Bound To You.
8 7. Spell
Notas iniciais
Era a primeira vez que eu voltava para aquele lugar desde o meu retorno a cidade. A mansão da família Mikaelson, que um dia fora de Marcel. Tudo continuava exatamente do modo como eu me lembrava, até mesmo a decoração, aquela família era fã do tradicional.
Entrei sorrateiramente, olhando para os lados de uma forma quase desconfiada e não sabia ao certo porque fazia aquilo, eu não estava invadindo, tinha sido convidada. Subi as escadas em direção a primeira porta, já que os portões para o salão estavam sempre abertos e bati na porta suavemente, não queria corromper o silêncio sepulcral que estava instalado na propriedade.
― Olá, bruxinha. ―A voz irônica de Klaus, por trás, me pegou completamente desprevenida e no meio de um devaneio sobre como era possível aquele silencio em uma casa com criança. ― Ao que parece, meu irmão não estava delirando ao falar que você queria nos ajudar.
― Eu quero ajudar a garotinha, Klaus. Não você ou seu irmão. ― Eu respondi, elevando meu queixo numa expressão de superioridade. ― Quando podemos começar?
Ele esticou o braço na direção do corredor, mostrando-me uma porta aberta ao fim dele. Pude observar a distância que parecia muito com uma sala de estar e então o segui em silêncio. Não era como se eu confiasse em Klaus. Eu não queria confiar.
― Davina. ― Hayley cumprimentou-me e aparentemente nutria do costume de aparecer do nada. Virei-me para olhá-la, acenando com minha cabeça para retribuir o cumprimento. Não sentia vontade de sorrir para eles, não me sentia segura naquele lugar. ― Você provavelmente vai querer me explicar como é o feitiço que envolve minha filha.
Ouvi Klaus pigarrear alto e esquivar-se de mim conforme passava para outro cômodo, de modo que fiquei sozinha com a híbrida-mãe-super-protetora. Eu não podia culpa-la por desejar tanto proteger a garotinha, depois de tudo que ambas passaram quando ela ainda estava no ventre e assim que nasceu. Respirei fundo, fitando o profundo verde dos olhos de Hayley com segurança. Eu sabia o que estava fazendo, era um feitiço fácil, doméstico e foi exatamente isto que disse a mulher a minha frente.
― Parece fácil demais. ― Ela respondeu, depois de ponderar por alguns segundos.
― É fácil eu afirmei tranquilamente, vendo pelo canto de meus olhos que Hope aparecia timidamente na sala, acompanhada de seu tio e seu pai. Confesso, senti-me aliviada por Elijah estar presente naquele momento tenso, ele era o único que eu podia dizer que conhecia e sentia-me levemente a vontade. Me ajoelhei no chão para ficar da mesma altura que a garota loira, com os olhos idênticos aos de Klaus e então entoei numa voz infantil. ― Você é a famosa Hope? Seu tio fala muito de você.
A garota olhou para Klaus e depois para Elijah, como se pedisse permissão para me responder. Ambos fizeram um gesto positivo com a cabeça e então ela finalmente exibiu um sorriso, aquele traço de nada remetia a Klaus, o que me levou a crer que os lábios pertenciam a Hayley.
― Você é muito bonita. — Ela me elogiou a distância, completamente simpática. Levantei-me depois disto, olhando para Klaus.
― Ela não tem o seu temperamento. — Ironizei.
― É o que eu digo. -Elijah me apoiou na ironia, ficando completamente sério em seguida. — Do que precisa para o feitiço?
― Só de uma cadeira. ― Respondi, sorrindo minimamente e ele providenciou em seguida.
Hayley colocou a garota sentada e rapidamente explicou que ela deveria ficar completamente imóvel. Ela assentiu, muito séria e por um segundo parecendo ser mais velha que seis anos de idade. Me aproximei sobre o olhar cauteloso da híbrida, sabendo que se ela suspeitasse de minha boa índole, meu pescoço poderia ser quebrado facilmente.
― Tempus requiescendi, puer. ― Eu sussurrei, olhando fixamente nos olhos de Hope e com meu dedo indicador posto entre suas sobrancelhas. Seu corpo infantil amoleceu conforme ela entrava no transe que eu precisava para vasculhar seu cérebro atrás de qualquer resquício mágico. Conectei-me a ela, de modo que qualquer coisa que fosse feito a mim, seria feito a criança, pelo menos naquele segundo.― Aperi mentis ad me. ― Eu fechei meus olhos naquele momento, firmando minhas mãos ao redor dos braços da garota, para que ela não pendesse para os lados e procurei sentir tudo o que ela já tinha sentido. Eu a vi brincando nos jardins, como na foto que encontrei na caverna, mas ao contrário da foto, havia uma presença. Uma mulher de cabelos escuros e lisos, talvez mais alta que Hayley, parecia conversar com Hope. Eu soube que era uma bruxa naquele exato momento.― Quem é você?
― Dhalia, criança. ― Ela me respondeu, virando para me olhar. Seus olhos eram orbitas negras e completamente vazias. ―E você não deveria ficar a favor de vampiros. Escolher essas aberrações sobre sua própria espécie!
― Et oblitus est. ― Eu respondi, não para aquela mulher, mas sim conjurando o final do feitiço. Hope abriu os olhos e o vínculo entre nós se desfez. Olhei a minha volta para capturar olhares ansiosos em minha direção.
― O que descobriu? ― Hayley exigiu, tomando a filha nos braços e pousando um beijo carinhoso em sua bochecha.
― Hope, você tem amigos imaginários? ― Perguntei, ignorando a híbrida momentaneamente.
― Sim! Lalia. Ela brinca comigo as vezes. ― A garota me respondeu, inocentemente.
Respirei fundo, lançando um olhar significativo para Elijah que fez com que os vampiros rapidamente retirassem a criança da sala, depois eles voltaram-se a mim novamente, aguardando notícias. Inspirei profundamente e falei com seriedade:
― É pior do que imaginávamos. Hope é uma bruxa e Dhalia é a entidade que ela considera como amiga imaginária notei que Klaus e Elijah trocaram um olhar preocupado. Dhalia zela pela garota e não parece estar muito feliz por eu ajudar vocês.
― É claro que ela não está feliz. ― Klaus falou com a impaciência tomando conta de sua voz. ― O que pode fazer para prevenir que ela use Hope como receptáculo?
― No livro dizia que há um ritual de preparação. ― Foi Elijah quem respondeu, no momento exato em que eu abria a boca para falar. ― Se ele nunca for realizado, Dhalia não tem chances, certo?
― Teoricamente, sim . ― Respondi, pousando meu olhar em Hayley que permanecia em silêncio até então. ― Mas na prática não temos como prever. Ela é extremamente poderosa, pude sentir sua magia e ela é apenas um espírito preso do outro lado.
― Iremos fazer o que pudermos para proteger minha filha. ― Hayley falou num murmúrio e prosseguiu.― Existe algum tipo de feitiço que bloqueie a expressão da magia? Algo que você possa colocar na casa para impedir que as bruxas interessadas em ajudar Dhalia a levem?
― É claro, mas Hope não vive só nesta casa. Se as bruxas quiserem sequestra-la, farão enquanto vocês a transportam de um lado para o outro.
― O que quer dizer com isso?― Klaus perguntou, servindo Elijah e a ele próprio de uma bebida cor âmbar. O movimento para bebê-la foi simultâneo.
― Quero dizer que Hope precisará ficar ou aqui ou com Hayley até descobrirmos um modo de afastar Dhalia.
― Há bastante espaço aqui para você, Jackson e seu círculo de confiança. ― Elijah falou com a voz grave, virando-se para Hayley lentamente e algo em seus olhos deixava claro que apesar de seu cavalheirismo, aquilo o contrariava.
― O que quer dizer? ― Hayley perguntou.
― Hope não precisa ficar separada da mãe.
― Nossa matilha não funciona como seu agrupamento de vampiros, Elijah. Todos são considerados de confiança.
Eu soube que depois daquela frase, naquele tom, eu deveria ir embora. Já estava envolvida com problemas de vampiros até os dentes e mal fazia dois meses desde o meu retorno a Nova Orleans. Virei as costas e caminhei em silêncio pelo mesmo caminho que me trouxera aqui, com a cabeça fervilhando em feitiços que poderiam ser feitos para ajudar a pequena Hope. Quando voltei meus olhos para frente, Klaus barrava minha passagem. Parei, impacientemente, deslocando o peso de meu corpo para a perna esquerda e esperei que ele fizesse seu pronunciamento.
― Fique esta noite. Faça o feitiço.
― Feitiços de proteção, como esse que farei, precisam de materiais específicos e uma bruxa descansada e pelo o que eu vejo não temos nenhum dos dois. Eu não vou fugir, Klaus. Só quero deitar em minha própria cama.
― Bem... Neste caso, nos vemos amanhã pela manhã. ― Disse ele suavemente. Eu não entendi a generosidade vinda do híbrido, mas também não perdi meu tempo ironizando-a.
Esquivei-me dele e continuei caminhando até o local onde eu tinha estacionado meu carro, sabendo que eu precisaria me preparar psicologicamente para o que viria a seguir. Mexer com uma bruxa tão poderosa quanto Dhalia não iria ser fácil.
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Elijah não conseguira pegar no sono aquela noite. De fato, duvidou muito que seu irmão ou Hayley tivessem conseguido. Outra profecia pairava sobre Hope e ele se perguntava quando aquilo ia parar. Talvez nunca.
Aquele era o destino de sua família, um fardo pesado demais para uma garotinha de seis anos carregar. Ele levantou-se da cama ainda pela madrugada, desistindo completamente de rolar de um lado para o outro, esperando que o sono o tomasse e passou o resto do tempo colocando sua leitura em dia.
Quando Davina chegou, ele atendeu a porta e a ajudou com uma sacola plástica cheia de ervas e alguns cálices especiais. Ele não soube se ela estava ansiosa para ajudar ou se Klaus tinha marcado o horário realmente cedo. Era apenas sete da manhã.
O verão costumava ser impiedoso em Nova Orleans, de modo que àquela hora já fazia um calor considerável, o que levou a bruxa a vestir um short que revelava grande parte de sua coxa, instigando cruelmente a imaginação masculina do vampiro que ainda negava sentir-se atraído por ela. Era apenas uma garota.
Davina pediu que ele a ajudasse a organizar os ingredientes para o feitiço, dispondo-os sobre o balcão da cozinha e algumas ervas foram levadas ao fogo, a fim de produzir um tipo de chá. Ele não entendia o que todas aquelas plantas fariam para ajudar, mas fazia o que lhe era solicitado em silêncio.
― Vai dar tudo certo. ― Ele ouviu a voz de Davina soar pela cozinha e, em seguida, ela bocejou. Tinha passado grande parte da noite acordada, juntando aqueles ingredientes. Ele parou de mexer a mistura quente no fogão para olhá-la, com uma sobrancelha elevada, perguntando-se o motivo de ela estar consolando-o. ― Você está muito quieto, pensei que fosse por preocupação.
― De certa forma, sim. Mas nunca tinha notado que eu falava tanto ao ponto de meu silêncio ser incômodo. ― Ele respondeu, com um toque brincalhão em seu tom. Não sabia o motivo de estar fazendo piadas, mas era como se a presença dela o tornasse mais otimista. Ela virou-se de costas, com um sorriso pequeno nos lábios e ele desviou o olhar antes que estivesse prestando atenção em algo que o short da bruxa deixava evidente. ― Eu notei que você tem uma tatuagem.
― Você é bem observador, não é? ― Ela respondeu com uma pergunta retórica e só prosseguiu quando ele deu de ombros. ― É um feitiço de proteção forte o suficiente para manter-me segura mesmo longe de minha magia ancestral.
Aquilo aguçou sua curiosidade. Ele desligou o fogo quando olhou no relógio e viu que tinha dado tempo suficiente. Estava prestes a perguntar como que um feitiço funcionava em palavras escritas com tinta, mas sua ideia foi interrompida por seu irmão mais novo. Klaus. Que irradiou na cozinha feito um raio solar, segurando Hope nos braços. Ela ainda estava sonolenta e esticou os bracinhos na direção de Elijah, como se pedisse o conforto dos ombros largos do tio, que a obedeceu instantaneamente.
― Estamos prontos para o feitiço? ― O híbrido perguntou ansiosamente, olhando com cautela para a panela que Elijah cozinhava.
― Quase. Aonde está Hayley? ―Davina perguntou.
― Com o marido, no Bayou. ― Klaus lançou um olhar maldoso para Elijah, como se tentasse fazer alguma piada interna que Davina não compreendeu, já que o Original não esboçou reação nenhuma. ― Ela será necessária? ― Indagou mais sério.
― Não realmente. ― Davina respondeu, caminhando até a panela e contemplando que Elijah era um bom cozinheiro. Estava no ponto perfeito. ― Eu só imaginei que você não gostaria muito de uma das partes do feitiço.― Klaus entortou a cabeça para o lado, como se não estivesse certo se deveria considerar aquilo como um desafio. ― Preciso que você de um banho nela com essa mistura.
Ele baixou os ombros como se estivesse desanimado com a ideia. Aquilo confirmou que algumas das obrigações paternas não agradavam muito o híbrido, mas rapidamente segurou Hope com um dos braços e a panela, pelo cabo, com a outra mão.
― Vamos, amor. Hora do banho. ― Ele sussurrou para a filha, atraindo a atenção total da bruxa. Ela observou alegremente o quão amável Klaus podia ser.
― Surpreendente. ― Ela admitiu quando ele estava longe o suficiente para não ouvi-la. Elijah sorriu em resposta e concordou com um aceno da cabeça. ― Vamos começar.
Ela esticou as mãos na direção do vampiro. Sabia que ele não era bruxo e nada aconteceria, mas se alguém ficasse na sala durante a execução do feitiço aquela ligação era necessária. Ele hesitou no primeiro momento, mas em seguida foi como se ele conseguisse ler os pensamentos de Davina. Elijah segurou firme na não da bruxa, mas ela entrelaçou seus dedos, embaraçosamente.
― Vou ligar minha vida a sua, ok? Isso é necessário, eu prometo. ― Disse ela rapidamente, como se estivesse envergonhada de estar sentindo os dedos de Elijah nos seus. As mãos dele eram grandes, completamente masculinas, largas e quase escondiam a delicadeza da mão dela. Ele assentiu positivamente com a cabeça, olhando fixamente para elas.
Davina sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo. Quase pediu para aumentar a potência do ar condicionado, mas julgou ser só pelo feitiço que acabara de começar. Pelo menos era Elijah quem estava ali e não Klaus ou Hayley. Ela manteve os olhos abertos e bem fixos nos dele enquanto murmurava o final do feitiço de ligação e sentia um formigamento nas mãos, como se aquilo representasse o elo. Só naquele instante notou como os olhos do vampiro eram expressivos e estavam ligeiramente nervosos, ela não soube dizer o porquê.
Começou a proteger a casa contra bruxas, o que era um feitiço difícil de fazer, já que algumas palavras eram invertidas e ditas de trás para frente, mas logo dominou a frase em latim que deveria ser dita e, quando chegou ao final, desfez a ligação entre ela e Elijah. Fora mais rápido e menos traumático do que ela imaginava.
― Funcionou? ― Ele perguntou e, estranhamente os dois continuaram com as mãos entrelaçadas.
― Sim. ― Ela respondeu, momentaneamente hipnotizada por aquele par de olhos castanhos.
― E como isto funcionará?
― Nenhuma bruxa má poderá entrar na casa, nem por espirito. O que afastará Dhalia e o banho em Hope é só para vedar seu corpo. ― Davina falou, balançando a cabeça suavemente, lembrando-se que estava na hora de desviar os olhos e soltarem as mãos. ― Pode me soltar agora.
A expressão de Elijah endureceu, bem como os músculos de seu corpo e ele soltou a mão de Davina lentamente, sentindo o formigamento desaparecer conforme se afastava. Não compreendeu porque segurou as mãos da bruxa por tanto tempo.
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