Broken Wing - Aprendendo A Voar
21 Capítulo 21 - Último Recurso
Notas iniciais
Fiquei olhando aquela menininha de olhar felino com interesse. Depois de uma certa rosada, ela havia sido a única coisa a me prender a atenção. E eu estava impressionado com esse ser tão pequeno e tão forte ao mesmo tempo. Deixei-a tomando banho e fiquei esperando do lado de fora do banheiro, sem saber ao certo o que pensar da Gata que eu havia encontrado naquelas ruas tortuosas e escuras.
Sasuke’s POV
Certo, eu havia conseguido convencer meu pai de que tinha acordado doente demais para ir à empresa. Eu sei que é a resposta mais esfarrapada que alguém podia dar, mas considerando o tanto de tempo que eu estive trabalhando nas últimas semanas, nem eu me surpreenderia se acordasse morto de cansaço um dia desses. E pra falar a verdade, eu estava cansado. Só fui dormir depois das duas da manhã e acordei cedo.
A responsável por isso, claro, é a Gata. Eu não a tinha convencido a me contar seu verdadeiro nome, mas ela gostava que a chamassem assim. E eu não tinha outro nome para ela. Depois que ela terminou o banho e vestiu minha blusa – que alcançou seus joelhos e cotovelos – eu peguei o kit de primeiros socorros para tentar cuidar de alguns arranhões que ela tinha. Não tenho experiência em medicina e nunca agi tão cuidadosamente com alguém, então acho que fiz um trabalho meio desleixado. Além disso, nessa parte ela ficou desconfortável. Começou a se encolher e a ir para trás cada vez que eu tentava tocá-la e demorou para me deixar fazer um curativo completo.
“Não vai doer”, eu havia dito. Ela me olhou assustada de novo e disse bem baixinho “Era o que eles diziam”. Essa história de “eles isso” e “eles aquilo” estava me incomodando muito. Quem eram eles? O que haviam feito com ela? Qual é a história dessa menina?
“Eu já disse que não vou te machucar”, tentei falar sério. “Se não cuidarmos dos seus machucados, eles podem infeccionar”. Era verdade, não sei como isso ainda não havia acontecido com aqueles cortes. Mas a relutância da Gata foi maior. Ela só me deixou cuidar dos ferimentos do rosto, dos braços e das canelas. Quando pedi para ver as costas e a barriga, ela disse “não” furiosamente e se encolheu o máximo que podia na parede. Depois daquilo desisti, não queria voltar a assustá-la. De volta na cozinha, ela comeu quase um pacote inteiro de ursinhos de goma e tomou tanta água que levantou três vezes para ir ao banheiro. E isso só das vezes que eu contei. Mas acho que eu não podia repreendê-la por isso. Ela dormiu em dos quartos vagos, me disse “boa noite” e pediu para eu deixar a luz do corredor acesa. Apesar de instantes atrás ter uma faca na mão, não passava de uma garotinha assustada.
Mas a pergunta agora era: o que eu vou fazer com ela? Ela se recusava a ir ao hospital, à delegacia ou a qualquer lugar que tivesse muitas pessoas. “Eles podem me achar” foi a desculpa que ela deu. Como eu sabia muito pouco sobre minha pequena inquilina e como de certa forma temia que ela ficasse ali sozinha enquanto eu ia trabalhar, dei qualquer desculpa para o meu pai e resolvi ficar com ela. Achei que ela já havia passado tempo demais sozinha, e pela pouca coisa que ela havia falado, sinto que não posso abandoná-la e tenho que descobrir exatamente o que aconteceu. Sim, por mais estranho que seja, eu, Sasuke Uchiha, estava ajudando uma menininha perdida que gostava de ser chamada de Gata.
Ouvi passos e me virei, deparando com a menininha na porta da cozinha. Ela era mesmo muito magra. Deve ter morrido de calor depois de dormir com minha blusa, tão grande nela.
– Você gosta de leite? – perguntei. Ela assentiu. – E de biscoitos? – ela abriu um sorriso e se sentou à mesa, pronta para comer. Sentei ao seu lado, e só depois notei que ela não parava de me encarar. – O que foi? – perguntei curioso.
– O que são essas marcas no seu pescoço? – com a vozinha aguda e uma mordida pequena no biscoito, ela olhava diretamente para minhas cicatrizes.
– Ah, isso... são... machucados.
– Igual aos meus?
– Mais ou menos.
– Como você se machucou? – eu não podia dizer a ela que uma mulher de cabelos rosa havia invadido minha casa e enfiado uma faca na minha garganta, não é?
– Eu... caí. – ela deu uma risadinha.
– Não caiu não.
– Caí sim.
– Não caiu não. – ela me olhava com uma expressão divertida, e eu fiquei sem resposta, mas ela continuou do mesmo jeito. – Eu já caí muitas vezes e nunca fiquei com marcas parecidas. – e não é que a Gata era esperta? Dei um longo suspiro antes de responder.
– Tá, foi um acidente. Eu me cortei. – aquilo pareceu contentá-la. Ela tomou um gole do leite.
– Doeu?
Olhei surpreso e só depois me dei conta de que ela ainda falava das minhas cicatrizes. Sinto que eu não podia mentir naquilo.
– Doeu.
– Os meus também doíam. Mas agora não doem mais. – ela pegou outro biscoito e eu reuni coragem para pergunta-la.
– Meninin... Gata. – ela me olhou de imediato. – Há quanto tempo você estava escondida naquele lugar? – ela pensou um pouco.
– Não sei... há vários dias.
– E com quem você estava antes de ir para lá? – ela me deu um olhar triste.
– Eu já disse. Com eles. – eu havia chegado ao ponto que queria. Precisava escolher as palavras com cuidado a partir daqui.
– Você sabe quem são “eles”?
– São pessoas más. – a voz dela havia se alterado. – Homens maus.
– Por que eles são maus? – ela não respondeu. Senti que era cedo demais pra tocar no assunto e não a forcei. Mas depois de um tempo, ela mesma começou a falar.
– Eles mataram meu papai. – olhei-a surpreso. – E a minha mamãe. E a minha irmãzinha. E me levaram com eles. – ela deu outra golada no leite. – Eles são maus.
Eu não sabia o que dizer nessa hora. Uma garotinha órfã e desnutrida, que havia recebido sabe-se quais maus tratos de sabe-se quem, havia fugido sozinha, vivido por dias em um bairro escuro e sujo sem nada para comer e com apenas uma faca para se defender. E quanto mais tempo eu passava com ela, menos sabia o que fazer quanto à situação da pequena.
– Tem mais leite? – ela perguntou docemente. Seu lábio superior estava branco do líquido. Enchi o copo dela em silêncio e observei-a tomar devagar, como que apreciando o sabor. – Sasuke. – ela me chamou pelo nome, me trazendo de volta à realidade. – O que vai acontecer comigo agora?
Tentei pensar em várias respostas para dar a ela, mas nenhuma feliz. Por fim, optei por dizer:
– Não sei. – naquele momento, eu só sabia de uma coisa: eu não ia deixar essa menina à própria sorte. Não ia deixar quem quer que tivesse feito isso com ela e com a família dela escapar ileso. Afinal, estávamos falando de um caso de triplo homicídio, sequestro e abuso de menor. É claro que alguma coisa tinha que ser feita quanto a tudo isso.
Quando ela terminou de comer, emprestei outra blusa para ela e troquei alguns dos curativos que havia feito. Ela ainda não se sentia confortável em me deixar tocá-la. Mas nessa hora eu percebi que ela havia ficado quieta de repente, estava com a cabeça baixa e os olhos estavam começando a ficar vermelhos. Enquanto isso, eu pensava em formas de poder ajudar a menininha.
– Gata, eu preciso te pedir uma coisa. – ela olhou para mim com os olhos vermelhos e inchados.
– Vai me mandar embora?
– Não, eu vou tentar te ajudar. – falei rapidamente antes que ela tenha a ideia errada. – Mas para isso eu preciso saber seu nome verdadeiro.
– Mas o meu nome é Gata. A velhinha que me disse.
– Eu sei, mas para te ajudar eu preciso que você me diga seu nome e seu sobrenome.
– O que você vai fazer com eles?
– Eu vou tentar te ajudar, já disse. – ela ainda não confiava totalmente em mim, mas acho que algo em meu olhar a convenceu.
– Meiko. Meiko Okazaki. O nome do meu papai era Kazuto. – ótimo, já era um começo. – Mas continue me chamando de Gata.
– Tudo bem. Você se importa de ficar um tempinho sozinha? Eu preciso sair pra resolver umas coisas do meu trabalho.
– Você vai voltar?
– Claro que vou. Não precisa ter medo. – levei-a até a sala de visitas e liguei a televisão. – Não tenho brinquedos aqui, pode assistir TV. Esse botão é pra mudar de canal. Se você ficar com fome, pode abrir a geladeira. Cuidado quando for subir ou descer as escadas. Preciso que você me prometa que não vai sair da casa e não vai abrir a porta para ninguém, tá?
– Tá. – rasguei um pedaço de papel e anotei um número nele.
– Esse é o número do meu celular. Você sabe telefonar? – ela assentiu. – Então se acontecer qualquer coisa, você me liga. Mas não saia daqui, ok?
– Ok.
Deixei-a no sofá assistindo o que acredito ser “As Meninas Super Poderosas” e saí de casa, decidido a fazer alguma coisa por aquela menina. Os primeiros lugares que eu visitei foram casas funerárias. Se a família inteira dela havia sido assassinada, alguém deve ter cuidado dos enterros, né?
Havia sete funerárias em Konoha. Na sexta tentativa, eu encontrei os nomes que procurava.
– O nome da família era Okazaki. – eu disse para a atendente, que me olhou com cara de sono.
– É um nome muito comum. – ela respondeu.
– Acredito que tenha um Kazuto junto. Kazuto Okazaki, uma mulher e uma filhinha pequena. – a mulher me olhou com tédio.
– Uchiha-san, mesmo que eu tenha essa família registrada aqui, não posso expor os documentos a outras pessoas.
– Eu sei, mas... mas eu preciso dos dados como referência para... – ela me deu um olhar severo por trás dos óculos que usava. Era uma mulher gorda e nada simpática. – Olha, eu não vou revelar os dados para mais ninguém.
Ela me olhou demoradamente e depois estendeu uma mão para mim, em forma de concha. É nessas horas que eu vejo que ser de uma família rica é útil. Suspirei e abri a carteira, tirando 5000 ienes (*aproximadamente 100 reais) e colocando na gorda mão da mulher. Ela não se moveu. Exigente. Dei mais 5000 e ela me retribuiu com um sorriso.
– Um momento, Uchiha-san. – santo dinheiro. Ela voltou dali 5 minutos com uma pasta pequena. – Eu me lembro dessa família. Aqui. – ela abriu a pasta e me mostrou três fotos de pessoas mortas, com anotações embaixo de cada uma. O pai de Meiko possuía um rosto gentil e era calvo, com olhos tão verdes quanto a filha. A mãe possuía uma expressão severa, mas os olhos castanhos abertos e sem vida demonstravam desespero. E a filha devia ter uns três anos pela foto, com o mesmo cabelo e mesmos olhos da Gata. Olhei para aquelas três pessoas horrorizado.
– Os rostos foram reconstituídos?
– Oh, não. Só as gargantas. – olhei para a mulher. – Nossa casa funerária foi contratada pela prefeitura depois de os vizinhos descobrirem os três corpos na casa. Todos com as gargantas cortadas. Reconstituímos e fizemos um pequeno enterro com os vizinhos presentes.
– Quando foi isso?
– Há uns 5 meses.
– Mas isso foi claramente um assassinato. A polícia não investigou?
– Acho que desistiram logo.
– Se eu não me engano, esse casal tinha outra filha. Eles procuraram por ela?
– E eu sei lá, Uchiha-san. Não me meto com a polícia não. – ela fechou a pasta e fez menção de ir guardá-la, e eu, infeliz, me preparei para sair dali, quando...
– Ah, eu me lembro. – opa. Me virei para olhá-la.
– Uns dois policiais estavam no enterro para fazer investigações e acho que ouvi um deles comentando sobre encontrar uma menina, mas acho que o outro disse que ela provavelmente estava morta. Passar bem, Uchiha-san.
Eu saí da funerária pensando somente em uma coisa. Quando eu havia levado Meiko... ou melhor, a Gata para a delegacia ontem a noite, ela quase me deixou surdo gritando que não queria ir pra lá. Dizendo que “ele” estava lá... será que algum daqueles policiais no enterro tinha a ver com alguma coisa?
Quando dei por mim, havia dirigido até a delegacia, mas não sabia exatamente o que eu iria fazer lá ou com quem iria falar. Não queria dizer nada desnecessário sobre a menina, e também não queria que suspeitassem algo de mim. Pensei por vários momentos. No final, me vi inventando uma história falsa e arriscada, mas eu não tinha muitas opções no momento. Entrei na delegacia e alguns policiais me cumprimentaram animadamente. Havia duas jovens mulheres com roupas muito curtas e maquiagem pesada em um canto. Elas me olharam de uma forma que me deixou muito desconfortável enquanto eu era abordado pelo delegado. Ele pareceu notar meu desconforto. Olhou para as mulheres e depois para mim.
– Desculpe, Uchiha-san. Prostitutas. De vez em quando prendemos algumas. Bem, melhor isso do que roubos ou assassinatos. – ele colocou alguns papéis em cima de sua mesa e limpou o suor da testa. Acho que elas também o deixavam desconfortável.
– Por falar em roubos, eu... estou aqui para relatar um.
– Oh. Que infortúnio, tinha a esperança de começar esse mês sem incidentes de furto. Muito bem, vamos fazer um boletim. Relate o caso. – olhei ao meu redor e percebi que havia mais três policiais ali. Dois deles estavam conversando entre si e o outro estava preenchendo papéis. Minhas chances eram pequenas, mas eu tinha que arriscar.
– Eu estava... voltando para o meu carro hoje de manhã. Estava há duas ruas do bairro Kusurugi. – eu sei que mentir para policiais era crime, mas o que haviam feito com a Gata era muito pior. – E então uma menininha pequena roubou a minha carteira.
– Uma criança? Que infortúnio... – o delegado disse isso em voz alta, e eu olhei os outros três policias com cautela. Um não tirou os olhos do papel. Um dos que estava conversando olhou para mim de imediato. – O que mais, Uchiha-san?
– Ah, era uma menina de uns seis anos mais ou menos, magra, loira e de vestido. – falei isso com a voz meio alta, para chamar atenção do policial que não havia parado de me olhar. – Ela fugiu e ultrapassou a área interditada.
– Ah, esse bairro está desabitado, mas está sempre causando problemas. Acha que a menina ainda está lá?
– Não tenho certeza. Como a área é proibida, vim direto para cá. Não só por causa do roubo, mas pelo fato de ter uma criança perdida roubando. – olhei disfarçadamente para trás e vi o policial que me observava se aproximar.
– Uma menininha, Uchiha-san? – ele era alto e musculoso, e apesar de mostrar um sorriso gentil, seus olhos castanhos escondiam um brilho sinistro. Eu devia ter dado muita sorte.
– Sim. Espero que a polícia de Konoha faça algo quanto a isso. – falei olhando-o diretamente, tentando decifrar o que seus olhos sinistros escondiam.
– Obrigado pelo testemunho, Uchiha-san. Hum... o valor roubado foi alto? – perguntou o delegado como se não quisesse realmente saber a resposta.
– Não muito.
– Bem, o que posso fazer é enviar uma viatura para lá depois e mandar procurar essa criança. Mas duvido que ela ainda esteja lá, senhor. Aquele bairro assusta até marmanjos.
– O senhor conseguiu ver essa menina? – o policial perguntou. Será que eu tinha realmente dado sorte? Virei-me para encará-lo novamente.
– Não, ela era rápida. Saiu correndo como se estivesse voando. Parecia uma pombinha. – parece que aquelas palavras surtiram algum efeito no policial. Ele passou a mão pelos cabelos pretos e sorriu nervoso, o brilho sinistro ainda nos olhos.
– Bem, se assim, não podemos deixa-la ficar com seu dinheiro, não é?
– Certamente espero que não.
– Uchiha-san – o delegado chamou – obrigado por relatar o roubo, eu enviarei uma viatura para checar as ruas do bairro. – parecia que aquele velho estava era com preguiça de fazer alguma coisa em relação a um caso de bate-carteira e queria me ver fora dali. Diferente de um certo policial...
– Senhor, eu peço então a permissão de procurar essa garota-ladra. – ele se manifestou.
– É mesmo, Yoda? – disse o delegado sem interesse.
– Sim, minha patrulha é só no final da tarde. Ficaria feliz em ajudar um membro da família mais importante da capital do País do Fogo. – ele abriu um sorriso para mim, o qual correspondi fracamente, levantando-me e apertando sua mão.
– Obrigado... Yoda-san?
– Sim. Kenji Yoda, ao seu dispor, senhor. Avisarei caso avistemos tal garota nas ruas.
– Aguardo por isso. – e por bem mais. – Até mais senhor delegado, Yoda-san. – despedi-me e dei a partida no carro.
Eu tinha dado muita sorte mesmo. Não esperava que fosse topar com um sujeito suspeito logo na primeira tentativa. Certo, pode ser que o tal do Yoda fosse só amigável e quisesse impressionar minha família – o que não era incomum – mas aquele brilho estranho nos olhos dele me dizia que havia muito mais coisa ali. Pela reação da Gata ontem a noite, com certeza algum deles estava ligado com a polícia. Me lembro claramente do seu desespero dizendo que a polícia era má. E o que a mulher gorda falou sobre o funeral... aí tem coisa e eu vou descobrir.
Voltei para casa e encontrei a Gata onde eu a havia deixado: assistindo TV, rindo inocentemente com Bob Esponja.
– Está com fome? – chamei sua atenção, e ela assentiu.
Ver essa menininha ontem tão perdida e assustada e vê-la hoje sorrindo como uma criança normal me fez feliz por algum motivo. Eu não ligava para crianças e o normal era me aborrecer em tê-las perto de mim correndo e gritando umas com as outras. E eu até tinha decidido deixar toda a responsabilidade da próxima geração Uchiha com Itachi, já que nunca pretendi ter filhos. Mas havia algo especial na Gata que me fazia gostar dela. Talvez seja o fato de eu tê-la ajudado (coisa que raramente faço) ou o fato de ela ser inocente e já ter passado por coisas ruins que me fazia simpatizar com ela. E eu não sei como eu conseguiria ajuda-la, mas sei que havia algo que eu poderia fazer quanto a ela.
O telefone tocou, e deixei Gata comendo arroz com peixe na cozinha para atender. Era Itachi. Para a minha família, eu estava doente, então forcei uma rouquidão na voz.
– Alô?
– Sasuke, é você? – ele estranhou.
– Sim, eu acordei muito mal.
– O papai disse, mas mesmo assim, não conseguiu vir para a empresa? Tivemos duas reuniões importantíssimas hoje. – Itachi está cada vez mais entrando no caminho do papai.
– É, eu tentei, mas estou mal mesmo. Vomitei muito, estou um bagaço.
– Ah... – aquilo o desagradou. Eu ri por dentro. – Mas você está em condições de me receber aí de tarde? As reuniões foram mesmo importantes e o papai quer que você fique por dentro das decisões sobre as novas filiais. – não, Itachi não pode saber sobre a Gata. Não ainda. Fingi um exagerado ataque de tosse.
– Itachi, hoje não dá. Passa um fax que eu analiso no fim de semana.
– Você procurou um médico? – ele disse com desgosto.
– Marquei consulta hoje a tarde. – incrível como eu conseguia mentir tão naturalmente para meu irmãozinho.
– Tá, então se cuida. Mas não deixa de analisar os document... – desliguei, aliviado por ter me livrado de Itachi. Mas assim que me virei, vi um par de olhos verde claros com expressão felina e desaprovadora me encarando.
– Você não acordou doente. – a Gata disse.
– Por que não está na cozinha comendo? – tentei desviar o assunto.
– Já terminei, eu ia pedir mais. – coloquei mais peixe e arroz no prato dela. – Por que você mentiu? – ela não se distraia facilmente. – Quem era no telefone?
– Era meu irmão.
– Você tem irmão?
– Tenho um mais velho.
– E por que mentiu para o seu irmão mais velho? Meu papai dizia que a gente tem que contar a verdade para as pessoas, principalmente os mais velhos.
– Porque eu... – eu não podia dizer que era por causa dela. – Coisa de gente grande. Agora come.
Enquanto a Gata comia, comecei a pensar de novo. Por que eu não podia contar à minha família que estava com uma menina órfã em casa ao invés de leva-la à delegacia mesmo? Não, isso simplesmente não daria certo. Só arrumaria confusão e complicaria para a menina. Meu pai não iria nem pensar duas vezes antes de manda-la a um orfanato. Não que ele seja mau, mas também não era o sr. Caridade. Posso até ouvir suas palavras: “Não temos nenhuma ligação com a criança. Não podemos ajudar todos os órfãos perdidos. O orfanato é o melhor lugar para ela. Ela pode se socializar com outras crianças e talvez ser adotada.” Não que meu pai estivesse errado, mas eu não poderia enviar a Gata para um orfanato com o trauma que ela sofreu. Meu irmão do jeito que estava provavelmente iria dizer a mesma coisa.
Minha mãe e minha tia ficariam tão comovidas com a notícia que era perigoso saírem espalhando pelas ruas e fazerem escândalo tentando ajudar. E apesar de minha mãe ser a única em quem eu podia confiar esse tipo de coisa, ela estava com a cabeça cheia organizando o casamento do Itachi. E ela nem tinha obrigação de fazer aquilo! Vai entender... e por último, meu tio Yusuke não diria nada, como sempre. Eu não podia arriscar expor a Gata.
Mas também não tinha ideia do que fazer em seguida. Não podia escondê-la pra sempre em minha casa, e por mais que tivesse suspeitado do policial na delegacia e inventado uma história nada a ver, não ia levar a nada se eu ficasse parado. Aquele policial, Yoda, guardei bem o nome dele, iria procurar pela Gata, mas não ia encontrar nada, pois obviamente, ela estava aqui comigo. Será que ele continuaria procurando? Será que iria a outros lugares tentando encontra-la? Iria contatar o resto deles e bolar alguma coisa? Mas e se ele não for culpado? E se ele for, como eu provo isso? Como faço pagá-lo pelo que fez?
Conforme essas perguntas me vinham à mente, eu ia ficando mais inquieto. O que eu poderia fazer? Gata terminou de comer e pediu para voltar a ver TV, correndo para a sala. Eu precisava de ajuda nisso. Estava lidando com uma menina perdida e estava tentando caçar assassinos. E a polícia não era confiável. Não podia deixar minha família saber. Muito menos meus amigos despreocupados. Tudo me levava a uma única opção. Eu já havia pensado nela, mas só agora meus pensamentos se aprofundaram. Mas é isso, não tenho outra alternativa. Se esse negócio em que eu estava me metendo era encrenca, eu precisava de uma encrenqueira para lidar com isso. Ah, Sakura... terá que voltar a me ver mais cedo do que imagina...
****
Sakura’s POV
A conversa estava ficando animada demais para o meu gosto. Quando eu saí para o banho, Ino estava rindo loucamente sobre alguma piada que TenTen havia contado. Agora, quando voltei de cabelos molhado e roupas simples para o quarto, ela estava escovando os longos e lisos cabelos de Hinata, enquanto Temari puxava a conversa:
– Ah, Hinata, não vai ser tão ruim! E você já fez isso antes! – TenTen olhou para a morena de forma safada, acompanhada pelos risos de Ino.
– O que aconteceu? – perguntei jogando a toalha em um canto e me sentando na cama ao lado de Temari.
– Minha missão de amanhã é ser acompanhante de um empresário em uma festa. – Hinata respondeu tímida.
– Mas não tem nada demais nisso. – eu respondi olhando para a loira, que agora começava a testar penteados nos cabelos negros-azulados da outra.
– É que ela vai passar a noite com ele depois. – Ino disse de forma maliciosa, ao que Hinata corou violentamente. Bem, estava explicado. Não sei o que Hinata detesta mais: missões de assassinato ou missões de sexo.
– Pelo menos não é um velho enrugado. – Temari continuou.
– E você pode ganhar presentes depois. – TenTen disse ambiciosa. Era costume os clientes presentearem as Wings depois de um “serviço” bem feito.
Hinata não disse nada, só pegou um espelho para ver como seu cabelo estava ficando.
– Pelo menos você tem uma missão Hina... Tsunade me deu uma folga, mas eu estou quase morrendo de tédio! – Ino continuou dramática. – Sakura, me passe aqueles grampos no criado-mudo.
– Você podia usar o tempo livre para treinar, Ino. – Temari sugeriu. – Treinos nunca são demais. E se ficar muito tempo sem, pode enferrujar.
– Aaah chega de sermões sobre treinos, Tema. Eu gosto de chegar improvisando, vocês sabem! – a loira continuou, colocando os grampos na Hinata. – E eu treino sim, só queria uma coisa diferente para fazer.
Ino tinha razão. Depois dos meus dias lotados de missões que me privaram de banhos, sono e refeições, com Ino geralmente me acompanhando, Tsunade resolveu dar uma folga a nós. Mas já estávamos há duas semanas sem missões, já estava ficando chato.
– Terminei! – Ino levantou-se e olhou para Hinata, orgulhosa de si mesma. – Você ficou linda, Hina! Está decidido, é esse o penteado que você vai mostrar na missão amanhã. – Ino tinha mesmo talento com aquilo. Os cabelos de Hinata estavam presos em um coque, com alguns fios soltos na frente e atrás, com uma trança do próprio cabelo dela envolvendo o coque.
– Ficou uma diva, Hina! – TenTen disse rindo. Hinata corou e sorriu, agradecendo Ino. Ouvimos batidas na porta e uma Wing aprendiz entrou.
– Esse é o quarto da Sakura? – ela disse timidamente. – Tsunade-sama está chamando. – levantei-me devagar e cansada, pronta para seguir a Wing.
– O que? Até a testuda vai pra uma missão e eu não? – Ino dramatizou de novo. Ela era mestra naquilo. Eu sorri de lado.
– Vou pedir a Tsunade que você me acompanhe. – pisquei para ela e ela retribuiu o sorriso.
– Por favor! Preciso de algo para fazer!
Andei pelos vários corredores e escadas até a sala de Tsunade. Bati duas vezes e entrei.
– Boa noite, Sakura. – ela olhou minhas roupas. – Vejo que já estava preparada para dormir.
– Não, é cedo. Só pensei que não seria chamada. – também, pudera. Já eram mais de onze da noite. Mas já estava acostumada a ser acordada as 3 da manhã para ir a missões, então não havia nenhum problema.
– Bem, sente-se. – disse ela, sentando-se também.
– É uma missão? – eu disse um pouco esperançosa. Ino tinha razão, o tédio estava demais.
– Sim. O cliente pediu especificamente por você. – me decepcionei um pouco. Quando somos escolhidas a dedo, a missão geralmente é sexo.
– Quem tenho que satisfazer? – disse, me lembrando das palavras de Temari: “pelo menos não é um velho enrugado”.
– Oh, não é esse tipo de missão. – ela deu um sorriso de lado e olhou as unhas, que estavam com um esmalte cor de sangue. – Se você aceitar, vou te colocar na linha com o cliente agora mesmo. Ele disse que estava com pressa.
– Tá, eu aceito. – Tsunade tinha vários clientes estranhos, mas se não fosse uma missão de sexo, eu estava mais satisfeita.
– Sakura. O cliente é Sasuke. – o que? Fiquei olhando Tsunade sem saber o que responder.
– A família Uchiha?
– Não se faça de burra. Eu disse Sasuke, não a família Uchiha. Ele pediu sigilo. Você aceita falar com ele? – Claro que não! – Ele ofereceu uma quantia bem alta pelos serviços. – Tsunade disse aquilo me olhando com os olhos amarelos estreitados. Aquela pose só significava uma coisa: aceite.
– Não pode pedir a outra? Ino estava reclamando de não ter missões. – disse esperançosa.
– Ele pediu especificamente por você. Vai aceitar?
– Vou falar com ele. – mas era só o que faltava. Quem esse garoto pensava que era pra pedir um serviço meu? Depois de tudo o que eu fiz para ele e de tudo o que ele fez para mim, depois daquela despedida, depois de eu passar meus dias tirando a imagem dele da minha cabeça, me torturando para esquecê-lo, e depois de eu finalmente ter conseguido, ele resolve aparecer na minha vida de novo? Só podia ser brincadeira dele. E de muito mau gosto, por sinal.
Tsunade me acompanhou até uma sala adjacente a dela, bem pequena, com somente uma mesa e um telefone em cima, um bloco de notas, uma caneta e uma cadeira.
– Vou coloca-lo na linha. Aguarde. – ela fechou a porta para me dar privacidade, enquanto eu tentava esconder minha cara de desgosto. O telefone à minha frente tocou. Irritada, atendi. Melhor acabar logo com isso.
– Alô?
– Uau, tiraram alguém da cama à força. – a voz sarcástica e irritante dele que eu finalmente havia esquecido encheu meus ouvidos de lembranças. Suspirei pesadamente.
– O que você quer? – eu disse seca. Ainda acho que tudo isso não passa de alguma brincadeira de mau gosto dele.
– Pensei que ficaria feliz em falar comigo, Sakura. – esse modo irritante como ele dizia meu nome me irritava profundamente. E como assim, “ficaria feliz”?
– Por que eu ficaria? – respondi mais grossa do que antes. – Diga logo o que quer ou eu desligo.
– Você não tem senso de humor mesmo, né?
– Não enrola, Uchiha. – eu não o chamaria pelo primeiro nome. Não mesmo.
– Bem, minha família agora tem parceria com a organização da velha peituda, e como isso inclui a mim, pensei em te pedir um favor.
– Não é um favor, é uma missão. Você vai pagar por ela. – se fosse um mero favor, ele ficaria esperando eternamente.
– É, que seja. Você aceita? – sempre com aquele jeito esnobe de quem não tem paciência.
– Não. – eu cuspi a palavra.
– Não? Por que não? – ele parecia surpreso. Surpreso até demais.
– Porque isso está parecendo uma de suas brincadeirinhas idiotas. O que é tão importante para você pedir ajuda das Wings e não da polícia ou da sua família?
– Exatamente por isso. É importante. – há, tenta convencer outro. – Minha família não pode saber, nem a polícia.
– Do que você precisa, bebezinho? De alguém que vá buscar drogas pra você em um bairro abandonado? – ironizei a vez em que ele tinha me feito de idiota pedindo que eu fosse buscar drogas para ele.
– Aprecio sua ironia, Sakura, mas é sério. Vai aceitar a missão ou não? – eu só precisava de um único motivo para recusar.
– Por que você chamou especificamente por mim?
– Isso é meio óbvio, né? Você é a única que eu conheço e confio.
– Muitos clientes não sabem nem nossos nomes e aceitam qualquer uma de nós nas necessidades. Por que você acha que vai ter tratamento especial? – eu estava me irritando muito. Playboyzinho de merda.
– Ei, por que está tão hostil comigo? Não foi desse jeito que conversamos da última vez. – agora eu identicava raiva e confusão na voz dele. Sorri de lado.
– Porque eu pensei que aquela vez seria a última. Pensei que finalmente me deixaria em paz. – Pensei que eu poderia te esquecer, seu imbecil.
– É, nem sempre a gente consegue o que quer. – ele falou ríspido. Eu odeio esse tom de voz. – Vai aceitar a missão ou não? – ele disse passados alguns segundos.
– Já disse que não. Não confio em você.
– Sakura, por favor, não dificulte as coisas. – ele respondeu cansado e com tom de súplica. Súplica? Ah, tá bom.
– Me dê um motivo para aceitar o que quer que isso seja.
– Eu vou pagar, não é o suficiente?
– Não vindo de você. – ouvi um suspiro do outro lado da linha. Arrisco dizer que eu o tinha irritado.
– Sakura, eu sei que não quer me ver, mas eu também não tenho outra alternativa aqui. Acha que se a polícia ou eu mesmo pudéssemos resolver a situação, eu teria ligado? – sim, eu o havia irritado. Fiquei profundamente feliz por isso.
– Hm, então parece que é serviço de gente grande. Você devia ter falado antes, eu não adivinharia com um filhinho de papai falando. – ironizei e espero tê-lo irritado mais. Mas por outro lado, eu havia ficado curiosa. O que ele havia aprontado que não tinha contado nem a para a preciosa família?
– Sakura...
– Tá, seu mimado, eu aceito. – me dei por vencida. Era melhor fazer o que tinha que fazer a ficar longas horas discutindo com aquele ser. – Mas primeiro me diga do que se trata.
– Venha a Konoha e eu te explico.
– Claro que não, já estamos conversando. Fale agora.
– É complicado falar por telefone. – suspirei irritada e tentei controlar minha voz.
– Olha aqui, Uchiha, nós temos certas regras que os clientes devem obedecer. Uma delas inclui informar a missão desejada antes de fazermos qualquer coisa. Nenhuma exceção vai se abrir para você. Temos que saber antes para nos prepararmos corretamente. Entendeu ou quer que te mande um desenho colorido explicando? – ele fez silêncio do outro lado.
– É complicado explicar tudo agora.
– Uchiha, não dificulta pra mim. – cortei-o irritada. – Fala o essencial e depois me explica o resto. – ele pareceu ponderar sobre aquilo.
– Preciso que siga uma pessoa.
– Seguir?
– É, tipo aqueles detetives particulares dos filmes. – “detetives particulares dos filmes”. Quantos anos ele tinha, 10?
– Certo, então é uma missão de espionagem. – falei cansada. – Doeu falar, Uchiha?
– Pode vir aqui então pra saber o resto? – me ignorou completamente. Idiota.
– Quando? – não acredito que eu havia aceitado. Não acredito que teria de vê-lo de novo.
– Esteja aqui amanhã no final da tarde. – autoritário como sempre. – Não invada meu bairro, vou deixar avisado que uma louca vai entrar. E não chame atenção, venha sozinha. – odeio essas ordens. Odeio. – Ah, e ninguém pode saber. Isso inclui minha família. Venha direto pra cá e...
– Eu já entendi, idiota. Não sou cabeça-dura como você.
– Imagina se fosse então...
– O que você disse?
– Nada. Foi bom fazer negócios com você, Sakura. Até amanhã. – não respondi e coloquei o telefone furiosamente no gancho.
Abri a porta e me encontrei de novo na sala da Tsunade, que terminava de passar documentos para Kurenai. A Wing saiu da sala e ficamos a sós. Minha mestra se virou para mim.
– E então? Aceitou?
– Aceitei. Vou viajar para Konoha amanhã a tarde. – tentei parecer menos infeliz do que estava, sem sucesso.
– Qual é o tipo da missão?
– Tipo 31. Espionagem. – falei sem vontade.
– Interessante. – aquilo pareceu ter divertido Tsunade. – Você e ele têm histórias juntos. Sabe que não pode deixar isso interferir na missão, não é? – ela me olhava de um modo desconfiado.
– Eu sei. E não temos nenhuma história. – minha mestra riu um riso sarcástico.
– Tá bom. – acalme-se, Sakura. Acalme-se. – Então pode preencher os documentos sobre a missão e está dispensada. Arrume-se, prepare-se e eu deixarei tudo pronto para sua viagem amanhã.
Preenchi a parte burocrática do trabalho, para ser arquivada junto com outros registros de missões. O resto eu preencheria quando voltasse da missão, relatando tudo. Me despedi e voltei ao meu quarto. Mesmo que tenha ficado fora, as meninas não haviam saído e continuavam conversando tão alegremente como quando saí. Entrei e Ino olhou para mim com seus olhos azuis brilhando. Fiz um rosto triste.
– Desculpe Ino, terei que ir sozinha. – o sorriso dela murchou.
– O que? Não acredito! Mais um dia de tédio! Aaaaa.... – ela se jogou na minha cama. Hinata estava com o cabelo solto de novo e TenTen mostrava a Temari sua mais nova arma.
– Qual é sua missão, Sakura? – Hinata perguntou.
– Não sei direito. Só que é Tipo 31.
– O que? Esse é o tipo mais legal de missão! – Ino se levantou num piscar de olhos. – Não acredito que não posso ir com você, Sakura! Você implorou à Tsunade?
– Não, porquinha, desculpe. O cliente pediu só por mim. – eu vi que aquilo era um erro no momento em que falei. Eu não devia ter dito “por mim” devia ter dito “por uma pessoa”. É claro que todas perceberam isso.
– Hm, e quem seria esse cliente, Sakurita? – TenTen fez uma voz aguda.
– Não é ninguém. – tentei desviar o assunto. – E não me chamem de Sakurita.
– É claro que é alguém! – obrigada, Temari. – São poucos os clientes que nos conhecem especificamente. Diz quem foi, diz, Sakurita? – todas me olhavam curiosas. Oh céus, não me façam falar sobre ele.
– Não é ninguém, já disse.
– Deixa de frescura! Se não falar, vamos te importunar a noite inteira – Ino começou a mexer a cabeça de forma infantil, jogando os compridos cabelos para o lado – e aí vamos tentar adivinhar, não vamos deixar você dormir e...
– Ai, tá bom, foi a família Uchiha. – não era exatamente mentira. – Por isso eles me conheciam. – esperei que isso fosse aquietá-las, mas nããão. Claro que não.
Passei os próximos vinte minutos tentando encerrar o assunto, e as encarava de modo furioso quando elas mencionavam o Uchiha mais novo de algum jeito. Não, eu não diria o nome dele. Nunca mais. Depois que se aquietaram e cada uma foi para seu quarto, eu pude finalmente deitar na cama e tentar esquecer minha conversa com ele.
E era isso o que mais me irritava. Aquela voz autoritária e sarcástica dele, aquele jeito infantil de falar comigo. E quando eu finalmente pensei ter podido esquecê-lo, quando eu finalmente não abria os olhos de manhã sem ver o rosto dele, quando eu finalmente não pensava nele e achei que nunca mais o veria, o desgraçado liga. E me chama para vê-lo. Como se fosse uma armadilha para mim, como se fosse alguma tramoia só para me prender a ele de novo. Parece que ele soube que eu finalmente não pensava mais nele e decidiu “não, a Sakura tem que pensar em mim eternamente, vou infernizar a vida dela para sempre”. Como algum tipo de maldição. Ou karma. Não acredito nisso. Não acredito que terei de vê-lo de novo, conversar com ele, seguir ordens dele. Não, isso estava muito errado. Seria uma tortura. E a maior tortura era lembrar do que havia acontecido entre a gente. Sim, agora não havia escapatória. Aquela voz dele tinha despertado em mim todas as memórias que eu me esforcei tanto para esquecer.
Coragem, Sakura. Coragem, mulher.
Sim, coragem. Muita coragem. E paciência também, de preferência.
****
Sasuke’s POV
Ela desligou na minha cara. Não posso dizer que esperava uma atitude mais simpática. Bem, na verdade, eu esperava. Não sei o que deu naquela louca para falar grossa comigo daquele jeito, como se eu tivesse cometido algum crime. E ela nem estava assim quando nos vimos pela última vez! Sei lá, só sei que quando se trata da Sakura, preciso agir com cuidado, principalmente agora que ela vai vir toda irritadinha para cá. Não quero encher o resto do meu pescoço de cicatrizes.
Mas eu também não tinha escolha. Sei que ela não queria me ver (não sei por que) mas ela era a única que podia me ajudar com a Gata. Ela pensou no telefone que isso era algum tipo de brincadeira, o que eu achei meio ridículo. Nem eu estaria tão entediado assim para ligar para aquela velha peituda só para encher o saco. Sakura, Sakura, eu nunca consigo te entender. Dei um longo suspiro cansado e voltei para a cama. Já era a segunda noite que a Gata passava em casa. Só espero que isso possa realmente ajuda-la.
The love we share
Seems to go nowhere
And I've lost my light
For I toss and turn I can't sleep at night
O amor que dividimos
Parece ir a lugar nenhum
E perdi minha luz
Me debato e me viro, não consigo dormir a noite
Hannah Peel – Tainted Love
Fale com o autor