Broken Wing - Aprendendo A Voar
1 Capítulo 1 - Esperando no Escuro
Notas iniciais
Já haviam se passado 1 hora e 20 minutos desde que eu tinha entrado na casa dele. Mesmo assim, não era muito tarde: olhei no relógio do microondas da cozinha e ele indicava 23 horas e 10 minutos. Na verdade, eu não tinha ideia de que horas ele iria voltar, nem se voltaria sozinho ou até se voltaria. Mas eu ficaria aqui até vê-lo passar por aquela porta. Precisava dele.
Olhei ao meu redor e estava tudo escuro. Eu não queria me arriscar acendendo uma luz. O máximo que fiz foi acender a pequena lanterna que havia trazido comigo, evitando as janelas, e passei-a ao redor das paredes da casa, somente por não ter o que fazer e para conhecer o território.
Não era uma casa muito chique, nem muito grande. Apesar de eu ter invadido o bairro mais rico da cidade, que estava sempre movimentado e dispunha de um alto padrão de segurança, me infiltrar ali não havia sido muito complicado. E eu também não havia sido treinada por 18 anos para nada.
Já eram onze e meia da noite. Não tinha problema. Eu era paciente. Eu tinha que ser. Caso contrário, nem teria conseguido entrar ali sem ser notada em primeiro lugar. Passei meses planejando isso. Usei o que tinha aprendido com minha ex-mestra, Tsunade, que agora deveria estar amaldiçoando até a 10ª geração da minha família por eu ter fugido. Mas eu não podia mais ficar ali. Não que não gostasse do lugar, mas percebi que não poderia mais ficar presa lá. Eu já tinha 20 anos recém-completados, e o que mais queria era sair, conhecer o mundo e as pessoas, ser dona de mim mesma sem dever satisfações a ninguém.
Tomei minha decisão há um ano. Eu iria preparar tudo e fugir. Somente minha colega de “trabalho”, digamos assim, Ino, sabia o que eu planejava fazer. Ela achava muito arriscado, dizendo que me perseguiriam até o fim do mundo quando notassem minha falta. Não importava, dizia eu. Eu já sabia cuidar de mim mesma. Depois de toda a minha vida naquele lugar, não havia como não aprender isso.
E então fugi. Mas fugir não é tão simples. A sensação de liberdade proporcionada pela fuga é momentânea. Quando crianças pensam em fugir de casa, só fazem aquilo para se verem livres e para chamar atenção. É claro que falha quando elas percebem que não tem dinheiro, não tem para onde ir e não atingiram a maioridade. Quando percebem a falha da fuga, novamente se vêem presas às suas limitações, que na infância são muitas, e obrigadas a voltar para casa. Mesmo sabendo disso, eu não era uma criança. Já tinha planejado tudo. Guardei um pouco de dinheiro por um ano, suficiente para pagar algum transporte e um hotelzinho barato. Eu iria conseguir o resto da grana que faltava hoje à noite. Para isso, fiz muitas pesquisas. MUITAS. O que me levou até aqui, nessa casa. Um homem de 20 anos de sobrenome Uchiha era o proprietário dela. Esse sobrenome significava dinheiro e poder. Muito dinheiro e muito poder.
A fama dessa família vinha de muitas gerações, com suas grandes empresas capitalistas nacionais e internacionais. Era dessa família que eu iria retirar dinheiro, simplesmente porque precisava desse dinheiro para construir minha nova vida, porque eu não tinha mais nada. Através de minhas pesquisas, descobri que um dos herdeiros dessa família era ainda jovem e morava sozinho, e rumores diziam que ele tinha uma vida agitada: festas, mulheres, o que o dinheiro poderia comprar e trabalho. Ele seria o próximo a herdar a tradição de cuidar das empresas da família. Perfeito. Eu não queria envolver muitas pessoas nisso. Esse tal de Uchiha seria perfeito: eu invadiria sua casa, o obrigaria a me liberar uma grande quantia de notas e sumiria.
Decidida a isso, me mudei para Konoha com um nome falso: Maya Stonem. Claro, não seria estúpida a ponto de ir revelando meu nome verdadeiro onde quer que eu fosse agora, principalmente porque as outras subordinadas de Tsunade já estavam com certeza me procurando. Depois, me hospedei em um hotelzinho barato e fiz o papel da garota inocente e sonhadora: consegui um simples emprego de garçonete no período de almoço/tarde em um restaurante de um shopping, conheci pessoas e fingi estar ali para juntar dinheiro e começar uma nova vida. Na verdade, era isso mesmo que iria fazer, mas de um jeito rápido e sujo.
Identifiquei onde o tal Uchiha morava, mas claro que eu não poderia simplesmente ir entrando naquele condomínio fechado. Percebi que um mocinho trabalhava de segurança noturno ali, e logo consegui com que ele se interessasse por mim e me pedisse em namoro. Ele era gentil e bondoso, não merecia o que eu estava fazendo com ele, mas eu estava com pressa e não tinha outras alternativas. Um dia, o distrai e roubei de seu bolso as chaves do portão principal do condomínio, tirei uma cópia e logo as devolvi. Esperei uma semana, e então lhe disse que iria ficar um fim de semana fora visitando alguns parentes. Nesse mesmo fim de semana, me disfarcei, entrei em sua cabine de segurança e lhe apliquei um sonífero, que o faria dormir por uns 5 minutos. Ele pensaria que haveria tirado um simples cochilo e esse fato passaria batido. Feito isso, usei a chave para destrancar o portão, e com toda a naturalidade, andei por aquele lugar nobre, por entre pessoas ricas que tinham casas esplendorosas e não tinham receio ou medo de mostrar. Fui em direção à minha casa-alvo. Eu sabia qual era por causa das descrições que sempre havia lido nos jornais ou ouvido da boca das pessoas.
Confesso que olhando a casa, pensei que estava no lugar errado. Não era nada como as demais que eu havia visto pelas outras ruas. A casa do Uchiha ficava na 3ª rua à direita da rua principal, e era a penúltima casa de baixo pra cima. Era um sobrado, mas parecia uma casinha de cachorro perto das outras que a circundava. Possuía um portão de grades de ferro não muito alto, uma varanda simples e bem cuidada, com alguns canteiros e um caminho de pedras de mármore que levava até algumas escadas que davam para a porta principal. Do outro lado, havia o portão da garagem, embora não desse para ver o interior. Do jeito que eu havia ouvido falar da família, e principalmente desse jovem Uchiha, esperava uma mansão com requintes de todos os tipos e segurança da mais alta tecnologia. Ao invés disso, encontrei um simples sobrado pintado de amarelo claro com alguns canteiros de flores.
Não pude deixar de dar um sorriso. O Uchiha dono da casa era esperto, isso sim. Quem quer que se atrevesse a tentar roubar uma dessas casas, certamente não iria notar um sobradinho sem graça quando estava rodeado de outras mansões enormes e chiques. Assim, ele garantia sua segurança. Se mesmo eu tivesse vindo aqui às cegas, essa seria a última casa que eu pensaria em invadir. Mas como meu alvo já estava decidido, nem que ele morasse em um trapiche eu iria encontrá-lo.
Dei mais algumas voltas pelas ruas do condomínio, para não levantar suspeitas. Notei que ali estava cheio de dondocas e madames que ostentavam luxo, com seus cachorrinhos poodle e suas caras de baranga; políticos, empresários, advogados e médicos também faziam parte do escalão de moradores, junto com seus filhos playboys e suas filhas patricinhas que desfilavam com tudo o que tinham direito de comprar, mas que no fundo não possuíam nada além de personalidades vazias. Se o Uchiha fosse um desses playboyzinhos metidos a gostosões, seria muito fácil tirar dinheiro dele.
Esperei o fluxo de pessoas diminuir, todos deviam estar indo a jantares de negócios, bailes de gala ou baladas. Me enfiei em uma das árvores ali perto e coloquei meu disfarce: uma roupa preta elástica, típica de espiões, cobrindo todo o meu corpo. Nos pés, uma bota sem salto. Eu não queria deixar nenhum vestígio de quem eu era, nem de meu sexo, mas percebi que mesmo que escondesse meus seios e meus outros traços femininos, não seria suficiente para me confundirem com a silhueta de um homem. Tinha também o problema da voz. O capuz que eu coloquei a abafava um pouco, mas mesmo assim ela era fina e dava pra distinguir que era de uma mulher jovem adulta. Mas isso não me atrapalharia. O capuz cobria meu rosto e meus cabelos rosados, deixando de fora somente meus olhos e nariz. Tratei logo de colocar óculos escuros para que não me identificassem os olhos verdes, deixando só meu nariz a mostra. Bem, eu precisava respirar, né?
Fui me esgueirando até a casa do Uchiha, rapidamente localizei as câmeras de segurança e passei por elas sem ser notada, pulando o portão da garagem. Uma vez dentro da casa, não relaxei. Passei pelos dois maravilhosos carros que estavam ali e cheguei à porta dos fundos. Sem fazer barulho, peguei um grampo de cabelo e comecei a passar na fechadura, depois de desligar o alarme de segurança, é claro. Eu já havia feito aquilo centenas de vezes durante minha estadia com Tsunade, então até agora só estava com um pouco de tédio por ser muito mais fácil do que havia imaginado.
Entrei e fechei novamente a porta, estando na cozinha. Não havia cachorros. Não havia ninguém. Somente eu em uma copa/cozinha não muito grande, aguardando meu alvo chegar de onde quer que tenha ido.
Sentei em uma das seis cadeiras da mesa de jantar e fiquei esperando no escuro, sempre alerta. Agora é que a diversão iria começar.
****
Duas horas e quarenta minutos. Sozinha. Quieta. No escuro. Esperando. Eu já tinha me conformado de que teria que ficar esperando ele retornar de alguma balada ou jantar, mesmo que ele só voltasse às 5 da manhã. De tempo em tempo, eu ouvia o barulho da buzina da moto do guarda noturno. Infelizmente para ele, uma invasora já havia adentrado uma das casas com sucesso.
A buzina soou mais uma vez, deixando tudo em silêncio logo em seguida. Eu pensei em subir as escadas para ver o que tinha lá em cima, mas desisti assim que ouvi um portão se abrir, seguido de vozes. Não era o portão da garagem, e sim o portão de entrada, aquele que era só destrancar e fechar com um empurrão. Veio até mais cedo do que eu imaginava. Senti um sorriso de adrenalina se formar em meu rosto, seguido de um arrepio na espinha e uma sensação de perigo. Eu adorava me sentir assim. Viva. Capaz.
Com o coração batendo mais rápido, fui em silêncio para perto da porta. Parecia que o Uchiha tinha ido e voltado de carona. Ouvi uma voz masculina e firme despedindo-se e agradecendo. Em seguida passos, e logo depois o som da chave se encaixando na fechadura, vi e ouvi enquanto a mesma era destrancada e girada. Meu alvo abriu a porta e eu fiquei imóvel na direção contrária à que ela se abria, deixando-a me esconder. Nem respirando eu estava. Qualquer barulho agora seria inaceitável. Ele acendeu a luz e fechou a porta com um empurrão sem nem mesmo olhar para trás e sem nem mesmo trancá-la. Percebi que a falta de segurança avançada, de animais e de cuidado com a casa não pareciam incomodar o jovem alto e moreno que eu via se afastar silenciosa e vagarosamente de mim. Bem, ele certamente não esperava que um dia fosse acontecer o que lhe acontecia agora.
Como um fantasma, deslizei até ele e o derrubei no chão, para sua surpresa. Ele abriu a boca, provavelmente para gritar ou questionar o que diabos acontecia, mas nenhum som saiu quando eu coloquei minha afiada faca fortemente de encontro com sua garganta e imobilizei seu braço direito, contorcendo-o até o meio das costas enquanto sentava em cima dele ainda com a faca contra sua jugular. Somente o braço esquerdo do Uchiha havia ficado livre.
Durante meus treinamentos com Tsunade, sempre havia me preocupado em imobilizar totalmente minha vítima, seja com as mãos, pés ou com o que desse. Ela sempre me repreendia, dizendo que eu deveria balancear minha defesa e meu ataque: se eu usasse todos os membros do meu corpo para garantir defesa, não iria sobrar nenhum para contra-atacar caso algo de inesperado acontecesse.
– E o que eu faço então? – perguntei na minha inexperiência de 10 anos.
– A grande maioria da população é destra, ou seja, tem mais habilidade com a mão direita, enquanto com a esquerda nem conseguem segurar um garfo direito – respondia sempre direta minha ex-mestra. – Quando tiver que imobilizar alguém, Sakura, coloque-se em uma posição superior, ameace com alguma arma e prenda seu braço direito. As chances de sucesso serão maiores.
Afastei a rápida lembrança que havia me invadido a mente e me concentrei na pessoa abaixo de mim, forçada de bruços com o braço direito imobilizado e contorcido e o esquerdo jogado um pouco pra frente do corpo. Seu rosto estava de lado, e pela primeira vez eu olhei para seu rosto. Ele estava com uma expressão confusa e ao mesmo tempo assustada, a boca entreaberta, me olhando incrédulo, como se estivesse em algum pesadelo, com seu olho direito cor de ônix de uma forma tão intensa, tão penetrante, que juro, me fez parar de respirar por alguns segundos. Seus cabelos negros estavam bagunçados, suas franjas caiam descuidadamente pela bochecha enquanto a parte de trás, rebelde e arrepiada estava em contato com o chão frio de madeira escura e polida.
Isso demorou ao todo uns 30 segundos: desde eu derruba-lo, até imobilizá-lo e vê-lo virar rapidamente seu olhar incrédulo para mim, sabendo que ele nada podia ver além de um capuz preto e óculos escuros. No entanto, o que eu podia ver era uma outra história. Claro, eu já sabia da fama que os descendentes Uchiha tinham de serem ricos, famosos e bonitos. Quando ele me olhou, não pude omitir meu lado feminino: ele era mesmo muito bonito. Só seu olhar frio e intenso havia me prendido e me chamado a atenção. Seus traços masculinos no rosto, seus ombros largos e costas musculosas sobre as quais eu estava sentada me provocaram uma estranha sensação de excitação. Se eu não estivesse de óculos escuros, ele provavelmente teria visto minha pupila se dilatar em resposta à minha atração por sua essência de testosterona.
Não que isso fosse me atrapalhar, nem um pouco. Estava acostumada a lidar com homens desse estilo. Tinha aprendido a me controlar e mostrar indiferença. Os idiotas se achavam tanto com seus corpos musculosos, pensando que estavam me deixando “caidinha” por seus “encantos”, quando na verdade eles é que viam presos aos “meus”. Portanto, a beleza do Uchiha não me preocupava. Até me deixava mais animada e confiante. Principalmente depois de cheirar seu perfume misturado com um pouco de cheiro de álcool.
Ele me olhava intensamente, mas também estava imóvel, acho que devido à minha faca pressionar perigosamente sua garganta, deixando até uma leve marca. Não, eu não iria pegar leve, nem teria piedade. Iria arrancar dinheiro dele nem que tivesse que mata-lo. E isso estava definitivamente nos meus planos.
Let the seasons begin — it rolls right on
Let the seasons begin — take the big king down
And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the silence, all that is left is all that I hide
Que comece a temporada – onde tudo é certo e errado
Que comece a temporada – vamos abater o grande rei
E ele rompe o silêncio de nosso acampamento a noite
E ele rompe o silêncio, tudo o que restou é tudo o que eu escondo
Beirut – Elephant Gun
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