Cafés e Gatos
2 Capítulo 02
O jeito que ele arrumou de “aproveitar” seus últimos dias não era bem a maneira que outras pessoas concordariam que estava aproveitando qualquer coisa. Naquela noite, assistiu alguns episódios de alguma série aleatória até cair no sono. Não demorou muito para isso acontecer, já que estava bastante cansado pelo dia no trabalho e pelas noites mal dormidas recentemente. Acordou duas vezes, com o coração acelerado. Foi difícil conseguir se acalmar e voltar a dormir, principalmente quando acordou às 5 horas da manhã e ainda estava um breu do lado de fora.
Levantou-se sentindo o corpo pesado, foi até o banheiro e lavou o rosto. Fitou a própria imagem, a marca dos óculos no nariz, seu cabelo desgrenhado. Precisou respirar fundo mais algumas vezes para tomar coragem de encarar um novo dia.
Foi até a cozinha no andar de baixo se sentindo ainda um pouco sonolento e precisando de um estímulo. A cafeteira ficava em cima do micro-ondas, por isso a pegou e levou até a pia onde ficava uma das tomadas. Colocou água, pó de café e açúcar e esperou a magia acontecer.
Em pé, observando o mundo pela janela, tudo parecia tão distante… Uma outra vida, completamente diferente. E, por alguns minutos, havia uma tranquilidade e paz momentânea antes de seus pensamentos caóticos retornarem.
Da geladeira, pegou uma maçã e a lavou antes de morder. Sua caneca de café preferida estava no escorredor de louça. Arrumou tudo e foi para a sala, onde deixou seu corpo afundar confortavelmente no sofá antes de ligar a televisão para ver as notícias da manhã. Não imaginava que teria algo interessante para ele. Nunca tinha nada além de trânsito, algum crime ou pessoas insatisfeitas com algo. Assistir jornais podia ser revoltante ou deprimente.
Continuou ali, comendo sua maçã e bebendo seu café por um longo tempo. Quando se cansou das notícias, trocou para um canal de desenho que costumava assistir com frequência. Detestava que a maior parte dos episódios fossem repetidos, porém se entretinha da mesma maneira. Mesmo quando era um desenho de humor questionável.
— Bom dia — disse o irmão esfregando os olhos. Ainda usava seu pijama que consistia em uma blusa grande para seu tamanho de uma banda de rock chamada Anel de Saturno. Ele pegou uma xícara de café para si e se afundou ao seu lado. — Noite mal dormida? — questionou pegando seu celular.
— Infelizmente. Uma noite daquelas — respondeu sem tirar os olhos da televisão. Na cena, o protagonista, um pato, tirava proveito dos brinquedos de outra criança. — E você levantou bem cedo hoje. Alguma coisa errada?
— Não — Victor respondeu depois de algum tempo. Sua cabeça parecia ficar em outro lugar quando estava no celular. — Combinei de sair com alguns amigos hoje e dormir fora, mas só posso se arrumar meu quarto.
— Você estuda de manhã. Ainda pode fazer isso à tarde.
— Sabe como ela é chata. Se eu não fizer direito, vai me prender aqui até não poder mais — retrucou o irmão. — Vou arrumar o máximo que puder agora, pelo menos.
“É, eu sei”, pensou Theo. Parte dele achava que deveria repreendê-lo por chamar a própria mãe de chata daquela maneira, mas todo o restante concordava ou não ligava.
Victor era oito anos mais novo que Theo e não o lembrava de nenhuma maneira. Ele deixara o cabelo crescer e o pintou de loiro e já era alto o suficiente para ser maior que ele. Além de ser mais comunicativo e atlético devido ao futebol, algo que Theo jamais sonhou em ser.
— Ainda tenho algum tempo antes do trabalho, se quiser ajuda.
— Sério? — foi a primeira vez que ele tirou os olhos do celular. Sua mão tocou o cabelo de Theo e começou a bagunça-lo, um antigo costume que o mais velho tinha. — Olha quem está querendo ajudar o irmãozinho!
—Eu estou fazendo isso há 15 anos — respondeu Theo empurrando o irmão e tentando ajeitar o cabelo. — Esqueceu quem te lavava para todos os lugares?
— E eu tinha o costume de te chamar de pai, lembra? Nossa… Eles ficavam com tanta raiva disso. Mas então vamos logo! Não quero te atrapalhar mais do que preciso — Victor pegou as duas canecas sujas e se levantou para leva-las à cozinha. — Se encontrar alguma camisinha no quarto, finja que não viu e não pergunte.
— Eu não iria.
— Sério! Mesmo se ficar curioso sobre, não pergunte.
— Pelo amor de Deus… Cadê o respeito pelo seu pai? Eu não quero saber de nada disso.
— Ainda bem… Porque se soubesse…
— Vai se ferrar, Victor.
Para os padrões de seu irmão, o quarto não estava assim tão bagunçado. Haviam embalagens de biscoitos e doces jogadas em alguns cantos apertados, as roupas precisavam ser separadas entre “lavar” e “dobrar para guardar”, colocar objetos no lugar e tirar a poeira. Sem dúvidas não era nenhum campo minado onde não se podia confiar onde estava pisando.
Deixou a parte de separar a roupa para Victor, enquanto recolhia o lixo e colocava dentro de um saco. As várias embalagens de chocolate que ele deveria ter comprado e comido sozinho para não oferecer a ninguém o faziam pensar que alguns hábitos nunca mudavam. Desde criança o irmão mais novo gostava de comer qualquer doce sozinho, para “apreciar” melhor o sabor. Apenas compartilhava quando era pego enquanto comia, senão guardava e esperava o momento onde ninguém estivesse por perto. Theo havia se cansado de encontrar os papéis embrulhados e escondidos quando ele era o responsável pela limpeza do quarto. “E onde ele conseguia todos aqueles doces?”, se perguntou dando um breve sorriso de canto de boca.
— Quando foi a última vez que estivemos assim? — perguntou Victor. Estava sentado no chão, cheirando roupas e jogando-as em uma pilha ou dobrando-as corretamente.
— Assim como? — perguntou Theo.
— Como nos velhos tempos.
Theo sabia qual era a resposta. Lembrava-se bem do dia. Estava bastante ansioso e nervoso, porque era seu primeiro dia de trabalho. Nunca tinha feito nada como aquilo antes, mas sabia que precisava. Precisava aprender diversas coisas e lidar com clientes, às vezes com pressa e mal-humorados. O dia foi um grande pesadelo para ele. Queria desistir. Sentia que devia. Mas, ao chegar em casa, Victor o abraçou e passou o restante da noite com ele no quarto assistindo filmes da Disney. Nos dias seguintes, Theo voltava para casa e sentia-se exausto demais para isso.
— Quase quatro anos — respondeu.
— Ah, sim. Foi quando você virou um adulto chato.
— E você virou um pré-adolescente revoltado — retrucou jogando uma cueca em Victor.
— Peter Pan era revoltado por levar crianças para um mundo onde poderiam viver eternamente como crianças?
— Não, apenas sequestrador.
Havia adiantado uma boa parte da limpeza quando chegou a hora de tomar banho e se arrumar para o trabalho. Abrir seu próprio guarda-roupa e ver a bagunça ali dentro o fez perceber que deveria fazer algo por ele mesmo também. Apanhou sua roupa, guardou o uniforme limpo na mochila e em pouco tempo já estava pronto para sair. A parte mais difícil foi conseguir ajeitar o cabelo de um jeito que achasse bom, e ouvir os comentários da mãe dizendo que estava horrível e precisava cortar não ajudaram muito.
Saiu de casa e chegou cedo ao trabalho como de costume. Sua rotina matinal e a teimosia do seu corpo de acordar muito cedo o ajudavam a ter um bom tempo para fazer tudo e chegar antes de qualquer pessoa, mas dessa vez não foi o primeiro. Bia estava sentada na frente do café com uma expressão de poucos amigos. Talvez estivesse irritada por acordar cedo, ou poderia estar apenas pensando. Dessa vez era difícil dizer.
— Manhã difícil? — perguntou Theo se juntando a ela.
— Cólica — respondeu Beatriz lhe encarando. Os olhos diziam que ela poderia matar alguém. “Cólica” parecia sua resposta universal para muitas coisas, mesmo quando não fizesse sentido. — Se importa se eu falar que você é meu namorado para um garoto aqui? Já falei que não quero nada, mas ele continua insistindo como se eu estivesse cometendo um pecado.
— E lá vamos nós usar a carta “melhor amigo gay” — disse Theo rindo, mas fazendo uma pose para que a amiga tirasse duas fotos. — Qual vai ser a legenda da vez?
— “Depois de uma noite de loucuras” — disse pausadamente enquanto digitava. — Fizemos loucuras na cama, não é? Você babando na sua e eu roncando na minha. — ela guardou o celular e olhou para a rua, ainda pouco movimentada devido ao horário. — Contou para seus pais?
— Ainda não. Prefiro esperar mais um tempo antes de ouvir comentários chatos.
— Imagino. Meus avós se ofereceram para perguntar aos conhecidos, se precisar de um trabalho logo. Decidi tirar um tempo para mim. Descansar um pouco antes de voltar ao caos diário.
“Descansar um pouco”, pensou Theo com as palavras ecoando em sua cabeça. Não havia pensado na possibilidade de fazer algo assim antes. Depois de quatro anos trabalhando sem parar, apenas com sua folga semanal e sem tirar férias, poderia ter um pequeno período de descanso também. Afinal, havia guardado boa parte do seu dinheiro e tinha o suficiente para se dar um tempo. Mas valeria a pena?
— Acabei indo em uma noite das garotas ontem. Fomos beber um pouco e… Adivinha? Descobri que “a noite das garotas” era para comemorar a gravidez da Jéssica. Sim, não faça essa cara. Ela está grávida.
— Mas ela não tinha terminado com o noivo há alguns meses?
— Felizmente não é daquele babaca, não foi nenhuma recaída. É um pouco mais sórdido — ela fez uma pausa dramática e sorriu de canto de boca. — Engravidou de um colega de trabalho. E sim, provavelmente foi feito no local de trabalho.
— Meu Deus… — Theo começou a rir sem conseguir se controlar. — Nunca mais olharei para aquele consultório da mesma forma.
— Depois de todos os detalhes escutados ontem, acho que nem eu. — ela se espreguiçou por alguns segundos, resmungando de alguma dor. — Ainda tenho que trabalhar hoje…
— Infelizmente não é sua folga, princesa. Pelo menos logo será nosso último dia. Ou deveria ter saído para beber no sábado.
— E nós vamos, lembra? Não pense que fugirá do nosso compromisso marcado.
***
Seu penúltimo dia de trabalho acabou sendo bastante tranquilo e pouco movimentado. Arrumou mesas, limpou o balcão, arrumou o estoque, e grande parte do dia foi dessa maneira: limpeza.
À noite, ficou na cama tentando assistir um filme qualquer que havia estreado naquele dia, mas sua mente estava um pouco inquieta. Talvez por isso, ou influenciado por tudo o que aconteceu durante o dia, acabou decidindo limpar seu quarto para se distrair.
Jogou na cama todas as roupas do seu guarda-roupa para dobrá-las e separá-las da maneira devida. Tudo estava um grande furacão de roupas bagunçadas. Também havia seus pequenos bonecos colecionáveis e livros para arrumar, as fotos polaroids para organizar na grade atrás da cama. Encontrou até mesmo um antigo jogo de tabuleiro que não lembrava da existência. Isso colocou um sorriso em seus lábios.
Foi se deitar um pouco depois da meia-noite, mas não conseguiu dormir imediatamente. Usou o celular para ver uma rede social do seu irmão mais novo e observou as fotos de família onde ele não estava. Algum passeio que Victor fez com os pais, almoço em algum restaurante. Theo guardou o celular e ficou girando inquieto pela cama boa parte do tempo, até finalmente um sono sem sonhos o alcançar.
Acordou cedo como de costume, antes do despertador tocar. Ainda estava bastante escuro no lado de fora e logo começaria a amanhecer. Foi ao banheiro lavar o rosto e desceu para o andar de baixo, onde se deparou com seu irmão dormindo de cabeça para baixo no sofá. A cena inesperada era cômica, mas um fator lhe tirou qualquer diversão: o cheiro de cerveja que Victor exalava.
Pensou em acordá-lo, mas decidiu colocar o café para fazer antes de voltar e se agachar ao lado do garoto. Colocou a mão nele e o sacudiu, chamando-o baixo:
— Ei, Victor. Vamos lá, acorda.
— Hm… — o irmão resmungou e tentou se mover, aos poucos, seus olhos foram se abrindo e a expressão se retraindo em uma careta. — Por que você está de cabeça para baixo?
— Não estou. É você quem está.
— Sério? — ele foi se ajeitando aos poucos com a ajuda do irmão. Ficou de pé com rapidez e isso o fez cambalear. — Está tudo girando.
— Vamos tomar um banho logo, antes que a mãe acorde — declarou Theo o ajudando a caminhar. Era estranho fazer isso, com ele sendo mais alto. Definitivamente não era mais aquela mesma criança.
Conduzi-lo não foi o problema que imaginou que seria. Depois de um tempo, as pernas de Victor pareciam ter ganhado mais força e o equilíbrio deixou de ser um problema. Conseguiu andar bem até o banheiro do andar de baixo e disse ser capaz de tomar banho sozinho. Enquanto isso, Theo subiu em silêncio para o quarto do irmão e pegou roupas limpas.
— Minha cabeça dói — disse Victor quando saiu do banheiro e foi se sentar no sofá.
— Imagino o motivo — Theo pegou uma xícara de café para si e outra para o irmão, mas adoçou apenas a própria. — Quer me contar o que aconteceu?
— Quer saber desde quando eu faço isso, não é? — Victor pegou a xícara de café e a aproximou do nariz. Respirou um pouco aquele cheiro antes de beber um grande gole e fazer uma careta. — Ah! Merda! Cacete! Está sem açúcar!
— Melhor jeito de começar o dia! Vai me agradecer depois — o garoto bebeu o próprio café, satisfeito por estar levemente adocicado. — Pensei que fosse dormir na casa de um amigo.
— Ia, mas acabamos brigando por causa de uma garota e o idiota disse para eu me virar. Sorte que tinha dinheiro para voltar pra casa. Depois disso só lembro de tentar abrir a porta e agora acordar de cabeça para baixo… Sorte que você me encontrou, e não eles — bebericou um pouco mais e fitou o irmão. — Deve estar me achando um idiota irresponsável.
— Não vou dizer que aprovo sua decisão de estragar seu fígado nessa idade… Só quero que se cuide — os dois ficaram em silêncio. Victor se aproximou do irmão e, de maneira desajeitada, apoiou a cabeça em seu ombro.
— Obrigado por cuidar de mim.
— Não seja bobo. Sempre que você precisar.
***
Os dias que se seguiram pareceram voar, aumentando ainda mais a ansiedade de Theo quanto ao que faria. O trabalho começou e acabou como se um editor tivesse cortado todo o dia. Ele mal se lembrava das coisas que havia feito, apenas de uma pequena despedida que os funcionários fizeram no último dia antes das portas do café se fechassem e não voltassem mais a abrir.
Quando se deu conta, era fim de semana e o seu despertador estava tocando. Deveria ter levantado e seguido para mais um dia de trabalho, mas agora não teria mais isso. Estava oficialmente desempregado e seria seu primeiro dia na atual condição.
Continuou deitado por um bom tempo, sem tentar se importar se deveria ter levantado ou não. Precisava descansar para o que teria mais tarde… Beatriz havia passado dias falando daquilo, por isso não iria conseguir fugir do compromisso.
Sentou-se na cama e respirou fundo. Esticou os braços o máximo que conseguiu, movimentou os dedos do pé, deixou que o longo bocejo saísse em seu tempo. “Vamos lá”, pensou.
Encontrou o pai na sala, assistindo televisão, enquanto a mãe estava na cadeira da cozinha, usando o celular. Seus olhos se ergueram quando o filho se aproximou e as sobrancelhas mostravam uma breve confusão.
— Não foi trabalhar hoje?
— Não teve trabalho — respondeu enquanto se servia de café. — O Victor já acordou?
— Sim. Foi jogar futebol com uns amigos — seus olhos logo se voltaram para o celular, onde ela tentava descobrir uma nova maneira de fazer pudim sem levar ao forno. — Já que está em casa, ajude seu pai a mover o armário da cozinha de lugar.
Theo respirou fundo ao ouvir o “pedido”, mas não protestou. Continuou tomando seu café e divagando sobre o que faria no dia. Teria tempo até a festa com Bia, podendo passar a tarde lendo. Havia encontrado alguns livros que comprou e deixou guardado por todo aquele tempo dentro do guarda-roupa. “Mas e quanto ao que usarei na festa?”, se perguntou de repente. Deveria separar o que usaria. Talvez perguntasse para a amiga se tinha algo que ele precisava saber antes. Fazia tempo desde sua última festa. E se sentar em uma cadeira na varanda de Beatriz e beber não poderia ser considerado uma “festa”.
Passou parte do sábado lendo um livro que comprou apenas por ter achado a capa bonita. O estilo de arte, junto com as cores, chamou sua atenção de imediato. Ficou surpreso ao descobrir se tratar de um romance pós-apocalíptico, onde um vampiro se apaixonava por uma garota humana. Parecia um Romeu e Julieta bastante… Diferente.
Seguindo os caprichos de sua mãe, ajudou segurando o armário para que o pai pudesse parafusa-lo em outra parede. Os dois em silêncio, visivelmente incomodados por fazer aquilo pela quarta vez em dois meses. “Se ela queria um armário e sabe que vai muda-lo de lugar, não deveria comprar um feito LITERALMENTE para que não fosse mudado”, reclamou Victor quando o viu pela primeira vez.
Aproveitou também para perguntar à Bia sobre a festa, e recebeu “coloca o que você se sentir confortável. Que tal aquela camisa de Pokémon? Fica bem em você” como resposta. Ele sempre achou que a amiga detestava aquela camisa, porque Theo sempre acabava usando nas vezes que ia até a casa dela.
“O que eu me sentir confortável”, pensou enquanto pegava sua camisa com a anatomia de um Gengar e de uma Clefairy, uma calça jeans já meio surrada e separava seu tênis de “Meu amigo Totoro” que raramente usava por falta de oportunidade.
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