade quando sua avó saiu para ir cuidar dos netos, dizendo “Deixei o almoço pronto para vocês, meninos” e dando uma piscadela para Theo.

Depois de descansarem e da tinta secar, foram terminar. Àquela altura, Edgar havia pegado o jeito e não se importava com os respingos caindo sobre ele. Isso foi de grande ajuda, pois ele conseguia alcançar com facilidade locais que a altura de Theo não permitia. Talvez fosse essa confiança que o fez sugerir pintar a frente com dons tons e dar alguns detalhes em branco para realçar.

— Minhas costas estão me matando — resmungou Theo. — Pelo menos está acabando…

— Normalmente não preciso me preocupar com essas coisas. Sempre pagamos alguém, então o que importa é ter o trabalho feito — retrucou Edgar se espreguiçando. “Riquinho mimado!”, pensou Theo balançando a cabeça de maneira afirmativa. — Mas… Até que está sendo divertido ver algo que você fez com suas próprias mãos.

— Jura? — Theo olhou para ele, surpreso. As outras vezes que haviam se encontrado lhe deram uma imagem um pouco arrogante, mas… Ele se mostrava uma pessoa legal a cada novo encontro. “Acho que não é tão ruim, afinal”, pensou.

— Claro, seria melhor fazer outras coisas com o meu domingo. Sair de um batizado e ficar esperando alguém, na chuva, porque dormia e não ouvia uma simples buzina de carro…

— Nem estava chovendo! E você poderia ter pegado meu telefone com o Ricardo se quisesse falar comigo!

— Claro que não! Alguém te dar seu contato é diferente de pegá-lo com outra pessoa. Como iria saber se estava tudo bem em mandar mensagem? — com uma expressão de cachorro abandonado, continuou pintando lentamente. — O que ganho em troca? Ficar esperando… Na chuva…

Theo colocou dois de seus dedos na tinta e passou na testa de Edgar. Ele ficou parado por um tempo, como se estivesse processando o que acabara de acontecer. Em silêncio e erguendo-se, parecia um figura muito mais imponente. A imagem teria causado medo, se não fosse pela tinta roxa cruzando sua testa. O sorriso no rosto de Theo desapareceu quando os dois grandes braços o seguraram e ergueram seu corpo sem dificuldade.

— Não! Me coloca no chão! Desculpa! Foi sem querer!

— Mesmo? — Edgar não se abalava enquanto ele tentava se debater para se soltar. Começou a movê-lo devagar em direção a lata de tinta, como se fosse fazê-lo enfiar sua cabeça no líquido. — Não me pareceu sem querer.

— M… Mas foi! Ah! Eu vou cair! Me coloca no chão! Eu faço o que você quiser.

— Precisamos assinar um contrato para comprovar isso — Edgar o colocou de volta no chão. Sujou uma das mãos de tinta, colocando-a no rosto do outro como se fosse um grande carimbo. — Pronto, minha assinatura.

— Precisava mesmo disso?

— Acho que precisava sim, Wilson — respondeu rindo, usando seu indicador para fazer mais algumas marcas no rosto de Theo.

Estava próximo do fim da tarde quando terminaram tudo e subiram. Havia muita sujeira para ser limpa, pois até em seus cabelos tinham caído pingos de tinta. Theo deixou que o outro fosse tomar um banho primeiro, enquanto ele ia para a cozinha e tentava limpar o máximo que podia de seu rosto e braços. Sem dúvidas os dois foram um pequeno desastre, mas o resultado parecia bonito. Veria no dia seguinte quando tudo estivesse seco.

Sentou à mesa da cozinha com um copo de água na mão e Bigodes querendo subir em cima dele, mas não queria correr o risco de sujar o gato. O dia tinha sido bastante cansativo, apesar de agradável. Foi divertido passar aquele tempo fazendo alguma atividade diferente e a companhia de Edgar se mostrou melhor que o esperado. Ele parecia sério em vários momentos, mas vez ou outra mudava um pouco e assumia uma versão mais divertida.

Por um instante, deixou-se fantasiar. “E se fosse ele?”, se perguntou lembrando do que as cartas disseram. Era ridículo pensar que realmente tinham revelado algo, mas por que não se deixar levar um pouco pelo reino da fantasia? As coincidências pareciam cercá-los para se aproximarem. Quando descobrisse, Bia sem dúvidas voltaria a falar do assunto e insistiria na possibilidade. Ou talvez odiasse. Sempre acabava falando mal do ex-chefe quando tinha oportunidade ou lembrava de sua existência.

— Ei? Theo? — chamou a voz atrás dele. Perdido em seus pensamentos, demorou para notar e finalmente despertar do devaneio. Se virou para ver aquele homem apenas enrolado na toalha. — Você esqueceu de me emprestar outra roupa.

— V… Verdade — Theo se engasgou com a água e se virou de imediato, para esconder o rubor de seu rosto. “Tem um homem pelado na cozinha da minha avó!”, gritava internamente. Se levantou e, evitando olhar, foi rapidamente para seu quarto.

— Você está bem aí?

— Sim, só me engasguei — respondeu pegando as primeiras roupas que encontrou em seu caminho.

Seu coração estava acelerado e sentia suas mãos levemente trêmulas pelo susto. A situação totalmente inesperada era bastante nova para ele. Ver pessoas seminuas na internet era bem diferente de presenciar bem diante de si. Se jogou na primeira cadeira que conseguiu alcançar depois de Edgar voltar ao banheiro com as roupas para se vestir. Pela maneira que se sentia nervoso, parecia que estava diante da sua primeira vez e surtando. “Mas não é nada disso! Vamos lá, Theo. Não tem motivos para o nervosismo”, disse a si mesmo enquanto respirava fundo.

Edgar ficou no sofá vendo televisão enquanto Theo foi tomar seu banho. A tinta seca saía sem muita resistência, mas em alguns cantos parecia querer formar uma fortaleza contra suas investidas de se limpar. Precisou ter um cuidado extra com o rosto, para ter certeza de que não havia nenhuma parte ainda suja.

Voltou para a sala e encontrou Xena deitada no colo de seu ex-chefe, recebendo carinho com muito gosto. Normalmente esse papel era dado a Bigodes, com sua personalidade mais amável e carinhosa. Xena gostava mais de comer, dormir e ter seu próprio espaço. Mas ali estava ela, agindo completamente diferente com um desconhecido.

— Passou perfume? — perguntou Edgar, erguendo de leve as sobrancelhas.

— Não, é apenas desodorante. Quer emprestado?

— Sim — respondeu, levantando-se para segui-lo apesar dos protestos da gata. — E, a propósito, de onde são?

Durante a pergunta, apontava para os personagens que estampavam a camisa que estava vestindo. Foi uma surpresa perceber que ele não reconhecia, mas não podia julgar. Geralmente essas coisas cercavam mais quem se interessava por animações japonesas. A camisa com personagens do Studio Ghibli, junto de seu tênis de Meu Amigo Totoro, eram seus pequenos tesouros.

— Você nunca assistiu nenhum desses filmes?

— Não — retrucou olhando melhor para a estampa. — Nada me parece familiar.

— Você precisa conhecer! Os filmes são ótimos e muito bem animados. É impressionante a qualidade!

— Tudo bem.

— Sério? Eu tenho no meu notebook! Vou pegar para assistirmos!

Conectou o aparelho à televisão da sala e colocou “Castelo Animado” para assistirem. Era o seu filme favorito e não podia perder a chance de fazer mais pessoas conhecerem sua existência. De tempos em tempos voltava para reassisti-lo, fosse com a dublagem brasileira ou japonesa. Graças a isso conseguiu gravar falas e seus lábios se moviam para entoar as frases silenciosamente. Edgar percebia os momentos que isso acontecia, soltando uma pequena risada. Ele também fazia algumas perguntas, ou soltava reações como “nossa”, “caramba” e “o que é isso?” em algumas cenas. Ao final, os olhos de Theo estavam levemente marejados por ainda conseguir se emocionar com o filme.

— Então? O que achou? — perguntou se recompondo.

— Como posso colocar… — ele coçou o queixo, onde a barba por fazer tentava crescer novamente. Sua expressão estava muito séria, o que era preocupante. — Na verdade… Eu gostei bastante. A animação é realmente muito boa e a história prende você. Não estava exagerando quando falava da qualidade.

— Eu sei, não é ótima? Nossa! — percebendo que estava quase pulando do sofá, Theo respirou fundo e se ajeitou. — Desculpe. Acho que me exaltei um pouco.

— Dá para ver nos seus olhos o quanto você gosta. Até mesmo repetia as falas! No dia que vimos Godzilla, suas reações deixavam bem óbvio seus sentimentos e como estava adorando.

— V… Você reparou nisso?

— Estava sentado ao seu lado, não reparou?

“Não, não tinha reparado”, pensou. Lembrava-se de o cérebro desligar totalmente ao mundo exterior, como se houvesse apenas ele e o filme preto e branco a sua frente! Lembrava de ter adorado e deveria mesmo ter reagido bastante, mas não imaginava que alguém pudesse ter reparado.

— Q… Quer assistir outro? Posso pedir uma pizza também, como agradecimento pelo o que fez hoje.

— Tudo bem, desde que não seja pizza de alho ou de frango.

— Achei que pessoas que faziam academia adoravam frango.

— E o que te faz pensar que faço academia?

— Bem… Por causa de… Você sabe — vermelho, Theo fez um gesto com a mão tentando indicar todo o corpo malhado e levemente marcado pelas roupas. — Ah, você acabou de aparecer sem camisa na minha frente. Deu para notar.

— Jura? — perguntou com um sorriso sarcástico no rosto e colocando a mão debaixo da camisa para coçar a barriga. Theo rapidamente desviou o olhar novamente. — Pensei que estivesse ocupado fugindo e ficando vermelho para notar.

— C… Claro! Do nada você se vira e tem um homem pelado! O que mais poderia fazer além de ficar com vergonha e intimidado? — retrucou sentindo o rosto voltar a ficar vermelho. Precisava continuar tentando ser divertido, por isso acrescentou: — Olha esses meus braços! Não tenho metade disso. É intimidante.

— Se começar a malhar, conseguirá ter um pouco disso — Edgar flexionou o braço e isso deu a Theo vontade de rir. Uma vez, Beatriz tinha lhe mostrado a foto de um garoto com quem estava ficando e lhe disse: “olhe esses braços! Com isso, ele pode me enforcar que eu desmaio feliz!”. Dias depois, ela voltou triste e disse que ele socava fofo e enforcava errado. — Você não é o tipo que pratica exercícios físicos, não é?

— Faço algumas maratonas — respondeu fazendo uma careta.

— Maratona de 10 horas assistindo uma série sem parar? — questionou rindo.

— Consegui terminar três temporadas de Stranger Things em um final de semana. É uma boa habilidade, não? E não, não sou de praticar exercícios físicos. Não tenho nada contra isso, apenas nunca tive o hábito. Difícil criá-lo quando só fico em casa.

— Então se, por acaso, chamá-lo para começar a se exercitar… Coisa leve, apenas uma corridinha… Você toparia?

— Por que sinto que estou caindo em um esquema de pirâmide?

— Só precisará arrumar mais três pessoas para correr, que encontrarão mais três… E assim acabaremos com o sedentarismo do mundo! Droga, descobriu meu plano — ele riu e se ajeitou no sofá, deixando seu corpo se afundar no encosto e sua cabeça fitar o teto. — Achei que você pudesse acabar gostando. É algo legal para se fazer.

— Se quer minha companhia, é mais fácil apenas pedir — provou Theo.

— Eu quero sua companhia — disse com uma expressão totalmente séria. — Funcionou? Você topa?

— Tudo bem! Por mais doloroso que seja, eu farei esse sacrifício…

Depois de uma pequena discussão sobre sabores de pizza, onde um dizia que comia qualquer coisa e o outro continuava insistindo para tomar uma decisão, ficou acordado que cada um escolheria um sabor. Theo ficou com quatro queijos, enquanto Edgar optou por portuguesa. Assistiram outro filme chamado “Princesa Mononoke” e depois foram para algum aleatório que estivesse passando na televisão. Foi quando o cansaço os alcançou.

Theo devia ter cochilado. Despertou com um leve susto, sentindo um peso em seu ombro. Olhou para o lado e lá estava Edgar dormindo profundamente com a cabeça apoiada em seu ombro, a boca levemente aberta. Pensou em tirar uma foto, mas imaginava que seria de mal gosto e ele não gostaria de ter uma imagem sua naquele estado. E, observando melhor, ele era realmente bonito. Provavelmente o tipo que fazia sucesso facilmente por onde passava… E que devia ter muitas garotas querendo namora-lo. “O oposto de mim”, disse a si mesmo. Sua amiga podia discordar e dizer que Theo era bonito, mas ele não se via daquela forma. Se achava apenas alguém normal, como muitas outras pessoas. Evitava falar aquilo em voz alta, pois ela sempre o censurava por horas caso o ouvisse.

Edgar se mostrou alguém diferente do que imaginava. Parecia sempre ter uma aura de menino metido o rondando, mas sua personalidade era agradável e podia ser bastante divertido em alguns momentos. E, de algum jeito, aceitou ajudá-lo a pintar o exterior da casa, até mesmo trouxe as tintas. Desse ângulo, parecia atencioso e gentil. Seu dia seria chato, solitário e resumido a ver televisão, mas acabou sendo bastante agradável e inesperado.

De maneira gentil, Theo o fez se deitar com a cabeça apoiada no travesseiro. Edgar resmungou um pouco, mas pareceu continuar dormindo. Foi ao quarto e voltou com um cobertor para forrá-lo. Deitado, forrado até o pescoço, parecia uma criança dormindo profundamente depois de ouvir uma canção de ninar. Com um sorriso no rosto, Theo levou os gatos para seu quarto e tentou dormir e ignorar os pensamentos de “e se…?”.