Theo gargalhou. Foi como se a risada viesse do fundo de sua alma e ele pudesse liberta-la totalmente de uma só vez. Parte dele queria dizer um belo “eu te avisei” para a amiga, mas não conseguiria. A situação por si só era divertida o suficiente sem que precisasse mostrar que teve razão desde o começo.

Beatriz continuou no celular, vendo as fotos e explorando o perfil, mas não parecia ter qualquer tipo de engano: os dois eram mesmo namorados. Mesmo que não houvessem muitas fotos dos dois juntos (e quase todas pareciam estar relacionadas a eventos familiares), a legenda de uma foto ou outra deixava clara a relação com pequenas declarações por parte da garota. Mas onde Theo enxergava um balde de água fria sendo jogada, para ela não mudava nada. Relacionamentos podiam não dar certo… Pessoas podiam terminar… E, para cartas de tarot dizerem “amor da sua vida”, o futuro poderia mostrar grandes surpresas.

— Se recomponha, homem — ela pegou uma almofada e acertou o rosto do amigo para que ele parasse de rir. — Isso não quer dizer nada.

— Não? Por favor… Ele é alguém comprometido. Esse é o “amor” que as cartas estavam me prevendo? Está parecendo que o tiro saiu pela culatra.

— Quem diabos fala “culatra” hoje em dia?

— Qual vai ser o próximo passo? Vamos me colocar em uma rua movimentada e esperar para ver quem irá esbarrar em mim?

— Juro que, se continuar me zoando, faço você comer suas próprias meias, Theodoro! — disse enfatizando o nome completo. Isso pareceu ter surtido efeito, pois Theo ficou em silêncio, mesmo que estivesse contendo a risada. — Acho que devíamos avaliar a situação…

— Avaliar a situação… — repetiu, tentando se manter o mais sério possível, mas o leve tom debochado não passou despercebido.

O quadro geral se resumia a uma coisa bastante óbvia e absurda:

Ivana, aprendendo a ler cartas através de um curso online, precisou de pessoas para praticar sua leitura de futuro. Em uma rápida leitura, que deve ter durado poucos minutos, foi determinado que Theo esbarraria no amor de sua vida. “Esbarrar” foi a palavra utilizada, mas podia perfeitamente ser algo figurativo. Quer dizer, ele poderia apenas conhecer alguém.

A partir disso, foram para uma festa e Theo bebeu além do que devia. Mas quem estava ali para determinar o quanto deveria beber? Porque ele claramente não estava. Por isso atravessou a rua de maneira idiota e sofreu um pequeno acidente. Por conta disso, Ivana e Beatriz se convenceram de que ele de fato havia conhecido o amor de sua vida! E agora descobriam que ele estava em um relacionamento. A foto mais recente havia sido do almoço em família que ele comentara nas mensagens.

Por mais que isso fosse importante para Bia, era sua última preocupação naquele momento. Ainda precisava dizer para a família que perdeu o emprego e decidir o que gostaria de fazer. Poderia procurar outro, mas a ideia de sua amiga parecia tentadora. Poderia se sustentar por um tempo com o dinheiro que receberia e o que havia guardado. Por que não tirar um tempo para si? Dificilmente inventaria de viajar ou qualquer loucura daquelas, mas descansaria sua mente e relaxaria um pouco. Também tinha direito a isso.

E por que não estudar? Nunca tinha decidido ir para a faculdade por não decidir o que gostaria de cursar. Esse tempo para si poderia ser bom para encontrar-se mais do que imaginava. Sim, tinha várias coisas a favor daquela opção.

Mas por que se sentia culpado por cogitá-la?

— Theo? Ainda conosco ou os alienígenas finalmente te levaram para casa? — perguntou Bia, passando a mão em frente ao seu rosto. Isso o despertou dos inúmeros pensamentos. — Ouviu o que falei?

— Não, desculpe. Estava pensando… Preciso contar aos meus pais sobre o emprego.

— Bem… Pode fingir ir trabalhar e vir para cá também. Meus avós te adoram como se fosse o terceiro neto.

Theo olhou de canto de olho para a amiga. Seu semblante estava sério, mas notava-se uma breve tristeza. Todas as vezes que havia alguma menção ao irmão, Bia acabava ficando daquele jeito. Parecia ir para um lugar afastado, e cercado por suas tristezas e frustrações. Essa versão era diferente da habitual “Beatriz”, constantemente alegre, brincalhona, cheia de vida. Gostaria de poder fazer algo por ela e por seus avós com relação àquilo, mas não havia o que ser feito. O irmão foi embora por livre e espontânea vontade. Desapareceu e não voltou a manter contato. Mesmo quando a avó quis ir à delegacia, Bia se mostrou contra e quis respeitar o último desejo do irmão.

— Não, acho que preciso fazer isso. Pelo menos contar para eles o que aconteceu.

Colocar na cabeça que faria isso era fácil, mas não fazia ideia de como contaria.

Já estava tarde quando foi para casa. Era o suficiente para chegar, tomar seu banho e dormir para ver o que faria no dia seguinte. Tentaria não pensar muito e deixar que as coisas fluíssem de maneira natural. E isso era fácil falar quando se lida com ansiedade.

O pai estava assistindo à um filme do Johnny Depp na sala e a mãe estava na cozinha, mexendo no celular. Parecia ser algum vídeo religioso pelas poucas palavras que conseguiu identificar. Theo deu boa noite e subiu para seu quarto, sem esperar respostas. “Ótima maneira de agir como um adolescente fugindo da família”, pensou enquanto pegava roupas limpas para tomar banho. “Mas sempre tem o amanhã para fazer o que for preciso. Por que apressar para hoje o que pode ser feito amanhã?”, retrucou para si mesmo. “Muito sensato, Theo. Conversando consigo mesmo”, pensou e logo se respondeu “Pelo menos eu me entendo, não é? Não vamos transformar isso em um debate. Seria ridículo”.

Tomou seu banho de forma demorada. Deixou que a água fria atingisse seu corpo de maneira relaxante e agradável. Teria continuado por mais tempo se não tivesse ouvido batidas na porta.

— O jantar está pronto — ouviu a mãe gritar do outro lado da porta.

Terminou de se vestir e desceu para jantar com a família. “Jantar com a família” parecia uma expressão forte demais. Seu irmão foi o último a chegar e ficou o tempo inteiro no celular. O pai pegou seu prato de comida e foi para a frente da televisão, continuar seu filme enquanto comia. A mãe parecia desinteressada e muda, e logo aderiu ao celular como meio de distração. Isso levou Theo a continuar comendo em silêncio e achando divertimento em sentir quais unhas da mão estavam maiores e quais já haviam sido ruídas.

Dormir o restante da noite se mostrou algo agradável e bem-vindo. Ter passado boa parte do dia dormindo não tirou seu sono e, seu corpo exausto, apagou totalmente. Teve uma noite sem sonhos e ininterrupta. Não havia preocupação para acordar em horários, seguir rotinas, trabalhar. E o cansaço pareceu entender bem àquilo.

Acordou por volta de 11 horas, se surpreendendo por realizar tal feito. Nem mesmo acreditava ser capaz de dormir por tanto tempo! Ele se espreguiçou, abriu as cortinas e deixou a luz do sol entrar pelo seu quarto meio arrumado e meio com a bagunça organizada. Saiu do quarto com bastante calma e chegou à cozinha sob olhares de suspeita de sua mãe. Pegou sua caneca favorita e colocou um pouco de café, deixando-a em cima da pia enquanto ia atrás de alguma fruta.

— Não foi trabalhar hoje? — perguntou com as sobrancelhas erguidas. — Achei que já tivesse saído. Ou vai dizer que não teve trabalho novamente?

— Algo assim… — respondeu de maneira vaga, olhando a última gaveta da geladeira. Encontrou uma maçã e a pegou. — Na verdade… Tenho algo para contar.

— Ah, não. Foi demitido, é isso? — a mãe disparou sem esperar uma resposta. O pai, sentado no sofá, voltou sua atenção para eles. — Eu digo que você precisa se comunicar mais. Fica só trancado dentro do seu quarto, sem falar com ninguém. Chefe nenhum gosta de funcionário mudo, ou preguiçoso.

— E o que pretende fazer, filho? — perguntou o pai de maneira calma.

— Como assim? Arrumar outro emprego, não é? Não dá para viver de internet.

— Ainda não sei — respondeu Theo, ignorando os últimos comentários da mãe. — Pensei em talvez descansar um pouco. Pensar se quero fazer faculdade… Ou sei lá.

De um lado, o pai assentia com a cabeça, parecendo compreensivo. Essa postura pegou o garoto de surpresa. Acostumado à ausência do pai, vê-lo apoiando alguma decisão sua pareceu um pouco além da realidade. A mãe, por outro lado, continuava disparando comentários e jogando coisas de um lado para o outro, sentindo-se contrariada. Estava distraída o suficiente para esbarrar o braço na caneca de Theo. O som da porcelana espatifando-se no chão a calou por um segundo, antes de voltar a falar:

— Olha só! Fica deixando tudo jogado em qualquer lugar!

Theo tentou respirar fundo. Seu punho fechou com força, com as unhas cravando-se na pele.

— Minha caneca… Você quebrou minha caneca…

— É só uma caneca. Quem mandou deixa-la em qualquer lugar? Se tivesse guardado como devia…

— Ela não estava em qualquer lugar! — a elevação de voz do filho a fez se sobressaltar e ficar em silêncio por um instante, tentando entender o que havia acontecido. — Eu só a deixei ali… Por um instante… E você quebrou.

— Vai fazer todo um escândalo por causa de uma caneca?

— Ela era a minha preferida! Eu ganhei de aniversário… E…

— Coisas quebram. Pare de ficar agindo como uma criança!

O sorriso que surgiu no rosto de Theo não era de divertimento ou deboche, mas sim de incredulidade. Logo ele agindo como uma criança? Logo ele, que precisava lidar com os delírios da mãe? Com ela descontando suas invejas, raivas e frustrações em todos da família? Ouvi-la falar coisas absurdas e com frequência, mas ter que ouvir em silêncio? Ele, que precisou deixar sua infância de lado para ser babá, pai ou o que fosse do irmão mais novo?

Sentia vontade de jogar tudo o que pensava para fora. Explodir como um vulcão, sem se importar com os danos que poderia causar ou o impacto que poderia ter. Do que adiantava ser o filho bonzinho? O filho que não dava trabalho? Ninguém se importava. Mas ele não conseguiu. Não disse nada, mesmo quando uma lágrima descia do canto de seu olho.

Theo se virou e subiu para o seu quarto. Estava de saco cheio! Cansado de tudo aquilo! Por que precisava continuar aguentando? Pegou sua mochila e colocou o máximo de roupas que conseguia enfiar nela. Não se importou com organização, com o que estava colocando, nada. Apenas pegou o que conseguiu e desceu as escadas correndo. Passou pelo corredor como um raio e desapareceu porta afora.

***

Em situações normais, Bia seria a pessoa de quem ele iria atrás. Ligaria, pediria para conversar com ela e talvez passar a noite na casa dela. “Mas eu não sou uma criança fugindo de casa”, pensou. Olhou sua lista de contato e praguejou por manter tão poucos números ali. Não deveria ficar excluindo números apenas por não os utilizar. Mas um plano surgiu em sua mente. Seria o mais funcional e o que se sentia mais confortável.

Devia estar andando há meia hora, sem rumo. Parou por um instante e tentou se localizar. Um prédio familiar aqui, uma outra loja ali e logo sabia para onde devia ir. Andou por mais dez minutos até chegar ao ponto de ônibus que precisava, mas esperou a condução por quase uma hora. Dentro do veículo, voltou sua atenção para o celular e procurou por algum outro e-mail antigo e… Bingo! Conseguiu encontrar o que tanto procurava. Leu o nome do contato com alívio antes de colocar para chamar… E chamou… Chamou… Até cair na caixa postal.

Continuou tentando ligar mais algumas vezes até desistir. A paisagem do lado de fora da janela passava rapidamente por ele, cheia de prédios, pessoas… Parecia tudo melancólico, mas talvez ele fosse a melancolia em pessoal.

Sentia-se um pouco culpado por estar indo para a casa de sua avó depois de tantos meses sem entrar em contato com ela. A última vez que haviam se reunido havia sido no natal, onde ela veio com a conversa das “namoradinhas” e ele se assumiu para ela em segredo. Por mais que estivesse surpresa, ela o abraçou com carinho e perguntou “tudo bem, mas… E os namoradinhos?”.

A avó paterna, Lua, sempre foi sua favorita. Era uma moça gentil, amável e dedicada. Criou todos os seus cinco filhos da melhor maneira que pôde junto do marido… E Theo sabia que o avô não tinha sido dos mais fáceis de lidar. Tudo de bom ou ruim que aconteceu em sua vida não foi capaz de abalá-la. Nas vezes que o neto ficava em sua casa quando criança, ela o ensinava a cozinhar e sempre fazia o prato favorito dele: lasanha.

Era uma pena pensar que o tempo acabou o afastando dela. Todos os seus tios ganharam o mundo e ela continuou na última casa que o marido comprou para eles, mesmo depois de sua morte. Esperava que ela pudesse recebê-lo de braços abertos e que a distância e o tempo afastados não tivesse prejudicado sua relação.

Não conseguia deixar de sentir um pouco de medo. A sensação de frio na barriga começou a toma-lo quando desceu do ônibus. Nem mesmo a paisagem familiar era capaz de tirar isso dele. Algumas coisas haviam mudado. Casas de cores diferentes, lugares transformados em outros… Mas as árvores continuavam lá, preenchendo o caminho e dando sombras a todos. Se esquecera como as coisas por ali eram agradáveis e frescas, como uma leve brisa.

Tentou ser confiante. Respirou fundo, agarrou as alças da mochila e caminhou observando a paisagem. Encontrou alguns lugares comerciais novos, como um pet shop, uma sorveteria e uma loja de bolos, mas outros continuavam ali, como a padaria onde sempre comprou doces, o bar onde o avô costumava comprar seus cigarros e Theo podia jogar no fliperama, o brechó onde a amiga da avó vendia e consertava roupas… Era incrível como tudo parecia familiar e desconhecido ao mesmo tempo. Da última vez que esteve ali a mãe reclamava tanto que não notou metade das coisas que agora enxergava…

— Ei! Olha por onde anda! — Theo ouviu alguém dizer. Andando distraído, não percebeu que quase havia esbarrado em uma pessoa que vinha na direção contrária.

— Me desculpe — disse de maneira educada e constrangida.

— Ah! É você!

Theo levantou o rosto para encarar o outro rapaz que falava. Seus cabelos escuros eram tão familiares quanto aquela expressão séria de poucos amigos e olhos distantes em um rosto jovem. Se Bia estivesse com ele, sem dúvidas diria “ora, ora! O nariz empinado!”. Não o tinha visto tantas vezes, pois sua mãe, Fernanda, era a mulher que costumava cuidar dos assuntos do café, mas não dava para se enganar. Era Edgar, seu antigo chefe.

Todas as vezes que o viu no trabalho, ele usava roupas sociais e carregava uma maleta. Dessa vez não era diferente, apenas trocara a maleta por uma pasta. As roupas pretas o davam um ar de alguém sem coração e que não se importava com os outros, foi o que sempre pensou. “Ele é bonito, mas parece que vai matar alguém”, dizia Beatriz.

— Ah… Sim, eu trabalha…

— O bêbado que me fez derrubar bebida nas minhas roupas naquela balada! — exclamou apontando para Theo, que o olhou com uma cara de interrogação.

— Bêbado…?

— Vai dizer que estava bêbado o bastante para esquecer que esbarrou em mim e nem mesmo pediu desculpas? Mesmo depois de me fazer ficar cheirando a cerveja!

— Ah! — Theo exclamou, apontando para ele em resposta. Sua mente aos poucos recordou do momento daquela noite, entre as vezes em que cantava, dançava e tentava passar por corredores humanos apertados. Em certo momento, esbarrou em um homem que o olhou de cara feia. — Era você! Saiu andando antes mesmo de me deixar pedir desculpas!

— É muito fácil culpar a vítima, não é?

— Vítima? Eu sou a maior vítima aqui! — retrucou. Sentia-se encorajado, fosse pelo nervosismo ou pelo conflito anterior. — Perdi meu emprego por sua culpa! E, se não fosse por isso, eu não teria bebido demais, não teria derrubado sua bebida, não teria sido atropelado, não teria perdido minha caneca preferida e não teria te encontrado de novo!

— Está bêbado de novo? Como eu fiz você perder o emprego? E o qual a relação com uma caneca? — Edgar aproximou seu rosto, analisando melhor a aparência de Theo, com os olhos semicerrados. — Espere aí… Os óculos são diferentes… Sim, sem dúvidas… E qual era mesmo o nome? Thiago? Túlio?

— Theo!

— Isso mesmo! Você trabalha para mim, não é?

Trabalhava! — corrigiu entredentes.

— E por que? Demiti você? Por isso me derrubou bebida e agora queria trombar comigo novamente?

— Em primeiro lugar, você, de uma hora para outra, fechou o café onde eu trabalhava! Em segundo lugar, te encontrar foi um completo acaso! E não dos mais agradáveis, aparentemente.

— E como não? Como encontrar esse rosto não é agradável?

Theo soltou uma gargalhada tão súbita e inesperada que o deixou sem ar. Precisou se apoiar em uma árvore para não cair diante do olhar de reprovação de seu antigo chefe. Devia ter ouvido errado, porque ninguém em sã consciência diria alguma coisa daquelas.

— Você é uma pessoa estranha — disse Edgar assistindo o outro lutar para recuperar seu fôlego e controlar a risada. — Se terminou de me culpar, tenho negócios a tratar.

Deveria ter sido uma piada. Somente dessa forma para Theo se divertir tanto com o comentário inusitado e repentino. Respirou fundo aos poucos, se acalmando daquela histeria e observando o antigo chefe se afastar lançando olhares rápidos para ele.

De alguma forma, foi divertido. O ajudou a se esquecer momentaneamente dos problemas que o cercavam e do nervosismo que estava sentindo. Edgar já havia desaparecido em outra rua quando, de volta a sua compostura, Theo voltou a caminhar em direção à casa de sua avó. “Pelo menos esse encontro repentino serviu para algo”, pensou.

Algumas curvas depois, chegava ao local que lhe proporcionou bons momentos quando mais novo. A fachada da casa estava desgastada e precisava de pintura, a pequena varanda parecia abandonada com vasos de flores mortas, e as escadas atrás do portão de grade verde que levavam para a casa tinham decorações sujas ou quebradas.

A casa ficava em cima de um estabelecimento comercial, que também pertencia a avó. Soube que por um tempo ela o havia alugado para alguém, mas não tinha ideia de quem pertencia naquele momento. Pegou o telefone e voltou a ligar algumas vezes sem obter sucesso e tocar a campainha ao lado do portão não surtiu efeito. “Ela pode ter saído e em breve estará de volta”, pensou Theo.

Andou de um lado para o outro, dando olhadelas para a porta do estabelecimento. Alguém poderia ter notícias de sua avó ou um número atualizado, caso ela tivesse trocado. Não custaria nada entrar e perguntar, não é?

A porta se abriu com grande facilidade. A janela esbranquiçada não o deixara ver o interior, mas ali dentro era menor do que ele esperava. Se não fossem por quatro idosos, teria dito que o lugar estava abandonado. Dois senhores jogavam xadrez em uma das mesas, enquanto uma senhora vazia crochê e a quarta fazia palavras cruzadas no jornal. Tudo parecia limpo, mas quase sem decoração. Havia um balcão com fatias de bolo, uma caixa registradora e alguns doces, mas nada chamativo. Tudo parecia muito… Sem vida.

— Boa tarde, jovem — disse um dos senhores, erguendo levemente a ponta do chapéu em um cumprimento.

— Boa tarde — respondeu Theo. Deu alguns passos incertos em sua direção. — Estou procurando uma pessoa. Algum de vocês conhece a senhora que mora na casa de cima?

— Ela morreu — disse a senhora do crochê, sem pestanejar.

— O que? — os olhos de Theo se arregalaram. Como sua avó poderia estar morta? Ninguém deu qualquer notícia para sua família.

— Pare de ser exagerada! Está assustando o garoto! Os olhos estão quase saindo das órbitas! — exclamou a senhora das palavras cruzadas. — Sente-se, querido. Ninguém morreu.

— Mas ele estava quase morrendo! Viu como ficou branco? Parecia um fantasma! — a senhora do crochê riu com deleite enquanto dizia aquilo.

— Lua! Tem um garoto aqui para falar com você! — gritou o outro senhor que jogava.

— Ah, mas não é possível! Se vocês realmente acham que venderei… — Lua jogou o pano de prato no balcão e ergueu seus olhos, pronta para um conflito, quando viu o neto. A expressão se abriu em um largo sorriso enquanto saia em sua direção. — Theo! Querido! O que faz aqui? Olha como você está grande!

— Grande? Não cresci nada desde o Natal. E acho que não cresço mais, vó — Lua o abraçou com vontade. Ele era mais alto que ela e enxergava o topo da sua cabeça, mas naquele abraço ele se sentia novamente como uma criança.

— Theo? Esse é aquele pirralho? Agora virou um homem desse tamanho! — exclamou o homem de chapéu. — Lembra de mim?

— Não acho que vá lembrar dessa sua cara feia, Rogério! — disse a mulher nas palavras cruzadas.

— Na verdade… — Theo olhou melhor para o homem. Algumas coisas nele pareciam familiares, assim como o chapéu. Lembrava-se de algo relacionado a ele estar usando um chapéu desse quando criança. — Acho que me lembro sim! O senhor era amigo do meu avô, não é?

— Sim, querido — respondeu Lua. — Esse outro velhote é o Wallace, aquela nas palavras cruzadas é a Silvia e a do crochê é a Miriam, dona do brecho. Nenhum deles dirá que o pegou no colo, não se preocupe. Olha como está bonito! Aconteceu alguma coisa para aparecer tão de repente?

A pergunta fez o frio na barriga se tornar um embrulho no estômago, acompanhado com o suco da culpa. Precisou respirar fundo e pedir para que pudessem conversar em particular. Não teria coragem de contar a história na frente dos amigos dela, e nem mesmo de fazer o pedido que tinha para fazer.

Lua o guiou para o andar de cima. A casa da avó continuava tendo as mesmas cores. Não mudara muita coisa desde sua última visita, apenas um sofá novo e alguns brinquedos de gatos acompanhados por dois bichanos. Os tons amarelos das cortinas, misturados com as paredes pintadas em tons de branco ou bege, os quadros dos filhos e netos espalhados nas paredes e cômodas, a estante com livros de assuntos que Theo nunca pensou em entender… Tudo continuava sendo familiar e convidativo para ele. Até mesmo um de seus próprios desenhos feitos quando criança, devidamente emoldurado, era exposto na sala com grande orgulho. Com a ajuda do avô, desenhou e pintou bonecos de palito que representavam os avós e a casa. Qualquer pessoa normal olharia para aquilo e não entenderia metade… Mas eles adoraram…

— Quer alguma coisa, querido? Água, suco?

— Café ou chá seria ótimo — respondeu Theo. Uma bebida quente cairia muito bem para ajudá-lo a ganhar alguma confiança.

— Café ou chá… — a avó repetiu com um sorriso no rosto. — É difícil entender que as crianças cresceram e agora bebem esse tipo de coisa.

— Comecei com o café quando ainda tinha dez anos e desde então não parei mais — disse a acompanhando até a cozinha, junto com os gatos. Um deles tinha uma pelagem branca e cinza, com uma mancha charmosa no rosto que parecia um bigode. O outro era laranja e gordo, com cara de poucos amigos. Theo se abaixou e fez carinho neles, que aceitaram imediatamente. — Esses dois são novos, não é?

— São meus dois filhos. O branquinho é o Bigodes, e a laranja se chama Xena. Sua tia se mudou para um lugar que não era permitido animais, por isso decidi ficar com eles. A companhia deles tem sido incrível.

Sim, deveria… Theo tinha certeza de que sim. Sempre quis ter animais de estimação, mas os pais detestavam a ideia e nunca permitiram. Imaginava como aquelas criaturas adoráveis podiam tornar um ambiente mais agradável, principalmente os solitários.

— Quer algo para comer? Tenho rosquinhas, daquelas que você adorava.

— Não, obrigado. No momento estou sem fome!

— Sente-se um pouco.

Theo obedeceu. Afastou uma cadeira da mesa que ficava no centro da cozinha e sentou-se, e Bigodes subiu no seu colo atrás de mais carinho. Xena os observou com julgamento antes de se virar e ir atrás da ração.

A cozinha não estava diferente. Alguns aparelhos novos, como Air Fryer e panelas elétricas, e pequenas mudanças sutis. As cortinas, que antigamente eram de frutas, agora exibiam pequenas vacas sorridentes, e onde havia um filtro de barro agora tinha uma fruteira com o micro-ondas. Mas no geral tudo parecia ter parado no tempo, até mesmo aqueles azulejos de flores na parede.

Lua terminou de fazer o café e o serviu com algumas torradas. Juntou-se à mesa e observou o neto com grande interesse. Isso o deixava um pouco desconsertado. Sentia-se culpado de não a visitar com frequência, e ver os olhos brilhantes dela, como se estivesse emocionada, tornava tudo pior.

— Me diga, o que está passando pela sua mente? — perguntou bebericando seu café, mas o neto continuou em silêncio. — Está com algum problema?

— Acho que posso dizer que sim?

— Foi uma resposta ou está pedindo permissão?

— Resposta, claro — respondeu Theo, ficando vermelho. Sempre foi fácil conversar com ela, mas sentia-se nervoso. Bebeu um gole do café e depois respirou fundo. Ele sabia que não poderia continuar adiando. — Tive um problema com a minha mãe. Uma… quase briga.

— Mesmo? Não consigo imaginar você fazendo algo assim. Victor sim, sem dúvidas. Mas você sempre foi um garoto que gostava de evitar conflitos, não é?

— Saber das coisas é um dos poderes de ser avó? — Theo sorriu e foi retribuído de maneira acolhedora. — Acabou sendo uma sequência de coisas, sabe? Já estava acumulando tudo por muito tempo e acho que não aguentei. Acabei ficando desempregado e pensei que poderia tirar um tempo para descansar, mas minha mãe começou a implicar com isso. Parecia que eu era uma criança inconsequente e necessitava de sua orientação, ou estaria perdido.

— Sua mãe sempre foi uma pessoa um pouco difícil, não é? Talvez por isso nunca nos demos muito tempo.

— Um pouco difícil? Totalmente. Tem momentos onde ela despeja todas as frustrações dela nos outros, sem motivo nenhum. Apenas porque está irritada — ele jogou a cabeça para trás, fitando o teto branco e um pouco descascado. — Ela acabou quebrando algo importante para mim… Era minha caneca preferida. Uma que o Victor fez para mim e me deu de presente de aniversário. Quer dizer… Tinha um importante valor sentimental para mim. E ela nem se desculpou! Agiu como se toda a culpa fosse minha e que estava sendo uma criança por reclamar que ela havia quebrado!

— Sinto muito, querido.

— Obrigado… Acabei saindo de casa depois disso para não acabar soltando muitas mágoas guardadas e vim para cá… — Theo terminou de beber seu café, reunindo coragem para a pergunta seguinte: — Será que… Eu poderia passar a noite aqui? Uns dias, na verdade, se não for incomodar? Eu posso ajudar com as tarefas da casa, comprar minha própria comida…

— Mas é claro que sim, querido! Será um grande prazer para mim e meus gatos ter sua companhia! — ela esticou sua mão e segurou a do neto, apertando de leve. — Fique o tempo que precisar, certo? Ficará tudo bem.

A avó determinou que ele ficaria no segundo quarto da casa, antigamente ocupado pela sua tia mais nova antes que se casasse e fosse morar com o marido. Ainda tinha móveis básicos, como uma cama, guarda-roupa e uma cômoda, mas estava com caixas e outros artigos desde que a avó começou a usá-lo como um pequeno depósito. Não seria difícil de limpá-lo e reorganizar tudo.

Antes de qualquer tarefa, ela o forçou a tomar um banho e almoçar com ela e os outros senhores. Todos se mostraram bastante empolgados com a ideia de ter mais alguém por perto, dizendo que aquilo traria uma novidade para o lugar. Estavam cansados da mesma “velharia de sempre”, palavras ditas por Miriam.

Quando terminou, voltou a subir para a casa e examinou melhor seu quarto novo. Parecia tudo bem conservado, mas empoeirado. Primeiro tratou de abrir a janela, conseguindo enxergar bem a rua ali de cima. Já que o cômodo ficava em uma das partes mais à frente da casa, tinha aquelas árvores ao longo da rua como paisagem.

Arrumou uma vassoura e limpou um dos cantos para que pudesse empilhar as caixas, todas leves o suficiente para que pudesse carregar várias de uma só vez. A parte mais difícil foi limpar a poeira das coisas. Toda aquela sujeira o fez começar a espirrar com frequência, e ele não sabia se tinha deixado um de seus remédios para alergia na mochila. Caso contrário teria que providenciar se desejava sobreviver àquele dia. Somente descobriu mais tarde que havia um aspirador de pó.


Demorou algumas horas para que tivesse terminado, ou pelo menos ficado satisfeito com o trabalho. Sentia-se cansado quando se sentou no chão do lado de fora do quarto. “Acabado fisicamente e emocionalmente”, pensou enquanto Xena se roçava em seu braço, atrás de carinho. Precisava tomar outro banho com urgência. Sentia-se coberto de poeira e isso lhe causava arrepios só de imaginar. Mas de certa forma, sentia-se aliviado. Estava num lugar que ainda o fazia se sentir bem.