Broken Wing - Aprendendo A Voar

32 Capítulo 32 - Tsunade - The Return


Notas iniciais
Olá, espero que tenham tido uma boa virada de ano :) Aqui está o capítulo, espero que gostem, e mais nas notas finais. Boa leitura ;)

Sim, acho que eu teria problemas em explicar por que estava com uma criança órfã a meus cuidados, por que havia chamado Sakura e Ino, por que havia me envolvido com assassinos e quase ter sido morto e por que eles tinham sido os últimos a saber.

Sasuke’s POV

Meu pai me olhava furioso, e o quarto havia entrado em um profundo silêncio. Até respirar parecia errado quando meu pai me olhava daquele jeito. Ele se virou para Sakura e não precisou falar nada para ela entender que deveria nos deixar a sós. Ela não me olhou de volta, apenas abaixou a cabeça e saiu sem fazer barulho, fechando a porta. Minha mãe se aproximou da cama.

– Sasuke, como você está se sentindo? Ficamos tão preocupados. – ela me olhava com gentileza e preocupação.

– Estou bem, mãe. – respondi curtamente, sem desviar o olhar de meu pai.

– Deixe isso para depois, Mikoto. Há coisas mais importantes para conversarmos agora. – meu pai andou até a outra extremidade da cama, de modo que ficamos cara a cara.

– Mais importantes do que o bem-estar de seu filho? – minha mãe falou com o tom mais indignado que conseguiu. Não passou de um sussurro no quarto.

– O fato de Sasuke estar aqui é inteiramente culpa dele. – ele deveria dizer isso a Sakura. Soava muito mais convincente do que quando eu dizia.

– Fugaku, deixe Sasuke respirar um pouco, por favor.

– Mikoto, eu não saí mais cedo da empresa para vê-lo tomar soro.

– Muito bem. – minha mãe se levantou, ofendida. Ser uma mulher tão gentil em uma família de homens hostis como meu pai deveria incomodá-la em certo momento. – Vejo que vocês não precisam da minha preocupação agora. – ela virou-se para mim. – Eu volto mais tarde, querido.

Voltei a encarar meu pai. Seu olhar era impassível e impenetrável. Frio e seco.

– Eu pensei em várias formas de começar essa conversa, Sasuke. Nenhuma pareceu apropriada para expressar o quanto você nos transtornou. Tem ideia do tanto de problemas que nos causou? – ele não gritava, mas a raiva estava contida naquelas palavras. – Com a polícia, com o conselho tutelar, com a mídia? Honestamente, quando você irá crescer?

– Fugaku, mantenha a calma. – meu tio interferiu. Meu pai deu um suspiro que pareceu aliviar toda a sua raiva, me olhando em seguida com fuzis no lugar dos olhos.

– Eu vou te dar uma última chance de se explicar desde o começo e sem esconder nenhum detalhe de toda essa história. – ele cruzou os braços, esperando minha resposta. – Vamos, comece.

Abri a boca umas duas vezes, mas não sabia o que dizer. Como eu iria explicar tudo aquilo? O objetivo era não fazer minha família saber sobre Meiko por causa das reações que eu via agora. E no momento eu não me importava com quais palavras meu pai iria me xingar ou se ele iria me deserdar da família, eu não queria ele decidindo o futuro de Meiko, a garotinha que tentei proteger a todo custo. Sendo assim, fiquei sem responder por alguns segundos, o que é muito tempo para a micro-paciência de Fugaku Uchiha.

– Perdeu a língua, Sasuke? – veio a voz dele de novo. – Ou precisa de um estímulo para começar? – engoli em seco, tentando encontrar quaisquer palavras iniciais. – Certo, por que não começa falando então sobre aquela menina órfã que por algum motivo estava morando na sua casa?

– Eu a encontrei. – minha voz saiu menos firme do que eu pretendia. – E ela estava sozinha. – como se aquilo fosse causar algum tipo de sentimento de compaixão em meu pai.

– E por isso resolveu cria-la como um bichinho de estimação?

– Não fale assim dela! – eu não admitiria ninguém falando daquela menininha como se ela fosse um caso perdido. Infelizmente, falar requeria ar. E o ar passava pelos meus pulmões, que ficavam em minha caixa torácica, que no momento estava com quatro das costelas fraturadas. Senti uma fisgada forte na área da lesão e me encolhi na cama.

– Fugaku, claramente essa não é a melhor hora para essa conversa. Deixe ele descansar. – meu tio interferiu.

– Não, Yusuke, claramente ele já consegue aumentar o tom de voz para me desafiar. – meu tio se calou e voltou para seu canto. Meu pai me olhou irritado, e eu respondia com o mesmo olhar. – O que te fez pensar que poderia ficar com essa menina?

– Ela estava perdida, sem família e havia quatro homens atrás dela, caso não tenha ficado sabendo da história completa. – usei o mesmo tom de voz dele, o que obviamente o irritou ainda mais.

– Por isso a solução era escondê-la na sua casa até que um milagre acontecesse?

– Eu estava tentando ajuda-la. Desculpe se você é tão superficial e mesquinho que não consiga entender isso. – eu sabia que aquelas foram as palavras erradas a dizer no momento em que saíram da minha boca. Mas eu não me arrependi em nenhum segundo de ter dito aquilo.

Meu pai me olhou com fúria e desprezo.

– Você é impossível, Sasuke. Claramente não sabe seu lugar no mundo.

– Em que mundo? No seu, onde eu sou mais um fantoche para expor à mídia até ficar como você?

– Seu moleque insolente. – ele havia contornado a cama e agora estava próximo a mim. – Como ousa falar assim de mim? Eu te dei tudo o que você tem, eu te apoiei em todas as suas decisões e agora você me recompensa com essa confusão e com esses insultos a mim?

– Certo, já chega por agora. – o estúpido do Itachi havia finalmente revivido. – Pai, deixe isso para mais tarde.

– Não, Itachi, aparentemente seu irmão não tomou tantas cintadas na infância quanto deveria.

– Pai, acalme-se. Aqui é um hospital e Sasuke não se recuperou da cirurgia. Deixe que eu falo com ele. – pior ainda. Itachi era uma versão mais nova e mais lenta do meu pai, só isso.

– Ingrato. – jogando essas palavras a mim, meu pai saiu do quarto, seguido de meu tio, sobrando eu e Itachi.

Do lado de fora, ainda consegui ouvir suas palavras:

– Enquanto um chama atenção da mídia porque vai casar, o outro chama a atenção porque ainda não cresceu. – ótimo, era tão legal ser comparado ao perfeito do meu irmão na frente dele.

Desviei o olhar de Itachi, apesar de ele continuar me encarando.

– Não devia ter dito aquelas coisas para o papai.

– Só disse a verdade. Direi de novo se for preciso.

– Não, não dirá.

– Você não manda em mim. – Itachi soltou um riso de lado, de deboche.

– Você me falava a mesma coisa quando tinha cinco anos.

– Vou continuar falando até ter 60. Você não manda em mim. – não sei o que Itachi pensava que podia falar para mim. Ele só deu um suspiro e foi até a janela, olhando a cidade, e falando comigo em seu tom sempre calmo.

– Não sei que outra reação você esperava do papai depois da confusão em que se meteu.

– O que vai acontecer com Meiko? – era a pergunta que estava me incomodando. – Ele vai querer decidir o destino dela também?

– O destino dela não está nas mãos de nosso pai. Mas você deveria ter sido mais responsável quando a encontrou. Deveria ter chamado a polícia...

– Claro, o lugar onde um dos assassinos da família dela trabalhava. – meu tom sarcástico valeu a dor nas minhas costelas.

– O conselho tutelar, – ele me ignorou – alguma instituição de apoio às crianças, mas Sasuke, esconder a menina na sua casa? Que tipo de comportamento infantil foi esse? – ele parecia o diretor de alguma escola me dando bronca.

– Nenhum de vocês viu o estado dela quando eu a encontrei. Você acha que eu poderia deixa-la em algum lugar repleto de estranhos para analisa-la como se ela fosse uma mercadoria e manda-la para onde bem entendessem?

– Acalme-se, Sasuke.

– Não, não vou me acalmar, Itachi. – minhas costelas doíam e o corte em minha barriga ardeu. Mas eu não me importava. – Aquela menina estava morta quando a encontrei. Não confiava em mais ninguém. Estava perdida. Sozinha, abandonada. Eu não ia abandoná-la de novo na porta de algum orfanato.

– E pensou que poderia cuidar dela para sempre? – ele havia se alterado. – Pretendia escondê-la para sempre?

– Não, seu idiota, eu sabia que não poderia ficar com ela. – às vezes Itachi era tão irritante. – Mas ainda havia gente atrás dela, querendo abusar dela e trafica-la, segundo fiquei sabendo.

– E então você resolveu dar uma de herói da história. – aquilo era tão ridículo que nem me dei ao trabalho de responder. Bufei, ingorando minhas costelas protestantes e desviei o olhar dele. Ficamos em silêncio por um minuto inteiro.

– Eu só queria dar justiça a ela.

– Justiça? Sasuke, você não é o responsável pelo destino dela.

– Ótimo, Itachi, diga que foi errado eu tentar tirar quatro assassinos, sequestradores, pedófilos e traficantes da sociedade. Diga que foi errado ajudar uma menininha abandonada. Joga na minha cara que eu vou para o inferno por causa disso, veja como eu sou mau!

Não era minha intenção ficar com raiva daquele jeito, mas Meiko não merecia o jeito como todos a julgavam. E eu não ia admitir que meu irmão e meu pai me dissessem a decisão correta que eu deveria ter tomado. E o que havia de errado em tentar ajuda-la? O que havia de errado em desmascarar criminosos filhos da puta para impedir que mais tragédias como as de Meiko acontecessem?

Mas no fim, acho que me exaltei. Eu havia falado muito alto, usado todo o meu fôlego e agora estava com falta de ar. Comecei a tossir. Meu irmão saiu do quarto e foi chamar a enfermeira. Odiei aquilo. Parecer fraco e vulnerável daquele jeito. Mas foi bom a enfermeira ter chegado, porque eu realmente não estava conseguindo respirar.

Ela foi até mim, me forçou de costas na cama e pediu a Itachi para segurar meus ombros. Odiei ainda mais aquilo, mas não conseguia falar com falta de ar. Ele o fez e ela pressionou meu peito, e depois ajeitou minhas costelas fraturadas. Eu não precisei do estralo para gritar de dor quando meu ar finalmente voltou. Estava sentindo uma pressão enorme no peito, eu sentia que nem conseguiria levantar. Minha respiração voltava ao normal aos poucos, mas a dor da relocação dos ossos não havia diminuído.

– Por favor, tentem evitar situações extremas. – a enfermeira falou em um tom gentil. – O paciente precisa de repouso total. – ela fez uma reverência e saiu do quarto.

Logo depois, minha mãe entrou correndo, seguida de meu pai e meu tio. Ótimo.

– O que aconteceu, Itachi? O que a enfermeira veio fazer aqui? – ela perguntou preocupada, me olhando. – Sasuke, você está bem?

Não consegui responder, só acenei um “sim” brevemente.

– O que aconteceu? – meu pai perguntou. Como se agora ele se importasse.

– Acho que alguma fratura se soltou, mas a enfermeira já relocou.

– Nós ouvimos um grito. – sim, pai, caso não saiba, ajeitar seus ossos dentro de você dói.

– Eu disse para deixarem isso para depois. – minha mãe começou.

Esse era um momento que eu gostaria que me deixassem sozinho. Estava com dor, estava irritado com todos, estava preocupado com Meiko e claramente não poderia ficar discutindo. Mas não, Fugaku Uchiha tinha que ter a palavra final.

– Desculpe por mais cedo, Sasuke. – o que? Eu estava ouvindo direito? – Admito que me descontrolei um pouco, mas você também não deveria me desrespeitar daquele jeito. – claro, a culpa nunca era inteiramente dele.

Acenei com a cabeça e tentei dizer “desculpe” só para não parecer mal educado, mas saiu somente em um sussurro.

– Bem, amanhã podemos conversar melhor e com mais calma. – meu pai finalizou.

Amanhã, porque agora você precisa descansar, Sasuke. Acho que a enfermeira já vai trazer sua janta. – fome era o que eu menos sentia na hora.

A porta do quarto se abriu, revelando Ino e Meiko. A expressão da minha família congelou. A tímida menininha olhou para todos eles com medo, mas ao invés de se esconder, foi até meu tio, o mais próximo da porta.

– Eu sou Meiko, mas pode me chamar de Gata. Você é o pai do Sasuke? – para minha surpresa, a vozinha inocente dela havia se manifestado no quarto. Todos olhávamos para ela com curiosidade.

– Não, eu sou o tio do Sasuke. Yusuke. – meu tio respondeu, gentilmente.

– Prazer, Yusuke-san. – Gata estendeu a mãozinha para ele, e ele, surpreso, estendeu de volta.

Em seguida, ela foi até meu irmão.

– Você é irmão do Sasuke? – Itachi afirmou levemente. – Eu sou a Gata. – ela estendeu a mãozinha de novo, e Itachi a pegou hesitante. – Você é parecido com ele. Mas seus cabelos são compridos. E você é mais sério.

Ela foi até meu pai, deixando Itachi de boca aberta. Eu me divertia com a cena.

– O sr. é o pai do Sasuke? – meu pai também acenou friamente. – Eu sou a Gata. – ela estendeu a mãozinha, mas ele quase não a tocou. – O sr. está bravo? – ela perguntou, e meu pai acenou que não.

Em seguida, se virou para minha mãe.

– Como você é bonita. É a mamãe do Sasuke? – acho que minha mãe ficou contente pelo elogio, porque sorriu e apertou a mão da Gata.

– Sim, eu sou. Você também é bonita, menininha. – Gata sorriu e se virou para mim.

Só agora percebi que ela estava carregando alguma coisa.

– Eu pensei que você estivesse com fome, Sasuke. Então eu trouxe uma gelatina para você. – ela me estendeu um pote de gelatina e uma colher de plástico. Estendi a mão.

– Obrigado, Gata.

– Posso ficar aqui com você? – não ousei encarar os rostos de minha família.

– Pode, mas o horário de visitas já vai acabar.

– Não quero que acabe. Eu não vou poder voltar para sua casa. – não sei como me senti quando ela falou aquilo.

Afinal, eu nunca havia conversado com ela sobre seu destino. Nunca a avisei que ela não poderia ficar comigo para sempre. Provavelmente ela iria para algum orfanato agora. Me perguntei se ela me odiaria por deixa-la em um lugar desconhecido, ou se choraria implorando para que alguém ficasse com ela.

– Desculpe, Gata. – foi a única coisa que consegui dizer. Esperei o choro. Que não veio.

– Está tudo bem. Eu me diverti com você. – me surpreendi por ela entender a situação. – Você me deu doces para comer, fez leite para mim, me deixou assistir TV, chamou a Ino para brincar comigo. Eu fiquei feliz.

Ino estava encostada à porta, tentando parecer invisível.

– Obrigada, Sasuke. – ela me deu um sorriso. – Você me salvou. – eu não aguentaria se ela me odiasse por ter que deixa-la agora. Agora, eu só poderia oferecê-la desculpas.

– Desculpe, Meiko.

– Por quê? – ela parecia confusa com aquilo.

– Eu não vou poder ficar com você. – falei baixinho.

– Eu sei que não. – ela falou como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo. – A moça gentil me disse que agora eu vou para um lugar com mais crianças como eu. Ela disse que eu vou poder brincar, ir à escola e comer bastante. – como ela poderia aceitar aquilo de forma tão normal? – Mas você promete que vai me visitar, Sasuke?

Acenei com a cabeça que sim, não acreditando na maturidade daquela menininha frágil. Ela sorriu.

– Posso voltar para te visitar amanhã? – ela falou contente. Acenei um “sim” de novo.

– Tchau, Sasuke. Tchau família do Sasuke. – ela fez tchauzinho com as mãos e foi até Ino, que a escoltou para fora do quarto. Entramos em um silêncio novamente.

– Não vai comer a gelatina? – ouvi meu tio dizer. Não estava com fome, mas fora Meiko quem me dera aquilo. Abri e engolhi a primeira colherada.

– Ela é uma boa menina. – minha mãe disse. – Você mudou a vida dela, filho.

Pelo menos minha mãe pensava assim, mas ela parecia ser a única naquele quarto.

Então era isso. Meiko iria a um orfanato. Eu só poderia visita-la de vez em quando, esperando que ela fosse pelo menos feliz lá e que algum casal com mais juízo que eu a adotasse. Não sei quando ela iria e como as coisas seriam a partir de agora, mas eu estava triste por isso.

E ainda não sabia toda a história sobre as consequências da morte dos quatro homens. Sakura me disse que havia virado manchetes de jornais, mas não a história toda. Tsunade parecia ter manipulado os fatos de alguma forma. Mas eu estava muito cansado e dolorido para descobrir isso hoje. A gelatina de Meiko foi minha única janta.

Depois que a criancinha foi embora do meu quarto, não houve mais conversa. Minha família me disse boa noite, junto com um “voltamos amanhã”. Só espero que eu na próxima conversa com meu pai, eu esteja mais apto a discutir sem que minhas costelas comprimissem meu pulmão. Vi todos saírem do quarto. Mais tarde, enfermeiras entraram com minha janta – que eu não comi – e me observaram por um tempo, o que me deixou extremamente desconfortável.

Uma delas fez menção de trocar as bandagens do meu corte no abdômen, mas ficou confusa ao perceber que estavam novas e limpas. Sorri de lado, lembrando-me de Sakura. Trocaram meu soro e aumentaram a morfina para que eu dormisse melhor. E me deixaram sozinho naquele quarto. Eu e minhas costelas quebradas. Não queria ficar ali sozinho. E com dor.

E como se ela lesse meus pensamentos, cinco minutos depois, apareceu no quarto. Fiquei surpreso quando a vi ali, na minha frente.

– Como entrou aqui? Achei que o horário de visitas tinha acabado. – ela só sorriu de canto e se sentou na poltrona ao lado da minha cama.

– A morfina está te deixando chapado, é? – qual das Sakuras ela era? Parecia ser a Sakura da adrenalina.

– Só se você for uma alucinação. – respondi divertido. Ela se permitiu rir.

– Pensei que fosse se sentir sozinho a noite. – ela tirou os sapatos, dobrou as pernas na poltrona e abraçou os joelhos.

– Veio me oferecer sua companhia? – espero que ela não se importe por minha voz estar baixa. Falar ainda doía.

– Se você não quiser, pode ser, mas eu vou ficar brava. Fiquei 20 minutos tentando obter a permissão de Ino para isso. – por que ela faria isso só para me fazer companhia?

– Fique. Seria um saco sentir dor sozinho. – me arrependi de ter falado aquilo, pois o olhar triste e culpado voltou ao rosto dela. – Não me olhe assim. Já disse que você não teve nada a ver com isso.

Ela não disse mais nada, apenas ficou me olhando. Será que essa repentina simpatia por mim era o fato de ela se sentir culpada? Será que se fosse em outra situação, ela me deixaria aqui, sozinho, e zombaria da minha dor depois? Fiquei com vontade de perguntar isso a ela, mas achei melhor não. Eu já estava grato por ela ter vindo.

Ficamos em silêncio. O hospital estava silencioso, já era noite. Meu quarto estava escuro, mas a janela de vidro deixava toda a luz da lua entrar. A luz iluminava o rosto sombrio de Sakura. Ela poderia agora ser tanto uma assassina como uma pessoa gentil. Isso me dava um certo medo.

– Você está inquieto. – ela disse por fim.

– Não gosto de ficar deitado o dia inteiro em um hospital. – menti. Ela é quem me deixava inquieto.

– Sasuke... – senti que ela estava lutando para dizer algo. Eu não queria mais vê-la se culpando por algo do qual não era responsável.

– É bem melhor quando você diz meu nome. – tentei mudar de assunto.

– Sasuke...

– Dizer Uchiha me faz sentir parecido demais com meu pai...

– Sasuke. – a voz dela era firme. Virei-me para encará-la. – Acho que você deveria conversar com alguém sobre o que aconteceu no porão. Sobre o que aconteceu com você e... sobre o que você viu.

Não respondi àquilo. Pensei que não fosse tão óbvio o quanto aquilo havia me perturbado. Mas eu nunca gostei de psicólogos. Não era com alguém que se dizia entender minha mente que eu iria desabafar como vi a mulher que gosto matar quatro pessoas em vinte segundos.

Meu silêncio pareceu incomodá-la. Ela se agitou na cadeira.

– Sasuke, me desculpe, não era para você ter visto aquilo, mas quando eu entrei naquele porão e te vi no chão, ensanguentado, eu... – ela alterou a voz e parecia prestes a chorar de novo. Eu quis poder me levantar da cama e consolá-la. – Eu só temi por você. Pela sua vida, e eles estavam armados. Você não tem ideia de como estava machucado, Sasuke. De quanto sangue estava perdendo mesmo depois de desmaiar.

Ela estava claramente alterada. Não imagino como eu reagiria se chegasse em algum lugar e visse alguém morrendo por perda de sangue. Imagino que aquela cena não deve ter sido divertida para ela.

– Mas mesmo assim, aquilo não foi saudável para você.

– Eu me senti melhor quando você chegou lá, Sakura. Acredite.

– Sasuke, você presenciou uma cena de assassinato e quase foi vítima de um. E a assassina está bem na sua frente. – assassina parecia uma palavra muito forte para a Sakura que eu via agora. – Nem sei o que vim fazer aqui. Você precisa descansar e estar no mesmo teto que uma assassina não ajuda. – ela se levantou e fez menção de ir embora, mas era a última coisa que eu queria.

– Sakura. – chamei o mais alto que minha dor permitiu. – Não vá.

– Não tem medo de ficar no mesmo quarto que eu? – ela perguntou, cautelosa.

– Tenho. – respondi. – Mas o medo me fascina.

Senti a rosada me olhar diretamente nos olhos, tentando me decifrar também. Não sei se ela entendeu o significado que eu dei naquela frase, só sei que se sentou de volta na poltrona e não desviou o olhar de mim.

– Somos muito complicados. – ela repetiu a frase que havia me dito naquela manhã, quando eu ia embora de seu apartamento.

– Somos.

– Mas eu realmente acho que você deveria falar com alguém. – ela insistiu. Não respondi.

– Meiko vai para um orfanato. – falei por fim. – Queria poder fazer alguma coisa por ela.

– Você já fez muita coisa por ela, Sasuke.

– Eu sei, mas... esquece. – ninguém parecia entender o cruel e solitário destino que aguardava Meiko em um orfanato. E isso me deixava irritado. Por que ninguém mais queria ajudar a menininha?

– Amanhã eu te conto tudo. – olhei para ela. – O que aconteceu depois de você ter... – eu assenti e ela não precisou terminar a frase. – Tsunade virá para cá. Amanhã.

– Por quê?

– Terminar de resolver algumas coisas desse caso, já que caiu na mídia e envolve a polícia.

– Causei mais danos do que pensei, então.

– Não foi...

– Foi minha culpa, Sakura. Eu quem me meti onde não fui chamado. Pare de ficar se culpando. E se está sendo simpática comigo por pena, não precisa. – não quis soar rude, mas era como eu me sentia no momento. Pensei que ela fosse ficar brava e me responder, mas só limitou-se a me olhar.

– Quer que eu vá embora? – ela repetiu.

– Não. Por favor, fique. – ela me deu um sorriso triste e eu correspondi, tentando dormir em seguida, ignorando as dores em meu corpo.

****

Sakura’s POV

Acordei com dor nas costas, encolhida em uma poltrona, no quarto de um hospital. Ao meu lado, Sasuke ainda dormia tranquilamente. Seu peito nu (com exceção das faixas) subia e descia com sua respiração lenta e superficial, seus cabelos jogados no travesseiro parecendo ainda mais rebeldes.

Não tem medo de ficar no mesmo quarto que eu?

Tenho. Mas o medo me fascina.

Não sei o que ele quis dizer com “o medo me fascina”, mas sua primeira resposta havia sido exatamente o que eu esperava. Sasuke me viu assassinar quatro homens em um piscar de olhos. Nunca foi minha inteção ele me ver daquele jeito selvagem, cruel e inumano, mas fiquei com tanto medo quando minhas suspeitas se confirmaram e ele havia sido levado ao porão de Yoda.

Ouvi gritos vindos lá de baixo e temi pela vida dele. Eu não poderia deixa-lo lá, e quando entrei e o vi no chão, machucado, ensanguentado, despertei a Sakura mais perigosa que havia em mim. Quando terminei, ele ainda lutava para manter os olhos abertos, mas consegui vislumbrar o medo neles. É claro, quem não teria medo de um assassino? Esperei que ele fosse rejeitar completamente minha presença no hospital, me afastar, me ofender, qualquer coisa que alguém como eu merecesse. Mas ele me pediu para lhe fazer companhia. Ele não se importou em ficar no quarto com alguém que matou a sangue-frio em sua presença. Sei o quanto isso pode ser perturbador. Quando acompanhei Kurenai em uma missão de assassinato e a vi cortar a cabeça da vítima como se rasgasse um papel, fiquei dias sem conseguir falar alguma coisa. E quando eu finalmente tive que matar minha primeira vítima, tive que fazer sessões terapêuticas com Shizune por dois meses. Bem, com Hinata foi pior, ela fez as sessões por seis meses.

E o pior nisso tudo é que a culpa era minha por Sasuke estar no hospital, com costelas fraturadas, uma perna quebrada, um corte profundo para cicatrizar e sentindo dores. Eu e Ino deveríamos ter planejado aquilo com mais cuidado, deveríamos ter dado algumas instruções a Sasuke naquele dia, e deveríamos ter analisado melhor os bandidos. Deveríamos saber que eles tinham antecipado a reunião, que eles poderiam ter outro plano, e que eles poderiam saber sobre Sasuke e Meiko. Foram várias falhas graves e insultantes tanto para mim quanto para Ino. Nós nunca havíamos falhado daquele jeito, nunca havíamos sido descuidadas ou relaxado em nossos deveres. E agora, aí está o resultado de nossa falha: um cliente no hospital, a família do cliente furiosa, um problema com a polícia e Tsunade tendo que vir até aqui para consertar nossa bagunça.

E Sasuke ainda me dizia que a culpa não era minha. Não sei se ele só estava tentando ser gentil ou se realmente não me culpava, mas o que eu sabia é que eu estava me sentindo muito mal por vê-lo daquele jeito. Até agora, dormindo, ele parecia com dor.

Levantei-me da poltrona e abri levemente a janela, o suficiente para eu sair. Tsunade iria chegar em Konoha agora de manhã e eu e Ino deveríamos recebe-la. Apesar de a situação com a polícia estar praticamente resolvida, ela insistiu em vir. Acho que queria conversar com os Uchiha, mas não adiantava fazer suposições. Deixei Sasuke dormindo e saí do hospital, esperando encontrar minha mestra tão decepcionada comigo como eu mesma estava.

****

– Esse restaurante é o melhor de Konoha! – dizia Tsunade pegando sashimi com seu hashi e bebendo saquê. – Ino, encha meu copo.

Ino, tão surpresa como eu, obedeceu Tsunade e serviu mais bebida à nossa mestra. Era um pouco mais de meio-dia, estávamos na praça de alimentação do shopping de Konoha, no restaurante onde eu uma vez havia trabalhado, cujo dono era o Ooki-san. Espero que ele não me note aqui.

Mas o motivo de eu e Ino estarmos surpresas era o humor de Tsunade. Esperávamos reclamações, broncas, sermões e um castigo quando voltássemos à base pela forma como nossa missão acabou, mas ao invés disso ela nos abraçou, nos beijou nas bochechas e quis sair para beber antes de resolver os negócios aqui. Eu não entendia essa reação. Havíamos falhado. Certo, resolvemos o principal: descobrir os criminosos e eliminá-los, mas também quase havíamos perdido um cliente, chamamos uma grande atenção da mídia (que está publicando que os homens foram mortos pelo negociador deles no negócio do tráfico infantil) e ainda tivemos de explicar uma grande parte de coisas para a polícia. Como Tsunade não estava furiosa com a gente?

– Tsunade-sama... – tentei chamar sua atenção.

– Sakura, coma um pouco desse sashimi! Está ótimo! – ela disse de boca cheia.

– Obrigada, Tsunade-sama, mas eu não estou entendendo.

– Não está entendendo o quê? – ela engoliu o que tinha na boca e bebeu saquê por cima. Ino me olhou, entendendo o que eu iria perguntar.

– Falhamos em parte da missão. Você teve de vir até aqui só para arrumar nossa bagunça. Não seremos... punidas? – percebi-a me olhar com uma expressão confusa e ao mesmo tempo divertida.

– Punidas? Por que seriam punidas? Vocês cumpriram o principal objetivo da missão.

– Mas Tsunade-sama – Ino continuou, mais ansiosa do que eu – Nosso cliente quase morreu, a mídia entrou no meio e até a polícia! Chamamos atenção demais, e não é assim que uma Wing deve se portar! E não eliminamos os criminosos do jeito que planejamos.

– Sim – eu a completei – Aquilo foi um imprevisto que poderia ter dado totalmente errado!

– Disse a palavra certa, Sakura! – Tsunade apontou o dedo para mim segurando seu copo de saquê. – Poderia. Não deu tudo errado, pelo contrário.

– Pelo contrário? – falei indignada. – Sasuke quase morreu e a polícia agora sabe sobre nós! – se isso não era um problema, então eu não sei mais o que é.

– Sim, a polícia sabe sobre nós. E há um bom tempo eu venho querendo transformar o exército de Konoha em nossos aliados. Vocês duas devem saber que a polícia, na verdade, está grata por vocês terem eliminado Kenji Yoda e sua gangue. Além disso, descobriram sobre uma rede de tráfico infantil que agora será extinta e seus líderes, condenados. Vocês ajudaram muito, meninas. E agora que aquele delegado gordinho está agradecido a vocês por terem se livrado de quatro criminosos, a nossa parceria será feita mais rapidamente! – eu e Ino não acreditávamos naquelas palavras.

– E sobre Sasuke? Por causa de nossos deslizes, ele quase foi morto. E a família dele está furiosa.

– Com os Uchiha, nós lidaremos depois que eu terminar de beber esse delicioso saquê. Mocinho! – Tsunade chamou um garçom estalando os dedos e pediu mais saquê.

– Então nosso erro na verdade, terminou certo? – Ino perguntou, ela não estava convencida, e eu também não.

– Não se preocupem, meninas. Claro que até eu admito que vocês deslizaram nessa missão, mas vocês com certeza já sabem o porquê. Devo confessar que eu estava esperando esse tipo de erro.

– Sabemos o porquê? A senhora pensou que falharíamos desde o começo? – fiz a cara mais incompreendida para Tsunade. Aquilo não fazia sentido.

– Oh sim, Sakura. Seu cliente era Sasuke, não era?

– Era, mas o que isso tem a ver com... – Tsunade me cortou apontando outra vez o dedo para mim.

– Tem a ver com o lado pessoal mocinha. – ela me olhava como se fosse uma leoa prestes a atacar. – Você já havia se envolvido demais com ele antes disso, e a relação pessoal de vocês com certeza interferiu nessa missão.

– Mas Tsunade-sama – Ino interrompeu – eu não tenho nenhuma relação pessoal com o Uchiha e falhei também.

– Você não tem essa relação com o Uchiha, mas Sakura é sua melhor amiga, não é, Ino? – Tsunade respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – Você está envolvida com Sakura, Sakura está envolvida com Sasuke e...

– Não estamos envolvidos. – falei rapidamente. – Sasuke e eu.

– Eu sei filha. – Tsunade respondeu normalmente. – Mas vocês tem um histórico. Oh, meu saquê chegou! – ela abriu a outra garrafa e começou a encher o copo.

– Mas Tsunade-sama, se você sabia que eu iria falhar em algum ponto da missão, por que me deu permissão para ir?

– Ora, era um teste. – ela respondeu como se aquilo também fosse óbvio. – Eu queria ver como você reagiria tendo que trabalhar para o Uchiha de novo. Sakura, se eu soubesse que você e Ino arruinariam completamente a missão, não teria dado permissão para que fossem. Eu esperava algum deslize sim, isso foi mais do que natural. Mas eu sabia que vocês também iriam recompensar o erro. E eu estava certa, não é? – ela arregalou os olhos e sorriu – Vocês acabaram com um esquema horrível de tráfico infantil e ainda garantiram nossa parceria com a polícia de Konoha!

Então era assim. Sempre foi assim, eu devia ter previsto aquilo. Tsunade não havia somente nos testado, como também nos usado em ganho próprio. Era assim que as coisas funcionavam para nós. Éramos treinadas em todas as artes possíveis, fazíamos missões por Tsunade e ela nos dava em troca tudo – ou quase tudo – o que queríamos. Uma pessoa normal ficaria enfurecida de ter sido “usada” dessa maneira, mas para mim, Ino e todas as outras Wings, essa era uma prova da confiança de Tsunade em nós e era assim que funcionava. E no momento eu só estava contente pelo estrago ter trazido mais benefícios do que eu esperava.

Terminamos de almoçar e Tsunade quis ir direto ao hospital. Entramos no meu carro alugado e saímos pelas ruas movimentadas de Konoha.

– Sobre a garotinha que começou tudo isso – Tsunade começou de repente dentro do carro – A menininha que Sasuke encontrou, vocês a conheceram, certo?

– Sim, Tsunade-sama. Eu cuidei dela enquanto Sasuke ia trabalhar. Ela é uma graça. – Ino falou.

– Qual é o nome dela?

– Gata. – Ino respondeu rápido e Tsunade a olhou em dúvida. – Quer dizer, ela prefere que a chamem assim. O nome dela é Meiko.

– Quantos anos ela tem?

– Acredito que tenha seis.

– Onde ela está? – Tsunade estava interessada demais naquela menininha. E eu já sabia exatamente o que aquilo significava.

– Acredito que esteja no orfanato agora. Quando descobriram tudo sobre Yoda e Meiko, o conselho tutelar a procurou e começaram a investigar a família dela e mover os papéis para o orfanato. Acredito que essa tenha sido a primeira noite dela lá. – Ino respondeu, também já sabendo o interesse de Tsunade.

– Certo. Pode nos levar lá depois, Ino? Gostaria de conhecê-la. – Ino acenou um “sim” com a cabeça e chegamos ao hospital.

Identifiquei alguns jornalistas ali. Eles aparentemente estavam esperando a chance de falarem com Sasuke, já que ele acabou sendo arrastado para as notícias como “o cidadão que descobriu as atrocidades cometidas pelo policial corrupto Kenji Yoda e o resto de sua gangue”. Como sempre, ele sairia como o herói da história, uma figura para ser admirada. Mas dessa vez admito que ele merecia. Afinal, foi capaz de arriscar a vida para proteger aquela menininha frágil. Me pergunto o que o incentivou a fazer tudo aquilo por uma criança de rua, alguém com quem eu nunca imaginei que ele pudesse estabelecer um vínculo.

Ignoramos os jornalistas e fomos direto ao quarto de Sasuke. No caminho, passei por alguns dos amigos dele, certamente estavam esperando a vez da visita ou haviam sido expulsos do quarto, pois assim que chegamos, toda a família Uchiha estava lá. Tsunade abriu a porta e entrou sem pedir licença, como se não precisasse daquilo. Eu e Ino entramos timidamente, fazendo reverências ao chefe da família, Fugaku Uchiha, ao seu fiel irmão, Yusuke, à Madoka, Mikoto, Itachi, e por último a Sasuke, reclinado na cama do hospital.

– Meu Deus, o que fizeram com você? – Tsunade perguntou ao ver Sasuke. Acho que ela havia bebido um pouquinho a mais de saquê do que deveria. – Quantas costelas estão quebradas? – Sasuke a olhou como se ela fosse louca, e em seguida olhou para mim, acho que pedindo socorro. Eu ri por dentro daquela cena.

– Quatro. – ele respondeu com sua voz rouca. Percebi pelo tom que ele ainda estava com dores.

– Tsunade – Fugaku a cortou – Estávamos te esperando, mas não pensei que chegaria agora aqui, e desse modo. – com certeza ele havia odiado a entrada repentina de Tsunade no quarto, principalmente porque parecia que estavam tendo uma discussão.

– Boa tarde, Uchiha-san. Desculpe se minha chegada o ofendeu, mas vim prestar meus respeitos ao paciente, à nossa família de clientes e claro, como essa situação nos envolve, bem pensei que deveria estar presente em todas as situações. – minha mestra simplesmente respondeu.

– Sim, mas agora estávamos falando com meu filho e...

– Tenho certeza de que serei útil nessa conversa, Uchiha-san. E minhas meninas também. – ela olhou para mim e Ino, assim como todos os Uchiha presentes.

Não posso negar que Fugaku ficou muito nervoso comigo (e com Sasuke) quando soube que eu vim aqui em uma missão de seu filho e ele não havia sido comunicado. Ino disse a mim que o mau humor dele era “falta de sexo” logo depois que ele virou as costas, e dei graças a Deus por ele não ter ouvido.

– Bem, então já que é assim, Tsunade – Fugaku recomeçou com seu tom de voz intimidador – Pode nos explicar por que meu filho contatou os seus serviços e nós, o resto da família, não fomos informados disso? Vamos ouvir a sua versão, porque a de Sasuke não me deixou nada contente.

– Qual foi a versão de Sasuke? – Tsunade perguntou com uma curiosidade divertida. Fugaku olhou para o filho mais novo, esperando a resposta.

– Pedi para manterem sigilo. – ele respondeu, claramente desconfortável. Tenho certeza de que a minha presença, junto com Ino e Tsunade o deixava constrangido quando estava lidando com a família. – Não queria que soubessem sobre a Meiko.

– Bem, foi isso mesmo, Uchiha-san. Sasuke pediu sigilo. – Tsunade respondeu, óbvia.

– Mas somos seus clientes também, e sou o pai dele! – alguém avisa esse homem de que não se pode ficar gritando em um hospital? – Não era o seu dever me informar sobre as ações de meu filho? – Tsunade deu uma risadinha.

– Me desculpe, Uchiha-san. Seu filho já é maior de idade e pode tomar decisões sem a sua interferência. Se o senhor tivesse me procurado, eu certamente o informaria, mas Sasuke nos contatou sozinho.

– Sim, ele fez tudo isso sozinho. – Fugaku olhou para Sasuke, que retribuía o olhar frio. – Mas agora somos nós quem temos de arrumar a confusão que ele causou.

– Desculpe-me Uchiha-san, mas não houve nenhuma confusão. – Tsunade continuou alegre. – Graças a essa missão, eu consegui uma parceria importantíssima com a polícia de Konoha e seu filho ainda é destaque nos jornais.

– Sim, por ter abrigado uma menina órfã na própria casa! – Fugaku olhava para Sasuke acusadoramente. Ino, ao meu lado, parecia querer falar algo, mas estava sem coragem.

– Eu só a ajudei. – Sasuke tentou se justificar. – Ou eu deveria tê-la deixado lá, para morrer de fome e frio? Ou deveria tê-la entregado àquele policial nojento? Ou deveria ter contado a você, para que fizesse a primeira alternativa? – Sasuke estava nervoso, eu percebia não por sua voz, mas pelo seu olhar. E estava com dor também. Ao falar, levou uma das mãos às costelas, e quando terminou, começou a respirar pesadamente. Será que esse Fugaku não se importava em estressar ainda mais o filho com esses joguinhos de orgulho?

– E além disso, pelo que eu soube, a menina já foi encaminhada para um orfanato. – Tsunade continuou. – A única coisa que ainda não foi resolvida é a recuperação de seu filho. Vai levar algumas semanas e tenho certeza que ele se sentirá melhor se não for estressado.

– Não preciso de você para me defender. – claro, eu sabia o quão orgulhoso Sasuke era. Não gostava de mostrar fraqueza e gostava menos ainda quando alguém apontava essa fraqueza ou tentava protege-lo.

– Com certeza não. – Tsunade respondeu com um sorriso, longe de estar ofendida. – Mas se continuar respondendo as pessoas com raiva, sua dor vai aumentar. – ele fez uma careta para ela e o quarto entrou em silêncio.

– Sakura. – fui pega de surpresa pela voz de Mikoto, que me olhava diretamente. – Você salvou a vida de Sasuke. E sua amiga ajudou. Obrigada. – ela se curvou respeitosamente, me agradecendo, e eu somente acenei.

Eu queria dizer “não, seu filho quase foi morto por causa do meu erro, você não deveria me agradecer”. Mas eu não queria causar mais discordância ali, então fiquei quieta.

– Bem, falando sobre isso – começou Itachi – Como ficou o caso desses quatro assassinatos?

– Honestamente, Sakura fez um favor à sociedade. – Tsunade começou – E a própria polícia disse que já havia começado uma investigação em Kenji Yoda por suspeitarem de seu comportamento. A responsabilidade pelo ato de Sakura foi entregue a um dos líderes do tráfico de crianças em que as vítimas estavam envolvidas, um tal de sr. X, verdadeiro nome Endo Yamaguchi. A desculpa do crime foi que os homens haviam perdido a última criança, o que no caso é verdade. A garotinha que Sasuke resgatou teria ido para as mãos desse verme.

– Então está tudo bem? – o tio de Sasuke, Yusuke, entrou na conversa.

– Sim, como eu já disse, tudo com o que vocês precisam se preocupar agora é a recuperação de Sasuke.

– E vocês não assumirão responsabilidade por isso? – Fugaku recomeçou. – Por não me avisarem, pelas despesas médicas...

– Ah sim, quanto a isso, podemos fazer um trato.

– Trato? Não há trato a ser feito, Tsunade!

– Bem, como Sasuke estar no hospital pode ser considerado responsabilidade de Sakura e Ino, elas deviam indenizá-los. – Tsunade começou. – Contudo, como Sasuke teria que pagar pela missão, acredito que uma dívida anula a outra. Sendo assim, poderemos considerar o trabalho de ambas as partes como um gesto de altruísmo.

– Está brincando comigo, Tsunade?

– Pai, acalme-se. Essa é a solução mais óbvia a se tomar. – Itachi tentou acalmar o pai. Estava começando a concordar com Ino. Fugaku era muito azedo com tudo, precisava relaxar um pouco. Ao mesmo tempo, senti um pouco de pena de Mikoto. Uma mulher tão gentil tendo que aturar esse velho carrancudo.

Fugaku engolhiu suas palavras estressadas e olhou para Sasuke.

– Eu não vou te parabenizar pelo que fez. – começou, com a voz fria como gelo. Mas os olhos de Sasuke continham a mesma frieza ao olhar para o pai. – Admito que foi um gesto honrável, mas não vou te parabenizar. Você escondeu tudo isso da sua família, decidiu agir sozinho, causou uma agitação envolvendo a mídia e a polícia, colocou-se em perigo e terminou aqui. Espero que entenda isso e não volte a arrumar esse tipo de bagunça de novo.

Sinceramente, eu não entendia o porquê dessa “bronca” em Sasuke. Ele já era maior de idade, tinha a própria casa, o próprio trabalho (tudo bem que era nas empresas da família, mas ele estava fadado a isso, e ainda assim era um emprego próprio) e a vida dele só dizia respeito a ele, e ninguém mais poderia tomar decisões por ele. Por que Fugaku o tratava como se ele fosse um adolescente revoltado? Acho que quando você faz parte de uma família assim, nunca está realmente livre.

– Bem, eu sei que os senhores tem muita coisa para fazer – Tsunade continuou – e pode ser rude de minha parte pedir isso, mas eu gostaria de um momento em particular com Sasuke. – todos olhamos para Tsunade.

– Posso saber por quê? – Fugaku intimava uma resposta – Ele fez mais alguma coisa?

– Não, Uchiha-san, ele não fez nada de errado. Na verdade, eu não precisaria ter essa conversa com ele, mas já que foi ele quem tomou esse caso, sinto como se devesse a ele essa explicação e uma possível aprovação.

– Aprovação do quê? – como Fugaku poderia ser tão irritante? Bem, acho que nesse caso, é tal pai, tal filho.

– Esse é um assunto mais apropriado a se falar com Sasuke. – Tsunade continuou. – Pode me dar esse momento, Sasuke? – Tsunade virou-se para ele, ignorando Fugaku, e Sasuke acenou um “sim” com a cabeça, mas sua expressão estava cheia de dúvidas. – Sakura, Ino, também preciso que vocês fiquem. – ela falou de repente, virando-se para nós.

Ai meu Deus. Uma conversa em particular de Tsunade comigo, Ino e Sasuke juntos? Ai, não podia ser coisa boa, não podia. Tsunade tinha descoberto. Ela tinha descoberto sobre Sasuke e eu, tinha descoberto que Ino não ficou de olho em mim como ela pediu, ai céus. Estávamos perdidos. Olhei para Ino e ela me olhou com a mesma cara de preocupação. Sasuke estava mais confuso do que preocupado, mas bastou ele ver o meu olhar congelado para entender também. Uma Wing não podia ter esse tipo de relação. E Tsunade havia descoberto sobre Sasuke e eu. Estávamos ferrados.

Todos foram saindo do quarto, até que sobramos somente nós ali. Eu e Ino perto de Sasuke e Tsunade nos encarando com um rosto maroto.

– Bem, vamos ao que interessa então.

I know it’s mad, but if I go to hell will you come with me or just leave?

I know it’s mad, but if the world were ending would you kiss me or just leave me?

Eu sei que é loucura, mas se eu fosse ao inferno você viria comigo ou me deixaria?

Eu sei que é loucura, mas se o mundo acabasse você me beijaria ou só me deixaria?

Panic at the Disco – Do You Know What I’m Seeing?

Notas finais
O que acharam? Bem, semana que vem eu vou viajar e não sei se vai ter internet no local, portanto o próximo capítulo pode chegar com um pouco de atraso ok? (no máximo em 2 semanas eu posto). Até o próximo ^^