Broken Wing - Aprendendo A Voar
31 Capítulo 31 - Todas as Sakuras
Notas iniciais
Mas antes de desmaiar, eu sabia que nunca me esqueceria daquela personalidade assassina e obscura que ela exibiu naqueles vinte segundos.
Sasuke’s POV
Estava tudo escuro, mas não estava calmo. Eu sentia como se ainda estivesse lá. Naquele porão, com as dores por todo o meu corpo. Isso porque eu ainda sentia as dores. Sentia meu corpo reclamar por conforto, sentia que ninguém viria me tirar dessa escuridão. Aos poucos comecei a me acalmar, afinal as dores ainda estavam lá, mas não pioravam. Os ataques haviam parado. Eu não ouvia mais gritos ou vozes desconhecidas.
Comecei a discernir o que estava acontecendo quando retomei a consciência. Doía abrir os olhos. Doía ver a luz do dia refletir em meus olhos recém-abertos. Mas não era nada comparado ao resto do meu corpo. Quis gritar como se isso fosse ajudar a dor passar. Mas eu estava em um estado entorpecido, de modo que de minha boca não saía nenhum som.
Fui me acostumando com a luz até ela parar de machucar meus olhos, vinda de uma janela com os vidros fechados e meio coberta por uma cortina branca. Me vi deitado em uma cama, com a parte superior um pouco inclinada. Ótimo, um hospital. Mas por que eu estava aqui? Pensar parecia ser tão complicado...
– Sasuke, você está bem? Consegue me entender? – virei o olhar vagarosamente para o lado. Meu tio Yusuke estava lá, no quato particular cheirando a álcool ou formol, ou qualquer cheiro que tenha um quarto de hospital. Ele me olhava preocupado.
– Tio, o que aconteceu? – minha voz saiu mais rouca e fraca do que eu esperava. Até falar doía. Não só minha garganta, que raspava, mas também meus olhos. Como falar poderia fazer meus olhos doerem?
– Bem, muita coisa aconteceu. – a voz de meu tio soava acusatória. – Quando você estiver melhor para falar, seu pai vai querer ouvir sua versão completa dos fatos.
– Meu pai está aqui? – ótimo. Não sei o que eu havia feito de errado, mas se até meu tio me olhava feio, meu pai iria entrar no quarto de chicote.
– Está trabalhando. Vou avisar que você acordou e a noite ele vem te ver, junto com sua mãe.
– Eu fiquei apagado por quanto tempo? – falei enquanto meu tio se levantava da poltrona ao lado da cama.
– Alguns dias. Parte por causa dos ferimentos. – ele deu um olhar de repulsa para meu corpo – E parte por causa da sua operação no nariz.
Eu fiz uma operação no nariz? Levei a mão ao meu rosto e senti um esparadrapo colado na ponte do meu nariz. Tocá-lo doeu. Mas ainda faltava coisa naquela história. Repeti a primeira pergunta que fiz quando acordei:
– O que aconteceu? – meu tio desligou o celular e meu olhou, paciente.
– Não se lembra, Sasuke? – espere, eu estava começando a me recordar.
Sim, eu estava em um porão. Em um cômodo pequeno e mal cheiroso, com quatro homens mal encarados. Eles queriam alguma coisa de mim... sim, queriam saber onde estava Meiko, eles descobriram que eu estava com ela. E me agrediram. Isso mesmo, era daí que vinha toda essa dor que eu estava sentindo agora.
E depois, quando eu senti que fosse ser meu fim, ela apareceu. Sakura apareceu em sua pele mais perigosa e assustadora possível. Ela matou os quatro criminosos em questão de segundos, e a última coisa que eu me lembro é de correr para perto de mim e me socorrer. Devo ter perdido a consciência nesse ponto. Droga, muita coisa devia ter acontecido a partir daí. Onde estavam Sakura e Ino? Onde estava Meiko?
Olhei para o meu tio querendo fazer essas perguntas e muitas mais, mas ele não sabia sobre Meiko. Ou sabia agora?
– Tio. – fiz menção de me levantar, mas a dor abaixo de meu peito me fez soltar um gemido alto de dor e eu fui obrigado a me deitar novamente.
– Não se esforce Sasuke, só vai piorar a dor.
– Não tem como piorar. – falei fazendo uma careta enquanto esperava passar.
– Bem, isso não me surpreende. Você está com quatro costelas fraturadas. Sem falar do seu rosto e... bem, eu devia deixar você descansar. Você já está recebendo soro e morfina, então só precisa ser paciente até a dor melhorar. – ele fez menção de sair do quarto, mas eu o chamei.
– Tio. – ele parou na porta do quarto e me olhou. Tentei ter cuidado com as palavras. – Hum, é... tem mais alguém pra me visitar? – ele suspirou e me olhou cansado.
– Tem. Vou chama-las.
Eu obviamente estava falando de Sakura. Ou Ino. Ou Meiko. Ou as três. Não sei o que aconteceu com elas depois do meu desmaio, e seria uma impossibilidade minha família não ter descoberto sobre elas depois desse meu “incidente”.
Falando em incidente, agora que eu estava sozinho, comecei a prestar mais atenção nas áreas doloridas de meu corpo e por que elas doíam. Toquei meu nariz recém-operado novamente. Estava me incomodando ao respirar, mas acho que ficar com um nariz quebrado seria pior. Minha testa estava enfaixada, com gazes e algodões em uma das regiões temporais. Deve ter sido a primeira pancada que recebi antes de ser levado ao porão. Também toquei a região logo abaixo de meu olho esquerdo, e me arrependi imediatamente, pois o toque doeu quase tanto como tinha doído a lesão. Dava para perceber que estava inchado no local onde Kenji Yoda havia me acertado com o cano de metal. Certo, meu nariz estava com curativos, minha cabeça toda enfaixada e toda a região abaixo e em volta do meu olho estava roxa. Eu devia estar lindo.
Descendo o olhar, meu tórax e abodmen estavam brancos. De faixas. Meu tio disse sobre minhas costelas fraturadas, com razão, elas estavam muito bem enfaixadas, até apertado demais. Na lateral esquerda de meu abdômen, mais algodão e gases, cobertos por mais faixas, chegando a cobrir meu umbigo. Sim, eu lembrava da maldita facada que havia tomado. Devo ter desmaiado por falta de sangue. Uma mancha vermelha se destacava no local do ferimento, quebrando o branco das faixas. Se eu me esforçasse demais, era capaz de abrir o corte. Levantei o lençol que cobria minhas pernas só para descobrir que uma de minhas canelas estava imobilizada. Claro, agora eu me lembrava daquele cano maldito ser chocado contra minha tíbia. Meu osso devia estar em frangalhos.
Como se ainda não bastasse, meu antebraço esquerdo também estava enfaixado perto do pulso. Outro presente da dona faca. Além disso, saquinhos de soros e analgésicos estavam pendurados ao lado da cama, conectados em mim por agulhas em minhas veias, e um oxímetro em meu indicador direito. A situação não poderia estar mais maravilhosa. Dei um longo suspiro, mas me arrependi na hora. Minhas costelas doeram ainda mais com o esforço da respiração. Merda, tudo doía.
Ouvi a porta do quarto se abrir e três pessoas entrarem. Na frente estava Ino, seguida por uma menininha loira com os olhos vermelhos e inchados. Meiko esteve chorando?
– Está tudo bem, Gatinha. – Ino dizia à menininha, que se aproximava hesitante de minha cama. – O Sasuke está bem, olha.
– Eu estou bem, Meiko. – menti. Ela me olhou assustada, e depois para todas as faixas em meu corpo. Droga, eu devia ter me coberto com o lençol.
– Você vai morrer, Sasuke? – ela perguntou chorosa.
– Não, ninguém vai morrer. Eu só estou um pouco machucado. – vi Ino me olhar duvidosa. Tenho certeza que se Meiko não estivesse ali, ela iria dizer “Um pouco?”, mas agradeço por ter segurado a língua.
– Não está doendo?
– Não.
– Mas... você está no hospital. E...
– Está tudo bem. Não acredita em mim? – ela limpou outra lágrima dos olhos, e se aproximou mais da minha cama. Quis levantar para tranquiliza-la, mas a dor nas costelas não me deixava.
Ela tocou em meu braço e tentou fazer uma expressão forte.
– Você vai sarar logo? – perguntou com os olhos verdes inchados.
– Vou sim. – tentei sorrir. Ainda bem que eu não havia perdido nenhum dente.
– Gatinha, que tal comer alguma coisa da lanchonete? Você não comeu nada o dia inteiro de novo. – Ino falou, e as palavras dela me alarmaram. Olhei para a Gata.
– Não comeu? Por quê? – Ino fingiu uma tosse para me chamar atenção e sussurrou por cima de Meiko.
– Sasuke, ela estava preocupada com você. – merda, me senti culpado por tudo o que aconteceu.
– Não precisa ficar preocupada, Gata, eu estou bem. Agora promete que vai com a Ino comer alguma coisa?
– Mas eu quero ficar aqui com você.
– Primeiro você precisar comer, tá? – Ino falou, gentil. – E o tio Sasuke tem que conversar com a tia Sakura. Vamos comer e depois eu te trago aqui de volta, combinado?
– Tá. – ela disse, me deu “tchau” com a mão e seguiu Ino para fora do quarto.
Eu estava consciente da presença de Sakura atrás delas, mas preferi ignorar enquanto pude. Mas agora que me via sozinho com ela, não havia mais como.
Comecei a me lembrar da última visão que tive dela antes de vir parar no hospital:
Eu a vi ali, e por um momento pensei que tudo ficaria bem. Ela viria até mim e me estenderia a mão, e sairíamos andando normalmente daquele ambiente hostil. Mas não foi assim. Em cerca de segundos, Sakura havia mostrado um lado de si mesma que eu sabia que existia, mas nunca imaginei confrontar. Seu lado assassino, seu lado frio e sem sentimentos, que a faziam uma perfeita aprendiz de Tsunade. Eu fiquei com medo de tê-la ali. Sim, eu estava ciente de ela ter me salvado, eu só... nunca imaginei que uma pessoa poderia assassinar outras de maneira tão fria e indiferente como Sakura fez naquele porão.
– Então... – ela cortou o silêncio. Sakura nunca cortava o silêncio. Era sempre eu quem começava nossas conversas.
– Obrigado. – falei rapidamente, sem olhá-la. – Por me salvar. – arrisquei um olhar, e o rosto dela mostrava angústia e indignação, mas a resposta dela foi gentil.
– Ah... por nada. – ela se aproximou, colocando os braços na frente do peito como se tentasse se proteger do frio, apesar de ser primavera. Percebi que estava com medo de falar algo. – Como se sente? – ela disse por fim.
– Dolorido. – respondi. Tentei dar uma risada, mas acabei soltando um gemido de dor por causa das costelas.
– Desculpe. – ela disse de repente, e tão baixo que a princípio pensei ter ouvido coisas.
– O que? – ela estava com o rosto baixo, escondido pelos soltos cabelos cor-de-rosa.
– Desculpe. – ela falou mais alto com a voz embargada. Não entendi o motivo daquela palavra.
– Por que está se desculpando?
– Você quase morreu. – ela falou com um tom bem diferente do que geralmente usava. Tá, confesso que eu estava mal, mas não deve ter chegado a tal ponto de minha vida correr perigo.
– E você me ajudou. – falei desentendido. – Está se desculpando por me salvar? Queria me ver morto? – tentei descontrair e rir de leve, mas de novo, deixei escapar um som de protesto por minhas costelas.
– Pare de fingir que está tudo bem! Olhe o seu estado! – seria preocupação esse tom na voz dela? Estava diferente das outras vezes. Olhei para mim mesmo e concordei que aquela cena era decadente.
– É, tem razão. Mas por que está se desculpando?
E então eu vi algo que nunca vi antes. Sakura estava chorando. Sim, chorando. Ela olhou para mim e sua expressão estava cansada, seus olhos entre-abertos e lágrimas saíam deles. Seus lábios tremiam.
– Sakura, por que está... – tentei dizer gentil, mas ela negou com a cabeça.
– Foi minha culpa. Foi minha culpa você quase ter morrido. – o que? De onde ela tirou aquilo? Era por isso que ela estava chorando?
– Sakura, não foi sua culpa. Eu acabei de dizer obrigado por ter me salvado. – ela continuou negando com a cabeça, e as lágrimas dela continuavam a cair.
– Não, Sasuke. Eu tinha uma missão. E eu falhei. Se eu tivesse atendido suas ligações naquela tarde, se eu tivesse tomado mais cuidado com os criminosos, você não estaria aqui. – eu a olhava incrédulo. Sakura falava com a voz cheia de culpa. – Se eles não tivessem cometido o erro de te levar para aquele porão e não a outro lugar, nunca teríamos te encontrado. E você estaria...
– Sakura, Sakura! – arrisquei falar mais alto, ignorando a dor nas costelas e toquei sua mão. Ela olhou para mim, assustada. – Não foi sua culpa. Eu que fui burro e tapado o suficiente para ir sozinho ao encontro de quatro criminosos.
– Não, Sasuke, você não está entendendo. – ela continuou, me olhando. – Eu e Ino nunca poderíamos ter deixado isso acontecer. Nós não descobrimos que eles poderiam se encontrar em outros lugares e fomos descuidadas porque eles obviamente descobriram sobre a sua relação com aquela criança e...
– Não, aquilo foi minha culpa. – falei rápido tentando fazê-la parar de sentir culpa. – Eu fui na delegacia antes falar com Yoda, foi de lá que ele me reconheceu.
– Não, Sasuke. Nós deveríamos ter previsto isso. Nós deveríamos ter te protegido também. E devíamos ter planejado aquilo com mais cuidado, e agora...
– Agora eu estou vivo. – falei, cortando-a. Ela me olhou assustada de novo. – Graças a você, Sakura. Eu estou vivo. – ela me olhou mais triste ainda.
– Desculpe, Sasuke. – antes que eu pudesse cortá-la, ela continuou. – Desculpe ter permitido que aquela situação acontecesse com você. Desculpe por quase chegar tarde demais. E desculpe por ter feito você presenciar aquela cena no porão.
Eu teria agradecido mais ainda se ela não tivesse falado essa última parte. A cena quando Sakura se transformara em um anjo das trevas e matara sem mostrar piedade ou sentimentos os quatro homens dali, em segundos. Sem hesitar. Sem piscar.
– Eram eles ou eu, não é? – sorri de canto. Ela me olhou e soltou um suspiro.
– Não precisa fingir que não ficou perturbado. Ou que isso não dói. – ela apontou para as faixas em minhas costelas.
– Já passou, Sakura. Não precisa se desculpar. Estou agradecido por ter salvado minha vida. – falei sincero, olhando-a diretamente nos olhos. Ela me encarou de volta, e depois olhou para as faixas de novo, e seu olhar ficou preocupado.
– Está sangrando. – ela disse analisando o curativo no local onde a faca perfurara.
– Já estava assim.
– Droga, há quanto tempo aquelas enfermeiras patéticas não trocam as bandagens? – ela disse em tom de raiva.
Sakura levantou-se bruscamente e começou a procurar no quarto por alguma coisa. Quando percebi, estava retirando as faixas ensanguentadas do meu abdômen.
– Ei, não precisa fazer isso. – tentei me levantar para impedi-la, mas foi uma péssima ideia. Por que eu me esquecia das minhas quatro costelas fraturadas? – Ai, ai. – ela me olhou preocupada. – Estou bem.
Ela deixou meu abdômen ferido exposto, com a nova cicatriz. Estava vermelho ao redor da região, e sangrando também. Me senti vulnerável com ela olhando meu ferimento daquela forma e começando a cuidar dele. Me senti fraco e inútil. Um idiota por ter deixado-a preocupada. Por ter caído na armadilha dos criminosos. Por ter deixado eles me ferirem como quisessem. E agora era Sakura quem estava ali, ao meu lado, com os olhos secos, o nariz entupido do choro e a expressão de culpa. Não queria que ela cuidasse de mim. Queria que ela me deixasse sozinho. Estava difícil ser tratado por uma pessoa que poderia me matar se eu desviasse ao olhar.
Ela umedeceu o algodão em um antisséptico de cheiro forte e começou a passa-lo ao redor da região não cicatrizada. Ardeu muito e contrai meu corpo ao mero toque. Abafei um gemido de dor. Ela voltou a tocar o algodão em minha pele com a maior gentileza do mundo. Ardeu de novo e meu abdômen se contraiu. Respirei pesadamente.
– Desculpe. Eu vou chamar a enfermeira. – ela disse de repente.
– Não. – para a minha surpresa, e a dela também, eu respondi. – Prefiro que você faça.
Ela me deu um sorriso e a tristeza abandonou um pouco seus olhos. Ela voltou a passar o algodão em volta do corte, devagar e com cuidado. Continuou ardendo, mas eu consegui evitar me contrair do líquido gelado e de cheiro forte. Certo, era fato que eu talvez me sentiria mais confortável com uma enfermeira. Ainda estava assustado e com receio de Sakura depois de ela ter mostrado seu lado obscuro. As mãos que agora cuidavam de mim, delicadas e macias, eram as mesmas mãos que haviam puxado o gatilho três vezes em cinco segundos, eram as mesmas mãos que tiraram a vida de quatro pessoas sem nenhuma culpa.
E mesmo assim, a culpa que ela não sentia pelas vidas perdidas daqueles homens ela sentia comigo, como se meus atos estúpidos fossem responsabilidade dela. Os mesmos olhos frios que encararam suas vítimas antes de morrerem eram os mesmo que haviam derramado lágrimas de preocupação para comigo. Sakura continuava sendo um mistério para mim. Quando eu pensei que tivesse entendido mais um pouco sobre sua personalidade, ela me surpreende totalmente. Foi horrível vê-la naquele porão, cometendo assassinato. E ao mesmo tempo foi maravilhoso. Ela me salvou. Arrancou vidas para salvar a minha.
Sakura terminou de passar o antisséptico em meu corte, e agora pegava algodões e gazes. Cobriu a cicatriz recente delicadamente com alguns e passou as novas faixas em volta. Engoli reclamações de dor quando tive que me curvar para ela passar as faixas por minhas costas, mas o resultado final havia ficado bem melhor. É mesmo, Sakura tinha um tipo de diploma em medicina por causa de Tsunade. Isso era muito contraditório. Ela sabia o que fazer para matar, mas também sabia o que fazer para curar.
Olhei-a agradecido, e ela me olhou ainda com o olhar culpado.
– Você é incrível. – eu falei baixo, mais para mim do que para ela. Não sei o motivo daquelas palavras. Foi involuntário. Só saiu. Ela me olhou como se não acreditasse em seus ouvidos, e deu um sorriso triste.
– E você é...
O que eu era? Ela nunca chegou a dizer. Não sei se ia me elogiar ou me xingar, mas ela nunca terminou aquela frase. Só calou-se de repente, como se terminar aquela frase fosse um erro.
– Desculpe, Sasuke. – ela estava se desculpando demais. Aquilo não era normal.
É como se fossem Sakuras que eu nunca havia visto. A primeira Sakura que eu conheci foi a que gostava de adrenalina. Invadiu minha casa, me roubou, fugiu, e depois voltou, só para começarmos uma guerra, duas crianças querendo brincar com fogo. Nessa mesma época, eu vi a Sakura mulher, a Sakura com sentimentos por mim. Depois ela foi embora. Quando voltou, era a Sakura covarde, a Sakura hostil e medrosa de expressar seus sentimentos. Depois era a Sakura mulher de novo, gemendo meu nome deliciosamente com sua voz de seiva de cerejeira. Depois era a Sakura assassina, a Sakura perigosa e fria, que matava sem piscar. E a Sakura que eu via agora na minha frente era a Sakura sensível, a Sakura gentil e materna, uma Sakura cheia de timidez, culpa e ressentimentos. Eu não sabia qual dessas Sakuras era a verdadeira. E não sabia tudo sobre cada uma delas.
Mas uma coisa que eu sabia era que eu queria desvendar todas essas Sakuras. Queria todas essas Sakuras por completo, mesmo parecendo loucura.
– Já disse que não precisa se desculpar. – olhei-a com o cenho franzido, tentando decifrá-la. Com qual das Sakuras eu estava falando agora?
– Sasuke, por conta da minha falha, a notícia sobre Meiko se tornou pública. – ela disse como se fosse uma confissão, como se esperasse ser condenada. – Sua família sabe, o conselho tutelar sabe, a polícia já sabe, e o que ocorreu no porão do Yoda já virou primeira capa dos jornais.
Engoli em seco. Aquilo era um problemão. Mas não era culpa dela. Era culpa minha. Eu havia estragado o plano delas ao cair na estúpida armadilha daqueles estúpidos criminosos.
– Parece que eu perdi muita coisa enquanto estava desacordado. – falei sem emoção. – Mas não foi culpa sua. – acrescentei rápido, e espero que ela tenha notado a sinceridade em meu olhar.
Não sei por que, mas às vezes, Sakura me olhava diretamente nos olhos como se estivesse presa por eles, e eu não sabia no que ela pensava quando fazia isso. Parecia atraída demais para se desviar deles e ao mesmo tempo insegura demais para continuar olhando para eles.
– Bem, o estrago não foi tão grande. – ela desviou do meu olhar e olhou os próprios pés. – Só sabem parte do que aconteceu. Sabem que você teve um dedo nessa história, mas seu pai espantou todos os jornalistas. O bom é que reabriram o caso do assassinato dos Okazaki, e já sabem sobre a corrupção de Yoda e sua ex-gangue.
Ela havia tocado no assunto. Me vi tentado a perguntar como ela explicou os quatro assassinatos, sendo que não era policial e fazia parte de uma organização ilegal. Mas eu não queria falar sobre aquilo. Porque se assim fosse, eu estaria abrindo uma conversa com a Sakura assassina.
– Como a mídia retratou a morte deles? – não consegui evitar a pergunta. A Sakura perigosa fazia parte da Sakura, e eu não podia mudar isso.
– Primeiro pensaram que você os tinha matado em legítima defesa. – fiz um olhar horrorizado. – Mas é claro que eu e Ino contatamos Tsunade e ela mexeu os pauzinhos. Vocês, Uchiha, não são nossos únicos clientes influentes em Konoha. Mas depois que a verdade sobre os Okazaki e o tráfico de crianças vieram a tona, acredito que as pessoas se sentiram aliviadas por eles estarem mortos.
– Tráfico de crianças? – daquela parte eu não sabia, mas me lembrava vagamente.
“E ele está com ela, imbecil! Ela é a criança que precisamos entregar para ter o primeiro pagamento!”
– É, umas histórias sujas a respeito deles. Mas não é com isso que você precisa se preocupar agora. – Sakura disse, se encolhendo e olhando para a porta do hospital.
Virei meu olhar na mesma direção e entendi o que ela queria dizer. Pela porta, passaram minha mãe, com um olhar preocupado, meu irmão, com um olhar entediado, meu tio, com um olhar cansado, e meu pai, com um olhar furioso.
Sim, acho que eu teria problemas em explicar por que estava com uma criança órfã a meus cuidados, por que havia chamado Sakura e Ino, por que havia me envolvido com assassinos e quase ter sido morto e por que eles tinham sido os últimos a saber.
Diga, quem você é me diga
Me fale sobre a sua estrada
Me conte sobre a sua vida
Tira, a máscara que cobre o seu rosto
Se mostre e eu descubro se eu gosto
Do seu verdadeiro jeito de ser
Pitty — Máscara
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