Broken Wing - Aprendendo A Voar

45 Capítulo 45 - Ligação Inesperada


Notas iniciais
Boa leitura :)

– Você deve ter visto no noticiário. O Senhor Feudal do País do Vento solicitou nossos serviços para encontrar seu filho desaparecido.

Oh. Shit.

Se não era uma tempestade vindo, então eu não sabia o que era.

****

Sakura’s POV

– Por favor, Tsunade-sama, me coloque nessa missão! – Temari gritava, implorando à Tsunade que a deixasse participar da missão dada às Wings pelo Senhor Feudal do País do Vento.

– Não, Temari, já discutimos isso e já lhe expliquei várias vezes os motivos. Para essa missão, precisaremos viajar ao País do Vento e estabelecer lá uma Base de Operações. Não acho que você se sentirá bem retornando ao lar do pai que lhe abandonou. Além disso, seus sentimentos em relação ao alvo desaparecido podem te atrapalhar, e isso pode arruinar toda a missão. Para esse serviço, coloquei Wings experientes e imparciais. Elas encontrarão seu irmão. – Tsunade nem olhava para Temari ao falar tudo aquilo. Somente continuava preenchendo papeis, enquanto ela, eu, Hinata e TenTen nos apertávamos em sua sala – Além disso, nenhuma outra Wing pode saber sobre sua relação com o garoto Sabaku. Eu lhe pedi para não contar nem às suas amigas, mas já me desobedeceu quanto a isso e não irei tolerar mais falhas. Seu irmão será encontrado por suas melhores companheiras. – observei Temari ficar vermelha de fúria, e temi que ela se descontrolasse e dissesse algo rude.

– Será mesmo? Achei que as melhores estivessem participando da missão para encontrar Ino. – é, tarde demais. E ela parecia querer dizer muito mais.

– Eu dividirei as forças. No momento, ambas as missões são de prioridade máxima.

– Não parece. – Temari, por favor, fique quieta. Eu via Hinata fazer uma careta de sofrimento ao perceber que Temari iria desafiar uma decisão de Tsunade. Tsunade finalmente parou de escrever e a encarou, seus olhos parecendo fendas.

– E o que parece, Temari? – o olhar de Temari não falhou e ela respondeu, desafiante.

– Enquanto você se tranca todos os dias naquela sala para discutir a captura de uma pessoa que fugiu por conta própria, meu irmão pode estar correndo perigo e você nem começou a encaminhar a missão dele! Você nem sabe quais Wings irá mandar para lá, não fez um planejamento, só está preocupada em encontrar alguém que nem mais queria ficar aqui!

– Está questionando meus métodos? – senti TenTen segurar a respiração e a careta de Hinata ficar ainda mais feia. Temari estava indo longe demais. Eu não ousava interrompê-la, mas desejei que ela parasse de falar – Está tentando me dizer como resolver esses dois casos? O pedido de serviço para encontrar Gaara no Sabaku já foi emitido e uma equipe está sendo formada nesse momento. Esse seu comportamento acabou de me dizer, entretanto, que não está pronta para participar dessa equipe. Você não consegue pensar claramente e acabaria destruindo toda a união necessária para esse caso. Eu sei o que estou fazendo, Temari, e não lhe devo explicações sobre meus métodos ou prioridades. Agora saia da minha sala, e se me desafiar desse jeito novamente, será castigada.

Consegui ver quão densa estava a tensão na sala. Temari levantou-se sem mais nenhuma palavra e saiu às pressas da sala, com o resto de nós feliz em segui-la. Ela continuou andando sem parar até chegar a seu quarto, e me impressionei por não ter fechado a porta na nossa cara ou gritado assim que entrou no cômodo. Ao invés disso, ela só se sentou na cama, cobrindo o rosto com as mãos. Hinata se aproximou com todo o cuidado do mundo, como se ela fosse um animal selvagem prestes a morder quem se aproximasse.

– Tema... sinto muito por ter que ser assim... mas, sabe, acredito que Tsunade-sama esteja fazendo o melhor que pode...

– Acha mesmo isso, Hina? Você realmente acha que ela está se esforçando igualmente nas duas missões? – Temari parecia estar desafiando Hinata com a resposta, que nunca veio. Ao invés disso, TenTen entrou na conversa.

– Mas uma parte do que ela disse está certo, Tema. – dizendo isso, virou-se para Temari, com o olhar sério – Você está muito instável para participar dessa missão. Nunca conseguiria encontrar seu irmão nesse estado...

– Eu estou bem, TenTen! – Temari gritou, encarando TenTen com fúria nos olhos verdes. – na verdade, nunca me senti mais bem disposta, eu poderia sair daqui agora mesmo e encontra-lo sozinha, mas aquela bruxa está me prendendo aqui! – ela voltou a abaixar a cabeça, descansando-a nas mãos, e disse o resto da frase em um baixo tom de voz – Eu só quero meu irmão de volta.

Um longo silêncio permaneceu no cômodo. De certa forma, eu estava aliviada por Tsunade não permitir a participação de Temari nessa missão. Somente o fato de as Wings começarem a investigar esse caso já me deixava preocupada. Eu temia que elas descobrissem uma mínima pista que pudesse conectar os dois desaparecimentos.

– Que azar, não? – TenTen falou novamente, voltando ao seu jeito habitual, despreocupado – Primeiro Ino, depois Gaara. Parece até vingança por termos interferido na relação deles.

Nesse momento, meu coração começou a palpitar. Rezei internamente para o assunto morrer ali, pois mais um pouco e elas já começariam a duvidar desses acontecimentos.

– Não fale assim, TenTen. Ino fugiu porque quis. Gaara desapareceu! – Temari continuava de cabeça baixa.

– Mas mesmo assim, é estranho, não acham? – ai meu Deus, cale a boca, TenTen, por favor – Os dois sumirem de repente. – Temari levantou a cabeça de supetão, olhando profundamente para TenTen. Pronto, fodeu.

– Sim. É muito estranho. – ela falava com uma voz baixa, mas ameaçadora – Você acha que talvez eles...

– Estejam juntos agora? Acho que não! – TenTen respondeu alegremente, como se essa teoria fosse apenas uma forma de se distrair do que ela achava ser a verdade – Eles prometeram terminar, não? Não acho que Gaara abandonaria tudo para ficar com Ino, nem ela com ele. Se fosse para ser assim, ela simplesmente contaria a verdade à Tsunade e seria banida. Ela não teria que se preocupar em fugir.

– É mesmo... – Temari pareceu se acalmar. Gritei de alívio por dentro, esperando que Temari esquecesse esse assunto de uma vez por todas.

– Mas seria suuuper legal se eles estivessem juntos, fugindo apaixonados!

– TenTen! – TenTen parecia estar bolando uma peça teatral em sua mente com essa possibilidade. Temari não gostou nem um pouco.

– Ora, o que tem de mais? Apesar de terem terminado, eles se gostavam. Ah, eu até preferiria que eles estivessem juntos. Pelo menos assim saberíamos que eles estão bem, ao invés de nos preocuparmos com a saúde mental de Ino e o desaparecimento do seu irmão.

– Não concordo! Pare de falar besteiras. A relação deles nunca daria certo, seja às escondidas ou fugindo. O desaparecimento do meu irmão é algo sério e importante. Não fique fazendo gracinhas com isso.

– Tudo bem, Tema, desculpe. – TenTen parou de rir e o quarto ficou em silêncio novamente.

Essa havia passado perto. Se Temari realmente acreditasse que Ino e Gaara fugiram juntos, encorparia o demônio. Se bem que quando TenTen disse que se Ino realmente quisesse se ver livre da Organização ela teria contado a verdade à Tsunade para ser banida, não pude deixar de concordar com ela. Se Tsunade soubesse sobre o verdadeiro pai do filho de Ino, ela a teria banido, como já fez outra Wing quando esta lhe disse que estava apaixonada (coisa proibida às Wings) e assim, Ino poderia ir embora sem se preocupar com a perseguição de Tsunade. Então por que ela não havia feito isso?

Conforme eu pensava nisso, preocupações começavam a surgir em relação ao paradeiro de minha amiga. Por enquanto, eu precisava me concentrar nas reuniões do time de resgate e me certificar de eles não encontrarem nenhuma pista que pudesse levar Tsunade a Ino.

****

Bati na porta com toda a cautela. Eu estava me amaldiçoando até não poder mais. Por que, por que eu tinha que acordar atrasada na primeira reunião da qual participaria? Só podia ser piada. E ainda por cima, dormi demais porque estava sonhando com ele. Admito que ultimamente não era tão estranho eu sonhar com aquele moreno idiota, mas eram sempre sonhos insatisfatórios, e sempre acabavam me fazendo querer mais. Eu não poderia mais deixar meu inconsciente me afetar dessa forma. Sonhos eram sonhos, somente formas de meu corpo eliminar o que era tóxico e estava em excesso em meu corpo. Pensando dessa forma, isso significa então que Sasuke é tóxico para mim? Isso explicaria muita coisa.

Mas não é hora de pensar nisso agora. Missão. Missão. Concentre-se na sua missão de proteger Ino. Vista a máscara.

A porta se abriu apressadamente, e Yohana, uma alta Wing morena de 27 anos, umas dos prodígios, convidou-me a entrar com um aceno de cabeça. Eu admirava essa mulher e suas habilidades como uma Wing. Se tivesse sido ela a fugir e invadir a casa de Sasuke, não restaria nenhum pedacinho dele para contar a história.

Certo, agora pare de pensar em Sasuke e se concentre na reunião.

– Está atrasada, Sakura. Mais uma vez e está fora. – Tsunade me disse assim que me viu. Ótimo, eu tinha que começar isso arrasando mesmo.

– Não vai acontecer novamente, Tsunade-sama.

Dentro da sala, havia Tsunade, Shikamaru e o time escolhido a dedo por Tsunade. Tratava-se das Wings mais habilidosas em toda a Organização. Quando eu fugi, não me lembro de Tsunade ter usado um time tão forte. Do que ela estava com medo? Ino não representava uma ameaça tão grande solta por aí. Além de Yohana, também havia Izumi, uma Wing ruiva e baixinha, mas você não iria querer brincar de tiro ao alvo com ela; Akane, uma das mais inteligentes daqui, diziam que seu QI era igual ao de Shikamaru; e Mana, uma Wing loira com especialidade em medicina; diziam que ela iria substituir Shizune quando obtivesse mais experiência. Fiquei surpresa por não encontrar Kurenai lá.

– Eu a designei para a missão do País do Vento. – Tsunade respondeu quando perguntei – Vamos nos concentrar aqui agora.

A reunião começou com um apanhado geral do que já havia sido discutido até então. Mana reforçou sua opinião de que como Ino acabara de passar por um aborto, ela estava mentalmente instável e poderia tentar procurar amparo em lugares que suprissem a perda que acabara de sofrer; por isso ela dizia que procurar em alas da maternidade de hospitais, orfanatos e creches seria o ideal. Fiquei assustada quando ela falou isso, pois isso significava admitir que Ino já estivesse biruta além da conta. Não, minha amiga era forte. Ela nunca prenderia a si mesma em uma ilusão como essa. Depois, Shikamaru mostrou um mapa do País do Fogo e começou a falar das rotas de fuga que já haviam sido propostas. Várias rotas estavam marcadas em canetas vermelhas e pretas, e eu quase me perdi na explicação dele. Tsunade começou a me questionar algumas coisas sobre as preferências mais pessoais de Ino e eu só respondia depois de pensar bastante se aquilo não iria ajuda-los a encontra-la. Pelo que eu pude perceber, eles estavam meio perdidos.

Na época quando fugi, lembro que demoraram vários meses para me capturar, e talvez com toda essa preparação, Tsunade só esteja querendo diminuir o prazo de sua dor de cabeça. Shikamaru expôs seus próprios pensamentos:

– Já discutimos isso nas outras reuniões, mas visto que Ino saiu daqui com praticamente nada além da roupa do corpo, penso que ela primeiro esteja se escondendo em algum lugar para conseguir os meios para sua verdadeira fuga. Acho que também deve ser um local próximo daqui, visto que abalada mentalmente e sem dinheiro nenhum, ela não teria como se mover para muito longe.

– Mas onde ela se esconderia?

– Talvez tenha se disfarçado e conseguido trabalho em algum lugar, talvez tenha conseguido ajuda com alguém, ou simplesmente tenha encontrado uma caverna em algum lugar na floresta. Mas o fundamental é: acredito fortemente que Ino esteja escondida.

– Um alvo parado é bem mais fácil do que um alvo em movimento. – Izumi imitou os revólveres com o dedo e fingiu atirar – Só precisamos procurar debaixo de cada pedrinha. O truque é ter paciência.

– Concordo, Izumi. – Tsunade completou – Mas só poderemos fazer isso se assumirmos que Ino ficará parada em um lugar só, certo? Quais as chances disso acontecer? Ela poderia se deslocar aos poucos.

– Estamos trabalhando sob todas essas possibilidades, Tsunade. Mas pela condição física e mental de Ino do último mês, segundo seus próprios relatos, acredito que ela não tenha forças físicas e psicológicas o suficiente para planejar situações complexas. O mais provável é que ela esteja em um local só e por lá permanecerá até se sentir segura. Claro, esse local também é um onde ela se sente segura.

– Foi o que Sakura fez, não foi? – Yohana entrou na conversa, olhando para mim, e de repente eu era a estrela da sala.

– Sim, isso mesmo. – Shikamaru cortou o silêncio e voltou a olhar ao seu mapa, e eu o agradeci mentalmente por ter me poupado o martírio de falar.

Era verdade. Quando eu fugi, também me infiltrei em um único lugar e lá fiquei até encontrar os meios de que precisava. Infelizmente, meu plano falhara justo quando eu estava prestes a de fato completar a fuga. Se Ino resolveu seguir o mesmo caminho que o meu, ela estará condenada. Espero que ela e Gaara estejam nômades, e não enfurnados em um lugar só. Como Izumi disse, é muito fácil mirar em um alvo parado.

A reunião continuou e durou por mais algumas horas. Tsunade decidiu mandar Wings para os locais os quais Mana suspeitava e decidiu também colocar algumas Wings para rodear uma área em um raio de 15 quilômetros ao redor da Base. Na verdade, ela já havia feito isso, mas o número de Wings vigiando essa área iria aumentar. Ou seja, eu também precisava começar a mexer meus próprios pauzinhos. Descobrir se de fato Ino estava por perto era uma prioridade. E se fosse, precisava dizer a ela para escapar o mais rápido possível.

Espera... não. Não tem como Ino ainda estar perto da Base. Se ela estivesse com Gaara, os dois nunca iriam ficar tão próximos daqui, seria arriscado demais, visto que Gaara poderia ter previsto que seu desaparecimento acarretaria em investigações por parte das Wings. E a fronteira do País do Vento ficava muito longe da Base. Gaara não arriscaria atravessar o País do Fogo inteiro só para ele e Ino ficarem próximos de onde ela fugiu. Não. O mais provável era que eles tivessem se encontrado em algum lugar no meio do caminho. Algum lugar entre a Base das Wings e a fronteira do País do Fogo com o País do Vento. Bom, isso se de fato eles estavam juntos e mentalmente saudáveis.

O que eu estava fazendo, duvidando da saúde mental de minha melhor amiga? Eu li a carta de Ino, onde ela dizia com todas as letras que estava fugindo com Gaara, e ela não parecia presa em uma ilusão naquela carta. Ela parecia determinada a lutar por sua liberdade. Então eu não poderia mais duvidar dela. Ela e Gaara estavam desaparecidos, mas estavam juntos. Escondidos em algum lugar. Com o apoio somente um do outro. Por isso eu precisava ajuda-los. E eu irei ajuda-los.

****

Certo, falar é muito mais fácil do que fazer. Uma semana havia se passado e eu estava só o pó. Falar de Ino todo dia estava me afetando mais do que imaginei possível. Shikamaru e Tsunade haviam aumentado a busca e agora estavam procurando-a em algumas cidades pequenas no interior do País do Fogo, que ficavam perto da Base. Até agora, não haviam encontrado nem vestígios de Ino, o que me deixava feliz e triste. Feliz porque isso significava que a fuga dela estava sendo bem sucedida; triste porque significava que ela estava de fato longe de mim e talvez nunca fosse voltar. Quanto mais os dias se passavam, mais distante eu imaginava Ino de mim, e isso era doloroso.

Ficar sozinha é doloroso. É um sentimento de vazio dentro de você que parece te sugar, te envolver, mas nunca por completo, não, porque esse é um sentimento mesquinho e sádico, ele sempre faz questão de fazer isso lentamente, de te matar aos poucos para que você sofra, para que esse vazio te faça apodrecer gradualmente. Não é um sentimento bonito, nem honrado. É diferente da saudade. Saudade é o que você sente quando está longe da pessoa, mas ainda há a mínima possibilidade de vocês se encontrarem, física ou espiritualmente. Saudade é um sentimento bonito. O vazio não. Porque o vazio não representa esperança como a saudade. Representa o contrário. Representa uma feia necessidade de preenchê-lo com alguma coisa, algum vício, alguma pessoa, e mesmo assim nunca está satisfeito. E no momento, esse mesmo vazio me consumia.

Eu queria falar com minha amiga. Queria abraça-la, consolá-la e rir junto com ela, mas eu sabia que isso nunca mais seria possível. Parece que só agora havia realmente caído a ficha de que Ino havia partido para nunca mais voltar. E me deixou aqui, sozinha, somente com suas memórias. Não era justo. Não era justo eu me sentir assim, porque isso fazia de mim uma hipócrita. Porque antes eu já tentei fugir por essas portas e nunca mais voltar. Agora que era eu a estar do outro lado da situação, percebia como deveria ter sido difícil para Ino não ter me encontrado aqui quando sumi.

E sempre que penso em minha falhada fuga, acabo pensando nele também. Se o que eu sinto com Ino é um vazio, o que sinto por Sasuke deve ser saudade. Isso porque, mesmo ele sendo uma criatura arrogante, irritante e me causar sentimentos perigosos demais (incluindo essa estranha saudade), eu sempre sinto um calor aconchegante no peito quando me lembro dele. Quando tenho vontade de chorar por estar longe de Ino, basta eu me lembrar dele que a escuridão do vazio começa a sumir aos poucos. Eu me sinto aliviada quando penso nele, e não deveria ser assim. Talvez seja porque mesmo que eu e ele estejamos separados agora, sempre há a possibilidade de nos encontrarmos novamente. Já é diferente do meu caso com Ino. Com Sasuke, eu sei que ele sempre estará lá, e ele sabe que eu sempre estarei aqui. Só o fato de eu saber onde ele está já me dá um conforto tão perigoso de tão agradável. E aí vem a vontade de falar com ele. De descarregar minha aflição nele, de desabafar meus problemas pessoais nele, de fazer drama só para chamar sua atenção, só para ver se ele se importa mesmo comigo e só para ficar aliviada quando percebo que sim, ele se importa.

Eu sei que ele se importa. Nosso último encontro terminou de forma amigável. Acho que porque lentamente, depois de todo esse tempo em contato com ele, eu passei a conseguir conviver com esses estranhos sentimentos. Eu não os chamaria de amor, na verdade nem sabia o que eram essas sensações, não tive nenhuma experiência antes para dizer ao certo o que eu sinto por ele. São sentimentos intrometidos, invadindo minha mente e corpo sem eu querer, mas me fazendo bem. Mas agora eu já desisti de lutar contra esses sentimentos, e fiz um tratado de paz com eles. Eu aprendi a conviver com esses sentimentos. Aprendi a conviver com a vontade diária de querer vê-lo, tocá-lo, ouvi-lo. E estava tudo bem, acho. Porque no momento, ele era meu porto de conforto. Eu não tinha mais como alcançar Ino, mas eu ainda tinha como alcançar Sasuke.

Pensando nisso, todos esses dias eu ia até a Sala de Comunicações e ficava lá parada. Um telefonema. Era tudo o que havia entre mim e ele. Mas eu nunca chegava a pegar o telefone e discar seu número. Pensava “o que estou fazendo? Por quê? Desde quando virei essa pessoa carente e covarde?” Eu sabia que era orgulhosa demais para ligar para ele; eu não queria deixa-lo saber que eu estava com saudades. Isso só serviria para aumentar seu ego e ele só voltaria a dizer coisas idiotas como “eu sabia que você gostava de mim” ou “não consegue ficar longe de mim, não é?” somente para me mostrar o quanto eu estava presa a ele. Ele deveria estar muito bem sem mim, e eu não queria mostrar fraquezas ao deixa-lo perceber que eu não estava muito bem sem ele. Por isso todos os dias eu ia até a Sala de Comunicações. Entrava em uma das cabines e me sentava na cadeira. E encarava o telefone por vários minutos antes de chacoalhar a cabeça e levantar, furiosa comigo mesma. Não sei se eu me sentia covarde por querer falar com ele ou por desistir no último minuto. Não sei se eu ficava furiosa por querer falar com ele ou por não conseguir falar com ele. A mente humana é mesmo cheia de contradições.

Mas isso estava começando a me perturbar demais. Eu sentia como se minha vontade de levantar e ir à outra reunião discutir a captura de Ino diminuísse a cada dia. Eu estava realmente solitária. Não tinha Ino ao meu lado e não tinha Sasuke ao meu lado. Eu precisava de algum consolo, consolo que infelizmente nenhuma das minhas amigas aqui poderia me dar. Consolo que só poderia vir diretamente de Ino ou de Sasuke. E como eu não conseguia falar com Ino, bem... não é como sempre dizem? “Se está no inferno, não custa abraçar o capeta”? No momento, eu só sabia que não poderia mais continuar me arrastando daquele jeito. Eu precisava me recuperar. Nunca acreditei muito nessas terapias de desabafos, de conversas sinceras com alguém próximo (até porque a pessoa mais próxima de mim era agora uma fugitiva), mas eu queria falar com alguém. Eu queria falar com ele. E se isso o fizesse zombar de mim, tudo bem. Se isso me fizesse fraca, tudo bem. Eu sempre consegui dar a volta por cima, sempre confiei em meu orgulho. Não era agora que eu seria derrubada. Sakura Haruno não seria derrotada por um mero telefonema, muito menos por uma criatura como aquele moreno.

Pensando nisso, depois de mais um dia sufocante com Shikamaru melhorando suas estratégias cada vez mais e colocando Wings para procurarem por Ino em mais lugares, fui até a Sala de Comunicações, na cabine telefônica mais afastada do cômodo, e disquei o número dele mecanicamente, sem parar para pensar no que eu estava fazendo, ou então eu iria hesitar. Disquei e ouvi chamar. Não preparei nenhum roteiro, não sabia o que iria falar quando ele atendesse (se ele atendesse). Eu só... segui meus instintos, para variar.

– Alô? – era a voz dele. A voz que eu não ouvia há dois meses, me fazendo perceber que eu realmente sentia a falta dele. De repente, congelei. Eu queria falar, mas não saía nenhum som – Alô? – percebi um leve tom de estresse em sua voz. Claro, ele deveria estar ocupado com o trabalho, ou pode ser que eu só o atrapalhei enquanto ele estava transando com alguém. Se eu não falasse algo logo, ele iria desligar.

– Ah... oi. – saiu mais baixo do que eu esperava, e me senti uma idiota por aquilo. Eu não deveria ter ligado, afinal.

– Não consegui ouvir, pode falar mais alto? – ah merda, recomponha-se, mulher! Você é melhor do que isso! Suspirei internamente, fechando os olhos, antes de abri-los novamente, determinada.

– Assim está alto o suficiente para você? – quase gritei no telefone, e me surpreendi por ter feito isso de propósito. De repente, eu estava em total controle sobre mim mesma. Um silêncio se fez do outro lado da linha, mas isso não abalou minha confiança recém-encontrada.

– Sakura? – a forma como ele disse meu nome foi diferente. Parecia surpreso e incrédulo ao mesmo tempo. E parecia com medo. Como se eu pudesse devorá-lo do outro lado da linha – É você... mesmo? – por que ele estava agindo daquele jeito estranho?

– Claro que sou eu, cabeção. Já se esqueceu da minha voz? Ou de mim? – era uma provocação infantil, mas eu questionava sua reação, e queria ver até onde conseguiria pressioná-lo.

– Não... claro que não, só... – ele parecia perdido em palavras. Mas Sasuke Uchiha nunca se perdia em palavras. Ele sempre sabia o que dizer – Não esperava uma ligação sua...

– Sabe como é, eu estava aqui cheia de tédio, e pensei “irritar o Uchiha seria divertido”, principalmente quando a uma hora dessas eu sei que você deve estar trabalhando em casa feito louco.

– Ah... é, estou mesmo. – certo, tinha algo muito errado ali. O que eram essas respostas secas e curtas? Quem é você e o que fez com o Sasuke? Um silêncio se seguiu, eu queria força-lo a falar algo – Então... você... está bem?

– Estou ótima! – mentira. “Havia muitas coisas dando errado agora, foi exatamente por isso que liguei para você” – Só entediada, como disse antes. E você, Uchiha? Como vai a empresa do papai? Já decidiram qual filial querem afundar antes de entregá-la a você? – percebi que eu estava sendo mais rude e sarcástica do que de costume. Talvez essa seja só a forma de eu descontar minha frustração e tristeza do último mês. Talvez seja porque estranhei muito o modo dele de falar, e fiquei irritada quando ele pareceu não estar sentindo tanto a minha falta quanto eu estava sentindo a dele.

– É... não, eu não... não vou comandar uma... filial ainda. – certo, Uchiha, o que estava acontecendo? Pare de levar minhas perguntas sarcásticas ao pé da letra. Reconheça que eu estou aqui e pare de falar comigo como se quisesse desligar o telefone o mais rápido possível! Isso é frustrante! – Então você está bem... mesmo?

– Sim, já disse.

– Não tem nada te... incomodando... ultimamente? – que tipo de pergunta era aquela? Ele sempre foi bom em ler por trás da minha máscara. Será que havia percebido a falha em meu tom de voz?

– E por que deveria? Tudo está perfeitamente nos eixos! Meiko também está muito bem, antes que pergunte dela.

– Ah, sim. Fico feliz.

– E sabe o que me deixa mais feliz ainda? Saber que você está com essa voz de funeral enquanto eu estou aqui, leve e solta. O que foi, Uchiha? Está sofrendo? Papai não te deixou sair com os amiguinhos para a baladinha? – falei isso para ver se conseguia algum tipo de reação dele. Não foi assim que eu planejei essa conversa. Eu liguei a ele para me sentir melhor, para ter uma conversa normal, não para insultá-lo e ser rude.

– Não, só... cansado. – chega. Ele não ia mais me cortar assim.

– O que aconteceu com você? – perguntei de supetão, dessa vez séria e sem o sarcasmo. Pressioná-lo com insultos como sempre fiz parecia não estar funcionando agora. Sasuke estava agindo de forma muito estranha, como se estivesse com medo de falar comigo, como se quisesse se livrar de mim o mais rápido possível. Eu não o deixaria me rejeitar daquele jeito sem saber o que estava acontecendo para ele agir de forma tão estranha.

– O que quer dizer com isso? – ouvi-o soltar uma risada curta, como se quisesse dissipar minhas preocupações – Não aconteceu nada, só... o mesmo de sempre.

– Você já foi melhor em mentir. – um comprido silêncio se fez, e eu senti a atmosfera ficar pesada. O que Sasuke não estava me contando?

– Eu... não estou mentindo, Sakura. – certo, ele parecia ter ganhado um pouco de vida na voz, mas estava longe de me revelar o que eu queria.

– Ah, não? Onde estão seus comentários arrogantes, suas tentativas patéticas de me seduzir, seu ar de superioridade? Você morreu e voltou como zumbi?

– Eu estou cansado. Só isso.

– Uchiha, não insulte minha inteligência dessa forma.

– É você que está me insultando desde o começo dessa ligação. E falando nisso, por que me ligou, afinal?

– Não mude de assunto, criatura idiota. – eu não iria deixa-lo virar o jogo daquele jeito.

– Não estou mudando de assunto. Você me ligou por um motivo, não?

– Não ouviu quando eu disse que estava entediada e só queria te irritar? Ou estava muito ocupado virando zumbi para prestar atenção?

– Sakura, eu... – ouvi-o suspirar do outro lado da linha. Ele parecia não querer responder meus insultos. O que era muito estranho. Tinha algo errado. Eu conseguia cheirar daqui – Essa não é uma boa hora, tá?

– Por que não? – meu tom estava seco, mas não sarcástico. Eu realmente estava determinada a descobrir o que havia de errado.

– Porque... simplesmente não é uma boa hora para nos falarmos. Eu estou... ocupado com algumas coisas.

– O Sasuke que eu conheço é chato e persistente. Ele nunca iria perder a oportunidade de me provocar. Está estragando meu plano dessa noite, Uchiha.

– Seu plano? – meu Deus, como ele era lerdo quando queria! Fiz questão de suspirar muito alto para ele perceber que eu estava perdendo a paciência.

– Você está mais retardado do que da última vez que te vi? Estou falando do meu plano de te irritar essa noite, criatura. Nossa relação não funciona se eu não conseguir te irritar, esse é meu objetivo de vida agora.

– Que cruel. – por algum motivo, eu conseguia vê-lo sorrindo do outro lado da linha, e esse pensamento me aqueceu. Foco! Foco! – Desculpe estragar seus planos, e... “nossa relação”? É raro te ouvir falar assim. – huh? Ah, merda merda merda! Essas palavras escaparam de minha boca e só percebi tarde demais! Tudo bem, eu não poderia negar que tínhamos uma relação, mas ela se baseava em troca de insultos e sexo ocasional. Nada além disso.

– Pois é, humanos e essa mania desnecessária de nomear coisas sem sentido. – dessa vez, ouvi-o rir brevemente, como se ele de fato estivesse se divertindo com minha irritação. Outro silêncio se fez, e eu sentia que o estava perdendo – Então, porque está falando comigo como se alguém da sua família tivesse morrido?

– Estou normal, Sakura. – há! Eu te conheço muito bem para saber que você está escondendo algo. É melhor desembuchar ou eu vou descobrir por conta própria.

– Não, o seu normal é ser um idiota metido. Agora você está agindo como se...

– Como se...

– Como se não fosse você. E eu não estou gostando disso. – outro silêncio se fez. Ele parecia estar escolhendo as próximas palavras.

– Você está viajando, Sakura. Eu só não estou bem disposto hoje.

– Você sempre está bem disposto quando se trata de me convencer inutilmente de que eu te amo. Liguei para você esperando matar meu tédio e te insultar quando você fizesse isso, mas na verdade você conseguiu me entediar ainda mais.

– Bom, eu não esperava que você fosse me ligar.

– Não quer falar comigo, Uchiha? Posso desligar e nunca mais iremos nos falar.

– Não quis dizer isso, só... – um barulho cortou a fala de Sasuke. Parecia vidro se quebrando, e parecia estar um pouco distante. O telefone ficou mudo por um momento, como se ele o tivesse abafado com a mão. Em seguida, voltou como se nada tivesse acontecido – Desculpe, o sinal está ruim.

“O sinal está ruim”? Essa é a desculpa que ele me dá?

– Quebrou alguma coisa?

– Ah... não, é... sim, só... o copo caiu. – era minha impressão ou ele parecia ter ficado nervoso de repente? Será que... havia mais alguém ali com ele, e por isso ele estava agindo estranho? Se estivesse com uma mulher, era óbvio que não ia querer falar comigo naquele momento. Outro longo silêncio se fez e eu não conseguia pensar em mais nada a dizer. A possibilidade de ele estar com outra pessoa pareceu uma pontada no peito, coisa que eu não deveria ter sentido.

– Sakura? Ainda está aí?

– Estou. – minha voz saiu estranha. Eu não queria mais continuar essa conversa – Bom, então se você não está bem disposto, não tem por que continuar essa ligação. – Fiz menção de desligar, mas a voz dele me impediu.

– Não, espere! Eu... – esperei, mas ele nunca terminou a frase.

– Você o que, Uchiha?

– Eu... senti sua falta. – ok, por aquilo eu não esperava. Se ele estivesse com uma amante agora, não iria dizer que sente minha falta na frente dela, iria? O fato é que essa colocação me pegou de surpresa e eu não sabia o que responder. Deveria dizer que eu também sentia a falta dele? Ou deveria dizer para ele me contar por que estava agindo tão estranho comigo? Ou simplesmente deveria desligar?

– Sentiu? – foi tudo o que consegui dizer.

– Senti. – e foi tudo o que ele respondeu. Percebi que no fim das contas, eu não queria terminar essa ligação insultando-o. Eu disquei o número dele justamente para me sentir melhor, porque ele tem os meios para me acalmar.

– Eu também... acho. – foi mais fácil dizer isso do que pensei. Eu estava progredindo, certo?

– Você acha? – ele falou divertido – Bem, já é um pote de ouro vindo de você.

– Aconteceu alguma coisa com você, não foi? – retomei o assunto de antes. Só percebi agora que esse incômodo que senti quando nossa ligação começou se devia ao fato de eu estar preocupada que seu comportamento estranho fosse resultado de alguma coisa ruim.

– Não aconteceu nada. – ele respondeu sério e um pouco nervoso, e a tradução disso era “sim, aconteceu alguma coisa, mas não quero que você saiba”. Mas ele me conhece, sabe que eu não desisto.

– Você não consegue mentir para mim, Sasuke. – usei o primeiro nome dele de propósito. Ele ficou em silêncio novamente – Se não quiser me contar, tudo bem, eu não tenho nenhum direito de saber. Mas você fica chato assim, se quiser que eu ligue de novo, é bom consertar isso.

– Está planejando me ligar de novo?

– Talvez. Como eu disse, estou muito entediada aqui, e te irritar é uma das poucas coisas que me deixa satisfeita.

– Vou esperar pela próxima ligação, então.

– Tudo bem, cabeção, agora vai e vê se ressuscita desse seu estado de zumbi.

– Vou tentar. E, Sakura... foi... bom falar com você de novo. – não, eu não senti minhas bochechas corarem naquela hora.

– Hm, e foi um prazer atrapalhar sua noite, Uchiha. Até mais.

– Até.

Desliguei e cobri meu rosto com as palmas das mãos. O que eu havia acabado de fazer? Talvez essa tenha sido a conversa mais estranha da minha vida. E o que ele tinha, afinal? Por que estava agindo daquele jeito tão estranho comigo? Como se estivesse escondendo alguma coisa, como se quisesse se livrar de mim o mais rápido possível. Primeiro pensei que ele só estivesse com alguém, mas depois isso pareceu improvável. Então o que? O comportamento exibido por ele no começo da ligação era de alguém perdido, alguém que não esperava minha ligação e que ficou nervoso por recebê-la. Ele nunca havia agido daquele jeito comigo antes.

Algo estava errado. E poderia não ser da minha conta, mas se ele pensava que poderia mentir para mim daquele jeito, estava muito enganado. Algo estava errado e eu iria descobrir o que.

The ink is running toward the page

It's chasing off the days

Look back at both feet and that winding knee

I missed your skin when you were east

You clicked your heels and wished for me

A tinta está escorrendo pela página

Fazendo os dias se esvaírem

Olhe para aqueles pés e aquele joelho dobrado

Senti sua falta quando você estava no leste

Você bateu seus calcanhares e desejou por mim

Panic at the disco – Northern Downpour

Notas finais
Só queria dizer que a música desse capítulo é uma das minhas favoritas do Panic at the Disco ❤ E também, sobre a Nota da Autora, irei exclui-la no próximos dias, pois acabei de ler que postar avisos como capítulos é proibido segundo as regras do Nyah. Minha intenção nunca foi quebrar as regras, então vou excluir logo mais. Fora isso, espero que tenham gostado do capítulo, vejo vocês no próximo :)