Broken Wing - Aprendendo A Voar
33 Capítulo 33 - Uma Nova Chance
Notas iniciais
Todos foram saindo do quarto, até que sobramos somente nós ali. Eu e Ino perto de Sasuke e Tsunade nos encarando com um rosto maroto.
– Bem, vamos ao que interessa então.
Sasuke’s POV
O que a velha peituda poderia querer comigo, Sakura e Ino? Coisa boa não podia ser, e quando eu vi os olhos de Sakura congelarem, pensei imediatamente no pior: de algum modo, ela havia descoberto sobre Sakura e eu. Não que eu me importasse, porque ela não mandava na minha vida, mas aparentemente era importante para Sakura manter sigilo da peituda. Mas como ela havia descoberto? Ino pode ter contado? Não, ela não faria isso com a amiga. Ou faria?
– Bem, vamos ao que interessa então. – Tsunade esfregou as mãos, um sorriso perigoso brotando de seus lábios, enquanto encarava nós três ali.
Minhas costelas ainda doíam, apesar de eu estar evitando me mexer, e a tensão causada diante daquelas palavras fez minha respiração ficar pesada e irregular, o que também não contribuía para a dor.
– Sasuke. – Tsunade se virou para mim, de repente.
– Sim... – respondi cauteloso. Negue tudo. Negue tudo.
– Qual é a sua relação com a menininha que você salvou? – ela me perguntou com interesse. Mas espere, o que Meiko tinha a ver comigo e com Sakura? Fiz um olhar confuso e não soube o que responder.
– Minha relação com Meiko? Como assim...
– Ora, você sabe. O que você acha dela? Ouvi dizer que adquiriu uma forte afeição por ela.
– Bem, eu só queria ajuda-la porque ela parecia muito perdida e frágil no começo. – respondi sem entender direito onde Tsunade queria chegar. – Mas aos poucos eu fiquei surpreendido, porque apesar da aparência, ela é muito forte. Conseguiu sobreviver sozinha por um tempo e é muito esperta para o próprio bem.
– Então é verdade que você gosta bastante dela.
– Sim, eu gosto dela. Qual é o seu interesse nisso? – franzi o cenho e olhei Tsunade suspeito. Aquilo não me parecia muito bom.
– Ouvi dizer que ela está em um orfanato. – Tsunade ignorou minha pergunta. – Como se sente sobre isso?
– Por que quer saber? Qual é o seu interesse em Meiko? – ela suspirou pesadamente.
– Sasuke, responda minhas perguntas primeiro e depois eu respondo as suas. – ela me respondeu e olhei para Sakura e Ino, procurando respostas. A rosada olhava para Tsunade com um olhar ansioso, e Ino também, roendo uma das unhas. Virei-me para Tsunade.
– Claro que eu não gostaria que ela ficasse em um orfanato. Mas eu não posso mais fazer nada por ela. – respondi ressentido. Eu sabia que esse era um final inevitável. Afinal, Meiko não tinha outros parentes vivos.
– E se eu dissesse que posso fazer alguma coisa por ela? – Tsunade me perguntou, com um brilho em seus olhos cor de mel. Levantei uma das sobrancelhas e soltei um risinho.
– Como assim, vai adotá-la ou... espera aí. – não, não podia ser o que eu estava pensando. Tsunade não iria fazer isso.
Agitei-me na cama, ignorando a dor nas costelas, inclinando meu corpo para frente.
– Você não está pensando em... adotá-la e... – Tsunade me olhava impassível, seus olhos caramelo mostravam seriedade. Não acreditei naquilo. Soltei um riso nervoso, do qual minhas costelas reclamaram. Ignorei. – Não, não pode ser. Não quer fazer dela uma...
– Wing, sim. – o olhar dela não havia mudado. Parei o riso imediatamente e senti meu rosto ficar sombrio. Olhei para Sakura e Ino, buscando ajuda, mas a primeira só me olhava com cara de “fazer o quê” e sua amiga loira parecia animada.
– Não. – foi só o que respondi. – Não vai transformá-la em uma... Wing. – não era minha intenção ofender a rosada e a loira, mas eu não queria aquele destino para Meiko.
– Imaginei que essa seria sua primeira resposta. – a peituda suspirou.
– Primeira e última. Por que quer transformá-la em uma? – senti minha voz se elevar.
– Acalme-se, Sasuke. Não se exalte.
– Não me exaltar? Você quer treiná-la para ser uma...
– Acalme-se. – ela impôs o silêncio com sua voz forte. Calei-me, mas meu olhar indignado não se desviou dela. – Deixei-me lhe apresentar meus pensamentos quanto a isso. Ouça tudo o que tenho a dizer e então você pode responder sem forçar sua condição física.
Não tive escolha a não ser ouvi-la até o fim. Mas eu não iria permitir aquilo. Tsunade não tinha esse direito.
– Para começar, Sasuke, você mesmo disse que não gostaria de ver Meiko em um orfanato. Ino aqui já viveu por um tempo em um, e ela pode te confirmar que não era feliz. Além disso, pode ser que Meiko nunca seja adotada, e se for, quem garante que seja por uma boa família? Eu percebi desde que ouvi falar dessa garotinha que ela era especial. Suportou a morte da família, suportou viver com quatro criminosos, teve determinação para fugir e sobreviver, e nunca abaixou a cabeça. E quando você a salvou, tenho certeza que foi como se a tivesse revivido. Se ela for passar o resto da infância e adolescência em um orfanato, tenho certeza de que a vida que você deu a ela aos poucos desaparecerá. É por isso que estou oferencendo a ela a oportunidade de uma nova vida.
– Uma nova vida presa a você. – rebati. – Uma vida onde ela será obrigada a fazer todo tipo de coisa... suja. – eu não iria permitir que ela fizesse aquilo com Meiko. – Acha que depois de sofrer abuso sexual, ela irá querer ir para cama com um homem para conseguir dinheiro para você? Acha que depois de assistir enquanto cortavam a garganta de cada membro de sua família, ela vai ter coragem de matar, como você obriga suas... Wings a fazer?
– Ouça-me, Sasuke...
– Não, Tsunade. Você não vai levar Meiko para esse caminho. Você não vai ensiná-la a lutar com espadas, a ir em “missões” onde ela possa perder a vida; não vai obriga-la a ir para a cama com um homem que só quer usá-la, não vai ensiná-la como torturar alguém antes de matar, não vai obriga-la a viver nas sombras depois de ela ter visto uma luz. Eu não vou deixar você arrastá-la para um lugar escondido e fazer dela uma prisioneira. – eu apontava meu dedo para ela e falava com toda a raiva que tinha. E eu nunca havia falado tão sério em toda a minha vida.
Meiko não iria ser mais uma marionete de Tsunade.
– Sasuke, você pode se sentir assim, mas não sabe o que realmente fazemos.
– Eu sei o que vocês fazem! É tão divertido que Sakura tentou fugir dali uma vez. E Sakura é uma das pessoas mais fortes que eu conheço. Você não vai fazer isso com aquela menina, Tsunade.
O quarto de hospital entrou em silêncio, com Tsunade me olhando como se eu fosse um menino travesso desobedecendo uma ordem e eu olhando para ela como se fosse fuzilá-la caso ela me contrariasse.
****
Sakura’s POV
O que? Eu havia ouvido direito? Sasuke tinha dito que eu era uma das pessoas mais fortes que ele já conheceu? Não sei se ele só me usou de exemplo para fortalecer seu argumento, mas devo confessar que fiquei surpresa. Eu não me considerava forte, pelo menos não em todos os momentos. E eram nesses momentos que eu mais sentia necessidade de força. E ali estava Sasuke, dizendo para qualquer um ouvir que eu era uma das pessoas mais fortes que ele já conheceu. Lembrarei de agradecê-lo depois.
Mas Sasuke não estava totalmente errado em seus argumentos. Desde que Tsunade mostrou interesse na menina, quando vínhamos para o hospital, eu e Ino percebemos que ela tentaria recrutá-la como uma Wing. Só não pensei que ela fosse pedir “permissão” para Sasuke, mas isso deve ser o mais correto, já que ele foi quem mais se apegou a ela. E Sasuke rejeitou o pedido como o diabo rejeita a cruz.
É verdade que eu e todas as outras Wings éramos gratas à Tsunade por ter nos salvado, mas também era verdade que nenhuma de nós era uma Wing porque quisemos. Só éramos Wings porque não tínhamos outra opção. Era ir com Tsunade ou morrer de fome nas ruas, sozinhas.
Na nossa base, havia muitas Wings. A média de idade das novas recrutas que chegavam era 5 anos. Meiko estava na idade certa para começar seu treinamento. Se eu não me engano, a Wing mais velha a serviço de Tsunade devia ter uns 45 anos. Éramos numerosas, mas sempre havia necessidade de mais de nós. Algumas morriam em trabalhos, outras recebiam missões demoradas e ficavam anos fora, outras eram compradas permanentemente por clientes, outras adoeciam e tinham que ficar meses afastadas do serviço, e assim por diante. Tsunade viu em Meiko uma promissora aprendiz. E o tempo que eu passei perto da menininha pode ter sido pouco, mas foi o suficiente para notar que ela tinha potencial.
Uma parte de mim concordava que, sendo uma Wing, ela teria uma vida melhor do que presa em um orfanato. Ela aprenderia muitas coisas, viajaria, veria o mundo, conheceria vários tipos de pessoas, teria uma certa liberdade. Mas ao mesmo tempo eu concordava com Sasuke. Ser uma Wing poderia fazer mal a ela, considerando o que já passou. Ela poderia se sentir ainda mais presa, obrigada a fazer serviços que detestasse. Mas de uma coisa eu sei: Tsunade nunca havia obrigado nenhuma garota a se juntar a ela. Ela dava as opções, e a decisão era inteiramente nossa.
– Pensei que tinha pedido para me escutar até o final, Sasuke. – o Uchiha fez uma careta, com os olhos mais ferozes que já vi. Era bom ele se acalmar um pouco, ou a dor e consequentemente, a recuperação de todos os ferimentos, poderia demorar.
– Não preciso te escutar até o final para saber suas intenções, Tsunade.
– Sasuke. – eu chamei timidamente, e vi-o olhando para mim surpreso. – Eu sei que parece uma má ideia agora, mas por favor, ouça todas as possibilidades. – não sei se ele havia ficado com raiva de mim também, só sei que seus olhos negros se demoraram em mim. Por fim, ele bufou e se recostou na cama de novo.
– Obrigada Sakura. – veio a voz de Tsunade. – O que eu irei a oferecer àquela menininha, Sasuke, é uma oportunidade. Uma chance de ter uma vida nova. Você diz que ela não será livre, mas ninguém é totalmente livre. E ao contrário do que você falou, ela não será uma prisioneira. Será livre para sair, para fazer amigos e para se descobrir no mundo. Claro, tudo com suas limitações, mas eu irei oferecê-la uma nova perspectiva de vida. Algo pelo qual ansiar, algo pelo qual lutar. – Tsunade falava cada palavra com paixão. Ela realmente acreditava que transformar Meiko em uma Wing era uma coisa boa. – Eu sei pelo que ela passou. Todas as minhas Wings tiveram passados difíceis, e todas elas se recuperaram graças à minha ajuda e a força de vontade delas. Hoje, como você exemplificou com Sakura, são todas mulheres fortes, independentes e com um propósito na vida. E também irei te corrigir em algo, eu gosto de dividir minhas Wings em “tipos”. Sakura e Ino pertencem ao mesmo tipo, e esse tipo é determinado pelos próprios interesses delas e pela personalidade. Shizune, minha Wing braço direito, não é o mesmo tipo de Sakura, Ino e Kurenai. Ela é uma Wing médica, e não faz missões que envolvam assassinato, por exemplo. Se o passado de Meiko a influenciar em seus temores e desejos, ela também poderá vir a ser uma Wing médica, ou quem sabe uma Wing contabilista, uma Wing viajante... são tantas possibilidades, Sasuke, e se aquela menininha é tão inteligente, animada e forte quanto você me disse, ela poderia ir tão longe se fosse dada uma chance. E quão longe ela chegará dentro de um orfanato?
Tsunade sabia como persuadir alguém. O olhar de Sasuke ainda era firme e acusador, mas ele parecia mais relaxado, parecia considerar a possibilidade de Meiko ter uma vida diferente. Tsunade não deu espaço a uma resposta dele e continuou.
– Eu vim aqui pedir esse tipo de aprovação sua porque foi você quem ficou mais próximo da menina e sei que se importa com ela. Não estou dizendo que vou arrastá-la para lá. Tudo o que eu ofereço são possibilidades. De qualquer jeito irei falar com ela, você não pode me impedir disso, mas eu devo uma justificativa a você sobre o porquê de eu resolver propor isso a ela. É uma escolha, Sasuke. Eu não irei obriga-la a nada. Eu reconheço em Meiko uma menina com potencial para ser mulher e transformar a tristeza da vida em força de vontade. Assim como fiz com Sakura, Ino e todas as minhas outras filhas, oferecerei a ela uma escolha de me seguir e de aprender comigo. Se ela quiser, nós a levaremos. Se não, ela poderá continuar a viver no orfanato.
Outro silêncio se estabeleceu ali. Se eu conhecia Sasuke, ele estava tentando analisar cuidadosamente cada uma das opções, procurando por falhas em uma delas, em argumentos, em contradições. Por fim, ele falou.
– Não concordo com isso, Tsunade. Se for por mim, ela não irá com você.
– Muito bem. – Tsunade respondeu. – É uma pena que você discorde de mim. Eu vou visita-la no orfanato agora, e depois informo a você da decisão dela.
– Espere. – Sasuke elevou a voz, levando a mão imediatamente a uma das costelas fraturadas, escondendo uma careta de dor. Ele realmente devia se acalmar. – Não é só você quem tem o direito de falar com ela. Se for persuadi-la a ir, eu também quero persuadi-la a ficar. – isso havia se tornado uma guerra pelo destino da garotinha? Tsunade olhou para Sasuke com divertimento.
– Muito bem. Mas como espera falar com ela se não recebeu alta ainda?
– Não vai conseguir me tirar da jogada, Tsunade. Traga ela aqui. Tenho certeza que ela aceitará me ver. Um dos representantes do orfanato conversou com Ino. Ele dará essa permissão. – Sasuke olhou para Ino, como se estivesse se perguntando se ela faria esse favor para ele.
– Muito bem. – Tsunade terminou. – Traremos Meiko aqui. Ino, vamos. Sakura, você ficará para fazer companhia a Sasuke? – oh, por aquela eu não esperava.
– Ah, tenho certeza de que a família dele preferiria...
– Sakura! – Tsunade me olhou como se fosse uma leoa prestes a atacar. Eu sabia o que aquele olhar significava.
– Oh, sim. Tudo bem, eu fico com o Sasuke. – ela e Ino saíram, deixando somente eu e o moreno no quarto.
Mikoto entrou logo depois para avisar Sasuke que eles voltariam para vê-lo na manhã seguinte, já que o trabalho na empresa havia chamado os chefes da família e ela teria que resolver assuntos do casamento de Itachi. Ela sorriu para mim quando eu disse que ficaria com ele, apesar de estar insegura em relação a isso. Depois que Mikoto fechou a porta do quarto, eu e Sasuke entramos em um silêncio tenso. Percebi que ele ainda não havia retirado a mão das costelas.
– Não quer que eu chame uma enfermeira para receitar algum analgésico ou verificar se está tudo bem? – perguntei, tentando ser gentil.
– Não precisa. Já estou com a morfina. – ele respondeu sem interesse.
– Você não devia se exaltar tanto ao falar. Assim só vai piorar a dor. – ele me olhou, ainda com desinteresse.
– Sakura, estou bem. Não diga o modo como devo me expressar. – claro, esqueci que eu estava conversando com uma das pessoas mais orgulhosas do planeta. Aproximei-me da cama dele devagar e sentei na mesma poltrona onde havia dormido aquela noite. Sasuke não olhava para mim.
– Suas bandagens foram trocadas hoje? – perguntei.
– Não. – ele respondeu, com tédio. – Mas não precisa.
De fato, não havia mais sangue manchando as faixas por cima do corte. O ferimento já estava cicatrizando.
– Vai tentar me convencer? – ele perguntou de repente.
– Convencer do que? – tentei parecer desentendida. Ele olhou para mim com uma sobrancelha levantada, com um olhar de “eu sei o que você fez no verão passado”.
– Nem tente, Sakura. Sei que a velha da Tsunade te mandou ficar aqui para me convencer a aprovar essa idiota ideia dela de transformar a Meiko em uma... Wing. – ele falou sério.
– Você não deixa nada escapar, heim? – falei derrotada, ele estava certo. – Mas ainda vale a tentativa?
– Não posso te fazer calar a boca, não é? – ele respondeu daquele jeito rude e sarcástico ao mesmo tempo. Dei um suspiro e me preparei para ser o mais verdadeira possível em minha persuasão.
****
Sasuke’s POV
– Se você me perguntasse hoje se eu teria escolhido outra forma de viver que não desse jeito, eu teria dito “sim”. Mas eu não tinha escolha na época. – encarei Sakura, que me olhava profundamente com seus olhos esmeralda. – E a vida que Tsunade me deu é provavelmente a melhor coisa que me aconteceu.
– Mas Meiko tem uma escolha. Ela não precisa viver em função de uma companhia ilegal seguindo ordens daquela peituda.
– Sasuke. – ela me interrompeu. – É verdade que Meiko tem uma escolha, e as opções dela são contestáveis. Ela pode ficar no orfanato, esperando ser adotada algum dia por uma família decente ou correr o risco de ficar lá até os 18 anos para depois ser colocada na rua. Se ela escolher esse destino, terá que viver na dúvida. Pode ser que ela consiga uma nova vida sendo adotada, mas e se ela não conseguir? Vai estar fora do alcance dela fazer algo diferente para mudar isso, e ela não poderá fazer outras escolhas a essa altura, porque aí já não dependerá dela, e sim das pessoas ao redor dela.
Eu percebia o tom de voz sério de Sakura, e como os olhos dela pareciam brilhar a cada palavra. Eu sentia que ela não estava simplesmente tentando me convencer, mas sim tentando me fazer acreditar seriamente no que dizia.
– Mas se ela escolher seguir Tsunade, Sasuke...
– Ela será obrigada a ficar confinada lá para sempre. Será obrigada a fazer coisas tão piores quanto aqueles nojentos que a mantinham cativa.
– Por que você parece só enxergar o lado negativo disso?
– Porque eu não vejo um lado positivo. Ela tem seis anos e vocês querem dar a ela o fardo de escolher a vida inteira!
– Bem, eu tinha dois anos quando fiz essa escolha. E não me arrependo dela. – Sakura estava exaltada. Seus olhos verdes estavam pegando fogo.
Foram poucas palavras, mas ela conseguiu me calar. Não por causa dos argumentos, mas quando ela disse isso, percebi que eu não sabia nada sobre ela, sobre a vida dela antes de propriamente conhece-la. Eu havia provado seus beijos, testemunhado suas habilidades assassinas, discutido com suas opiniões infantis várias vezes, mas eu não sabia os motivos por trás dessas opiniões, e não conhecia a verdadeira doçura por trás de seus beijos. Eu não sabia quem ela era antes de ser a Sakura covarde, a Sakura mulher, a Sakura perigosa. Não sabia o que a fazia sorrir e o que a fazia querer seguir em frente. Não sabia o quanto ela teria sofrido ou pelo que teria passado antes de se tornar uma Wing. Como eu nunca quis saber de seu passado? Ou talvez eu quisesse, mas tivesse receio?
– Sakura... – hesitei. Estava prestes a pergunta-la sobre si mesma, prestes a pedi-la a confiança de seus segredos. Mas eu não tinha esse direito. – Você acha que... ir com Tsunade é a melhor escolha para Meiko? Por favor, responda honestamente.
Percebi uma expressão de dúvida percorrer seu rosto.
– Eu acho, Sasuke. Sinceramente. Como eu já disse, no orfanato o futuro dela seria incerto, e ela teria que depender da boa vontade de outras pessoas. Se ela escolher vir conosco, ela fará o próprio destino. Ela poderá escolher as coisas que quer aprender, e aprenderá a ser uma menina forte, independente, e cercada por outras iguais a ela, com o passado tão doloroso como o dela. Ela poderá encontrar forças lá, e apesar de estarmos presas a esse “contrato” por Tsunade, sempre somos livres para fazer nossas próprias escolhas, e não dependemos de ninguém. Pelo que eu sei de Meiko, ela não parece o tipo que esperaria calada uma oportunidade de ser adotada. Ela parece o tipo que se levantaria e faria o próprio destino.
– Mas você não queria ficar mais com Tsunade. Você fugiu de lá. – era o único argumento que me restara.
– Sim, isso é verdade. Eu fugi. Mas aquilo foi um erro.
– Você não teria voltado se não tivéssemos te pegado. – aquela frase pareceu ferir o orgulho dela, mas os olhos ainda estavam queimando de determinação.
– Não tenho tanta certeza disso. Eu não estava me sentindo totalmente livre depois que fugi.
– Sakura, não tente usar essa psicologia comigo...
– Não estou tentando. Estou dizendo a verdade. Não, Sasuke, olhe para mim! – ela segurou meu rosto entre as mãos, me obrigando a encará-la. Seus olhos verdes estavam muito próximos dos meus, e eu podia sentir sua respiração.
– Sakura...
– Sasuke. Estou dizendo a verdade. Depois que eu fugi aquela vez, minha vida ficou vazia. Eu não tinha mais perspectivas, não sabia mais o que fazer, não tinha mais com quem conversar. Eu estava sozinha e o mundo é muito grande. Nunca contei isso a ninguém, então não se atreva a desviar o olhar quando te digo isso. Eu na verdade estou agradecida por ter voltado. Aprendi que nunca somos totalmente livres, pois estamos presos a pessoas e a nossos passados. Mesmo que eu tivesse conseguido escapar permanentemente, nunca poderia me esquecer do que já fui. Desde que me entendo por gente, sou uma Wing. E é lá que eu pertenço, com todas as outras garotas que não tem mais para onde ir, mas sempre terão um lugar para voltar. Meiko não tem para onde ir, mas nós vamos oferecê-la um lugar para o qual ela sempre poderá retornar.
Ela soltou meu rosto gentilmente, e eu percebi que suas bochechas estavam coradas. Não sei se foi por falar tão abertamente sobre si mesma comigo ou se ela já estava nervosa há um tempo. Eu não tinha mais argumentos novos para usar. Ainda não concordava com essa ideia, mas não conseguia pensar em nada contra para dizer.
– Que tipo de vida vocês podem garantir se ela for com vocês? – foi a única coisa em que consegui pensar.
– Agitada, com certeza. – ela pareceu ter se acalmado. – E cheia de possibilidades. Eu sei que você está preocupado pelas missões que ela receberia, mas saiba que isso também é nossa escolha. E mesmo se algum dia ela acabar fazendo coisas mais arriscadas... bem, dizem que a melhor forma de combater o medo é enfrenta-lo. Ela não poderá ignorar o passado para sempre, mas ela poderá superá-lo. Tsunade nos dá essa chance de virarmos a página, de transformarmos tudo o que nos fez fracas em força. Ela nos ensina a enfrentarmos tudo de frente. Veja Ino, por exemplo. Bem, não posso te contar tudo sobre ela, pois isso é particular dela, mas ela também foi abusada quando criança. E hoje ela é umas das Wings mais lindas e autoconfiantes de lá. Eu sei que ela viu em Meiko uma pequena parte de si quando pequena, e por isso eu sinto que ela quer ajudar Meiko da melhor forma possível.
Bem, aquilo me pegou de surpresa. De fato, eu nunca havia imaginado que Ino, a Wing que usava minissaia e era toda extrovertida tivesse sido maltratada quando pequena e conseguiu superar isso com a ajuda de Tsunade. Mas e você, Sakura? O que você esconde? Quais são seus traumas, seus arrependimentos, seu passado?
Ficamos em silêncio por um bom tempo, já que eu não consegui pensar em nada a altura para respondê-la. De vez em quando, sentia pontadas em minhas costelas, mas a dor parecia ir diminuindo aos poucos. Eu estava pensando em Sakura e no que estava por trás daqueles olhos verdes cheios de fúria e daqueles cabelos cor-de-rosa tão incomuns, quando a porta do quarto se abriu de repente, revelando Tsunade, Ino e Meiko. A Gata segurava Ino pela mão, vestindo um tipo de uniforme horrível com o nome do orfanato bordado nele. Então seria agora que seu destino seria decidido?
And so they say lord, for everything a reason
For every ending a new beginning
My house is haunted by wrong desire
And on my skin left the scent of indignation
For every lie, honey, the truth lay underneath it
Oh so they say baby, for everything a reason
Então eles dizem Senhor, para tudo há uma razão
Para cada fim, um novo começo
Minha casa está assombrada pelo desejo errado
E na minha pele ficou o cheiro de indignação
Para cada mentira, querido, há uma verdade escondida
Oh então eles dizem baby, para tudo há uma razão
Carina Round – For Everything a Reason
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