Broken Wing - Aprendendo A Voar

42 Capítulo 42 - Asas Quebradas


Notas iniciais
Olá, primeiramente gostaria de agradecer a todos os comentários e palavras de apoio que me deram nos últimos dias, pode parecer pouca coisa, mas fico feliz :) E como achei que poderia ficar confuso, queria esclarecer que no capítulo passado, a história se passava no final de julho, e este se passa no começo de setembro. O mês de agosto será mostrado nos próximos capítulos. Espero que gostem :)

Ino’s POV

Meu limite havia chegado. Eu não poderia mais continuar ali, vivendo assim. Eu sei, por experiência quase própria, que o que estou prestes a fazer pode não ser a melhor saída. Mas eu estava desesperada, e não via outra escolha. E sentia que não podia mais ficar nesse estado. Por isso esse seria um “adeus”.

**

Ino’s POV

Setembro. O último mês de verão, quando os ventos já começam a ficar frios, e os dias, nublados e escuros. Minha recuperação física estava indo muito bem conforme Shizune, e logo eu poderia voltar a fazer missões com o resto das Wings. As meninas também estavam me ajudando em tudo o que podiam. Sakura sempre ficava comigo em seu tempo livre, TenTen me trazia doces que havia aprendido a fazer com alguma Wing, Hinata vinha pedir conselhos com suas preocupações inocentes e Temari... bem, eu não estava falando muito com Temari. Sakura me disse que ela se sentia culpada por ter me tratado mal em relação a meus sentimentos, mas para falar a verdade, isso não me importava muito naquele momento. Eu entendia o lado dela, entendia o lado de Gaara e da instituição de Tsunade. Aquele bebê foi uma tragédia, e trazê-lo ao mundo só traria sofrimento ao mesmo. Mas mesmo que meu bebê tenha morrido, não posso dizer o mesmo de meu amor por Gaara.

Eu já tomei essa decisão semanas atrás. Enquanto chorava durante o procedimento do aborto, no período de recuperação, enquanto Sakura não saía do meu lado para se certificar de que eu não desistiria de tudo. E hoje finalmente é o dia em que tudo será arriscado. Depois de um mês inteiro focada somente nisso, calculando friamente meus passos, tendo certeza de esconder isso de todas as pessoas certas, finalmente chegou minha hora de partir. Qual será meu destino final, ainda não sei, mas estou pronta para arriscar, nem que seja a última coisa que eu faça.

**

Minha Querida Sakura

É muito difícil tentar encontrar as palavras certas para começar a escrever o que quero te dizer. Nunca fui boa com poesia, nunca me preocupei em falar bonito, mas não quero que essa carta transmita apenas metade de meus sentimentos. Por isso, tenha paciência, por favor. Posso tropeçar com as palavras, mas espero que ao final você possa me entender.

Escrevo essa carta para lhe dizer que finalmente escolhi partir. Mas não se preocupe, Sakura, pois eu não desisti. Na verdade, nunca me senti tão determinada como agora. Eu poderia muito bem ser jogada em uma sala com vinte leões nesse exato momento e sairia vitoriosa de lá, rugindo tanto quanto eles, rasgando tanto quando eles. Eu não preciso mais de descanso, não preciso mais ficar encolhida no meu quarto chorando por algo que nunca mais voltará. Eu estou pronta para qualquer coisa, pronta para qualquer missão que Tsunade resolva me entregar como presente de boas-vindas. Mas a batalha que eu vou lutar será um pouco diferente da que Tsunade tem em mente.

E eu estou finalmente pronta para isso, para renegar tudo sobre minha vida, mais uma vez. Sim, eu sou muito grata à Tsunade por ter me acolhido, por ter me ensinado absolutamente tudo, por me ajudar a construir a pessoa que sou hoje. E também sou muito grata às outras pessoas que me acompanharam até aqui, principalmente a você, Sakura. Eu já teria desistido há muito tempo se não fosse por você, com sua teimosia irritante, seu jeito superior e ao mesmo tempo gentil, todas as palavras de determinação passadas a mim através de seus fortes olhos esmeralda. Ah, Sakura, você com certeza é muito mais do que uma amiga. Você é minha irmã de alma, a outra metade das minhas asas quebradas. Sem você, eu não teria aprendido a voar. Mas todo passarinho, quando aprende a olhar o mundo de cima, precisa sair do ninho e estabelecer seu próprio destino. E a liberdade é a coisa mais perigosa desse mundo.

Isso porque a liberdade parece não ter limites. Uma vez livre, você sempre irá querer mais. Nós somos meros passarinhos presos em um ninho. Primeiro precisamos aprender a sair dele com segurança. Para isso, vemos como outros passarinhos voam, juntamos paciência e aprendizado; enquanto estamos presas, dependemos do pássaro-mãe para nos alimentar e nos ditar como será nossa vida. Tsunade é nossa pássaro-mãe, Sakura. Aprendemos muito com ela, e crescemos fortes e alimentadas por sua boa vontade, sua gentileza e espírito de guerreira. Mas há um problema nisso: Tsunade não nos ensina a voar na íntegra; estamos condenadas a viver o resto de nossas vidas sob suas asas, e nunca teremos permissão para voar com nossas próprias, de modo que nunca teremos liberdade plena em voar por nós mesmas, irmos aonde quisermos, às alturas que quisermos. Nossas asas estão atrofiadas, quebradas. Nunca conseguiremos voar se nunca declararmos independência dela. Para que um passarinho realmente possa ser livre, ele precisa tentar sozinho, cair sozinho, descobrir seus próprios limites e fortalecer suas asas sozinho, para que finalmente possa abri-las em todo o seu esplendor e voar mundo afora. Por enquanto só temos uma liberdade parcial: voamos somente aonde Tsunade nos permite. Mas eu e você somos o tipo de passarinho que facilmente se distrai pelo bonito cenário do horizonte e quer voar a lugares distantes. Não estamos contentes com essa liberdade limitada de Tsunade, por isso buscamos novas árvores para pousar e conhecer. No seu caso, você se aventurou e chegou até Sasuke. No meu caso, eu quis mais liberdade e cheguei até Gaara. Lembra quando eu disse que uma vez livre, sempre iríamos querer mais?

Por isso eu não me contento mais com o que tenho agora; pois agora que já provei um pouco mais de liberdade, agora que minhas asas começaram a se fortalecer sozinhas, eu não quero parar por aqui. Eu quero mais. Eu não quero somente um resquício de liberdade, eu quero toda ela para mim. Quero voar com minhas próprias asas, cometer meus próprios erros e aprender com eles, sem alguém para me ditar o que é certo ou errado, pois já tenho uma consciência formada sobre isso: esses foram os ensinamentos de Tsunade. O que eu poderia aprender com ela, já aprendi, serei eternamente grata sempre, e farei questão de me lembrar de cada lição e aplica-las enquanto eu viver. Mas chegou a hora de eu voar com minhas próprias asas. Abandonar o ninho de Tsunade. Ser livre. Por isso tomei essa decisão.

Como eu disse antes, nunca me senti tão determinada como estou me sentindo agora. Em toda a minha vida, eu só fiz duas escolhas completamente sozinha: a primeira foi amar Gaara; a segunda, que estou fazendo agora, é ficar com ele. Nem quando Shizune me visitou naquele hospital e me ofereceu uma vida como Wing eu fiz uma escolha tão consciente quanto essa que estou fazendo. Pois agora, eu, Ino Yamanaka, já aprendi com minha mestra o necessário para sobreviver, e agora estou pronta para fazer minhas próprias escolhas e ser livre como eu bem entender, voando para onde eu quiser com minhas próprias asas. “Louca!” Você provavelmente deve estar pensando isso de mim agora, não é? Afinal, você já tentou fugir uma vez e falhou. Naquela vez, eu estava determinada a te trazer de volta nem que tivesse que lhe arrancar os cabelos e quebrar todos os seus ossos. Mas agora vejo como aquela sua decisão imatura estava correta. Você estava certa em fugir, Sakura, porque você queria descobrir o mundo através de seus próprios erros. Até hoje penso que tivemos muita sorte em te encontrar; por pouco você teria sumido para sempre de nossa vista, e agora me arrependo de não ter te ajudado a fazer isso acontecer. Você merece ser livre, Sakura. Todas nós merecemos.

Por isso tomei essa decisão e não pretendo voltar atrás. Pensei muito sobre isso, não se preocupe. Não estou fazendo isso como vingança ou porque estou com raiva, mas porque sinto que essa é a única forma de eu viver uma vida plena e feliz. Então, sim, você já deve ter notado, essa é uma carta de despedida. Eu farei acontecer o que você tentou e não conseguiu. Eu consertarei minhas asas quebradas e aprenderei a voar para longe daqui, longe de Tsunade e de seu ninho. Eu serei livre. Acredite, se eu pudesse, te levaria comigo, e como eu queria isso! Mas eu e Gaara decidimos isso juntos. Aposto que você não iria querer ficar de vela entre nós dois, não é? Mas essa é uma decisão da qual não me arrependo e provavelmente nunca me arrependerei.

Passei esse último mês fazendo tudo às escondidas, inclusive de você. Sinto até ter te traído depois de tudo o que você fez por mim. Mas se houvesse outra saída, eu a teria usado. O fato de eu estar me despedindo de você com uma mera carta mostra quão desesperada e sem refúgio estou. Apesar disso, tenho consciência de minha decisão e farei o possível para não ser pega. Nesse último mês, eu e Gaara conversamos muito (“Como?”, você deve estar pensando, já que eu praticamente não saía de meu quarto – talvez um dia eu lhe conte) e chegamos à conclusão de que não podemos viver um sem o outro, principalmente depois de tudo o que aconteceu. Eu o amo e ele me ama, e se for para vivermos separados, preferimos morrer. Por isso resolvemos arriscar. Diferente de quando você fugiu sem dar adeus a nenhuma de nós, resolvi te escrever essa carta como forma de desculpas e também de despedida. Provavelmente nossos caminhos nunca mais se cruzarão, e sim, enquanto eu com certeza sentirei sua falta todos os dias, também estarei feliz ao lado da pessoa que escolhi amar.

Nossa fuga provavelmente causará um estardalhaço, não? Todo o País do Vento irá se comover com o sumiço do filho do Senhor Feudal, e o mesmo irá usar de todas as artimanhas possíveis para encontra-lo. Temari e Tsunade logo irão conectar meu desaparecimento com o dele, e inevitavelmente, a verdade virá à tona. Sinto que isso trará muitos problemas a você, Hinata, TenTen e Temari, não? Pelo próprio bem de vocês, por favor, neguem a Tsunade qualquer envolvimento com esse segredo. Finjam que nunca souberam sobre Gaara, façam parecer que eu menti para vocês o tempo todo. Como Tsunade provavelmente as obrigará a me procurar, como fez com você, não adianta te pedir para não tentar me contatar, mas serei um pouco mais egoísta e pedirei para fazer de tudo para atrapalhá-la. Sei que estou pedindo muito de você e que não tenho esse direito; pode me chamar de covarde, traidora, egoísta, ingrata, burra, não me importo; estou em um momento de tanto desespero que estou praticamente lhe implorando que me ajude, apesar de ser o ato mais vergonhoso dessa minha vida. Mas em toda a minha covardia, venho aqui lhe implorar, Sakura – por favor, me ajude. Me ajude a conseguir o que você tentou e infelizmente, falhou. Me ajude a fugir, a ser livre. Me ajude a viver feliz com Gaara. Sinto muito por nossa amizade ser interrompida por esse gesto tão egoísta e rude de minha parte, mas cheguei à conclusão de que não posso mais viver desse jeito. Eu preciso voar, Sakura. Preciso voar com Gaara ao meu lado. E se acontecer a infelicidade de sermos encontrados, iremos desistir de nossas vidas.

Quando você estiver lendo essa carta, eu provavelmente já terei partido. Por isso, peço que queime esse pedaço de papel assim que terminar de ler. Não fique preocupada comigo, pois eu somente estou seguindo rumo à minha felicidade. E mesmo que esse talvez seja nosso último contato, nunca irei parar de pensar em você, e desejo que você também consiga ser verdadeiramente feliz um dia, que encontre sua liberdade e consiga consertar suas asas quebradas para desfrutá-las.

Adeus, Sakura

Desculpe-me por todos os problemas e obrigada por sempre estar ao meu lado

De sua irmã

Ino

**

Sakura’s POV

Se alguém me olhasse naquele exato instante, não notaria nada de interessante ou diferente em minha expressão ou gestos. Modéstia à parte, eu sabia mentir, e mentia bem e sem remorso nenhum. Mas por algum motivo, estava muito difícil manter aquela máscara. Estava tentando ao máximo manter meus olhos focados em qualquer ponto aleatório do espaço, e meus lábios fechados; estava tentando não tremer, apertando minha mão com tanta força que minhas unhas já começavam a perfurar a pele. Estava lutando contra as lágrimas, os gritos, lutando para tentar manter o silêncio ignorante. E eu diria que estava conseguindo. Como eu disse, se alguém me olhasse naquele exato instante, não notaria nada de especial. Mas se alguém por coincidência do destino possuísse a invejosa habilidade de ler minha mente, com certeza enlouqueceria com a inconstância e desespero de meus pensamentos.

Era para ser um dia normal de fim de verão. Eu faria minha rotina de treinamento como era de costume, conversaria com outras Wings, provavelmente seria chamada por Tsunade para discutir a próxima missão, pensaria em Sasuke, e no fim do dia iria até o quarto de Ino fazer-lhe uma breve visita. Isso já havia virado rotina desde o aborto; Ino havia se fechado muito, praticamente não falava com ninguém nem saía de seu quarto, e mesmo todas nós concordando em dar a ela o espaço que ela queria, eu não poderia deixa-la completamente sozinha o dia inteiro por todos os dias. Por isso eu sempre reservava meia hora de meu dia para visita-la, nem que não trocássemos nenhuma palavra, nem que nosso único assunto fosse sobre como o tempo estava esfriando ultimamente; a mensagem ali era que eu estava lá por ela e sempre estaria, e tenho certeza de que ela entendia dessa forma.

Por isso, grande foi minha surpresa quando abri a porta de seu quarto e não a encontrei lá. A princípio, pensei que ela havia ido dar uma volta pelos terrenos, como fazia de vez em quando por insistência médica de Shizune, mas quando escureceu e ela não voltou, comecei a me preocupar. Sabendo que o estado emocional dela não estava estável, comecei a imaginar os piores cenários possíveis, andando de um lado para o outro em seu quarto pequeno e arrumado. Arrumado até demais. Aquilo foi algo que estranhei logo que abri a porta. Ino era muito meticulosa com suas coisas, e odiava que alguém mexesse ou organizasse seus pertences sem sua permissão ou de modo diferente dela. Seu quarto não costumava ser particularmente bagunçado, mas sempre estava do jeito dela; suas roupas eram dobradas e guardadas onde ela achava que fosse melhor, seus objetos pessoais poderiam estar espalhados por todo o quarto e banheiro, mas ela conseguia entender sua própria bagunça porque ela própria a organizava. Por isso achei estranho quando entrei em seu quarto e percebi que algo estava diferente. Eram somente pequenos detalhes e talvez a maioria das pessoas sequer conseguisse notar. Mas eu conhecia Ino como a palma de minha mão e sabia que ela havia aprontado alguma. Não, ela nunca teria trocado o lugar do cesto de roupas sujas e nunca teria colocado o despertador do lado esquerdo da cama (ela é destra e sempre dizia que precisava da maior força possível para arremessa-lo ao outro lado do quarto quando este tocava). Além disso, outras pequenas mudanças estavam se fazendo presentes conforme eu olhava com mais atenção. Seu livro favorito estava fechado e não aberto em sua página preferida, como sempre estivera, seu abajur estava apagado quando ela sempre o deixava aceso; em seu banheiro, os perfumes estavam alinhados não em sua ordem de preferência, como ela gostava de ordená-los, mas aleatoriamente. Alguma coisa estava errada, e pensando agora, me sinto uma idiota por ter demorado tanto a notar sua mensagem, e mais idiota ainda por nem sequer ter considerado a possibilidade de isso acontecer.

Comecei a revirar seu quarto. Dane-se a invasão de privacidade, Ino com certeza estava querendo me dizer alguma coisa, me pedindo para procurar o que mais havia de errado ali. Abri gavetas, armários, olhei debaixo da cama e em todos os cantos possíveis. Não demorei a encontrar sua última carta, muito bem escondida em um fundo falso da uma das gavetas do criado-mudo. Antes mesmo de abri-la, eu já sabia do que se tratava. E novamente me culpei por não ter considerado a possibilidade de Ino finalmente dizer “basta” e fugir. Afinal, depois de tudo pelo qual ela passou, ela não iria querer mesmo continuar aqui. E ao ler a carta e confirmar minhas suspeitas, me senti perdida.

Se tem uma coisa da qual me orgulho, é que eu raramente fico perdida. Não importa a situação, não importa a missão ou as pessoas envolvidas, e não importa o quanto tudo dê errado, eu sempre fui o tipo de pessoa que consegue contornar a situação, manter uma máscara de estabilidade e resolver as coisas sem perder completamente o controle. Pode-se dizer que eu sou uma pessoa que “sabe o que quer da vida”. A única pessoa até então que havia conseguido tirar completamente esse controle de mim fora Sasuke; ele era uma pessoa extremamente difícil de decifrar, e eu quase nunca conseguia ler seus pensamentos, saber o que ele estava sentindo ou prever suas ações, e isso acabava me deixando sem controle, sem saber o que fazer ou como agir diante dele, e como consequência, meus sentimentos também ficavam confusos. Claro, isso me irritava profundamente, mas depois de tanto tempo em contato com a criatura, passei a me acostumar e aceitei isso como meu destino. No entanto, agora eu me via novamente nessa situação na qual eu não fazia ideia do que fazer ou o que sentir, e dessa vez não era Sasuke o envolvido. Era Ino, minha melhor amiga, que eu deveria conhecer melhor do que ninguém.

E no entanto, lá estava eu, sentada em sua cama, segurando a carta com as duas mãos, sem noção nenhuma do que fazer. As vozes de minha mente trabalhavam a todo vapor, bolando teorias e soluções, planos e rotas de fuga, diferentes formas de lidar com a situação, e apesar de todas aquelas vozes gritarem tudo aquilo, eu não estava ouvindo nenhuma delas. Eu simplesmente não sabia o que fazer dali em diante. Perceber que minha amiga finalmente havia se cansado e ido embora, como eu uma vez havia feito, perceber que eu não teria mais sua companhia, seus sorrisos e jeito alegre, seus dramas de antes de todas as coisas ruins acontecerem... onde foi que tudo começou a dar errado?

E Ino estava certa, certa em querer ir embora, em querer voar para longe do ninho de Tsunade. Sei disso porque eu já havia tentado fazer a mesma coisa, a única diferença é que eu havia falhado. E mesmo sabendo por todo o sufoco que passei, mesmo tendo presenciado tudo através de mim, Ino, uma das Wings que eu nunca pensei que abandonaria Tsunade, havia abrido as asas e estava trilhando o mesmo caminho que eu já desejara trilhar. Mas diferente de mim, ela não está sozinha. De alguma forma, ela havia planejado tudo meticulosamente, e pior, debaixo do meu nariz, do nariz de todas as Wings! Como nenhuma de nós notou essa sua “comunicação” às escondidas com Gaara, como nenhuma de nós notou sua rebelião silenciosa até ser tarde demais? E agora ela já não estava mais aqui, estava com Gaara, correndo, fugindo para algum lugar, voando, como ela mesma havia colocado. Sim, Ino, todas nós somos pássaros com asas quebradas. Mas não foi exatamente por que suas asas estavam quebradas que você conseguiu consertá-las e finalmente levantar voo? Não é justamente por cairmos que conseguimos determinação para nos levantar? Oh Ino, como eu te invejo agora! Sei que não deveria, visto que tudo isso deve ter sido muito difícil para você, e as dificuldades apenas começaram, mas como estou invejando sua nova liberdade!

Espero, do fundo do meu coração, que você e Gaara consigam voar para lugares longínquos; passando por cima de mares, conhecendo cenários de quadros famosos, e finalmente, desejo que vocês possam continuar livres. Desejo que consigam realizar o que eu tentei e falhei. Talvez eu precisamente tenha falhado por ter ido sozinha; mas se você estiver com Gaara e ele com você, talvez vocês possam se apoiar nos momentos difíceis, pensarem em soluções melhores para os desafios que virão e comemorar as vitórias juntos. Sim, Ino.

No momento, estou extremamente triste. Triste por você ter me abandonado, por ter escolhido Gaara a mim. Essa é uma coisa extremamente egoísta de se dizer, não? Logo eu, que fiz a mesma coisa antes, mas de forma bem mais cruel; afinal, quando eu fugi, nem te deixei uma carta dizendo o quanto te amava como minha mais querida irmã, não? Estou triste por provavelmente nunca mais poder te ver, conversar e rir com você. E ao mesmo tempo, estou feliz por você. Por você ter essa coragem, essa força de vontade e de amar dentro de você mesmo depois daquele acontecimento com o bebê. Temi que você nunca mais fosse se recuperar, mas vejo que você é muito mais forte do que pensei. Que bom para você, Ino! Você finalmente encontrou seu destino! Encontrou uma pessoa com quem gostaria de passar o resto da vida, encontrou alguém em quem consegue confiar plenamente, e abriu suas asas para perseguir esse destino com essa pessoa! Como estou feliz e orgulhosa de você! Espero que dê tudo certo nessa sua nova jornada. Espero que você e Gaara escapem para bem longe, que vivam uma vida pacífica e feliz, como você merece. Não se preocupe, farei de tudo para que Tsunade não te encontre, e irei torcer por sua felicidade, como sei que você torcerá pela minha! Por isso, vá, Ino! Não hesite, não olhe para trás, apenas vá! Voe, voe para bem longe, e não volte para me buscar.

Eu ficarei bem sem você, pois saber que você está feliz já é suficiente para me deixar feliz também, e de consciência tranquila. Por isso, vá. Eu estou feliz por você. Essas lágrimas que agora escorrem descontroladamente e encharcam sua carta com certeza são de felicidade, e não de tristeza, nem de abandono, nem de arrependimento. Isso mesmo, são lágrimas de alegria...

**

Narração em 3ª pessoa

– Sakura, Tsunade-sama está pronta para te ver.

– Obrigada, Kurenai – A Wing de cabelos rosa quietamente se dirigiu à sala de sua mestra, preparada para encarar todas as perguntas e pronta para quaisquer mentiras necessárias para preservar a felicidade arriscada da melhor amiga. Tsunade estava em seu jeito habitual, com um copo de sakê na mão e os olhos presos em alguma notícia de jornal, concentrados por trás dos óculos. Sakura notou que ela parecia cansada, o que já era raro por si só.

– Dessa vez foi Ino, e não você a desaparecer? – Sua voz não continha traços de amargura, mas ela não levantou o rosto para encarar a rosada nos olhos.

– Parece que sim. – Sakura sentou-se timidamente na cadeira de frente para a mesa, esperando a próxima jogada da mestra.

– Minhas meninas estão muito rebeldes ultimamente. Começo a pensar se estou fazendo algo de errado ou se elas é que estão se tornando ingratas demais...

– Não está fazendo nada de errado, Tsunade-sama. – antes de conseguir se impedir, Sakura cortara a mulher. Isso fez Tsunade finalmente olhá-la por detrás dos óculos, bebendo um gole de sakê em seguida.

– Então você diria que Ino fugiu por ter ficado com raiva de mim? Você diria que ela é a errada nessa história? Assim como você na última vez que tentou fugir? – Sakura sabia que deveria tomar o maior cuidado possível com as palavras.

– Acho que nem Ino nem você tem culpa, Tsunade-sama. Você sempre nos criou com gentileza e determinação e nos ensinou tudo o que sabemos. Tenho certeza de que Ino sempre será eternamente grata...

– Então por que ela fugiu? Esse é um jeito estranho de mostrar gratidão, não acha? – A voz de Tsunade estava mais acusatória agora. Sakura tentou amaciar as palavras.

– Acredito que Ino não teve intenção de causar mal algum fugindo, Tsunade-sama. Sim, ela ficou muito abalada depois do último incidente, mas posso afirmar que ela eventualmente entendeu sua decisão de fazer o aborto e posso garantir que não guardava rancor de você. Sei disso porque eu fui a pessoa que mais falou com ela nos últimos tempos. Mas... mesmo tendo entendido, ela não conseguiu se recuperar. Todas nós sabíamos que ela estava instável emocionalmente. Acho que esse na verdade foi um último ato desesperado de sua parte.

– É o que você acha, Sakura? Acha que Ino fugiu porque começou a enlouquecer? – Quando Sakura não respondeu, Tsunade tirou os óculos e recostou-se na cadeira, massageando as têmporas. A rosada finalmente decidiu que era seguro continuar.

– Acho que no fim, ela desistiu de si mesma. – Sakura esperava que sua atuação fosse convincente para enganar a mestra. O plano era fazer Tsunade desistir de procura-la; se a mestra chegasse à conclusão de que não valia a pena procurar por uma Wing quebrada e não mais leal, então Ino poderia continuar fugindo em paz.

– Então acha que essa pode ter sido uma atitude autodestrutiva?

– Considerando o estado emocional dela no último mês, acredito que essa seja uma possibilidade. – Tsunade pareceu pensar e depois olhou fundo nos olhos de Sakura, como se tentasse detectar alguma mentira.

– Então por que ela não se suicidou de uma vez? Por que escolher fugir sabendo que será encontrada ao invés de desistir de uma vez por todas?

– Sinceramente, não sei, Tsunade-sama. Acho que apesar de tudo, Ino tem medo de morrer. Bom, não sei. Conheço-a há tanto tempo, mas parece que nunca cheguei a verdadeiramente entende-la. Nem consegui prever que ela faria algo assim. – Em partes, era verdade; mas Sakura sabia que só assim conseguiria fazer Tsunade acreditar que ela não sabia sobre toda a verdade por trás da fuga de Ino. Afinal, uma boa mentira se faz com meias verdades distorcidas.

– Bom, nem eu consegui. Mas isso não importa. Podemos perguntar diretamente à Ino quando a encontrarmos. – Tsunade bebeu outro gole de sakê e Sakura sentiu seu plano murchar, e ela não tinha nenhuma desculpa para impedir Tsunade disso sem parecer suspeita.

– Tenho a triste impressão de que nunca a encontraremos, Tsunade-sama. – Foi sua última tentativa.

– Oh não, nós iremos encontra-la. Se fomos capazes até de encontrar você, com todas as suas habilidades, tenho certeza de que conseguiremos encontrar uma menina sozinha e quebrada emocionalmente. Além disso, já é a segunda fuga em muito pouco tempo. Não posso deixar os clientes perceberem isso, ou a Organização perderá credibilidade. Vá descansar, Sakura. Amanhã convocarei Shikamaru e junto com as outras Wings, bolaremos um plano de resgate.

Sakura saiu da sala preocupada. Agora que Tsunade já havia decidido encontrar Ino, ela precisaria garantir que esse plano não desse certo. Muitas coisas ainda estavam nebulosas sobre a fuga de Ino: Sakura não sabia como ela a planejara, como havia entrado em contato com Gaara, como havia saído dos terrenos da Organização e onde estava agora. Mas sabia que não poderia deixar Tsunade encontra-la. Logo as notícias sobre o desaparecimento de Gaara, o filho do Senhor Feudal do País do Vento, se tornariam públicas e Temari e as outras meninas logo ligariam os pontos. Sakura precisaria trabalhar muito com seu poder de persuasão para impedir que Temari dissesse algo que pudesse prejudicar Ino ou Gaara.

O sofrimento havia apenas começado, e Sakura duvidava que teria paz em breve.

Blackbird singing in the dead of night

Take these broken wings and learn to fly

All your life

You were only waiting for this moment to arise

Pássaro negro cantando na calada da noite

Pegue essas asas quebradas e aprenda a voar

Toda a sua vida

Você só esteve esperando por esse momento para decolar

The Beatles – Blackbird

Notas finais
Como faz muito tempo que não escrevo, espero que a escrita não tenha saído muito enferrujada e que o capítulo tenha fluido de forma natural. Críticas construtivas são bem-vindas, como sempre :)