Theo olhou para o celular mais uma vez. Já havia acordado há algum tempo e aguardava o despertador tocar enquanto ainda estava deitado. Faltavam poucos minutos. Poderia já levantar, começar sua rotina matinal, mas não tinha qualquer vontade de adiantar o tempo que ainda tinha para continuar deitado.

Fechou os olhos, respirou fundo algumas vezes. Por mais que conseguisse relaxar um pouco, nunca conseguia cochilar. Mesmo nas vezes que acordava 1 hora antes do despertador, permanecia acordado durante todo o tempo. Isso o fazia invejar quem conseguia sem o mínimo de dificuldade, como seu irmão ou Beatriz.

Minutos depois, despertador soou e logo Theo deslizou o dedo para desliga-lo. Respirou profundamente mais uma vez e soltou um longo suspiro. Levantou da cama em um pulo e se espreguiçou, esticando os braços ao máximo que conseguia. Depois, foi até a janela do quarto e abriu a cortina, fazendo uma careta quando a claridade repentina inundou o cômodo. Felizmente, para ele, seria um dia chuvoso.

O jovem procurou seus óculos redondos e os encontrou na cabeceira da cama, entre a pequena bagunça que sua desorganização causou. Ele sabia que em breve precisaria dar um jeito naquilo, mas no momento ignoraria. Quem se incomodaria de tirar um par de meias jogadas em cima de uma miniatura da torre Eiffel às 6 horas da manhã?

Saiu do quarto e foi para o banheiro. Olhou seu reflexo de cabelo bagunçado e a barba por fazer coçando levemente. No celular, procurou pela música “Melancolia Otimista” de Enzo Yuki e colocou para tocar. Fechou os olhos, deixou o ritmo penetrar por seus ouvidos e então começou a dançar.

Theo pegou o barbeador e fez a barba antes de ir tomar seu banho. Se odiou por ter inventado de lavar o cabelo naquela água fria do chuveiro quebrado, mas logo começou a brincar de fazer diferentes penteados enquanto cantarolava, e terminou a primeira parte de seus afazeres matinais escovando os dentes.

Se vestiu no banheiro antes de descer as escadas e ir para a cozinha preparar seu café. Deixou a cafeteira fazendo seu trabalho, enquanto ele arrumava outras coisas por ali. Jogou embalagens de fast-food na lixeira e guardou os sachês, pois sabia que seu irmão sentiria falta deles depois. Rapidamente se livrou de alguns copos sujos e logo ficou sem muita opção do que fazer. Olhou de um lado para outro, tapeando a bancada com seus dedos, começando a se perder em seus pensamentos. Imaginou o que sua amiga Beatriz poderia estar fazendo naquele momento. Será que sairia atrasada para o trabalho ou conseguiria acordar com o despertador? Com frequência a via chegar ao trabalho sem fôlego, parecendo ter corrido uma longa maratona.

O café ficou pronto em alguns minutos. Theo se serviu em sua xícara favorita, cheia do que seriam sapos estilizados em uma orquestras (ao menos era o que seu irmão disse ser quando lhe deu há alguns anos). Apanhou uma maçã na fruteira e se sentou no sofá para tomar seu café da manhã enquanto assistia as notícias matinais.

— Bom dia — ouviu sua mãe dizer atrás dele, cruzando o corredor e desaparecendo na cozinha. — Já acordou seu irmão?

— Ele não tem aula hoje — respondeu Theo sem tirar seus olhos da televisão. Passava uma reportagem sobre uma galeria de arte que estava sendo inaugurada com obras de artistas locais.

— Esses professores de hoje em dia… Parece que nunca querem trabalhar — comentou ela se sentando no sofá. — Deviam ir lá reclamar. Ficam mais em casa do que na escola. — a mãe ficou em silêncio, olhando para a televisão, mas logo voltou sua atenção para o filho. — Tá na hora de cortar esse cabelo. Já está feio grande assim.

— Tá bom.

Theo virou todo o resto do café, ignorando que estivesse quente demais. Se levantou e foi lavar a xícara antes de ir para seu quarto. Arrumou rapidamente sua mochila, guardando nela o livro que estava na cabeceira da cama. Teria tempo para conseguir ler antes de começar a trabalhar.


***


Um jovem entrou pela porta, fechou seu guarda-chuva e o guardou junto com os outros ao lado da entrada. Ajeitou sua roupa e o cabelo, antes de olhar para o balcão e abrir um sorriso ao avistar Theo. Ele se aproximou, ainda o observando com grande interesse.

— Olá, bom dia. O que gostaria de pedir?

— O de sempre, por favor — o rapaz disse, e abriu um sorriso.

— E qual seria o de sempre? — questionou Beatriz, erguendo as sobrancelhas. Não foi difícil notar que ele olhava e sorria para Theo.

— Um café expresso e uma porção de pão de queijo — disse Theo, casualmente.

— Isso, exatamente — respondeu o cliente. — Muito obrigado. Vou estar sentado ali.

Sem esperar uma resposta, ele foi até uma das mesas próximas da janela e lançou olhares disfarçados para Theo. Com frequência parecia tentar arrumar o cabelo ou ajeitar sua roupa, como se estivesse em um encontro com alguém. Beatriz sorriu e encarou o amigo por algum tempo.

— Você o conhece de onde?

— Eu? Não conheço. É só um cliente do café.

— E desde quando ele sabe que pode pedir “o de sempre”?

— Acho que na última vez que esteve aqui eu acabei indo no automático e completei o pedido. Ele costuma vir de manhã, eu acho.

— E está interessado em você! Olha como ele está praticamente te comendo com os olhos! Deveria chamá-lo para sair!

— Ele não está interessado em mim. E eu também não estou interessado nele. Você deveria parar de fantasiar essas coisas de querer me empurrar para qualquer cara que aparece.

Beatriz fez uma careta para Theo antes de separar uma porção de pão de queijo e deixa-lo levar o pedido. Depois, os dois ficaram em silêncio por algum tempo, cada um perdido em seus próprios pensamentos ou pequenos afazeres.

— Alguma vez você já pensou está desperdiçando sua vida? — a pergunta repentina fez Theo olhar para garota que estava com seus cotovelos apoiados no balcão e enrolando uma mexa do cabelo com o dedo indicador.

Ele franziu a testa, encarando o cabelo roxo já desbotando para rosa de sua amiga. Não esperava aquele tipo de pergunta logo naquela manhã chuvosa, mas não podia esperar menos de Beatriz.

Para ignorar sua pergunta, continuou arrumando os copos, tampas e canudos. Havia uma grande variedade de pequenas coisas para se distrair enquanto não chegavam novos clientes. O turno da manhã costumava ser mais movimentado por trabalhadores ou estudantes que decidiam beber café e comer torradas ou waffles.

— Não foi uma pergunta retórica, Theodoro — ela se espreguiçou e colocou-se a observar o amigo.

— Eu gosto daqui.

— Eu também gosto daqui. Essa não foi a pergunta — Beatriz retrucou arqueando as sobrancelhas. — Você nunca pensou sobre isso? Passamos seis dias trabalhando aqui com apenas uma folga por semana. Não sente que deveria fazer mais do que isso? Eu gosto de trabalhar aqui, mas às vezes penso que estou perdendo tempo precioso que eu poderia estar gastando com outras coisas.

— O nome disso é ser assalariado, minha querida. Não podemos fugir dessas obrigações porque existe fatura de cartão. E agradeço por trabalhar com algo que eu gosto — Theo cruzou os braços e encarou a menina. — Por que tenho a impressão de que não estamos falando sobre você?

— Elementar, meu caro Watson! Colocou essa cabeça oca para funcionar! — Beatriz passou a mão nos cabelos curtos. — O que você fez no último final de semana?

— Maratona de Harry Potter.

— E no anterior?

— Maratona de Alien — respondeu franzindo a testa, imaginando onde ela queria chegar com aquelas perguntas. — Eu adoro Alien 3, não importa o quanto você fale mal!

— E o antes desse? Maratona de senhor dos anéis? — Bia ergueu as sobrancelhas. — Eu saio com frequência e tudo o que sei é que você está em casa com um cobertor estampado com alienígenas até o pescoço todo santo final de semana!

— Agora ele é de planetas.

— O que você está fazendo com a sua vida, Theo?

— Trabalhando e assistindo filmes. Qual é o problema de fazer coisas que gosto?

— Não é problema nenhum, o problema é… Quer saber? Me empresta seu celular!

— Alguém acordou de mal humor hoje, hein? — rindo, ele entregou o celular imaginando o que viria a seguir. — Não tem problema nenhum em ter somente 7 contatos no meu celular!

— E 3 deles são de fast-food! — ela exclamou, chocada.

— “E você não tem amigos, crushs ou qualquer coisa desse tipo” — disse Theo imitando a voz da amiga. O sino da porta tocou quando um casal começou a entrar. O homem abriu a porta primeiro e esperou até a namorada passar para segui-la. — Bom dia! O que gostariam de pedir?

— Não pense que fugirá dessa conversa — cochichou Bia entre dentes, forçando um sorriso que não parecia nada amigável.

Ignorando, ele continuou observando o casal que olhava o cardápio com grande interesse na parte das bebidas. Era sempre a parte que mais atraia os clientes que não frequentavam muito o lugar ou estavam visitando pela primeira vez.

Havia alguns clientes fixos que estavam por lá quase todos os dias e, por isso, conhecia seus gostos e o que pediam frequentemente. Mas e suas vidas fora dali? Como eram suas casas? Quartos? Trabalhos? Amigos? O que gostavam de fazer em seu tempo livre?

Bia era uma das poucas pessoas que ele conseguia se manter próximo. Não era fácil para ele se aproximar dos outros, nem mesmo estabelecer relações de amizades. Não ser adepto a redes sociais também não ajudava a conhecer outras pessoas.

— Aí, não sei, amor — a voz da garota tentando ser fofa o despertou de seu devaneio. Ela havia abraçado a lateral do corpo do namorado. — Pode escolher!

— Ah, meu amor, mas o que você gostaria mais?

Theo tentou não rir ou olhar para Beatriz. Sabia que ela estaria se contendo para não mostrar uma expressão de repulsa ao comportamento de casal amoroso e fofo, principalmente o papel da “menina indecisa”.

Por fim eles acabaram decidindo pedir por dois cappuccinos e dois brioches.

— Que vida você daria para eles? Acho que daqui a duas semanas ela estará pedindo sete brioches. E seis serão para ela! Detesto casais — disse Beatriz quando se certificou de que não poderia mais ser ouvida.

— Detesta nada! Você sente ciúmes por não poder ficar de casalzinho com alguém — brincou Theo em resposta para provoca-la. Ela o encarou com uma expressão de nojo. — Acho que estão namorando há um mês. Ele quer impressioná-la com programas diferentes e mostrar o lado sensível dele.

— Enquanto ela segura seus costumes estranhos e exagerados em comida para não o assustar pela falta de intimidade. Gosta de mergulhar coxinha no café, sem dúvidas.

— Provavelmente se conheceram na faculdade ou por algum conhecido em comum.

— Acho que aplicativo de relacionamento, onde ela se mostrava amante da natureza e ele um sommelier de filmes antigos.

— Não é um casal gay. Eles são héteros.

— Que preconceito! Casais gays podem se conhecer de outras maneiras também.

— Podem, mas não quer dizer que se conhecem. Grande parte dos que conheci foram assim.

— Ah, claro! E quantos você conheceu? — ela colocou um sorriso zombeteiro no rosto e ergueu as sobrancelhas.

— Um — respondeu Theo ligando a máquina de café.


***


Já estava escurecendo lá fora e logo seria o horário para o fechamento. Com a ausência de clientes, começaram a limpar tudo para deixarem preparado para o dia seguinte.

O começo da noite costumava deixar Theo melancólico, pensando na volta para casa. Sempre parecia ser a pior parte para ele, lhe causando uma leve ansiedade. Por isso não tinha qualquer pressa para fazer as coisas e andava tranquilamente pelo caminho de volta, apreciando as paisagens.

O que faria ao chegar? Talvez ficaria em seu quarto, lendo? Ou encontraria algum novo filme em streaming para assistir? Depois de colocar todas as suas séries em dia, estava sem nada para assistir enquanto esperava uma nova temporada. E encontrar algo novo que gostasse e não achasse ruim para dedicar anos assistindo podia ser bastante complicado.

Para a surpresa de todos, o sino da porta soou, mas não era um cliente de última hora procurando algo para comer ou beber. Fernanda era uma mulher bastante simpática e amigável, diferente do dono do café, também conhecido como seu filho. Ele era alguém considerado desagradável pela maioria e que parecia sempre fazer suas próprias vontades, não importava quais fossem. Por isso era mais agradável quando era a mãe quem cuidava dos assuntos do café. Qualquer um sempre preferiria lidar com ela. Theo, por sua vez, não tinha qualquer opinião formada sobre ele.

Mas ainda era uma grande surpresa vê-la naquele dia. Ninguém soube nada sobre o assunto, e parecia que o gerente estava tão surpreso quanto eles. Antes de se afastar da porta, ela virou a placa do café para “fechado”.

— Boa noite! Como vão? — ela perguntou de maneira amigável e com um sorriso um pouco vacilante. Seu rosto parecia mais vermelho, como se tivesse tido alguma explosão de raiva antes. Além de Theo e Beatriz, havia apenas mais 4 funcionários do café que logo se aproximaram. — Podem se sentar? Quero conversar com vocês sobre uma coisa.

Aos poucos, cada um encontrou uma cadeira e se acomodou diante daquela mulher de cabelos bem arrumados e tingidos. Dava para sentir uma aflição pairando no ar, e não era para menos. Uma chegada repentina desse jeito não costumava significar boas notícias.

— Talvez alguns de vocês tenham notado, mas o café… Não anda muito movimentado, não é? Temos tido uma queda frequente de clientes, provavelmente por causa da concorrência. Nos últimos anos, só nessa rua, foram abertas 4 cafeterias. Gostaria de ter um jeito melhor de dizer isso, mas acho que ser direta é a melhor opção. Meu filho resolveu fazer… Cortes.

— E como será? Vamos sortear a demissão? — ouviram Beatriz perguntar. Algumas pessoas olharam feio para ela, mas Fernanda soltou uma breve risada.

— Não, Beatriz. Na verdade… O café vai fechar.

O anúncio repentino pegou todos de surpresa. Enquanto alguns se entreolhavam, como se tentassem entender o que tinham ouvido, Beatriz se segurou para não cair na gargalhada. Theo não soube o que sentir. Há algumas horas estava conversando com a amiga sobre gostar de trabalhar ali… E agora isso não duraria muito tempo. Era um pouco chocante.

— Quando? — ouviu alguém perguntar, mas o garoto não olhou para ver quem era. Continuava focado em um ponto fixo qualquer à sua frente.

— Por motivos que não posso revelar, vão precisar do espaço a partir de sábado. Então vocês continuarão trabalhando aqui até sexta.

Ela continuou falando algumas coisas, como pagar todos os seus direitos e coisas do tipo, mas a mente de Theo já estava longe. Não estava mais conseguindo ouvir qualquer palavra relacionada ao assunto presente. Começou a imaginar sobre unicórnios. O que eles teriam de tão especial? Por que muitas pessoas gostavam dele ou queriam que fossem reais? Sem dúvidas eram bonitos, majestosos, mas não passavam de um cavalo com um chifre, certo? Toupeiras eram animais mais interessantes. Tinham uma aparência peculiar e boas habilidades.

— Ei, Theo? Tá dormindo? — a voz de Bia enquanto ela o sacudia o fez despertar. — Você tá bem?

— Eu? Estou sim — respondeu olhando ao redor. As pessoas haviam se dispersado e voltado às tarefas de fechamento. — Estava só pensando.

— Vai ficar tudo bem, okay?

— Claro, vai sim. Com certeza.

Ele se levantou e voltou para trás do balcão para organizar as últimas coisas que precisava e contar os itens. Uma tarefa que logo não teria mais que desempenhar.


***


O caminho de volta para casa estava sendo silencioso. Da parte de Theo não era nada incomum. Contemplar o silêncio, as paisagens, os desconhecidos vivendo suas vidas… Eram pequenas coisas que ele podia fazer e que lhe tiravam de sua cabeça, principalmente naquele momento.

Tentava evitar pensar no que faria depois que não teria mais seu trabalho. Precisaria procurar por outro… E não queria pensar nos “e se” que surgiam.

Mas toda aquela calma exterior o fez notar como Bia andava excessivamente séria. Sua reação imediata de rir ou brincar com a situação sempre lhe pareceu um mecanismo de defesa para não lidar com o que estava passando no momento. Ficou ainda mais óbvio esse comportamento quando o irmão dela foi embora de casa.

Os dois se conheciam há anos, desde que eram vizinhos quando ainda mal sabiam andar ou falar. Cresceram juntos ouvindo sempre aqueles discursos de que os dois acabariam namorando, porém nenhum dos dois fazia o tipo um do outro. Mas eles se amavam, como se fossem irmãos. O vínculo que criaram ao longo da vida sempre foi muito importante para Theo. A única amizade que ele cultivou e manteve durante todo o seu tempo de vida.

De relance, conseguia ver a expressão contraída de Beatriz. Alguns pensariam que ela estava de mal humor ou com raiva, mas na verdade estava bastante pensativa. Seus olhos não largavam a tela do celular, por isso o amigo precisava conduzi-la pela rua para evitar que batesse em algo ou fosse atropelada.

Ela continuou concentrada até, repentinamente, levantar sua cabeça e encara-lo com uma expressão descontraída.

— Você não tem planos para o fim de semana, não é? — perguntou, mas logo continuou sem esperar uma resposta: — Sábado iremos visitar minha prima e depois vamos até uma comemoração de aniversário. Minha prima está aprendendo a ler cartas e precisa de cobaias.

— Vou ser cobaia para alguém ler o meu futuro? — ele riu da ideia, mas percebeu que Bia falava sério sobre aquilo. — Você acredita nessas coisas?

— Sendo sincera? Algumas sim, outras não. Ivana foi bastante insistente com essa história de ler o futuro e não quero passar por isso sozinha. Agora que estamos desempregados e desamparados, vai que ela enxerga algo de bom para um de nós dois. Não quero correr o risco de ficar sozinha com ela se acabar vendo uma morte agonizante e dolorosa para mim. Com você lá, é cinquenta porcento de chance de algum futuro ser bom.

— Então corremos o risco de ambos termos uma morte terrível e agonizante — Theo riu da ideia enquanto entravam em um parque para atravessa-lo. Sempre achou curiosa aquela mudança repentina de paisagem, com árvores e alguns animais, principalmente gatos, ao invés de prédios e carros. — Melhor aproveitar esses últimos dias de vida que ainda temos.

— Pelo menos a festa depois disso vai ser uma boa maneira de comemorar.

— Não sei se…

— Sim, você vai — ela cortou antes de ouvir qualquer desculpa. — Não vou aceitar qualquer resposta contrária dessa vez. Não acha legal fazermos algo juntos? Como nos velhos tempos?

— Quase não saíamos na época da escola. E eu detestava quando me arrastava até o shopping com aquele seu namorado.

— Quem? O Maicon? Ele não gostava de você porque não sabia que você era gay.

— Ah, mas acho que imaginava. Tentou dar em cima de mim e eu não retribuí. Depois disso começou a me tratar mal, como se estivesse com ciúmes de você comigo.

— Mentira! Sério? Sempre soube que ele estava escondendo alguma coisa de mim — ela riu do pensamento, mas logo voltou sua atenção para o amigo. — Não importa. Vai ser legal fazermos algo juntos que não seja ficar em casa! Eu assisto filmes com você! Por que não podemos fazer algo que eu gosto pelo menos uma vez?

E ali estava. A cara de cachorro abandonado e a chantagem emocional. Theo tentou evitar sorrir, enquanto balançava a cabeça e olhava para outra direção. Dois gatos corriam, um atrás do outro, cruzando os bancos e desaparecendo nas árvores. Ele duvidava muito que fosse ser bom uma festa onde você conhece apenas uma única pessoa, mas honestamente… O que ele tinha a perder? Se não fosse isso, seu sábado se resumiria a ficar trancado dentro de casa pensando sobre muitas coisas. E várias delas ele não queria pensar.

— Sinceramente, hein… Tudo bem. Eu vou.

— Isso! — exclamou Beatriz fazendo uma pequena dança da vitória.

— Você está ridícula dançando assim.

— E você está ridículo ao meu lado. É o que importa.

— Planejou todo esse programa agora? — perguntou Theo.

— Não. Desempregados ou não, esse era nosso plano desde semana passada.