Broken Wing - Aprendendo A Voar
20 Capítulo 20 - A Gata das Ruas
Notas iniciais
Sasuke’s POV
Cara, isso não é possível. Não tem como alguém sentir a quantidade de tédio que eu estou sentindo agora. Deveria haver uma lei, um programa que, sei lá, controlasse a quantidade de sentimentos que cada pessoa pudesse ter, principalmente o tédio. Não aguento mais minha vida do jeito que está.
Já faz algum tempo que eu venho percebendo que meus dias estão ficando mais longos e mais cansativos. E mais tediosos! Odeio admitir, mas desde que Sakura foi embora da cidade, nada mais aconteceu! Nada de interessante, digamos assim. Minha rotina estava cada vez mais monótona. Eu acordava, ia para a empresa, resolvia mil coisas lá. Voltava para e casa e tinha que resolver mais mil coisas. Quando tinha folga, saía com as mesmas pessoas, ia para os mesmos lugares, fazia as mesmas coisas. Aquilo não estava divertido. Eu tinha conhecido muito pouca gente nova e havia dormido com apenas uma garota. UMA. E a garota era a Karin. A KARIN! Pela milionésima vez! Não aguento mais essa mulher! Dá pra ficar pior? Não, não dá.
Eu não estava mais animado para nada. Frequentemente me peguei discutindo com meu pai (sobre a empresa e sobre minha vida também) e eu brigava com Itachi praticamente toda vez que o via. Quando isso acontecia, meu tio entrava no meio e dizia que não estávamos mais no ensino médio.
Fora isso, minha mãe estava mais animada do que nunca. Minha mãe já é cheia de fofuras e elogios quando está normal, então quando ela se anima só minha tia aguenta. O motivo era o casamento. Sim, a lombriga cabeluda do meu irmão vai se casar com a noiva dele, Konan. Tinham marcado a data, feito um jantar de noivado super meloso e agora minha mãe estava ajudando a organizar o casamento. Eu via aquela festa mais como publicidade para o nome da minha família. Não que eles não se gostassem, mais sei lá. Para mim, casamento é uma frescura. Além de ser tipo, um contrato eterno (eu sei que existe o divórcio, mas a ideia original era essa) parece que você perde a sua liberdade para a outra pessoa. Mas eu não me importo. Quem vai casar é o Itachi, então o problema é todo dele.
Além desse casamento, que pra mim não será grande coisa, não tem nada mais que eu espere da minha vida. Há alguns meses, eu não era assim. Porque nessa época, ela estava aqui. Sim, aquela rosada impetuosa fazia meus dias mais divertidos. Com ela, eu nunca sentia tédio. E agora já faz alguns meses que ela se foi e mesmo assim eu me pego pensando nela. Nela e naquele esquisito cabelo de algodão-doce que ela tem. Naqueles olhos de esmeralda me olhando teimosamente, me chamando para algum desafio, algum confronto. Nela e naqueles lábios rosados, me convidando a beijá-los. Confesso que sorri feito um bobo quando ela respondeu os cartões de feliz aniversário que minha família mandou, e comecei a imaginá-la dentro daquele vestido. Me senti quente por algum motivo e o sorriso desapareceu. Talvez eu nunca mais fosse ver aquela rosada chata, e por mais que eu tentasse fazer minha vida ficar interessante, nada acontecia! E eu já estava cansado disso.
Acho que foi isso o que me motivou a fazer alguma coisa imatura que eu normalmente não faria. Saí de casa nessa noite de quinta, às 11 da noite e rodei com o carro por Konoha inteira. Tá, isso não é nada anormal, mas eu só estava esperando meu destino final. Kusurugi, o “bairro assombrado” de Konoha. Me lembro de quando eu mandei Sakura lá de propósito e chamei a polícia só para infernizá-la. Admito que o troco que ela me deu foi bem mais pesado, mas mesmo assim não pude deixar de rir.
Depois do massacre que aconteceu em Kusurugi vários anos atrás, o bairro se tornou interditado por respeito às vítimas. Os sobreviventes não queriam voltar para lá e o lugar ficou conhecido como um atrativo de mau agouro. A entrada de pessoas lá ainda é proibida, mas é claro que mendigos e foras-da-lei sempre estão escondidos em algum canto lá. Sinceramente não sei o que deu em mim para visitar esse bairro. Não tinha nada para fazer lá e isso soava como travessuras de alguém do 5º ano. Mesmo assim, isso pode ser a coisa mais interessante que aconteça na minha vida por agora. Parei perto da área interditada, olhei para ver se não tinha mais ninguém e adentrei o escuro e sombrio bairro.
Era bem extenso. Várias ruas estreitas e esburacadas, com casas abandonadas e desgastadas. Não havia sinal de vida e quase nenhum poste de luz funcionava mais. Os barulhos que eu ouvia provaram ser morcegos e corujas caçando e gatos saltando de um lado para o outro ligeiros. Havia chance de eu ser assaltado, havia chance de algum vigia me descobrir, eu poderia ser atacado por um cachorro de rua ou por algum espírito, mas sinceramente qualquer coisa dessas é melhor do que ficar em casa agonizando por causa de relatórios da empresa.
E assim, eu continuei minha jornada pelo bairro. Estava ventando naquela noite e até agora não havia sinal de vida. Virei uma rua e me deparei com um poste de luz aceso. Aleluia, pelo menos um. Fui andando, passei pelo poste e descobri que eu havia chegado a um beco sem saída. Desanimado, já ia me preparar para voltar, se não fosse pelo estranho barulho que ouvi. Virei rapidamente olhando para a minha esquerda. Havia uma caçamba cheia de areia ali e vários latões de lixo ao lado. Pensei que podia ser só mais um gato, mas ouvi o barulho de novo. Parece que alguma coisa havia se chocado com uma das latas de lixo. Se fosse um gato, já teria saído correndo dali. Estreitei os olhos e me aproximei, mas ainda não via nada. A luz do poste não estava iluminando o lugar o suficiente. Por fim, como paciência nunca foi uma das minhas virtudes, engrossei a voz e falei:
– Quem está aí? Apareça.
E o que eu vi sair de detrás das latas de lixo era uma pessoa.
Na verdade, não era uma pessoa. Estava mais para um projeto de pessoa. Pernas tortas e finas, descalça, corpo pequeno e magricelo, tanto que parecia que iria cair e se quebrar a qualquer momento. Cabelos curtos e desgrenhados, pele suja e descuidada, tinha um vestido curto como roupa, rasgado e encardido. Nas mãos esqueléticas e trêmulas, segurava um objeto brilhante e pontudo. O que eu vi sair de seu pequeno esconderijo era uma menininha incrivelmente pequena e frágil, com os olhos mais assustados que já vi. Eu olhei aquele pequeno projeto de gente dar passos hesitantes para frente, segurando uma faca de cozinha com as duas mãos (que tremiam mais do que ela inteira) e tentando criar coragem para dizer algo. Me surpreendi com aquela cena. Estava pensando em dizer algo, mas a menininha foi mais rápida.
– Vai embora. – a voz era baixa e aguda, tremendo tanto quanto suas mãos e seu corpo. Ela estava muito assustada. Desde quando aquela criança estava escondida naquele lugar?
– Você está bem? – ela pareceu se desesperar ainda mais com minha voz, porque fechou os olhos, de onde mais lágrimas saíram e dessa vez falou mais alto.
– Vai embora! – Sasuke seu idiota! Não percebeu que a menina tem medo de você? Mas como eu agiria em uma situação daquelas? Tentei acalmar minha voz, me abaixei até ficar na altura dela e tentei ser o mais gentil possível.
– Não vou te machucar. Não precisa ter medo. – ela continuou de pé, apontando a faca para mim. Parece que não sabia o que fazer. Como ela não respondeu, tentei continuar, devagar e calmo – Você está perdida?
– Não. – ela disse de repente. – Vai embora.
– Eu não sou mau. – tentei não parecer ridículo com aquela frase, mas acho que era esse tipo de palavreado que costumava convencer crianças da idade dela. – Não vou te machucar, não precisa ter medo. – ergui as mãos para provar que não tinha nada escondido, mas não sei se surtiu muito efeito. Ela só me olhava. Continuava tremendo, mas não abaixou a faca em nenhum segundo.
– Eu vou te machucar. – a voz trêmula havia ficado mais firme agora. Os olhos mostravam um pouco mais de determinação, mas o medo ainda era visível. Quem era aquela garotinha? – Eu... eu vou te espetar. – por mais que ela se mostrasse valente, acho que nem força tinha direito para segurar a faca, quanto mais enfiá-la em alguém.
– Eu não sou mau. – tentei repetir. Mas eu não levava jeito com crianças. – Quero te ajudar. Você está perdida? Quer que eu ligue para os seus pais? – tirei meu celular do bolso, gesto que a assustou, mas depois ela viu que era só meu celular. A expressão dela agora estava confusa, quase melancólica.
– Você não é mau? – ela perguntou fracamente. Parece que eu estava conseguindo. – Não veio me pegar?
– Não, eu quero te ajudar. – pegar? Quem estava tentando pegá-la? – Se você me disser o número de seus pais, posso ligar para eles. – o rosto dela ficou sombrio de repente. Pela fraca luz do poste, eu pude perceber que ela havia baixado a cabeça.
– Não tem ninguém na minha casa. – aquilo era algo que já devia ter imaginado. Havia poucas opções para se encontrar uma criança perdida em um lugar como esse: ou ela havia fugido de casa, o que não parecia o caso dessa menina; ou ela havia sido abandonada; ou algo muito ruim havia acontecido com a família dela. Eu apostava na última opção e me senti mal por ter perguntado sobre os pais dela. Mas eu ainda não podia deixa-la assim.
– Faz tempo que você está aqui? – eu tentei parecer mais amigável, sem deixar de ser gentil. Ela ainda não confiava em mim. – Não quer que eu chame alguém pra vir te buscar?
– Não tem ninguém! – por fim, ela gritou. Foi tão de repente que me assustei. Percebi que ela havia começado a chorar e estava com a expressão mais triste que já vi em alguém.
– Ok, desculpe. Mas você não pode ficar aqui, é perigoso. – esperei ela parar de chorar e me olhar de forma triste.
– Não tenho mais para onde ir. E eles podem voltar.
– Eles não vão voltar. – eu não sabia quem eram eles, mas com certeza não eram pessoas boas.
– Como você sabe disso? Você é um deles? – o olhar valente e ao mesmo tempo assustado voltou a preencher o rosto dela. A faca ainda estava apontada para mim.
– Não, não sou nada deles. Eu posso te ajudar. – meu tom de voz pareceu esperançoso, mas não convenceu a menina.
– Como?
– Posso te tirar daqui. Eu não sou mau, não precisa ter medo de mim. – pra falar a verdade, eu não tinha a menor ideia do que fazer com aquela menina. Só sabia que ela não podia ficar naquele lugar e naquele estado.
– Não. – me surpreendi com a resposta. Como assim ela recusa minha oferta de ajuda?
– Por que não? – soou mais ríspido do que eu pretendia. Ela é uma criança assustada, Sasuke, não faça papel de grosso com ela!
– Você é um garoto. – ela disse com raiva. – Tudo o que garotos fazem machuca. Tudo! – ela disse aquilo com tanta ferocidade que eu não sabia mais o que responder. E não queria imaginar o que seria esse “tudo”.
– Mas eu não vou te machucar. – ela não estava convencida, eu não sabia o que fazer para que ela confiasse em mim. Ficamos um tempo em silêncio e eu resolvi arriscar. – Você já ouviu falar nos Uchiha? – meu tom gentil havia voltado. Ela pareceu pensar um pouco antes de responder.
– Já. É aquela família rica em que todos tem cabelos pretos. – ótimo, vou usar isso.
– Eu sou um Uchiha. Se você já ouviu falar de nós, sabe que não somos maus. – ela pareceu considerar o que eu havia dito, e começou a me olhar como se tentando me reconhecer de uma foto de jornal. – Meus cabelos são pretos. – cara, eu definitivamente não levava jeito com crianças.
– Como você chama?
– Sasuke. – ela pareceu pensar mais um pouco. Eu tentei decifrar o rosto dela, e arrisquei um movimento para mais perto do poste de luz para poder observá-la melhor. Meu rosto mais iluminado pareceu ter chamado a atenção dela, que respondeu de repente.
– Eu já te vi. No jornal. – ela falou aquilo como se fosse uma memória distante.
– Sim, eu apareci no jornal. Viu? Não precisa ter medo.
– Mas você é um garoto. – ela repetiu. – Todos os garotos são maus. – o problema dela era meu gênero. Mas eu não podia virar mulher pra ela confiar em mim.
– Nem todos os garotos são maus. – ficamos em silêncio de novo. Ela mantinha os olhos em mim com uma expressão de desconfiança notável. Parecia uma gata analisando algum animal maior que representava perigo. Eu só havia visto aquela expressão em outra pessoa somente. Por fim, ela quebrou o gelo:
– Se eu for com você, o que vai fazer comigo? – havia medo naquela frase.
– Eu vou te ajudar. Você não quer ficar aqui, não é? Eu não sou mau, mas outras pessoas são. É melhor você ir para um lugar seguro. Está com fome? Também não pode ficar com essas roupas. – percebi que essas possibilidades soavam tentadoras para ela. Pela aparência, ela não comia nem dormia há vários dias. – Não quer vir comigo? Prometo que vou te ajudar.
– Promete?
– Prometo.
– Então... – ela parecia estar se decidindo – Então tá. – suspirei aliviado, me levantando. Minhas pernas já estavam dormentes de ficar agachado. – Mas... se você tentar me machucar, eu te mato. – ela falou aquilo com uma expressão diferente, séria. A faca ainda estava firme em suas mãos. Seus olhos estavam cheios de algum sentimento que poderia ser raiva, determinação ou medo. Não consegui identificar. Novamente, aquelas palavras e aquela expressão me lembraram de uma pessoa.
– Não vou te machucar. Vem. – me virei e comecei a andar lentamente, aliviado por ter tirado aquela menininha daquele lugar. Olhei para trás e ela me seguia devagar, ainda com sua leal faca à frente.
Tentei me lembrar do caminho que eu havia feito para chegar até ali. Estava muito escuro, então demorou bastante. A menina continuou me seguindo, mas sempre em posição de defesa. Até que finalmente, cheguei na entrada interditada do bairro. Não havia ninguém na rua. Devia ser tarde. Eu tinha tirado a menina de lá, mas agora não sabia o que fazer com ela. O mais sensato seria leva-la a um posto policial ou a um hospital, já que ela estava muito fraca e cheia de marcas no corpo. Chegamos ao meu carro e eu abri a porta de trás, e ela entrou apoiando as mãos no banco. Sentei na frente e ajeitei o espelho para que eu pudesse enxerga-la. Eu não queria dizer aquilo, mas eu precisava saber.
– Não tem ninguém que você conheça por aqui? Alguém pra ficar com você?
– Não. – Ela respondeu olhando para meus olhos refletidos no espelho e eu olhando para ela do mesmo local. – Eles mataram meu papai e minha irmãzinha.
– Isso faz... tempo? – perguntei hesitante.
– Não sei. Alguns meses. – Meses?
– E você ficou escondida lá todo esse tempo? – perguntei preocupado. Como ela havia sobrevivido?
– Não. Eu fiquei com eles por um tempo. Depois eu fugi. Aí eu fui pra lá. – ela parecia estar mais calma. Não estava mais tremendo e a voz estava mais estável. Mas a expressão triste continuava em seu rosto.
Dirigi até a delegacia de polícia. Achei melhor deixar alguém ciente da situação dessa menina, e depois eu a levaria para um hospital. Assim que estacionei o carro, ela olhou assustada para o prédio e começou a gritar.
– Não, não, não! Aqui não, aqui não, AQUI NÃO! – ela esperneava, chutava o banco da frente e tentava abrir a porta e fugir. Eu fiquei assustado com aquela reação.
– Calma, calma! Aqui é a polícia, eles vão te ajudar! – mas ela só repetia “aqui não, aqui não”. No momento, eu só queria que ela parasse de gritar, então liguei o carro de novo e me afastei daquele local, estacionando várias ruas à frente. Os gritos pararam, e ela agora me olhava com fúria.
– Seu mentiroso! Você disse que não era mau! Você disse que não era um deles! – ela gritava e apontava a faca para mim. Eu não entendi nada do que ela quis dizer.
– Ali era a polícia! Eles são do bem! Eles ajudam as pessoas! – tentei explicar, mas ela não entendia! O que deu nessa menina?
– Não, não! Eles são maus! Você é mau! Deixa eu sair! Deixa eu sair! – ela gritava mais alto e começou a bater no vidro do carro com a faca.
– Menininha, se acalme! Está tudo bem, desculpe, não vou voltar lá! Não faça isso no carro!
– Não, não acredito mais em você! Você queria me entregar para ele! – como assim? Algum desses “ele” estava na delegacia? Eu estava entendendo menos a cada palavra dela.
– Não, não queria! Acalme-se, pare de fazer barulho ou “eles” vão ouvir! – finalmente ela havia se aquietado. Acho que foi cruel dizer aquilo, mas foi a única coisa em que consegui pensar. Agora ela me olhava assustada.
– Eles são maus! Eles me machucaram! – ela disse baixo, chorando de novo. – Não me leve para lá!
– Tá, eu não vou levar, prometo! Então vamos para o hospital?
– Não, não quero! Quero sair daqui! Me deixa sair daqui!
– Calma, você não pode andar pela cidade a noite sozinha! – essa menina era impossível! Onde mais eu poderia leva-la?
– Não quero ir ao hospital. Não quero! – ela abraçou os joelhos e enfiou a cabeça nos mesmos, murmurando para si mesma: “não quero, não quero”. Ficamos assim por alguns minutos. Por fim, eu dei um longo suspiro e falei com mais calma.
– Quer ir para minha casa? Lá não tem “eles”. – ela ergueu a cabeça de imediato.
– Na sua casa? Quem mora lá?
– Eu moro sozinho, mas tenho vários vizinhos. – acho que ela não gostaria da ideia de ficar em uma casa a sós comigo, um “garoto”. Ela pensou por um momento e disse:
– Tá. Mas não minta de novo!
Aquilo não fazia sentido para mim. O caminho para minha casa foi silencioso. Eu usei o tempo para pensar. Primeiro, alguma coisa muito errada havia acontecido com a família dela. E parecia que algumas pessoas, por algum motivo, estavam atrás dela, e ela se desesperou quando paramos na delegacia porque disse que “ele” estava lá. Isso tá me cheirando muito mal. E segundo, eu não gostava nada da ideia de abrigar uma menina refugiada na minha casa. Se alguém visse aquilo, poderia pensar outra coisa, tipo, que eu a estou sequestrando ou pior. E faltam muitas partes da história que ela me contou hoje. Isso não teria um final fácil. Olhei para meu relógio e os ponteiros indicavam 00h45. Não havia muita coisa que eu podia fazer pela menina agora, nem muito mais que eu poderia descobrir sobre ela.
Cheguei no condomínio onde morava, abri o portão e cumprimentei o porteiro, torcendo para que ele não notasse a frágil figura no banco de trás do carro. Ainda não acredito que encontrei uma menina de rua no bairro mais evitado de Konoha e que a ajudei trazendo para minha casa. Tinha algo muito errado nisso. Enquanto eu passava pelas ruas do condomínio, observei pelo espelho que ela fazia expressões de admiração ao ver as casas que havia ali. Parei em frente à minha, abri o portão eletrônico, guardei o carro e entramos pela porta dos fundos, que dava na cozinha. Eu entrei primeiro, e ela, sempre desconfiada, com sua pequena faca apontada me seguiu cautelosa.
Acendi a luz e pedi para que entrasse. E só agora que eu podia realmente vê-la, ali, no clarão da minha cozinha. Ela era muito pequena mesmo, muito frágil e desnutrida. Devia ter no máximo uns seis anos. Tinha cabelos loiros muito claros em um emaranhado de nós e sujeira, que lhe caíam curtos um pouco acima dos ombros. A pele era muito clara também, ela estava toda suja e notei agora, muito machucada, cheia de roxos e arranhões pelo corpo. O cômodo parecia grande demais para ela. Ela olhava tudo com curiosidade e interesse, com aqueles olhos verdes também muito claros, felinos, quase transparentes e arregalados. Percebi que ela tremia levemente, mas acho que era de frio. O pano que ela fazia de vestido era muito fino.
– Você quer tomar um banho quente? – ela olhou para mim assustada. – Não pode ficar suja. E também precisamos tratar dos seus machucados, já que você não quis ir ao hospital.
Ela só continuou me olhando. Seus olhos claros pareciam estar lendo os meus.
– Posso ficar aqui mesmo, senhor Uchiha? – “senhor Uchiha”? Aquilo havia me surpreendido.
– Pode. – eu disse secamente. Não que eu tivesse pretendido isso.
– Não vai me bater? – aquilo não parecia uma pergunta, e sim uma súplica.
– Não, eu já te disse que não sou mau.
– Posso comer depois? – agora os olhos dela brilhavam esperançosamente. Dei outro suspiro cansado, sentindo mais dó daquela menina do que jamais senti por alguém.
– Pode.
– Você tem doces?
– Tenho. Depois que tomar banho, pode comer. – espero que ela goste de ursinhos de goma, porque são os únicos doces que eu tenho. E então ela abriu um sorriso. O primeiro que a vi exibir. Os lábios dela estavam cortados, mas os dentinhos de leite eram impecáveis.
– Obrigada, senhor Uchiha. O senhor é bom como o meu papai. – aquilo devia significar muito para ela, porque o sorriso não sumiu.
– Pode me chamar de Sasuke. – ela assentiu e deixou que eu a guiasse até o banheiro mais próximo. Eu nunca tinha passado tanto tempo assim com uma criança. Meu tio tinha filhos pequenos, mas eu nunca brinquei com eles nem nada parecido. Não tinha contato com crianças e nem me importava em ter. Não tinha paciência. Mas essa garotinha havia aparecido do nada para mim, naquele beco escuro, com olhos sem vida e expressão assustada. Agora ela tinha sorrido para mim e dito que eu era uma boa pessoa. Me pergunto quem ela realmente é e o que teve de enfrentar até a noite de hoje. A propósito...
– Qual é o seu nome? – perguntei, depois de pegar a menor blusa que eu tinha para cobri-la depois do banho e já ligando a ducha para ela.
– Pode me chamar de Gata.
– Mas e o seu nome de verdade?
– Não preciso dele. Eu abandonei meu nome no dia em que o meu papai me abandonou. Eles me chamavam de “Pombinha”, mas eu não gostava. Depois que eu fugi e me escondi, assustei uma velhinha quando apareci na frente dela pedindo comida. Ela disse que eu tinha olhos ligeiros e esbugalhados como o de uma gata e me deu um pedaço de pão. Quando a encontrei de novo, ela disse “A Gata voltou?”. Eu gostei do que ela falou. As gatas caçam as pombinhas.
Fiquei olhando aquela menininha de olhar felino com interesse. Depois de uma certa rosada, ela havia sido a única coisa a me prender a atenção. E eu estava impressionado com esse ser tão pequeno e tão forte ao mesmo tempo. Deixei-a tomando banho e fiquei esperando do lado de fora do banheiro, sem saber ao certo o que pensar da Gata que eu havia encontrado naquelas ruas tortuosas e escuras.
Little girl, little girl
Why are you crying?
Inside your restless soul your heart is dying
Little one, little one
Your soul is purging
Of love and razor blades your blood is surging
Garotinha, garotinha
Por que está chorando?
Dentro de sua alma inquieta seu coração está morrendo
Pequenina, pequenina
Sua alma está expurgando
De amor e navalhas seu sangue está surgindo
Green Day – Viva la Gloria? (Little Girl)
Fale com o autor