Ainda estava um pouco aturdido com a notícia. Inicialmente não sabia se tinha ouvido corretamente, mas logo percebeu que não podia estar enganado. Isso só o fez apertar mais seu abraço enquanto deixava sua amiga chorar descontroladamente.

Não havia qualquer margem para dizer “meus parabéns” ou qualquer parabenização. Talvez por isso tenha sentido pena. Não pela ideia da amiga ser mãe, mas por saber seu receio quanto a essa possibilidade e as inúmeras recusas que ela havia feito quanto a ideia de gerar um bebê. Suas lágrimas eram trazidas principalmente pelo medo… E pelo o que Theo sempre imaginou ser um trauma em sua vida.

O que poderia dizer ou fazer? Seu único pensamento naquele momento era de confortá-la ao máximo para que pudesse se acalmar. Levou um tempo até que isso acabasse acontecendo e, mesmo quando Lua trouxe duas xícaras de chá, os dois continuavam abraçados da mesma maneira. Theo conseguia ver o rosto preocupado da avó, incluindo uma expressão de choque como se imaginasse que ele seria o pai da criança. Se pudesse ler seu pensamento, talvez ela se perguntasse “Theo não era gay?”. Mas ela não ficou ali por muito tempo. Com intenção de lhes dar privacidade, ela foi silenciosamente para o quarto junto dos gatos.

— Bia, beba um pouco — Theo se desvencilhou do abraço e apanhou uma das xícaras. — Vai fazer bem.

— Eu não sei o que vai me fazer bem — ela retrucou, mas aceitou a xícara. Podia não ser nenhuma fã de chá, e até julgava o amigo por tomar às vezes, mas bebericou sem reclamar. — O que eu faço, Theo?

— Consegue me contar toda a história?

— Acabei me encontrando com uma colega hoje e ela perguntou se estava tudo bem comigo, pois eu parecia pálida. Respondi que havia passado os últimos dias passando mal… Foi quando ela comentou que podia ser gravidez. Eu não imaginei essa ideia, porque é ridícula. Eu sou bastante prevenida para essas coisas… Sabe como morro de medo dessa possibilidade… Mas o comentário ficou preso na minha cabeça e minha menstruação estar atrasada colaborou. Acabei comprando um teste na farmácia e… O que posso dizer? Você é a única pessoa com quem eu poderia conversar sobre isso… — ela lutava contra as lágrimas que insistiam em cair, mesmo quando tomava mais um pouco do chá. — Parece um pesadelo. Eu só queria acordar!

— Vamos dar um jeito. Tudo ficará bem — disse o amigo tentando soar seguro do que afirmava.

— Como ficará bem, Theo? E se… E se eu morrer como ela? Acabar perdendo tudo de novo? Ser a desgraça na vida de mais pessoas?

— Não foi culpa sua! Nada do que aconteceu é sua responsabilidade…

— Difícil acreditar! Tudo ao meu redor diz o completo oposto disso!

Ela suspirou e deitou com a cabeça apoiada nas pernas do amigo. Theo tocou seu cabelo com leveza e começou a lhe fazer carinho. Precisava fazer a pergunta que passava em sua cabeça, mas não sabia como. Fazia cerca de um ano que Beatriz não estava namorando, e de lá para cá havia saído com algumas pessoas. Ao invés de perguntar, decidiu esperá-la se acalmar um pouco mais para poderem conversar mais sobre o assunto.

O medo da vida de Beatriz surgiu quando ela era nova o suficiente para entender o que os outros ao seu redor diziam. Os dois eram vizinhos na época e inseparáveis. Estavam brincando de espiões, entrando na casa de Theo em silêncio, quando ouviram sua mãe conversando com uma vizinha. Nenhuma das duas notou as crianças escondidas atrás da parede quando disseram:

— Coitada, não é? Pelo menos seu filho brinca com ela. Já deve ser difícil o bastante com a mãe morta.

— Pior é o pai. Fez filhos para que? Sumir no mundo com outra e abandonar eles?

Entender que elas falavam de Bia foi a parte fácil. Irem até a casa dela e perguntarem aos avós sobre isso também. A inocência de crianças permitia que fizessem uma pergunta como se estivessem apontando para uma borboleta e dizendo “olha, um inseto!”. Difícil deve ter sido para sua avó, chorando e abraçando a neta, como se tivesse medo de perdê-la.

Só alguns anos mais tarde a avó teve coragem de contar a história da maneira devida. Seus pais eram casados e tinham seus problemas, suas brigas, mas pareciam se amar e amavam seu filho. A segunda gravidez foi recebida com bastante entusiasmo, mas infelizmente se mostrou de risco e o médico alertou sobre as chances da mãe e do bebê sobreviverem.

Contra todas as expectativas, Bia nasceu, ainda que prematura, mas a mãe… Ela não resistiu. A avó contou que isso deixou o pai terrivelmente abalado e devastado… E, incapaz de cuidar das duas crianças, entregou-os ambos e desapareceu. Nunca mais deu notícias, tentou visitá-los, ligações nos aniversários… Nada. A figura materna e a paterna que a garota teve durante toda a sua vida vinham dos avós. Mesmo eles sempre a ensinando a chamá-los assim, ela os considerava como seus pais.

Chegando à adolescência, seu irmão se tornou cada vez mais rebelde e revoltado com a vida. Brigava com os avós, fugia de casa, lhes dizia que não precisa obedece-los, pois não eram seus pais. Bia sempre tentou convencê-lo a trata-los melhor, sem obter qualquer resultado. Não sabiam se foi culpa, ou ainda movido pela revolta, que decidiu ir embora quando completou seus dezoito anos. Assim como seu pai, apenas desapareceu.

Beatriz não costumava dizer com todas as letras, mas se culpava. Sentia ter destruído toda a sua família ao nascer. Matara a mãe, fizera o pai ir embora, seus avós sofrerem com as atitudes do irmão… E ele ter partido. Todo aquele sentimento nunca lhe fez bem e escondia atrás dos sorrisos e do bom humor. Era demais para ser carregado.

— Farei outro exame. Mas dessa vez um de sangue, para confirmar — ela anunciou com a voz mais calma. — Espero que dê negativo.

— Sabe… Na pior das hipóteses… Eu posso assumir a paternidade… — disse Theo. A amiga moveu a cabeça para encará-lo. — Cedo demais para fazer piada disso?

— Você é um idiota… — ela respondeu, deixando sua cabeça cair para a posição anterior. — Por que “pior das hipóteses”? Você seria um bom pai. Foi um para o Victor.

— E agora o meu filho de quinze anos está bebendo escondido…

— Sem dúvidas é falta de surra. Deveria ter batido nele — disse com o sarcasmo habitual, mas sem as risadas e sorrisos. — Obrigada por estar aqui.

— Eu sempre irei!

Com o argumento de que ela precisava descansar, Theo a convenceu a ir se deitar em sua cama. Precisou ficar com ela até adormecer para voltar para a sala, onde sua avó se sentara e aguardava. Os dois trocaram olhares e breves sorrisos de apoio.

— Eu não sou o pai — anunciou Theo se sentando perto dela. De certa maneira, sentia-se aliviado. Não sabia como cuidaria de uma criança. Tinha a experiência de ter criado o irmão, mas deveria ser diferente, não é?

— Parece uma situação bastante complicada. Ela está bem?

— Não, mas vai ficar… Está com medo — explicou ao ver que a avó ainda o encarava atrás de mais informações. — Deve achar que pode acabar não resistindo igual a mãe, ou abandonada novamente como o pai e o irmão fizeram.

— Confesso que fiquei muito chocada ao ouvir sobre a gravidez. E ela ter vindo atrás de você… Poderia significar que você é o pai! Mas fico contente em ver o homem que se tornou, querido. Cuidando de sua amiga, e disposto a assumir o filho se fosse necessário.

— Estava ouvindo atrás da porta, senhora Lua?

— Eu? Longe de mim! As paredes são finas. E Xena era a curiosa, arranhando a porta para sair — retrucou com um sorriso.

— Obrigado, vó. Pelas palavras.

A avó bagunçou os cabelos do neto e lhe deu um beijo na testa. Depois de todo o susto, foi à cozinha para preparar uma sopa para eles, enquanto Theo ia tomar banho. Até mesmo havia esquecido do dia que teve, só tendo o suéter para lembra-lo… E fazê-lo recordar que precisava avisar que havia chegado.

“Tive algumas coisas para resolver, mas cheguei vivo!

Obrigado!”

Ricardo não demorou muito para respondê-lo com uma imagem do Godzilla dando uma voadora, seguida por outra com uma ovelha sorrindo e erguendo os polegares. Ele riu e fez algo que não fazia há um bom tempo: salvou o número em seus contatos.

Sentou-se com sua avó para jantarem e a sopa foi um grande alívio de aquecer o coração depois de correr na chuva e enfrentar o frio lá fora. Depois foram para o sofá e acabaram assistindo um programa estranho, mas adorado por sua avó, sobre pessoas muquiranas. O episódio em questão mostrava uma mulher que rondava por bairros para vasculhar o lixo dos outros atrás de coisas úteis. As situações absurdas faziam sua avó chorar de rir.

Beatriz acordou um pouco depois do programa terminar e eles começarem a assistir um filme de ação genérico. Ela tinha intenção de ir para casa, mas eles insistiram para que ficasse. Tomou um banho, vestiu roupas de seu amigo, e depois jantou assistindo ao filme com eles. A cena absurda de luta em cima de um avião a fez soltar alguns comentários sarcásticos, trazendo um pouco de seu habitual humor de volta. As duas mulheres de sua vida nunca tinham se conhecido antes e, vê-las se dando bem, trouxe um sentimento confortante.

Para dormirem, Beatriz ficou com sua cama e ele decidiu que dormiria no sofá para dar-lhe mais espaço, mas ficou novamente ao seu lado esperando que ela dormisse.

— Theo… Acha que a Ivana estava certa? Ela previu caos na minha vida e depois uma mudança radical… E agora isso… E você iria esbarrar no amor da sua vida… E teve o Ricardo… Seria coincidência demais, não é?

— Lá vamos nós com essa história novamente… — Theo sorriu. A amiga segurava sua mão e retribuiu o sorriso. Se fosse verdade, ele iria esbarrar no amor de sua vida. Ou talvez, de fato, já tivesse acontecido. — Acho que estamos passando por muitas situações que podem ser classificadas como “coincidências”.

— Desculpe estragar seu dia… Acabei nem te perguntando como foi.

— Ah, foi divertido. Fomos no museu e vimos Godzilla! Os amigos dele são legais… E você não vai acreditar! — fez uma pausa dramática, para instigar sua curiosidade. Funcionou, pois logo ela estava resmungando “diga, inferno”. — Se lembra de alguém chamado Edgar?

— Edgar? Não… Estudamos com ele na época da escola? Ah, também teve o… Filho da Fernanda?

— Exatamente. Um dos amigos dele é o Edgar, filho da Fernanda, nosso querido ex-chefe.

— O filho da mãe que nos fez perder o emprego! — exclamou, se sentando. — Ele te reconheceu? Comentou sobre isso?

— Sim, mas não lembrava do meu nome e me chamava de Thiago. Mas ele não parece tão ruim como vocês achavam nas vezes que visitava o café.

— Ah, se eu estivesse lá…! Faria ele conhecer meus dois amigos: Tapa e o Na Fuça!

— Você é como um chihuahua que late, treme e não morde — disse Theo rindo, recebendo um tapa de leve na nuca. — Mas… O dia hoje foi ótimo para mim. Eu realmente me diverti bastante.

— É muito bom ouvir isso. Você merece ter dias bons assim.

O dia seguinte era um sábado. Conseguiram encontrar uma clínica aberta, porém só conseguiram marcar para terça, e o resultado sairia em poucos dias. Conseguia notar a apreensão da amiga, mas parecia bem mais calma do que no dia anterior.

Ficou perto dela a todo momento, ou pelo menos da maneira que podia nos dias que se seguiram. A acompanhou no médico, mandou mensagem várias vezes durante o dia para saber como ela estava, a visitou em casa (ela esperava o resultado do exame para contar sobre o assunto aos avós), saíram juntos algumas vezes para tomar sorvete e se distraírem um pouco. Isso ajudou os dias a passarem voando, mas não mudou o nervosismo de quando ela acessava o site em busca do resultado.

Com os olhos cravados no celular e os dedos levemente trêmulos, ela digitou o que era pedido. Theo conseguia sentir seu próprio coração bater nos ouvidos, como se ele mesmo fosse o pai esperando pela confirmação. Estava ao seu lado, respirando mais alto do que gostaria, mas tocando seu ombro em apoio. A página carregou, exibindo o exame e seu arquivo para ser baixado, com cada clique aumentando a ansiedade.

— É agora… — ela disse com a voz baixa. Começou a ler em silêncio, aos poucos a lágrimas descendo por seu rosto… E um sorriso de alívio. — Deu negativo! — exclamou, pulando em seu pescoço.

A atmosfera ficou mais leve imediatamente, como se tivessem tirado o mundo das costas em segundos. Agora ela ria e chorava de felicidade, e ele se sentia feliz por isso. Vê-la sofrendo e apreensiva nos dias anteriores era de partir o coração!

— Quer comemorar?

— Sim! Comendo pizza! Uma grande de quatro queijos e outra de portuguesa! — respondeu animada.

— Não seria metade quatro queijos e metade portuguesa?

— Não! Eu quero duas pizzas inteiras mesmo. Nos últimos dias não consegui comer direito de tanto nervosismo. Agora preciso comer tudo o que não consegui! Acho que nunca me senti tão feliz! — Bia, animada, não parava de andar e gesticular. Mais um pouco estaria gritando de tanta empolgação.

— Nem mesmo quando a professora de química saiu da escola e a prova foi cancelada?

— Nossa… Eu iria repetir de ano se não fosse aquilo… Mas sem dúvidas essa vez me deixou muito mais feliz! Ah, Theo… Eu me sinto totalmente aliviada!

Não precisava ser dito. O rosto deixava transparecer todas as suas emoções. Fez questão de comprar as duas pizzas para comerem juntos com seus avós. Os dois idosos não faziam ideia de que estavam celebrando ou o motivo de toda a animação, mas era perceptível que até mesmo os dois estavam felizes por ver a neta tão feliz.

***

Com as coisas voltando aos seus eixos, o dia amanheceu para a limpeza habitual e um pouco de leitura. Mal conseguira ler nos últimos dias, preso em uma parte em que a protagonista estava próxima de descobrir a verdade sobre os mundos em que estava presa. Era uma parte bastante envolvente, por isso preferiu deixar que toda a preocupação desaparecesse antes de finalmente voltar a ler. E sentiu ter valido bastante a pena! Sua teoria de que tudo não passava de um sonho acabou caindo por terra, felizmente. Teria se sentido frustrado se fosse o caso. Mas agora continuava a pergunta: conseguiria ela salvar seu amado?

À tarde, havia decidido encontrar a livraria móvel de Felipe para conhecê-la. A página no instagram chamada “A Kombi Prolepse” possuía uma imagem mostrando os dias, locais e horários em que estaria. No dia em questão, era numa praça não tão longe da casa de seus pais. Lembrava de ter levado seu irmão para brincar algumas vezes por lá quando cuidava dele.

Encontrou com Beatriz em sua casa para que pudessem ir juntos. Ainda preferia não a deixar sozinha, mesmo depois de a história ser “concluída”. Sabia que existiam pensamentos negativos que rondavam sua cabeça e, caso eles voltassem, preferia estar por perto para ajudá-la a lidar como pudesse.

— Uma livraria móvel… Parece uma ideia ruim — comentou Beatriz, andando pelo meio-fio tentando se equilibrar. Hora ou outra acabava colocando a mão em Theo para não cair. — Quer dizer, se as pessoas não estiverem atentas, como podem voltar?

— É um conceito interessante. Ele possui uma boa quantidade de seguidores também. Deve chamar atenção por ser diferente — retrucou Theo. Já era possível ver a praça mais à frente e a kombi destacando-se logo à frente. — O Felipe é um cara legal e bastante amigável. Acho que você vai gostar dele.

— Depende. É alto, bonito e tem barba? Mentira, no momento quero distância de homens.

— Não falei nesse sentido! — Theo a empurrou de leve, acabando com seu pequeno jogo. Ela lhe deu um tapa e voltou para o meio-fio. — Mas ele até que é bonito. Alto, cabelo grande… Me parece um surfista.

— “Ele até que é bonito”. Você realmente sabe como não vender uma pessoa, Theo. Eu “até que sou bonitinha”?

— Eu diria que até que é ajeitadinha. Podia melhorar um pouco.

— Eu? Ajeitadinha? Cala a boca, seu ridículo!

A porta lateral da kombi ficava aberta, exibindo os livros separados em pequenas estantes, enquanto nos caixotes haviam mangás, histórias em quadrinhos e também livros antigos. Rapidamente Theo conseguiu avistar a capa de um livro que havia lido anos atrás, mas se esquecera dele! Ficou surpreso ao notar que havia uma sequência.

Felipe estava tentando desenhar alguma coisa em um pequeno quadro de giz em um cavalete ao lado e se virou quando percebeu a aproximação deles. Ele abriu os braços e engoliu Theo em um grande abraço, como se fossem velhos amigos.

— Olha só quem apareceu! Como é que vai, amiguinho?

— E… Eu vou bem — respondeu lutando para se desvencilhar e conseguir respirar.

— Surpresa agradável! — Felipe estava vestindo uma bermuda, chinelos e uma camisa florida. Era uma imagem bastante diferente de quando o conheceu, mas parecia combinar com ele. — E estamos acompanhados de uma dama! — ele pegou a mão de Beatriz e lhe beijou de modo galanteador. — Me dá a honra de saber seu nome?

— Alguém que sabe tratar bem as mulheres! Deveria aprender com ele, Theo — disse sorrindo, mas um pouco constrangida pelo tratamento inesperado.

— Essa é a minha amiga, Bia.

— Bia… Ótimo nome. Combina com você! Eu me chamo Felipe! Se precisar de alguma coisa, sinta-se livre para pedir!

— O que estava tentando fazer? — perguntou Bia apontando para o quadro. Podia-se ler “A Kombi Prolepse”, mas abaixo havia umas linhas incompreensíveis. Poderia ser um quadrado com alguns círculos… Era difícil dizer.

— Ah… O desenho da Kombi apagou e estava tentando refazer, mas pelo visto não sou nenhum artista. Um colega meu, tatuador, que faz pra mim.

— Por que você não faz, Theo?

— Eu? Mas eu não sei.

— Ah, qual é! Na época da escola você vivia rabiscando o seu caderno, lembra? Aposto que consegue! — incentivou Beatriz.

— Seria ótimo, amiguinho! — Felipe entregou o giz em sua mão e começou a empurra-lo na direção do quadro negro. Puxou seu celular do bolso da bermuda, para mostrar o desenho. — É assim, está vendo? Se fizer qualquer coisa mais parecida do que eu consigo, fica ótimo!

Olhou para Beatriz com uma expressão de falso ódio. Não deveria desenhar nada há anos e fazer isso, com outros te olhando, aumentava o nervosismo e o medo de não conseguir. “Tá bem, Theo… É bem simples. É só uma kombi. Não tem nenhuma mão”, disse a si mesmo posicionando o giz. Deu mais uma olhada para a referência e moveu a mão, fazendo pequenos traços ligados uns aos outros. Precisou apagar e refazer algumas partes, para ajustar o tamanho, algumas linhas maiores e… Estava pronto. Se afastou para ver melhor e não parecia nada mal. Algumas linhas um pouco tortas, talvez, mas ótimo para quem tentava pela primeira vez!

— Felipe! — chamou uma voz feminina, contornando a Kombi. Era uma moça bonita, de cabelos longos e encaracolados. Seu rosto lhe parecia levemente familiar. — Onde eu coloco…

Ela parou abruptamente ao notar que estava acompanhado. Seu rosto alternou momentaneamente entre os presentes, até um pequeno sorriso formar em seus lábios.

— Beatriz! Theo! Há quanto tempo!

— Nathália! — Bia exclamou e se aproximou dela para um abraço.

— Ah, então vocês já conhecem a namorada do Ricardo?

Theo a observou um pouco melhor. Era o suficiente para constatar uma verdade: ela havia se tornado uma mulher muito bonita. Mesmo na época da escola, Nathália chamava atenção por sua aparência, mas a idade lhe deu novos aspectos. “A namorada de Ricardo”, ele pensou. Agora parecia cômico Beatriz pensar que alguém como ela seria trocada por… “Alguém como eu”.

— Faz tanto tempo, não é? Quer dizer… Olha para vocês dois! — Nathália lhe observou de cima a baixo, analisando as diferenças de que conseguia se lembrar. Seis anos podiam fazer uma grande diferença. A barba de Theo não crescia na época e seus óculos não existiam. — Menina, seu cabelo! Essa cor ficou ótima em você!

— Não é? Mas logo vou voltar para minha cor natural. Pintar com frequência tem me dado muito trabalho — retrucou dando uma volta ao redor de si. — No momento estou precisando de facilidade na vida.

— Nem me fale! A última vez que inventei de ficar loira foi um trauma na minha vida — seus olhos voltaram-se para Theo, com um leve sorriso no rosto. Isso o deixava um pouco nervoso. Parecia que estava sendo julgado por aqueles bonitos olhos aparentemente gentis. — Você também está bastante diferente, Theo! Nunca imaginei te ver com o cabelo maior.

— O tempo fez bem para ele, não é? Parece que deixou de ser um daqueles filhotes de gato pelado — provocou Bia, recebendo uma careta como resposta. — Tenho orgulho de homem bonito que ele se tornou.

— Não posso dizer o mesmo de você — retrucou virando o rosto para outro lado. A amiga colocou a mão no próprio peito, fingindo exageradamente estar ofendida.

— Mas me conta! Como vocês estão? Foi uma grande surpresa descobrir que Ricardo tinha atropelado o Theo! E agora nos reencontramos dessa maneira tão inesperada! O mundo parece tão pequeno, não é? — as duas garotas se deram o braço como faziam na época da escola. Por um instante parecia que o tempo não havia passado e estavam novamente na escola. — Acredita que ficarei noiva?

— Noiva? Mentira! Garota, você tem um pedaço de mal caminho muito bem encaminhado nas mãos!

Beatriz não hesitou em contar sobre a vida depois de se formarem na escola. Sua vida cursando ciências econômicas e como odiou ter escolhido o curso, o trabalho no café recém-fechado, colegas de escola que ainda mantinha contato ou encontrava. Tentou inserir Theo na conversa, mas sua própria vida não era movimentada. O que poderia contar?

Se formou na escola com boas notas e não conseguiu ingressar em uma faculdade. Não por falta de notas. Não, existiam opções viáveis para ele, mas dois fatores o impediram. O primeiro estava em sua indecisão com escolher um curso. Dificilmente se imaginava conseguindo trabalhar em alguma daquelas coisas. Isso tirou seu sono durante muitos dias, fazendo inúmeros testes vocacionais na tentativa de obter uma resposta. O segundo fator envolvia suas responsabilidades. Sempre precisou cuidar de seu irmão. De certa forma, sentia que ainda deveria continuar disponível para fazer isso. Pelo menos imaginava isso até as cobranças de sua mãe quanto a ele arrumar um emprego e ajudar nas contas de casa.

Até aquele momento continuava não conseguindo decidir algo para cursar. Precisava ter alguma relação com o que gostava? Se fosse assim, do que ele gostava? Ler livros? Assistir filmes? Algo mais? Era tão fácil se sentir desinteressante, vazio.

Nathália, por outro lado, parecia ter uma ótima vida. Se formou, chegou a trabalhar em um cruzeiro, e agora era cabelereira. Seu namoro estava indo bem e em breve se tornaria um noivado. Parecia ter conseguido tudo em tão pouco tempo. Até mesmo mostrou fotos de uma viagem para fora do país. Sua vida parecia tão perfeita.

— Um queijo pelos seus pensamentos… — disse Felipe, se aproximando dele. Theo estava parado com um livro qualquer na mão, perdido em seus pensamentos.

— Acho que você não teria um queijo.

— Está duvidando? — ele exibiu o pequeno pote como se fosse um grande tesouro. — Nunca duvide de um homem bem preparado!

— Prefiro não perguntar de onde ele veio…

— Mas eu tenho uma pergunta para você, amiguinho — Felipe passou o braço pelo ombro de Theo e o afastou um pouco mais das garotas. — Bia é sua amiga, não é? Ou vocês têm algum… Lance?

— Credo — ele fez uma careta com a possibilidade. — Ela é quase uma irmã para mim.

— E como ela está atualmente? Namorando, solteira, enrolada?

— Bia? — Theo alternou o olhar entre eles, finalmente entendendo para onde a conversa estava caminhando. Poderia ele dar uma de cupido? Não conhecia muito Felipe, mas ele parecia uma pessoa legal. — Solteira. Diz que está se dando um tempo, mas acho que está esperando alguém que a faça se apaixonar.

— Legal, legal… Quer dizer, todo mundo merece encontrar alguém assim. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Uma hora vai — seus olhos demoraram um pouco em Bia, mas desviou quando se encontraram.

— E quanto a você? Está solteiro? — tinha certeza de que, se Felipe se tornasse um assunto de interesse da amiga, ela iria querer saber esse tipo de informação.

— Eu? Estou sim, por que? Está interessado?

— O… O que? — Theo sentiu o rosto queimar de vergonha. Talvez fosse apenas a pergunta, ou a maneira natural de que foi feita. Gostaria de ter um lugar para enfiar sua cara. — Não! Estava só perguntando… Minha nossa…

Não conseguiria reagir de uma maneira comum. Estava tímido demais e preferiu voltar para onde estavam os livros e fingir interesse nos títulos. “Eu sou um belo desastre nesse assunto”, pensou balançando a cabeça.

Em todos os seus 23 anos de vida, nunca havia namorado. Podia-se dizer que conhecer pessoas era uma tarefa difícil, ainda mais quando não se sai de casa. As poucas pessoas que havia beijado foram apresentadas por Beatriz em suas tentativas de fazê-lo “deixar de ser um solteirão”, como gostava de dizer. Porém nunca passara disso: beijos onde muitas das vezes não havia qualquer interesse. De alguma maneira eles deveriam ter percebido isso, ou sentido o mesmo. Nunca voltaram a procura-lo depois e sua amiga não falava mais sobre a pessoa.

Dificilmente diria que namoro fazia falta em sua vida. Não sabia como a vida poderia ser diferente, talvez pior ou melhor. “E ainda teria o problema de apresentar para minha família”, pensou.

— Eu nunca li esse — a voz de Nathália o assustou, fazendo-o derrubar o livro que estava em sua mão. De maneira desajeitada, os dois se baixaram para pegar o livro e quase se bateram no processo. — Te assustei? Desculpa.

— Tudo bem. Eu só estava distraído — respondeu colocando o livro no lugar e fingindo procurar outro.

O silêncio era constrangedor. Precisava sair dali o quanto antes, ou ter alguém para resgatá-lo da situação. Ela continuava perto, mais do que gostaria. Poderia simplesmente caminhar para longe sem dizer nada? Ou poderia ela estar esperando que dissesse alguma coisa?

— Acho que você nunca gostou muito de mim, não é? — perguntou a garota. Sua voz carregava gentileza e seus lábios exibiam um leve sorriso. Naquele momento, sentiu inveja. Parecia ser o tipo de pessoa que não se deixava abalar. — Sempre pareceu me evitar, mesmo quando estávamos juntos com a Bia. Isso me fazia pensar se eu tinha feito algo errado e não sabia. Acho que esse motivo me fez ter um pouco de medo. Você estava sempre quieto e sério.

— Eu… Eu não…

— Era o que a Bia dizia. “O Theo só é muito na dele”, ela sempre falava. Quando alguém achava que podia insulta-la dizendo que iria acabaria casando com você, ela sempre dizia que não ia faltar nada pra ela na cama — Nathália ergueu as mãos e simulou o gesto utilizado para mostrar um tamanho avantajado, e os dois riram. — Algumas pessoas ficaram curiosas. Ela vivia grudada com você, então ninguém realmente duvidou.

— Isso é bem a cara dela… — Theo riu, imaginando a situação. Parecia absurda, mas não difícil de acreditar. — Desculpa ter feito você acreditar que eu não gostava de você. Era difícil me aproximar dos outros.

— Hoje é mais fácil entender isso — disse lhe exibindo um sorriso de canto de boca. — Fiquei feliz de Ricardo chamá-lo para sair com os meninos. Parece que se divertiram bastante.

— Sim, foi bem legal. O Felipe é bem legal e o Edgar é… Edgar.

— Ele pode ser uma pessoa um pouco difícil, não é? Mas, pelo o que ouvi, vocês dois não são amigos? Alice me contou que encontraram algum “Theo” em uma livraria quando foram comprar presentes.

— Alice…?

— Sim, a irmã mais nova de Ricardo.

— Ah, compreendo! — a imagem da garota de boina vermelha voltou à sua mente. Tinha ouvido seu nome quando se reencontraram na horto e ela o ajudou com a escolher plantas. — Edgar é um “conhecido”. Ele era dono do café em que Beatriz e eu trabalhávamos.

— Jura? Como esse mundo é pequeno! — parecia mesmo. Em alguns momentos, mais do que deveria. — Qualquer dia desses deveríamos sair todos juntos!

— Claro! Parece legal.

***

Quando se estava diante do desconhecido ou da incerteza, costuma-se ficar nervoso. Testar uma receita nova acaba sempre sendo esse desafio. Dessa maneira que Theo se sentia, observando o relógio a cada minuto enquanto aguardava o bolo ficar pronto no forno. Ele sabia que estava tendo uma reação exagerada. Sabia muito bem cozinhar bolos, mas o nervosismo de fazer algo para outras pessoas costumava atingi-lo mais do que gostaria. O bolo de abacaxi não tinha nada mirabolante ou diferente do que fazia habitualmente. Afinal, as novidades eram só abacaxis e a calda.

Trabalhando no café acabou aprimorando bastante sua habilidade de cozinhar doces. Fossem donuts, bolos, cupcakes, muffins ou cookies, ele se mostrou bastante capaz. Era divertido em épocas especiais, como páscoa ou dia das bruxas, pois costumava precisar fazer uma decoração diferente. Costumava tentar inventar algo diferente cada ano para diversificar. Lembrar do trabalho o fazia perceber pequenas coisas que gostava e nem mesmo se dava conta na época.

Depois de tirar o bolo do forno, colocou a cobertura para deixa-lo gelar na geladeira. Até o momento tudo estava perfeito, faltava apenas passar no teste do sabor! Mas precisaria aguardar pelo menos mais duas horas antes de poder comer.

Sentou-se no sofá para continuar a leitura do livro, com Xena fazendo questão de dormir em seu colo. A gata fazia pequenas reclamações quando ele se movia, algo que estava sendo difícil evitar. As pequenas reviravoltas do final do livro o faziam querer mudar de posição, ou fechava o livro por alguns instantes, reagindo ao que acabara de ler. Foram páginas atrás de páginas devoradas naqueles minutos que se seguiram até o fim do livro. Para a sua raiva momentânea, ele acabava em aberto, mas felizmente já havia comprado a continuação.

Para não acabar preso no livro, foi fazer pequenas tarefas de casa. Lavou a pouca louça na pia, regou as plantas, arrumou objetos fora do lugar, e enrolou bastante enquanto fazia cada uma dessas coisas para que o tempo passasse mais rápido.

O bolo parecia bom. Polvilhou um pouco de coco ralado por cima para finalizar e depois desceu para encontrar a “turma da terceira de idade”.

— Olha quem está aqui! Veio para mais uma sessão de limpeza? — perguntou Silvia erguendo os olhos de suas palavras cruzadas.

— Na verdade, trouxe algo para vocês — Theo colocou o bolo em uma das mesas. — Achei que poderiam gostar, por isso decidi fazer.

— Está com uma cara ótima! — disse Miriam, se aproximando para olhar melhor. — Seu neto é cheio de talentos, Lua. Não quer se casar com algum dos meus netos? Capaz de morrerem de fome quando saírem de casa.

— Seus netos ainda nem saíram da adolescência e já quer vende-los por aí? — Lua tocou o ombro de Theo e sorriu, orgulhosa. — De todos da família, foi o único que puxou meu talento para a cozinha. O pai dele nunca levantou os pés para fazer nada além de macarrão instantâneo. Bem, vou pegar alguns pratos. Rogério e Wallace podem comer mais tarde, quando chegarem.

— Está mesmo com uma cara ótima, não é? Pode me passar a receita depois, jovenzinho? — perguntou Silvia.

— Claro! A senhora também consegue achar na internet.

— Ah, não sei fazer essas coisas. Ninguém quer me ensinar! Só pegam o celular de minha mão e agem como se fosse muito fácil!

— É difícil se acostumar com essas tecnologias — disse Miriam em concordância com a amiga.

Theo sentiu um pouco de pena. Conseguia entender a situação, pois já esteve do lado “jovem” da situação. Sua mãe vez ou outra perguntava algo e ele fazia para ela, mas nunca ensinava como fazer. Movido pelo pensamento, passou os trinta minutos seguintes ensinando Silvia a pesquisar receitas na internet. Sua maior dificuldade estava em encontrar as teclas para digitar, por isso fez questão de mostrar como usar o comando de voz.

— Esse bolo está uma delícia, Theo — elogiou a avó dando leves tapinhas em sua cabeça, como se ainda fosse a criança na cozinha a ajudando no preparo de biscoitos. — Sempre soube que teria jeito para a coisa.

— Acho que, graças a você, sempre gostei de cozinhar. Deixava te ajudar com os bolos e raspar as bacias…

— Toda as vezes você ficava sujo de farinha! Ou, quando fazíamos algum doce, sujava até o cabelo! As formigas te adoravam. Eram bons tempos, não é?

“Sim, eram”, pensou com um sorriso nostálgico no rosto. Conseguia resgatar aquelas boas lembranças do fundo de sua memória, como se estivessem soterradas e esquecidas há anos, mas agora… Conseguia ver tudo claramente. A atmosfera brilhante, os cheiros, as risadas… Todas sensações vindas de uma época feliz. “E quando deixei de ser assim?”, se questionou.

A porta se abriu com um rangido, mas o rosto que surgiu contra a luz não pertencia a Wallace ou Rogério. Se fosse algumas semanas atrás, Theo teria revirado os olhos e pensado em como mais uma coincidência havia caído sobre eles, mas agora estava fora de questão. Seu ex-chefe sabia onde poderia encontra-lo depois de tê-lo trazido até em casa.

O rosto de Edgar estava um pouco diferente, agora que deixava a pequena barba surgir. Não estava usando os óculos redondos ou as roupas casuais. Parecia algum funcionário de escritório com aquela calça verde-acinzentada e a camisa branca de manga longa dobrada até os cotovelos. Não foi difícil reparar como a camisa estava justa e marcando bastante seus músculos. “Se estivesse mais apertada, os botões estourariam como pipoca”, pensou sentindo o rosto ficar vermelho ao perceber o que estava notando.

— Espero que tenha sido bem clara da última vez — disparou Lua, mas seu tom de voz estava inalterado. Continuava apreciando seu bolo lentamente.

— Foi sim — respondeu Edgar tentando mostrar um tom apaziguador. Até mesmo exibia um pequeno sorriso de canto de boca. — Na verdade, vim falar com ele… — ainda junto a porta, tirou algo do bolso e estendeu na direção de Theo, mas apenas recebeu um olhar confuso em resposta. — Você deixou cair sua identidade no meu carro. Não reparou que tinha perdido?

— Ah! Não, não tinha

— Vocês dois são amigos? Ora, sente-se um pouco.

— Amigo é uma palavra muito forte… — sussurrou Theo.

— Está tudo bem. Apenas vim devolver para ele e estou de saída.

— Eu insisto — Lua agarrou seu braço e o puxou até uma cadeira. — Theo fez um bolo de abacaxi que está ótimo! Coma um pedaço — sem lhe dar tempo para recusar, ela cortou uma fatia e colocou à sua frente. — Como se conheceram?

— Ahn… Nós… Amigos em comum? — a resposta saiu mais como uma pergunta, enquanto olhava para Theo. Não sabia se estava buscando ajuda ou uma confirmação para sua mentira. “Ou seria uma meia verdade?”.

— Eu trabalhava no café em que ele era dono, mas agora descobrimos que temos um amigo em comum — respondeu o neto encontrando um novo lugar para sentar.

— Está perdendo mais uma oportunidade de dizer que tirei seu emprego? Parece que está evoluindo — sussurrou Edgar partindo um pequeno pedaço do bolo e experimentando. Sua expressão ficou mais séria, como se não tivesse gostado, mas logo ergueu as sobrancelhas mostrando certa surpresa. — Isso aqui está muito bom.

— Seus clientes também achavam, até você tirar meu emprego — sussurrou em resposta. — Aí está o que você esperava. Satisfeito?

— Era você quem fazia? Minha mãe costumava levar alguns quando fazia suas visitas regulares.

— Eu fazia ou ajudava. O que? Vai dizer agora que gostava?

— Na verdade, sim. Eu gostava. Apesar de quem fazia provavelmente colocaria veneno se soubesse que eu iria comer.

— Não, eu não faria. Laxante, sim. Mas veneno? Nem pensar.

Sua avó lançava olhares para os dois, dando pequenos risos abafados. Não era um comportamento comum vindo dela e suas perguntas o levavam a crer em uma possibilidade: achava que os dois poderiam estar juntos. Sentiu novamente seu rosto ficar vermelho diante da ideia.

— Posso comer mais um pedaço?

Theo cerrou os olhos quando Lua serviu mais um pedaço, com um sorriso de orelha a orelha. “Não tem outra explicação”, pensou virando o rosto para o outro lado. Poderia enfiar seu rosto em um buraco como se fosse um avestruz apenas para se esconder. Não iria proferir as palavras de negação na frente de Edgar. Sabia que ficaria ainda mais constrangido se o fizesse.

Fingiu ter achado algo mais interessante em seu celular para não precisar dizer nada, algo que sua avó pareceu entender. O trio de mulheres rasgaram elogios a aparência de Edgar e perguntas sobre o que fazia, gostava, se era solteiro. Miriam comentou que uma de suas netas era uma jovem muito bonita e solteira, ao que Edgar respondeu gentilmente que no momento estava ocupado demais com seu trabalho para pensar em namoro. “Ocupado, mas aqui está você… Comendo e conquistando senhorinhas”, pensou Theo reprimindo um sorriso.

— Muito obrigado por me recebem — Edgar afastou a cadeira e ficou de pé. Talvez fossem as roupas juntas ou a diferente aura, mas parecia maior do que antes… E diferente. Theo podia não ser muito de conversar com as pessoas, mas era um bom observador. Reparava em pequenos detalhes e isso ficava em sua mente caso visse com regularidade. Conseguia recordar pedido de clientes, seus costumes, como preferiam seu café. Das vezes que seu ex-chefe visitou seu antigo trabalho, a grande maioria estava relacionada a uma reunião de negócios e usava roupas similares àquela. De onde essa “diferença” estava vindo? — E muito obrigado pelo bolo! Estava muito bom.

— Caso queira mais, pode voltar mais vezes — disse sua avó de maneira amigável, mas empurrando Theo para que o acompanhasse.

— Tudo bem, tudo bem! Eu vou — resmungou o neto ajeitando a roupa. O dia estava claro do lado de fora e o sol levemente agradável, mas a diferença de iluminação o cegou por alguns instantes. — Ah, já ia esquecendo. Preciso devolver seu suéter!

— Não ia comentar nada. Pensei que estava querendo roubá-lo — retrucou Edgar com um sorriso zombeteiro no rosto. — Sua avó parece uma pessoa bastante legal.

— Ela é ótima, não é? Cuidado quando subir os degraus — disse tomando a liderança. — Mas que história foi aquela de “ter sido clara da última vez”?

— Lembra do dia em que nos encontramos aqui perto? Estive aqui antes mesmo de saber que ela era sua avó. Fiquei surpreso no dia que te trouxe e vi onde morava.

— Não moro aqui. Estou passando uns tempos com a minha avó depois de um desentendimento com minha mãe — Theo abriu a porta e entrou rapidamente para evitar que os gatos fugissem. Xena não ligou, querendo roçar em suas pernas para pedir comida, mas Bigodes ficou olhando para o estranho que entrava logo atrás. — Mas por que esteve aqui?

— Nada interessante, na verdade. Meu pai está interessado em alguns imóveis na área e, naquele dia, estava vendo se alguns proprietários tinham algum interesse em vender. Sua avó pareceu bastante ofendida com isso, para ser sincero. É bom ver que ela tem um lado mais “velhinha meiga”.

Theo foi educado o suficiente para oferecer um copo de água ou suco e depois foi para seu quarto buscar o suéter. Tinha o deixado separado depois de lavá-lo, sem ter ideia de quando surgiria uma oportunidade para devolvê-lo. Havia cogitado pedir à Ricardo o contato de Edgar apenas para isso, mas ficou pensando se seria uma boa ideia. Poderia ser um incômodo para um homem que deveria ter pelo menos uma pequena coleção de peças similares.

Ao retornar para a sala, Edgar já havia conquistado Bigodes fazendo carinho atrás de sua orelha e, com a outra mão, segurava o livro que Theo terminara de ler.

— Não achei que fosse ficar interessado em comprá-lo.

— Resolvi dar uma chance. Se fosse ruim, pelo menos poderia te culpar pela indicação! Mas acabei gostando bastante. A história me prendeu de um jeito inesperado.

— Se gostou tanto e quiser um autógrafo, eu conheço a autora. Estudamos juntos na época da faculdade. Digamos que é mais uma boa ação aos pobres e necessitados que eu demiti. Posso fazer esse sacrifício por você.

— Imagino como deve ser doloroso colocar a cabeça no travesseiro todos os dias e se perguntar: o que aqueles pobres coitados estão fazendo agora? Ao relento? Passando fome?

— Eu não iria tão longe. No máximo ter um pensamento intrusivo me dizendo “ei, lembra que você era dono de um café?” e depois rir como se fosse uma velha história.

Theo jogou o suéter em seu rosto, pois sabia que era leve o suficiente para não causar qualquer tipo de problema ou processo. Não demoraram muito mais tempo ali em cima. Edgar fez um pouco mais de carinho nos gatos e se despediu. Foi uma cena fofa de se assistir, com ele pegando Xena no colo e a deixando se esfregar sem se preocupar que sua roupas ficariam cheias de pelos laranjas.

— Deveria pintar a fachada para sua avó — comentou Edgar novamente ao descerem até o carro estacionado em frente à casa. — Está descascando.

— Esse é o tipo de comentário que se faça? Eu sei, estava pensando mesmo nisso. Minha avó já concordou em pintar de algum tom de roxo.

— E o que está esperando para fazer?

— Como assim?

— Se sua avó concordou, o que o impediu de fazer? Ou contratar alguém para fazê-lo?

— Bem… Eu… Só não decidi ainda quando farei.

— Já dizia o Walt Disney: para começar, pare de falar e comece a fazer.

Sem esperar uma resposta, ele entrou no carro e deu partida. Theo ficou parado, observando até o veículo virar uma esquina e desaparecer.