Broken Wing - Aprendendo A Voar
44 Capítulo 44 - Separados e Juntos
Notas iniciais
Mas a parte mais difícil começaria agora: a espera interminável por uma chance de finalmente poderem se sentir seguros para saírem e trilharem o próprio caminho. E eu sentia que muita coisa iria acontecer antes que eles pudessem fazer isso.
Ino’s POV
Gaara estava aqui comigo. Ele finalmente estava aqui comigo. Depois de tanto tempo sem nos vermos, depois de todas as dificuldades, todas as mentiras, todos os sufocos e choradeiras, finalmente estávamos juntos novamente. Alívio e alegria não eram palavras boas o suficiente para expressar meus sentimentos naquela hora. O que eu sentia parecia ser muito mais feroz. Gaara estava comigo. E ficaríamos juntos para sempre, da forma correta, sem encontros às escondidas, sem Tsunade para me impedir ou para ordenar um aborto. Ficaríamos juntos e seríamos felizes, como todas as outras pessoas.
Esse último mês pareceu um pesadelo infinito. Gaara e eu mentimos para as pessoas que amávamos para que isso desse certo. Em outras circunstâncias, poderíamos ter compartilhado isso com nossos amigos, mas nem eu nem ele tínhamos passados normais. Depois de decidirmos fugir e de Sasuke concordar em nos ajudar, começamos a colocar o plano em prática. Gaara me disse que precisaria fazer uma viagem com seu pai, Kankuro e mais alguns parentes ao País do Ferro, e lá ficariam por algum tempo. Aproveitamos essa viagem com testemunhas para planejarmos as datas. Se eu fugisse para a casa de Sasuke antes dele, ninguém na Base das Wings teria como adivinhar que havíamos ido juntos. Por isso Gaara fez questão de mandar cartas a Temari todos os dias de sua viagem. Imagino que ele deve ter se sentido muito mal por tê-la enganado daquele jeito, mas se realmente quiséssemos ficar juntos, precisaríamos abrir mão de tudo de nossas vidas até então. Enquanto eu me abrigava na casa de Sasuke, Gaara continuava em sua viagem, e logo depois de voltar para sua casa, no País do Vento, pediu permissão aos pais para viajar em visita a alguns amigos do interior. Obviamente, essa viagem era forjada. Gaara desapareceria por completo de sua casa. Sabíamos que ele logo seria dado como uma pessoa desaparecida, e logo sua foto estaria nos noticiários de todo o mundo, afinal, ele era o filho do Senhor Feudal do País do Vento, e o Senhor Feudal era a máxima autoridade dentro de cada país em nosso mundo. Ficaríamos escondidos pelo tempo que fosse necessário. Deixaríamos as pessoas nos procurando até se cansarem, e quando isso acontecesse, trilharíamos nosso próprio caminho. Seria difícil e poderíamos ser descobertos, mas precisávamos arriscar.
E nada disso teria sido possível sem Sasuke. Deveria estar sendo muito difícil a ele, abrigar duas pessoas fugitivas em uma casa onde ele morava sozinho com suas próprias preocupações e problemas. Deveria estar sendo mais difícil ainda me ver ali; eu era a melhor amiga de Sakura, a pessoa que havia virado o mundo dele de cabeça para baixo. Eu sei que esses dois se gostam, mas também sei que eles são teimosos e orgulhosos demais para ceder ao outro, e enfrentam muitos conflitos internos em relação ao que sentem. Não tenho mais o direito de dizer a eles para se afastarem, e não tenho coragem de incentivá-los a investir
nesses sentimentos. Eu investi nos meus e agora estou aqui, uma fugitiva Shakesperiana, pronta para tirar a vida com o amante se algo der errado. Eu não suportaria ver Sakura sofrendo com Sasuke da mesma forma que sofro com Gaara. Só espero que eles possam ser mais espertos do que nós e encontrem alívio e segurança de formas que não envolvam medidas tão drásticas como a que fui obrigada a tomar.
Sakura é muito forte, mas também é extremamente quebrável. E Sasuke... gosta mais dela do que deveria. Só rezo para que eles consigam encontrar um caminho melhor do que o meu.
****
Sasuke’s POV
Depois do afetuoso cumprimento, Gaara seguiu em minha direção e se curvou profundamente, me cumprimentando também.
– Muito obrigado, Uchiha. Sei que não nos conhecemos oficialmente, mas nunca me esquecerei da sua ajuda. – era estranho ver uma pessoa que eu mal conhecia me agradecendo. Eu simplesmente não sabia o que dizer, e já estava desconfortável com essas duas pessoas se escondendo na minha casa.
– Sem problemas. Ino pode mostrar o quarto de hóspedes e o banheiro, fiquem à vontade. Só... tentem não fazer muito barulho ou sei lá... – certo, eu estava extremamente desconfortável com aquela situação. Pedir a eles para ficarem quietos durante suas trocas afetivas era vergonhoso além da conta.
– Do que está falando, Sasuke? Seremos tão discretos que irá se esquecer de que estamos aqui! – Ino foi ao lado de Gaara, me olhando com a expressão mais feliz que já havia visto nela. – Para compensar o tempo que ficaremos aqui, vamos te ajudar com a ordem da casa, certo? Como eu sei que você trabalha demais, pode deixar que eu e Gaara cuidamos da comida e da limpeza...
– Ah, realmente não precisa, Ino.
– Eu insisto! Vamos agir como dois duendes que fazem o serviço durante a noite e desaparecem durante o dia. Vai até parecer magia. Se bem que não vamos cozinhar nem limpar durante a noite, mas você entendeu a metáfora.
Antes que eu pudesse responder, Ino virou-se para Gaara e abriu-lhe o sorriso mais feliz do mundo.
– Você deve estar cansado da viagem. Tem janta pronta na cozinha, que tal?
– Acho que vou aceitar, com toda sua licença e respeito, Uchiha. – o ruivo virou-se para mim, ansioso.
– Sinta-se em casa. Se precisarem de algo, é só chamar.
Dizendo isso, deixe-os sozinhos e fui em direção ao escritório terminar o trabalho do dia. Tentei me concentrar em todos os relatórios e contas, mas sem sucesso. Meus pensamentos oscilavam entre Ino e Sakura. Com a loira, eu estava preocupado com a possibilidade de ambos serem encontrados, e as consequências disso tanto para eles como para mim. Já com Sakura... pensar nela constantemente não era nada estranho para mim há um bom tempo, mas agora parecia estar pior. Como ela estava se sentindo em relação à fuga inesperada da amiga? Será que estava triste? Apoiaria Ino em sua escolha? Ou sairia como uma louca tentando encontra-la? Visto que Sakura já tinha tentado fugir por si própria, não era provável que tentasse atrapalhar Ino. Mas e se ela usasse isso como incentivo e resolvesse fugir também? Por enquanto, eu sabia onde encontra-la. Não foi isso o que ela me disse naquela vez? “Enquanto você puder me encontrar, vai ficar tudo bem”. Se ela fugir, isso deixará de ser verdade. Eu não poderei encontra-la e nada ficará bem.
Pensar assim só aumentava minha ansiedade. Se eu ao menos pudesse falar com ela, talvez ficasse mais tranquilo. Mas já não nos falávamos há mais de um mês. Da última vez que ficamos um tempo separados, ela voltou me tratando como uma pessoa desprezível, recusando-se a dizer meu nome e mais um monte de coisas estúpidas, e só eu sei o sufoco que passei tentando fazê-la me tratar como alguém normal de novo. Eu não sabia qual seria sua reação se eu a contatasse agora. Porque afinal, eu não tinha um motivo concreto para querer falar com ela; não estava precisando de nenhum serviço das Wings e não é como se fôssemos melhores amigos para eu ligar a hora que bem entendesse. E uma mera desculpa como “só liguei porque queria te ver” nunca funcionaria com Sakura. Aquela rosada teimosa provavelmente soltaria um risinho sarcástico e desligaria na minha cara, falando algum insulto como “Isso é problema seu, Uchiha”. Outro problema em querer falar com ela, é que Sakura era muito perceptiva. Ela poderia conectar minha ligação ao desaparecimento de Ino, e eu não queria trazer problemas à loira.
Então o que eu estava fazendo nesse exato momento era engolir minha ansiedade enquanto esperava pelo melhor. Durante o dia não era tão ruim, porque eu tinha meu pai e a empresa para me preocupar, além dos negócios da boate Into the Groove. Mas durante a noite, quando eu chegava em casa e via Ino ali, automaticamente me lembrava de Sakura. Merda, por que era tão difícil eu me comunicar com aquela mulher? Muitos desses empecilhos estavam sendo criados por minha própria mente, não duvido disso; mas os humanos, em sua maioria, são escravos da mente, mais do que do corpo. Por isso não consegui tomar a atitude de pegar o telefone até agora.
****
Sakura’s POV – Três semanas depois – Fim de setembro
Considerando o que acontecera no último mês, a base das Wings estava mais quieta do que se esperava. Não sei como Tsunade agiu quando eu fugi, mas ela agora estava bem reservada quanto ao plano de captura de Ino. Wings mais velhas fofocavam sobre como ela se trancava na Sala de Operações Urgentes todos os dias com o time escolhido a dedo por ela e Shikamaru, e não saía de lá até a noite. Isso era péssimo, porque assim eu não conseguia obter nenhuma informação sobre o progresso dela. Talvez já tivessem descoberto alguma coisa e estavam prestes a agir, e se esse fosse o caso, eu precisava intervir o mais rápido possível. A única forma que encontrei foi, de alguma forma, convencendo Tsunade a me deixar entrar no time também.
Roendo as unhas, esperei em frente à sala de Tsunade por seu retorno. Eu nem sabia se ela voltaria ou se iria direto aos seus aposentos particulares, mas resolvi esperar. Se eu ao menos conseguisse pegá-la cansada, talvez ela concordasse com minha ideia só para se ver livre de mim. Esse pensamento era tão improvável que eu até comecei a nutrir uma estranha esperança em relação a ele.
Depois do que pareceu uma eternidade, Tsunade apareceu no fim do corredor, carregando várias pastas e documentos e parecendo extremamente cansada, como eu esperava. Vendo-me ao lado de sua sala, fixou seu olhar em mim, e ao se aproximar, seus olhos se estreitaram, como se suspeitassem de meu plano.
– Algum problema, Sakura?
– Ah, eu... só queria falar com você, Tsunade-sama.
– Não podemos deixar isso para amanhã? Eu quero muito tomar um copo de sakê e ir para a cama. – Tsunade destrancou sua sala, entrando para guardar o que carregava. Entrei junto.
– Pensei que iria discutir o plano de resgate com Shikamaru e o time de Wings o dia todo amanhã. – tentei não soar muito intrometida.
– E vou. Mas para falar a verdade, esse assunto tem me estressado tanto que ultimamente tenho procurado formas de escapar dessas reuniões. Qual assunto pretende tratar comigo? – Tsunade guardou os arquivos em uma gaveta da escrivaninha e trancou essa gaveta também, olhando para mim em seguida.
– Na verdade, tem a ver com Ino também...
Tsunade suspirou longamente, fechando os olhos e ficando um minuto em silêncio.
– Venha até minha sala amanhã às 14h então. Veremos o que você tem a dizer sobre sua amiga.
– Obrigada, Tsunade-sama. Boa noite.
– Boa noite, Sakura.
Bom, ela havia concordado em falar comigo, isso já era um começo. Se eu conseguisse usar as palavras certas, talvez Tsunade concordasse em pelo menos me deixar a par da situação.
Indo até meu quarto, passei por vários grupos de Wings. Algumas treinavam, outras simplesmente conversavam e riam. Olhei para todos esses grupos e senti meu rosto exibir uma expressão triste. Eu queria voltar à época quando tudo era mais fácil. Quando Ino ainda estava bem, quando eu gostava de ficar aqui e não tinha conhecido Sasuke.
Sasuke... dizer que não sinto falta dele é mentira. E ultimamente, venho me sentindo muito sozinha. Com Ino longe de mim, realmente sinto essa solidão apertada e tenho vontade de chorar. Odeio chorar. Odeio mesmo. Não passa de uma reação física desnecessária, servindo somente para exibir minhas fraquezas. Não gosto de chorar nem quando estou sozinha. É simplesmente desnecessário, vergonhoso. Parece que perco o controle sobre mim mesma a partir do momento em que permito às lágrimas escorrerem por meu rosto.
Eu realmente torcia pelo sucesso de Ino, mas ao mesmo tempo queria que ela estivesse aqui comigo. Com quem mais eu poderia desabafar sobre Sasuke? Já faz quase dois meses que não o vejo, e cada dia fica mais difícil não pensar nele, não querer tocá-lo, não querer lembrar seu sorriso. Incrível como uma criatura tão irritante consiga exercer esse poder estranho em mim. E o pior é que quanto mais penso nele, mais triste fico. Isso porque pensar nele me faz perceber que não posso tê-lo por completo. Ficar sozinha quando se tem alguém é muito mais solitário do que estar sozinha desde o começo.
Entrando em meu quarto, tomo um demorado banho quente, até me sentir tonta com o vapor de água, e instintivamente visto a camiseta azul marinha do moreno. Não importa quantas vezes eu a use, quantas vezes a lave, ela nunca perde o cheiro dele. Eu deveria queimar esse pedaço de pano. Essa é somente outra lembrança de que não posso tê-lo. Não que eu o ame ou qualquer coisa ridícula assim, mas sinto falta dele. As marcas que ele deixou em mim acabaram ficando mais profundas do que esperei. E agora está cada vez mais difícil passar o dia sem pensar nele.
Jogada na cama com um pacote de pipoca no colo, passei pelos canais da pequena TV em meu quarto. Provavelmente eu só veria o jornal e depois a novela cujos personagens eu não conseguia lembrar o nome. “Boa noite”, veio a voz do apresentador, e “Boa noite” eu respondi. Talvez somente pela ilusão de ter conversado com alguém. Quando foi que me tornei tão decadente?
As notícias foram as mesmas tragédias de sempre. Eu já estava quase dormindo em cima da pipoca quando a voz do apresentador me despertou com palavras curiosas.
“E agora, notícias diretamente do País do Vento. Nessa última sexta-feira, o Senhor Feudal do País do Vento, Rasa no Sabaku, reportou o desaparecimento de seu segundo filho, Gaara no Sabaku. Segundo ele, o garoto, de 22 anos, saiu em uma viagem para visitar alguns amigos há três semanas e não voltou. Entrevistas com tais amigos relatam que eles disseram ter recebido de Gaara mensagens sobre sua visita, mas este nunca chegou ao seu destino...”
Arregalei imediatamente os olhos ao ouvir aquilo. Gaara, desaparecido? Na última vez que ouvi de Temari, ele estava em uma viagem com a família no País do Ferro. Para falar a verdade, Ino e Sasuke estavam ocupando tanto minha mente, que até me esqueci da existência de outro termo nessa complicada equação. Quando Ino desapareceu, Gaara de fato estava no País do Ferro, pois enviava cartas à Temari todos os dias. Isso até me deixou preocupada em relação à saúde mental de Ino, apesar de ainda haver a voz em minha cabeça dizendo que eles haviam planejado tudo. E o que eu estava ouvindo agora parecia concordar com essa última teoria. Talvez eles tivessem planejado uma fuga dessincronizada para que eu e as meninas não conectássemos seus desaparecimentos. Isso já se apresentara a mim como uma possibilidade, mas agora parecia mais uma certeza. Então se Gaara já era considerado um desaparecido, significa que agora ele e Ino finalmente estavam juntos? Se sim, então eles poderiam continuar a fuga e irem para bem longe, para nunca mais serem encontrados. Pensar nisso me fez torcer para ser verdade, mas eu não tinha como confirmar.
Voltei minha atenção à notícia, que mostrou os tais amigos falando com câmeras sobre como haviam esperado por Gaara e este nunca havia chegado, assim como seus pais pedindo ajuda da população e das autoridades para encontrarem seu filho. Imaginei que essa notícia seria o destaque da próxima semana, e me perguntei qual seria a reação das meninas. Cinco minutos depois, ouvi uma forte batida na porta.
– Sakura! Sakura, você está aí? – era Temari. Ela deveria ter visto a notícia também. Respirei fundo, prometendo a mim mesma não revelar qualquer merda por acidente.
– Tema, acalme-se. – abri a porta e Temari invadiu meu quarto, com TenTen e Hinata logo atrás.
– Você viu o noticiário? – ela estava prestes a chorar. TenTen e Hinata entraram tímidas.
– Sim. Mas não sabemos o que realmente aconteceu...
– Faz três semanas que ele não me manda uma carta! – Temari me cortou, sem se importar em falar baixo ou esconder sua frustração – A última notícia que tive dele foi quando ele me informou que faria essa viagem e ficaria longe por alguns dias... mas se ele nem chegou ao seu destino... ele já deveria ter chegado, não é? Esses amigos não moram tão longe da capital do país, ele já deveria ter chegado lá...
– Acho melhor você beber um pouco de água, Tema, vou pegar para você. – TenTen foi até o bebedouro do corredor e encheu um copo para Temari, enquanto eu e Hinata a fazíamos sentar na cama e tentávamos acalmá-la.
– Se ele não deu notícias até agora nem aos amigos nem aos pais, significa que algo aconteceu!
– Não sabemos disso ainda...
– Sakura, não tente me consolar com otimismo forçado. Admita que essa situação é estranha e suspeita! – Temari me encarava com os olhos cheios de lágrimas. TenTen voltou com a água, e ela aceitou de bom grado.
– Sabemos que é uma situação inesperada e difícil, Tema. – Hinata esfregava os braços da loira e usava seu tom mais gentil possível – Mas agora precisamos nos acalmar. A polícia já está procurando-o, as notícias correrão por todo o continente, e como todos conhecem e respeitam o Senhor Feudal, ajudarão a encontra-lo.
– Mas e se for tarde, Hina? – agora as lágrimas escorriam livremente pelo rosto de Temari – E se ele tiver sofrido algum acidente, se foi atacado por um grupo de ladrões, se foi sequestrado? No País do Vento, todos o conhecem, não seria estranho se quisessem se aproveitar da fama e fortuna da família ou quisessem usá-lo para se vingar por algum conflito que tenham com o nome da família! A uma hora dessas, Gaara pode estar pedindo por socorro, pode estar perdido, sofrendo... e eu aqui, sem poder ajuda-lo!
Eu queria dizer “Talvez ele esteja melhor do que você pensa, viajando para algum lugar paradisíaco com Ino depois de ter enganado um país inteiro”, mas obviamente, fiquei de boca fechada. Tudo o que me comprometi a fazer nesse momento foi consolar Temari e suas teorias pessimistas sobre o destino de seu meio-irmão, enquanto torcia para que ele e Ino realmente estivessem juntos e bem longe daqui. E claro, esperava que elas nunca suspeitassem que os dois estivessem juntos, mas conhecendo a perspicácia de Hinata, a curiosidade de TenTen e o desespero de Temari, acho que não demoraria muito para essa teoria também se formar na mente delas. O problema seria se alguma delas resolvesse compartilhar essa teoria com Tsunade.
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Sasuke’s POV
Acho que engordei uns dois quilos nessas últimas semanas. Eu precisava avisar Ino que no momento havia três pessoas na casa, não dez. Ela cozinhava sem parar, e sempre pratos diferentes com tanto valor nutricional que tive receio de acabar com, sei lá, uma hipervitaminose. Isso com certeza se devia à presença de Gaara ali. Ela parecia estar feliz além da conta de poder passar seus dias com ele, mesmo que escondidos. E como a Ino que eu conhecia era hiperativa e odiava ficar dentro de casa, acho que ela descontava sua frustração na culinária. Como resultado disso, sempre tinha muita coisa para comer, e obviamente, eu nunca negaria comida boa.
De sua parte, Gaara não falava muito comigo. Assim como eu, ele também parecia desconfortável em ter que ficar ali, mas eu tinha certeza de que ele não se arrependia de estar fazendo esse sacrifício por Ino. Nas poucas vezes que os ouvi conversando (sem querer), eles faziam promessas um ao outro sobre serem felizes depois de tudo isso acabar. Em todas essas vezes, eu tentava ignorar os estranhos sentimentos que me dominavam, sempre acompanhados com a imagem de Sakura.
A presença deles em minha casa variava muito. Ás vezes nem pareciam estar ali, mas já havia passado por momentos em que visitas quase os flagravam em algum cômodo, ou como na vez quando Ino derrubou o abajur e meu pai pensou que houvesse um ladrão em casa. Até agora havíamos escapado por pouco, mas eu ainda temia que Tsunade viesse com seu exército para cá e estragasse tudo. Enquanto isso não acontecia, Ino continuava cozinhando e eu e Gaara continuávamos engordando. Também pegamos o costume de jantar juntos sempre que eu chegava em casa cedo, e deixávamos a TV ligada apenas como barulho de fundo. Nessa noite, Ino havia feito teriyaki de frango com arroz temperado.
– E como está seu irmão, Sasuke? O casamento dele foi muito bonito. – Ino sempre tentava puxar conversas leves. Ela me disse mais de uma vez que se preocupava com meu excesso de trabalho, e segundo ela, até Gaara havia comentado que me achara um “workaholic”. Não, por favor, tudo menos esse termo.
– Está bem. Já voltou da lua de mel, mas continua chato como sempre. Ele e Konan vão ter um menino.
– Ah, é? Que bom. – certo, no momento em que aquelas palavras saíram de minha boca, eu me arrependi. Deveria ter me lembrado de que Ino recentemente havia perdido seu próprio bebê. Eu não sabia exatamente os detalhes, mas não precisei ouvir sua resposta seca para perceber quão arrasada ela se sentia.
– Desculpe. – juntei coragem para me desculpar baixinho, abaixando a cabeça e voltando a saborear a comida.
– Tudo bem. Desejo a eles felicidade. – ela exibiu um pequeno sorriso e por um momento, só se ouvia o som dos talheres e o noticiário ao fundo.
“E agora, notícias diretamente do País do Vento. Nessa última sexta-feira, o Senhor Feudal do País do Vento, Rasa no Sabaku, reportou o desaparecimento de seu segundo filho, Gaara no Sabaku...”
Todos olhamos imediatamente para a TV, e Ino pegou o controle e aumentou o volume. Então finalmente haviam considerado Gaara como uma pessoa desaparecida. Bem, sabíamos que isso aconteceria cedo ou tarde, mas também significava que precisávamos ser mais cautelosos do que nunca.
– Acha que irão ligar nossos desaparecimentos? – ouvi Gaara dizendo com uma voz incerta. Ino voltou a olhar para o prato, mordendo o polegar.
– Com certeza Sakura irá perceber. Eu deixei a ela uma carta avisando sobre nossa fuga. Mas só a ela, não se preocupe. Eu sei que ela nunca faria nada para nos prejudicar, e até poderia agir dentro da Organização para dificultar a vida de Tsunade. O problema será se as outras meninas perceberem, principalmente sua irmã. – Ino o olhou com um rosto preocupado.
– Ela deve estar surtando agora. – Gaara tentou soltar uma risada curta, mas saiu falha.
– Ela nunca apoiou nosso relacionamento. Eu entendo que não é culpa dela, ela só queria o nosso bem. Mas se ela perceber nossa farsa, com certeza contará à Tsunade. – um silêncio pesado se fez na mesa.
– Não foi por isso que vocês vieram para cá? – senti a estranha necessidade de encorajá-los, mesmo que eu mesmo estivesse com medo desse plano arriscado – Mesmo se conectarem suas histórias, enquanto vocês estiverem aqui, não serão encontrados.
– Não precisa nos consolar, Sasuke. – a tentativa de Ino de sorrir foi melhor que a de Gaara – Você mesmo me disse naquele dia que poderiam procurar por mim em algum esconderijo, nos lugares que já estive antes... mas se eles de fato nos encontrarem aqui, não nos renderemos, já decidimos isso.
Dizendo isso, Ino desligou a TV e voltou a comer, e eu e Gaara fomos obrigados a fazer o mesmo. Dizer que eu não estava preocupado seria mentira. Mas estava com um fraco pressentimento de que as chances estavam ao nosso favor. Estranhamente pensei em Sakura nesse momento. Quase dois meses sem nos falarmos, e eu me perguntava como ela estava se sentindo com o abandono da amiga. Mais algumas semanas, talvez meses, e Ino e Gaara realmente diriam adeus a suas vidas para começarem uma nova. E isso não teria mais volta.
****
Sakura’s POV
As notícias sobre o desaparecimento de Gaara estavam em todos os jornais na manhã seguinte. Depois de convencer Temari a tomar muitos calmantes, conseguimos com que ela desmaiasse. Eu me sentia culpada por saber a verdade (pelo menos o que eu acreditava ser verdade) e esconder delas, mas não havia tempo para me preocupar com isso. Ino e Gaara já haviam ido muito longe e arriscado coisas demais. Não seria eu a estragar tudo para eles.
Quando Temari acordou, tentou de todos os modos falar com Tsunade para deixa-la investigar o desaparecimento do irmão, mas Tsunade disse que só poderia atende-la depois. Evitei mencionar que eu havia marcado uma reunião com a mestra hoje. Temari com certeza iria querer vir junto, e isso com certeza não poderia acontecer. No final, TenTen conseguiu fazê-la tomar mais calmantes sem perceber e ela caiu no sono de novo. Só espero que ela e Hinata não acabem causando uma overdose na amiga.
E como prometido, às 14h, bati na sala de Tsunade e a ouvi me convidando a entrar. Ela estava sentada em sua mesa, preenchendo vários documentos com pressa. Sentei na cadeira de frente a ela e esperei por uns quinze minutos até ela largar a caneta e olhar para mim.
– Sobre o que queria conversar, filha? – olhei-a de um salto. O que eu estava prestes a pedir tinha altas chances de ser rejeitado. Mas eu precisava tentar.
– Tsunade-sama, para dizer a verdade... acho que a fuga de Ino me afetou mais do que deveria. – tentei usar palavras dramáticas e me fazer de vítima.
– Bem, ela era sua melhor amiga, afinal.
– Sim, e eu acho que... ela realmente não estava bem, psicologicamente falando. O aborto parece ter mudado algo na cabeça dela. Então eu estou preocupada com ela.
– Bom, é por isso que estamos fazendo o possível para encontra-la. Era só isso o que queria me dizer?
– Não, na verdade... justamente por me sentir assim, por querer encontra-la... eu gostaria de pedir um lugar no time de resgate, junto com você e Shikamaru, por favor! – fiz uma profunda reverência em apelo às minhas palavras. Eu estava suplicando – Sei que ainda sou inexperiente comparada às Wings encarregadas dessa missão, e sei que possuo conflitos sentimentais quanto à Ino, mas estou me sentindo impotente em ficar aqui parada enquanto ela pode estar correndo perigo! Eu conheço Ino melhor do que ninguém, sei de todas as suas manias e artimanhas, eu com certeza serei de grande ajuda na investigação e não irei atrapalhar! Se isso acontecer, pode me tirar do time, mas eu juro que farei o possível para...
– Sakura! – Tsunade me cortou de supetão, e eu parei de falar, levantando a cabeça para olhá-la. Ela apenas suspirou e se recostou na cadeira – De alguma forma, eu sabia que me pediria algo assim. Você realmente quer encontra-la?
– Sim! – Não, não quero. Na verdade, quero te atrapalhar para que Ino possa ser feliz. Mas acho que Tsunade não conseguiu ler isso em minha expressão.
– Bem, não sei se sua adição ao grupo trará algum benefício, mas por enquanto pode acompanhar as reuniões, se prometer pelo Código de Conduta das Wings não contar nada a nenhuma outra. – Tsunade disse a última parte com uma expressão muito séria. Todas sabiam quão a sério ela levava o Código de Conduta (que ela mesma havia criado).
– Muito obrigada, Tsunade-sama! Farei todo o possível para ajudar!
Eu nem conseguia acreditar. Havia sido tão fácil manipular Tsunade. Agora eu poderia acompanhar a investigação e se alguma coisa acontecesse, poderia guia-los na direção errada para que Ino pudesse viver sua vida em paz.
– Antes de sair, pode pegar aquela garrafa de sakê para mim? – ela apontou para a estante, e eu fiz como ela pedia. Tsunade e suas bebedeiras. Não sei como ela lidava com as ressacas (que deveriam ser muitas).
– Muito trabalho, não? – tentei me mostrar sensível à sua situação. As pessoas gostam de saber que os outros entendem seu sofrimento.
– Nem me fale. Pensei que poderia me focar somente em Ino no momento, mas recebemos uma missão de extrema urgência pela manhã, e não podemos ignorar. Terei que dividir forças e me dedicar a esse cliente também.
– Missão de urgência?
– Você deve ter visto no noticiário. O Senhor Feudal do País do Vento solicitou nossos serviços para encontrar seu filho desaparecido.
Oh. Shit.
Se não era uma tempestade vindo, então eu não sabia o que era.
I came home like a stone
And I fell heavy into your arms
These days of dust which we've known
Will blow away with this new sun
Voltei para casa como uma pedra
E caí pesado em seus braços
Esses dias empoeirados que conhecemos
Irão desaparecer com esse novo sol
Mumford & Sons – I Will Wait
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