Broken Wing - Aprendendo A Voar
46 Capítulo 46 - Conversa Sincera
Notas iniciais
Algo estava errado. E poderia não ser da minha conta, mas se ele pensava que poderia mentir para mim daquele jeito, estava muito enganado. Algo estava errado e eu iria descobrir o que.
Sasuke’s POV
Desliguei o telefone com uma tempestade de pensamentos tentando se fazer ouvir em minha cabeça, e eu não sabia a qual deles dar atenção. Não sabia se ficava mais surpreso, assustado, feliz ou preocupado com o fato de Sakura ter me ligado. Isso parece tão surreal, até agora estou me perguntando se de fato aconteceu.
– Sasuke? – virei-me para encarar Ino. Ela me olhava com o rosto preocupado. Tentei esconder a expressão estranha se formando em meu rosto, mas acho que até Gaara percebeu que eu estava meio afoito.
– Ah... ela não percebeu o copo se quebrando. – foi tudo o que consegui dizer. Ino havia ficado tão nervosa quando percebeu que era Sakura do outro lado da linha que derrubou um copo de vidro no chão.
– Não é isso. – ela continuava me olhando aflita, mas eu já não prestava mais atenção em sua expressão. Sakura acabara de me ligar. Sakura! É óbvio que eu não estava conseguindo mais pensar direito – Por que... por que ela te ligou? – lentamente comecei a me tornar mais ciente da situação aqui, e minha expressão assumiu um tom confuso.
– Não sei, para dizer a verdade. Ela disse algo sobre estar entendiada e querer me irritar... o que faz sentido se tratando dela... – Ino me encarou de forma ainda mais questionadora, do tipo “você realmente acreditou nisso?”, mas fazia sentido, pelo menos para nós. Ela e Gaara estavam em uma relação estável já, mas faíscas eram o mais comum de se acontecer quando eu e Sakura estávamos envolvidos. Então fazia total sentido ela somente querer me irritar.
– Você não acha que ela...
– Acho que não. – Gaara entrou na conversa. Ele sempre falava tão pouco, eu sempre me assustava quando ele de fato resolvia expressar alguma opinião – Não acho que ela tenha ligado porque suspeita que estejamos aqui.
Ino pensou um pouco, parecendo pouco convencida.
– Concordo com Gaara – tentei tranquiliza-la – Ela nunca faria nada para te prejudicar, certo? Então não precisa se preocupar. Mesmo que ela por algum milagre descubra que você está aqui, não contará à velha peituda.
– Sim, vocês tem razão. Acho que eu só estou paranoica, no fim das contas. – eu não a culpava por aquilo. Deveria estar sendo muito estressante para ela e Gaara. Nem ligávamos mais a televisão, pois o desaparecimento do filho do Senhor Feudal do País do Vento ainda era um assunto constante na mídia – E como... como ela está?
Fiquei sem saber o que responder para a pergunta de Ino. Sakura disse que estava bem, na verdade ela deu a entender que estava ótima, mas eu a conhecia melhor.
– Entediada. Mas disse que está bem, apesar de eu achar o tom dela meio falso. – Ino exibiu um sorriso saudoso – Acho que ela está sentindo sua falta.
– Eu sei. Mas não posso voltar atrás agora. – em seguida, ela me encarou, seus olhos azuis queimando os meus – Você sabe por que ela te ligou, não sabe?
– Para descontar a irritação, como sempre fez. – Ino balançou a cabeça ferozmente.
– Não, Sasuke, você é mais esperto que isso. Você mesmo disse que o tom dela foi falso, ou seja, ela estava mentindo quando disse que estava bem.
– Sim, porque ela sente sua falta, loira.
– E então, para suprir a minha falta, ela ligou para você. – eu estava seguindo a linha de pensamento de Ino, mas parecia muito esperançosa para ser verdade – Não percebeu, Sasuke? Ela ligou para você porque queria conforto. Ela tem várias amigas na Base, várias pessoas para conversar, incluindo psicólogas, e mesmo assim ela resolveu ligar para você, mesmo com os sentimentos perigosos existentes entre vocês. Para ela, você deve ser um porto seguro. Eu já percebi isso quando vim aqui pela primeira vez, mas com a minha ausência lá, isso parece ter se intensificado.
– Pode ser que você esteja certa, Ino, mas falar isso não vai me ajudar. Afinal, não podemos ficar juntos, certo? Você e ela me disseram isso várias vezes. – minha intenção era ter soado indiferente, mas ainda havia uma pontada de tristeza em minha voz que eu ainda não conseguia disfarçar totalmente. Ino apenas sorriu tristemente.
– Bem, essa seria a situação ideal. Mas eu e Gaara somos o perfeito exemplo de que o ideal não é sempre o que acontece. Sim, eu tentei fazer com que vocês se afastassem, e sei que isso faz de mim uma hipócrita, mas eu só não queria que vocês chegassem à mesma situação que eu. Mas o destino é engraçado, não? Ele age por conta própria, sem se importar com nossas preferências ou sentimentos. Assim como eu e Gaara, você e Sakura parecem ser o ímã um do outro. Ela encontrou em você algo que nunca pensou poder encontrar, mas secretamente sempre almejou; e você parece ter visto o mesmo nela. Então apesar de essa relação confusa de vocês causar dor, vocês se sentem bem quando estão com o outro, não?
Ino parecia estar decifrando minha mente. Eu não gostava quando as pessoas faziam isso comigo, principalmente quando tudo o que ela falava parecia ser verdade. E ainda por cima, tudo ser dito na frente de Gaara era quase vergonhoso. Eu não gostava de exibir meus sentimentos daquela forma. Até conhecer Sakura, nem sabia que eu poderia até sentir esse tipo de coisa. E agora, tudo estava confuso. Era doloroso ficar longe de Sakura, mas era perigoso quando estávamos juntos. Se Sakura não fosse uma Wing, e sim uma pessoa normal, metade desses problemas nem existiriam. É ironicamente triste que essas mulheres sejam chamadas de “Asas” quando não podem voar livremente.
De repente, desejei ser Sakura ali no lugar de Ino. Desejei que Sakura tivesse fugido daquele lugar e estivesse aqui comigo. Eu nunca deveria tê-la impedido de ir embora quando ela fugiu. Eu deveria ter ignorado quando Tsunade chegou aqui pela primeira vez, deveria tê-la deixado fugir e ser feliz. Se Sakura estava presa na Base das Wings agora, em partes era por minha culpa.
– Sim, eu me sinto bem quando estou com ela, apesar de ela nunca decidir se me ama ou me odeia. – Ino sorriu novamente, mas a cada sorriso ela parecia ficar mais triste.
– Ela provavelmente deve sentir o mesmo. Ela gosta de você, mas como isso é errado para uma Wing, a única saída que ela encontra para colocar alguma distância imaginária entre vocês é te tratando desse jeito. Ela acha que sendo rude não a fará tão sensível a você, e também não te fará tão propenso a gostar dela. Mas ela já deveria ter percebido que isso não deu certo até agora, visto que ela teve a necessidade de ligar para você para se sentir melhor e desabafar.
– Bem, não posso dizer que esse método é totalmente inútil. Às vezes os insultos dela conseguem acertar um nervo. E às vezes eles são suficientes para me deixarem com um pé atrás, uma dúvida.
– Isso é só uma máscara, Sakura é cheia delas. Não tente quebrar a máscara, Sasuke, tente enxergar por trás dela. Tente entender que Sakura te insulta porque tem medo de se aproximar muito de você. Veja o que aconteceu comigo e com Gaara. O sarcasmo é arma suprema daquela testuda orgulhosa. Ela ligou para encontrar conforto em você, mas ao mesmo tempo teme que isso a acabe deixando confortável demais, por isso ela tenta balancear o carinho com o insulto, para não se sentir tão apegada. Você tem mais liberdade do que ela nesse aspecto. Então por favor, tente entende-la melhor.
– Eu tento, Ino. Eu tento entende-la desde que a conheci. Mas ela nunca me deixa entrar por completo. Ela nunca me deixa ver sua máscara. Não posso culpa-la, afinal eu também não contei a ela tudo sobre mim. Estamos tentando, aos poucos. Estamos nos conhecendo aos poucos. Mas acho que ainda precisaremos de muito tempo antes de podermos confiar plenamente um no outro, como você faz com Gaara. – disse aquilo me lembrando da vez na qual ela veio à minha casa especificamente para nos conhecermos melhor. Me lembro perfeitamente de todas as respostas que ela me deu, sobre seu filme de infância favorito, seu super poder imaginário, suas histórias da adolescência. Eu queria repetir aquela noite, mas não sabia se teria essa oportunidade em breve.
– Talvez até seja o melhor para vocês desse jeito. Sei que é doloroso, mas eu e Gaara também estamos sofrendo agora, e continuaremos sofrendo por um bom tempo depois. Acha que se você e ela tivessem um relacionamento mais estável como eu e Gaara, vocês seriam mais felizes? Pode garantir que não tentaria fugir com ela, como eu e Gaara estamos fazendo agora?
Não respondi à pergunta dela, porque eu mesmo não sabia. Eu era bom em fazer previsões de gastos, números, contas, negócios. Não era bom em fazer previsões do destino, principalmente quando envolvia alguém tão instável e imprevisível como Sakura. Não sei se eu tentaria fugir com ela, nem sei se eu a amava o suficiente para ser fiel a ela e somente a ela. E só pensar nisso me deixava desconfortável. Eu seria capaz de abandonar todo o conforto da minha vida para ficar com ela? E ela, seria capaz de abandonar tudo para ficar comigo? Dificilmente.
– Bom, independente de tudo isso, ela disse que ligará de novo.
– Disse? Uau. Ela realmente deve estar se sentindo péssima então.
– Se você dissesse a ela que está aqui, talvez... – Ino novamente balançou a cabeça de um lado para o outro.
– Quero manter segredo absoluto. Sei que ela não contaria a ninguém, mas saber onde estou poderia dificultar as coisas para nós. Ela iria querer me ver, e isso só aumentaria a dor da despedida depois. Acredito que não ficaremos aqui por muito mais tempo.
Daquele jeito, a conversa chegou a um fim, mais ou menos. Não respondi nada e Ino também não comentou mais nada, e foi até o quarto de hóspedes, que era dela e de Gaara por enquanto. Deixado sozinho no corredor, comecei a pensar em Sakura. Não que ela tivesse saído de minha cabeça, para início de conversa. Durante o telefonema, eu havia ficado muito nervoso, comportamento que assustou até a mim. Fiquei confuso por ela ter me ligado e preocupado que ela notasse algo em minha voz ou modo de falar que denunciasse que eu estivesse escondendo algo. No final, ela percebeu. Ela percebeu que havia algo de errado, e se eu conheço Sakura, ela não me deixaria escapar dessa.
Só espero que em sua próxima ligação, possamos conversar melhor. Apesar das preocupações e do medo, eu quero vê-la novamente.
****
Sakura’s POV
No momento, eu estava trancada em meu quarto, fingindo não existir. Não queria conversar com Tsunade, nem com Shikamaru, e principalmente não queria conversar com Temari. As coisas haviam piorado exponencialmente nos últimos dias, e parecia faltar somente uma faísca para todas as dinamites explodirem.
Eu estava esperançosa demais em acreditar que as investigações sobre o paradeiro de Ino e Gaara não levariam a lugar nenhum. Relaxei demais quando Temari não pensou em considerar a possibilidade de os dois estarem juntos. Percebo agora que tudo o que fiz foi subestimar o destino. Eu nunca fui uma pessoa otimista na vida, pelo contrário, minha filosofia interna era considerar sempre o pior cenário possível para nunca haver decepções. Espere pelo melhor e você será desapontado. Espere pelo pior e você não se surpreenderá. E claramente eu não estava preparada para o que havia acontecido nos últimos dias.
A começar por aquela maldita ligação, falar com o Uchiha só havia aumentado minha ansiedade em vê-lo. Ouvir sua voz distraída demais do outro lado da linha me fez recordar memórias enterradas. Agora eu me sentia ainda mais solitária, sem ninguém para conversar. Minha melhor amiga desaparecida e a criatura que me fazia sentir borboletas no estômago se revezavam em minha mente, e eu não conseguia me concentrar, me sentia perdida por não tê-los ali comigo enquanto eu via o caos se construindo bem na minha frente.
Problemas começaram a surgir por todos os lados. Investigações das Wings sobre o paradeiro de Gaara haviam apontado para o País do Fogo. O País do Fogo, onde eu e Ino morávamos. Kurenai e seu time apresentaram a Tsunade vários relatos de que Gaara havia tomado essa rota e havia sido visto pela última vez próximo à fronteira. Isso, é claro, levantava perguntas muito suspeitas: se Gaara é do País do Vento, o que diabos ele estava fazendo no País do Fogo? Claro, eu sabia que ele estava com Ino, por isso fazia sentido ele estar aqui, mas o resto das Wings não sabia, e agora estavam começando a bolar teorias para isso. E internamente, eu já começava a me desesperar. O que aqueles dois ainda estão fazendo aqui? Era para eles já estarem bem longe, em outro país ou até continente! O que eles estavam fazendo, esperando ser encontrados? E ao descobrir sobre o paradeiro do irmão, Temari já assumiu uma postura de defesa. A conversa com TenTen voltou à mente dela, e ela começou a me importunar com perguntas e mais perguntas sobre como a missão de resgate de Ino estava indo.
Mas isso foi antes. Isso foi quando eu ainda estava conseguindo levar tudo mais ou menos tranquilamente. No entanto, Shikamaru começou a avançar em suas teorias, e se antes ele suspeitava que Ino estivesse escondida, agora já havia começado a selecionar lugares onde ela pudesse estar, que segundo ele, eram lugares onde ela se sentia “segura”. O problema é que não havia tantos lugares assim. Para uma pessoa se sentir segura em um lugar, ela precisa estar familiarizada com ele, precisa se sentir em casa. Por isso seria óbvio assumir que esse local era especial para Ino, ou que pelo menos ela tivesse algum valor sentimental por ele. E para nós, Wings, não havia lugares assim. Nossa única casa era a Base, não podíamos viver em nenhum outro local, e nossas missões nunca tinham nada de sentimental, pois não podíamos ter o luxo disso. Então digamos que eu sentia desesperadamente Shikamaru cada vez mais perto de Ino. Se eu soubesse onde ela está, talvez pudesse avisá-la, alertá-la para fugir o mais rápido possível – coisa que ela já deveria ter feito! Por favor, Ino, não cometa o mesmo erro que eu – mas eu não fazia ideia de como contatá-la, por isso só conseguia esconder meu medo cada vez que Shikamaru queria testar um novo local.
Tudo isso começou há uma semana, quando Kurenai entregou os relatórios a Tsunade sobre as suspeitas de Gaara estar no País do Fogo. Eu sabia que minha Mestra estava mantendo Temari atualizada sobre as notícias, afinal, Gaara era irmão dela, e até onde as Wings sabiam, Gaara havia sido sequestrado ou pior. Mas eu nunca imaginaria que aquela notícia viria. E agora, tarde da noite, ouço Temari batendo na porta do meu quarto, demandando falar comigo.
– Sakura, abra a porta, agora. – seu tom não parecia particularmente irritado, mas já me indicou que algo estava errado.
– Tema? Aconteceu alguma coisa? – abri ela porta e ela se convidou a entrar em meu quarto, encarando-me de braços cruzados enquanto eu fechava a porta e a encarava também.
– Segundo Kurenai e a equipe encarregada de encontrar meu irmão, ele foi visto pela última vez aqui, no País do Fogo.
– Huh? – naquela hora, uma tempestade já havia começado a se formar em minha cabeça. Se Gaara estava no País do Fogo, Ino também estava. E se fosse assim, não estavam tão longe de serem encontrados – E como... como elas descobriram isso? – tentei fazer minha voz não parecer nervosa.
– Kurenai obteve informações de várias testemunhas dizendo terem visto uma pessoa com as características físicas do meu irmão perto da fronteira. Mas não é só sobre isso que eu vim conversar com você. – segurei a respiração.
– Mas isso é ótimo, não é, Tema? – tentei parecer alegre, mas meu tom de voz não conseguiria enganar nem uma criança – Não deveria estar feliz? Seu irmão logo será encontrado.
– Será mesmo? – eu conseguia sentir uma forte acusação na voz dela, talvez ressentimento – Me responda uma coisa, Sakura, por que meu irmão estaria no País do Fogo? Por que ele se daria ao trabalho de sair de casa e vir até aqui? Em segredo? Por que ele forjaria o próprio desaparecimento? – eu sabia onde ela estava tentando chegar e só queria fugir dali. Fiquei em silêncio, sem conseguir bolar uma resposta a tempo de sua próxima colocação – Eu sei de um motivo que o faria fazer isso. E você também sabe.
– Está me acusando de algo? – não consegui segurar a língua. Merda, Sakura, você e sua maldita língua. Temari soltou uma risada seca antes de continuar.
– Se eu não me engano, foi você quem relatou à Tsunade sobre o desaparecimento de Ino.
– Porque naquela noite eu fui visita-la como fazia todos os dias e ela não estava lá. Diferente de você, que a pressionou a fazer o aborto e não ofereceu nenhum tipo de consolo depois. – outra risada curta e seca se seguiu.
– Não tente me fazer sentir mal pelo erro de Ino. Eu não tive culpa de nada do que aconteceu com ela! Ela mesma causou seu próprio sofrimento, e não tenho dúvidas de que você a ajudou a passar por esse momento difícil. Você também a ajudou a fugir? Ela te disse para onde iria? Ela por acaso te disse que meu irmão iria junto? – pronto, ela disse.
– Por que toda essa raiva, Tema? Por que toda essa rebelião? É por que Gaara é seu irmão? Por que Ino engravidou dele, é por isso? Se o bebê fosse de qualquer outro homem, você teria reagido diferente? – conforme eu falava, Temari estreitava os olhos. Eu não estava com raiva dela, no momento só queria fazê-la entender o lado de Ino, afinal, a loira era amiga dela também.
– É porque Ino e Gaara só iriam sofrer se continuassem juntos. Nós, Wings, não podemos fazer o que bem entendemos e depois ignorar as consequências. Eu só queria que ela e meu imrão percebessem isso, eu não queria vê-los sofrendo.
– E você acha que eles queriam sofrer, Tema?
– Então você admite que eles fugiram juntos?
Eu estava encurralada. Não fazia mais diferença tentar mentir ou esconder a verdade de Temari, porque ela já havia tirado as conclusões certas e não iria desistir delas. Mas ela ficar sabendo não era o problema – o problema é se ela resolvesse contar à Tsunade. Meu silêncio naquela hora pareceu ter sido a confirmação, e ela deu um longo suspiro, descruzando os braços do peito e apontando o dedo indicador em minha direção acusadoramente.
– Você sabia disso o tempo todo! Sabia que eles haviam fugido juntos e não contou a ninguém! – eu conseguia perceber pelo seu tom que ela estava lutando para não gritar comigo, tentando deixar sua voz o mais baixo possível, mas a raiva nela era óbvia – Você me viu chorar quando meu irmão desapareceu, viu todas nós nos preocupando com o paradeiro e a saúde mental de Ino, você me viu sofrer, pensando que meu imrão havia sido sequestrado ou pior, e todo esse tempo, você sabia que eles estavam juntos e felizes? – Temari começou a rir alto agora, uma risada de escárnio, uma risada ofendida – Não acredito nisso! Você é pior que a Ino!
Temari me olhava como se eu fosse a criatura mais desprezível do planeta, e eu sabia que ela só estava agindo daquele jeito porque não sabia da história completa. Tentei fazê-la me ouvir antes que ela decidisse ir correndo até Tsunade.
– Tema, por favor, me ouça só por um minuto...
– Ouvir? Ouvir o que? Ouvir sobre como Ino e meu irmão estão felizes? Ouvir enquanto você implora para eu não contar à Tsunade sobre isso? Não adianta nem tentar, Sakura, pois vou fazer o que acho certo e você não irá me impedir. – ela fez menção de passar por mim e sair de meu quarto, mas bloqueei seu caminho e a empurrei levemente para trás, tentando manter minhas palavras fortes. Eu não poderia falhar com Ino agora.
– Não! Você não sabe o que realmente aconteceu!
– Não me venha com histórias furadas a essa altura, Sakura. Eu sei muito bem o que aconteceu, e se vier comigo contar a verdade à Tsunade agora, talvez seu castigo não seja tão rígido.
– Espere, Tema! Pare de agir como uma criança birrenta e tente ouvir os outros para variar! Pare de ser egoísta e de pensar somente em si mesma!
– Pensar em mim mesma? Ah, se eu apenas tivesse esse luxo! Tudo o que eu fiz nos últimos meses foi me preocupar com os erros da minha amiga e o bem estar do irmão que nunca fui permitida ter!
– E por que quer virar as costas para eles agora? – já não nos preocupávamos mais em manter as vozes baixas. A atmosfera estava pesada e tensa. Logo ouviríamos batidas na porta de Hinata, perguntando se estava tudo bem. Temari era teimosa e eu também era. De jeito nenhum eu iria deixa-la sair de meu quarto e estragar tudo. Ela pareceu ter se incomodado com minha fala, porque apenas me encarou com dor nos olhos.
– Não estou dando as costas a eles. Eu apenas quero acabar com essa loucura. Fugir não é o jeito certo de consertar as coisas! Ino não está em um conto de fadas!
– Tenho certeza de que ela está bem ciente disso, principalmente depois de ter o próprio bebê arrancado do ventre. – somente com palavras duras Temari iria querer me escutar – Pode parecer loucura a nós Ino e seu irmão terem ido para tão longe, mas você acha que persegui-los e arrastá-los à força é a melhor solução?
– E você acha que esconder tudo o que aconteceu de mim e das meninas foi o melhor? Ino é uma Wing forte e independente, ela vai conseguir se virar. Mas meu irmão é frágil, ele tem uma família inteira esperando-o em casa, preocupada com ele, ele tem todo um futuro à frente dele, e ele escolheu abandonar tudo isso por algo incerto e perigoso!
– Você disse as palavras certas, Tema, ele escolheu. Seu irmão já é grandinho o suficiente para escolher o melhor para si. Não interfira na felicidade deles.
– Felicidade que eles obtiveram enganando outras pessoas. Eu não vou deixar meu irmão perdido pelo mundo, sem saber se ele está bem e se essa felicidade sequer irá durar para sempre. Como pode ajuda-los com isso, Sakura? – Temari não estava facilitando para mim. Nossas opiniões divergiam muito, e isso talvez se devesse à nossa posição na história toda. Ela se sentia por fora, sentia-se traída por sua amiga e irmão, sua única família.
– Tema, eu entendo como se sente. Mas por favor, deixe-os em paz. Se um dia tudo desmoronar, eles saberão como superar. E eu não os ajudei a fazer nada, na verdade fiquei tão triste quanto você quando soube o que Ino havia feito. Ela me deixou uma carta se desculpando. Apenas isso. Mas naquele momento eu já sabia que deveria fazer de tudo para dar outra chance a ela. Se Ino e Gaara escaparam, é porque eles não viram outra saída. Você conhece seu irmão muito melhor do que eu, então deveria saber através das cartas que ele te mandava se ele realmente estava feliz daquele jeito.
Um silêncio se fez no quarto, mais uma vez. Temari entava tentando me entender, e eu não estava tentando manipulá-la de forma viciosa, eu realmente queria fazê-la entender que ela não tinha o direito de interferir na felicidade de ninguém.
– Ino fugiu daqui porque queria ser livre. – continuei depois de sentir que Temari estava com dificuldades de formar uma resposta. Sentia minha voz carregada de determinação – Ela nunca foi realmente feliz aqui, e com aquela personalidade hiperativa, uma hora ou outra ela iria se cansar mesmo. O que ela queria para sua vida está muito longe do que Tsunade pode proporcioná-la. Mas ela parece ter encontrado a liberdade em seu irmão, e ele nela. Eles fugiram para ser felizes, Tema. E ser feliz não significa viver de forma fácil e despreocupada. Significa viver batalhando por aquilo que você deseja, junto com quem você deseja. Ser feliz significa conquistar sua própria liberdade. Você realmente quer estragar isso para Ino e seu irmão?
Temari abaixou sua cabeça, mas quem estava prestes a chorar era eu. Eu nunca havia percebido até aquele momento, mas tudo o que eu dissera sobre Ino também se aplicava perfeitamente a mim. Eu também queria sair dali, queria minha liberdade, queria consertar minhas asas e voar para longe, para onde eu quisesse. Eu queria viver por mim mesma. E eu fiquei muito assustada com aquilo. Quando eu fugi pela primeira vez, só estava pensando na adrenalina de forma irresponsável e imatura, mas agora percebo que meu lugar é lá fora. E o que mais me assustou foi que imagens de Sasuke passavam por minha mente em meio a todos esses pensamentos. Ele estava em minha vida há pouco tempo, mas já era o suficiente para me fazer pensar que talvez eu nunca pudesse me livrar dele. Como se ele fosse parte de mim, já estivesse incluído em minha busca por liberdade.
Foquei os pensamentos de volta em Ino e Temari. Tentei segurar as lágrimas enquanto aguardava sua resposta.
– Eu não concordo com isso. – ela finalmente disse, e naquela hora pensei que tudo estaria perdido – Não estou pronta para abandonar meu irmão, minha única família. Ele me abandonou para ficar com Ino, e Ino te abandonou para ficar com ele. Não sente raiva, Sakura? Não sente saudades? Vontade de busca-la? – a voz de Temari estava mais calma, mas ainda cheia de um sentimento que eu não sabia se era raiva, culpa, solidão ou uma mistura dos três.
– Sinto tudo isso, Tema, e sei como é difícil perder algo único que esteve com você por todo esse tempo. Mas agora é hora de deixar acontecer. É hora de deixa-los livres. Eu sei que é difícil, eu também queria Ino aqui comigo, como nos velhos tempos, queria que todas essas coisas ruins nunca tivessem acontecido. Mas agora que já chegou a isso, vamos deixa-los lutarem por aquilo em que acreditam. Seu irmão será feliz, não tenho dúvidas disso.
Temari finalmente olhou para mim com uma expressão que não consegui identificar de imediato. Mas naquele instante eu soube que nenhuma palavra sairia da boca dela. Ela poderia não concordar com o caminho escolhido por Ino e Gaara, mas resolvera apoiá-los. Talvez ela estivesse insatisfeita e sempre haveria uma voz no fundo de sua mente perguntando se essa fora realmente a melhor escolha. Talvez ela se arrependesse algum dia, mas por enquanto ela resolvera ajuda-los. E eu estava aliviada por ter conseguido ler aquilo em sua expressão. E ao mesmo tempo, estava com medo por também estar pensando em minha própria liberdade.
– Vou confiar em você por enquanto, Sakura. Saber que meu irmão se foi para sempre é algo que nunca poderei superar. Mas saber que ao mesmo tempo ele está feliz talvez sirva para aliviar minha preocupação.
– Então você não irá falar nada para Tsunade? – só queria conseguir uma segurança dela.
– Não. Mas como estou confiando em suas palavras, Sakura, você tem que me prometer que irá me contar tudo o que souber sobre o paradeiro deles.
– Sinto que nunca mais os veremos, mas posso te prometer que se eu souber de qualquer coisa, irei te contar.
A conversa acabou daquele jeito. Temari finalmente pareceu entender os sentimentos de sua amiga e irmão, e teve a bondade coloca-los acima das estúpidas regras da maldita Organização de Tsunade. E eu me sentia aliviada e segura por finalmente ter tirado esse peso de meu peito. Enganar Tsunade era fácil, mas enganar minhas amigas era muito difícil. Talvez agora TenTen e Hinata também pudessem saber a verdade por trás da fuga de Ino, e juntas, torceríamos em silêncio pela felicidade de nossa amiga enquanto tentávamos alcançar nossa própria também.
I don't know where I'm at
I'm standing at the back
And I'm tired of waiting
I'm waiting here in line
I'm hoping that I'll find
What I've been chasing
Não sei onde estou
Estou parado na parte de trás
E estou cansado de esperar
Estou esperando aqui na fila
Estou esperando poder encontrar
O que estive perseguindo
Jason Walker – Down
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