Cafés e Gatos
6 Capítulo 06
Acordar cedo era um hábito difícil de se quebrar. Mesmo sem despertador ou um motivo, Theo se viu já desperto no horário habitual e sem conseguir voltar a dormir por mais que continuasse deitado e rolando pela cama. Ter um gato arranhando a porta também não ajudou. Foi para fora do quarto e foi recebido calorosamente por Bigodes roçando em suas pernas. Abaixou-se e ficou por ali, fazendo carinho naquela pequena criatura fofa.
Estava acostumado a sempre ser o primeiro a acordar na casa, se arrumar, fazer café e organizar tudo antes de sair para trabalhar, acordar seu irmão. Com Bigodes no colo, estranhou chegar à cozinha e sua avó estar despertar fazendo pão caseiro e se servindo de café. Foi uma imagem estranha à princípio, mas acolhedora. Ela o fez ficar sentado esperando até que tudo estivesse pronto para que pudessem tomar o café da manhã juntos enquanto assistiam o jornal matinal.
— A propósito, avisou aos seus pais? — perguntou Lua, enquanto devorava uma fatia do pão que havia feito.
— Sobre o que? — Theo fez sinal apontando para o próprio queixo, tentando alertar a avó sobre os farelos em seu rosto.
— Que está aqui. Não pode deixá-los preocupados.
— Avisei ao Victor. Ele deve ter dito para eles — respondeu, mas tinha suas dúvidas sobre isso. O irmão podia ser bem implicante quando queria, ainda mais se estivesse com raiva de algo. Em casos assim, era teimoso como uma mula e levaria o que fosse preciso até o túmulo. Porém, pela ausência de ligações da mãe, podia-se presumir que havia contado.
— Fez bem, muito bem — disse ela em aprovação e dando leves tapas no topo de sua cabeça.
Quando a avó desceu para se encontrar com os amigos na loja, Theo ficou sozinho com os gatos. As duas criaturas, hora dormindo ou pedindo por carinho, tornavam o lugar mais aconchegante e menos solitário. Era fácil de pensar em como ela deveria estar se sentindo naquele lugar. Todos os filhos se mudaram, havia perdido o marido e talvez não recebesse visitas frequentes… Theo ficou refletindo se não seria a mesma realidade de Miriam e dos outros.
Para afastar os pensamentos de sua cabeça, colocou-se a arrumar a casa para ajudar. Estava morando ali, seria o mínimo a ser feito! Passou o aspirador pela casa, espanou o pó e se livrou das teias de aranha escondidas nos cantos mais altos, limpou os porta-retratos e objetos decorativos expostos pela casa. Na cozinha, lavou e guardou a louça, limpou os azulejos engordurados e os lugares onde a avó não alcançava, fez uma pequena organização pelos armários. Começar a limpar devia tê-lo animado, pois logo estava lavando o banheiro e passando um pano úmido por toda a casa, tentando se livrar de qualquer pequena sujeira que poderia estar espalhada por ali. Também regou as plantas, alimentou os gatos, limpou suas caixas de areia.
Sua única pausa havia sido para fazer o almoço. Havia descido e perguntado o que Lua queria, voltando para a cozinha depois e cozinhando algumas batatas, fritando alguns pedaços de peito de frango, ralando uma cenoura para colocá-la no arroz. Todas essas tarefas ocuparam sua mente e o deixaram bastante tranquilo. Só se deu conta do tempo quando notou que escurecia no lado de fora. A própria avó ficou surpresa com o que viu ao voltar para casa. “Acho que nunca vi um lugar tão limpo!”, comentou enquanto fazia piadas sobre o valor da diária.
No dia seguinte, não havia mais o que limpar com o mesmo afinco. Apenas as pequenas sujeiras causadas pelo dia a dia, e em pouco tempo ele estava livre para sentar no sofá e fazer nada. A casa da avó não tinha internet, e Theo estava sem seu notebook para assistir aos seus filmes, sem seus livros para ler, e bastante entediado.
Lembrando da situação da loja, desceu e se ofereceu para limpar! Não havia muitos cômodos ou móveis para serem limpos. As poucas mesas e cadeiras só necessitavam de uma limpeza superficial, mas o balcão precisou de uma atenção maior. No primeiro dia de limpeza, do que Theo não sabia ainda se considerava um estabelecimento ou um ponto de encontro, o salão principal e o banheiro foram os alvos. No futuro poderia conversar com a avó sobre comprar tintas, e ele mesmo faria o trabalho de pintar a fachada e o interior. Mas sabia que se tratava apenas de uma animação momentânea que desapareceria em pouco tempo.
No segundo dia de limpeza, se concentrou na cozinha e em uma sala que estava sendo usada como depósito. Haviam diversas caixas, muitas de coisas usadas quando funcionava como lanchonete. Não sabia o que poderia ou não ser jogado fora, por isso apenas limpou e arrumou de maneira organizada. Não sabia dizer o que causou mais seu desgaste físico: a cozinha, com todo o esforço para esfregar e limpar, ou o depósito, com carregar caixas de um lado para o outro.
— O garoto limpa como se a vida dependesse disso — comentou Silvia quando o viu se sentar em uma cadeira, exausto.
— Quem me dera meus filhos limpassem algo. Teria me polpado muito trabalho doméstico, e teriam conseguido se casar mais cedo — disse Miriam comendo um pedaço de bolo de milho com café.
— Como limpar faz alguém se casar mais cedo? — perguntou Rogério.
— Pessoas que limpam passam a impressão de que são organizadas na vida. Que conseguem lidar e resolver qualquer problema! — retrucou Miriam.
Theo tinha suas dúvidas quanto ao pensamento. Ele nunca foi uma pessoa organizada na vida, e limpava para passar o tempo e se distrair. Nem mesmo conseguia manter seu próprio guarda-roupa organizado! E todas as coisas que fazia estavam em uma rotina que estabelecia para não ficar fazendo nada diante da tela do celular por horas.
À noite, falou com Beatriz. Estava acostumado a vê-la todos os dias no trabalho e por isso conversavam pouco pelo celular. Isso fez Theo se dar conta de que não falava com ela há cerca de três dias e deixado suas mensagens sem resposta pela simples falta de hábito. “Como algo assim acontece e você não me conta?!”, foi sua primeira mensagem depois de comentar o ocorrido. Também o fez prometer que, pelo menos uma vez por dia, olharia o celular para verificar se havia alguma mensagem nova.
Na manhã seguinte, acordou cedo novamente e foi se reunir com a avó para que tomassem o dejejum juntos. Esse pequeno hábito parecia fazer parte da nova rotina que estava criando. Sentavam-se à frente da televisão e assistiam um pouco do jornal, comentavam sobre a previsão do tempo, alguma receita mostrada em algum canal matinal sobre culinária. Depois, Lua descia e Theo começava sua agora pequena arrumação diária. Limpou o que precisava da cozinha, assim como as sujeiras dos gatos e ficou livre antes mesmo das 10 horas da manhã.
Sem muitas opções do que fazer, tomou um banho e se arrumou para sair. Havia mandado mensagem para o irmão e combinado de encontrá-lo no fim de semana para pegar mais algumas roupas e seu notebook, mas precisava de alguma distração até isso acontecer.
Foi ver se a avó queria alguma coisa e depois se colocou rumo à livraria. Iria procurar algum livro novo e voltaria para casa com pelo menos dois ou três. Dependeria de quantos acabassem o interessando. E torcia para que não acabasse entrando em um esquema de pirâmide com alguma série cheia de spin-off!
Subiu no ônibus e se sentou na janela, observando a paisagem urbana passar rapidamente do lado de fora. Todas as pessoas vivendo sua vida, muitas com amigos ou colegas, parceiros… Isso lhe dava uma sensação um pouco estranha. Gostaria de poder ter companhia em determinadas horas. Pensava que tornaria o clima mais agradável e o ato de sair seria divertido para sentar e comer algo, comentar sobre o que estavam fazendo.
Sem dúvidas poderia convidar Beatriz para acompanha-lo. Se não estivesse ocupada, ela aceitaria de bom grado e poderiam acabar fazendo aquilo juntos. Mas como fazer isso com aquele sentimento de que não queria incomodar? Por mais que não gostasse de sair sozinho, se propunha àquilo quando necessário. E não pretendia demorar.
O trânsito estava agradável e acabou chegando à livraria em pouco tempo. Fazia um tempo desde sua última visita ao lugar. Estava por fora dos lançamentos recentes e novidades. Caminhou entre algumas estantes de livro, observando toda sua extensão, os inúmeros livros que nunca tinha lido e alguns que nunca leria. Pretendia encontrar algo em seus gêneros preferidos, mas queria dar chance para algo diferente. Por isso acabou indo parar nas fileiras de romances.
Conhecia alguns mais famosos, como os de Jane Austin, mas nunca tinha lido nenhum. Talvez fosse certo preconceito de sua parte, imaginando que todos tratariam o romance de maneira surreal e exagerada, doce o bastante para lhe causar diabetes apenas por ler as palavras. Os romances em suas histórias de fantasia ou livros policiais nunca eram o foco da trama. Sentia-se mais confortável com a impressão de que o romance nunca era a prioridade na vida daqueles heróis… “É, pelo visto tenho mesmo preconceito com esse gênero”, pensou avaliando algumas capas.
Sempre tinha o costume começar a procurar livros pela imagem da capa, seguido pelo título e só enfim leria a sinopse. Mas apenas seguia esses passos quando a capa lhe agradava. Era um motivo idiota, mas funcionava para ele. Tinha uma queda maior pelos estilos minimalistas. A maneira como formas simples se uniam para criar uma arte bonita e agradável aos olhos!
Pegou um livro e começou a ler sua sinopse distraidamente, sem notar a aproximação de um homem que o observava de perto, assim como analisava o livro que estava na mão.
— Da próxima vez que quiser se camuflar em um lugar, tente se esconder melhor e não ficar como um ponto azul no meio do nada — disse a voz próxima o bastante de seu ouvido, fazendo-o se sobressaltar e quase cair na estante ao seu lado.
— V… Você! O que está fazendo? — Theo, confuso, olhou para o rosto de Edgar com as sobrancelhas arqueadas. Parecia que estava sendo julgado e nem mesmo sabia o motivo daquilo.
— Sou eu quem deveria fazer essa pergunta, não? Por que anda me seguindo?
— Seguindo você? Eu não fazia ideia de que estava aqui! E foi você quem chegou por trás de mim e me assustou! — o garoto colocou o livro no lugar e começou a caminhar para outro corredor, enquanto era seguido.
— Essa é a terceira vez no período de uma semana? Como poderia dizer que todas foram coincidência? — Edgar olhou para o teto com ar pensativo, levantando três dedos, um de cada vez. — Primeiro em uma balada, onde você esbarrou em mim e me fez ficar cheirando a cerveja.
— Um local movimentado, onde fui levado por uma amiga para uma comemoração de festa de aniversário.
— A segunda foi no meio da rua, onde novamente queria esbarrar em mim vindo na direção oposta…
— Eu estava indo para a casa da minha avó! — protestou Theo. — E quem iria querer esbarrar com outra pessoa? Fiquei distraído olhando para o outro lado da rua.
— E agora numa livraria…
— Onde as pessoas vão para comprar livros.
— E “coincidentemente” estávamos fazendo a mesma coisa, no mesmo dia — disse Edgar, acrescentando as aspas com os dedos. De alguma forma, sua expressão parecia mostrar certo divertimento. Isso levava Theo a crer que estava sendo provocado por seu ex-chefe. — Pode dizer, está obcecado por mim e minha beleza? Ou ainda é pelo trabalho? Porque, se for pelo trabalho, posso tentar dar um jeito nisso.
— Para depois me deixar sem emprego repentinamente? Não, obrigado. Já passei por isso uma vez e não quero repetir a experiência.
— Se não está aqui para me seguir… — Edgar tirou da mão de Theo o livro que ele acabara de pegar e começou a folheá-lo. — Está comprando mais livros de romances clichês para sua coleção?
— Talvez — respondeu Theo vagamente, avançando mais pelas estantes. — E você? Comprando seus livros de autoajuda?
— Na verdade, livros eróticos — respondeu com naturalidade, pegando mais um livro da estante. A resposta pegou Theo de surpresa, fazendo-o corar. — Mentira. Não sabia o que dar de presente para uma criança, então estou dando uma olhada por aí. A irmã de um amigo meu está me acompanhando e quis ver algo aqui.
— Quantos anos tem a criança?
— Não sei. Que idade crianças tem? Acho que deve ter uns oito anos, talvez menos.
— E por que não tenta comprar um livro de colorir? Quando meu irmão era mais novo, eu costumava fazer desenhos para ele pintar e ele adorava — respondeu Theo. Se perguntava porquê estava tentando ser amigável com aquele homem. Era a razão por ter perdido o emprego… Mas ele não parecia ser uma pessoa ruim. — Ou descubra se ele tem um videogame e dê algum jogo para ele.
— Por que eu daria um livro de colorir para uma criança que tem tudo? Oh… Verdade… Todos estarão preocupados com presentes caros e ninguém pensará em algo assim… — Edgar o fitou com os olhos semicerrados. — Acho que você me foi útil hoje. Obrigado, Thiago.
— É Theo.
— E leia isto — antes que pudesse dizer algo, Edgar colocou dois livros nas mãos de Theo. As capas eram feitas em tons de roxo e exibiam duas pessoas andando, cada livro retratando uma paisagem diferente. — Acho que irá gostar.
Com passos largos, ele caminhou até uma garota de cabelos longos e pretos que olhou para Theo antes que seguissem em direção a sessão infantil. Ela era bonita, com aquelas roupas que mostravam um estilo mais alternativo e sua boina vermelha. Era uma figura incomum que você não veria todos os dias.
“Esse homem é estranho”, pensou Theo balançando a cabeça e voltando a procurar um livro para si. Pelo visto, já tinha dois em seus braços para comprar.
Para que o dia terminasse sendo apenas “fora do comum”, precisava terminar naquele momento. Ele teria feito coisas simples e comprado alguns livros se fosse o caso.
Acabou escolhendo mais um livro para comprar. Se tratava de um livro do universo expandido de Alien que ele não conhecia. Pagou por tudo e refletiu sobre o que iria fazer. Sua avó tinha pedido que comprasse algumas coisas no mercado e faria isso ao retornar para casa, mas decidiu que faria algo antes.
Primeiro quis ir até um pet shop comprar alguns brinquedos para os gatos. Podia se divertir brincando um pouco com eles, e Bigodes era um gato mais ativo. Xena gostava de passar boa parte do tempo deitada e recebendo carinho atrás da orelha, mas tinha seus momentos onde gostava de tentar agarrar algo com suas patinhas.
A loja parecia uma armadilha! Entrou com um objetivo e, quando se deu conta, estava comprando até mesmo sachê para os felinos e coleiras, cada uma com um pequeno pingente. A de Bigodes tinha a coisa mais óbvia possível: um bigode. A de Xena, por outro lado, tinha uma pequena coroa. Imaginava como aquilo os deixaria ainda mais fofos!
Estava caminhando para sair da loja, quando se virou e voltou para o interior, disfarçando da pior maneira possível. Parados próximos da entrada, conversando e olhando para o celular, estavam Edgar e a garota com quem ele estava na livraria. Os dois pareciam tentar se orientar e descobrir para onde deviam ir. “Mas precisavam parar bem na entrada de onde estou?”, se perguntou Theo fingindo olhar camas de gatos. Não demorou muito para que acabassem sumindo de vista, mas ele esperou um tempo para ter certeza de que podia sair e decidir seu próximo rumo.
Lembrava que haviam algumas plantas mortas na pequena varanda de sua avó. Iria comprar algumas sementes ou alguma planta nova para substituí-las. Sabia que havia uma horto ali perto e foi para lá. Era uma área cercada, cheia de árvores ao redor e no centro um terreno onde ficavam diversas plantas para serem vendidas. Também havia uma tenda onde ficavam plantas menores, vasos, sementes e sacos terra. Sem dúvidas era bastante aconchegante por ali!
Passou por diversos vasos, observando os nomes das plantas e seus formatos, cores. Haviam tantos tipos de cactos diferentes que ele nem fazia ideia, assim como plantas com folhas tão diferentes! “Qual minha avó gostaria mais?”, se perguntou examinando uma begônia ao lado de uma suculenta que parecia ter formato de orelhas de elefantes. Próximo havia até mesmo plantas carnívoras.
— Tem certeza de que vai levar essa? — perguntou uma voz familiar atrás de seu ouvido. Com os ombros tensos, Theo virou seu rosto lentamente até Edgar entrar em seu campo de visão, com aquelas sobrancelhas erguidas e um bico que podia muito bem significar “olha só quem está aqui de novo”. — Ainda acha que é coincidência?
— Por que você continua me seguindo?
— Eu não estou seguindo ninguém. Ia perguntar exatamente a mesma coisa para você, meu pequeno stalker — Edgar deu leves tapas nas costas de Theo.
— Vai me dizer que dessa vez está comprando plantas de presente para uma criança?
— Não, isso seria ridículo. O que uma criança faria com uma planta? Jogaria na minha cabeça ou comeria terra. A carnívora iria achar legal, mas se entediaria rápido quando visse que não é nada como nos desenhos… — Edgar se afastou um pouco e começou a passear entre as plantas próximas. — Ei, Alice. Acha que um chifre de veado vai servir? Que nome engraçado.
— O que? Claro que não, doido — a garota da boina vermelha olhou na direção da planta em um vaso suspenso que ele apontava, depois o encarou. — Ei… Esse não é o garoto da livraria?
— Ah, sim. Coincidência, não? É o Thiago.
— Theo!
— Prazer, Theo — Alice apertou sua mão gentilmente com um sorriso no rosto. Ela parecia ainda mais fofa de perto. — Você também gosta de flores? Acabamos passando aqui em frente e fiquei interessada! Pensei em comprar mais uma para meu quarto.
Por trás dela, Theo viu Edgar fazer uma careta como se estivesse dizendo “quem persegue quem agora?” ou algo do gênero. A vontade foi socá-lo. Acertá-lo com a maior força que os seus braços conseguiam, o que não seria muita. Eles ainda estavam destruídos depois daqueles dias de faxina pesada.
Ao invés de exercer seu desejo por violência, Theo sorriu e comentou com Alice sobre não saber muito de plantas e o desejo de comprar algumas para a casa de sua avó. A garota foi muito prestativa dando algumas sugestões e recomendou que comprasse cactos, devido a facilidade que seria para cuidar deles. “Regar uma vez por semana está ótimo”, explicou a garota ao vê-lo se decidir.
Acabou se separando da dupla para finalmente ir ao mercado e terminar seu passeio do dia. Para sua infelicidade, havia se esquecido de anotar as coisas que a avó tinha pedido e por isso teria que contar com sua memória não muito boa para resolver a situação.
Era difícil lembrar das coisas que ela gostava. Quando costumava ir ao mercado com a avó, sempre era uma diversão. Ela gostava de comprar tudo o que ele pedia! Seus biscoitos preferidos, sorvete nos dias calorentos, seu cereal matinal preferido quando ia dormir lá. Queria poder agradá-la comprando algo, mas o que poderia ser? No caso de dúvida, o melhor seria decidir cozinhar. Conquistar as pessoas pela barriga sempre parecia uma ótima tática.
Enquanto colocava no carrinho o que precisava e surfava pelos corredores do mercado, Theo notava que vez ou outra acabava olhando para trás. Sentia como se pudesse ser surpreendido a qualquer momento como das outras vezes. As coincidências pareciam exageradas. Mas como explicar todos os encontros? Somente naquele dia haviam sido três vezes! “Seria ridículo pensar naquela história de cartas de tarot?”, se perguntou Theo, passando pelo corredor de frios. Estava distraído e pensativo, mas seus olhos não se enganaram e seu corpo reagiu instintivamente. Em questão de segundos, estava no chão fingindo amarrar o cadarço. “Não pode ser!”, pensou erguendo um pouco a cabeça e avistando Edgar e Alice entrando em outro corredor.
Depois disso, Theo correu com o carrinho até o caixa mais próximo e escondeu seu rosto até ter certeza de que estava longe dali.
Ficou aliviado apenas quando chegou em casa e foi recebido pelos gatos. Estava seguro da presença de qualquer pessoa ali! Não havia nenhuma maneira de ser encontrado, e pretendia continuar assim. Todas aquelas coincidências o estavam matando! Como tudo poderia ser considerado possível?
Pegou seu celular e começou a digitar para Bia: “você não sabe o que me aconteceu hoje!”. Olhou para a mensagem, mas decidiu apagar. Como poderia falar sobre a situação? Não queria ter que ouvir a insistência dela sobre ele encontrar o amor ou coisa do gênero. Seria capaz de voltar a insistir que havia “esbarrado no amor de sua vida”, como fizera alguns dias antes. Ricardo estava namorando e isso a fez desistir de insistir no assunto momentaneamente… “Mas e se Alice for namorada dele?”, se questionou Theo.
Edgar havia mencionado algo sobre ela ser irmã de um amigo. Poderia estar ocultando a história ou dizendo a verdade, porém Beatriz não precisava saber todos os mínimos detalhes. Comentaria o ocorrido da maneira mais superficial… Não daria certo, não é?
Respirou fundo e digitou:
“Algo estranho aconteceu comigo hoje. Acabei encontrando a mesma pessoa três vezes no mesmo dia. Doido, não é?”
Não iria ficar esperando uma resposta. Começou a se mover para preparar o jantar. Fazia tempo desde a última vez que havia cozinhado macarrão e seu ponto fraco sempre foi fazer o molho. Parecia sempre estar faltando alguma coisa, por isso esperava que a internet o ajudasse da melhor maneira possível.
Colocou para tocar uma playlist aleatória com músicas dos anos 2000 e logo de cara tocou “Feel Good Inc.” de Gorillaz. Isso o fez sorrir, lembrando-se da época que Beatriz estava em sua fase mais emo roqueira. Mesmo depois dela ter passado, continuava guardando suas camisas de bandas de rock e as usava em casa. Ela tentou arrastar Theo o fazendo ouvir My Chemical Romance, mas o garoto estava mais na época de ouvir música pop. Agora era Beatriz quem ouvia de tudo e Theo ouvia mais suas músicas indies.
Quando pegou o celular, havia notificação de uma mensagem de Beatriz dizendo:
Beatriz:
“Nem dá para chamar isso de coincidência! Sabe como são essas coisas de destino, não é?”
Theo:
“Não é quem você está pensando.”
Beatriz:
“Meu querido Theo… As cartas disseram. Não tem para onde fugir agora!”
Theo:
“Doida, tá pensando que eu sou um destruidor de lares?”
Beatriz:
“Pelo visto, vai ser. Cuidado para não acabar ficando careca!”
Theo:
“Você corta o cabelo e me faz uma peruca. Vou ficar horrível careca!”
Beatriz:
“Meu cabelo já é curto demais. Eu é que vou ficar horrível!”
Theo:
“Ficamos careca juntos então?”
Beatriz:
“É para apoio moral?”
Theo:
“É você quem quer me enfiar nessa história. Mas não, não era ele.”
Beatriz:
“Era alguém que você conhece?”
O que deveria dizer? Já havia trazido o assunto para a conversa, não teria problemas confirmar. “Mas se eu disser quem é…”, Theo refletiu enquanto escorria a água do macarrão. Sabia que a amiga acabaria direcionando sua insistência para um novo alvo improvável. “Mas foi estranho encontrá-lo com tanta frequência, não é?”, pensou mais um pouco. Sua cabeça poderia imaginar aquela possibilidade junto com os vários “e se” ao longo do dia, mas a probabilidade de qualquer uma daquelas coisas acontecerem parecia distante e ridícula.
Beatriz:
“Está pensando no que responder, não é?”
Theo:
“Talvez. Aliás, como você está?”
Beatriz:
“Você não tem jeito mesmo, menino.”
Theo:
“Está?”
Beatriz:
“Tática suja… Mudando de assunto do nada. Estou meio enjoada, mas já tomei remédios.”
Theo:
“Se não melhorar, te arrasto pro médico.”
Beatriz:
“Não parece ruim. Vai que você é atropelado por um médico rico!”
Theo:
“Cale a boca!”
Beatriz:
“Só estou dizendo! É uma oportunidade de ouro.”
“Quero ser bancada pelo sugar daddy do meu melhor amigo!”
Theo:
“Mais fácil você me bancar!”
Theo voltou sua atenção para o jantar que estava preparando. O maior desafio da noite estava diante dele: preparar o molho! Não poderia ter nenhuma distração naquele momento, nem mesmo de Bigodes indo se esfregar em suas pernas em busca de carinho ou de Xena interessada no cheiro do frango cozinhando.
Seu celular voltou a vibrar e ele pegou para responder sua amiga, mas ficou surpreso ao ver a mensagem de um número não salvo. A foto de Ricardo estava na tela, seguida pela mensagem:
“Preciso de um airbag para sexta. Está disponível?”
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