— Não é um encontro — reforçou Theo, dobrando as roupas que havia pegado na casa de seus pais quando seu irmão o avisou que eles haviam saído. Beatriz estava deitada na cama, o encarando com uma expressão de descrença. — Já disse, ele me convidou para sair com ele e alguns amigos.

— Ainda pode ser a desculpa perfeita para um encontro! Você chegaria lá e o perguntaria onde estão os amigos, descobrindo que os mesmos estavam ocupados e precisaram desmarcar — fantasiou a amiga. Quando queria, conseguia criar fanfics bastante elaboradas ou clichês. — Sabe o que vestirá? Provavelmente seu uniforme clássico! O velho jeans, com alguma camisa com estampa relacionada a jogos ou animes.

— Quase isso — respondeu pegando uma camisa preta e jogando na amiga. Havia uma grande espaçonave sendo pilotada por um gato que brilhava no escuro.

— Olha só! Te dei no seu último aniversário!

— Não, foi antes desse. O último você me deu aqueles marcadores de livro em formato de pokémon e uma agenda do ano errado.

— Porque você tinha esquecido em que ano estávamos e achou que estava fazendo 22 anos de novo! Me lembro bem… Me diverti muito vendo a sua cara de confusão…

O rosto de Beatriz exibia o sorriso habitual de divertimento, mas ela estava um pouco pálida. Aparentemente seus enjoos se tratavam de uma intoxicação alimentar depois de ter comido camarão no espeto em uma barraquinha de rua. Deveria ter ficado em casa repousando, mas insistiu em vê-lo quando contou sobre o convite de Ricardo.

Theo abriu o guarda roupa e organizou as roupas da melhor maneira que imaginou: por cores. Não havia muita variação, já que a grande maioria eram pretas ou brancas. Algumas azuis, verdes e marrons estavam no meio, para fingir que ele sabia comprar algo que não fosse daqueles dois tons. A peça mais diferente que tinha era um casaco estilo aviador, com alguns broches exibindo bandeiras e cartões-postais famosos. Havia sido o último presente que ganhara de seu avô.

Tirou o notebook da mochila e o colocou na cômoda de madeira onde estava deixando os livros comprados recentemente. Seus poucos itens pessoais aos poucos iam preenchendo o quarto e, mesmo distante de ser seu, sentia o ambiente mais pessoal.

— Sua avó parece bastante feliz em te ter aqui, não acha? — questionou Beatriz enquanto usava o celular.

— Sim, ela é bem legal. Acabamos tomando café juntos e assistimos às novelas. Às vezes penso que ela deveria se sentir sozinha, sabe? — Theo se sentou no chão, apoiado à cama. — Ela não conseguiu se adaptar ao celular e é difícil conseguir se comunicar com a família. Me sinto mal por não a ter visitado com frequência. Devia ser solitário para ela.

— Pelo menos você está aqui agora.

Ouvir aquelas palavras era reconfortante. Em vários momentos ele olhava para a avó e pensava sobre aquela solidão. Era fácil se sentir sozinho, mesmo próximo de outras pessoas. Acabar isolado dos outros poderia acentuar ainda mais o sentimento. “Pelo menos ela tinha seus amigos”, pensou com um pequeno sorriso. Todos os dias, o grupo da terceira idade se reunia para ficarem conversando, jogando ou fazer absolutamente nada. “Quando ficarmos velhos, Beatriz e eu faremos algo parecido?”, se questionou imaginando a amiga de cabelos pintados de uma cor chamativa mesmo na velhice, repleta de tatuagens que faria ao longo da vida.

— Theo, qual seria o limite para você ficar chateado comigo? Hipoteticamente falando, claro.

— O que você fez?

— Nada! É apenas uma situação hipotética! — retrucou acertando sua cabeça com o travesseiro. — Por que assume que fiz alguma coisa errada?

— Você quem está se entregando com essa pergunta estranha! — respondeu se jogando no chão para fugir do alcance dos ataques. — Se não voltou para seu ex-namorado tóxico ou matou meu irmão, não tenho motivos para ficar chateado.

— Bom saber… — ela se ajeitou na cama, cruzando o braço e reunindo todo o orgulho que sua condição atual permitia. Era difícil ter muito depois de chegar à casa de alguém e já pedir para ir ao banheiro vomitar. — Deve se lembrar de um comentário que fiz sobre a namorada do Ricardo ser uma garota que estudou conosco… E eu acabei falando com ela pelo instagram. Acredita que ela lembra de nós dois? Perguntou se estávamos namorando agora.

— Eu não quero saber onde essa história vai acabar…

— E eu… Comentei sobre algo engraçado que nos aconteceu… Um pequeno acidente com uma bicicleta e que o ciclista parecia o namorado dela… Dá para acreditar na coincidência? Pois Ricardo contou a história do atropelamento e agora descobriu que o felizardo atropelado por aquele homem bonito foi você!

— Por favor, vá embora…

— Você vai realmente ficar careca por acabar com um relacionamento.

Deitado no chão, Theo observou o teto do quarto com grande interesse. Estaria uma aranha fazendo ninho? Dificilmente, depois dele ter se livrado de todas as teias que encontrou pela casa. A cor branca parecia tão… agradável. Poderia lhe trazer paz e tranquilidade, como um monge através de meditação.

Talvez essa fosse a imagem que ele passasse em seu exterior, com aquela expressão serena no rosto. No interior, sentia-se incomodado. Não sabia exatamente o motivo. A amiga não tinha feito nada demais, apenas conversado com uma antiga conhecida de ambos. Ele havia decidido levar a insistência de Beatriz em relação ao “destino” como uma grande brincadeira interna de ambos. Não existia outro jeito de encarar aquilo. Então por que?

— Theo… Fale alguma coisa… Eu não matei seu irmão — Bia estava sentada, empurrando-o com o pé e fazendo caretas para chamar sua atenção. — E voltar a transar com aquele idiota foi apenas uma única recaída, nunca mais aconteceu.

— A história acabou assim?

— Em relação a você, sim. Passamos a maior parte relembrando dos velhos tempos e falando mal dos outros! Até ficamos de nos encontrarmos qualquer dia desses! — os dois permaneceram em silêncio por mais algum tempo, cada um encarando um ponto diferente do quarto. — Desculpe se acha que estou me intrometendo na sua vida. Queria ter certeza sobre a relação deles. Não quero que você acabe mal.

— Obrigado… — Theo fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes, aproveitando o silêncio momentâneo. Não o teria por tanto tempo no dia seguinte. — E não é um encontro.

O dia seguinte chegou antes que se desse conta. Parecia que as horas voaram enquanto os dois amigos conversavam, e não foi diferente depois de Bia ter ido embora durante uma chuva repentina que os pegou de surpresa.

Não havia voltado a chover depois disso, mas o tempo permanecia nublado e as nuvens cinzentas pareciam uma ameaça de chuva iminente. A chuva, porém, não chegou durante toda a manhã.

Theo tomou banho e almoçou. Não sabia ao certo o horário que Ricardo iria buscá-lo. Não existia nada mais vago do que respostas do tipo “depois do almoço”. Seu almoço costumava ser por volta de onze e meia ou meio-dia, mas esperar até depois do almoço podia até mesmo dizer que o buscaria 15h!

Enquanto aguardava, sentou-se à sala junto de sua avó. Ela fazia crochê de maneira habilidosa, enquanto Bigodes observava a linha balançar com grande interesse de avançar contra ela. Para impedi-lo de atrapalhar, o garoto abraçou o gato enquanto continuava a leitura do livro.

Acabou decidindo ler primeiro o primeiro volume da duologia indicada por Edgar. Acabou se surpreendendo com a história se tratar de um romance em duas realidades diferentes. A protagonista estava presa em uma situação bastante desesperadora! Sempre que se deitava para dormir, ela acabava assumindo sua outra vida, onde seu amor ainda estava vivo. Seu desespero para evitar que o trágico acidente se repetisse lhe causava diversas situações complicadas!

Parou de ler apenas quando o celular começou a vibrar com as mensagens de Ricardo avisando que estava saindo de casa. Foi o momento para se trocar e tentar dar um jeito no cabelo rebelde. Tentava arrumá-lo de uma maneira, mas ele insistia em ir por outro caminho. Não demorou muito para desistir da batalha perdida e colocar um boné e resolver o problema.

Sentia-se um pouco nervoso pela ideia de conhecer novas pessoas. Estava acostumado a ter Bia por perto quando se envolvia em uma situação como aquelas, mas sua zona de conforto lhe olhou e disse adeus no momento em que aceitou o convite. Inicialmente recusou, mas Ricardo havia insistido para se desculpar pelo acidente. Theo sabia que era facilmente vencido pelo cansaço, e agora precisava lidar com as consequências disso.

“Pode ser legal”, disse a si mesmo quando o carro parou para que ele pudesse entrar. Theo parou por um instante, vendo que não havia mais ninguém no carro. Relutante acabou sentando no banco da frente. Ricardo estava bonito ao seu lado, com a barba feita e sem o capacete. Usava uma camisa de mangas longas vermelha e quadriculada, uma camisa branca escrito “You Can Do It” por baixo e calças em um tom de verde escuro. Um estilo bastante diferente do que ele poderia imaginar vê-lo usando.

— Pelo menos dessa vez não te atropelei! — disse Ricardo de bom humor.

— Dessa vez eu teria ido para o hospital, sem dúvidas — retrucou Theo, tentando esconder o nervosismo. — Vamos buscar seus amigos?

— Ah, não. Eles nos encontrarão lá! Acho que você irá gostar deles. São meio idiotas, mas legais.

Theo assentiu com a cabeça enquanto o carro partia. Era difícil estar dentro de um carro com um desconhecido sem se sentir minimamente desconfortável. Deveria tentar puxar assunto? Estava tudo bem ficarem em silêncio?

Sua mãe sempre dizia que ele parecia uma criança quando andava de carro, olhando pela janela a paisagem por onde passavam. Não foi diferente. Seus olhos enxergavam prédios, casas, pessoas, e tudo parecia interessante o bastante para dar atenção momentânea antes que sumissem de vista, e isso estava fazendo Ricardo balançar a cabeça e sorrir ocasionalmente.

Apesar disso, o silêncio entre os dois parecia um pouco constrangedor. Ricardo ligou o rádio do carro e algo lento e quase silencioso começou a tocar. Demorou para que Theo percebesse o novo barulho, que logo pareceu tomar coragem e a voz melodiosa em idioma estrangeiro ganhou vida. Ele começou a prestar atenção naquela música, deixando sua cabeça acompanhar, indo timidamente de um lado para o outro.

— Gostou?

— Eu? Ah, é legal — respondeu Theo. A pergunta repentina o fez se sentir um pouco desconcertado. — Tem uma melodia boa.

— Tem sim. É de um cantor tailandês que gosto. Mas vamos lá. Conecte seu celular aí e vamos julgar um pouco o seu gosto musical.

— Não! Definitivamente não.

— Está com medo de que eu descubra seu gosto excêntrico por punk rock vietnamita?

— E isso existe?

— Mas é claro! E você está prestes a me apresentar esse diamante raro.

Theo balançou a cabeça, revirando os olhos e sorrindo. Sentiu-se um pouco constrangido, mas aceitou. Pegou seu celular e o conectou. Abriu seu spotify e olhou algumas músicas, procurando alguma que julgava ser comum. Ricardo pareceu perceber isso ao ver a maneira como ele hesitava em colocar algo para tocar.

— Vamos lá, coloque essa playlist no aleatório. Não precisa ter vergonha.

— Depois não reclame se ouvir algo sertanejo.

— Tudo tem limites. Nesse caso, te jogo para fora do carro.

Ao tocar no ícone, a música começou a tocar. Ricardo serrou os olhos, tentando reconhecer “Fever Dream” de Mxmtoon, riu enquanto tocava “Everything Sucks” de Vaultboy, cantou junto de Queen ao tocar “Somebody to Love” e fez caretas quando ouviu “Soldadinho” de Supercombo. Theo cantou ao ouvir todas. Primeiro de maneira retraída, tímida, mas com o tempo tomou coragem para cantar mais alto e rir das reações do companheiro de passeio.

— Eu esperava ouvir Ariana Grande, e talvez Anitta. Mas estou surpreso — comentou Ricardo enquanto estacionava o carro. Theo não reconheceu o lugar, mas sabia estar próximo da baía de Guanabara. — Você é cheio de surpresas.

— Tento ser, mas ainda está difícil competir com te fazer me atropelar.

— E existe como competir com isso? No máximo se igualar.

Saíram do estacionamento e continuaram caminhando até a entrada de um prédio de arquitetura antiga, porém bem cuidado. Desviaram da fila se formando na entrada lateral e foram até a principal, o que arrancou um grande “uau” de Theo. Era sua primeira vez em um museu e, o pouco que conhecia, tinha visto em reportagens de jornal, mas nada o preparou para aquele momento.

Ficou surpreso com a altura do teto e uma grande escultura de um boneco amarelo pendurado no centro, acima de uma estrutura colorida e cheia de locais posicionados para que pudessem tirar fotos. À sua esquerda, uma loja de produtos artesanais fazia companhia a uma cafeteria, que se estendia até o andar de cima. À sua direita, algumas esculturas que se moviam ou se iluminavam chamavam a atenção do público. Ricardo precisou tirar Theo do caminho das pessoas que tentavam passar, pois ele olhava para tudo àquilo boquiaberto e fascinado.

— Isso é tão… Incrível! — comentou.

— Isso? Sem dúvidas. Mas você ainda não viu metade. Essa é apenas a entrada, ainda tem as exposições nos andares superiores — disse Ricardo apontando para corredores cheios de gente. — Podemos ir dar uma olhada assim que acabar o filme.

— O filme! Nós vamos assistir ele aqui?

— Vamos sim — respondeu verificando seu celular. — Felipe avisou que está chegando… Se incomoda de esperar aqui um instante? Preciso ir ao banheiro. 5 minutos e estou de volta!

Sozinho em meio a vários desconhecidos, Theo concentrou-se na escultura próxima a ele para não ficar nervoso. Girando lentamente, a forma humanoide de cabeça para baixo executava um passo de dança. “Poderia ser um alienígena dançarino”, pensou com grande interesse em entender a criatura cinzenta. Quantas pernas teriam? Era difícil definir. Pareciam ser cinco, mas talvez alguns fossem braços…

Sempre teve um contato bastante distante com arte, mesmo se interessando por pinturas e desenhos. Quando mais novo, tentou pedir para a mãe lhe colocar em um curso, mas não fora possível por conta de Victor. Como irmão mais velho, precisava cuidar dele grande parte de tempo, incluindo levá-lo para o futebol.

— Até quando? — questionou uma voz próxima de seu ouvido, fazendo-o pular de susto. “Não pode ser! De novo não!”, praguejou observando o rosto familiar de Edgar, mas dessa vez estava usando óculos redondos que de alguma forma se encaixavam bem em sua aparência. Pela primeira vez não estava usando roupas sociais! A jaqueta preta em conjunto com a camisa listrada e a calça de moletom o faziam parecer alguém normal. Edgar ergueu as sobrancelhas, seus olhos o analisando de cima a baixo. — Devo pedir uma medida protetiva à polícia?

— Pelo visto, eu cheguei primeiro. Se quiser insinuar que alguém está sendo perseguido, devo dizer que sou eu! O lugar parece grande e você terá a sorte de não me encontrar mais!

— Veio ver a exposição? — Edgar olhou para a escultura que Theo tinha passado um tempo observando. — Quantos órgãos genitais…

— Isso são pernas!

— São tentáculos — retrucou. — No máximo, braços. De qualquer forma, tentáculos servem para muitas coisas.

— E… Eu… — Theo ficou vermelho como um pimentão. Por um instante queria esconder seu rosto de vergonha por ter imaginado ao que ele estava se referindo. Precisava mudar de assunto rápido! — Respondendo sua pergunta: fui convidado por um colega para assistir à um filme com alguns de seus amigos!

— Espera… O que? — Edgar coçou o queixo, onde os pelos da barba recém cortada insistiriam em crescer. — Deixe-me adivinhar: você, em toda a sua disposição para ficar bêbado, foi atropelado por um cara de bicicleta e convidado para ver um filme com ele?

— Como você sabe…?

— Edgar! — um outro rapaz, de cabelos até os ombros, bateu com suas mãos tão fortes em Edgar que acabou o empurrando pra cima de Theo. — Viu o Ricardo por aí? Ele tinha avisado que já chegou.

— Que droga, cara! Quantas vezes falei sobre você fazer isso? — questionou, revidando o empurrão com um soco em seu braço. Imperturbável, o outro rapaz apenas riu e pareceu notar a outra presença.

— Seu amigo? Oi, como é que vai? Com as pernas, claro! Me chamo Felipe — ele estendeu sua mão para um aperto de mão mais forte que o necessário. Sua pele bronzeada lhe dava uma imagem de surfista.

— Amigo meu? Não. Pelo visto, é o amigo que o Ricardo comentou. O alcoólatra.

— Não sou alcoólatra!

— Cachaceiro, então?

— Relaxa, ele gosta de provocar — interveio Felipe, passando o braço por trás do pescoço de Theo e de Edgar, puxando-os para perto dele. — Como é que foi o lance da bicicleta? Doeu?

— Não sei… Acho que estava bêbado demais para sentir algo.

— Igual a mim quando fiz minha primeira tatuagem! Até hoje não sei o que ela deveria significar… Mas quem se importa? E falando no diabo, olha quem tá vindo!

— Pelo visto conheceram o Theo — Ricardo deu um tapa de leve nas costas de Edgar e um aperto de mão em Felipe. — Fazendo as devidas apresentações, Theo, esses são meus amigos, Edgar e Felipe. Minha família e a de Edgar são amigas, e acabei conhecendo Felipe na época da faculdade enquanto ele vendia… Brigadeiros.

— Eles eram dos bons, não é? Faziam um sucesso legal — Felipe assentiu com a cabeça, orgulhoso de si mesmo. — Agora estou num ramo diferente. Tenho uma livraria móvel. Vendo livros em uma kombi, cada dia da semana em um lugar.

— Isso parece legal!

— Não tão legal quanto estar abrindo uma empresa de tecnologia! — Edgar cruzou os braços e o encarou. Parecia uma criança querendo competir para ver quem tinha o brinquedo mais legal. Beatriz uma vez comentara que ele deveria ter sido uma criança bastante mimada. Theo começava a achar o mesmo agora.

— Parece chato — comentou para provocá-lo. Felipe começou a rir e o puxou, dizendo “gostei desse cara”.

— Vamos lá, o filme começa em breve — rindo, Ricardo puxou Edgar para acompanhá-los.

Normalmente, quando se vai assistir algo, sabe-se o que estará assistindo, mas a experiência de Theo naquele dia estava sendo totalmente às cegas. Não sabia para onde iria, com quem iria e nem o que estaria assistindo. “Parece que sou um alvo fácil para sequestro”, pensou quando finalmente refletiu sobre o assunto. Apenas soube qual era o filme depois das luzes se apagarem e as primeiras imagens em preto e branco aparecerem. Podia não saber ler kanji japoneses, mas o rugido não deixou duvidas quanto a se tratar do primeiro filme do Godzilla.

Havia assistido apenas uma vez quando decidiu conhecer mais dos filmes japoneses do monstro, mas assistir naquela grande tela foi uma experiência totalmente diferente e nunca imaginada por ele. Podia ter gostado do filme na época, mas dessa vez o achou ainda mais impressionante! Todas as suas reações eram legítimas, assim como a apreensão em determinadas cenas.

— Então? O que achou? — perguntou Ricardo quando estavam saindo da sala, desviando de retardatários espalhados pelo caminho.

— Foi muito legal! Já tinha assistido uma vez, porém… Nossa! Adorei rever dessa maneira! — disse Theo sem conseguir conter o sorriso no rosto. — Não fazia ideia que algum lugar estava exibindo esse filme!

— Algumas vezes o museu faz mostras de filmes de gêneros específicos, estúdios ou diretores. Dessa vez são filmes de monstros gigantes. Se não me engano, o filme seguinte será o primeiro King Kong.

— Não me obriguem a assistir mais um filme preto e branco… Enxergamos cores para não precisar ver preto e branco — resmungou Edgar fazendo uma careta.

— Ainda tá chateado por causa de Cidadão Kane? — perguntou Felipe, acrescentando para Theo: — Ele odiou o filme e disse que foi o maior desperdício da vida dele.

— Fiquei horas esperando para saber o que diabos Rosebud era para no final… Quero meu tempo de vida de volta!

— E o que era? — questionou Theo.

— Ninguém vai te poupar disso! Se quiser saber, perca duas horas da sua vida em um filme sem peitos! — exclamou Edgar fazendo sinal para os amigos, como se os proibisse de revelar o final do filme.

Passando pela parte principal do museu, subiram para o andar de cima onde ficava a exposição principal. Todas as esculturas eram surreais a sua maneira! Algumas podiam representar humanos deformados, outras pareciam com alienígenas. Existiam partes onde eram apenas objetos posicionados de maneira errada, de cabeça para baixo ou preso no teto.

Felipe tinha uma teoria: os alienígenas estavam tentando repetir comportamentos humanos e aprender conosco. Os objetos estavam com seus usos incorretos para mostrar essa falta de conhecimento, e os de aparência mais humana representavam os mais próximos de atingir o objetivo. Sem dúvidas era uma ideia bastante coerente e, mesmo se não estivesse certa, mostrava uma boa perspectiva.

— E o que você acha? — perguntou depois de terminar sua explicação.

— Eu? Não sei dizer — disse Theo se aproximando do vídeo exibido em um projetor.

— O que imagina quando vê tudo isso? Arte é subjetiva. Mesmo que o artista tenha tido sua visão quanto ao que fez, cada pessoa irá olhar e ver algo próprio — disse Felipe de maneira amigável e dando alguns tapinhas de leve em suas costas.

Dos três, Felipe parecia o mais amigável e aberto a novas pessoas. Seu bom humor e aparência talvez ajudassem os outros a serem mais receptivos a ele. Era uma imagem diferente de Edgar, mais sério e sarcástico. Parecia uma amizade improvável, mas suas personalidades deveriam se equilibrar bem juntos.

— Bem… Vê como eles não tem rostos? Fica difícil enxergar o que podem estar sentindo… E talvez a desordem ao redor represente como eles enxergam o mundo. Pode ser um lugar de cabeça para baixo, quebrado ou aparentemente impossível… — disse de maneira tímida, enquanto o outro assentia para encoraja-lo.

— Diria que os alienígenas são os mais perdidos e deslocados? — questionou Ricardo coçando o queixo. Theo concordou balançando a cabeça. — Interessante.

— Se Freud estivesse aqui, diria que está tudo ligado a sexo — interveio Edgar de braços cruzados. Parecia um pouco irritado, mas talvez fosse apenas sua expressão natural. Era difícil dizer.

Situações sociais podiam ser difíceis e cansativas. O antigo trabalho foi o que lhe fez se obrigar a estar acostumado com essas interações, mas isso nunca deixou de ser complicado para ele. Mesmo conhecendo seu ex-chefe um pouco mais, os três eram desconhecidos para ele. Um desafio bem maior do que perguntar se o pagamento seria no dinheiro ou cartão! Porém estava sendo fácil. A timidez não tornou mais difícil conversar com eles. Ricardo e Felipe faziam parecer que era fácil com suas perguntas relacionadas ao que estavam vendo. Mesmo Edgar, com suas pequenas provocações, não o deixava intimidado. Suas poucas vezes conversando não o deixaram travado e querendo fugir.

Descobriu um pouco mais sobre a livraria móvel e a página no instagram, onde costumava anunciar livros que possuía ou o local que estaria no dia. Eram seis pontos de venda que costumava usar e, quando um deles não se mostrava bom, acabava seguindo e encontrando um novo. Parecia um plano de negócios estranhos, mas sem dúvidas interessante. Um conceito bastante diferente que ele nunca tinha visto pela cidade. Até mesmo concordou em visitá-la para ver algum livro que o interessasse!

Da parte de Ricardo, descobriu que ele trabalhava como psicólogo clínico, mas costumava mentir dizendo ser bioquímico. Era mais fácil sem que as pessoas começassem uma sessão de perguntas sobre se elas tinham bipolaridade, depressão ou TDAH. “Uma vez, em uma festa de família, uma garota queria que eu a diagnosticasse com ansiedade porque ela sentia tremedeiras. Ela costumava beber cinco xícaras de café por dia”, contou. Theo riu imaginando a cena. Muitas pessoas deveriam buscar confirmação para seus autodiagnósticos ou alguém com quem desabafar.

Além da exposição principal, haviam outras duas: uma sobre a vida de um artista que ele não conhecia e uma sobre tesouros peruanos. Infelizmente as filas já haviam crescido o suficiente para deixá-los presos por horas! Lá fora ainda estava claro, mas em breve deveria começar a escurecer antes que percebessem.

— Foi mal, galera, mas preciso ir. Fiquei de olhar minha sobrinha pra minha irmã sair hoje — anunciou Felipe.

— Ei, Theo, tudo bem se o Edgar te levar para casa?

— Não deveria me perguntar primeiro?

— O Felipe fica no meu caminho — continuou Ricardo, ignorando totalmente o amigo. — Se não tiver gostado dele, tudo bem. Posso te levar.

— Não, acho que tudo bem — disse Theo. Imaginava que seria desconfortável, mas não queria incomodar mais do que o necessário. — Ele é meio chato, mas parece tranquilo.

— Eu ouvi isso…

— Valeu, amiguinho. Vê se aparece mais vezes, hein — disse Felipe apertando sua mão com firmeza. — Foi bom te conhecer!

— Digo o mesmo!

— Obrigado por ter vindo, Theo. Foi bom mesmo te ter por perto.

Ricardo deu dois tapinhas de leve em sua cabeça, antes de se virar e se afastar junto de Felipe, deixando-os sozinhos em silêncio. Não dava para saber o que se passava na cabeça de Edgar quando ele ficava tão silencioso. De alguma maneira, ele parecia mais quieto quando estava na presença dos amigos.

— Preciso fazer uma coisa antes de te levar para casa — disse de modo autoritário. “Não tenho muita opção, já que é minha carona”, pensou dando de ombros. — Vê se fica perto. É baixo demais, capaz de ser arrastado e eu o perca de vista.

— Devo ser no máximo vinte centímetros mais baixo que você! — protestou Theo cruzando os braços e o seguindo até o café que ficava na entrada.

— E acha isso pouca coisa?

A moça na entrada os recebeu com bastante simpatia, levando até uma mesa para duas pessoas. Preferia não sentar diretamente de frente para Edgar, mas não teve opção. Sentou-se e logo desviou o olhar, como se encontrasse algo interessante nas decorações de parede.

— O que vai querer? — perguntou Edgar sem retirar seus olhos do cardápio.

— Nada — respondeu, ainda sem olhá-lo. Balançava a cabeça de um lado para outro, seguindo o ritmo de uma música inexistente.

— Finja que me sinto culpado e essa é minha compensação por ter tirado seu emprego.

— Sendo assim, vou pedir o mais caro.

— Engraçadinho — ele fez um careta, debochando. — Saio sem pagar e deixo você sozinho.

Ao pegar o cardápio, viu uma grande variação de cafés e algumas tortas ou opções salgadas. Theo decidiu por um expresso e um brioche de frango, enquanto Edgar optou por chá gelado e uma torta de limão que parecia muito apetitosa. O chá gelado era a parte estranha ali. Nunca havia experimentado ou visto alguém bebendo. Nem mesmo conseguia imaginar que justamente ele gostava da bebida. Mas guardou os pensamentos para si. Ambos fizeram suas refeições em silêncio.

Quando terminaram, o acompanhou para a loja ao lado. Haviam muitos enfeites, alguns que sua avó iria adorar. Ficou interessado principalmente nas estátuas de gatos persas e nos pequenos vasos de planta. Um deles era humanoide e as plantas ficavam em sua cabeça, como se as ideias estivessem crescendo e florindo. Era um conceito bastante divertido! Outro que adorou tinha um rosto de um sapo fofo pintado.

— É para sua mãe? — Theo perguntou quando viu Edgar observando algumas esculturas de animais em cerâmica. Uma delas era um boi verde, outra uma capivara.

— Algo assim… Mas vamos. Ela não iria gostar de nenhuma.

Chegando à entrada, podia-se sentir o frio que o vento carregava, assim como a chuva que começara. Se tivessem saído mais cedo, a teriam evitado totalmente. Mas isso parecia não abalar seu ex-chefe, que continuava sério e observador.

— Melhor esperarmos a chuva diminuir? — perguntou Theo para quebrar o silêncio.

— O carro não está longe. Dá para alcançar sem muitos problemas… — retrucou, balançando a cabeça. Parecia mais estar pensando alto e não falando com ele. — Você é bom em correr?

— Não muito.

— Vamos, deixa de ser mole. Apostamos uma corrida até o carro! Se você perder, terá que voltar a pé.

— Eu nem mesmo sei qual é o seu carro ou onde está! Como eu iria ganhar?

— Exato! Não iria — ele deu um longo passo para a frente, fazendo uma careta quando os pingos de chuva começaram a atingi-lo. — O que está esperando? Vamos logo!

Theo hesitou. Observar aquele homem parado debaixo da chuva com aquela expressão lhe dava vontade de rir, mas não de acompanha-lo. Cada segundo que continuava parado, era um segundo a mais para Edgar estar debaixo de chuva. Isso deve tê-lo deixado impaciente, pois agarrou seu pulso e o puxou. O vento estava frio e as gotas de água acompanhavam a temperatura. Dava para entender bem a careta, pois agora ele também fazia uma enquanto era puxado para uma corrida até um estacionamento ao lado. Não demorou muito para conseguirem chegar ao carro, mas foi o suficiente para deixá-los molhados.

— Droga de chuva… — Edgar resmungou quando abriu a porta para que eles entrassem. — Agora… Cadê…?

Ele alcançou uma bolsa no banco de trás e de lá tirou uma toalha para se enxugar, ou, pelo menos, tentar ficar o mais seco possível. Theo se amaldiçoou por não ter decidido colocar um casaco. Agora estava molhado e com frio, tremendo levemente e esfregando seus braços em uma fraca tentativa de se aquecer.

— Aqui… Tire essa camisa também — disse naquele seu tom de ordem, entregando-lhe a toalha. — Tire a camisa, eu falei.

— Já estou com frio o suficiente para ficar sem camisa! — retrucou Theo.

— Só faz o que eu mandei — da bolsa, ele tirou um suéter. — Vou te emprestar isso. Vai ser mais quente do que uma camisa molhada.

Um pouco sem jeito, Theo concordou e obedeceu. Era desconfortável tirar a camisa na frente de outras pessoas, ainda mais em uma situação daquelas, onde estavam apenas os dois em um carro. Se alguém lhe dissesse que estaria em uma situação daquelas, ele teria rido e dito que a pessoa estava louca!

— Obrigado — Sua pele recebeu muito bem o suéter. Era quente o bastante para fazê-lo querer se aconchegar como se estivesse embaixo do edredom em um dia frio! Aproveitou o momento para tentar arrumar um pouco de seu cabelo, já que até o boné encontrava-se molhado e fora de condições de uso.

— Era o mínimo que podia fazer depois de colocá-lo nessa situação.

— E por ter tirado meu emprego… — acrescentou em uma tentativa de quebrar o gelo que parecia pairar entre eles. Pareceu funcionar por um instante, pois ele fechou os olhos e mordeu o lábio para não rir. — Tudo isso para investir em uma empresa de tecnologia…

— Tecnologia é o futuro. Você ainda irá agradecer por isso — disse dando uma piscadela. — Agora… Onde você mora?

Não foi difícil explicar. Os dois haviam se encontrado bem próximo do lugar quando Theo resolveu sair da casa de seus pais e Edgar parecia conhecer, pois nem precisou buscar o endereço pelo GPS.

Durante a viagem, os dois continuaram em silêncio. Provavelmente estavam cansados o suficiente e queriam descansar. Não era difícil notar seu próprio esgotamento e a vontade de ficar apenas quieto em um canto. A viagem poderia ter sido estranha por isso, mas parecia que estava agradável daquela maneira para ambos.

O carro reduziu velocidade para estacionar bem em frente à casa de sua avó. Theo sentia que deveria dizer alguma coisa, mas não sabia exatamente o que falar ou como seria recebido. As manias de provocação de seu ex-chefe pareciam fazê-lo sempre tentar revidar com alguma gracinha, mesmo as coisas mais simples. E ficar quieto, pensativo, em um carro parado, não parecia a melhor das respostas.

— Está entregue — anunciou Edgar com um gesto dramático. — É nesse momento que você desce.

— É… — Theo levou sua mão até a porta do carro, mas hesitou. Respirou fundo e voltou seu rosto para a direção do outro. — Muito obrigado por ter me trazido. E também pelo suéter emprestado. Foi muito legal da sua parte.

— Valeu… — disse lentamente. Parecia sem saber como agir tanto quanto ele. — Ah, antes que eu esqueça! Obrigado pela dica de presente naquele dia. A criança adorou e parece que foi o que mais gostou.

— Que bom que pude ajudar.

— Hoje foi legal.

— Foi sim. Boa noite!

Theo desceu do carro sem esperar uma resposta. Cruzou rapidamente o pequeno portão e subiu os degraus da escada com agilidade. Entrou em casa soltando um longo suspiro de satisfação. Havia sido um dia bom! Ele não esperava o resultado, por isso ficou feliz de obtê-lo. Não que esperasse o pior! Longe disso. Não sabia como seria e estivera nervoso com a incerteza. Por isso era bom ter um dia positivo.

Quando olhou para o sofá, sua avó estava ao lado de uma Beatriz visivelmente alterada. Os olhos vermelhos eram um bom indicativo de que havia passado um bom tempo chorando. Isso tirou a felicidade que ele sentia, dando lugar a preocupação. Desviou de Bigodes para não o pisotear, quase derrubando uma mesa com um porta-retrato, e chegou colocando as mãos nos ombros da amiga, encarando-a.

— Eu farei um chá… — disse a avó, indo para a cozinha.

— O que aconteceu, Bia? — perguntou. Não sabia como as palavras estavam saindo de sua boca. Sentia seu queixo tremer levemente.

— Ah… Theo…

As lágrimas começaram a descer pelo rosto dela. A cena fez o coração de Theo se apertar com tanta força que iria explodir. Seu único instinto foi abraçá-la com força, como se pudesse protegê-la de qualquer problema que o mundo estava lhe trazendo. Só a vira chorar daquela maneira duas vezes: em uma festa da escola do dia dos pais, e quando seu irmão desapareceu.


— Theo… — ela tentava dizer entre lágrimas. — Eu… Eu acho que estou grávida.